Super El Niño rompe recorde antes do pico e empurra a Terra para águas desconhecidas

O fenômeno natural encontra uma atmosfera superaquecida pela queima de combustíveis fósseis, ampliando secas, enchentes, incêndios e fome em escala global

Em reportagem publicada neste domingo (21), o editor de meio ambiente do The Guardian, Damian Carrington, informa que o atual El Niño já ultrapassou o maior aquecimento anteriormente registrado no coração do fenômeno, embora seu pico seja esperado apenas para novembro ou dezembro. A anomalia da temperatura no Pacífico equatorial chegou a 3,05 °C acima da média de 1991–2020, superando os 3,02 °C observados em novembro de 2015. Na métrica preferida por muitos meteorologistas, o índice Niño 3.4, o recorde está igualmente próximo de ser rompido.

As projeções reunidas pelo cientista climático Zeke Hausfather são ainda mais inquietantes: a média de 14 modelos indica que o aquecimento pode alcançar 4 °C no final do ano. Para efeito de comparação, um El Niño já é caracterizado a partir de 0,5 °C, enquanto eventos acima de 2 °C são classificados como muito fortes e frequentemente chamados de “super El Niños”. Evidências extraídas de corais, anéis de árvores e registros históricos sugerem que um episódio dessa magnitude pode não ter ocorrido nos últimos mil anos.

É importante, contudo, não transformar o El Niño em uma explicação conveniente para todas as catástrofes que virão. Trata-se de uma oscilação natural do sistema climático, mas que agora se desenvolve sobre um planeta aquecido pela emissão continuada de gases de efeito estufa. A crise climática aumenta a temperatura de fundo sobre a qual o El Niño atua, enquanto o próprio fenômeno transfere mais calor dos oceanos para a atmosfera. É uma combinação explosiva: o aquecimento global fortalece os extremos associados ao El Niño, e o El Niño, por sua vez, intensifica temporariamente o aquecimento global. Pesquisas recentes indicam que a variabilidade desses eventos aumentou cerca de 37% desde a industrialização.

O resultado provável não será apenas um novo número nos gráficos climáticos. Serão secas mais prolongadas, chuvas concentradas, enchentes, incêndios florestais, quebras de safras, aumento dos preços dos alimentos e pressão adicional sobre os sistemas de saúde e de abastecimento de água. O Programa Mundial de Alimentos estima que cerca de 50 milhões de pessoas poderão ser empurradas para uma situação de fome aguda. Como sempre, os maiores custos recairão sobre populações que pouco contribuíram para o aquecimento do planeta, mas que vivem em territórios com infraestrutura precária e reduzida capacidade de resposta.

Para o Brasil, o alerta deveria ser tratado como assunto de Estado. Os padrões históricos associados ao El Niño indicam risco de excesso de chuva no Sul e de estiagem e calor intenso em áreas das regiões Norte e Nordeste, embora um evento tão extremo, combinado ao aquecimento global, possa produzir comportamentos fora dos padrões conhecidos. Também é necessário considerar os efeitos indiretos sobre a produção agrícola, a geração hidrelétrica, os reservatórios, os preços dos alimentos e a ocorrência de desastres urbanos. Preparação, neste caso, não significa divulgar alertas quando a chuva já começou ou distribuir água quando os reservatórios estiverem vazios, mas antecipar cenários, proteger populações vulneráveis e coordenar políticas públicas entre os diferentes níveis de governo.

A reportagem de Damian Carrington desmonta, sobretudo, a narrativa confortável segundo a qual ainda dispomos de tempo abundante para agir. O recorde foi ultrapassado meses antes do pico previsto, e 2027 poderá superar todas as marcas anteriores de temperatura global. O planeta já não está apenas se aproximando de uma zona de perigo: começa a operar fora dos parâmetros que orientaram nossa agricultura, nossas cidades e nossos sistemas de proteção social.

O El Niño é natural; a vulnerabilidade social, a dependência dos combustíveis fósseis e o despreparo governamental não são. Quando um fenômeno climático inevitável encontra um sistema econômico que continua queimando carvão, petróleo e gás como se a atmosfera fosse um depósito gratuito de resíduos, a catástrofe deixa de ser exclusivamente natural e passa a ser também uma escolha política. O “espantoso” El Niño descrito pelo The Guardian talvez seja uma prévia do clima que estamos fabricando — e uma demonstração de que a conta dessa fabricação será distribuída de maneira profundamente desigual.

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa

A vida silvestre e a saúde humana estão ameaçadas, dizem os cientistas, enquanto a Syngenta aceita “uma demanda inegável” da sociedade por mudanças

Jorge Casado recolhe uma amostra de água de um riacho. Foto: Jonathan Findalen / Greenpeace

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa, segundo um estudo. Os cientistas dizem que a contaminação é perigosa para a vida selvagem e pode aumentar o desenvolvimento de micróbios resistentes a drogas.

