Crise hídrica espalha efeitos pelo Brasil: combinação de desmatamento e mudanças climáticas agrava problema

Bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Cemaden é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível

Agravada pelo desmatamento e pelas mudanças climáticas, crise hídrica  espalha efeitos pelo país

Reservatório Paulo de Paiva Castro, que faz parte do Sistema Cantareira: ele regula o fluxo de água que, no fim da linha, abastece a Grande São Paulo — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo/07/10/2025

Por Ana Lucia Azevedo para “O GLOBO”

Choveu, mas não resolveu. A água que caiu nos últimos dias, no maior volume da estação chuvosa iniciada em outubro, trouxe alívio temporário para o calor e provocou transtornos, mas não tirou do nível crítico os rios dos quais depende a maior parte da população do Brasil. As bacias hidrográficas do Sudeste e do Centro-Oeste seguem no vermelho, e a recomendação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) é que a gestão dos reservatórios ao longo do ano seja feita considerando o pior cenário de seca possível.

— Não choverá o bastante para recuperar reservatórios, sobretudo no Sudeste. A estação seca começa em março e irá até outubro, quando as chuvas deveriam voltar. A situação está crítica e pode piorar. Será preciso planejar muito bem — destaca o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador de operações do Cemaden.

A crise não brotou de hora para outra. É fruto de anos seguidos de pouca precipitação e menor umidade. Esses problemas, por sua vez, decorrem de mudanças climáticas e, em especial, do desmatamento, frisam cientistas. Menos cobertura vegetal, menos evaporação e, consequentemente, menos vapor d’água e umidade no ar para fazer chover.

As florestas e a vegetação nativa de Cerrado também captam e fixam a água no subsolo, formando nascentes e evitando a erosão que assoreia rios. A evaporação de uma área de pastagem é, em média, de quatro a cinco vezes menor do que à de uma com cobertura vegetal nativa (o valor varia com o bioma), já indicaram estudos.

Sem chuva nas cabeceiras

Temporais como o da noite de domingo no Rio de Janeiro podem alagar a cidade e até interromper um Fla-Flu, mas não têm impacto na recuperação de reservatórios. Primeiro, porque são pontuais. Além disso, localizados — segue sem chover nas cabeceiras. E o nível dos lençóis freáticos está tão baixo que os rios absorvem a chuva como se fossem ralos.

A crise afeta quase todo o Brasil, enfatiza Adriana Cuartas, especialista em recursos hídricos e também do Cemaden. Sudeste e Centro-Oeste estão em pior situação. Exceções são o Sul, parte da Amazônia e o Rio São Francisco até a Hidroelétrica de Três Marias (MG), beneficiado por chuvas mais intensas nas cabeceiras.

Chama a atenção a situação ruim da Bacia do Rio Grande (MG/SP), na qual o reservatório de Furnas está um pouco acima de 30%. Panorama também bastante crítico para as bacias do Sistema Cantareira (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e do Rio Paraíba do Sul. Todas estão em condição de seca excepcional, e volumes em torno de 21% para o Cantareira e 34% para o reservatório do Jaguary, que faz a interligação com o Cantareira.

O esperado seriam aproximadamente 70%, no mínimo 60%, para essa época do ano. No Centro-Oeste, as bacias do Tocantins e do Araguaia passaram janeiro em situação de seca extrema. Já as bacias do Sudeste começaram a ficar críticas lá em 2014, diz Cuartas:

— A situação é ruim e com tendência de piora. A conta de luz vai continuar cara, e o risco de problemas no abastecimento, presente. A energia até pode ser trazida do Norte, mas a água, não. As pessoas olham a chuva, cidades alagadas, e pensam que está resolvido. Mas estamos longe disso, com chuva abaixo da média, muito irregulares e localizadas.

O Sistema Cantareira exemplifica a consequência de chover pouco e no lugar “errado”. Ele abastece São Paulo, mas as cabeceiras de suas três bacias ficam em Minas Gerais. A capital paulista penou com uma semana de enchentes, mas nas nascentes dos rios formadores do sistema a seca imperou.

No Brasil tem chovido não só pouco e no lugar errado, mas literalmente no molhado. Uma pesquisa de Cuartas com outros cientistas brasileiros e estrangeiros, publicada em 2025 na revista “Frontiers of environmental sciences”, revela que neste século as chuvas estão reduzindo nos continentes e crescendo nos oceanos.

Secas mais longas

Ninguém se atreve a dizer como será a próxima estação chuvosa, que começa em outubro. A atual já é considerada perdida. Fenômenos como El Niño e La Niña não influenciam o regime de chuvas do Sudeste e do Centro-Oeste. A estação das chuvas termina em março e não há previsão de que haverá precipitação razoável. E, ainda que caísse muita água, o que é altamente improvável, não seria possível recuperar o cenário.

Marcus Suassuna, hidrólogo do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explica que grandes reservatórios levam de dois a três anos, em média, para se recuperar após períodos de escassez. Ele ressalta ainda a situação ruim de bacias naturais, como no Rio Paraguai, que dá vida ao Pantanal.

Nas últimas seis décadas, ano a ano chove menos no Brasil, à exceção do Sul, pontua Seluchi. E, nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, mostrou outro estudo do Cemaden. Isso quer dizer que a estação seca também está quase um mês maior.

Mesmo a chuva da semana passada, associada a uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), despejou bem menos água do que o esperado. Segundo Seluchi, possivelmente, os modelos de previsão do tempo superestimaram o volume de precipitação previsto porque não consideraram a umidade tão baixa:

— Isso tem relação com mudanças climáticas, mas também com desmatamento. O Brasil tem desmatado cumulativamente Mata Atlântica e Cerrado, onde estão as cabeceiras dos principais rios do Centro-Sul. Com isso, as nascentes secam, os lençóis freáticos não são repostos.

Uma pesquisa apoiada pelo Movimento Viva a Água, lançado pela Fundação Grupo Boticário, evidenciou o impacto do desmatamento nas reservas de água. Cientistas compararam o comportamento de microbacias do Alto Iguaçu, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), sob situação de seca severa. Naquelas com mais de 50% de floresta preservada, a redução de volume d’água de rios não passava de 10%. Já nas desmatadas a diminuição chegava a 50%.

