Exploração no litoral brasileiro ameaça espécies, comunidades tradicionais e pesca artesanal, alerta diagnóstico inédito

Foto: Stéfano Girardelli / Unsplash 

 

A ocupação desordenada, a pesca industrial não manejada e projetos de infraestrutura colocam em risco tanto espécies marinhas e costeiras quanto os modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais. É o que aponta o “1º Diagnóstico Brasileiro Marinho-Costeiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos”, lançada na quinta (8). Conforme a publicação, essas populações sofrem com os impactos negativos de políticas de desenvolvimento, como poluição, degradação ambiental, e com políticas de conservação integral, que podem provocar retirada compulsória de populações tradicionais de seus territórios.

O documento sintetiza o conhecimento disponível sobre a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos na zona costeira e no ambiente marinho brasileiros. Esse diagnóstico pode orientar iniciativas que previnam e reduzam impactos ambientais e sociais nessas áreas. Trabalharam na obra 53 especialistas acadêmicos e governamentais, 12 jovens pesquisadores e 26 representantes de povos indígenas e populações tradicionais do Brasil, em diálogo com atores do poder público e da sociedade civil. O projeto foi coordenado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES) e pela Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.

A publicação sucede o Sumário para Tomadores de Decisão, divulgado pela mesma equipe em novembro de 2023. O relatório integra o conhecimento acadêmico com saberes tradicionais, e inova ao apresentar um capítulo construído somente a partir das narrativas de povos e comunidades que dependem diretamente dos ecossistemas costeiros.

“Esses povos e comunidades tradicionais devolveram ao longo das décadas um profundo conhecimento sobre as dinâmicas dos ecossistemas que exploram e, muitas vezes, criaram ou adaptaram técnicas de manejo dos recursos que exploram para garantir a sua continuidade”, destaca Cristiana Simão Seixas, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que co-editou o documento junto com Alexander Turra e Beatrice Padovani Ferreira. Para a cientista, é essencial envolver essas populações em processos como a elaboração de planos de manejo de unidades de conservação, planos de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, planos de gerenciamento costeiro e planejamento espacial marinho.

A pesca industrial, se não manejada, pode inviabilizar o futuro da pesca artesanal. A preocupação está ainda no acesso às áreas exploradas, na medida em que as atividades consideradas depredatórias levam à exclusão das populações indígenas e tradicionais de seus territórios, o que tem sido observado nos processos de implantação de projetos de infraestrutura e ocupação desordenada em todo o litoral brasileiro. A pressão econômica acaba levando ao deslocamento dessas populações para áreas mais afastadas, longe de suas raízes ancestrais.

Seixas defende políticas públicas que fomentem o desenvolvimento integrado à conservação socioambiental. “Ou seja, não estamos falando de colocar as comunidades tradicionais em redomas de vidro e isolá-las do mundo exterior. Ao contrário, é necessário dar condições para que se desenvolvam socioeconomicamente, tendo acesso a educação e saúde de qualidade, mas que isso se dê de forma que não percam sua identidade e que continuem a praticar seus modos de vida, seja na pesca artesanal, no extrativismo ou nas roças tradicionais. E dentro dessa abordagem, o turismo de base comunitária, se fomentado adequadamente, pode ser uma excelente solução”, ressalta a autora.

A publicação recebeu recursos de uma emenda parlamentar do então Deputado Federal Rodrigo Agostinho, do Instituto Serrapilheira e do Programa Biota/Fapesp.


Fonte: Agência Bori

Degradação ambiental, crimes e narcotráfico na Amazônia

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A forma como a violência impacta na degradação do meio ambiente e ameaça a vida dos povos amazônicos não é um problema pontual, de fácil resolução. Os dados apresentados no Cartografias evidenciam, por exemplo, o aumento da taxa de mortes violentas nos municípios da região, em patamar 45% maior do que se observa no restante do país. Além disso, o crescimento bastante evidenciado na quantidade de apreensão de drogas ilícitas – entre 2019 e 2022, por exemplo, houve o aumento de 184,4% da apreensão de cocaína realizada pela Polícia Federal. 

Até outubro de 2023, o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, publicado pelo FBSP, foi capaz de mapear a presença de facções criminosas em pelo menos 178 dos 772 municípios da Amazônia Legal, o que corresponde a 23% dos municípios, compreendendo 57,9% da população da região. Em 80 municípios, foi possível identificar situações de disputa territorial entre duas ou mais facções.

Além do cultivo e processamento de cocaína gerarem impactos significativos na degradação ambiental, frequentemente resultando no desmatamento de áreas de preservação, o relatório do UNODC menciona que grupos organizados que se concentravam na produção e no tráfico de drogas estão diversificando sua ação para atividades altamente lucrativas relacionadas com crimes que afetam o meio ambiente.

A Bacia Amazônica é especialmente acometida devido à abundância de recursos naturais, presença limitada do Estado, corrupção, informalidade e desemprego. A corrupção facilita a mineração e o desmatamento ilegal por meio da falsificação de licenças e de documentos, trazendo implicações perigosas para o meio ambiente. Ainda, a aquisição ilegal de terras financiadas pelo tráfico de drogas tem causado tensão local a respeito da propriedade de terras, especialmente quando se trata de territórios indígenas que são afetados pela violência, dentre ameaças e assassinatos. Os grupos criminosos também estão envolvidos com outros delitos gravíssimos, como o tráfico de pessoas para fins de trabalho análogo ao de escravo e de exploração sexual. As populações mais vulneráveis são frequentemente recrutadas ou forçadas para atividades relacionadas ao crime, como garimpo ilegal, exploração madeireira, funções de cozinheiros, motoristas ou, em determinadas situações, para a exploração sexual. Das 25,1 mil de áreas garimpadas na Amazônia estão localizadas em Terras Indígenas, representando 10% do total do bioma.

