Maior data center da América do Sul terá licenciamento simplificado no RS

Informação está em protocolo de intenções obtido com exclusividade pela Ambiental. Documento fala em licenças “no menor tempo possível”, mas técnicos, ambientalistas e autoridades veem risco elevado

O terreno onde será construído o mega data center Scala AI City reúne qualidades raras em Eldorado do Sul: fica no único local do município que não foi atingido pelas enchentes de 2024 e é cortado por uma linha de transmissão de alta tensão. Foto: Alass Derivas

Por Nara Hofmeister e Alass Derivas (Fotos) para Matinal
Esta reportagem foi produzida pela Ambiental Media em parceria com a rede Environmental Reporting Collective. Você também pode ler a reportagem no site da Ambiental neste link.

Ogoverno do Rio Grande do Sul prometeu licenciamento ambiental simplificado para instalar o maior data center do continente no estado. O empreendimento será construído em Eldorado do Sul, município localizado a 16 km de Porto Alegre, na margem oposta do Lago Guaíba, que banha a capital. A confirmação, obtida com exclusividade pela Ambiental, está registrada em um protocolo de intenções assinado pelo governador Eduardo Leite(PSD, eleito pelo PSDB), quatro secretários de estado e a empresa Scala Data Centers, de São Paulo, que vai construir e operar a estrutura.

Uma das cláusulas do protocolo, assinado em setembro de 2024, informa que o governo do Rio Grande do Sul “prestará apoio [à empresa] para a realização do licenciamento ambiental simplificado”. Mais adiante no documento, a Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura assume o compromisso de assegurar licenças e demais demandas ambientais, como outorgas, no menor período possível”, desde que a Scala entregue os documentos dentro do “padrão técnico de qualidade”.

O licenciamento simplificado tem tramitação mais veloz e dispensa a realização do Estudo de Impacto Ambiental, um levantamento amplo, desenhado para avaliar as consequências detalhadas do empreendimento. É a primeira vez que essa informação vem à tona, e contraria o discurso oficial de que este é um investimento alinhado à nova economia verde do Rio Grande do Sul.

O data center será dedicado ao treinamento de modelos de inteligência artificial. Nesses sistemas, enormes volumes de dados são usados para treinar modelos matemáticos capazes de identificar padrões de linguagem e gerar respostas com base nesses padrões, como ocorre em ferramentas como o ChatGPT. “São empreendimentos gigantescos”, classificou o representante da Associação Brasileira de Data Centers em uma audiência pública no Senado Federal em 2025. Não à toa, ganhou o nome de Scala AI City, ou “cidade da inteligência artificial”.

Esta modalidade de data center consome grandes quantidades de energia, o que pode trazer riscos para a estabilidade do sistema em geral, segundo o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). “Data centers têm sido associados a impactos como diminuição da qualidade da água e do acesso a ela,  problemas no fornecimento e alto custo da energia nas comunidades locais”, observa um estudo publicado no ano passado pela entidade.

O protocolo de intenções assinado com a empresa estabelece que o governo do Rio Grande do Sul deveria “apoiar” a obtenção da autorização do Ministério de Minas e Energia para conexão do empreendimento na rede nacional de energia, “um dos pontos-chave para a implantação da Scala AI City”, segundo o documento.

A carga necessária será de 5 GW quando o empreendimento estiver operando em sua capacidade máxima, o que só deve ocorrer depois de 2035. Essa quantidade representa mais do que o estado inteiro do Rio Grande do Sul consome, atualmente, de energia elétrica. Não à toa, uma portaria do Ministério de Minas e Energia (MME) limitou o acesso do empreendedor a 1,8 GW neste primeiro momento.

“A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao MME, já desenvolve estudos para viabilizar o atendimento à totalidade da carga prospectiva de 5 GW, demonstrando o compromisso do setor com a expansão necessária”, revela a pasta em nota enviada à Ambiental.

Os 1,8 GW assegurados até o momento representam carga 40% superior à demanda média residencial atual do estado, segundo o deputado estadual Matheus Gomes (PSOL). O dado é um dos achados do relatório de uma subcomissão parlamentar que ele preside, encarregada de analisar a chegada dos data centers ao Rio Grande do Sul. “É mais do que todas as residências consomem, é uma quantidade muito grande de eletricidade”, conclui.