— Manter a cobertura vegetação e restaurar áreas desmatadas é uma medida de adaptação à mudança climática crucial no Brasil e precisa do envolvimento de toda a sociedade — salienta Guilherme Karam, gerente de Economia da Biodiversidade da fundação.

A crise deste ano também insere-se em um cenário global. A ONU declarou oficialmente esta semana que o planeta está em falência hídrica, com 75% da Humanidade vivendo em países classificados como criticamente inseguros e metade tendo que enfrentar pelo menos um mês por ano de escassez severa.


FONTE: O GLOBO

A dramática situação da Lagoa Feia: entre mudanças climáticas e ações humanas, um rico ecossistema é levado ao colapso

Acabo de ler dois materiais que abordam a crise hídrica que ameaça o rico ecossistema da Lagoa Feia, localizada no litoral da região Norte Fluminense, de encontrar o mesmo destino inglório que já se abateu sobre grandes lagos e lagoas ao redor do mundo. Falo aqui de uma matéria publicada pelo Portal Viu e um artigo assinado pelo ecohistoriador Aristides Soffiati.  Ainda que o mote desses materiais seja ligeiramente diferente, ambos se debruçam sobre as causas da profunda ameaça que paira sobre a Lagoa Feia e as comunidades que dela dependam para obter sua reprodução social e fontes de renda. E ambos materiais levantam questões que não podem ser mais ignoradas, vista a gravidade da situação.

Que a Lagoa Feia é alvo de tratos e destratos que estão agravando os impactos das mudanças climáticas sobre nossos sistemas hídricos, isso já não é novidade. O problema está no que décadas de omissão e negligência está resultando: a ameaça de colapso de um ecossistema que oferece serviços ambientais de grande importância, a começar pelo fornecimento de água.

Quero me deter em um aspecto que já deveria ter merecido uma ação renovada, seja do Ministério Público Federal ou do Ministério Público Estadual.  Falo aqui da inoperância do Comitê que é responsável por cuidar do que se convenciona denominar de “baixo Paraíba do Sul” e também do Instituto Estadual do Ambiente (Inea).   Me parece que não estaríamos na condição que se chegou, como documentado pela reportagem do Portal Viu, se não houvesse omissão e até cumplicidade com intervenções que impedem o mínimo de equilíbrio ecológico no ecossistema da Lagoa Feia.

Lembro que em 2008 o falecido promotor Marcelo Lessa se envolveu na explosão de diques construídos ilegalmente na região da Lagoa Feia, pois os mesmos potencializaram a ocorrência de grandes enchentes no município de Campos dos Goytacazes. No entanto, de lá para cá me parece claro que foram construídos mais diques, mas sem a mesma ação diligente dos órgãos fiscalizadores. 

Além disso, um grande mistério é sobre como são tomadas as decisões em torno da operação das comportas que regulam o nível da água na Lagoa Feia.  Com isso, falta o devido controle social sobre quem e como são tomadas as decisões sobre a operação das comportas. Pelo menos é isso que fica claro na matéria do Portal Viu. E quem ganha com isso? Essa é uma questão que precisa ser apurada e os responsáveis tratados nos rigores da lei.

Um detalhe que me vem sendo cobrado se refere à participação da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) no Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana e mais especificamente sobre a participação de seus servidores na direção do referido órgão.  Apesar do comitê estar instalado no campus Darcy Ribeiro por alguma cortesia oferecida no passado é importante esclarecer que a Uenf não tem poder decisório sobre o seu funcionamento. Além disso, a presença ad eternum de um servidor técnico na direção do comitê é algo que já deveria ter sido analisado, mas a baixa prioridade dessa represenção acaba favorecendo que isso se mantenha sem o devido escrutínio.  Com isso, a Uenf acaba sendo legitimadora de uma forma de funcionamento que ela mesmo não acompanha como deveria. Aqui é mais um caso de omissão que contribui para o corolário de problemas que vem sendo desvelado sobre a crise hídrica que ameaça a existência da Lagoa Feia.

E o que fazer em relação a isso? A primeira coisa é quebrar o ciclo de omissão que caracteriza a ação dos órgãos fiscalizadores. Há que se cobrar que haja retorno a um mínimo de fiscalização porque da forma que está não pode continuar. Mas cabe também à comunidade científica abrigada em instituições locais recolocar a situação da Lagoa Feia como prioritária na realização de estudos ambientais e sociais. Afinal, não é possível que se continue ignorando uma situação tão grave. Com a a palavra, o Ministério Público, seja federal ou estadual. Com a palavra, a comunidade científica local. 

O espectro do Deserto Verde ronda o Rio de Janeiro: essa é a hora e a vez de fortalecer a resistência a mais um projeto de devastação

Neste final de semana tive a oportunidade de encontrar com uma liderança histórica da luta contra a transformação do Rio de Janeiro em uma extensão do deserto verde instalado em diferentes partes do território nacional, mas em especial no vizinho estado do Espirito Santo. Segundo essa liderança, os planos de ampliação dos monocultivos industriais de eucalipto estão cada vez mais na ordem do dia, especialmente a partir das ações organizativas da Federação de Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

Primeiro, não posso de abrir uma pequena digressão para comentar a ironia que é se ter uma federação de indústrias se ocupando da expansão da monoculturas de árvores que efetivamente deveria caber melhor nos planos de organizações sindicais vinculadas ao latifúndio agro-exportador. Mas, dada o processo de desindustrialização que se acomete sobre o território fluminense, sou obrigado a reconhecer que é isso ou nada para a Firjan.

Eu comentei com essa liderança que estou ciente de que milhares de hectares de terras improdutivas estão sendo negociadas em Campos dos Goytacazes para, entre outras coisas, escapar da possibilidade de expropriação para fins de reforma agrária, visto que muitos dos latifundiários possuem dívidas históricas com a União, e não querem correr o mesmo destino de terras pertencentes às usinas Sapucaia e Cambahyba que foram recentemente tomadas pelo governo federal para a crise de assentamentos de reforma agrária.