Segundo dados do Caderno de Conflitos no Campo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a pistolagem foi o segundo tipo de violência contra a ocupação e a posse que mais teve registros de ocorrência em 2023 (264), um crescimento de 45% em relação ao ano de 2022. Os indígenas e quilombolas foram um dos mais atingidos nas ocorrências de violência, 47 indígenas e quilombolas 19. 

O avanço da presença desses grupos tem relação com as dinâmicas do sistema prisional: Entre 2012 e 2022, a taxa de pessoas privadas de liberdade por 100 mil habitantes aumentou 43,3% no Brasil. Na Amazônia Legal, esse incremento foi de 67,3% Em Roraima, essa taxa aumentou 94,7%; no Pará, o aumento foi de 48,5%

A falta ou escassez de presença do Estado, não apenas em questões relacionadas à segurança pública, mas também na ausência ou insuficiência de políticas públicas abrangentes de geração de empregos, assistência social, saúde e educação, resulta em impactos adversos para a população, que se torna mais suscetível à agência das organizações criminosas.

Por trás desse tráfico desumano, estão redes criminosas que lucram com a miséria alheia, tirando proveito da vulnerabilidade econômica e social de milhões de pessoas em todo o mundo. Essas redes não só exploram os trabalhadores, mas também contribuem para a degradação ambiental, desmatando florestas, poluindo rios e contaminando o solo em busca de lucro rápido e fácil.

Enquanto a exploração de recursos naturais e o narcotráfico continuarem a ser alimentados pela ganância e pela impunidade, a luta por justiça e dignidade para todos os seres humanos e para o planeta que habitamos será uma batalha árdua. Combater essa realidade sórdida requer uma abordagem multifacetada, que inclua não apenas a aplicação rigorosa da lei e o fortalecimento das instituições responsáveis pela proteção dos direitos humanos, mas também medidas para promover o desenvolvimento econômico sustentável, garantir o acesso à educação e saúde, e empoderar as comunidades vulneráveis para que possam resistir à exploração e construir um futuro digno e livre.

 

REPAM-Brasil lança série de programas de rádio em campanha “Qual o preço do ouro?” 

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A Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM-Brasil preparou uma série especial de programas de rádio e spots informativos dedicados à campanha “Qual o preço do ouro? Benefício de poucos, prejuízo de muitos!”. O objetivo da ação é conscientizar sobre os impactos do garimpo ilegal de ouro na Amazônia.  

Foram produzidos cinco programas especiais que serão veiculados no podcast Ecos da Amazônia, da REPAM-Brasil, nas principais rádios católicas e comunitárias da região da Amazônia, além de spots informativos sobre o tema. As emissoras foram escolhidas estrategicamente, de acordo com a abrangência, audiência e proximidade das áreas com maior incidência de mineração em Terras Indígenas e Unidades de Conservação (UCs) de Proteção Integral da Amazônia Legal. De maneira leve e agradável, os diálogos trazem informações educativas sobre os impactos do garimpo do ouro, produção e exportação, órgãos de fiscalização, a importância das áreas de conservação; os cuidados com a população. 

Para Padre Dário, membro Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a maior parte do garimpo ilegal de ouro na Amazônia tornou-se oportunidade de lavagem de dinheiro e nova geração de renda para as máfias e o narcotráfico. Assim, o ouro ilegal na Amazônia é sinônimo de morte, poluição, destruição e ataque aos povos e seus territórios.  

“Deveria haver campanhas de boicote ao ouro, inclusive dentro da própria Igreja. Ainda não foram implementadas no Brasil regras que imponham o rastreamento da cadeia de extração e venda do ouro; a própria restrição do comércio de mercúrio e investimentos permanentes na fiscalização dos voos e do comércio de máquinas pesadas para o garimpo são medidas eficazes para enfrentar essa ilegalidade. No XI Fórum Social Panamazônico (Fospa), que se realizará em Bolívia no mês de junho, estes temas serão aprofundados, a partir da experiência e das denúncias dos povos que resistem, em defesa da vida”, declara o missionário comboniano e assessor da REPAM-Brasil. 

A comunicação da campanha explica que o rádio foi o veículo escolhido por se tratar de um meio de comunicação mais acessível às comunidades na Amazônia. “O rádio é o meio de comunicação mais ouvido na Amazônia devido à distância geográfica e a infraestrutura. Ele chega nas regiões mais afastados, como comunidades tradicionais, ribeirinhas e indígenas, onde outras tecnologias encontram limitações. Então, para esses povos e comunidades, o rádio é o único canal de informação e é por esse canal que muitos se inspiram e vão à luta, se organizam e se mobilizam para lutar por seus direitos”, destaca a comunicadora da Rede, Ana Caroline Lira.  

Qual o preço do ouro? 

A busca pelo ouro na Amazônia cresceu nos últimos anos, impulsionada pelo aumento da demanda e o cenário político favorável ao garimpo. A explosão do garimpo ilegal na região tem provocado uma série de impactos ambientais e sociais negativos. Mas a devastação tem seu preço, segundo o Ministério Público Federal, 1 kg de ouro representa cerca de R$ 1,7 milhão em danos ambientais, gerando um custo ambiental dez vezes maior que o preço real do ouro.  

Mais de 80% do ouro retirado da Amazônia (WWF, 2018) tem como destino a Europa (39%) e a América do Norte (44%). Cerca de 66% do ouro “sobre a terra” está no setor de joias, barras e moedas. Os bancos nacionais ou comerciais também adquirem uma parte substancial dele na forma de reservas (17%). 81% do ouro sai do tríplice fronteira amazônica Brasil, Colômbia e Peru e 69% deste ouro vai para outros três países, Canadá, Suíça e EUA. 

Nos últimos anos, o comércio ilegal de ouro cresceu, com facções do crime organizado empregando meios sofisticados para retirar quantidades significativas de ouro da região amazônica. Esses grupos frequentemente usam documentos falsos e subornos para não serem notados pelas autoridades. 

A campanha de rádios “Qual é o preço do Ouro? Benefício de poucos, prejuízo de muitos!” é uma realização da REPAM-Brasil, com apoio de rádios locais na Amazônia. 

