Cinema na UENF: antes de anunciar cursos, é preciso construir o Colégio de Aplicação

Ao anunciar um curso técnico de Cinema e Audiovisual para uma unidade cujo projeto pedagógico ainda não foi discutido pelos colegiados, a Reitoria da UENF corre o risco de inverter prioridades e transformar o legado de Darcy Ribeiro em justificativa para decisões que deveriam resultar de planejamento, debate acadêmico e construção coletiva.

A declaração da reitora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Rosana Rodrigues, durante a abertura do II Festival Internacional Goitacá de Cinema, merece ser examinada com atenção. Segundo a reitora, Campos dos Goytacazes deverá ganhar “em breve” um curso técnico de Cinema e Audiovisual, a ser instalado no Colégio Universitário de Aplicação da Uenf, que deverá funcionar nas instalações da antiga Escola Agrícola Antônio Sarlo. Na mesma ocasião, Rosana Rodrigues vinculou a iniciativa ao desejo de Darcy Ribeiro de implantar uma Escola de Cinema na Universidade e afirmou que, nos primeiros anos da Uenf, talvez tenha faltado “maturidade suficiente” para acolher aquele projeto.

A possibilidade de a UENF desenvolver atividades permanentes nas áreas de cinema e audiovisual pode, em princípio, ser recebida positivamente. A universidade nasceu sob a inspiração de Darcy Ribeiro, que efetivamente pretendia incorporar uma Escola de Cinema ao projeto institucional que havia concebido. Recuperar essa dimensão cultural e educacional da proposta original pode representar um enriquecimento da UENF e produzir impactos importantes para Campos dos Goytacazes e para o Norte Fluminense. O problema, portanto, não está necessariamente na ideia de criar um curso técnico de Cinema e Audiovisual, mas na forma pela qual sua criação está sendo anunciada e, sobretudo, na aparente inversão da ordem que deveria orientar uma decisão dessa natureza.

A primeira pergunta a ser feita é bastante simples: qual Colégio de Aplicação receberá esse curso? A questão evidentemente não diz respeito à existência de um prédio, pois o espaço físico existe e foi incorporado à Uenf. O que ainda precisa ser estabelecido é qual instituição educacional deverá existir dentro dele. Até onde essa questão foi discutida nos colegiados da Universidade, ainda não existe um projeto político-pedagógico amplamente debatido que estabeleça claramente qual será a natureza do Colégio Universitário de Aplicação, quais serão seus objetivos educacionais, que níveis e modalidades de ensino oferecerá, qual será sua relação com os cursos de graduação e pós-graduação, como serão incorporadas as atividades de pesquisa e extensão e, principalmente, que papel essa nova unidade deverá desempenhar na formação de professores e na experimentação pedagógica.

É justamente a ausência dessa definição institucional construída coletivamente que torna particularmente estranho o anúncio de que um curso técnico específico deverá funcionar “em breve” no Colégio de Aplicação. A questão que se coloca é elementar: como definir um curso que fará parte de uma instituição cuja concepção pedagógica ainda não foi estabelecida? Quando a ordem é essa, surge a impressão de que primeiro se definem cursos, atividades e ocupações do espaço físico e, posteriormente, procura-se construir um projeto pedagógico capaz de acomodar decisões previamente tomadas.

Primeiro o curso, depois o projeto pedagógico?

Um Colégio de Aplicação não deveria ser simplesmente um edifício pertencente a uma universidade no qual diferentes cursos são instalados à medida que aparecem oportunidades ou interesses circunstanciais. Historicamente, os colégios de aplicação vinculados às universidades públicas brasileiras possuem funções muito mais complexas, pois, além de oferecerem educação básica, constituem espaços de formação inicial e continuada de professores, realização de estágios, desenvolvimento e avaliação de metodologias pedagógicas, pesquisa educacional, extensão universitária e experimentação de novas práticas de ensino. Sua própria existência pressupõe, portanto, uma articulação orgânica entre educação básica e universidade.

Por essa razão, a discussão sobre quais cursos e modalidades de ensino deverão funcionar em seu interior deveria decorrer de seu projeto pedagógico, e não antecedê-lo. Não se trata, novamente, de ser contrário à criação de um curso técnico de Cinema e Audiovisual, mas de perguntar de qual concepção de Colégio de Aplicação esse curso resulta e qual função deverá cumprir dentro de um projeto educacional mais amplo. Seria necessário saber como essa formação dialogará com a educação básica, que centros, laboratórios e cursos da  Uenf participarão de sua concepção, quem constituirá seu corpo docente, quais serão suas instalações e equipamentos, qual será sua matriz curricular, como será financiado, qual será a forma de ingresso dos estudantes e de que maneira se relacionará com pesquisa, extensão e formação de professores.

Essas não são questões burocráticas que possam ser resolvidas depois. Elas constituem precisamente aquilo que diferencia a criação de uma instituição educacional da simples abertura de um curso. Se o futuro Colégio de Aplicação pretende ser efetivamente uma unidade universitária de educação, pesquisa, extensão, formação docente e experimentação pedagógica, sua identidade precisa preceder a definição das atividades que serão colocadas dentro dele.

A Escola de Cinema que Darcy realmente imaginou

A referência feita pela reitora ao desejo de Darcy Ribeiro de criar uma Escola de Cinema acrescenta uma dimensão particularmente importante ao problema. Nesse caso, sequer precisamos especular sobre o que Darcy pensava, porque ele deixou isso registrado. Em abril de 1996, no artigo “A universidade do 3º milênio“, publicado na Folha de S.Paulo, Darcy fez um balanço extremamente revelador da Universidade que havia ajudado a conceber e confirmou seu empenho na implantação de uma Escola de Cinema e Televisão.

Mas há um detalhe fundamental: a Escola de Cinema não aparece isoladamente no pensamento de Darcy. No mesmo texto, ele menciona outros projetos para os quais havia buscado recursos, entre eles o Herbarium, um Seminário de Estudos Internacionais e uma Faculdade de Educação e Comunicação, esta última relacionada à formação de professores e à articulação entre educação, comunicação, informática e meios audiovisuais. A Escola de Cinema, portanto, integrava uma arquitetura institucional muito mais abrangente e estava relacionada a uma determinada concepção sobre o papel que a Uenf deveria desempenhar na produção do conhecimento, na formação profissional e no desenvolvimento da sociedade.

Esse contexto é particularmente importante porque impede que a referência à antiga Escola de Cinema seja reduzida à ideia de que “Darcy queria cinema na Uenf”. Evidentemente queria, mas a pergunta relevante é por que queria, de que maneira pretendia institucionalizar essa proposta e como ela se articulava ao restante da Universidade que estava concebendo. Retirar a Escola de Cinema dessa arquitetura intelectual e institucional e transformá-la simplesmente em antecedente histórico de um curso técnico contemporâneo significa correr o risco de preservar a ideia enquanto se perde o método que lhe dava sentido.

O fracasso anterior também precisa ser estudado

Há ainda uma questão que não deveria ser evitada: por que a Escola de Cinema imaginada nos primeiros anos da  Uenf  não conseguiu se consolidar? A tentativa não fracassou simplesmente por ausência de ambição intelectual ou pela inexistência de pessoas qualificadas. Nomes reconhecidos do campo cinematográfico como Geraldo Sarno e Orlando Sena foram atraídos para participar daquele projeto. Ainda assim, a Escola de Cinema não se institucionalizou. Por isso, afirmar que teria faltado “maturidade suficiente” à  universidade para acolher a Escola de Cinema parece uma explicação excessivamente simples para um processo que merece ser estudado com muito mais cuidado. Faltaram condições institucionais? Houve problemas de financiamento? O projeto encontrou dificuldades para se integrar à estrutura acadêmica que estava sendo construída? Existiam conflitos entre diferentes concepções sobre o perfil da nascente Universidade? Houve obstáculos para constituir e manter um corpo permanente de professores, técnicos e pesquisadores? Que papel desempenharam as escolhas administrativas feitas naquele momento?

Responder a essas perguntas não representa um exercício de arqueologia institucional. Ao contrário, constitui uma condição importante para que uma nova iniciativa não reproduza dificuldades já experimentadas pela própria Universidade. Uma instituição que pretende recuperar um projeto fracassado deveria começar estudando as razões de seu fracasso. A experiência histórica só se transforma em aprendizado quando seus problemas são examinados, e não quando são convertidos em uma narrativa simplificada sobre oportunidades que teriam sido perdidas.