Questionado sobre o tema, o governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (Sedec), assegura que “não haverá antecipação de etapas nem flexibilização de exigências legais”. Já a Scala informa que “o licenciamento será conduzido de forma integrada, compatível com a escala e a complexidade do empreendimento”. Mas, como o projeto ainda está em etapa de planejamento, não houve protocolo de documentos para obtenção de licença até agora.

Pilha de entulho e restos de construção em terreno entre casas simples, com sol forte e céu parcialmente nublado ao fundo.
Os danos causados pelas enchentes de 2024 ainda são visíveis em Eldorado do Sul. A cidade foi a mais afetada do Rio Grande do Sul, e estudos demonstram a ligação entre o evento extremo e as mudanças climáticas. Foto: Alass Derivas

Conta de luz mais cara

O estudo da Empresa de Pesquisa Energética — agência ligada ao Ministério de Minas e Energia — deve estar pronto no segundo semestre. Vai identificar as obras necessárias para que a carga de 5 GW seja disponibilizada ao empreendedor. “Uma demanda superior a 1,8 GW provoca restrições na rede de transmissão”, justifica a EPE, em nota.

“É natural que o sistema exija reforços e expansões para acomodar tal volume de energia”, complementa o MME.

Esse ponto não é trivial, observa o coordenador de energia do Idec, Lourenço Henrique Moretto. “O investimento público feito para qualificar a rede é repassado a todos os consumidores por meio de suas contas de luz”, afirma. 

Segundo Matheus Gomes, a Subcomissão Parlamentar apurou que mesmo uma carga de 1,8 GW vai demandar melhorias na rede de distribuição da região, podendo também gerar custos aos consumidores. “O licenciamento precisa ser rigoroso. Do ponto de vista ambiental, há no mínimo cinco pontos que merecem análise atenta de impactos: água, energia, resíduos, poluição sonora e atmosférica e mineração”.

A intenção do governador Eduardo Leite de facilitar o licenciamento vem a público em um momento em que data centers em outras partes do mundo se tornam alvo de denúncias e até revezes judiciais por ignorarem consequências ambientais. Na Inglaterra, por exemplo, o governo do estado de Buckinghamshire admitiu recentemente que a autorização para a construção de um data center sem a exigência de um estudo de impacto ambiental havia sido um erro e deveria ser anulada. Na França e na Espanha, as comunidades estão se organizando para barrar esses empreendimentos na justiça devido ao elevado risco de interferência no abastecimento de água e energia das populações vizinhas. Nos Estados Unidos, pelo menos 25 projetos de data centers foram cancelados em 2025 depois de pressão de populações locais.

Mulher sentada na calçada segura um copo descartável e gesticula enquanto fala, com rua e casas ao fundo.
A rede elétrica local tem cortes de luz frequentes, segundo os moradores. “A energia cai o tempo todo, liga e desliga várias vezes ao longo do dia”, reclama Úrsula Silva Pedroso, de 48 anos, habitante da área central da cidade. Foto: Alass Derivas

Mudanças climáticas ignoradas

De acordo com o relatório de sustentabilidade de 2024 da Scala, todas as operações da empresa são abastecidas por energia 100% renovável certificada “desde o primeiro dia”. Mas, segundo o Idec, a cifra é enganosa.

“Ainda que a empresa assine contratos com usinas solares ou eólicas, como está conectada na rede nacional, ela recebe a energia disponível naquele momento”, observa Julia Catão Dias, coordenadora do Programa de Consumo Responsável e Sustentável do Idec. Isso quer dizer que, quando as usinas termoelétricas a carvão brasileiras estiverem ativadas, essa energia também chegará aos servidores da Scala em Eldorado do Sul. 

O carvão é um dos vilões da crise climática global. No Rio Grande do Sul, é a segunda fonte de eletricidade, responsável por 22% da geração e atrás apenas da energia hidrelétrica, com 48%. Ainda que fosse possível assegurar o funcionamento apenas com energia solar, por exemplo, seria necessária uma fazenda com 100 km2 de placas solares para suprir a demanda de 5 GW – uma área maior que a da capital do Espírito Santo, Vitória.  Ou seja, o impacto vai ser significativo de qualquer jeito.