Sobre a REPAM  

A REPAM-Brasil constitui um serviço da Igreja no Brasil para os povos da Amazônia, trabalhando em prol do bioma, para a defesa dos direitos humanos de mulheres e homens, ribeirinhos, indígenas, quilombolas, pescadores e nos últimos anos têm realizado campanhas de sensibilização e de prevenção ao garimpo, mineração, desmatamento. Nestes 10 anos a REPAM tem como missão de ser e estar a serviço da vida dos povos e do cuidado com a Casa Comum. 

Sigma Lithium, uma empresa canadense com presença ostensiva de brasileiros no seu “Board of Directors”, pode mudar de mãos em breve

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Desde ontem, o “Blog do Pedlowski” está tendo um acesso massivo e recebendo dezenas de comentários sobre uma postagem feita acerca de um comentário produzido por um TV alemã sobre a extração de lítio no Vale do Jequitinhonha. Eu vinha tratando a Sigma Lithium, empresa que realiza a exploração de lítio nos municípios de Itinga e Arucuaí como alemã, mas um comentarista fez a devida correção e informou que a mesma está sediada no Canadá.

Como o leitor deste blog é quem geralmente envia informações que viram pistas para apurações interessantes, resolvi acessar o site corporativo da Sigma Lithium e pude verificar que não apenas a empresa está realmente sediada no Canadá, mas como também boa parte dos membros do seu “Board of Directors” são brasileiros com larga experiência na área financeira e da mineração.

Quem acessar as diferentes abas da página da Sigma Lithium notará que ali está o que há de melhor em termos de vender uma boa imagem de governança sócio-corporativa, misturando responsabilidade social com preocupações ambientais. Assim, se não fosse pela exposição que está ocorrendo pelo documentário do canal SWR, tudo continuaria muito tranquilo para as operações da Sigma Lithium que poderia continuar aplicando seus métodos “arrasa quarteirão” enquanto vende uma imagem de responsabilidade e sustentabilidade.

O interessante é que checando a internet por informações publicadas pela mídia corporativa, o que se sobressai é essa imagem bem moldada de responsabilidade socioambiental na produção de uma elusivo “lítio verde”.  Além disso, como o governo de Romeu Zema vem primando por um amplo desmanche do sistema de regulação ambiental, não fica difícil entender como os métodos da Sigma Lithium estão ocorrendo sem que haja grandes repercussões em tornos dos seus impactos ambientais e sociais. E tudo isso, é claro, em nome de uma indústria automobilística que produzem veículos “sustentáveis”.

O mais peculiar é que em setembro de 2023, o jornal “Estado de Minas” publicou uma matéria indicando a possível venda da Sigma Lithium, tendo o dono da Tesla, Elon Musk como um dos possíveis interessados na compra. Ainda  em dezembro de 2023, apesar das negativas iniciais, o “Board of Diretors” da empresa indicou que efetivamente estavam em curso negociações para a sua venda. Esse tipo de transação não é de forma alguma surpreendente, pois estamos em uma fase de grande adensamento das operações em torno da produção de carros elétricos e smartphones.

Mas é aí que mora o perigo de todas essas empresas que exploram recursos minerais estratégicos em países do Sul Global. É que o compromisso delas não é com o desenvolvimento sustentável que apregoam em suas páginas  para vender seus “green bonds” (que de verde só têm a tinta onde são impressos) ou, tampouco, com as populações que têm o azar de entrar no caminho dos seus projetos minerários. Para essas populações, o que sobra é deslocamento e ambientes totalmente inviabilizados para seus modos de vida tradicionais. 

Mineradora Anglo American apresenta grandes lucros, mas quem paga conta é a comunidade local

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  • Relatório aponta que a mineradora Anglo American obtém lucros enormes com sua mina de ferro Minas-Rio, mas gera pouco retorno para as comunidades locais cujas vidas foram arruinadas por suas operações.
  • A transparência dos fluxos financeiros da mina fica aquém das melhores práticas internacionais, enquanto que o uso dos recursos hídricos locais tem causado escassez para as comunidades, segundo o relatório do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e Publish What You Pay.
  • O mineroduto de 529 quilômetros que a Anglo American utiliza para transportar o minério processado até o porto rompeu duas vezes em 2018, derramando quase mil toneladas de minério de ferro nos rios vizinhos, o que resultou na contaminação de terras agrícolas, pastagens e fontes de água.
  • O prefeito local diz que o município ficaria falido sem a mina e que a Anglo American tem feito um esforço ativo para apoiar o desenvolvimento sustentável, embora os moradores discordem, temerosos por uma ruptura da barragem de rejeitos de minério.
 Por Shanna Hanbury | Traduzido por Carol De Marchi e André Cherri para a MongaBay

A mineradora Anglo American, sediada no Reino Unido, apresenta enormes lucros exportando minério de ferro do Brasil para a China, mas gera pouco retorno às comunidades locais, cujas vidas são agora dominadas pela incerteza e pelo medo. É o que revela um novo relatório conjunto do Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica (Ibase) e da Publish What You Pay, uma coalizão global de transparência voltada para o setor extrativista.

O projeto de mineração Minas-Rio extrai e processa minério de ferro nos municípios de Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas, no sudeste de Minas Gerais. Em seguida, transporta o minério em pó por um mineroduto de 529 quilômetros (considerado o mais longo duto mineral do mundo) até o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, de onde é embarcado para a China. O mineroduto rompeu duas vezes em 2018, derramando quase mil toneladas de minério de ferro. Esses incidentes são sintomáticos da falta de transparência na forma como a mineradora faz negócios, o que é incompatível com as melhores práticas da indústria e oferece poucos benefícios materiais para as comunidades rurais mais afetadas, de acordo com o relatório.

A poeira e o barulho causados pelo projeto de mineração Minas-Rio substituíram a rotina calma da vida rural, e os rios e riachos da região estão agora assoreados e poluídos, afetando o abastecimento de água potável de várias comunidades, assim como suas atividades agrícolas. O uso dos recursos hídricos naturais da região é apontado pelas comunidades locais como causador da escassez e da poluição hídrica. Além disso, a falta de transparência no setor de mineração do país agrava os impactos, diz o relatório.