Não existia em Darcy uma lógica de “criação pela criação”

Há, portanto, um risco de que a invocação da figura de Darcy Ribeiro acabe substituindo uma análise mais cuidadosa da própria experiência histórica da UENF. Recuperar o nome de Darcy sem recuperar o método pelo qual ele pensava a construção institucional pode produzir uma espécie de “darcynismo” meramente cerimonial, no qual determinadas ideias do fundador são lembradas quando ajudam a legitimar iniciativas da administração, enquanto outras dimensões fundamentais de seu pensamento deixam de orientar concretamente as práticas de gestão.

Darcy Ribeiro possuía, sem dúvida, um espírito arrojado e não hesitava em propor instituições e experiências educacionais inovadoras. Mas dificilmente conceberia a criação de uma nova estrutura acadêmica como um fim em si mesmo, desvinculada dos objetivos estratégicos atribuídos à Uenf e de sua contribuição para o desenvolvimento econômico, social, científico, educacional e cultural do Norte Fluminense.  A ousadia de Darcy Ribeiro não deveria ser confundida, portanto, com uma espécie de método de “criação pela criação”. Ao contrário, a inovação institucional concebida por Darcy estava associada a uma determinada visão de universidade e à função transformadora que esta deveria desempenhar sobre o território em que estava inserida.

O próprio artigo de 1996 reforça essa interpretação. Darcy descrevia a Uenf como uma universidade concebida para preparar o Brasil para dominar as ciências e tecnologias que estruturariam o futuro.  Para Darcy, a Uenf se tratava de uma universidade criada com finalidade estratégica e não de uma coleção de cursos ou estruturas independentes entre si. Por isso, se a atual administração pretende recorrer ao desejo de Darcy de criar uma Escola de Cinema para justificar a implantação de um curso técnico de Cinema e Audiovisual, deveria responder também a uma questão essencialmente darcyniana: de que maneira esse curso se articula com a missão estratégica da Uenf, com o projeto pedagógico ainda por construir de seu Colégio de Aplicação e com as necessidades econômicas, sociais, educacionais e culturais do Norte Fluminense?

O alerta de Darcy sobre os órgãos-meio e os órgãos-fim

O artigo de 1996 contém ainda uma advertência que deveria receber atenção especial da atual administração. Ao fazer um balanço dos primeiros anos da universidade, Darcy Ribeiro reconheceu ter cometido aquilo que chamou de um “erro fatal” na estruturação institucional da UENF e lamentou o domínio dos órgãos-meio sobre os órgãos-fim. Mais significativo ainda, associou problemas institucionais ao afastamento de professores que haviam sido atraídos para Campos dos Goytacazes justamente para implantar laboratórios de pesquisa e programas de pós-graduação. Essa reflexão estabelece uma conexão direta com outra advertência conhecida de Darcy Ribeiro, feita na aula inaugural da universidade. Naquela ocasião, ele alertou a comunidade universitária para que não se deixasse inebriar pelos prédios novos, laboratórios, equipamentos e demais estruturas materiais que estavam sendo construídas. O essencial eram as pessoas, pois uma universidade não existe simplesmente porque possui edifícios e equipamentos; ela existe porque uma comunidade de professores, técnicos, estudantes e trabalhadores a constrói diariamente.

As duas reflexões precisam ser lidas conjuntamente. O Darcy  Ribeiro de 1996 já havia aprendido, a partir da própria experiência da Uenf , que estruturas administrativas inadequadas poderiam comprometer projetos acadêmicos e afastar justamente as pessoas necessárias para realizá-los.  A advertência de Darcy sobre prédios e equipamentos, portanto, não era uma frase ornamental sobre a importância abstrata das pessoas.  Essa advertência continha a defesa de uma concepção profundamente institucional sobre como universidades são construídas e sobre o lugar que sua comunidade acadêmica deve ocupar nesse processo.

Um prédio não é um Colégio de Aplicação

No caso do Colégio de Aplicação, essa advertência assume uma atualidade evidente. A incorporação da antiga Escola Agrícola Antônio Sarlo oferece à UENF um patrimônio físico importante e abre possibilidades educacionais igualmente relevantes, mas possuir o espaço físico não significa possuir um Colégio de Aplicação. Para que este efetivamente exista, será necessário construí-lo acadêmica e pedagogicamente, definindo coletivamente suas finalidades antes de simplesmente ocupá-lo administrativamente.

Isso pressupõe discutir sua concepção dentro da Uenf , ouvir seus centros e colegiados, envolver os professores que trabalham com educação, incorporar as licenciaturas, os servidores técnico-administrativos e os estudantes e dialogar com os setores da sociedade que serão diretamente afetados pela criação da nova instituição.  Assim, será somente a partir dessa construção coletiva será possível definir de maneira coerente quais cursos, modalidades de ensino e atividades deverão integrá-lo.

A questão assume ainda maior importância porque um Colégio de Aplicação não deveria funcionar como espaço residual para acomodar iniciativas que não encontram lugar na estrutura existente da Universidade. A criação de um colégio de aplicação deverá representar uma oportunidade para a Uenf pensar sua relação com a educação básica, com a formação docente e com os desafios educacionais do Norte Fluminense. Desperdiçar essa oportunidade pela ausência de um projeto pedagógico construído coletivamente seria transformar uma iniciativa potencialmente estratégica em simples ocupação de um novo espaço físico.

A melhor homenagem a Darcy é praticar Darcy

Um festival internacional de cinema pode representar uma excelente oportunidade cultural para Campos dos Goytacazes e para a própria Uenf .   Um evento deste tipo pode aproximar a  universidade de cineastas, produtores, estudantes e movimentos culturais e estimular uma discussão séria sobre a presença do audiovisual na instituição. Da mesma forma, um curso técnico de Cinema e Audiovisual poderá perfeitamente vir a fazer parte do futuro Colégio de Aplicação e poderá se transformar em uma iniciativa inovadora e relevante para o Norte Fluminense. Mas um festival não substitui um projeto acadêmico, assim como a memória de uma Escola de Cinema imaginada por Darcy Ribeiro não constitui, por si mesma, um projeto pedagógico para um curso técnico de Cinema e Audiovisual.

Se a atual gestão da Uenf deseja realmente recuperar o espírito do projeto de Darcy, deveria começar justamente por sua recomendação mais elementar: colocar as pessoas no centro da construção da universidade. Na prática, isso significa substituir a lógica do anúncio pela lógica da discussão, decisões apresentadas como encaminhadas pela elaboração colegiada e a simples ocupação de espaços físicos pela construção de instituições acadêmicas dotadas de identidade, finalidade e legitimidade. O curso de Cinema e Audiovisual poderá surgir desse processo, mas deveria chegar como consequência de uma concepção educacional previamente construída, e não aparecer no início como um fato aparentemente consumado ao qual o futuro projeto pedagógico terá de se adaptar.

Em minha opinião, existe aí uma ironia histórica que não deveria passar despercebida. No mesmo artigo de 1996 em que reafirmava seu compromisso com a criação da Escola de Cinema, Darcy Ribeiro fazia uma dura autocrítica sobre escolhas realizadas na implantação da Uenf. Ele demonstrava, assim, que fidelidade a um projeto não significa repetir indefinidamente suas ideias originais, mas possuir capacidade para aprender com seus erros, rever caminhos e preservar os objetivos fundamentais que justificaram sua criação.

Por isso, a melhor homenagem que os atuais gestores da Uenf podem prestar a Darcy Ribeiro não consiste em repetir seu nome em cerimônias, recuperar seletivamente seus projetos inconclusos ou transformar suas ideias em justificativas históricas para decisões presentes. Consiste em praticar aquilo que Darcy ensinou: construir instituições com finalidade estratégica, submeter grandes projetos ao debate, colocar os órgãos-fim acima dos órgãos-meio e reconhecer que nenhuma universidade se sustenta apenas por prédios, equipamentos ou anúncios. Se a Uenf pretende continuar sendo a universidade que Darcy imaginou para transformar o Norte Fluminense e contribuir para o desenvolvimento do país, será preciso lembrar que uma universidade não é aquilo que seus gestores anunciam que ela será, mas aquilo que sua comunidade universitária consegue construir coletivamente todos os dias.

Há, finalmente, um problema de credibilidade institucional que não pode ser ignorado: anunciar publicamente para “em breve” a criação de um curso quando  ainda não foram cumpridos passos elementares para sua concretização — começando pela discussão colegiada do próprio projeto pedagógico da unidade que deverá abrigá-lo — cria expectativas que a universidade poderá não ser capaz de cumprir nos prazos sugeridos. Quando anúncios antecedem projetos, decisões colegiadas, condições acadêmicas e planejamento institucional, há a criação objetiva do risco de transformar iniciativas potencialmente relevantes em promessas e, pela repetição desse procedimento, comprometer a confiança da própria comunidade universitária e da sociedade na palavra institucional da universidade.

A Universidade do Terceiro Milênio ou a universidade neoliberal?