“O licenciamento precisa analisar quais serão as fontes de energia do empreendimento e calcular o seu impacto”, observa a bióloga Anita Macedo, que trabalha com licenciamento energético no estadoe é diretora de um sindicato de servidores do Estado do Rio Grande do Sul, o Semapi.

Além disso, devido à dimensão do empreendimento, é possível esperar maior pressão sobre o sistema de geração elétrica, impulsionando justamente a ativação das termoelétricas, considerada a energia mais estável do sistema. “Isso acontecer justo em um momento em que estamos discutindo como fechar as usinas térmicas seria muito ruim”, observa o presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Heverton Lacerda.

Eldorado do Sul, onde o empreendimento vai se instalar, foi a cidade mais afetada pela enchente de 2024 no Rio Grande do Sul– estudos demonstram a ligação entre o evento extremo e as mudanças climáticas

Durante a enchente, o município ficou semanas sem luz, situação que, se repetida com o data center já instalado, obrigaria a empresa a ligar os geradores de energia, abastecidos com óleo diesel, outro combustível fóssil. Em 2024, a Scala – que tem 11 data centers em operação no Brasil, um no México e um no Chile– consumiu mais de um milhão de litros de diesel em geradores “que são essenciais para manter a disponibilidade durante desastres naturais e outros eventos críticos”, segundo seu relatório de sustentabilidade.

Mas, liberando o empreendimento da realização de Estudo de Impacto Ambiental, o estado está também abrindo mão do estudo de componente climático como requisito do licenciamento, realizado apenas nos licenciamentos mais complexos, alerta o deputado Matheus Gomes: “É uma questão que nos preocupa”.

Em nota enviada à reportagem, a Scala assegura que seu projeto “foi elaborado para maximizar eficiência energética e eliminar impactos sobre recursos hídricos”. “Essa arquitetura reflete uma abordagem de sustentabilidade aplicada à engenharia, e não apenas ao discurso”, completa.

Homem idoso com boné vermelho e camisa listrada fala gesticulando com a mão, em área verde próxima a uma estrada.
A aldeia do cacique Estevan Garai, indígena guarani, fica a 2,5 km do empreendimento, mas ele diz desconhecer o projeto. “Data center? Não estava sabendo”. Foto: Alass Derivas

Sem audiência pública

Em Eldorado do Sul, onde o empreendimento está projetado para ser construído, a população está preocupada com o volume de energia requerido. Inúmeros relatos colhidos pela reportagem apontam instabilidade na rede elétrica local, com cortes de luz frequentes, segundo os moradores.

“A energia cai o tempo todo, liga e desliga várias vezes ao longo do dia”, reclama Úrsula Silva Pedroso, habitante da área central da cidade. Na zona rural, a impressão é a mesma. O loteamento Guaíba City, que fica a quatro quilômetros de distância do terreno do Scala AI City, os moradores organizaram um protesto de 14 dias, bloqueando uma estrada para pressionar as autoridades públicas a agir contra os cortes regulares de energia.

Em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os agricultores já estão se organizando para construir sua própria usina de energia solar, já que o cultivo de arroz depende fortemente de bombas de irrigação movidas a eletricidade. “Se vier um empreendimento com esse gasto de energia, do jeito que a nossa luz está hoje, vai ficar muito problemático”, alerta o assentado João Francisco Morais Cardozo, conhecido na região como Tigre.

O problema é que pelo rito do licenciamento ambiental simplificado, não há previsão de realização de audiências públicas, que são obrigatórias quando é feito o Estudo de Impacto Ambiental. “É muito ruim do ponto de vista da participação social”, lamenta o deputado Matheus Gomes. “A população tem o direito de entender a dimensão desse investimento e também seus impactos, e então, escolher”, defende o parlamentar.

A Scala e o governo do Estado negam que haverá impactos sobre a população. “O empreendimento não competirá com usos domésticos, agrícolas ou industriais”, assegura a Scala. O data center está “em total consonância com a evolução da demanda [energética] e com os parâmetros estabelecidos pelos órgãos reguladores e operadores do sistema elétrico, assegurando que não haja sobrecarga ou supressão de qualquer atributo do sistema energético do Estado ou da União”, complementa o governo do Estado.