“A informação foi muito difícil de encontrar, e o que conseguimos encontrar revelou uma importante questão com a governança dos recursos naturais do Brasil”, diz Athayde Motta, diretor executivo do Ibase e co-autor do relatório, “Em Busca da Transparência”: Acabando com a Opacidade no Setor Extrativista do Brasil”“Desde que começamos a pesquisar para o relatório, essa governança tem sido ainda mais deteriorada.”

Desde o início do governo de Jair Bolsonaro, no início de 2019, 57 projetos de lei que enfraquecem a proteção ambiental foram aprovados no país, incluindo legislação que permite a emissão de licenças de mineração antes mesmo da conclusão das revisões ambientais, de acordo com um estudo publicado em março de 2021 na revista Biological Conservationreportado pela Mongabay. A Anglo American possui mais de 300 pedidos pendentes de prospecção ou mineração em terras indígenas na Amazônia brasileira – uma prática que é ilegal segundo a Constituição do país, mas que pode ser permitida em breve se outro projeto de lei controverso for aprovado.

Em 2018, a ONU advertiu o Brasil sobre ameaças a seis famílias da classe trabalhadora em Conceição do Mato Dentro, depois de entrarem com uma ação judicial contra as operações da Anglo American Iron Ore Brazil S.A, subsidiária local da mineradora. Mais tarde, eles entraram em um programa de proteção estatal para defensores de Direitos Humanos.

O relatório recomenda que o governo brasileiro se junte aos 55 países já filiados à Iniciativa de Transparência das Indústrias Extrativas, que visa estabelecer um novo padrão global para a mineração e a governança do petróleo.

Em uma declaração, a Anglo American disse que “cumpre rigorosamente a legislação vigente e tem suas atividades licenciadas e monitoradas pelas autoridades competentes” e que “já segue os melhores padrões e diretrizes internacionais”. A empresa alega que, no Brasil, “opera com total regularidade nas cidades-sede, atuando com ações de prevenção, mitigação, controle e monitoramento dos impactos sociais e ambientais”. O governo brasileiro e o Ministério de Minas e Energia não responderam ao pedido de comentários da Mongabay.

“Todas estas empresas multinacionais afirmam operar respeitando as leis locais, e o fazem. Porém, as leis locais são frequentemente inferiores às melhores práticas internacionais. Isso parece ser o caso do Brasil também”, diz Miles Litvinoff, outro co-autor do relatório e ex-diretor da Publish What You Pay U.K. “Um retorno financeiro positivo é muito difícil, se não impossível, sem transparência e responsabilidade”, comentou.

aa 2Riacho assoreado próximo à mina da Anglo American. Foto: Alexandre Guzanshe/Ibase.

Explosões, água poluída e medo

Alice passou a sua infância brincando numa cascata perto de sua casa. A cachoeira já se foi, e em seu lugar está a imensa represa de rejeitos de mineração da Anglo American.

Alice, que pediu que seu nome verdadeiro não fosse usado por medo de perseguição, diz que a sua comunidade está dominada pela ansiedade devido à expectativa de novos desastres. A comunidade assistiu ao colapso de duas outras grandes barragens de rejeitos nos últimos seis anos no estado de Minas Gerais, consideradas os piores desastres ambientais da história do Brasil.

Os moradores vivem dentro do que os socorristas chamam de zona de auto-salvamento: se a barragem de rejeitos da Anglo American se rompesse, a onda de lama tóxica os alcançaria antes que as equipes de emergência pudessem chegar. “Todos aqui vivem em constante medo, com ou sem chuva”, diz Alice à Mongabay. “Em noites chuvosas, esse medo cresce”.

A Anglo American ofereceu-se para pagar a recolocação de qualquer pessoa que viva nesta zona, e diz que 80% das famílias optaram voluntariamente por ela. No entanto, Alice diz que os termos não são bons o suficiente. “Nós subsistimos da agricultura familiar. Se sairmos hoje, teremos comida para comer quando o nosso dinheiro acabar?”, pergunta ela. “Talvez tenha trazido alguns benefícios para as pessoas nas cidades, mas não vi nenhum ponto positivo aqui. A nossa prioridade é partir, mas com os nossos direitos totalmente garantidos.”

Hoje, a rotina rural de sua família é atormentada por explosões repentinas e um cheiro desagradável da mina a menos de 1,5 km de sua casa. Segundo Alice, sem água doce disponível, sua família agora depende dos caminhões de água da Anglo American, enquanto seus animais bebem água contaminada do rio. “A vida era melhor antes”, lamenta.

De acordo com o relatório, as comunidades locais estavam preocupadas com os impactos sobre o seu modo de vida desde o início, antes de a mina ser totalmente licenciada, mas os riscos foram minimizados pelas autoridades locais. “Ansiedades das comunidades rurais (…) foram ignoradas durante os estágios de licenciamento, tratadas como meras expressões de ‘percepção’, e impactos qualificados como ‘alegados’ ou ‘supostos’, em vez de considerados de maneira

aa 3Comunidade de São Sebastião do Bonsucesso, com barragem de rejeitos da Anglo American ao fundo. Foto: Alexandre Guzanshe/IBASE

Os recursos hídricos da região em torno da mina Minas-Rio foram severamente impactados, de acordo com o relatório. Rios e cachoeiras foram desviados para serem usados pela mina, e a água restante está agora poluída, afetando a água potável e a produção de alimentos. Imagem gentilmente cedida por Alexandre Guzanshe/IBASE.

1 bilhão de dólares em três meses 

Enquanto a operação de mineração da Anglo American fatura bilhões de dólares, apenas uma pequena fração de sua produção permanece no Brasil. De acordo com os resultados do terceiro trimestre, publicados em 21 de outubro de 2021, a empresa exportou cerca de 1 bilhão de dólares de minério de ferro em três meses, apenas de sua operação Minas-Rio. Com royalties fixados em 3,5%, apenas 34 milhões de dólares são pagos aos municípios em que opera, com ativistas locais dizendo que nenhum benefício tangível impacta a vida dos mais prejudicados pela mina.