De toda sorte,  os planos e ações concretas indicam que, desta vez, a instalação de um grande deserto verde em partes já com grandes deficits de biodiversidade e de água, como é o caso das regiões Norte e Noroeste Fluminense, podem avançar mais do que em tentativas anteriores.  A promulgação da Lei 14.876 de 31 de maio de 2024 e a provação do PL da Devastação vão facilitar enormemente a ocupação de terras para fins de plantios de árvores, a despeito dos problemas ambientais já existentes. Como o governo Lula não tem hesitado em financiar esses plantios a partir de generosas linhas de crédito de bancos públicos, os interessados em avançar o deserto verde já devem estar esfregando as mãos e preparando as bombas costais.

Diante de um cenário que considero bastante hostil para o estabelecimento de alternativas ambiental e socialmente melhores do que o monocultivo de árvores que consomem quantidades cavalares de água, fertilizantes químicos e agrotóxicos, considero que é necessário que o combate ao deserto verde se torne uma pauta primária dos movimentos sociais do campo ambiental e da luta pela reforma agrária.  É que um dos alvos desse projeto de desertificação verde é justamente conter um modelo de reforma agrária que produza alimentos de qualidade e livres de contaminação por agrotóxicos.

deserto verde |

Por isso, o fortalecimento do mecanismo que ficou conhecido como “Rede Alerta contra o Deserto Verde Fluminense” é algo tão urgente quanto necessário. Eu diria até que é para ontem.  Para refrescar memórias, sugiro a leitura de uma matéria escrita pela Sucural do Rio do jornal Folha de São Paulo no distante dia 20 de março de 2002. Pode até parecer notícia velha, mas está longe de ser, ela é atualíssima. 

Crise Hídrica em Campos e Região: Descontrole no uso da água ameaça população e agricultura

Denúncia aponta abertura indiscriminada de comportas da Lagoa Feia e exploração do Aquífero do Emborê sem fiscalização ambiental eficaz

Crise hídrica ameaça a Baixada Campista | Foto: Portal VIU!.

Por Fonte Exclusiva

A Baixada Campista e os municípios de Quissamã e Carapebus, no Norte Fluminense, estão à beira de uma grave crise hídrica. O alerta vem da ativista Dra. Karoline do Drone, conhecida por suas ações contra a Concessionária Águas do Paraíba e por mobilizações junto a órgãos reguladores em Brasília.

Segundo a denúncia, a abertura descontrolada das comportas da Lagoa Feia – maior lagoa de água doce do estado do Rio de Janeiro – está provocando uma queda drástica no lençol freático, comprometendo o abastecimento humano, a produção agrícola e a biodiversidade local.

Impactos Devastadores

A crise se agrava ainda mais com a exploração excessiva do Aquífero do Emborê, uma reserva subterrânea de água utilizada pela concessionária Águas do Paraíba para abastecer diversas localidades, incluindo Ponta Grossa, Retiro, Olhos D’Água, Correnteza, Tocos, São Martinho e Farol de São Tomé.

O mesmo aquífero também é explorado pelo Porto do Açu, que capta 100% de água desse reservatório para abastecer seu complexo industrial.

VÍDEO (14/09/2024): CLIQUE AQUI E ASSISTA REPORTAGEM

Principais denúncias levantadas por ambientalistas e produtores rurais:

✔️ Morte de animais devido à escassez de água e atolamento em bebedouros secos.
✔️ Grilagem e venda irregular de terras impulsionada pelo rebaixamento da lagoa.
✔️ Risco de esgotamento do Aquífero do Emborê, explorado sem controle ambiental efetivo.
✔️ Desacreditação do Inea (Instituto Estadual do Ambiente), que deveria fiscalizar, mas já foi alvo de operações policiais por corrupção em outras regiões do estado.
✔️ Canais de irrigação secando, colocando em risco a agricultura local.

Ministério Público entra na investigação

O problema chegou ao conhecimento do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que enviou o Ofício nº 039/2024 ao Inea, exigindo explicações sobre a situação.

No documento assinado pelo promotor Marcelo Carvalho Melo, a instituição solicita que o órgão ambiental esclareça quais medidas estão sendo tomadas para evitar o colapso do abastecimento.

Enquanto a resposta do Inea não vem, pequenos produtores rurais, pescadores e moradores da região seguem sem respostas e com o abastecimento ameaçado.

E agora? O que pode acontecer?

Caso nada seja feito, a região pode enfrentar uma seca sem precedentes, levando ao colapso do abastecimento e impactando drasticamente a economia local, que depende da agricultura e da pesca.

A falta de controle no uso dos recursos hídricos pode levar a sanções federais e até a um bloqueio de verbas estaduais destinadas ao setor.

“A comunidade pede urgência na fiscalização e no controle do uso da água, antes que seja tarde demais”, alerta Dra Karoline.


Fonte: Portal Viu!

Rios secando em meio ao avanço do desmatamento sinalizam para grave crise hídrica no Brasil

crise hidrica

Quando se olha para a situação geral dos rios brasileiros, a avaliação está longe de ser boa. É que tudo indica que estamos testemunhando um processo de ressecamento nas bacias ligadas às florestas da Amazônia e do Cerrado.  E o pior é que a voracidade do latifúndio agro-exportador por mais desmatamento está sendo alimentada por um conjuntov de projetos de logística orientados para a pavimentação de estradas como a BR-319 e a construção de ferrovias como a Ferrogrão

Para piorar esse cenário em diferentes estados e municípios o cenário de 2024 foi marcado pela aprovação de uma série de leis para fragilizar leis ambientais com o único objetivo de facilitar ainda mais a ação destruidora das monoculturas, mesmo em estados como o Rio Grande do Sul que foi devastado por eventos extremos de chuvas.  

Um componente extra dessa tempestade perfeita é o aumento da poluição nos rios, especialmente pelo lançado de substâncias tóxicas associadas às atividades de mineração e das monoculturas.  As evidências científicas já apontam para o aumento da carga de metais pesados (especialmente a do mercúrio liberada pelo garimpo de ouro) e de agrotóxicos em grandes rios brasileiros.

O que teremos com o somatório desses componentes sinaliza para rios cada vez mais secos e poluídos em meio a um crescente aumento da população urbana.  Eu não me surpreenderia se já em 2025 começarmos a ver uma crise persistente em estados importantes como Rio de Janeiro e São Paulo, especialmente nas suas principais áreas metropolitanas.