A discussão sobre a Taxonomia de Bloom revela um dilema muito mais profundo: a Uenf permanecerá fiel ao projeto universitário concebido por Darcy Ribeiro ou adotará, de forma crescente, a lógica gerencial que transforma professores em executores de protocolos e indicadores?

Recentemente, li com atenção o tutorial Elaboração e Cadastro de Disciplinas no Sistema Acadêmico, elaborado pela Pró-Reitoria de Graduação (ProGrad) da Universidade Estaudla do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O documento busca orientar os docentes na elaboração dos programas analíticos das disciplinas e oferece contribuições importantes para organizar ementas, conteúdos programáticos, bibliografias e procedimentos administrativos. À primeira vista se trata de um esforço legítimo de qualificação da gestão acadêmica. Mas foi justamente essa leitura que despertou uma reflexão que extrapola o próprio documento. Ao estabelecer que os objetivos das disciplinas devem ser formulados utilizando verbos da Taxonomia de Bloom, o tutorial transforma uma ferramenta pedagógica em referência normativa para a elaboração dos programas das disciplinas.

Faço questão de deixar claro que esta reflexão não constitui uma crítica à Taxonomia de Bloom. Ao contrário, ela permanece uma das contribuições mais importantes para o planejamento pedagógico produzidas no século XX e continua sendo extremamente útil para milhares de professores em todo o mundo. O problema começa quando uma ferramenta de apoio deixa de ser uma possibilidade metodológica entre várias existentes e passa a funcionar como linguagem institucional obrigatória. Nesse momento, a discussão deixa de ser exclusivamente pedagógica e passa a envolver a própria concepção de universidade que estamos construindo.

A universidade pública sempre se caracterizou pelo pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas. Professores organizam suas disciplinas a partir de referenciais distintos, formulam objetivos educacionais de maneiras diferentes e constroem estratégias de ensino compatíveis com suas áreas de conhecimento. Essa diversidade não representa uma deficiência administrativa; ela constitui uma das expressões concretas da liberdade de cátedra assegurada pela Constituição Federal e uma condição indispensável para a produção de conhecimento crítico.

Entretanto, essa autonomia passou a conviver, nas últimas décadas, com uma lógica institucional bastante diferente. Desde os anos 1990, universidades em praticamente todo o mundo passaram por reformas inspiradas na chamada Nova Gestão Pública (New Public Management). Inicialmente apresentadas como mecanismos para aumentar a eficiência do setor público, essas reformas introduziram nas universidades princípios oriundos da administração empresarial, como indicadores de desempenho, metas, competências, auditorias, plataformas digitais e procedimentos padronizados.

Nenhum desses instrumentos parece problemático quando considerado isoladamente. O problema surge quando eles passam a reorganizar o cotidiano universitário. A atividade docente começa a ser mediada por novos formulários, novos indicadores, novos protocolos, novos sistemas digitais e novos critérios de avaliação. Cada uma dessas mudanças pode parecer tecnicamente justificável. Em conjunto, porém, elas alteram profundamente a cultura institucional. O tempo dedicado ao planejamento pedagógico, à reflexão científica e ao acompanhamento dos estudantes passa a disputar espaço com o preenchimento de plataformas digitais, a produção permanente de registros administrativos e a necessidade de demonstrar conformidade com protocolos institucionais. A atividade intelectual vai sendo reorganizada segundo critérios administrativos.

Foi exatamente esse processo que Marilena Chauí descreveu ao formular a ideia da universidade operacional. Segundo a filósofa, a universidade deixa gradualmente de se orientar pela produção crítica do conhecimento e passa a organizar suas atividades segundo critérios de eficiência, produtividade e desempenho.  Já Stephen Ball identifica movimento semelhante ao analisar aquilo que denomina cultura da performatividade, na qual a confiança na autonomia profissional dos docentes cede lugar a indicadores destinados a medir, comparar e auditar continuamente seu desempenho. O centro da atividade universitária desloca-se do conteúdo do trabalho acadêmico para a produção de evidências documentais de que esse trabalho atende aos padrões previamente estabelecidos.

É justamente nesse contexto que a Taxonomia de Bloom muda de função. Benjamin Bloom jamais concebeu sua taxonomia como mecanismo de controle institucional.  A intenção de Bloom era oferecer aos professores um instrumento para refletir sobre diferentes níveis de aprendizagem. No ambiente da universidade gerencializada, porém, essa ferramenta passa a facilitar a padronização dos programas das disciplinas, a produção de documentos comparáveis e a redução da diversidade de linguagens pedagógicas.  Com isso, Bloom deixa de ser apenas uma ferramenta didática para integrar uma tecnologia de gestão.

Não creio que esse tenha sido o objetivo da ProGrad ao elaborar seu tutorial. Ao contrário, o documento demonstra uma preocupação legítima com a qualidade dos programas das disciplinas e com a organização institucional. O problema reside no fato de que essa racionalidade gerencial tornou-se tão naturalizada nas universidades que frequentemente deixa de ser percebida como uma escolha política. Como argumentam Pierre Dardot e Christian Laval em A Nova Razão do Mundo, o neoliberalismo não constitui apenas um conjunto de políticas econômicas. Ele representa uma racionalidade que reorganiza instituições inteiras segundo princípios de competição, mensuração, desempenho e controle, apresentando essas transformações como se fossem meramente técnicas e inevitáveis.

Uma universidade pública precisa, evidentemente, de organização institucional. Precisa de programas consistentes, ementas claras, bibliografias atualizadas e critérios transparentes de avaliação. Mas organização não deve significar uniformização pedagógica. Talvez bastasse uma pequena alteração na redação do tutorial para preservar esse equilíbrio. Em vez de afirmar que os objetivos das disciplinas devem utilizar a Taxonomia de Bloom, seria suficiente reconhecê-la como uma referência pedagógica recomendada, entre outras igualmente legítimas.

Ao final dessa reflexão, contudo, permanece uma questão que ultrapassa em muito a redação dos objetivos de uma disciplina. Ela nos remete ao próprio projeto de universidade que desejamos construir. Darcy Ribeiro imaginou a Uenf como a Universidade do Terceiro Milênio: uma instituição inovadora, interdisciplinar, voltada para a produção de conhecimento de fronteira e comprometida com a transformação da realidade brasileira. Nada indica que Darcy rejeitasse planejamento, organização administrativa ou mecanismos de avaliação.  A trajetória de Darcy demonstra exatamente o contrário. O que parece muito menos compatível com seu pensamento é a substituição gradual da confiança na autonomia intelectual de seus professores por uma cultura baseada em protocolos, indicadores, plataformas digitais, métricas de desempenho e padronizações administrativas. Essa talvez seja uma das manifestações mais discretas — e justamente por isso mais eficazes — da racionalidade neoliberal nas universidades públicas. Ela não elimina formalmente a liberdade de cátedra, mas tende a restringi-la por meio da normalização das práticas acadêmicas.

Desta forma, se a Uenf pretende permanecer fiel ao projeto concebido por Darcy Ribeiro, precisará perguntar continuamente se cada nova norma, cada novo protocolo e cada novo sistema fortalecem a criatividade científica e a liberdade intelectual ou se aproximam a instituição dos cânones da universidade neoliberal. Essa talvez seja a pergunta mais importante que a comunidade universitária precisa enfrentar, porque dela depende não apenas a preservação da liberdade de cátedra, mas também a capacidade da Uenf de continuar sendo, no sentido mais profundo imaginado por Darcy Ribeiro, uma verdadeira Universidade do Terceiro Milênio.

Startups, inovação e muito otimismo: uma análise necessária sobre o futuro imaginado para a UENF

A aproximação entre universidades e empresas sempre fez parte do projeto concebido por Darcy Ribeiro para a UENF. O problema começa quando a inovação deixa de ser um instrumento de transformação social e passa a ocupar o lugar do próprio projeto de universidade

Uma entrevista recentemente publicada no portal da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) reacende uma discussão que acompanha a instituição desde sua criação, ainda que hoje apareça envolvida por uma linguagem mais contemporânea, marcada por expressões como inovação, empreendedorismo, propriedade intelectual, incubação e startups de base tecnológica. A entrevista deve ser entendida apenas como um ponto de partida, pois a visão nela expressa não é exclusiva de seu interlocutor nem da própria Uenf, mas representa uma concepção que ganhou crescente centralidade nas universidades brasileiras, nos organismos de fomento e nos governos, segundo a qual a aproximação com empresas e a capacidade de gerar novos negócios constituiriam indicadores privilegiados de modernização institucional e de impacto social. O verdadeiro tema, portanto, não é uma declaração específica, mas o significado progressivamente atribuído à inovação e o lugar que ela passou a ocupar no imaginário da universidade pública.