O custo de produção atual da Anglo American é de 21 dólares por tonelada de minério de ferro, e a commodity é vendida atualmente por 167 dólares por tonelada, de acordo com as mais recentes declarações de produção da empresa. Outros 5 dólares por tonelada são divididos entre “desenvolvimento de mercado e projetos estratégicos, custos de exploração e avaliação, custos de restauração e reabilitação e outros custos corporativos”, de acordo com o Resumo Global 2020 da mineradora.

Não há indício de qualquer atividade ilegal, mas os autores do relatório questionam por que o Brasil tem feito um negócio tão ruim com seus recursos naturais, que são finitos. “As empresas deveriam ter um lucro razoável com a extração, e ponto”, disse Litvinoff. “Além de um lucro razoável, todo o resto deveria ser de domínio público e usado para o bem comum”.

Um aviso de entrada não autorizada em área do projeto Minas-Rio, da Anglo American, no município de Conceição do Mato Dentro, no sudeste do estado de Minas Gerais. Imagem cortesia de Alexandre Guzanshe/IBASE.

Para José Fernando de Oliveira, prefeito de Conceição do Mato Dentro e autoproclamado ambientalista, o projeto de mineração vai dar frutos a longo prazo. Oliveira disse que a empresa tem feito um esforço ativo para compensar os impactos negativos, que ele descreve como inevitáveis. Ele disse à Mongabay  que, sem a Anglo American, a cidade estaria falida.  Acrescentou, ainda, que mais de 70% da receita do município agora vem dos royalties da mineração.

“Estamos atravessando um período de crescimento econômico, e nossa missão é transformar esse crescimento em desenvolvimento e qualidade de vida”, disse Oliveira por telefone, complementando que a mina apoia investimentos em ecoturismo e infraestrutura. “Há uma enorme preocupação por parte da empresa para mitigar os impactos negativos e investir em impactos positivos, como o financiamento da diversificação econômica. A mineração não tem uma segunda safra, é um recurso finito, por isso a sustentabilidade é o nosso objetivo”.

Porém, para a sociedade civil e os membros da comunidade rural, a realidade é diferente. “A Anglo American fala muito bem de todas as suas diversas iniciativas, mas se as suas práticas são tão boas, então por que há pessoas que se opõem à mina sob programas de proteção de testemunhas? Por que temos provas de que as comunidades estão divididas e incapazes de perseguir seus meios de subsistência tradicionais, e temem a ruptura de barragens?”, Litvinoff questiona. “É uma troca muito desigual.”

Imagem de banner: Mina da Anglo American em Conceição do Mato Dentro. Foto: Alexandre Guzanshe/Ibase.

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Este foi inicialmente publicado pela Mongabay News Brasil [Aqui!].

Dia da Amazônia: Como o desmatamento da maior floresta tropical do mundo interfere na saúde da população?

COVID-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental

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Crédito: Tomáš Dohnal (Pixabay)

O Dia da Amazônia é celebrado em 5 de setembro por ser a data de criação da província do Amazonas, por Dom Pedro II em 1850. A data busca chamar atenção para o bioma que é a maior floresta tropical do mundo, reforçando a necessidade de sua preservação e do uso sustentável das matérias primas que a floresta propicia. O assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano.

A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí.

São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados.

“Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa”, explica Zarvos.

Doenças como a zika, que somada a dengue e chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael.

Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam.

“Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos”, finaliza o especialista.

Sobre a Oceano

A Oceano é uma empresa de gestão de resíduos e coleta inteligente, responsável pela correta destinação do lixo produzido no nosso dia a dia. Nossa gestão é focada, principalmente nos chamados micropoluentes, substâncias de uso comum em nosso dia a dia que constituem uma ameaça emergente à qualidade de águas, rios, lagos, reservatórios, mares e oceanos, uma vez que inexiste tecnologia para remoção destas substâncias provenientes de esgotos sanitários e hospitais, com coleta domiciliar e planos adequados para cada necessidade.

Novo PL do licenciamento ambiental incentiva o crime e a degradação

unnamedPaola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA

 Por Paola Samora, geógrafa, diretora-presidente do IPESA
Com o pretexto de modernizar as regras do licenciamento ambiental no Brasil, o Projeto de Lei (PL) 3.729/2004, caso aprovado, vai estimular a insegurança jurídica e destruir o que foi construído ao longo dos últimos anos pela Política Nacional de Meio Ambiente.

 

O texto-base do substitutivo apresentado pelo deputado Neri Geller (PP-MT), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), foi aprovado por 300 votos contra 122 e encaminhado ao Senado em tempo recorde – apresentado no dia 10 de maio e aprovado já no dia 13 – sem a realização de audiências públicas.

 

Ao transferir a estados e municípios o poder de definir o processo de concessão de licenças, introduzir exceções à obrigatoriedade do licenciamento ou mesmo facilitar a sua obtenção, são muitas as chances de multiplicar os danos ambientais. Atividades industriais que desmatam e poluem, por exemplo, ficarão livres de interferência e regulação estatais.

 

Este é mais um indício de que o caminho escolhido pelo Governo Federal vai na contramão de países desenvolvidos, em que a preocupação em limitar os impactos das mudanças climáticas tem gerado medidas concretas e de forte teor regulatório em prol dos interesses coletivos e do compromisso com o meio ambiente e a humanidade.

 

Vale lembrar que se a proposta de legislação passar pelo Senado, acabará com o licenciamento em áreas indígenas ou territórios quilombolas, que ainda não tenham sido demarcados ou titulados. O problema aqui é que parte significativa das terras ocupadas por essas populações tradicionais ainda não passou por esse processo. Isso significa também que grandes projetos de infraestrutura terão aval para desmatar, poluir e exterminar comunidades que estejam nas suas rotas.