O fato inescapável é que estamos na antessala de uma grave crise hídrica e que não se resumirá à oscilações sazonais nas intensidades de precipitação. Por isso, é urgente que se refaça uma profunda reorganização dos mecanismos de controle social do acesso à água. Os atuais comitês de bacias hidrográficas já se mostraram insuficientes para enfrentar uma crise do tamanho que estamos enfrentando. Até porque eles são ferramentas para o gerenciamento privado das águas, e o que está posto vai muito além desse cenário.

 

Um caso claro de agrossuicídio: desmatamento no Cerrado pode inviabilizar agronegócio

Estudo mostra que, com a redução da cobertura vegetal nativa do bioma, quebras de safra estão se tornando constantes e podem piorar

Em 20 anos, Cerrado teve sua cobertura vegetal nativa reduzida de 127 milhões de hectares para 95 milhões de hectares
Por Edson Veiga para a Deutsche Welle Brasil

“É agrossuicídio”, adverte o engenheiro florestal Argemiro Teixeira Leite Filho, professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sobre o que vem ocorrendo no Cerrado. Ele é um dos autores de um estudo publicado nesta sexta (06/12) pela revista científica Nature Sustainability, que mostra que, se os níveis de desmatamento seguirem elevados na região, o agronegócio ali se tornará inviável economicamente.

A pesquisa, realizada numa parceira da UFMG e com o centro de pesquisas americano Woodwell Climate Research, mostra que nenhuma outra savana do mundo tem sido tão destruída quanto o Cerrado brasileiro, que nos últimos 20 anos teve sua cobertura vegetal nativa reduzida de 127 milhões de hectares para 95 milhões de hectares, ao mesmo tempo em que a região viu as áreas agrícolas dobrarem — de 38 milhões de hectares para 77 milhões de hectares.

Com a tabulação de dados históricos e imagens de satélites, os cientistas contaram com a ajuda da inteligência artificial (IA) para excluir da métrica todas as causas que não fossem a destruição da vegetação — ou seja, o impacto de fenômenos como El Niño e La Niña foi desconsiderado. A conclusão é que o desmatamento está intensificando as mudanças climáticas na região.

Segundo um artigo publicado em fevereiro na revista Nature Communications, o Cerrado sofre de forma extremamente agressiva com o aquecimento global, acima da média global, e enfrenta sua maior seca em 700 anos. O impacto na agricultura, lembra Leite Filho, já é sentido, já que a região responde por 63% da produção do país.

Utilizando dados disponibilizados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o engenheiro florestal ressalta que chuvas 50% abaixo da média resultaram em uma perda de 7,3 milhões de toneladas de grãos, principalmente de soja e milho, na safra de 2020/21. Na safra 2023/24, os resultados foram ainda piores: perda recorde de 11,9 milhões de toneladas de soja e uma redução de 10% na produção de milho — no total, um prejuízo estimado em cerca de R$ 35 bilhões.

Seca e prejuízos

O estudo publicado nesta sexta indica que, com a redução da cobertura vegetal nativa do Cerrado, quebras de safra estão se tornando constantes, acompanhando o fato de que as chuvas diminuem.

“A relação causa-consequência é praticamente direta. Enquanto as mudanças climáticas globais são fruto de um efeito cumulativo de emissão de gases de efeito estufa ao longo dos anos, o clima regional e local é alterado instantaneamente quando se tira a vegetação”, esclarece Leite Filho. “Passou o trator, retirou a vegetação, imediatamente estão sendo alteradas características físicas e [no caso do Cerrado] retirando essa bomba de umidade para a atmosfera.”

Para demonstrar isso, os pesquisadores compararam a diminuição das chuvas em áreas com cobertura nativa e em áreas desmatadas do Cerrado. No primeiro caso, de 1999 a 2019 houve redução de 29,1 milímetros de chuva na época da primeira safra e 9,2 milímetros na segunda. Já nas áreas desmatadas — com mais de 80% da vegetação nativa já destruída — as quedas pluviométricas foram muito maiores: 90,5 milímetros e 109,1 milímetros, respectivamente.

Grãos de soja em caminhão
Cerrado registra perdas constantes nas safras de grãos nos últimos anosFoto: Patricio Murphy/NurPhoto/picture alliance

Além da diminuição da chuva, há o atraso para a estação de sua ocorrência. Nas áreas desmatadas, foi observado uma demora de dez dias a mais a cada dois anos do período. Em áreas mais conservadas, com no máximo 20% de perda de mata nativa, esse atraso não ocorreu.

A explicação não é difícil de entender. “A vegetação nativa do Cerrado tem como característica raízes bastante intensas e profundas. Ela busca a água do lençol freático, retira essa água e a bombeia para a atmosfera”, explica o engenheiro Leite Filho. “Essa umidade cai em forma de chuva.”

“Quando essa vegetação nativa é retirada, uma série de características da superfície é alterada. Muda-se o quanto a superfície reflete o calor que recebe do sol, por exemplo”, complementa o professor da UFMG.

Negacionismo climático

O problema é que nem todos aceitam esses fatos. Estudo publicado em setembro na revista Forest Policy and Economics demonstrou que boa parte dos sojicultores acredita que a vegetação não tem nada a ver com a formação de chuvas e que tal associação não passa de teoria conspiratória criada por ambientalistas para prejudicá-los.

“Negam os fatos e se recusam a acreditar que o desmatamento está por trás da alteração no regime de chuvas”, afirma o biólogo Mairon Bastos Lima, pesquisador sênior do Instituto Ambiental de Estocolmo, na Suécia, e um dos autores dessa pesquisa, liderada pela gestora ambiental Rafaela Barbosa de Andrade Aragão, pesquisadora da Universidade Griffiths, na Austrália.  “Então é preciso ainda compreender como orientar políticas antidesmatamento eficazes a partir desses dados. Não dá para achar que desmatadores vão ler isso e mudar de comportamento de repente.”

“O desmatamento causa aumento de seca porque a formação de chuva depende da evapotranspiração das plantas, isto é, da evaporação de água contida nas folhas”, acrescenta Lima. “As plantas guardam água. Solo seco, não.”

“Desmatou? Quando cair a chuva, essa água vai escorrer ou entrar pelo solo, e a evaporação para formar chuvas fica bem menor”, complementa o biólogo. “Com menos chuvas, como o estudo demonstra, a produtividade cai bastante. Todos perdem.”