Outro desdobramento de um licenciamento simplificado é a questão indígena, normalmente endereçada nos Estudos de Impacto Ambiental. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, há diversas comunidades guarani na área de influência direta do empreendimento. A aldeia Tekoa Pekuruty, por exemplo, fica a 2,5 quilômetros do terreno da Scala em Eldorado. Apesar disso, o cacique Estevan Garai diz desconhecer o projeto. “Data center? Não estava sabendo”, disse à reportagem em uma manhã de fevereiro. Nem a Scala nem o governo do Estado comentaram sobre os indígenas.

Em maio do ano passado, o Ministério Público Federal abriu um procedimento para apurar possíveis impactos negativos em comunidades indígenas próximas à Scala AI City. A procuradoria quer entender “se está sendo garantido o direito à vontade livre, prévia e esclarecida dos indígenas, conforme previsto na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho” e, em resposta à reportagem, informou que “a análise da obrigatoriedade do Estudo de Impacto Ambiental é um dos pontos a serem discutidos”.

Homem sentado em banco de madeira em área rural arborizada, gesticulando durante conversa ao ar livre.
O assentado João Francisco Morais Cardozo diz que a comunidade já se prepara para construir uma usina de energia própria – o cultivo de arroz depende fortemente de bombas de irrigação movidas a eletricidade. Foto: Alass Derivas

Pioneirismo no licenciamento

Ainda não há uma matriz de impactos de data centers definida no Brasil e muitos estados estão debatendo como avaliar as consequências socioambientais deste tipo de empreendimento. O Rio Grande do Sul, entretanto, foi pioneiro ao aprovar, em maio de 2025, regras específicas de licenciamento para data centers, algo então inédito no Brasil.

“O Rio Grande do Sul está na vanguarda, pois a maioria dos estados ainda está na fase de criar grupos de trabalho para debater o tema”, diz Ricardo Soares, servidor do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro e coordenador do mestrado em ciência do meio ambiente da Universidade de Veiga de Almeida.

Segundo Soares, um empreendimento da dimensão do data center de Eldorado “dificilmente seria licenciado” sem a realização de um Estudo de Impacto Ambiental no estado do Rio de Janeiro, onde há uma tabela que cruza informações como o potencial poluidor e o porte do empreendimento para determinar, por uma pontuação, se é o caso de um rito simplificado ou mais complexo de licenciamento.

No Rio Grande do Sul, o órgão licenciador é a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam), mas a instituição não possui uma tabela como a do Rio, que trata de forma transparente a questão, e a decisão sobre o rito a ser seguido é dos técnicos. “É a equipe técnica quem define quais estudos ambientais serão solicitados durante o licenciamento”, explica Anita Macedo, do sindicato Semapi. 

Não há, na Fepam, técnicos de licenciamento comissionados, todo o quadro é concursado, assevera Macedo. “É muito complicado o governo do Estado assinar um protocolo de intenções como este, pois essa deve ser uma decisão embasada nos impactos ambientais”” 

A Ambiental solicitou uma entrevista formal ao diretor-presidente da entidade, um servidor de carreira, mas a assessoria de imprensa negou, dizendo que quem “tem respondido sobre o tema em nome do Estado” é a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Mas salientou que “a Fepam é o órgão responsável pelo licenciamento ambiental e conduz as análises técnicas conforme os procedimentos e a legislação ambiental vigente. Qualquer empreendimento que solicite licenciamento ambiental junto à Fundação será analisado seguindo os ritos técnicos”.

Esta reportagem foi elaborada pela Ambiental Media em parceria com a rede Environmental Reporting Collective (ERC) e é parte de uma série colaborativa entre repórteres internacionais que investiga impactos humanos e ambientais dos data centers. Leia a série completa em www.dirtydata.earth

Escreva para a repórter: naira.hofmeister@gmail.com


Fonte: Matinal

Porto do Açu e sua aposta (não trivial) nos data centers: de onde vai se tirar a água?