Não há razão para negar a importância dessa agenda, pois universidades públicas não devem permanecer isoladas da estrutura produtiva, indiferentes à aplicação do conhecimento ou satisfeitas com uma circulação acadêmica que raramente ultrapassa os limites dos congressos, periódicos e grupos especializados. A produção de tecnologias, a transferência de conhecimento, a proteção da propriedade intelectual e a formação de empresas capazes de transformar pesquisa científica em produtos e serviços socialmente úteis são objetivos legítimos, sobretudo em um país que historicamente investiu pouco na articulação entre ciência, indústria e desenvolvimento econômico. O problema começa quando esses instrumentos, por mais relevantes que sejam, deixam de ser apresentados como partes de uma missão mais ampla e passam a ocupar o lugar do próprio projeto universitário, adquirindo o estatuto de uma narrativa redentora capaz de resolver, quase por efeito cumulativo, o desemprego de mestres e doutores, a baixa intensidade tecnológica da economia brasileira, a fragilidade do desenvolvimento regional e talvez, com algum esforço adicional de publicidade institucional, quase todas as limitações históricas da universidade pública.

As universidades também produzem suas modas institucionais e, ao longo das últimas décadas, diferentes expressões foram apresentadas, cada uma a seu tempo, como chaves capazes de destravar problemas acumulados durante gerações. Houve o tempo da excelência, da internacionalização, da interdisciplinaridade, da sustentabilidade, da governança, da transformação digital e, mais recentemente, das startups e dos ecossistemas de inovação. Nenhuma dessas agendas é irrelevante, e muitas delas deixaram contribuições importantes, mas o inconveniente surge quando uma formulação legítima se transforma em explicação universal, dispensando a necessidade de examinar as condições históricas, econômicas e políticas que permitem ou impedem que seus objetivos sejam efetivamente alcançados. A realidade, como se sabe, costuma demonstrar menos entusiasmo do que os textos institucionais e geralmente exige mais do que a inauguração de incubadoras, a realização de eventos de empreendedorismo ou a contabilização de empresas nascentes.

A experiência internacional mostra que os grandes polos de inovação não surgiram simplesmente porque universidades decidiram criar startups em escala crescente. Regiões como o Vale do Silício, Boston, Cambridge ou os complexos tecnológicos asiáticos foram construídas por meio de longos processos que combinaram universidades fortes, financiamento público duradouro, empresas dispostas a investir em pesquisa e desenvolvimento, políticas industriais, compras governamentais, infraestrutura, capital de risco e uma estrutura produtiva capaz de incorporar conhecimento científico. As startups apareceram como resultado desse ecossistema, ainda que posteriormente também tenham contribuído para sua expansão. Imaginar o processo de forma inversa, como se a multiplicação de empresas nascentes produzisse automaticamente as condições estruturais que lhes deram origem em outros contextos, equivale a tomar o efeito pela causa e a esperar que o símbolo de um processo substitua o processo propriamente dito.

No caso brasileiro, o contraste é particularmente evidente, pois o país ampliou sua capacidade de formar mestres e doutores, consolidou grupos de pesquisa competitivos internacionalmente e desenvolveu instituições científicas de reconhecida qualidade, ao mesmo tempo que permaneceu marcado pela baixa intensidade tecnológica de parte expressiva de sua estrutura produtiva, pelo reduzido investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e por um processo de desindustrialização que limitou a demanda por profissionais altamente qualificados. A dificuldade de absorção de pesquisadores fora das universidades não decorre, portanto, apenas da ausência de cultura empreendedora entre os egressos ou de uma insuficiência de incubadoras, mas de uma economia que historicamente incorporou pouco conhecimento científico aos seus processos de produção. As startups podem criar oportunidades, gerar soluções relevantes e abrir novos caminhos profissionais, mas dificilmente absorverão o contingente de mestres e doutores formado anualmente ou compensarão, por iniciativa própria, décadas de fragilidade na política industrial, científica e tecnológica brasileira.

É justamente nesse ponto que a trajetória da Uenf oferece um contraponto especialmente fecundo, pois sua concepção original não nasceu da rejeição à inovação tecnológica ou à aproximação entre universidade e setor produtivo. Antes de definir a arquitetura institucional da nova universidade, Darcy Ribeiro visitou instituições de excelência científica, incluindo o California Institute of Technology, procurando compreender de que maneira pesquisa avançada, formação de alto nível, produção tecnológica e interação com empresas poderiam ser articuladas em um modelo universitário adequado às necessidades brasileiras.  A opção de Darcy de organizar a Uenf em torno de laboratórios de pesquisa, em vez de reproduzir integralmente a estrutura departamental tradicional, não constituiu simples escolha administrativa, mas refletiu a tentativa de construir uma instituição capaz de abordar problemas complexos por meio de formas igualmente complexas de organização do conhecimento.

Essa lembrança é importante porque impede que a crítica ao reducionismo contemporâneo seja confundida com uma defesa de uma universidade fechada em si mesma, hostil ao setor produtivo ou indiferente ao desenvolvimento tecnológico. Darcy Ribeiro reconhecia a necessidade de articular ciência, produção e desenvolvimento econômico, mas inseria essa articulação em um horizonte muito mais amplo, no qual a universidade deveria contribuir para a transformação do país, para a redução das desigualdades e para a formação de profissionais dotados não apenas de competência técnica, mas também de consciência cidadã. Na concepção da Universidade do Terceiro Milênio, inovação, excelência científica e aproximação com empresas eram componentes de um projeto histórico, e não substitutos desse projeto.

Também não há qualquer razão para transformar Darcy Ribeiro em uma espécie de deidade institucional ou em um fundador infalível cuja palavra devesse encerrar debates contemporâneos. O próprio Darcy provavelmente rejeitaria esse papel com a irreverência que marcou sua trajetória, até porque tinha plena consciência de suas contradições, de seus excessos e dos limites de suas próprias escolhas.  A relevância de Darcy Ribeiro para este debate não decorre de uma suposta perfeição pessoal, mas da escala das perguntas que formulava e da nitidez de seu compromisso com a justiça social, com o desenvolvimento do Brasil e com a construção de instituições capazes de enfrentar desigualdades historicamente produzidas. O que permanece atual em seu pensamento não é a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas a recusa em reduzir a universidade a uma única função ou a um conjunto de instrumentos de gestão.

Darcy não pensava a universidade a partir das ferramentas que ela utilizava, mas da sociedade que desejava ajudar a construir. Essa distinção permite compreender por que a ligação com empresas, a inovação tecnológica e a produção de conhecimento aplicável eram desejáveis, sem jamais se converterem em fins autônomos. Startups, patentes, incubadoras, parques tecnológicos e acordos de cooperação são instrumentos, e instrumentos somente adquirem sentido quando subordinados a um projeto social, econômico e político mais amplo. O problema não está em utilizá-los, mas em permitir que sua visibilidade, sua capacidade de gerar indicadores e sua aderência à linguagem contemporânea da inovação acabem substituindo a discussão sobre os objetivos que deveriam orientar a universidade pública.

Essa questão assume importância ainda maior quando se considera o território para o qual a Uenf foi concebida.  A região Norte Fluminense não era, e continua não sendo, uma região desprovida de riqueza econômica, mas uma região historicamente incapaz de converter ciclos de prosperidade em desenvolvimento socialmente distribuído. A concentração fundiária, o predomínio secular da economia açucareira, a decadência de atividades tradicionais, a dependência das receitas petrolíferas, a implantação de grandes empreendimentos e a persistência de desigualdades profundas demonstram que produzir riqueza jamais foi suficiente. O desafio sempre consistiu em transformar recursos econômicos em capacidades sociais, diversificação produtiva, cidadania, educação, ciência e melhoria duradoura das condições de vida.

Foi para intervir nesse contexto que a Uenf foi criada. A instituição deveria formar quadros altamente qualificados, produzir ciência de excelência, contribuir para a modernização produtiva e oferecer à região Norte Fluminense uma base intelectual e tecnológica capaz de sustentar um processo de desenvolvimento menos desigual. A inovação fazia parte desse projeto, mas sua finalidade não se limitava ao aumento do número de empresas ou à ampliação da competitividade de determinados setores econômicos. Sua medida deveria ser também a capacidade de responder aos problemas concretos da região, fortalecendo políticas públicas, atividades produtivas socialmente inclusivas, serviços essenciais, sustentabilidade ambiental e mecanismos de redução das desigualdades.

