Inflação de alimentos no Brasil explicada: mudanças climáticas e hegemonia do agronegócio, juntos e misturados

Eu como milhões de brasileiros ando sentindo com desgosto a disparada nos preços dos alimentos. Mas, ao contrário de muitos, não vou culpar apenas me restringir a culpar este ou aquele governante. Prefiro olhar para questões mais amplas e alarmantes em termos da persistência e até agravamento do problema inflacionário.

Uma primeira questão inescapável é que a produção de alimentos está sentindo os efeitos dos extremos que caracterizam o novo padrão climático.  É uma combinação de muita com pouca chuva (inundação versus seca) e ondas de calor que estão mais fortes e persistentes. Com essa situação climática extrema, não há como evitar a perda de safras ou, pelo menos, a diminuição das safras.  

A questão climática é algo que se torna particularmente urgente, pois afeta a produção de comida e atinge a todos, mas mais fortemente os mais pobres. É que oferta menor em face de demanda persistente tende inevitavelmente sempre a gerar preços mais altos. 

Por outro lado, o Brasil deverá passar a sofrer oscilações para cima nos preços dos alimentos essenciais à maioria dos brasileiros porque simplesmente a área que está sendo plantada com commodities de exportação (i.e., soja, milho, cana, algodão) está engolindo áreas em que se plantava até bem pouco tempo feijão e arroz.  Os dados que mostram isso estão disponíveis para quem quiser ver.

Em outras palavras, o avanço do agronegócio de exportação vem causando uma diminuição considerável na área utilizada para o plantio de alimentos. Os barões do agronegócio brasileiro já fizeram sua opção: eles preferem plantar soja para alimentos vacas e porcos na Europa e na China do que plantar o velho e bom feijão para matar a fome dos brasileiros (por exemplo, entre 1976/77 e 2020/21, a área plantada de feijão  no Brasil diminuiu 35%, de 4,9 para 2,9 milhões de hectares).

Desde os anos 2000, o país vem perdendo área de cultivo de alimentos para a produção de commodities para exportação, sobretudo de soja. Silvio Avila/AFP

Para completar essa hegemonia do agronegócio sobre a produção agrícola brasileira, o Brasil não possui hoje os salvadores de outras épocas, os estoques reguladores. Os estoques reguladores de alimentos foram extintos pelo governo de Jair Bolsonaro, o que praticamente eliminou os estoques públicos. Com isso, o agronegócio ficou com as mãos soltas para vender tudo para o exterior, aliviando-se de pagar impostos graças à Lei Kandir.

Agora em meio às pressões oriundas do agravamento da crise climática que afeta áreas produtoras em todo o mundo, o Brasil não possui os estoques que poderiam ser lançados para baixar os preços, como fez recentemente o Japão no caso do arroz quando usou sua reserva estratégica para controlar a carestia desse item tão essencial na culinária japonesa.

O fato inescapável é que a combinação entre o agravamento da crise climática e a persistência da hegemonia do agronegócio deve manter os preços dos alimentos altos, caso não seja retomada imediatamente a política de se criar estoques reguladores.  Mas é aí que a porca torce o rabo: teráo governo Lula a disposição de enfrentar o poder político dos barões?  Entretanto, se nada for feito, já se sabe que a corrida eleitoral de 2026 será um passeio no parque para a extrema-direita, já que eleições no Brasil continuam a ser fortemente afetadas pela quantidade de comida que se pode colocar no carrinho de supermercado.

Na urgência climática, uns alertam, outros aceleram

Por Paulo Silva Junior para o blog da Editora Elefante 

Parece um eterno retorno, e talvez seja, apesar da nossa teimosia em vislumbrar outros futuros possíveis enquanto o mundo grita que seguimos escolhendo o caminho do colapso. “Ainda estou aqui”, diz o petróleo, que segue em alta prometendo arrancar na pista a meses da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, programada pra novembro, em Belém.

É exatamente por ali, que ironia, bem na margem equatorial, que estão cinco bacias em alto-mar, como a Bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá. Há dois anos, o Ibama negou a licença para prospecção marítima no local. O presidente Lula, em entrevista em Macapá em fevereiro, disse que não dá para ficar nessa “lenga-lenga” ecológica.

De um lado, o governo acredita que investir na região seja a principal aposta para repor as reservas brasileiras após o esgotamento do pré-sal, diante de um volume atual que garante manter o ritmo da produção por mais treze anos. É nesse contexto que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, tem reforçado a ideia de pisar no acelerador. Ela pediu para que os fornecedores estejam preparados para esse novo momento do investimento petrolífero do país.

Em oposição à tamanha euforia, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, disse que o Ibama é quem pode definir tecnicamente se há sustentabilidade para um novo empreendimento na Foz do Amazonas. Lula, falando em Belém, entende que a ministra tem seus pontos sobre o método do projeto, mas que é uma pessoa inteligente para entender a necessidade do Brasil. Há quase duas décadas, debate parecido foi travado em tempo de projetos das usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio. Na época, Marina acabou ridicularizada como “ministra dos bagres” por estar, segundo os críticos, atrasando o desenvolvimento de obras em proteção aos peixes. Ela pediu demissão do governo em 2008.

Bom, o petróleo passa o carro, que se tivesse um alto-falante poderia circular aos berros de “drill, baby, drill” na voz de Donald Trump, que não para de repetir esse verbo: perfurar. Rita von Hunty, em seu canal Tempero Drag, lembrou de O decênio decisivo, de Luiz Marques, ao refletir sobre o fato do planeta terra estar saturado da exploração de combustíveis fósseis.

“A gente já está caminhando no decênio decisivo. É agora, são nesses dez anos, ou adeus à vida humana no planeta Terra. São dez anos para que a gente reverta a matriz energética do planeta para matrizes sustentáveis. A gente vai aquecer o planeta em três graus. É o ano da COP30 e a presidente da Petrobras está dizendo que a gente vai pisar no acelerador.”

Na reta final do livro, quando trata de propostas para uma política de sobrevivência, Luiz Marques passa por muitas ideias que atravessam essa discussão sobre a energia e a Amazônia atuais. Por exemplo, a da extensão da ideia de sujeito de direito às demais espécies, à biosfera e às paisagens naturais, ou a própria restauração e ampliação das reservas naturais enquanto santuários inacessíveis aos mercados globais, entre outras.

“Realizar essas rupturas civilizacionais, e no prazo de um decênio, parece evidentemente cada vez mais difícil. A enormidade da tarefa, a resistência material e ideológica dos interesses econômicos, a dificuldade de compreender a gravidade e a aceleração das crises ambientais, a fragmentação dos movimentos sociais, tudo agora joga contra a humanidade. Pouco importa: não se enfrenta um desafio existencial a partir de cálculos de probabilidade”, aponta o autor.