A tecnologia precisa reduzir o consumo de água em um mundo sedento | Hivenet

Já escrevi aqui sobre a faceta “Jack-of-all-trades” (pau para toda obra) do Porto do Açu desde que o ex-bilionário Eike Batista apareceu por estas paragens para vender suas apresentações de Powerpoint.  O Porto do Açu já prometeu ser quase tudo desde o lançamento da sua pedra fundamental, e atualmente sobrevive com o transbordo do petróleo extraído na camada Pré-Sal. 

As visões grandilonquentes vendidas por Eike Batista ficaram mais murchas, é verdade.  Mas eu desconfio que a concepção de que o mundo cabe em lâminas de Powerpoint continua sendo a linha mestra dos negócios.

A grande última “novidade” flutuada por Eugênio Figueiredo, o CEO da hora do Porto do Açu, foi a aposta de que o empreendimento se transformará agora em uma espécie de berço de data centers.  Esqueçamos das siderúrgicas, fábricas de carros e cimenteiras do plano original de Eike, a coisa agora serão os data centers. 

Em entrevista ao site “Infomoney”, Figueiredo , o Porto do Açu seria um bom local para instalação de datacenters porque “tem um pouco de tudo o que um data center precisa para operar: fica fora de aglomerados urbanos, tem água e geração própria de energia em abundância, está a míseros 40 km de uma estação de cabos submarinos de fibra da Embratel”.

Uma curiosidade que fica nessa declaração se refere ao alto consumo de água que datacenters demandam para funcionar. Eu já repercuti aqui a informação de que o Porto do Açu está entre os maiores consumidores potenciais de água do Brasil, com uma outorga anual 142,4 bilhões de litros de água. Comentei em 2023 que na ausência da transposição do Rio Paraíba do Sul pretendida por Eike Batista, havia que se perguntar sobre o impacto que o empreendimento está trazendo para os mananciais existentes em seu entorno ou embaixo dele. É que para fazer uma outorga tão grande, essa água teria que sair de algum lugar que na época não era claramente identificado.

Agora com mais essa nova ideia para tirar o Porto do Açu do atoleiro de dívidas em que se encontra (e as notícias vão no sentido de que o buraco é fundo), como fica a questão do consumo de água em São João da Barra?

Não custa lembrar que enquanto nossas lideranças políticas ficam querendo nos colocar de forma ruidosa no “semi-árido” para fisgar recursos federais, o silêncio sobre os impactos hídricos do Porto do Açu é total.

E antes que me esqueça, preciso reconhecer que na matéria do InfoMoney, assinada pela jornalista Mariana Segala, há uma definição para a ideia de instalar data centers em um porto que me soa reveladora. Segala disse que a ideia de instalar data centers não soa lá a mais trivial para um porto. E eu concordo. Resta saber quem se arriscaria a desafiar o senso comum e apostar suas fichas e se instalar em um empreendimento que não possui, e sabe-se lá se possuirá, boas conexões por terra com o resto do país. A ver!

O lado negro da digitalização: a Internet destruidora do clima

A indústria, a investigação e o entretenimento exigem cada vez mais recursos na sociedade digitalizada. Isto também leva a um rápido aumento nas emissões de gases de efeito estufa

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Dado que as capacidades de computação e armazenamento ainda são extremamente baratas, existem poucos incentivos para utilizar estes recursos com moderação. Foto: Adobe Stock / »nd« [M]

Por Joel Schmidt para o “Neues Deutschland”

Quer estejamos ocupados no escritório, stressados ​​na estrada ou em casa, no sofá – quase nenhuma conquista técnica das últimas décadas mudou tanto a nossa vida quotidiana como a Internet. Na viragem do milénio, apenas 360 milhões de pessoas estavam online em todo o mundo. No ano passado, o número subiu para mais de cinco mil milhões. Da comunicação e navegação à transferência de conhecimento, a Internet permite que inúmeras pessoas participem de formas até então desconhecidas. Mas por mais vantagens que a interconectividade do mundo traga consigo, ela também tem as suas desvantagens. Porque a digitalização de quase todas as áreas da vida e com ela a disponibilidade constante de todos os serviços não pode ser separada do consumo de recursos necessários à mera disponibilização da infraestrutura correspondente. O que isso significa? Se a Internet fosse um país, em 2020 teria 2,8% do CO2 do mundo2 ocupa o sexto lugar entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Para efeito de comparação: a Alemanha ficou em oitavo lugar no mesmo ano, com um consumo de cerca de 730 milhões de toneladas de CO2 .