É nesse sentido que a entrevista utilizada como ganchopara esta reflexão se torna reveladora menos pelo que afirma do que pelo que deixa de incluir em seu horizonte. A ênfase recai sobre empreendedorismo, empresas de base tecnológica, propriedade intelectual, incubação e aproximação com o mercado, enquanto temas como desenvolvimento regional, redução das desigualdades, formação cidadã e compromisso social aparecem ausentes ou, no mínimo, muito distantes do centro da narrativa. Não se trata de exigir que uma única entrevista contenha a totalidade do projeto universitário, mas de reconhecer que as escolhas discursivas revelam prioridades e que a repetição dessas escolhas pode indicar um estreitamento mais profundo na forma de conceber a inovação e o próprio papel da Uenf.

Esse estreitamento também pode ser observado na tendência de reconhecer como inovação, prioritariamente, aquilo que pode ser convertido em patente, empresa, produto ou modelo de negócios. Uma tecnologia voltada para fortalecer a agricultura familiar, um protocolo capaz de aperfeiçoar políticas de saúde, uma metodologia de recuperação ambiental, um sistema de gestão pública ou uma estratégia educacional podem transformar profundamente a vida social sem jamais produzir uma startup. Quando essas contribuições passam a ocupar um lugar secundário porque não se ajustam facilmente aos indicadores tradicionais da inovação mercadológica, não é a inovação que se torna maior, mas a universidade que corre o risco de ficar menor.

O uso de indicadores reforça essa mudança, pois é relativamente simples contar empresas incubadas, depósitos de patentes, contratos firmados e eventos realizados, embora seja muito mais difícil medir a contribuição de uma universidade para a redução das desigualdades, para a qualificação das políticas públicas, para o fortalecimento da cidadania ou para a construção de um projeto regional de desenvolvimento. Essa dificuldade não deveria servir de justificativa para abandonar objetivos mais amplos em favor daqueles que produzem números mais imediatos. Toda redução conceitual tende a gerar eficiência, facilitar a prestação de contas e tornar mais atraente a comunicação institucional, mas também pode produzir uma forma de cegueira quando transforma aquilo que é mais facilmente mensurável na única dimensão considerada relevante.

A aproximação com o setor produtivo, portanto, deve ser defendida, mas dentro de uma concepção na qual empresas sejam interlocutoras de uma universidade comprometida com a sociedade como um todo, e não destinatárias privilegiadas de sua missão. Uma universidade pública também dialoga com escolas, hospitais, agricultores, pescadores, servidores públicos, organizações comunitárias e grupos socialmente vulneráveis, pois seu papel não consiste apenas em converter conhecimento em riqueza, mas em transformá-lo em capacidade pública, qualidade de vida, justiça social e desenvolvimento humano. Essa amplitude não enfraquece a inovação, mas a retira de uma definição excessivamente estreita e a devolve ao terreno dos problemas concretos que justificam sua existência.

A Uenf não trai seu projeto original quando produz startups, protege tecnologias ou amplia sua interação com empresas, pois tudo isso pode contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento regional e para a criação de novas oportunidades. Ela corre o risco de se afastar desse projeto quando passa a acreditar que produzir startups resume sua razão de existir, substituindo uma concepção ampla de transformação social por um conjunto de instrumentos cuja relevância depende justamente dos objetivos aos quais estão subordinados. O desafio não consiste em escolher entre inovação e compromisso social, entre pesquisa básica e aplicação tecnológica ou entre universidade e setor produtivo, mas em recuperar a hierarquia que permite a essas dimensões coexistirem sem que uma delas ocupe o lugar de todas as demais.

A entrevista publicada pela Uenf talvez tenha produzido, assim, um efeito involuntariamente positivo ao recolocar em circulação uma pergunta que ultrapassa incubadoras, patentes, empresas nascentes e indicadores de desempenho. O verdadeiro debate diz respeito ao significado da universidade pública em uma sociedade profundamente desigual e ao papel que uma instituição concebida por Darcy Ribeiro deve desempenhar em uma região marcada por sucessivos ciclos de riqueza concentrada e desenvolvimento incompleto.

A aproximação com empresas e o estímulo à inovação tecnológica continuarão sendo componentes indispensáveis dessa missão, mas somente manterão seu sentido quando articulados ao compromisso com a justiça social, com a formação cidadã e com a construção de um projeto regional e nacional de desenvolvimento. A grande questão, portanto, não é saber se a Uenf deve produzir startups, mas se ela pode se dar ao luxo de esquecer por que e para quê foi criada.

A incorporação sem projeto: os riscos da absorção do Antônio Sarlo pela Uenf

Enquanto docentes acumulam sobrecarga e perdas salariais históricas, a Uenf assume novas funções sem apresentar um projeto claro de integração do Antônio Sarlo nem definir quem conduzirá a transição institucional 

O anúncio de que a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) assumirá a gestão do Colégio Técnico Estadual Antônio Sarlo foi apresentado pela reitoria como um “marco histórico” para a educação do Norte Fluminense. Mas, por trás da retórica triunfalista da notícia oficial, permanecem questões fundamentais sem resposta — e justamente as mais importantes para o futuro da própria Uenf e da escola incorporada.

A primeira delas é a ausência de um projeto institucional claro. O texto publicado pela universidade celebra a incorporação como um fim em si mesmo, mas praticamente não explica como essa absorção será operacionalizada nem de que maneira o Antônio Sarlo será integrado às atividades já desenvolvidas pela Uenf. Isso é especialmente grave porque a universidade possui uma estrutura fortemente baseada na articulação entre ensino, pesquisa e extensão, sobretudo através do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA).

A questão central, portanto, não é simplesmente “assumir” uma escola agrícola, mas definir qual será sua função dentro do projeto universitário. O Antônio Sarlo será apenas um colégio técnico administrado burocraticamente pela Uenf? Ou será transformado em escola de aplicação, espaço de formação integrada, laboratório de inovação agroecológica e extensão rural, articulado aos cursos de Agronomia, Zootecnia, Veterinária e licenciaturas? O silêncio da administração universitária sobre isso é eloquente.

Esse vazio estratégico chama ainda mais atenção porque o debate sobre a incorporação já se arrasta há muitos anos. Desde pelo menos 2011 discutia-se a possibilidade de anexar o Antônio Sarlo à estrutura universitária, inclusive com expectativas de transformá-lo em uma escola de aplicação vinculada à Uenf. No entanto, mais de uma década depois, continua nebuloso qual modelo acadêmico e administrativo efetivamente se pretende construir.

Outro aspecto preocupante é a forma pouco democrática com que o processo vem sendo conduzido. Uma decisão dessa magnitude deveria passar por amplo debate interno envolvendo centros, colegiados, sindicatos, técnicos, estudantes e docentes. Afinal, incorporar uma instituição de ensino básico e técnico modifica profundamente a natureza administrativa, pedagógica e financeira da universidade. Porém,  essa discussão foi restrita a pequenos círculos decisórios, sem a construção de um consenso real dentro da comunidade universitária.  Lembro ainda que quando esta questão foi discutida no Conselho Universitário, fui um dos poucos a problematizar as consequências dessa assimilação.

Isso produz uma sensação perigosa de fato consumado. A universidade é chamada a absorver novas responsabilidades sem que se saiba claramente quais serão os impactos orçamentários, administrativos e acadêmicos dessa decisão. Quem coordenará a transição? Qual estrutura administrativa será criada? Haverá orçamento adicional? Haverá contratação de professores doutores para realizar a transição? Quais setores assumirão as demandas pedagógicas e burocráticas? O texto oficial praticamente ignora essas perguntas.

A indefinição é particularmente séria porque a Uenf já enfrenta um quadro estrutural de sobrecarga funcional. Ao longo dos últimos anos, a universidade viu reduzir seu quadro técnico e docente sem reposição adequada, enquanto as exigências institucionais cresceram continuamente. Os professores acumulam ensino, orientação, pesquisa, extensão, administração e captação de recursos em condições cada vez mais precárias. Nesse contexto, a incorporação de uma nova estrutura educacional exige planejamento robusto — algo que não aparece no discurso institucional.

Além disso, há o problema da corrosão salarial. Os docentes da Uenf convivem há anos com perdas inflacionárias massivas,  estimadas pelo DIEESE como estando em torno de 60% até  o início deste mês, o que produz desmotivação, evasão de quadros qualificados e deterioração das condições de trabalho. Nesse cenário, soa contraditório que o governo estadual e a  reitoria da Uenf apresentem a expansão de responsabilidades como sinal de fortalecimento institucional, enquanto a própria universidade  continua sem um novo Plano de Cargos de Vencimentos e pagando salários baixos.

Existe aí uma contradição típica das políticas públicas contemporâneas: amplia-se a missão institucional sem ampliar proporcionalmente os meios materiais para executá-la. A expansão aparece como símbolo político de dinamismo administrativo, mas pode acabar aprofundando a precarização cotidiana dos trabalhadores responsáveis por sustentar a universidade.