E, por falar em combustíveis, matrizes energéticas e fontes mais ou menos limpas e sustentáveis, é interessante pensar como essas escolhas ao longo da história vão ditando o que se convém a entender como inevitável. Não, não deveria ser impossível imaginar uma vida sem tanto petróleo – alguém definiu em algum momento a importância daquilo para o funcionamento deste tipo de mundo. Em Capital fóssil, Andreas Malm revela como é que tudo mudou quando as indústrias do século XIX na Inglaterra resolveram trocar as rodas d’água por motores a vapor, queimando carvão.

“Ao menos por ora, os cientistas naturais vêm interpretando o aquecimento global como um fenômeno que ocorre na natureza; a questão, no entanto, consiste em rastrear suas origens humanas. Somente assim preservaremos ao menos uma possibilidade hipotética de mudança de curso”, escreve Malm. Lembra alguma coisa sobre a discussão de início, envolvendo governo, a Foz do Amazonas e as vontades aceleradoras do Brasil?


Fonte: Editora Elefante

Vivendo em tempos de “tempo raivoso”: uma saída pela esquerda, por favor

Já mencionei aqui neste espaço o interessantíssimo livro da filósofa e física alemã  Friederike Otto que se apresenta sob o título de “Angry Weather” (ou em portuguê “Tempo Raivoso”) onde somos apresentados à situação que está sendo escrita em letras garrafais pelo sistema climático da Terra.  Para quem vive no estado do Rio de Janeiro como eu, esse “tempo raivoso” está se apresentando sob a forma de temperaturas altíssimas e uma chegada igualmente fenomenal de raios ultra-violeta na parte inferior da atmosfera da Terra. 

Para muitos que estudam ou pelo menos se interessam pela situação climática da Terra, vivemos o que se pode chamar por vários nomes (crise climática, colapso climático) e nenhum deles soa legal.  E nem poderia porque a situação é realmente preocupante, pois como eu gosto de dizer, a temperatura alta é só um sinal de algo muito maior e mais amplo que está ocorrendo no nosso sistema climático, muito em função da continua emissão de gases estufa que resulta primariamente da queima de combustíveis fósseis.

Mas até aqui, diria algo com a minha idade, morreu o Neves. O problema me parece ser o que deve ser feito para que haja o início do necessário processo de adaptação a uma condição climática que não será revertida de um dia para outro, até porque quem está na raiz do problema acha que em vez de tirar o pé do acelerador, temos mais é que pisar fundo no pedal.

Em minha modesta opinião é preciso, e já disse isso antes, incorporar a questão climática na pauta da esquerda, até porque Karl Marx já deixou elementos suficientes em seus trabalhos para que nós pudéssemos enfrentar o que ele via como uma consequência inoxerável do sistema capitalista. Sim, quem der uma leve olhadela em livros de leitores minimamente esclarecidos de Marx (cito aqui para começo de conversa John Bellamy Foster, Kohei Saito e Michel Lowy), vai notar que o filósofo alemão já antecipava o que a volúpia perdulária e irresponsável do Capitalismo e dos capitalistas poderia gerar nos sistemas naturais da Terra. E agora, o que estamos vendo e vivenciando é apenas mais um dos muitos acertos analíticos de Marx.

Solving the climate crisis requires the end of capitalism | Salon.com

Luta climática = luta de classes diz o cartaz

Mas para que a questão climática seja uma pauta de esquerda há que se considerá-la como uma questão de classe, e não qualquer outra coisa que seja. É que se olharmos hoje para quem está carregando o ônus das altas temperaturas são os trabalhadores que são relegados a viver em áreas desprovidas das mínimas condições de serem habitadas, muitas vezes em áreas que deveriam estar condenadas para a ocupação humana. E não é preciso ir longe para verificar o que estou dizendo, baastante percorrer as áreas mais inóspitas das regiões metropolitanas de Rio de Janeiro e São Paulo, apenas para citar as maiores.

Os ultrarricos e ricos não terão que experimentar a crise climático e o colapso social que ela cria, pois estarão protegidos em seus palácios climatizados e que foram construídos dentro de vilas muradas que eles escolheram construir em regiões privilegiadas das cidades. Foram construídos ali porque eles sabem o que estão fazendo com os trabalhadores e os pobres em geral.

Para além da retórica é preciso reconhecer que ao colocar a crise climática como pauta de esquerda exige romper com a lógica do mal menor na política partidária, pois, do contrário, iremos continuar prisioneiros da premissa falaciosa que é preciso continuar explorando reservas de combustíveis fósseis para que tenhamos algum tipo de futuro menos indigno para a maioria da população mundial.  É só olhar a armadilha que nos está sendo posta pela pressão em torno da exploração do petróleo  na foz do Rio Amazonas (oportunisticamente rebatizada como “Margem Equatorial”).

A crise climática torna obsoleta a lógica do mal menor, mas o problema é que a extrema-direita é quem já entendeu isso e está com as mãos no volante da luta de classes.  A saída para a esquerda (e não a “exquerda”) é aceitar que precisamos radicalizar as formas de diálogo com a classe trabalhadora, em vez de ficarmos acocorados enquanto somos aplastados pelas forças que criaram a situação crítica em que estamos postos, seja social ou ambientalmente.  Mas vamos para isso, vamos ter que sair do conforto do ar condicionado e encarar o mesmo sol e as mesmas temperaturas que castigam os trabalhadores neste exato momento.

Crise climática está na raiz dos picos nos preços dos alimentos, e a situação deve piorar em 2025

A tendência para eventos climáticos mais extremos continuará a afetar a produtividade das colheitas e a criar picos de preços, diz Inverto

Chocolate sendo adicionado a xícaras de café. Os preços do cacau e do café subiram 163% e 103%, respectivamente, no ano até janeiro. Fotografia: Luca Bruno/AP 

Por Damien Gayle para  o “The Guardian”

Eventos climáticos extremos devem causar volatilidade nos preços dos alimentos ao longo de 2025, disseram analistas da cadeia de suprimentos, depois que os preços do cacau e do café mais que dobraram no ano passado.

Em uma aparente confirmação dos alertas de que o colapso climático poderia levar à escassez de alimentos, uma pesquisa da consultoria Inverto encontrou aumentos acentuados nos preços de uma série de produtos alimentícios no ano até janeiro, que estavam correlacionados com condições climáticas inesperadas.

Várias autoridades declararam 2024 o ano mais quente já registrado , uma tendência para temperaturas mais altas que parece continuar em 2025. Inverto disse que uma tendência de longo prazo para eventos climáticos mais extremos continuaria a atingir os rendimentos das safras regionais, causando picos de preços.

Os maiores aumentos de preços foram para cacau e café, 163% e 103% respectivamente, devido a uma combinação de chuvas e temperaturas acima da média nas regiões produtoras, de acordo com a pesquisa.

Os preços do óleo de girassol aumentaram 56% depois que a seca causou baixa produtividade das colheitas na Bulgária e Ucrânia, que também continuaram a ser afetadas pela invasão russa. Outras commodities alimentares com aumentos acentuados de preços ano a ano incluíram suco de laranja e manteiga, ambos com alta de mais de um terço, e carne bovina, com alta de pouco mais de um quarto.