Lima comenta que “argumentar isso parece lógico e convincente”. Mas salienta que “não se deve subestimar o quanto que o ceticismo com a ciência se espalhou entre a população, incluindo aí os produtores de milho e soja”.

“O setor no agronegócio é, de fato, o maior interessado em reduzir as taxas de desmatamento no Cerrado, mas ainda não consegue enxergar esta obviedade”, afirma a ecóloga Isabel Benedetti Figueiredo, coordenadora do programa Cerrado na organização não governamental Instituto Sociedade, População e Natureza.

Recuperação ainda é possível

Mas nem tudo são más notícias. Leite Filho acredita que a destruição do Cerrado ainda não seja um processo irreversível. “Acredito que ainda há tempo, mas a janela de oportunidade está se esgotando”, alerta. Atualmente, calcula-se que savana brasileira já tenha perdido pouco mais de 50% de sua cobertura nativa. “Com imagens de satélite, conseguimos ver que grande parte da paisagem é hoje dominada por culturas de grãos ou por pecuária”, comenta ele.

Lima concorda. “Ainda há a outra metade [do Cerrado] a preservar”, ressalta. “Além disso, há trabalhos de restauração que podem ser feitos. Isso é essencial, se quisermos manter a biodiversidade brasileira e as funções ecológicas e socioculturais que o Cerrado tem.”

“Para isso, é fundamental pensar e promover estratégias de desenvolvimento rural, modelos de negócio inclusivos e políticas públicas que gerem desenvolvimento a partir dos recursos do Cerrado, não da remoção deles”, argumenta.

A ecóloga Figueiredo adverte que “estamos chegando muito perto de um ponto em que o bioma vai colapsar e, quando isso ocorrer, todo o país será prejudicado, pois os biomas são todos interconectados”.

Mas ela diz acreditar que “ainda há como recuperar”. “Mas o primeiríssimo passo é parar de abrir novas áreas [para agropecuária] e aí, sim, começar a recompor a vegetação nas regiões com grandes maciços de desmatamento”, diz. Assim, a ecóloga vislumbra que o microclima regional poderá ser reestabelecido, “inclusive para reduzir as perdas que o agronegócio tem sentido ano após ano”.


Fonte: Deutsche Welle Brasil

Uso excessivo de água no Matopiba pode comprometer até 40% da demanda agrícola local por irrigação

Pesquisa liderada pelo Inpe mostra que superexploração dos recursos hídricos para a agricultura, aliada às mudanças climáticas, está reduzindo as vazões subterrâneas, provenientes do aquífero Urucuia, e dos corpos d’água superficiais da bacia do rio Grande, afluente do São Francisco

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Monocultura em São Desidério (BA), na região conhecida como Matopiba (foto: Palácio do Planalto/Wikimedia Commons)

Luciana Constantino | Agência FAPESP

Considerada uma das fronteiras agrícolas que mais crescem no Brasil e a área com maior taxa de emissão de gases de efeito estufa no Cerrado, a região conhecida como Matopiba corre o risco de enfrentar falta de água já nos próximos anos. Entre 30% e 40% da demanda por irrigação de terras agricultáveis pode não ser atendida no período de 2025 a 2040 devido à superexploração dos recursos hídricos.

Esse problema, somado às mudanças climáticas, está reduzindo as vazões subterrâneas – provenientes do aquífero Urucuia – e dos corpos d’água superficiais da bacia do rio Grande, afluente do São Francisco. A redução desse fluxo pode comprometer o atendimento a demandas como o abastecimento urbano, de populações ribeirinhas e o próprio agronegócio, sem contar a diminuição de disponibilidade para toda a bacia.

A conclusão é de um estudo liderado por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que analisou a sustentabilidade de longo prazo da expansão agrícola em meio à crescente escassez de água na região. O trabalho, idealizado pela cientista do Inpe Ana Paula Aguiar e realizado em parceria com o Centro de Resiliência de Estocolmo (Suécia), aponta que deve haver um aumento de até 40% de energia para irrigação, pressionando ainda mais o sistema.

Acrônimo formado pelas siglas de quatro Estados – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia –, o Matopiba está inserido predominantemente no Cerrado (91% da área ou 665 mil km2), tendo apenas 7,3% na Amazônia e 1,7% na Caatinga. Em sua parte sudeste, é abastecido pela bacia do rio Grande, que cobre cerca de 76 mil km2.

Para fazer a análise, os pesquisadores usaram um modelo de dinâmica de sistemas – uma ferramenta que permite representar as complexas interações e feedbacks entre uso da terra, energia e água, além de simular diferentes cenários, vendo como é a reação ao longo do tempo. Com isso, ajuda na tomada de decisões e na implementação de políticas públicas mais eficazes.

“A dinâmica de sistemas considera uma visão holística, simulando as relações e as várias demandas – irrigação, energia elétrica, consumo – que existem simultaneamente na região. Isso nem sempre é considerado em análises realizadas por órgãos públicos”, diz o pesquisador do Inpe Celso von Randow, um dos autores do trabalho.

O artigo foi publicado na Ambio – Journal of Environment and Society e é parte do projeto Nexus – Caminhos para a Sustentabilidade, coordenado por Jean Ometto, pesquisador do Inpe e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG). O projeto buscou propor estratégias para viabilizar a transição para um futuro sustentável nos biomas Cerrado e Caatinga por meio de uma abordagem participativa, integrando métodos qualitativos e quantitativos.

relatório técnico do Nexus, que traz informações da pesquisa do grupo e de outras desenvolvidas na região, foi lançado agora em outubro e apresentado no seminário “Contribuições da comunidade científica brasileira para a temática de combate à desertificação”, realizado na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Pesquisadores do grupo estarão juntamente com a delegação brasileira na Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), na Arábia Saudita, em dezembro.

“A ideia do estudo nasceu de uma das oficinas do projeto Nexus, realizada no município de Barreiras. Havia uma preocupação com a sustentabilidade do sistema de irrigação. Desenvolvemos um modelo de dinâmica de sistemas para a região, mas ele pode ser aplicado a outras áreas adaptando algumas variáveis de acordo com a necessidade”, explica a engenheira agrícola Minella Alves Martins, primeira autora do artigo e orientanda de von Randow no Inpe com o apoio da FAPESP.