Este aumento no consumo de energia também se reflete no aumento da quantidade de dados em todo o mundo. De acordo com estimativas do Escritório Federal de Assuntos Econômicos e Proteção Climática (BMWK), isso totalizou mais de 50 zetabytes em 2020. São 50 trilhões de gigabytes, um número com 21 zeros. O BMWK coloca isso de forma um pouco menos abstrata: “Se você salvasse essa quantidade de dados em DVDs, a pilha teria 2,6 milhões de quilômetros de altura – o que corresponde a 63 vezes a circunferência da nossa Terra”. a pesquisa é para o ano de 2025 e a empresa de consultoria International Data Corporation (IDC) previu um aumento de 25,5x no volume global de dados, para 175 zetabytes. Estima-se que a quantidade de dados produzidos pela humanidade dobra a cada três anos.

Estes não só devem ser armazenados em algum lugar, mas também processados ​​​​e encaminhados, caso contrário, permanecerão inúteis. Grosso modo, a infraestrutura digital necessária para isso pode ser dividida em duas áreas. Os dados são disponibilizados e armazenados em data centers e depois encaminhados aos respectivos clientes por meio de redes de dados. Embora no caso de dispositivos finais móveis, como laptops ou smartphones, cerca de 80% do consumo de energia na forma de emissões de gases de efeito estufa sejam atribuíveis à produção e o restante à operação contínua, na área de infraestrutura digital. Isso se deve principalmente ao fato de que os servidores e storages (soluções de armazenamento no ambiente de TI) nos data centers estão em constante operação – e, portanto, consomem energia constantemente. Já que cada consulta, por menor que seja, com um mecanismo de pesquisa,

As empresas não têm uma visão geral de seus dados

Os data centers vêm em todos os formatos e tamanhos. O espectro varia de pequenas empresas que o utilizam para processar suas comunicações por e-mail, a centros de informática universitários que o utilizam para realizar suas pesquisas, até grupos automotivos que o utilizam para operar suas linhas de produção. E há também os chamados data centers em hiperescala, que ocupam salas de logística inteiras e são usados ​​para oferecer serviços de computação em nuvem, hospedagem ou streaming. Simon Hinterholzer é pesquisador do Instituto Borderstep para Inovação e Sustentabilidade, que estuda o consumo de energia de data centers na Alemanha há 15 anos. “Em termos de escalas de impacto ambiental, estas são comparáveis ​​desde uma residência privada até uma cidade pequena ou média”, afirma ao “nd”. Até agora, os data centers não são legalmente obrigados a declarar o seu consumo. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado. Hinterholzer e sua equipe examinaram exatamente isso em um estudo para a associação da indústria alemã de informação e telecomunicações Bitkom, entre outros. O resultado: para o período de 2012 a 2022, a indústria pode apresentar um aumento de 90% na capacidade de conexão de TI. No entanto, isto é acompanhado por um aumento nas necessidades de electricidade dos cerca de 50.000 centros de dados em todo o país durante o período mencionado. De onze mil milhões de quilowatts-hora em 2011 para 18 mil milhões de quilowatts-hora no ano passado.

Hinterholzer refere-se aos relatórios de sustentabilidade das grandes empresas tecnológicas Amazon, Alphabet e Meta, que mostram que os seus data centers já funcionam em grande parte com energias renováveis. No entanto, uma vez que a energia eólica e os sistemas fotovoltaicos não produzem electricidade a todo o momento ou esta não pode ser armazenada, e a infra-estrutura ainda tem de ser fornecida 24 horas por dia, “nenhum dos centros de dados neste país é capaz de provar que a sua electricidade é disponível a qualquer hora a partir de fontes verdes vem«. É uma questão completamente diferente que os grandes data centers de hiperescala, em particular , consumam enormes quantidades de água para resfriar seus servidores, além de eletricidade para operá-los.