“Os fabricantes e varejistas de alimentos devem diversificar suas cadeias de suprimentos e estratégias de fornecimento para reduzir a dependência excessiva de qualquer região afetada por quebras de safra”, disse Katharina Erfort, da Inverto.

Em dezembro, o governo do Reino Unido disse que a crise climática e a inflação dos preços dos alimentos estavam levando a um aumento no número de famílias famintas e desnutridas .

Cientistas do clima disseram que as descobertas de Inverto estavam de acordo com suas expectativas.

“Eventos climáticos extremos ao redor do mundo continuarão a aumentar em gravidade e frequência em linha com o aumento contínuo da temperatura global”, disse Pete Falloon, especialista em segurança alimentar do Met Office e da Universidade de Bristol.

“As colheitas são frequentemente vulneráveis ​​a condições climáticas extremas, e podemos esperar testemunhar choques contínuos na produção agrícola global e nas cadeias de fornecimento, o que acaba alimentando preocupações com a segurança alimentar.”

Max Kotz, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, disse que os dados mostram que os extremos de calor já estão afetando diretamente os preços dos alimentos.

“O ano passado mostrou inúmeros exemplos desse fenômeno acontecendo em tempo real, com o calor extremo no leste da Ásia causando aumentos substanciais no preço do arroz no Japão e dos vegetais na China”, disse ele.

“As commodities de mercado também foram fortemente afetadas, com calor extremo e seca nos países produtores de cacau da África Ocidental e regiões produtoras de café no Brasil e no Vietnã, impulsionando fortes aumentos nos preços. Até que as emissões de gases de efeito estufa sejam realmente reduzidas a zero líquido, os extremos de calor e seca continuarão a se intensificar em todo o mundo, causando maiores problemas para a agricultura e os preços dos alimentos do que aqueles que estamos enfrentando atualmente.”


Crise climática: Temperaturas no pólo norte estão 20°C acima da média e além do ponto de derretimento do gelo

Cientistas dizem que temperaturas amenas incomuns estão relacionadas ao sistema de baixa pressão sobre a Islândia, direcionando um forte fluxo de ar quente em direção ao pólo norte

Cientistas dizem que esperam que o Oceano Ártico perca a cobertura de gelo marinho no verão pela primeira vez nas próximas duas décadas. Fotografia: Jose Luis Stephens/Alamy

Por Ajit Niranjan para o “The Guardian” 

As temperaturas no polo norte subiram mais de 20°C acima da média no domingo, cruzando o limite para o derretimento do gelo.

As temperaturas ao norte de Svalbard, na Noruega, já haviam subido para 18°C ​​mais quentes do que a média de 1991–2020 no sábado, de acordo com modelos de agências meteorológicas na Europa e nos EUA, com temperaturas reais próximas ao ponto de derretimento do gelo de 0°C. No domingo, a anomalia de temperatura havia subido para mais de 20°C.

“Este foi um evento de aquecimento de inverno muito extremo”, disse Mika Rantanen, cientista do Instituto Meteorológico Finlandês. “Provavelmente não o mais extremo já observado, mas ainda no limite superior do que pode acontecer no Ártico .”

A queima de combustíveis fósseis aqueceu o planeta em cerca de 1,3 °C desde os tempos pré-industriais, mas os polos estão esquentando muito mais rápido à medida que o gelo marinho reflexivo derrete. O aumento nas temperaturas médias levou a um aumento nos verões extremamente quentes e invernos perturbadoramente amenos.

Julien Nicolas, cientista do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da UE, disse que as temperaturas anormalmente amenas nas profundezas do inverno polar estavam ligadas a um sistema profundo de baixa pressão sobre a Islândia, que estava direcionando um forte fluxo de ar quente em direção ao polo norte.

Mares extremamente quentes no Atlântico nordeste estão intensificando o aquecimento causado pelo vento, ele acrescentou.

“Esse tipo de evento é relativamente raro, mas não somos capazes de avaliar sua frequência sem uma análise mais aprofundada”, disse Nicolas. “Estamos cientes de que um evento semelhante ocorreu em fevereiro de 2018.”

Os dados do Copernicus mostraram que as temperaturas médias diárias estavam mais de 20°C acima da média perto do polo norte no domingo, com temperaturas absolutas acima de -1°C até 87°N.

As descobertas foram confirmadas por uma bóia de neve do Ártico, que registrou temperaturas absolutas de 0,5 °C no domingo.

Cientistas do clima estimam temperaturas globais por meio da reanálise de bilhões de medições meteorológicas de satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas. Mas em regiões remotas como o Ártico central, onde há menos locais de observação direta, era “difícil estimar a anomalia exata da temperatura”, disse Rantanen.

“Todos os modelos que vi indicam uma anomalia de temperatura acima de 20°C”, ele disse. “Eu diria que 20-30°C é a ordem de magnitude.”

O Ártico aqueceu quase quatro vezes mais rápido que a média global desde 1979, e o calor extremo se tornou mais intenso e comum.

Temperaturas acima do ponto de congelamento são particularmente preocupantes porque derretem o gelo, disse Dirk Notz, um cientista climático da Universidade de Hamburgo. “Não há como negociar com esse fato, e não há como negociar com o fato de que o gelo desaparecerá cada vez mais enquanto as temperaturas continuarem subindo.”

Um estudo coautorado por Notz em 2023 descobriu que o gelo marinho do Ártico no verão seria perdido mesmo com cortes drásticos na poluição que aquece o planeta.

“Esperamos que o Oceano Ártico perca sua cobertura de gelo marinho no verão pela primeira vez nas próximas duas décadas”, disse Notz. “Esta provavelmente será a primeira paisagem que desaparecerá por causa das atividades humanas, indicando mais uma vez o quão poderosos nós, humanos, nos tornamos em moldar a face do nosso planeta.”


Fonte: The Guardian

A polêmica do PIX foi muito útil para esconder a crise climática que se abateu sobre o Brasil

Ruas da cidade de Florianópolis (SC) foram inundadas após chuvas intensas

Toda a polêmica desatada pela decisão do governo federal de apertar minimamente o monitoramento das transações via PIX foi muito útil em vários sentidos. Um deles que creio ser merecedora de atenção foi que todas as milhões de visualizações de vídeos contendo fake news sobre a portaria do PIX caíram com um lençol de silêncio sobre a manifestação da crise climática em diferentes partes do território brasileiro.

Enquanto o governo Lula se enrolava para explicar o que nem precisaria ser explicado, pelo menos 4 estados brasileiros sofreram com eventos meteorológicos extremos: Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses 4 estados o rastro de destruição causado por chuvas particularmente intensas deveria ter soado o alarme climático, mas até agora a repercussão tem sido inexplicavelmente abaixo daquilo que ocorreu em torno dos vídeos do PIX.

O fato é que está se tornando cada vez mais evidente que vivemos o princípio de um processo de intensificação de eventos meterológicos extremos, e que está pegando a maioria das cidades brasileiras totalmente despreparadas para fazer frente a essa situação extrema. De quebra, o fato de que inexiste qualquer esforço para reservar recursos orçamentários para dar conta de todos os problemas que estão se desenvolvendo torna a situação ainda mais complexa.