Durante a oficina, os principais desafios relatados na bacia do rio Grande estavam relacionados à disponibilidade de água – tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo – e aos conflitos socioambientais motivados por seu uso e pela posse irregular da terra. Mais de 90% das retiradas de água na bacia são destinadas à irrigação, de acordo com dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).


Uma das oficinas realizadas em Barreiras para montar o escopo da pesquisa (foto: Projeto Nexus) 

Nos últimos dez anos, o Matopiba – com 337 municípios – registrou um salto na produção de grãos – 92%, passando de 18 milhões de toneladas (safra 2013/14) para cerca de 35 milhões de toneladas. Na Bahia, as culturas de soja, milho e algodão são destaque, tendo o município de Barreiras como um dos principais produtores no Estado.

Estima-se que na próxima década o crescimento agrícola do Matopiba ainda seja de 37%, com a produção atingindo 48 milhões de toneladas em uma área plantada de 110 mil km2. Os números fazem parte do estudo Projeções do Agronegócio, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Por outro lado, a seca severa que vem atingindo o país reduziu a previsão de produção de grãos na safra 2023/2024, especialmente no Matopiba. Para agravar a situação, o Cerrado bateu recorde de focos de incêndio neste ano. Foram 68.868 entre janeiro e 25 de setembro, superando todo o ano de 2023. É o maior desde 2015.

Com esse cenário, além de registrar aumento da temperatura, o Matopiba emitiu 80% dos 135 milhões de toneladas de CO2 liberadas para a atmosfera por causa do desmatamento no Cerrado entre janeiro de 2023 e julho de 2024, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

A destruição da vegetação nativa pelo fogo e o desmatamento para outros usos levam a uma redução da evapotranspiração das plantas, diminuindo a quantidade de chuva. Há ainda o fato de a água, sem a cobertura vegetal, chegar com mais força ao solo, escorrendo superficialmente e deixando de formar os canais subterrâneos.

Projeções

O modelo de dinâmica de sistemas usado pelos pesquisadores para a região mostrou que as vazões superficiais e subterrâneas tendem a diminuir até 2040. Eles levaram em consideração os usos de água atuais, as mudanças climáticas e feedbacks econômicos. Em contrapartida, haverá um aumento na demanda de água, principalmente impulsionada pela expansão da irrigação. Deve passar de 1,53 m³/s (2011-2020) para 2,18 m³/s (2031-2040).

Por isso, os pesquisadores apontam a possibilidade de estagnação da expansão da agricultura irrigada na região, levantando preocupações sobre a sustentabilidade de longo prazo do setor na bacia do rio Grande.

“Ouvimos muito na região que as retiradas de água são acima dos níveis de outorga. Então, o primeiro ponto de recomendação seria a revisão dessas permissões, justamente para que estejam de acordo com o novo normal climatológico que estamos vivendo. A série histórica pode estar defasada, levando a uma permissão acima do que é possível ofertar. Observamos por meio de dados de monitoramento de poços da CPRM que os níveis de águas subterrâneas estão caindo, mas esse sistema ainda é muito utilizado. Por isso, outra necessidade seria a fiscalização para proibir poços clandestinos e o monitoramento da exploração de novos locais de perfuração, visando um uso racional dos recursos hídricos”, afirma Martins à Agência FAPESP.

O grupo recomenda também que seja aprimorada a fiscalização das mudanças de uso e cobertura do solo para que áreas de recarga do aquífero não sejam comprometidas, além de incentivar estratégias mais eficientes e racionais da utilização de água na agricultura. Para estudos futuros, os cientistas sugerem a exploração de outros caminhos para adaptação às condições atuais, como a possibilidade de conectar o subsistema elétrico local à rede nacional e a criação de canais adicionais para garantir o abastecimento.

O artigo Long-term sustainability of the water-agriculture-energy nexus in Brazil’s MATOPIBA region: A case study using system dynamics pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13280-024-02058-9#Ack1.


Fonte: Agência Fapesp

Crise global da água colocará metade da produção mundial de alimentos em risco nos próximos 25 anos

Revisão histórica diz que ação urgente é necessária para conservar recursos e salvar ecossistemas que fornecem água doce

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Uma criança bebe de um recipiente de plástico em Gaza. Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura. Fotografia: Abed Zagout/Anadolu via Getty Images

Por Fiona Harvey para o “The Guardian”

Alguns países se beneficiam mais do que outros da “água verde”, que é a umidade do solo necessária para a produção de alimentos, em oposição à “água azul” de rios e lagos. O relatório descobriu que a água se move ao redor do mundo em “rios atmosféricos” que transportam umidade de uma região para outra.

Cerca de metade da precipitação pluviométrica mundial sobre a terra vem de vegetação saudável em ecossistemas que transpiram água de volta para a atmosfera e geram nuvens que então se movem a favor do vento. China e Rússia são os principais beneficiários desses sistemas de “rios atmosféricos”, enquanto Índia e Brasil são os maiores exportadores, pois suas massas terrestres suportam o fluxo de água verde para outras regiões. Entre 40% e 60% da fonte de precipitação de água doce é gerada pelo uso de terras vizinhas.

“A economia chinesa depende do manejo florestal sustentável na Ucrânia, Cazaquistão e região do Báltico”, disse o Prof. Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e um dos copresidentes da comissão. “Você pode fazer o mesmo caso para o Brasil fornecer água doce para a Argentina. Essa interconexão apenas mostra que temos que colocar a água doce na economia global como um bem comum global.”

Tharman Shanmugaratnam, presidente de Cingapura e copresidente da comissão, disse que os países devem começar a cooperar na gestão dos recursos hídricos antes que seja tarde demais.

“Temos que pensar radicalmente sobre como vamos preservar as fontes de água doce, como vamos usá-la de forma muito mais eficiente e como vamos conseguir ter acesso à água doce disponível para todas as comunidades, incluindo os vulneráveis ​​– em outras palavras, como preservamos a equidade [entre ricos e pobres]”, disse Shanmugaratnam.