 

Aprovado na Câmara, o PL 3.729 representa o desmonte de um histórico de construção do arcabouço legal de proteção ambiental no Brasil e uma afronta à Constituição. Um dos itens mais contraditórios, para citar um exemplo, é a chamada Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), por meio do qual os responsáveis por empreendimentos de “baixo ou médio risco ambiental” declaram que cumprirão as leis ambientais. Essa modalidade autodeclarada, em que o poder público deixa de regular o impacto ambiental das atividades econômicas, notadamente, do agronegócio, responsável por 25% do total de emissão de gases de efeito estufa, impedirão que os gestores públicos organizem a ocupação do território sem riscos ambientais.

 

Outra ameaça é a desvalorização do papel dos órgãos responsáveis por Unidades de Conservação, como o ICMBio. Na nova lei rural, a manifestação desses órgãos passa a ser apenas consultiva, podendo ser ignorada pelo órgão licenciador.

 

Diante de tantos desastres ambientais vividos recentemente no país, como a quebra das barragens de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, a aprovação desse projeto irá representar novos episódios de acidentes socioambientais ao enfraquecer a segurança jurídica desse relevante instrumento de proteção ambiental.

 

Ao contrário do argumento de que o PL vai desburocratizar o processo e destravar a economia ao abrir mão desses controles, na realidade, vai prejudicar a atração de investimentos e deteriorar, ainda mais, a imagem do Brasil como pária ambiental.

 

Neste sentido, é preciso atentar para a falácia do negacionismo climático, que usa o argumento de que a preservação ambiental é inimiga do desenvolvimento econômico, ou mesmo a culpada pela escassez de empregos e alimentos, a fim de justificar que o licenciamento é uma burocracia desnecessária.

 

Será inevitável, e até esperada, a perda de postos de trabalho pela superação da indústria dos combustíveis fósseis. Mas ela pode ser compensada com a abertura de novos empregos ligados às fontes de energia limpa. E a transição para um modelo agrícola baseado na produção ecológica e orgânica, somada a medidas consistentes para evitar o desperdício de alimentos, podem minimizar os problemas decorrentes da insegurança alimentar no planeta.

 

Por fim, uma lei que não concilia os interesses de diferentes setores da sociedade e não atende ao primeiro objetivo da Lei da Política Nacional de Meio Ambiente, de 1981, que defende compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com a preservação do meio ambiente e do equilíbrio ecológico, é inconstitucional e ultrajante.

Como o desmatamento da maior floresta tropical do mundo interfere na saúde da população?

Covid-19 e outras doenças chegam até nós como consequência da degradação ambiental

deforestation

Quanto mais próximos os humanos estão dos animais, maiores são as oportunidades de contágio zoonótico, em que um patógeno salta do animal para o humano. Zoë van Dijk para NPR

A preservação do meio ambiente nunca esteve tão em voga quanto ultimamente, o assunto é de extrema importância, não só pela vida dos seres vivos que ali habitam, mas também para a saúde ambiental do planeta e do ser humano.

A degradação ambiental ocorre há anos, e cada vez mais vemos de perto como esse descaso com as florestas interfere diretamente na vida da população. Estudos científicos já atestaram que o desmatamento gera uma cadeia de acontecimentos complexos, criando meios para que diferentes patógenos mortais se espalhem entre os humanos. Doença de Lyme e a malária, por exemplo, surgiram a partir daí.

São 40 mil espécies de plantas, milhões de insetos e 400 mamíferos que estima-se ter na Amazônia, floresta que ocupa sete milhões de quilômetros quadrados e faz parte de nove países da América do Sul. O especialista em Gestão de Resíduos Sólidos e fundador da Oceano Resíduos, Rafael Zarvos, alerta a necessidade das pessoas entenderem que desmatamento e doenças estão relacionados.

“Infelizmente, somos a única espécie capaz de destruir e de ameaçar a nossa própria sobrevivência. A forma como a sociedade está transformando o meio ambiente e reduzindo os habitats naturais, faz com que animais silvestres e seres humanos se aproximem. Isso potencializa o risco de transmissão de variados patógenos da espécie deles para a nossa”, explica Zarvos. 

Doenças como a Zika, que somada a Dengue e Chikungunya contabilizaram um aumento de 248% do número de casos no ano de 2019, é exemplo de enfermidade que veio da cena rural para a urbana pelo avanço do desmatamento em áreas florestais. “A destruição da natureza coloca em risco a nossa própria existência. O coronavírus, por exemplo, responsável pela pandemia que vivemos, é fruto do contato de humanos com morcegos”, destaca Rafael.

Uma área queimada da floresta amazônica no estado do Pará, Brasil, em 2019. Um crescente conjunto de evidências mostra que a perda e fragmentação da floresta podem aumentar o risco de doenças infecciosas de origem animal, como o coronavírus. Leo Correa / AP

Em relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), é possível ver que a cada quatro meses o ser humano tem uma infecção originária de problemas relacionados ao meio ambiente, e que 75% das doenças são de origem animal. O consumo de carne crua de animais silvestres, o desmatamento, as mudanças climáticas e o tráfico ilegal de animais silvestres são fatores que contribuem para facilitar o contágio de seres humanos por patógenos que vivem na natureza e nas espécies que ali habitam.

“Cientistas especulam que o vírus que desencadeará a próxima pandemia já está em circulação, é só uma questão de tempo até sermos atingidos. Isso prova que está mais do que na hora de prestarmos atenção no consumo de produtos, além de pequenos hábitos do dia a dia que podem ser cruciais para ajudar o meio ambiente e a nós mesmos”, finaliza o especialista.