E o exemplo ruim vem de cima. Há que se lembrar que mesmo confrontado com evidências de que a crise climática está se agraando, o governo Lula decidiu reduzir em R$ 200 milhões o orçamento voltado para gerenciar e reduzir riscos de desastres ambientais. A verba reservada para o programa voltado a essas medidas prevê o repasse de R$ 1,7 bilhão em 2025, contra R$ 1,9 bilhão em 2024.  É o ajuste fiscal falando mais alto do que a necessidade de responder aos efeitos trazidos por grandes eventos meteorológicos.

Mas a realide nos estados e municípios não é nada diferente, o que causa um grau altíssimo de despreparo para fazer frente aos danos catastróficos trazidos pelos eventos extremos. Ao assistir cenas do que ocorreu nos últimos dias nas áreas mais atingidas, fica evidente o despreparo das estruturas governamentais para responder de forma eficiente ao avanço das águas. 

E quando a coisa se refere ao processo de adaptação climática, a coisa vai na mesma direção, pois o país do PIX continua ignorando a necessidade de que sejam tomadas decisões estruturais e estruturantes para responder ao agravamento dos problemas climáticos.  E com isso, a tendência de que passemos a ver cenários cada vez mais dramáticos.

Que ninguém se engane: a crise climática está aqui para ficar e vai se agravar.  Assim, urge dar a devida importância política às demandas por adaptação, especialmente para os segmentos mais pobres da população que são as vítimas preferenciais da inação governamental também na área climática.

O ano mais quente já registrado levou o planeta a ultrapassar 1,5 °C de aquecimento pela primeira vez

As temperaturas mais altas registadas impulsionaram o clima extremo – com o pior a chegar, mostram dados da Uniao Europeia (UE)

aquecimentoA pessoa média foi exposta em 2024 a seis semanas extras de dias perigosamente quentes. Fotografia: Brook Mitchell/Getty Images

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O colapso climático elevou a temperatura global anual acima da meta internacionalmente acordada de 1,5 °C pela primeira vez no ano passado, potencializando condições climáticas extremas e causando “miséria a milhões de pessoas”.

A temperatura média em 2024 foi 1,6°C acima dos níveis pré-industriais, mostram dados do Copernicus Climate Change Service (C3S) da UE . Isso é um salto de 0,1°C em relação a 2023, que também foi um ano recorde de calor e representa níveis de calor nunca experimentados por humanos modernos.

O aquecimento é causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, e os danos a vidas e meios de subsistência continuarão a aumentar em todo o mundo até que o carvão, o petróleo e o gás sejam substituídos. A meta do acordo de Paris de 1,5 °C é medida ao longo de uma ou duas décadas, então um único ano acima desse nível não significa que a meta foi perdida, mas mostra que a emergência climática continua a se intensificar. Cada ano na última década foi um dos 10 mais quentes, em registros que remontam a 1850.

Os dados do C3S também mostram que um recorde de 44% do planeta foi afetado por estresse térmico forte a extremo em 10 de julho de 2024, e que o dia mais quente registrado na história ocorreu em 22 de julho.

“Agora há uma probabilidade extremamente alta de que ultrapassaremos a média de longo prazo de 1,5 °C no limite do acordo de Paris ”, disse a Dra. Samantha Burgess, vice-diretora da C3S. “Essas altas temperaturas globais, juntamente com os níveis recordes de vapor de água na atmosfera global em 2024, significaram ondas de calor sem precedentes e eventos de chuvas intensas, causando miséria para milhões de pessoas.”

A Dra. Friederike Otto, do Imperial College London, disse: “Este registro precisa ser uma verificação da realidade. Um ano de clima extremo mostrou o quão perigosa é a vida a 1,5 °C. As enchentes de Valência , os furacões nos EUA , os tufões nas Filipinas a seca na Amazônia são apenas quatro desastres do ano passado que foram agravados pelas mudanças climáticas. Há muitos, muitos mais.”

2024 confirmado como o ano mais quente já registrado
Temperatura média global em relação a uma linha de base pré-industrial, C

tempeaturas

“O mundo não precisa inventar uma solução mágica para impedir que as coisas piorem em 2025”, disse Otto. “Sabemos exatamente o que precisamos fazer para deixar de usar combustíveis fósseis, interromper o desmatamento e tornar as sociedades mais resilientes.”

Espera -se que as emissões de carbono em 2024 tenham estabelecido um novo recorde , o que significa que ainda não há sinal da transição para longe dos combustíveis fósseis prometida pelas nações do mundo na conferência climática da ONU em Dubai em dezembro de 2023. O mundo está a caminho de um aquecimento global catastrófico de 2,7 °C até o final do século.

A próxima grande oportunidade para ação vem em fevereiro, quando os países têm que enviar novas promessas de corte de emissões para a ONU. A probabilidade de se manter abaixo do limite de 1,5 °C, mesmo a longo prazo, parece cada vez mais remota . As emissões de combustíveis fósseis devem cair 45% até 2030 para ter uma chance de limitar o aquecimento a 1,5 °C. Várias outras análises importantes de temperatura devem ser publicadas na sexta-feira e encontrar níveis semelhantes de calor, incluindo o UK Met Office, que também descobriu que 2024 havia passado de 1,5 °C em 2024.

As temperaturas foram impulsionadas no primeiro semestre de 2024 pelo fenômeno climático natural El Niño , mas permaneceram muito altas no segundo semestre do ano, mesmo quando o El Niño se dissipou. Alguns cientistas temem que um fator inesperado tenha surgido, causando uma aceleração preocupante do aquecimento global, embora uma variação natural incomum de ano para ano também possa ser a razão.

Uma queda na poluição causada pelo transporte marítimo e nas nuvens baixas , que refletem a luz solar, contribuíram para um aquecimento extra, mas os cientistas ainda estão buscando uma explicação completa para as temperaturas extremas em 2024.

O ar mais quente retém mais vapor de água e o nível recorde registrado pelo C3S em 2024 é significativo, pois aumenta eventos extremos de chuva e inundações. Ele também se combina com altas temperaturas da superfície do mar, que alimentam grandes tempestades, para alimentar furacões e tufões devastadores. A pessoa média foi exposta no ano passado a mais seis semanas de dias perigosamente quentes , intensificando o impacto fatal das ondas de calor ao redor do mundo.

A sobrecarga de condições climáticas extremas causada pela crise climática já era clara, com ondas de calor de intensidade e frequência antes impossíveis agora atingindo o mundo todo, juntamente com secas e incêndios florestais mais violentos.

O Prof. Joeri Rogelj, do Imperial College London, disse: “Cada fração de grau – seja 1,4C, 1,5C ou 1,6C – traz mais danos às pessoas e aos ecossistemas, ressaltando a necessidade contínua de cortes ambiciosos de emissões. O custo da energia solar e eólica está caindo rapidamente e agora é mais barato do que os combustíveis fósseis em muitos países.”