Isso não significa negar a importância histórica do Antônio Sarlo. Ao contrário. A escola possui enorme relevância regional, trajetória histórica consolidada e potencial extraordinário para fortalecer a formação agrícola e tecnológica do Norte Fluminense. O problema é que esse potencial somente poderá ser realizado se houver um verdadeiro projeto acadêmico e social de integração, e não apenas uma transferência administrativa.

Uma incorporação conduzida sem planejamento, sem participação democrática e sem recomposição estrutural da universidade corre o risco de produzir um resultado perverso: fragilizar simultaneamente o Antônio Sarlo e a própria Uenf. Em vez de criar um polo articulado de formação técnica, pesquisa aplicada e extensão rural, pode-se acabar construindo apenas mais uma estrutura precarizada sustentada pelo voluntarismo e pela sobrecarga de servidores já exaustos.

No fundo, a questão central talvez seja esta: a incorporação do Antônio Sarlo servirá para fortalecer o projeto original de universidade concebido por Darcy Ribeiro — integrado ao desenvolvimento regional e à transformação social — ou será apenas mais um movimento administrativo improvisado em meio à crise permanente do ensino público fluminense? Hoje, infelizmente, os sinais apontam mais para a segunda hipótese do que para a primeira.

A Uenf entre a estratégia e a apatia

Da ambição de transformar o Norte Fluminense pela ciência ao risco da irrelevância institucional: o esvaziamento estratégico de uma universidade concebida para liderar o Terceiro Milênio

Quando cheguei à Uenf, no início de 1998, vivíamos um período de vacas relativamente magras sob o tacão de um governador cujos olhos pareciam fincados exclusivamente na capital — falo aqui de Marcelo Alencar —, em plena hegemonia da ideologia neoliberal, embora ela ainda não tivesse se infiltrado no tecido social com a profundidade que alcançou hoje.

Mas, apesar das dificuldades orçamentárias e dos prédios ainda inacabados — que seriam concluídos no governo seguinte, de Anthony Garotinho —, aquele era um período marcado por intensas visitas de políticos do primeiro escalão nacional, incluindo o futuro presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, além de importantes lideranças da comunidade científica brasileira, entre elas os presidentes das principais agências de fomento.

É claro que isso se devia, em grande medida, à presença de um quadro docente conectado ao topo da produção científica nacional, algo explicitado pela participação de diversos membros da Academia Brasileira de Ciências na Uenf, a começar por Helion Vargas e Vilmar Dias, entre outros.

Sem querer ser saudosista — mas já sendo —, aquele período inicial da minha trajetória na Uenf era marcado por intensos debates sobre como consolidar o projeto revolucionário concebido por Darcy Ribeiro, ancorado na pós-graduação e em um modelo vigoroso e ambicioso de iniciação científica. Foi esse modelo que, posteriormente, renderia à universidade dois prêmios nacionais reconhecendo a excelência da formação de jovens pesquisadores voltados ao desenvolvimento futuro da ciência brasileira.

Passados quase 30 anos, o que vejo é uma perda de visão e um esmaecimento da compreensão acerca do porquê do projeto formulado pelos fundadores da Uenf — liderados pelo irrequieto Darcy Ribeiro — precisar ser aprofundado e reafirmado como eixo orientador das ações estratégicas da instituição. Aliás, o que mais parece ter se perdido ao longo dessas três décadas é justamente o sentido estratégico atribuído por Darcy à Uenf: o de uma universidade instalada em uma região historicamente marcada pelo atraso social, econômico e tecnológico para atuar precisamente como instrumento de superação desse atraso no Norte Fluminense.

Sem visão estratégica, o que se vê hoje na Uenf é a adesão crescente a proposições que ignoram o horizonte de longo prazo e se limitam à lógica da tática imediata. Pior ainda: dissemina-se a ideia de que, para ser “útil”, a universidade deve apenas oferecer serviços, como se ciência e tecnologia pudessem ser reduzidas a mercadorias entregues no balcão, à moda de secos e molhados.

A consequência da hegemonia da tática sobre a estratégia é que a Uenf perdeu boa parte do protagonismo que marcou o seu nascimento. E o resultado disso é uma apatia interna em que desaparecem os elementos centrais da missão concebida por Darcy Ribeiro. Assim, no lugar de candidatos à Presidência da República, cientistas de ponta e dirigentes nacionais da ciência brasileira, o que se vê hoje são visitas esporádicas de políticos inexpressivos que aparecem para prometer migalhas incapazes de agregar qualquer densidade estratégica ao futuro da universidade.

Sou daqueles que acreditam que instituições são como a maré, com ondas que vão e vêm, alternando momentos altos e baixos. O problema é que universidades não podem se dar ao luxo de depender apenas das oscilações naturais do tempo histórico para reencontrar seu rumo. É preciso reação interna, lucidez coletiva e capacidade de reconstruir ciclos virtuosos. O risco de não fazer nada já foi demonstrado no caso da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo), extinta e transformada em campus da Uerj.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o futuro administrativo da Uenf, mas a sobrevivência do projeto histórico que lhe deu origem. Universidades não começam a morrer apenas quando perdem prédios ou orçamento, mas quando abandonam sua ambição intelectual, sua capacidade estratégica e seu compromisso com a transformação social. Se a Uenf aceitar a redução de seu papel a mera prestadora de serviços e abrir mão da ousadia concebida por Darcy Ribeiro, correrá o risco de permanecer existindo apenas formalmente, enquanto sua razão de existir se dissolve silenciosamente diante da indiferença interna e da mediocridade política externa.

Quando o Consuni vira cartório: a aprovação silenciosa de novos laboratórios na Uenf

Como membro do Conselho Universitário da Uenf, participei nesta 6a. feira de uma reunião cuja pauta tinha um ponto para o qual eu  considerava importante de se ter relatos próprios do Conselho Universitário, i.e., a criação de novos laboratórios, fui voto vencido e se votou a criação de dois laboratórios ocorreu sem as relatorias que eu considerava importante. O argumento da magnífica reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, foi bem prático: os documentos estavam disponíveis para leitura de todos os conselheiros, e que isso já não tornava tão importante a realização de uma relatoria dentro do Conselho Universitário.

Resolvi perguntar ao Chatgpt sobre as possíveis consequências negativas dessa aprovação sem relatoria e ele me respondeu o que vai abaixo. E antes que leiam a resposta, a minha observação é que aparentemente o robô sabe mais da importância dos ritos universitários do que aqueles que dirigem (ou seria dirijem?) a Uenf nesta atual conjuntura histórica.
Abaixo a resposta dada pelo Chagpt.

“A situação que você descreve envolve problemas institucionais, jurídicos e de governança acadêmica. Em universidades cujo modelo organizacional se baseia em laboratórios de pesquisa, e não em departamentos disciplinares, a qualidade dos processos deliberativos tende a ser ainda mais crucial, pois a criação ou o desmembramento de laboratórios altera diretamente a arquitetura científica e administrativa da instituição. Nesse contexto, a ausência de relatoria em processos dessa natureza pode gerar uma série de riscos relevantes.

A relatoria em conselhos universitários não constitui apenas um procedimento formal ou burocrático. Ela cumpre funções fundamentais para a qualidade da deliberação colegiada. Cabe ao relator sistematizar e interpretar a documentação do processo, identificar eventuais inconsistências ou lacunas, elaborar uma síntese analítica das informações apresentadas e oferecer um parecer que oriente o debate entre os conselheiros. Quando a relatoria é dispensada sob o argumento de que os documentos já se encontram disponíveis em um sistema eletrônico de tramitação processual, ocorre, na prática, uma transferência individual da responsabilidade de análise para cada conselheiro. Embora isso possa parecer, à primeira vista, uma solução administrativa razoável, na realidade tende a produzir o efeito inverso: decisões tomadas sem que haja leitura ou exame sistemático da documentação por parte da maioria dos membros do conselho. Nesse cenário, o órgão colegiado corre o risco de deixar de exercer plenamente sua função deliberativa e passar a operar como instância meramente homologatória.

A ausência de relatoria também amplia o risco de decisões pouco fundamentadas. Processos que envolvem documentação extensa ou tecnicamente complexa podem passar sem exame crítico adequado, permitindo que inconsistências institucionais ou problemas de concepção não sejam percebidos no momento da decisão. No caso específico do desmembramento de laboratórios, questões relevantes podem deixar de ser discutidas, como a eventual duplicação de agendas científicas, disputas futuras por infraestrutura e orçamento, a fragmentação de grupos de pesquisa já consolidados ou mesmo os impactos indiretos sobre programas de pós-graduação e sobre a organização da produção científica da universidade.