A perda da credibilidade do governo brasileiro frente aos dilemas internacionais e na degradação ambiental das florestas

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Por Junio Cesar dos Santos Carmo e  Gabriel Henrique Alves*

Com o pós Guerra Fria e a entrada no século XXI novas demandas tomaram espaço na agenda internacional, perdendo o caráter estrito voltado para segurança e armamento como definição de poder. Com o adjunto do acordo de Paris (2015), do Protocolo de Kyoto (1997), da Agenda 2030 e outras convenções que permeiam a temática da preservação ambiental, quanto a redução da emissão de gases, desenvolvimento sustentável, energias renováveis e etc; a pauta sobre meio ambiente tem adquirido relevante proporção nos debates internacionais. Entre 2019 e 2020, ocorreu um crescimento considerável nos incidentes que envolvem desastres ambientais, sobretudo no que tange às queimadas e a emissão de CO₂. Nesse sentido, o Brasil obteve palco em inúmeros canais de telecomunicações internacionais, vis a vis, a degradação ambiental na Amazônia e no momento atual com os incêndios no Pantanal. Tais notícias trouxeram novamente a discussão sobre a irresponsabilidade dos Estados latino-americanos na proteção do meio ambiente e a necessidade de um estatuto internacional para a “preservação da Amazônia”. A constituição do sistema anárquico internacional tem um impacto direto nas relações entre os países, nas quais em sua maioria (se não na sua totalidade) são moldadas por interesses ou aspirações que mantenham/aumentem o status quo desses atores no paronama global.

Entretanto, na habilidade de causar dano, estimar capacidades e o comportamento entre os Estados, os jogos de interesses se mostram claros na entrevista que o Presidente da França, Emmanuel Macron participou no dia 26 de agosto de 2019 ao abordar sobre as queimadas na Amazônia, uma vez que afirmou que “a nossa casa está queimando”. Nesta mesma linha de raciocínio sobre, o Presidente francês pontuou acerca da irresponsabilidade do Governo de Jair Bolsonaro ao ressurgir com o tema da “internacionalização da Amazônia”, uma vez que as medidas de contenção aos incêndios que vem devastando a região são ínfimas.

As aspirações de Macron são muito claras ao considerar às pressões populares quanto à sua inexequibilidade às propostas de governo nos resguardos de preservação ambiental. No entanto, o Presidente se contrapôs ao consentir uma redução de 50% sobre os impostos da licença para caça na França (algo praticado por cerca de 1,2 milhões de franceses). Outro aspecto estratégico se exemplificou no argumento de ser necessário a criação de um Estatuto Internacional para Amazônia; indicação que teve apoio de grande parte dos líderes da União Europeia e pelo próprio G-7, o que levou a interromper o acordo de livre comércio entre o MERCOSUL e a UE, tido como pretexto as queimadas e a urgência por uma tomada de decisão eficiente pelo Governo brasileiro (Gazeta do Povo, 2019). Esta interrupção permite que França tenha mais tempo para reorganizar sua situação frente ao acordo, visto que 1,7% do PIB é voltado para o setor agrícola e o sistema tarifário disposto na proposta teria impacto direto sobre a economia francesa tanto na importação quanto exportação (Aicep Portugal Global, 2018, p 5), assim como uma forma que Macron encontrou para melhorar sua imagem na mídia em relação às pautas ambientais. Portanto, mais uma vez o sul-global sofre com interferência por países com maior poder econômico e influência no sistema internacional.

O Presidente Donald Trump iniciou a saída dos EUA do acordo de Paris, quanto a redução da emissão de gases, sendo que o país que detém de 4% da poluição mundial e um dos líderes que apoiam fervorosamente a produção e consumo de combustíveis fósseis (The Guardian, 2020). Este advento, por maior que tenha tido certa repercussão internacional, os constrangimentos sob os norte-americanos não foram os mesmos quanto à questão da Amazônia. Ademais, a Austrália enfrentou uma das piores queimadas nos últimos anos, com mais de 10 milhões de hectares queimados e 28 mortos, devido ao evento chamado Dipolo do Oceano Índico que provocou uma seca intensa, pouca chuva e temperaturas perto dos 45oC (BBC, 2020). Mesmo que as queimadas tenham justificativas de cunho climático (“natural”) – o que o mesmo não ocorre na Amazônia por ser uma região muito úmida e sofrer com uma agressiva exploração ambiental – não existiu uma repercussão internacional que culpasse o Governo ou que evidenciasse uma necessidade de interferência igual na América Latina, sobretudo, porque interferir nas políticas australianas, estado-unidense bem como o status da Amazônia, intitularia-se como uma violação ao princípio de soberania previsto no artigo 3º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) dos países que ali estão estabelecidos.

Não obstante, ao fazer uma análise sobre imagem do Brasil no exterior, especialmente em relação ao Governo Bolsonaro, os noticiários intitulam o Presidente como um “líder vingativo” e que apresenta uma postura “irresponsável e perigosa”, um caráter que influi diretamente sob as pressões e os constrangimentos internacionais sofridos (BBC, 2020). Pontuações que atribuem fuga de investidores do país, perda de credibilidade internacional e a ameaça a própria diplomacia brasileira, principalmente em relação ao MERCOSUL com o re-alinhamento das política externa brasileira com a dos Estados Unidos.

Todavia, as ações negligentes e pouco efetivas para conter as queimadas e a degradação ambiental da Floresta Amazônica e na região Pantanal são um reflexo não só governamental, mas dos impactos industriais e dos fazendeiros, como gerados pela agricultura, pecuária e mineração. “A área desmatada no ano passado na maior floresta tropical do mundo – 60% da qual está no Brasil – foi estimada em 10 mil quilômetros quadrados, correspondente aproximadamente ao tamanho do Líbano” (DW, 2020). Na Amazônia, cerca de 80% do desmatamento é resultado de ações da pecuária, sendo que em uma escala nacional, a região norte abarcou 52,5% dos focos de queimadas de 2019, logo em seguida o cerrado com 30,1% e a Mata Atlântica 10,9%. As queimadas no Brasil cresceram cerca de 82% em relação a 2018 com mais de 71 mil focos, sendo o maior número registrado nos últimos 7 anos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Num panorama mundial, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), até 40% da população mundial sofrerá com a falta de água e até 2050 esse número subirá para 2/3. 