Mais de 100 agrotóxicos e 21 medicamentos foram detectados nas 29  vias aquáticas analisadas em 10 países europeus, incluindo o Reino Unido. Um quarto dos produtos químicos identificados são proibidos, enquanto metade dos corpos aquáticos analisados tinham pelo menos um pesticida acima dos níveis permitidos.

Os pesquisadores disseram que o alto número de agrotóxicos e drogas encontrados significa que misturas complexas estavam presentes no ambiente, com impactos ainda desconhecidos.  Agrotóxicos são reconhecidos como um fator na queda livre de populações de muitos insetos e das aves que dependem deles para a alimentação. O fato dos inseticidas estariam poluindo os rios ingleses já sido determinado em 2017.

“A importância do nosso novo trabalho é demonstrar a prevalência de substâncias químicas biologicamente ativas em cursos de água em toda a Europa”, disse Paul Johnston, nos laboratórios de pesquisa do Greenpeace na Universidade de Exeter. “Existe o potencial para efeitos ecossistêmicos.”

A pesquisa, publicada na revista Science of the Total Environment, encontrou herbicidas, fungicidas e inseticidas, assim como antimicrobianos usados na pecuária. O risco para as pessoas de resistência aos medicamentos antimicrobianos é bem conhecido, mas Johnston destacou a resistência aos fungicidas também. “Existem algumas infecções fúngicas muito desagradáveis que estão aumentando bastante em hospitais”, disse ele.

Uma das maiores fabricantes de pesticidas do mundo, a Syngenta, anunciou uma “grande mudança na estratégia global” na segunda-feira, para levar em conta as preocupações da sociedade e reduzir os resíduos no meio ambiente.

“Há uma demanda inegável para uma mudança em nossa indústria”, disse Alexandra Brand, diretora de sustentabilidade da Syngenta. “Vamos colocar nossa inovação mais fortemente a serviço das fazendas tornarem-se resilientes às mudanças climáticas e melhor adaptadas às exigências dos consumidores, incluindo a redução das emissões de carbono e a reversão da erosão do solo e do declínio da biodiversidade”.

Outra grande fabricante de pesticidas, a Bayer, disse na segunda-feira que tornava públicos todos os 107 estudos submetidos aos reguladores europeus sobre a segurança de seu controverso herbicida glifosato.

A transparência é um catalisador para a confiança, portanto, mais transparência é uma coisa boa para consumidores, políticos e empresas”, disse Liam Condon, presidente da Bayer Crop Science. Em março, um júri federal dos EUA descobriu que o herbicida, conhecido como Roundup, era um fator substancial para causar o câncer de um homem na Califórnia.

As técnicas de teste usadas na nova pesquisa permitiram detectar apenas um subconjunto de agrotóxicos. Dois  agrotóxicos muito comuns – glifosato e clorotalonil – não foram incluídos no estudo, o que significa que os resultados representam um nível mínimo de contaminação. A pesquisa concentrou-se em riachos, já que estes abrigam uma grande proporção de vida selvagem aquática.

A detecção de diversos agrotóxicos que já foram proibidos  há bastante tempo não foi necessariamente devido ao uso ilegal continuado, disseram os cientistas, mas pode ser o resultado da lixiviação de produtos químicos persistentes que permaneceram nos solos. O estudo foi realizado antes que os inseticidas mais utilizados fossem banidos pela União Europeia para todos os usos ao ar livre.

A Irish Water disse na segunda-feira que os níveis de permitidos de agrotóxicos da UE estavam sendo violados no abastecimento público de água em toda a Irlanda. Na Suíça, outro novo estudo descobriu que os solos em 93% das fazendas orgânicas estavam contaminados com inseticidas, assim como 80% das áreas que os agricultores reservaram para a vida selvagem.

Uma pesquisa revelou em 2013 que os inseticidas foram devastadoras sobre libélulas, caracóis e outras espécies que vivem em corpos aquáticos na Holanda. A poluição era tão severa em lugares que a água da vala em si poderia ter sido usada como agrotóxico. Um estudo realizado na França em 2017 descobriu que praticamente todas as fazendas poderiam reduzir o uso de pesticidas enquanto produziam a mesma quantidade de comida.

Johnston disse: “Os agricultores não querem poluir os rios, e as companhias de água não querem remover toda essa poluição, por isso temos que trabalhar para reduzir a dependência de agrotóxicos e medicamentos veterinários por meio de uma agricultura mais sustentável. Este não é um caso de nós contra agricultores ou empresas de água. ”

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]