O Prof. Andrew Dessler, um cientista climático da Texas A&M University nos EUA, respondeu aos novos recordes de temperatura sendo estabelecidos ano após ano, fornecendo a mesma declaração à mídia: “Todo ano, pelo resto da sua vida, será um dos mais quentes [já] registrados. Isso, por sua vez, significa que 2024 acabará sendo um dos anos mais frios deste século. Aproveite enquanto dura.”


Fonte: The Guardian

Crise climática está ‘causando caos’ no ciclo da água da Terra, mostra relatório

O aquecimento global está turbinando tempestades, inundações e secas, afetando ecossistemas inteiros e bilhões de pessoas

Enorme leito de rio seco com três pessoas caminhando

A seca obrigou os moradores a transportar água potável de Humaitá para a comunidade de Paraizinho ao longo do seco Rio Madeira, um tributário do Amazonas. Fotografia: Edmar Barros/AP

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

A crise climática está “causando estragos” no ciclo hídrico do planeta, com inundações violentas e secas devastadoras afetando bilhões de pessoas, segundo um relatório.

A água é o recurso natural mais vital para as pessoas, mas o aquecimento global está mudando a maneira como a água se move pela Terra. A análise dos desastres hídricos em 2024, que foi o ano mais quente já registrado , descobriu que eles mataram pelo menos 8.700 pessoas, tiraram 40 milhões de suas casas e causaram danos econômicos de mais de US$ 550 bilhões (£ 445 bilhões).

O aumento das temperaturas, causado pela queima contínua de combustíveis fósseis, interrompe o ciclo da água de várias maneiras. O ar mais quente pode reter mais vapor de água, levando a chuvas mais intensas. Mares mais quentes fornecem mais energia para furacões e tufões, sobrecarregando seu poder destrutivo. O aquecimento global também pode aumentar a seca, causando mais evaporação do solo, bem como alterando os padrões de precipitação.

Enchentes repentinas mortais atingiram o Nepal e o Brasil em 2024, enquanto inundações de rios causaram devastação na Europa Central , China e Bangladesh . O supertufão Yagi , que atingiu o sudeste da Ásia em setembro, foi intensificado pela crise climática, assim como a tempestade Boris , que atingiu a Europa no mesmo mês.

As secas também causaram grandes danos, com a produção agrícola no sul da África caindo pela metade, fazendo com que mais de 30 milhões de pessoas enfrentassem escassez de alimentos. Os fazendeiros também foram forçados a abater o gado, pois suas pastagens secaram, e a queda na produção de represas hidrelétricas levou a apagões generalizados.

“Em 2024, a Terra experimentou seu ano mais quente já registrado e os sistemas hídricos em todo o mundo foram os mais afetados, causando estragos no ciclo da água”, disse o líder do relatório, Prof. Albert van Dijk.

Ele disse que 2024 foi um ano de extremos, mas que não foi uma ocorrência isolada. “É parte de uma tendência de piora de inundações mais intensas, secas prolongadas e extremos recordes.” O relatório alertou sobre perigos ainda maiores em 2025, à medida que as emissões de carbono continuaram a aumentar .

O Relatório Global Water Monitor de 2024 foi produzido por uma equipe internacional de pesquisadores de universidades na Austrália, Arábia Saudita, China, Alemanha e outros lugares. A equipe usou dados de milhares de estações terrestres e satélites orbitando a Terra para avaliar variáveis ​​críticas da água, como precipitação, umidade do solo, fluxos de rios e inundações.

Eles descobriram que recordes de precipitação estão sendo quebrados com regularidade crescente. Por exemplo, recordes de precipitação mensal foram estabelecidos 27% mais frequentemente em 2024 do que no ano 2000 e recordes diários de precipitação foram estabelecidos 52% mais frequentemente. Recordes de baixa precipitação foram estabelecidos 38% mais frequentemente. “Então estamos vendo extremos piores em ambos os lados”, disse Van Dijk.

No sul da China, de maio a julho, os rios Yangtze e Pearl inundaram cidades e vilas, deslocando dezenas de milhares de pessoas e causando centenas de milhões de dólares em danos às plantações. As inundações do rio em Bangladesh em agosto, após fortes chuvas de monções, afetaram quase 6 milhões de pessoas e destruíram pelo menos um milhão de toneladas de arroz.

Enquanto isso, na Espanha, em outubro, mais de 500 mm de chuva caíram em oito horas, causando inundações repentinas mortais. A cidade de Porto Alegre, no Brasil, foi inundada com dois meses de chuva em apenas três dias em maio, transformando estradas em rios.

“Eventos de chuvas intensas também causaram inundações repentinas generalizadas no Afeganistão e no Paquistão, matando mais de 1.000 pessoas”, disse Van Dijk. As inundações também desalojaram 1,5 milhão de pessoas.

Na Amazônia, a seca atingiu. “Incêndios florestais causados ​​pelo clima quente e seco queimaram mais de 52.000 km² somente em setembro, liberando vastas quantidades de gases de efeito estufa”, disse Van Dijk. “De secas históricas a inundações catastróficas, esses eventos extremos impactam vidas, meios de subsistência e ecossistemas inteiros.”

Os pesquisadores disseram que as previsões climáticas sazonais para 2025 e as condições atuais sugeriram que as secas podem piorar no norte da América do Sul, sul da África e partes da Ásia. Regiões mais úmidas, como o Sahel e a Europa, podem enfrentar riscos elevados de inundações.

“Precisamos nos preparar e nos adaptar a eventos extremos inevitavelmente mais severos”, disse Van Dijk. “Isso pode significar defesas mais fortes contra inundações, desenvolvimento de produção de alimentos e suprimentos de água mais resistentes à seca e melhores sistemas de alerta precoce. A água é nosso recurso mais crítico, e seus extremos – tanto inundações quanto secas – estão entre as maiores ameaças que enfrentamos.”


Fonte: The Guardian

BR-319: Estamos na estrada para lugar nenhum…

Luiz Inácio Lula da Silva, 2021. Casa de América / Creative Commons 2.0

Por Mônica Piccinini para o “The Ecologist”

BR-319: Uma rodovia para o caos climático no coração da Amazônia.

O governo brasileiro está enviando uma mensagem poderosa sobre seu compromisso com a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável enquanto o Brasil se prepara para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2025, a COP30.

Central para esta mensagem é a proteção da floresta amazônica, vital para o equilíbrio ecológico do planeta. No entanto, um projeto controverso paira sobre essas declarações: a planejada rodovia BR-319 da Amazônia , uma proposta que desencadeou intenso debate sobre seu potencial de perturbar um dos ecossistemas mais críticos da Terra.

A reconstrução da rodovia BR-319, no Amazonas, que liga Manaus, capital do Amazonas, a Porto Velho, no extremo sul da floresta, cortando um dos blocos mais preservados da floresta tropical, pode desencadear uma reação em cadeia de crise climática com impactos severos e irreversíveis na Amazônia, no Brasil e em todo o planeta.

Ambição

Embora o governo brasileiro promova o projeto da BR-319 como essencial para o desenvolvimento econômico regional, ele representa uma das ameaças mais significativas à sobrevivência da Amazônia. 

