Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa

A vida silvestre e a saúde humana estão ameaçadas, dizem os cientistas, enquanto a Syngenta aceita “uma demanda inegável” da sociedade por mudanças

Jorge Casado recolhe uma amostra de água de um riacho. Foto: Jonathan Findalen / Greenpeace

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do “The Guardian”

Agrotóxicos e antibióticos estão poluindo corpos aquáticos em toda a Europa, segundo um estudo. Os cientistas dizem que a contaminação é perigosa para a vida selvagem e pode aumentar o desenvolvimento de micróbios resistentes a drogas.

Mais de 100 agrotóxicos e 21 medicamentos foram detectados nas 29  vias aquáticas analisadas em 10 países europeus, incluindo o Reino Unido. Um quarto dos produtos químicos identificados são proibidos, enquanto metade dos corpos aquáticos analisados tinham pelo menos um pesticida acima dos níveis permitidos.

Os pesquisadores disseram que o alto número de agrotóxicos e drogas encontrados significa que misturas complexas estavam presentes no ambiente, com impactos ainda desconhecidos.  Agrotóxicos são reconhecidos como um fator na queda livre de populações de muitos insetos e das aves que dependem deles para a alimentação. O fato dos inseticidas estariam poluindo os rios ingleses já sido determinado em 2017.

“A importância do nosso novo trabalho é demonstrar a prevalência de substâncias químicas biologicamente ativas em cursos de água em toda a Europa”, disse Paul Johnston, nos laboratórios de pesquisa do Greenpeace na Universidade de Exeter. “Existe o potencial para efeitos ecossistêmicos.”

A pesquisa, publicada na revista Science of the Total Environment, encontrou herbicidas, fungicidas e inseticidas, assim como antimicrobianos usados na pecuária. O risco para as pessoas de resistência aos medicamentos antimicrobianos é bem conhecido, mas Johnston destacou a resistência aos fungicidas também. “Existem algumas infecções fúngicas muito desagradáveis que estão aumentando bastante em hospitais”, disse ele.

Uma das maiores fabricantes de pesticidas do mundo, a Syngenta, anunciou uma “grande mudança na estratégia global” na segunda-feira, para levar em conta as preocupações da sociedade e reduzir os resíduos no meio ambiente.

“Há uma demanda inegável para uma mudança em nossa indústria”, disse Alexandra Brand, diretora de sustentabilidade da Syngenta. “Vamos colocar nossa inovação mais fortemente a serviço das fazendas tornarem-se resilientes às mudanças climáticas e melhor adaptadas às exigências dos consumidores, incluindo a redução das emissões de carbono e a reversão da erosão do solo e do declínio da biodiversidade”.

Outra grande fabricante de pesticidas, a Bayer, disse na segunda-feira que tornava públicos todos os 107 estudos submetidos aos reguladores europeus sobre a segurança de seu controverso herbicida glifosato.

A transparência é um catalisador para a confiança, portanto, mais transparência é uma coisa boa para consumidores, políticos e empresas”, disse Liam Condon, presidente da Bayer Crop Science. Em março, um júri federal dos EUA descobriu que o herbicida, conhecido como Roundup, era um fator substancial para causar o câncer de um homem na Califórnia.

As técnicas de teste usadas na nova pesquisa permitiram detectar apenas um subconjunto de agrotóxicos. Dois  agrotóxicos muito comuns – glifosato e clorotalonil – não foram incluídos no estudo, o que significa que os resultados representam um nível mínimo de contaminação. A pesquisa concentrou-se em riachos, já que estes abrigam uma grande proporção de vida selvagem aquática.

A detecção de diversos agrotóxicos que já foram proibidos  há bastante tempo não foi necessariamente devido ao uso ilegal continuado, disseram os cientistas, mas pode ser o resultado da lixiviação de produtos químicos persistentes que permaneceram nos solos. O estudo foi realizado antes que os inseticidas mais utilizados fossem banidos pela União Europeia para todos os usos ao ar livre.

A Irish Water disse na segunda-feira que os níveis de permitidos de agrotóxicos da UE estavam sendo violados no abastecimento público de água em toda a Irlanda. Na Suíça, outro novo estudo descobriu que os solos em 93% das fazendas orgânicas estavam contaminados com inseticidas, assim como 80% das áreas que os agricultores reservaram para a vida selvagem.

Uma pesquisa revelou em 2013 que os inseticidas foram devastadoras sobre libélulas, caracóis e outras espécies que vivem em corpos aquáticos na Holanda. A poluição era tão severa em lugares que a água da vala em si poderia ter sido usada como agrotóxico. Um estudo realizado na França em 2017 descobriu que praticamente todas as fazendas poderiam reduzir o uso de pesticidas enquanto produziam a mesma quantidade de comida.

Johnston disse: “Os agricultores não querem poluir os rios, e as companhias de água não querem remover toda essa poluição, por isso temos que trabalhar para reduzir a dependência de agrotóxicos e medicamentos veterinários por meio de uma agricultura mais sustentável. Este não é um caso de nós contra agricultores ou empresas de água. ”

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]

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