A Comissão Global sobre Economia da Água foi criada pela Holanda em 2022, com base no trabalho de dezenas de cientistas e economistas renomados, para formar uma visão abrangente do estado dos sistemas hidrológicos globais e como eles são gerenciados. Seu relatório de 194 páginas é o maior estudo global a examinar todos os aspectos da crise hídrica e sugerir soluções para formuladores de políticas.

As descobertas foram surpreendentemente severas, disse Rockström. “A água é a vítima número um da [crise climática], as mudanças ambientais que vemos agora se agregando em nível global, colocando toda a estabilidade dos sistemas da Terra em risco”, ele disse ao Guardian. “[A crise climática] se manifesta antes de tudo em secas e inundações. Quando você pensa em ondas de calor e incêndios, os impactos realmente duros são por meio da umidade – no caso de incêndios, [o aquecimento global] primeiro seca as paisagens para que elas queimem.”

ciclo hidrológico

Cada aumento de 1C nas temperaturas globais adiciona outros 7% de umidade à atmosfera, o que tem o efeito de “energizar” o ciclo hidrológico muito mais do que aconteceria sob variações normais. A destruição da natureza também está alimentando ainda mais a crise , porque o corte de florestas e a drenagem de pântanos interrompem o ciclo hidrológico que depende da transpiração das árvores e do armazenamento de água nos solos.

Subsídios prejudiciais também estão distorcendo os sistemas de água do mundo e devem ser tratados como prioridade, descobriram os especialistas. Mais de US$ 700 bilhões (£ 540 bilhões) em subsídios a cada ano vão para a agricultura, e uma alta proporção deles é mal direcionada, encorajando os agricultores a usar mais água do que precisam para irrigação ou em práticas de desperdício .

Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da Organização Mundial do Comércio, também copresidente da comissão, disse que os países devem redirecionar os subsídios, eliminando os prejudiciais e garantindo que os pobres não sejam prejudicados. “Devemos ter uma cesta de ferramentas políticas trabalhando juntas se quisermos obter os três Es – eficiência, equidade e sustentabilidade ambiental e justiça. Portanto, temos que acoplar o preço da água com subsídios apropriados”, disse ela.

Atualmente, os subsídios beneficiam principalmente aqueles que estão em melhor situação, acrescentou Okonjo-Iweala. “A indústria está recebendo muitos subsídios, e pessoas mais ricas. Então, o que precisamos são subsídios mais bem direcionados. Precisamos identificar as pessoas pobres que realmente precisam disso”, disse ela. 

Mulheres em trajes coloridos carregam potes de água na cabeça.
A crise da água tem um impacto descomunal sobre as mulheres, disse um dos copresidentes da comissão. Fotografia: Anjum Naveed/AP

Os países em desenvolvimento também devem ter acesso ao financiamento necessário para reformar seus sistemas de água, fornecer água potável e saneamento e deter a destruição do meio ambiente natural, concluiu o relatório.

Mariana Mazzucato, professora de economia na University College London e copresidente da comissão, disse que empréstimos feitos por bancos do setor público para países em desenvolvimento devem ser condicionados a reformas hídricas. “Isso pode ser melhorar a conservação da água e a eficiência do uso da água, ou investimento direto para indústrias intensivas em água”, ela disse. “[Devemos garantir] que os lucros sejam reinvestidos em atividades produtivas, como pesquisa e desenvolvimento em torno de questões hídricas.”

Problemas com água também tiveram um impacto descomunal em mulheres e meninas , acrescentou Mazzucato. “Uma de nossas comissárias é Yvonne Aki-Sawyerr, prefeita de Freetown, em Serra Leoa. Ela diz que a maioria dos estupros e abusos de mulheres realmente acontecem quando elas vão buscar água”, disse Mazzucato. “Mortalidade infantil, paridade de gênero, o fardo da coleta de água, o fardo da segurança alimentar — todos eles estão conectados.”

Cinco principais conclusões do relatório

O mundo tem uma crise de água

Mais de 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura, e 3,6 bilhões de pessoas — 44% da população — não têm acesso ao saneamento seguro. Todos os dias, 1.000 crianças morrem por falta de acesso à água potável. Espera-se que a demanda por água doce ultrapasse seu suprimento em 40% até o final desta década. Esta crise está piorando — sem ação, até 2050 os problemas de água reduzirão cerca de 8% do PIB global, com os países pobres enfrentando uma perda de 15%. Mais da metade da produção mundial de alimentos vem de áreas que apresentam tendências instáveis ​​na disponibilidade de água.

Não existe um esforço global coordenado para enfrentar esta crise

Apesar da interconexão dos sistemas globais de água, não há estruturas de governança global para a água. A ONU realizou apenas uma conferência sobre a água nos últimos 50 anos , e somente no mês passado nomeou um enviado especial para a água .

A degradação climática está a intensificar a escassez de água

Os impactos da crise climática são sentidos primeiro nos sistemas hidrológicos do mundo , e em algumas regiões esses sistemas estão enfrentando graves perturbações ou até mesmo colapso. Seca na Amazônia, inundações na Europa e Ásia, e derretimento de geleiras nas montanhas, que causam inundações e secas rio abaixo, são todos exemplos dos impactos de condições climáticas extremas que provavelmente piorarão em um futuro próximo. O uso excessivo de água pelas pessoas também está piorando a crise climática – por exemplo, drenando turfeiras e pântanos ricos em carbono que então liberam dióxido de carbono na atmosfera.

A água é artificialmente barata para alguns e muito cara para outros

Subsídios à agricultura ao redor do mundo frequentemente têm consequências não intencionais para a água , fornecendo incentivos perversos para fazendeiros irrigarem demais suas plantações ou usarem água de forma desperdiçada. Indústrias também têm seu uso de água subsidiado, ou sua poluição ignorada, em muitos países. Enquanto isso, pessoas pobres em países em desenvolvimento frequentemente pagam um alto preço pela água, ou só podem acessar fontes sujas. Preços realistas para água que removam subsídios prejudiciais, mas protejam os pobres devem ser uma prioridade para os governos.