Este projeto coloca em risco pelo menos metade da floresta tropical remanescente do Brasil, colocando 69 comunidades indígenas , 64 territórios indígenas e mais de 18.000 povos indígenas.

Durante uma visita ao Amazonas em setembro, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, demonstrou seu comprometimento e total apoio à reconstrução da rodovia BR-319 ao dizer : “essa estrada agora começará a ser construída”. Ele acrescentou : “A BR-319 é ​​uma necessidade para o estado do Amazonas, é uma necessidade para Roraima e uma necessidade para o Brasil”. 

Mas a ambição de Lula de liderar a agenda climática parece entrar em conflito com suas próprias políticas e ações . 

Reconstruir

Philip Fearnside, pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e ganhador do prêmio Nobel da Paz, disse: “Em Manaus, todos os políticos apoiam a reconstrução da rodovia BR-319, com a condição de que o governo federal e, por extensão, os 99% dos contribuintes que vivem fora de Manaus, paguem a conta. 

Enfrentaremos severas escassez de água em regiões densamente povoadas, levando à morte das populações mais vulneráveis, interrupções industriais e impactos devastadores na agricultura, tornando essas áreas inabitáveis. 

“Após mais de duas décadas de desinformação consistente sobre o projeto, quase toda a população local agora o apoia, e questionar a iniciativa seria suicídio político para qualquer candidato.

“Repavimentar a rodovia BR-319 ligaria a relativamente intocada Amazônia central à região da AMACRO – um hotspot de desmatamento nomeado em homenagem aos estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Embora a AMACRO seja promovida como uma zona de desenvolvimento sustentável (ZDS), ela se tornou um grande impulsionador do desmatamento na floresta amazônica”, ele acrescentou.

A BR-319, uma rodovia de 885 km, foi inaugurada em 1976 durante a ditadura militar do Brasil, mas foi abandonada em 1988. Em 2015, sob o governo de Dilma Rousseff, um programa de manutenção foi lançado para reviver a rodovia. Desde então, vários governos fizeram várias tentativas de reconstruir uma seção de 406 km da rodovia.

Sobreviver

O efeito espinha de peixe é resultado da abertura de ramais ilegais em ambos os lados da rodovia BR-319, criados por grileiros . Esse fenômeno já se desenrola ao redor da rodovia, com mais de 6.000 km de extensões ilegais, o que é mais de seis vezes a extensão da BR-319. 

Além disso, as estradas propostas ao longo da BR-319, como aAM-366 , dariam aos desmatadores acesso a uma vasta área de floresta tropical na região Trans-Purus, a oeste da BR-319.

A reconstrução da rodovia BR-319 pode levar a consequências catastróficas e irreversíveis , incluindo desmatamento generalizado, perda de biodiversidade e degradação ambiental. 

Também pode alimentar um aumento em atividades ilícitas, como crime organizado, extração ilegal de madeira, mineração e invasão de terras indígenas . Além disso, o risco de saltos zoonóticos e o surgimento de novas pandemias podem aumentar. 

Esses impactos podem levar a floresta tropical além de sua capacidade de sobrevivência, fazendo com que ela pare de funcionar como sumidouro de carbono e interrompendo seu papel como regulador climático regional e global.

Interrupções

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), discutiu o papel crítico dos rios voadores na regulação do clima.

Ele disse: “Nesta região florestal, ocorre um serviço ecossistêmico ambiental crucial, conhecido como rios voadores, que desempenha um papel crucial na regulação do clima do Brasil. A umidade do Oceano Atlântico é levada para o continente pela região Norte, onde entra na Amazônia. 

“A evapotranspiração da floresta preservada gera sistemas de alta pressão que produzem chuvas, que então viajam para o sul, fornecendo água para as regiões sudeste, centro-oeste e sul do Brasil. 

“Por exemplo, 70 por cento da precipitação que abastece o sistema Cantareira – responsável por fornecer água para São Paulo, a área mais densamente povoada da América do Sul – se origina dessa região florestal. No entanto, o desmatamento ao longo da BR-319 representa uma séria ameaça a esses rios voadores, e a destruição contínua pode levar a consequências devastadoras para todo o país.”

Ferrante continuou: “Enfrentaremos severas escassez de água em regiões densamente povoadas, levando à morte das populações mais vulneráveis, interrupções industriais e impactos devastadores na agricultura, tornando essas áreas inabitáveis. 

Extrair

“Essencialmente, o colapso dos rios voadores desencadeará o colapso dos setores econômicos do país, podendo causar perdas anuais de até US$ 500 bilhões (R$ 3 trilhões).” 

Um levantamento do Monitor de Incêndios do MapBiomas revela que de janeiro a setembro deste ano, o Brasil viu 22,38 milhões de hectares queimarem, marcando um aumento de 13,4 milhões de hectares em relação a 2023. Isso representa um aumento de 150% em relação ao ano anterior. Mais da metade da área queimada (51%, ou 11,3 milhões de hectares) ocorreu na Amazônia.

Comentando sobre os incêndios na Amazônia e em todo o Brasil, Ferrante declarou: “É crucial reconhecer que o Brasil superou suas metas de emissões de gases de efeito estufa, com os maiores níveis originados na Amazônia devido aos incêndios generalizados no bioma.”

Espera-se que os incêndios e a seca na Amazônia piorem devido às mudanças climáticas e outros fatores, incluindo a expansão desenfreada do agronegócio, especialmente a pecuária, a mineração legal e ilegal, a exploração madeireira e a produção de biocombustíveis em larga escala – especialmente com o recente aumento do mandato de biocombustíveis anunciado por Lula 

Isso é ainda mais intensificado pelo esforço de Lula para extrair “até a última gota” de petróleo. A rodovia BR-319 desempenha um papel central na facilitação desses desenvolvimentos na região.

Surto

A floresta amazônica é reconhecida como um dos maiores reservatórios de doenças zoonóticas. Cientistas alertam consistentemente que a reconstrução da rodovia BR-319, em conjunto com as mudanças climáticas, acelerará a degradação florestal causada pela expansão do agronegócio, mineração, exploração de petróleo e gás, atividades ilícitas e projetos de infraestrutura. 

Isso levaria ao aumento da mobilidade humana e da urbanização, aumentando o risco de contágios zoonóticos — doenças armazenadas na floresta que podem passar para os humanos, o que poderia desencadear uma pandemia global ou uma série delas.

O desmatamento ao longo da BR-319 já resultou em um aumento de 400% nos casos de malária na região, destacando os potenciais danos ambientais causados ​​por este projeto e seu papel no surgimento de uma nova pandemia global .

Um artigo na Nature relatou que a Amazônia ocidental brasileira está enfrentando seu maior surto confirmado do vírus Oropouche (OROV), com mais de 6.300 casos registrados entre 2022 e 2024. 

Fúngico

Pesquisadores identificaram uma nova variante genética do vírus e destacaram paisagens florestais fragmentadas e perda de vegetação causada pelo desmatamento e expansão de atividades agrícolas como fatores significativos que impulsionam sua transmissão. 