Outro aspecto importante diz respeito à criação de precedentes institucionais. Uma vez estabelecida a prática de dispensar relatoria sob a justificativa de que os documentos estão disponíveis em meio eletrônico, abre-se caminho para que o mesmo procedimento seja aplicado a decisões cada vez mais amplas ou estruturais. Com o tempo, essa prática pode levar a uma deterioração gradual do padrão decisório do conselho, reduzindo os espaços de análise crítica e de debate qualificado que deveriam caracterizar a governança universitária.

Os riscos tornam-se ainda mais significativos quando se considera a natureza do modelo institucional baseado em laboratórios de pesquisa. Diferentemente das universidades organizadas em departamentos disciplinares, nas quais a estrutura tende a ser mais estável e consolidada, universidades estruturadas em torno de laboratórios dependem fortemente de mecanismos institucionais de coordenação e coerência estratégica. Os laboratórios não são apenas unidades científicas, mas também unidades administrativas e espaços de organização do poder acadêmico. A criação de novos laboratórios sem análise institucional cuidadosa pode estimular processos de fragmentação organizacional, gerar competição pouco cooperativa entre grupos de pesquisa, favorecer a proliferação de estruturas pouco sustentáveis e permitir a captura de decisões institucionais por interesses mais localizados. Ao longo do tempo, esse tipo de dinâmica pode inclusive descaracterizar o próprio modelo inovador da universidade, produzindo uma espécie de departamentalização informal, na qual diferentes laboratórios passam a operar como estruturas autônomas e pouco articuladas entre si.

Há ainda possíveis implicações jurídicas e administrativas. Decisões tomadas sem adequada instrução analítica do processo podem ser objeto de questionamentos posteriores, seja por parte de membros da própria comunidade acadêmica, seja em processos de auditoria interna ou externa. Mesmo que a documentação formal esteja disponível nos sistemas institucionais, a ausência de uma relatoria que organize, interprete e explicite os fundamentos da decisão pode ser vista como uma fragilidade na instrução do processo deliberativo.

Por fim, é importante distinguir transparência formal de transparência substantiva. A simples disponibilização de documentos em plataformas eletrônicas não garante, por si só, que o processo decisório seja efetivamente transparente. A transparência institucional depende também da existência de mecanismos de mediação interpretativa que permitam transformar a documentação dispersa em uma síntese inteligível para o conjunto do colegiado. A relatoria cumpre justamente essa função, ao organizar as informações relevantes, explicitar os impactos institucionais das propostas em discussão e oferecer uma base comum para o debate.

Em síntese, a dispensa de relatoria em processos de criação ou desmembramento de laboratórios tende a reduzir a qualidade do processo deliberativo, enfraquecer o debate institucional, ampliar o risco de decisões pouco fundamentadas e, no longo prazo, comprometer a coerência e a sustentabilidade de um modelo universitário baseado em laboratórios de pesquisa”.

Um epitáfio para Paulo Roberto Moreira

Na maioria das vezes, a morte de qualquer pessoa acaba sendo mais sentida dentro do seu círculo familiar.  Mas quando essa pessoa se insere dentro de comunidades maiores do que se sua própria família, a sensação de perda acaba se alargando.  Em uma instituição universitária relativamente pequena como é o caso da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), quando um dos nossos membros falece há sempre uma inevitável sensação de perda coletiva.  Mais ainda quando a pessoa esteve entre nós executando suas tarefas de forma eficiente e com requintes de gentileza e civilidade.

Por isso, o anúncio da morte do servidor Paulo Roberto Moreira, o Paulinho, acabou pegando muita gente de surpresa e com uma inevitável sensação de perda.  Conheci o Paulo Roberto Moreira assim que ele ingressou no nosso quadro de servidores em 2000.  Assim, ainda que eu não tenha tido contato com ele nos últimos anos após sua lotação na Agência de Inovação da Uenf, tenho dele a lembrança de um servidor que não recusava dar informações precisas a quem as solicitava.

Eu diria que o Paulo Roberto era o reverso da imagem que os detratores do serviço público gostam de colar nas costas dos servidores públicos. Ele era eficiente, discreto e comprometido com suas tarefas cotidianas.  E cumpria suas obrigações com ar de gentileza que tornava fácil a resolução de problemas complexos.

Na aula inagural ministrada por Darcy Ribeiro em 1993, o nosso fundador disse que universidades não feitas por prédios novos e equipamentos caros, mas por pessoas. Naquele dia Darcy disse que não queria que ninguém se deixasse enfeitiçar pelas coisas que compunham a Uenf, pois as pessoas é que faziam a coisa andar.  Esse ensinamento de Darcy Ribeiro não poderia ser mais adequado para expressar a importância que Paulo Roberto Moreira teve em seus 25 anos servindo com toda dedicação à causa da construção da Uenf.  Espero que ele seja sempre lembrado por isso.

Um epitáfio para Gilca Alves Wainstein

Brasil perde o talento da professora bocaiuvense Gilca Alves Wainstein – Em  Cima da Notícia

Faleceu no última dia 09 de setembro aos 89 anos, a professora Gilca Alves Wainstein, presidente da Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte) no momento da instalação da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Não a conheci pessoalmente, pois quando cheguei a Campos dos Goytacazes em janeiro de 1998, ela já não presidia a Fenorte. Mas quem conviveu com ela nos anos iniciais da Uenf, sabe que ela teve um papel fundamental para viabilizar um projeto que era muito complexo e difícil de compreender tamanha era a transformação que Darcy Ribeiro propunha na forma em que a nova universidade deveria funcionar.

Mas a história diz que a genialidade de Darcy só pode se transformar em materialidade uenfiana por causa da experiência e da obstinação de Gilca Alves Wainstein. Ela trouxe para a Fenorte, a experiência de ter sido diretora da Fundação de Apoio da UFMG (Fundep). Também na UFMG teve papel decisivo na consolidação do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) e do Departamento de Química. 

Gilves Alves Wainstein era natural de Bocaiúva, município que fica distante apenas 48 km de Montes Claros, cidade natal de Darcy Ribeiro.  Talvez por essa proximidade geográfica, a relação dos dois era de admiração, como demonstrado em uma entrevista realizada em 1984 em que Darcy fez o papel de entrevistador de Gilca, tendo sido mediada pelo então reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), professor Charley Fayal de Lyra (ver vídeo abaixo).

Os diálogos travados entre Gilca e Darcy quase uma década antes da implantação da Uenf já mostrava que ali estavam dois educadores com uma visão que transcendia a mesmice e as rotinas que até hoje impedem que a universidade brasileira se desenvolva plenamente.  A comunhão de ideias entre Darcy e Gilca mostrada nessa entrevista em torna da necessidade de uma universidade que subvertesse a ordem estabelecida já antecipava o papel que eles teriam na criação da Uenf. 

História sendo feita: Gilca Wainstein ao lado de Darcy Ribeiro, Wanderley de Souza (primeiro reitor da Uenf) observam Oscar Niemeyer mostrando a planta do futuro campus da Uenf em Campos dos Goytacazes

Pelo papel que Gilca Alves Wainstein teve na criação da Uenf, deixo aqui um salve. E que possamos estar à altura de sua visão de universidade, não apenas agora, mas sempre.

Nos 32 anos da Uenf é urgente redescobrir Darcy Ribeiro e praticar sua rebeldia insurreta

A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) completa 32 anos neste sábado friorento para os padrões campistas, e as celebrações oficiais já se iniciarem ontem com uma magnífica apresentação na Casa de Cultura Villa Maria do Septeto Lira Carlos Gomes de Estância (SE), um grupo musical que brindou os presentes com um show de altíssima qualidade.

Estando na Uenf desde janeiro de 1998 posso dizer que fui testemunho de muitos momentos importantes na consolidação da universidade que Darcy Ribeiro denominou de “Universidade do Terceiro Milênio”, e posso dizer que a minha própria evolução como profissional e pessoa está diretamente ligada aos caminhos e descaminhos trilhados pela instituição.  Tendo sido o fundador do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) e participado da consolidação do Centro de Ciências do Homem (CCH), não apenas testemunhei, mas me envolvi diretamente na construção da Uenf.

Como alguém que sempre adotou posições de questionamento, posso dizer que ganhei mais do que perdi nos embates internos, o que é aceitável já que quando se entra em disputas só em ditaduras há a certeza de que se ganhará sempre, caso você esteja alinhado aos ditadores, ou seja o próprio ditador. 

