Degradação florestal na Amazônia brasileira: Políticas Públicas devem visar fenômeno relacionado ao desmatamento

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Por Clarissa Gandour , Diego Menezes , João Pedro Vieira e Juliano J. Assunção para a Climate Policy Initiative 

CPI

Nas últimas décadas, o Brasil acumulou experiência significativa no uso de políticas de proteção às florestas tropicais. Mais notavelmente, o país projetou e implementou vários esforços eficazes para combater o desmatamento por corte raso na Amazônia brasileira. [1] Isso foi motivado pela necessidade urgente de conter a perda de floresta tropical no país, que estava entre as mais altas do mundo no início dos anos 2000. [2]    O desmatamento, entretanto, não é o único tipo de dano ambiental que afeta a Amazônia brasileira. A degradação florestal, fenômeno caracterizado pela perda gradativa da vegetação, surge como uma ameaça cada vez mais relevante para a região. [3] , [4]Embora a degradação possa parecer menos destrutiva do que o desmatamento, o combate à degradação deve ser uma prioridade da agenda da política de conservação do Brasil. Afinal, conter a perda de floresta em um estágio anterior aumenta a capacidade de conservar a vegetação nativa no longo prazo.

Hoje, em parte porque a degradação continua sendo um fenômeno relativamente desconhecido, raramente é priorizada em ações políticas destinadas a proteger a vegetação nativa. Um melhor entendimento da degradação na Amazônia, e particularmente de sua relação empírica com o desmatamento por corte raso, é um insumo fundamental no processo de tomada de decisão para alocar recursos escassos para a implementação de políticas públicas. Com ele, o Brasil poderia direcionar seus esforços de forma mais eficiente e fornecer uma resposta mais oportuna à degradação.

Para ampliar a compreensão desse fenômeno, pesquisadores da Climate Policy Initiative / Pontifícia Universidade Católica (CPI / PUC-Rio) caracterizaram empiricamente a dinâmica da degradação e sua relação com o desmatamento na Amazônia brasileira. Este Insight fornece uma breve introdução ao tópico da degradação tropical, um resumo dos principais resultados e orientações para pesquisas e políticas futuras. A análise reforça a relevância recente da degradação na Amazônia brasileira e constata que existe uma relação estreita entre degradação e desmatamento. Os resultados indicam que essa relação varia significativamente entre as categorias de posse da terra, enfatizando a necessidade de adaptar a política de conservação para abordar diferentes estruturas de governança com base na posse.

O que é degradação da floresta?

Este projeto define degradação florestal como a perda parcial da biomassa florestal. A Figura 1 fornece uma visão simplificada desse processo. Começando com uma floresta intacta, a degradação mina a integridade da cobertura florestal por meio da perda gradual de vegetação ao longo do tempo. Embora uma floresta degradada ainda retenha vegetação primária, ela não tem a mesma estrutura florestal, resiliência e funções como uma floresta intacta. [5] À medida que a degradação progride, a perda de biomassa florestal se aproxima do desmatamento por corte raso, no qual há remoção completa (ou quase completa) de toda a cobertura vegetal.

Figura 1. Degradação florestal e desmatamento por corte raso

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O processo representado na Figura 1, no qual uma floresta não perturbada passa por vários estágios de degradação culminando em desmatamento raso, é apenas um dos caminhos possíveis para uma área degradada. A degradação pode ocorrer mais ou menos gradualmente ao longo do tempo, dependendo do tipo de atividade que a causa. Além disso, a degradação não leva necessariamente ao desmatamento por corte raso – uma área degradada pode ser mantida intencionalmente com apenas um remanescente parcial de vegetação primária, ou pode sofrer regeneração e conter uma mistura de remanescentes primários e vegetação secundária.

Degradação da Amazônia brasileira  

Causas Primárias

As práticas mais comumente associadas à degradação tropical no Brasil são a extração seletiva de madeira e os incêndios florestais. A extração seletiva envolve o corte de espécies específicas de árvores, normalmente selecionadas com base no valor comercial de sua madeira. Além da perda de biomassa com a própria extração de árvores, a floresta ao redor das árvores derrubadas também é comprometida pela abertura de estradas de acesso e pátios de armazenamento e pelos danos causados ​​pela queda de árvores na vegetação próxima. Para minimizar esse efeito colateral, as atividades madeireiras legais devem obedecer a um plano de manejo.

Os incêndios, por outro lado, geralmente destroem primeiro as plantas mais frágeis e, após repetidos ciclos de queima no mesmo local, avançam para plantas mais resistentes. Devido à alta umidade, as florestas tropicais não queimam facilmente ou imediatamente. No primeiro contato, os incêndios consomem a vegetação mais frágil e comprometem a resiliência das plantas remanescentes, que se tornam mais vulneráveis ​​aos incêndios subsequentes.

A análise da CPI / PUC-Rio usa dados do DEGRAD, um sistema desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que usa imagens de satélite para compilar mapas anuais de áreas degradadas em toda a Amazônia brasileira de 2007 a 2016. O DEGRAD não categoriza de forma consistente o tipo ou estágio de degradação, portanto, a análise empírica atualmente não cobre tal classificação.