A maioria dos casos positivos de OROV em 2022–2023 se concentrou na região AMACRO, um ponto crítico de desmatamento.

Fearnside explicou: “O desmatamento na floresta amazônica e em outras regiões tropicais aumenta o risco de surgimento de novas doenças humanas ao aumentar o contato entre a vida selvagem da floresta tropical e a população humana e seus animais domésticos.

“Também contribui para as mudanças climáticas, que podem criar condições que favorecem o surgimento de infecções parasitárias, fúngicas, virais e bacterianas.” 

Terras-devolutas

A rodovia BR-319 atenderá a uma gama cada vez maior de indústrias nacionais e internacionais, especialmente aquelas focadas nos lucros significativos que uma “bioeconomia” pode gerar.

Além disso, desempenhará um papel crucial na facilitação da exploração de petróleo e gás na região, incluindo as operações da Petrobras ao longo da margem equatorial, um projeto que tem total apoio de Lula .

A empresa russa de petróleo e gás Rosneft também se beneficiará do projeto BR-319, pois detém direitos de perfuração em 14 blocos de petróleo e gás situados a oeste da rodovia, a cerca de 35 km do Rio Purus, dentro da Bacia Sedimentar do Solimões . Essa área intocada é maior que o estado da Califórnia.

Outros setores também ganhariam com o projeto da BR-319, como a expansão do agronegócio, a pecuária , a mineração legal e ilegal, a exploração madeireira e o crime organizado.

Ferrante detalhou como a BR-319 está facilitando a expansão do agronegócio, da pecuária e da mineração: “A BR-319 está acelerando o crescimento do agronegócio na região, especialmente em terras devolutas”. 

Navegável

“Produtores de soja do Mato Grosso do Sul estão migrando para Rondônia, comprando terras de pecuaristas que, por sua vez, estão se mudando para o sul do Amazonas, dentro do corredor da BR-319. Essas terras são frequentemente ocupadas ilegalmente, seja por meio de grilagem, desmatamento ilegal ou despejo violento de comunidades tradicionais.

“Desde 2023, Manaus tem experimentado um aumento nos níveis de fumaça durante a estação seca, principalmente devido aos incêndios florestais que se espalham ao longo das seções recém-pavimentadas da BR-319, onde a pecuária está se expandindo rapidamente. A presença de asfalto acelera o desmatamento, e os incêndios são comumente usados ​​para limpar terras para pastagens.”

Ele acrescentou: “Além disso, há uma conexão bem documentada entre grileiros e crime organizado ao longo da BR-319. Grupos criminosos confiscam terras, expulsando proprietários legítimos e comunidades tradicionais, e frequentemente usam os lucros para forçar essas comunidades deslocadas a trabalhar em operações ilegais de mineração.”

Apoiadores do projeto da BR-319, incluindo políticos, empresas e indivíduos, apresentaram diversas justificativas para a reconstrução da rodovia, citando a seca atual na região. 

No entanto, Ferrante ressalta que, apesar da seca, o Rio Madeira continua navegável. Além disso, a BR-319 não se conecta a nenhum dos municípios impactados pela seca, pois eles estão localizados do outro lado do Rio Negro.

Agarrando

O Rio Madeira é há muito tempo a principal rota de transporte na região, correndo paralelo à rodovia BR-319 e oferecendo um meio mais seguro, limpo e econômico de transportar mercadorias.

Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama, órgão ambiental brasileiro, disse ao AmazoniaReal em 14 de novembro que, sem uma boa governança, o projeto da BR-319 pode se tornar uma “grande frente de desmatamento”. Ele ainda observou que aqueles que constroem uma estrada não assumem a responsabilidade de administrar a área ao redor, o que continua sendo uma questão altamente controversa.

O governo brasileiro continua a defender a governança ao longo da BR-319, com apoio de algumas ONGs apoiadas por uma organização filantrópica internacional . Esses grupos, no entanto, se recusam a se opor ao projeto da BR-319. 

Enquanto isso, membros da Polícia Federal e do Exército brasileiros deixaram claro que qualquer cenário futuro de governança é irrealista , pois os órgãos de fiscalização não teriam os recursos necessários para monitorar a área devido ao seu vasto tamanho, complexidade e perigo.

O crime organizado já controla a grilagem de terras e a mineração na região, o que tem tido um impacto devastador nas comunidades tradicionais.

Unânime

Quem se beneficia do projeto BR-319? Os principais beneficiários são aqueles que financiam atividades ilícitas, como mineração ilegal e crime organizado, bem como a expansão do agronegócio, produção de biocombustíveis em larga escala, pecuária, exploração de petróleo e gás e o desenvolvimento de uma “bioeconomia”. 

Esses empreendimentos altamente lucrativos são financiados por partes interessadas nacionais e internacionais.

“O estudo de impacto ambiental (EIA) de 2009 indicou que os líderes empresariais não viam este projeto como uma prioridade para o centro industrial de Manaus”, disse Fearnside.

“Nos anos seguintes, o apoio político unânime ao projeto naturalmente levou os empresários a adotarem a mesma posição, dada sua dependência de apoio político.

Ecossistemas

“No entanto, estudos acadêmicos avaliando a viabilidade do projeto descobriram que ele é economicamente injustificável. Notavelmente, ele continua sendo o único grande projeto no Brasil sem um estudo oficial de viabilidade econômica (EVTEA), o que dificilmente é uma coincidência.” 

A reconstrução da rodovia BR-319 não conta com o estudo de viabilidade econômica (EVTEA) exigido pela Lei 5917/1973 e não realizou consultas cruciais com as comunidades indígenas, conforme estipulado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Lei Brasileira 10.088/2019 , tornando o projeto da BR-319 inconstitucional.

Após a apresentação de Ferrante no Ministério do Meio Ambiente em 29 de outubro destacando os impactos negativos do projeto BR-319, ele está pedindo a suspensão de todas as licenças e licitações até que sejam realizadas consultas com todas as comunidades indígenas afetadas. 

Além disso, ele pede a suspensão da licença de manutenção de toda a rodovia devido aos danos ambientais significativos já causados ​​pelo departamento nacional de infraestrutura de transportes (DNIT) aos ecossistemas, córregos e comunidades tradicionais. Ele ainda solicita a remoção dos ramais ilegais e a desapropriação de todas as áreas ocupadas ao longo da rodovia BR-319 desde 2008.