Mas não posso deixar de dizer que a Uenf que me atrai a Campos dos Goytacazes não existe mais, o que também é perfeitamente aceitável, pois instituições evoluem e não podem ser estáticas, sob o risco de se extinguirem por perder sua utilidade social.  Algumas das transformações ocorridas na Uenf foram impostas por forças externas que a transformaram ao impor novas regras e costumes mais adequadas ao mundo neoliberal em que o Brasil foi afundado.  Outras transformações, entretanto, foram resultado de conjunturas internas e que resultaram de determinados acordos de maioria. Como não sou chorar sobre o leite derramado também vejo a minha condição de minoria como normal, pois as minorias em algumas conjunturas históricas são das que possibilitam as maiorias a se reposicionarem e não ficarem anestesiadas como um Narciso na frente do espelho.

Agora, me vejo na obrigação de observar que em seu estado atual, a Uenf está muito longe de representar a utopia transformada em concreto por Darcy Ribeiro. A principal razão para isso é que se esqueceu e se deixou de transmitir as ideias mais provocativas de Darcy em prol de uma versão domesticada e acomodada de universidade.  As regras das agências de fomento que equivocadamente beneficiam a quantidade em detrimento da qualidade ganharam tons de verdade inquestionável dentro da universidade, o que certamente causaria um ataque de fúria em Darcy Ribeiro. Darcy buscou com  Uenf transgredir a ordem estabelecida ao romper com ideia departamental e apostar nos laboratórios de pesquisa que produziriam um saber não apenas novo, mas fortemente comprometido com a transformação da realidade social em prol da maioria oprimida e pobre do nosso povo.  O que se vê hoje é a assimilação rasa da ordem neoliberal e não o seu questionamento, e o povo só aparece mesmo para limpar o chão e guardar as entradas, e com salários incompatíveis com suas necessidades básicas.

Darcy Ribeiro também queria que a Uenf fosse um motor de um novo modelo de desenvolvimento regional que apostasse nas capacidades e criatividades do nosso povo em vez de abraçar fórmulas enlatadas que viessem de fora.  Eu avalio que Darcy queria esse caminho para nos forçar a sermos sempre dinâmicos e inquietos, e não acomodados a repetir esquemas manjados de reproduzir e disseminar conhecimento pronto. Essa ação dinâmica e inquieta estaria apoiada na ação dos seus laboratórios de pesquisa. No entanto, qualquer análise minimamente crítica da realidade interna terá que reconhecer que isso não está ocorrendo, e que predomina uma versão burocrática de reproduzir o que já está dado e um incomodo claro com a busca de novo. Em outras palavras, a prática real é oposta frontalmente ao que Darcy desejava que fizéssemos.

Darcy também queria que saíssemos do interior do campus para encontrar e transformar a realidade, mas hoje vejo que quando saímos não apenas não encontramos quem tem de ser encontrado e, tampouco, agimos para transformar a realidade.  Uma razão básica para isso é que estamos desprovidos da capacidade de dialogar e enxergar, visto que isto seria garantido pelos laboratórios, o que já disse acima não está ocorrendo. Com isso, a maior parte do tempo estamos nos templos de poder e não com os oprimidos. Basta ir no V Distrito de São João da Barra e perguntar para os atingidos pelo Porto do Açu o que eles acham da Uenf estar dentro do enclave e não do lado de fora com suas vítimas.  Mais uma vez, Darcy Ribeiro dificilmente repetiria essa escolha, e provavelmente estaria hoje na casa de algum agricultor desapropriado comendo um queijo artesanal ou um aipim frito enquanto aprendi mais sobre os intricados sistemas agroecológicos desenvolvidos há gerações para produzir alimentos em terrenos arenosos.  Em outras palavras, Darcy não estaria jamais ao lado dos opressores, mas sim ao lado dos oprimidos.

Antes que eu estenda demasadiamente e perca o momento de celebrar a Uenf e seus fundadores, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, eu tenho que lembrar que a Associação de Docentes da Uenf (Aduenf) está celebrando as ideias de nosso idealizador relembrando algumas de suas frases mais célebres e que continuam extremamente atuais (ver imagens abaixo).  É nessa lembrança que eu aposto, pois a Aduenf já serviu muitas vezes com uma espécie de garantidora de que a luta de Darcy e Brizola por uma universidade atenada com a justiça social não morra.  Por mais contraditório que possa parecer, a Aduenf é hoje a garantidora da herança de Darcy e o principal veículo para que suas ideias sejam prática e não esquecimento.  Longa vida à Uenf de Darcy e Brizola, pois resignar nunca foi uma opção para aqueles que realmente acreditam na Universidade do Terceiro Milênio.

A Universidade do Terceiro Milênio: formação, ciência e desafios institucionais

Por Carlos Eduardo de Rezende

A Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro (Uenf) foi concebida com uma missão estratégica: impulsionar o desenvolvimento regional e nacional por meio da formação de recursos humanos altamente qualificados e da produção de conhecimento científico de excelência. Desde sua fundação, a instituição se destaca por ter sido a primeira instituição a propor a contratação de doutores, com dedicação exclusiva e tempo integral na Uenf ampliando assim o compromisso com o despenho acadêmico e a participação na formação dos nossos discentes em nível de graduação e pós-graduação. Aliás, sempre é importante ressaltar que a instituição começou quase que simultaneamente os cursos de graduação e pós-graduação; junto com a Uerj implantamos as cotas, e com a instituições públicas de ensino participamos desde a concepção do Ensino à Distância.

A transparência acadêmica e administrativa é um pilar essencial para a credibilidade da universidade. A ampliação e publicidade dos critérios de avaliação em editais, a prestação de contas públicas e a clara documentação dos processos decisórios fortalecem a confiança da comunidade acadêmica e da sociedade. A adoção de mecanismos de deliberação, com ampla consulta, assegura a inclusão de diferentes perspectivas na formulação de políticas institucionais.

No contexto da Uenf, a definição de diretrizes orçamentárias para execução de projetos e aprimoramento da infraestrutura deve seguir um fluxo decisório estruturado, promovendo o debate em instâncias como laboratórios e coordenações (graduação, pós-graduação e extensão), seguido pela deliberação nas diretorias de centros e posterior encaminhamento à Reitoria. Essa sistemática garante uma gestão eficiente, evitando favorecimentos e promovendo a integridade institucional.

Os procedimentos institucionais de uma universidade são fundamentais para garantir a eficiência da gestão, a lisura na aplicação de recursos e a promoção da qualidade acadêmica, desempenhando um papel central na prevenção de desvios administrativos, reduzindo a possibilidade de irregularidades em processos como a alocação de verbas públicas e a distribuição de bolsas acadêmicas.

No campo da formação de recursos humanos, a Uenf desempenha um papel central na capacitação de profissionais aptos a enfrentar desafios complexos em diversas áreas do conhecimento. Os seus programas de graduação e pós-graduação são reconhecidos pelo compromisso com a inclusão social, permitindo que estudantes de diferentes perfis socioeconômicos tenham acesso a uma formação de qualidade. No entanto, é fundamental dedicar maior atenção aos laboratórios destinados às aulas práticas e teóricas, bem como a toda a infraestrutura de apoio, assegurando condições adequadas para o desempenho dos docentes.

A inovação didática não pode ser vista como uma responsabilidade exclusiva do professor, mas sim como um processo que exige o necessário suporte institucional, que não será suficiente com a concessão de bolsas. Para que novas metodologias de ensino sejam implementadas de maneira eficaz é imprescindível que a universidade ofereça equipamentos adequados, espaços bem estruturados e investimentos contínuos em tecnologia e capacitação docente. Dessa forma, será possível aprimorar a qualidade do ensino, promover uma aprendizagem mais dinâmica, e garantir que os discentes tenham uma formação sólida e alinhada às demandas contemporâneas.

A produção científica da Uenf reflete uma sólida articulação entre ensino, pesquisa básica e aplicada, com ênfase em áreas estratégicas para região como agroecologia, biotecnologia, ciências biomédicas, ambientais e sociais, políticas públicas e engenharias. Os projetos conduzidos nos nossos laboratórios não apenas impulsionam o avanço do conhecimento, mas também geram soluções para demandas sociais e econômicas. Para garantir a continuidade desse protagonismo acadêmico é essencial manter investimentos sustentados em infraestrutura, apoio a pesquisadores e colaborações acadêmicas nacionais e internacionais.

O futuro da Uenf depende de sua capacidade de conjugar transparência institucional, gestão responsável, formação acadêmica sólida e produção científica comprometida com o interesse público. Esses elementos, articulados de maneira integrada, asseguram a qualidade acadêmica e reforçam o papel da universidade como agente transformador na construção de uma sociedade mais justa e sustentável.

Concluindo, a modernização dos recursos didáticos, aliada ao conforto de salas de aula bem equipadas para atividades teóricas e práticas, é essencial para alcançarmos um salto de qualidade no ensino.


Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da UENF e pesquisador 1A do CNPq