A água é um bem comum

Toda a vida humana depende da água, mas ela não é reconhecida como o recurso indispensável que é . Os autores do relatório pedem uma reformulação de como a água é considerada – não como um recurso infinitamente renovável, mas como um bem comum global, com um pacto global pela água pelos governos para garantir que eles protejam as fontes de água e criem uma “economia circular” para a água na qual ela seja reutilizada e a poluição seja limpa. As nações em desenvolvimento devem ter acesso a financiamento para ajudá-las a acabar com a destruição de ecossistemas naturais que são uma parte fundamental do ciclo hidrológico.


Fonte: The Guardian

Campos, um município que flerta com a crise climática

20240924solimoesgreenpeace1Protesto do Greenpeace Brasil no leito seco do Rio Solimões: seca extrema leva rios na Amazônia e Pantanal a mínimas extremas (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace)

Há poucos meses um professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB) veio a Campos dos Goytacazes para participar de uma banca examinadora na Uenf e me confessou sua surpresa com a completa inexistência de matas ciliares ao longo dos corpos hídricos sobre os quais ele sobrevoou antes de aterrisar no Aeroporto Bartolomeu de Lizandro. Segundo esse professor que é um estudioso dos chamados serviços ecossistêmicos, a falta de matas ciliares seria um péssimo prenúncio para a capacidade de adaptação às oscilações climáticas que estão ocorrendo como parte do “novo anormal climático”.

Disse a esse pesquisador que o que ele tinha visto era apenas a ponta de um iceberg de um longo histórico de destruição ambiental que ocorreu para a implantação de diferentes monoculturas na região Norte Fluminense, sendo a cana de açúcar a mais persistente.

Graças à monocultura da cana não apenas tivemos ao longo do Século XX a quase completa destruição das florestas de Mata Atlântica, mas também o avanço sobre importantes corpos hídricos que foram drenados para que os latifundiários locais pudessem ter mais terra, sendo a Lagoa Feia o maior exemplo disso.

Se olharmos também para a situação periclitante do Rio Paraíba do Sul que continua sendo represado e drenado de grandes quantidades de água antes de chegar em nosso município, o que temos é uma espécie de um grande acidente ambiental em desenvolvimento diante dos nossos olhos.  Ao se permitir o represamento continuado do Paraíba do Sul em combinação com a quase completa remoção das florestas naturais e matas ciliares, o que está se plantando é uma grande crise hídrica que poderá deixar Campos dos Goytacazes pendurada na broxa, na medida em que poderemos virar uma cidade construída ao longo de um leito de rio seco, ao menos em partes do ano.

Enquanto o problema que se coloca diante de nós tem uma escala de grande tragédia socioambiental, as respostas até aqui são, no mínimo, inexistentes.  O chamado comitê de bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana não passa de uma sigla quando se trata de enfrentar as causas da crise hídrica que se desenvolve diante de nossos olhos, enquanto órgãos ambientais como o Inea e o Ibama seguem o mesmo caminho de omissão.

Para piorar o que já é ruim, os municípios desta região, com Campos no leme, não possuem nada próximo do que se poderia chamar de um plano de adaptação climática que comece a proteger os nossos rios e lagoas. É como se todos os prefeitos, a começar por Wladimir Garotinho, achassem que tudo que está por vir de ruim se dará por obra divina.  Wladimir Garotinho, inclusive, conseguiu o feito de fechar a secretaria municipal de Meio Ambiente, justamente em um momento em que a crise climática se torna cada vez mais óbvia e com efeitos ambientais drásticos. 

Apesar da crise climática e suas consequências sobre a disponibilidade de água terem sido ilustres ausentes das eleições municipais recentemente realizadas, o fato inescapável é que precisamos começar a trilhar um caminho diferente de forma urgente. Em uma uma mesa de debate realizada durante a XI Jornada de Políticas Sociais realizada nos dias 8 e 9 de outubro, um dos palestrantes sugeriu que o prefeito de Campos fizesse uma espécie de “Plano Marshall” do reflorestamento, de modo a amenizar a crise climática e seus efeitos sobre a disponibilidade de água e a temperatura. Para o palestrante, com esse plano de reflorestamento, o prefeito conseguiria não apenas gerar um grande número de empregos, mas também abriria um novo horizonte ambiental para Campos dos Goytacazes.

O fato é que sem uma ação compreensiva e urgente para iniciar o processo de adaptação climática, a nossa região terá tempos muito difíceis pela frente, na medida em a transformação recente dos leitos dos principais rios amazônicos em planícies arenosas pode ser um prenúncio do que ainda por ocorrer com o Paraíba do Sul. E a questão inescapável para os campistas: se o Paraíba do Sul secar, de onde virá a água que mata a nossa sede de cada dia?

Lagoa Feia: a outra grave crise hídrica ocorrendo em Campos que ninguém parece querer ver

lagoa feia seca

Enquanto as reações ocorridas em relação à água que está sendo servida aos campistas pela concessionária “Águas do Paraíba” já fizeram várias engrenagens se moveram para cobrar explicações, há uma outra grave crise ocorrendo na Lagoa Feia, corpo hídrico que é responsável pelo abastecimento de mais de 30 mil pessoas nos municípios de Quissamã e Carapebus.

Hoje de manhã tive um encontro fortuito com um vídeo postado na rede social Facebook pelo consultor ambiental Armando Barreto que mostra a situação catastrófica que está ocorrendo naquele importante ecossistema, tanto para o abastecimento de água como para a pesca artesanal (ver vídeo  Aqui!).

Olhando um pouco mais na página do consultor ambiental, encontrei a informação de que a operação das 14 comportas da Lagoa Feia que caberiam aos técnicos do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) teria sido transferida para um grupo de trabalho do comitê de bacia do Baixo Paraíba que estaria agora tomando as decisões em relação a abrir ou manter fechadas o sistema de regulação. Com isso, a regulação deste sistema não estaria obedecendo as necessidades de manter o nível mínimo de água que garanta a continuidade do abastecimento e da pesca na Lagoa Feia.

Como essa não é a primeira reclamação que eu leio sobre a regulação do espelho da Lagoa Feia, penso que esse é mais um tópico em que se deve cobrar explicações do Inea e do Comitê do Baixo Paraíba. E de quebra, seria importante que o prefeito Wladimir Garotinho também notificasse o INEA e o Comitê Baixo Paraíba.  Afinal de contas, quem vai garantir que 30 mil pessoas que dependem da Lagoa Feia para terem acesso água não ficarão ao Deus dará?