Eta autora 

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Em tempos de monstros: conferência organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo debate a crise global e a ascensão da extrema direita

296367Ao contrário do monstro da Marvel “Hulk”, o capitalismo verde não está exatamente repleto de poder. A conferência »Compreendendo os Monstros. Fascitização, capitalismo verde e socialismo” no dia 16 de Novembro em Berlim tratou, entre outras coisas, da crise do neoliberalismo progressista. Foto: imago/Pond5 Images

Por Raul Zelik para o “Neues Deutschland” 

Algumas pessoas na plateia já devem ter ouvido que a famosa metáfora da fascitização como um “tempo de monstros” não veio do filósofo italiano Antonio Gramsci, mas foi posta em circulação pelo esloveno Slavoj Žižek. A conclusão mais importante no início da conferência organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo no fim da semana passada em Berlim foi que o debate sobre o fascismo  é conduzido de forma um pouco diferente na esquerda internacional do que na Alemanha. Enquanto na Alemanha é enfatizado o perigo de uma ruptura autoritária com o Estado de direito e as instituições, as contribuições internacionais enfatizaram a continuidade entre o capitalismo liberal e autoritário.

A filósofa norte-americana Nancy Fraser, por exemplo, que deu a nota chave no evento de abertura, fez um grande esforço para analisar a vitória eleitoral de Donald Trump não como uma superação, mas como uma radicalização das condições existentes. De acordo com Fraser, o trumpismo tem sido até agora um “interregno”, ou seja, um período provisório com um resultado aberto. O “neoliberalismo progressista”, tal como representado pelos presidentes Clinton, Obama e Biden e que se expressou na combinação de uma política económica extremamente favorável ao capital com uma política de reconhecimento (não material) das mulheres e dos negros, finalmente acabou. “Uma reconsolidação deste bloco hegemónico” é improvável, continua o filósofo. Ao mesmo tempo, também não está claro se Trump será capaz de estabelecer um novo bloco viável.

Referindo-se ao seu último livro, Fraser falou neste sentido de uma “canibalização contínua” do sistema e de uma perda contínua de legitimidade do regime. A socialista feminista Fraser usa a “canibalização” para descrever a tendência do sistema, que é particularmente pronunciada no neoliberalismo, para destruir os seus fundamentos ecológicos e sociais.

O problema para Trump, que até derrotou Kamala Harris nos setores não-brancos da classe trabalhadora, é que dificilmente conseguirá cumprir as suas promessas centrais. A esperada reativação das indústrias transformadoras nos EUA é pouco provável, e é possível que a inflação se acelere como resultado do aumento das tarifas e da luta contra a imigração. O sucesso do bloco extremista de direita a longo prazo depende, portanto, de a esquerda conseguir mostrar uma alternativa. O movimento neo-social-democrata do senador independente Bernie Sanders estabeleceu uma dinâmica interessante em 2016, mas para o agora com 83 anos não há “nenhum sucessor credível à vista”.

A economista Clara Mattei, que já trabalhou na New School de Nova York e será chefe do recém-fundado “Center for Heterodox Economics” da Universidade de Oklahoma em Tulsa a partir de 2025, também viu mais continuidade do que ruptura no que diz respeito à eleição de Donald Trump, embora ela tenha enfatizado que os aspectos internacionais se tornam mais proeminentes. Tal como muitos esquerdistas norte-americanos, a economista nascida em Itália considera as ações de Israel em Gaza uma expressão da fascistização do campo ocidental, e falou na conferência sobre a “barbárie genocida”. Quando crianças são deliberadamente caçadas e assassinadas por drones, como descreveu o cirurgião Nizam Mamode no Parlamento Britânico após a sua operação em Gaza, isto é uma expressão de uma radicalização do domínio burguês – pelo qual o governo de Joseph Biden é responsável.

Na sua palestra, que foi mais mobilizadora politicamente do que académica e promoveu um novo movimento anti-guerra, Mattei identificou as políticas de austeridade como uma característica econômica desta radicalização. Isto deve finalmente ser entendido como uma estratégia política. Segundo Mattei, se 79% dos cidadãos norte-americanos não têm reservas para doenças e têm de passar de salário em salário, isso contribui para a manutenção das relações de classe existentes. Da mesma forma, a inflação e a política de taxas de juro elevadas também devem ser discutidas como ferramentas políticas, ou seja, disciplinares. Neste sentido, o autoritarismo temido sob Donald Trump é apenas mais um passo para manter as classes mais baixas sob controle e reduzir os custos laborais.

A economista ítalo-americana Clara Mattei promoveu um movimento internacional anti-guerra. A britânica Grace Blakeley apelou a que a questão da distribuição fosse colocada no centro do debate político.

Após este início bastante combativo, foram realizadas análises individuais concretas num total de doze oficinas e painéis. Entre outros, os cientistas políticos Birgit Mahnkopf (ver entrevista aqui) e Mario Candeias discutiram o fracasso iminente do capitalismo verde, o autor britânico Richard Seymour e Birgit Sauer da Universidade de Viena discutiram pontos de viragem do desenvolvimento autoritário, o sociólogo ucraniano Volodymyr Ishchenko com a editora da proclamação Jenny Simon sobre ordem mundial e crises múltiplas. Outros grupos de trabalho que aconteceram paralelamente também discutiram os efeitos da inteligência artificial na produção e reprodução, estratégias de transformação na indústria e a relação entre o antirracismo e as lutas de classes. No workshop sobre “desglobalização”, Radhika Desai da Índia opinou sobre a política da China , o que foi um pouco perturbador dada a repressão no país do Leste Asiático, mas deu uma impressão realista de como está acontecendo o confronto geopolítico no sul global. 

Como diagnóstico da época, estas contribuições foram bastante esclarecedoras. Mas foi notório que as contra-estratégias só foram discutidas de passagem. Isto também ficou evidente no painel final intitulado “Do Horror à Esperança”. Embora a falta de um sistema alternativo de esquerda tenha sido anteriormente descrita em vários workshops como um pré-requisito central para o sucesso eleitoral da direita, a nova líder do Partido de Esquerda, Ines Schwerdtner, argumentou no painel final que o partido deveria concentrar-se inteiramente na defesa do Estado de bem-estar social na campanha eleitoral. Schwerdtner deixou sem resposta como ignorar os principais motores da crise – a desigualdade global, a crise ecológica e a guerra – e renunciar à própria narrativa alternativa deveria criar esperança. É de recear que, por medo do conflito, o “Die Link” continue a irradiar a indecisão que a caracterizou nos últimos anos.

A aparição da economista britânica Grace Blakeley, que ajudou a construir o movimento dinâmico do ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn há uma década, foi muito mais emocionante. Blakeley foi a primeira a estabelecer detalhadamente a conexão entre as crises ecológica e social. Tendo em conta os fenômenos climáticos extremos e a escassez de recursos, as dificuldades materiais irão piorar a nível mundial. Contudo, em tempos de declínio da prosperidade, as questões de distribuição tornar-se-iam mais importantes. A direita compreendeu isto e está, portanto, a colocar questões como a imigração ou o apoio supostamente demasiado elevado aos desempregados no centro da sua política, diz Blakeley. A esquerda deve, portanto, abordar a questão da redistribuição.

Contudo, poder-se-ia argumentar ainda que isto só terá sucesso se a esquerda avançar. O único contraprojecto credível contra a fascistização é uma política que promova a redistribuição e a solidariedade global. Em tempos de relações de classe internacionalizadas, a política de esquerda não pode terminar nas fronteiras do Estado-nação.


Fonte:  Neues Deutschland