É difícil responder quanto espaço de armazenamento e capacidade do data center é usado por cada empresa. No entanto, é generalizada a ideia de que os recursos correspondentes estão disponíveis quase infinitamente. Isto se aplica especialmente à área de computação em nuvem. O resultado: “Se a capacidade computacional estiver disponível de forma extremamente barata, há poucos incentivos para usar esses recursos com moderação”, diz Hinterholzer. De acordo com a empresa tecnológica californiana Veritas, as empresas alemãs, em particular, destacam-se no que diz respeito ao tratamento inflacionário de dados. Segundo estimativas, 66 por cento de todos os dados armazenados por empresas sediadas neste país são casos de “dados obscuros”. O que se entende por isto são conjuntos de dados que a empresa desconhece, porque ou são inutilizáveis,

Enorme consumo de energia devido a rastreamento e cookies

Anne Mollen, da organização sem fins lucrativos Algorithm Watch, conhece esses exemplos no campo da IA. Nas universidades, nas médias empresas, mas também nas grandes empresas, ainda não foi estabelecido manter os sistemas de IA enxutos. “Simplesmente compram-se novos servidores em vez de sensibilizar para a programação para poupar recursos”, diz ela ao “nd”. Em particular, modelos de linguagem como o ChatGPT requerem uma enorme quantidade de energia, “especialmente tendo em conta que as grandes empresas tecnológicas utilizam centros de dados com emissões muito baixas”. Até agora, a fase de desenvolvimento e formação dos modelos correspondentes tem sido considerada muito intensiva em recursos. Por outro lado, os fabricantes descrevem o consumo na chamada fase de inferência, ou seja, a aplicação concreta, como extremamente baixo. Pode ser verdade, diz Mollen, que o consumo de energia da inferência individual é extremamente pequeno. Este baixo consumo por processo só é relativizado se “isto for feito milhares de milhões de vezes por dia”. Suas declarações são apoiadas pela própria indústria. Já em 2019, Jen-Hsun Huang, CEO do fabricante de processadores Nvidia, e Jeff Barr, do provedor de computação em nuvem Amazon Web Services (AWS), disseram que o aprendizado de máquina na verdade é responsável por cerca de 90 por cento. do consumo de energia cai apenas para essa fase de inferência.

A situação é semelhante com outras aplicações digitais que se tornaram indispensáveis ​​no dia a dia. De acordo com o think tank francês The Shift Project, uma única pesquisa no Google emite uma quantidade insignificante de 0,2 gramas de CO 2 . Só que existem mais de 3,5 mil milhões de pesquisas deste tipo em todo o mundo – por dia. O streaming requer ainda mais energia. Apenas meia hora de transmissão de vídeo na Netflix causa 1,6 quilograma de emissões. Isso é aproximadamente comparável a dirigir um carro de seis quilômetros. Com 1,5 gramas de CO 2por hora, o streaming via conexão por cabo de fibra ótica é o mais econômico, pela rede móvel sem fio 5G já são cinco gramas. A qualidade também faz diferença: se um vídeo HD de uma hora requer 700 megabytes de espaço de armazenamento, os dados o volume aumenta dez vezes com a resolução em ultra HD para sete gigabytes.

Permanece a questão de saber quem será responsável pelos crescentes custos ambientais da digitalização no futuro. Poderíamos ter calma e apelar ao moral do consumidor para usar menos Netflix, ChatGPT e motores de busca em geral; contente-se com o streaming em uma resolução mais baixa e aproveite o thriller de domingo à noite em qualidade Ultra HD. Mas também se poderia procurar soluções políticas e, por exemplo, pedir às grandes empresas tecnológicas que fizessem a sua parte. Por exemplo, adaptando os seus modelos de negócio e abstendo-se de armazenar cookies que são utilizados para monitorizar o comportamento do utilizador para fins publicitários. De acordo com estimativas do instituto de investigação holandês CE Delft, só as atividades de monitorização e publicidade de aplicações móveis geram entre 29,6 e 50,4 mil milhões de gigabytes de dados anualmente na União Europeia. Isso corresponde a CO2 emissões de cinco a 14 milhões de toneladas: cerca de 950.000 pessoas produzem num ano.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].