Nesta lógica, as alterações climáticas e o próprio aquecimento global são resultado direto do consumo desenfreado do ser humano, da produção em larga escala pelas indústrias, pela falta de responsabilidade dos líderes mundiais bem como a uma de consciência moral, que fomentará consequências exorbitantes no futuro com aumento das temperaturas, do nível do mar, perda de biomas e extinção de espécies e uma ação mais violenta da natureza como resposta. O cenário brasileiro vem sendo uma avalanche, com perda de fiabilidade, protagonismo nas Nações Unidas e principalmente no MERCOSUL. Atualmente, o Pantanal é a nova vítima, e de acordo com o New York Times os incêndios por fazendeiros acarretaram perda de 10% da áreas úmidas do país, sendo que as queimadas na maior planície alagada do planeta, resultaram em mais de 7 mil milhas, ou seja, 11 mil km de áreas degradadas de acordo com o estudo feito pela NASA (The New York Times, 2020, tradução pelo autor). Nesse sentido, não apenas o Brasil, mas a sociedade internacional como um todo precisa de fato tomar medidas que recuem esse processo destrutivo e que saiam apenas das negociações e ratificações de convenções e tratados para o plano prático e real, sem fazer um análise segregacionista e muito menos colonial, visto que a longo prazo os resultados podem ser irreversíveis.

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Junio Cesar dos Santos Carmo – Graduado em Geografia com Ênfase em Geoprocessamento pela Pontifícia Universidade Católica – MG, Engenharia de Agrimensura e Cartografia pela Faculdade de Engenharia de Minas Gerais, MBA em Gestão de Pessoas pela Faculdade Pitágoras, Mestrando em Engenharia de Processos e Sistemas pelo IETEC. Hoje é Coordenador de regularização fundiária do GVM Advogados.

Gabriel Henrique Alves – Graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Lisboa no Instituto de Ciências Sociais e Políticas

Novos satélites e novas técnicas de detecção irão dificultar tentativas de “liberar geral” na Amazônia brasileira

bolsonaro fogo

Um dos fatos tidos como mais importantes para os esforços para controlar o avanço das temperaturas, o controle das taxas de desmatamento nas florestas tropicais, vem recebendo instrumentos cada vez mais poderosos para que se possa avaliar a situação. Um exemplo disso são as novas gerações de satélites com níveis de resolução cada vez melhores que permitem a avaliação do impacto de atividades que, até recentemente, não eram corretamente detectadas.

É por isso que as declarações recentes do futuro ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, o advogado Ricardo Salles, de que nem todo o desmatamento novo é desnecessariamente ilegal podem ser facilmente verificadas de modo a serem suportadas ou negadas.  Não adianta, assim, tentar tampar o sol com a peneira porque os instrumentos para a verificação científica de determinadas declarações não só já existem, como estão evoluindo rapidamente.

De toda forma, é preciso ressalvar que os dados recentemente compilados pelo jornalista Maurício Tuffani (do site Direto da Ciência) sobre a evolução temporal do desmatamento na Amazônia brasileira são apenas parciais em termos da degradação dos biomas ali existentes (ver tabela abaixo mostrando que 19,9%  da floresta já foi removida na Amazônia), na medida em que medem apenas o percentual perdido com corte raso [1].

desmatamento

Esse alerta é importante porque existem outras formas agudas de degradação, as quais podem servir como motores de desmatamento, incluindo a extração de madeira e as diferentes formas de garimpo (como os de ouro e diamante).  Além disso, algumas dessas formas de degradação estão induzindo a ocorrência de incêndios florestais, os quais servem para aumentar ainda mais o tamanho das áreas cuja vegetação perde a capacidade de oferecer serviços ambientais e de autossustentação [2[. 

Em outras palavras, o que já parece ruim quando se apresentam os dados de corte raso das florestas é ainda pior quando se considera que os processos de degradação florestal podem causar danos também severos, além de facilitar a ocorrência futura de novos eventos de remoção total da vegetação.

A boa notícia (se é que se pode chamar assim) é que as ferramentas para a detecção dos processos de degradação estão ficando cada vez mais robustos, e os dados estão sendo gerados com confiabilidade cada vez mais maior para toda a bacia Amazônica, como bem demonstrou o estudo recentemente liberado sobre o alcance da mineração ilegal de ouro  que mostrou a existência de uma verdadeira epidemia de garimpos clandestinos naquela região [3].

Alguém mais cético poderá se perguntar de que adianta termos esse aumento na capacidade na detecção dos diferentes processos de remoção e degradação das florestas amazônicas tendo um ministro como Ricardo Salles comandando o meio ambiente e um presidente eleito que faz questão de manter ignorante sobre o debate internacional em curso sobre o que fazer para conter as mudanças climáticas. A resposta aqui é simples: de nada adiantará os governantes brasileiros serem negacionistas, pois há hoje uma forte pressão para que não haja um retorno a um passado recente onde havia um aceite tático da aplicação de um paradigma que tratava as florestas amazônicas como uma mera fronteira de recursos inexplorados.

Assim, se o Brasil resolver se abster de suas responsabilidades de conservar as florestas da Amazônia é quase certo que decorrerão disso muitas consequências de cunho econômico, não sendo difícil prever a criação de barreiras aos produtos brasileiros saídos de áreas recentemente desmatadas. Aí veremos como se comportarão os que hoje se omitem frente ao avanço das propostas de “liberar geral” na Amazônia brasileira.


[1] http://www.diretodaciencia.com/2018/11/24/desmatamento-na-amazonia-cresce-138-floresta-ja-perdeu-199/

[2] Ver artigo por Matricardi et al (2013), Assessment of forest disturbances by selective logging and forest fires in the Brazilian Amazon using Landsat data , publicado pela revista International Journal of Remote Sensing, que pode ser acessado no link https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/01431161.2012.717182

[3] https://www.dw.com/pt-br/estudo-denuncia-epidemia-de-garimpos-na-amaz%C3%B4nia-brasileira/a-46664874