Características Gerais

A degradação florestal é um fenômeno em grande escala na Amazônia, normalmente afetando uma área muito maior do que o desmatamento por corte raso. Entre 2007 e 2016, uma média de 11.000 km 2 de floresta foram degradados a cada ano. Isso é o dobro da média anual de áreas desmatadas no mesmo período. Enquanto o desmatamento avançou em um ritmo relativamente estável durante o período de amostra, a degradação variou consideravelmente ao longo do tempo, especialmente de 2009 a 2016. A área degradada total por ano variou de um mínimo de 2.700 km² em 2014 a um pico de 23.700 km² em 2016.

Espacialmente, a degradação florestal está geograficamente concentrada ao longo do Arco do Desmatamento , que historicamente também contém a maior parte das áreas desmatadas da Amazônia. [6] Em média, os estados de Mato Grosso e Pará somados respondem por 75% das áreas degradadas e 64% das áreas desmatadas por ano na Amazônia. Apesar da concentração regional do fenômeno, a degradação apresenta baixo índice de recorrência local ao longo dos anos . Uma determinada área é classificada como degradada, em média, apenas uma vez no período amostral.

Além disso, parece haver relativamente pouca conversão de degradação em desmatamento na Amazônia como um todo durante o período em avaliação. Em média, apenas 9% das áreas degradadas são desmatadas em até três anos, que é o tempo médio decorrido entre a ocorrência desses dois eventos. Isso, entretanto, não significa que não exista uma relação estreita entre degradação e desmatamento. Como esse número é uma média para toda a Amazônia, ele pode ocultar diferenças importantes em como as partes interessadas interagem com a floresta em regiões específicas.A posse da terra desempenha um papel potencialmente central nisso. No Brasil, a posse é um fator determinante das regras que regem o uso da terra local, incluindo a proteção e conversão da vegetação nativa. A estrutura de governança baseada na posse pode, portanto, afetar as decisões de uso da terra e, portanto, os padrões de conversão florestal local. Isso exige uma melhor compreensão da relação entre degradação e desmatamento nas diferentes categorias de posse da terra.

Degradação e desmatamento por categoria de terreno  

Observando como a degradação e o desmatamento se relacionam em diferentes categorias de posse da terra, o estudo visa explorar se a estrutura de governança influencia as interações dos atores locais com a floresta. A análise considera sete categorias: pequenas propriedades privadas, médias ou grandes propriedades privadas, territórios protegidos (áreas protegidas e terras indígenas), assentamentos rurais, terras públicas não designadas, terras não identificadas (para as quais não há informações de posse) e outros (restantes categorias).

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Figura 2a. Desmatamento, distribuição por categoria de posse de terra, 2007-2018 Fonte: CPI / PUC-Rio com dados do PRODES / INPE, Atlas Agropecuário / IMAFLORA e Cadastro Nacional de Florestas Públicas / Serviço Florestal Brasileiro, 2021

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Figura 2b. Degradação, distribuição por categoria de posse de terra, 2007-2016

Fonte: CPI / PUC-Rio com dados do DEGRAD / INPE, Atlas Agropecuário / IMAFLORA e Cadastro Nacional de Florestas Públicas / Serviço Florestal Brasileiro, 2021

A Figura 2 mostra a distribuição anual do desmatamento e degradação entre as categorias. Para o desmatamento, a distribuição permanece bastante estável ao longo do tempo, com participações semelhantes de perda florestal ocorrendo todos os anos em propriedades privadas (principalmente de médio ou grande porte), assentamentos rurais e terras públicas não designadas. A degradação, por outro lado, varia significativamente entre categorias e anos. Grande parte da degradação ocorre em propriedades privadas de médio ou grande porte e, em menor escala, em terras não identificadas. A menor participação de pequenas propriedades privadas e assentamentos rurais, bem como a maior participação de territórios protegidos contrastam com o padrão observado para o desmatamento.

Figura 3. Relação entre degradação e desmatamento por categoria de posse da terra, 2007-201

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Como ler o gráfico?

Nota: Para cada categoria de posse da terra, o gráfico mostra a parcela da área degradada em cada ano que foi seguido pelo desmatamento em três anos. A análise considera o desmatamento ocorrendo no mesmo local que a degradação (conversão da degradação em desmatamento) e em suas proximidades (desmatamento próximo à degradação).

Fonte: CPI / PUC-Rio com dados do DEGRAD / INPE, PRODES / INPE , Atlas Agropecuário / IMAFLORA e Cadastro Nacional de Florestas Públicas / Serviço Florestal Brasileiro, 2021

O desmatamento segue sistematicamente a degradação em alguma das categorias de posse da terra? A Figura 3 sugere que sim. Embora a conversão local da degradação em desmatamento permaneça baixa ou moderada em todas as categorias de posse, os dados apontam para um desmatamento significativo ocorrendo perto de áreas degradadas dentro de três anos do evento de degradação. Nesse sentido, a degradação em um determinado local pode nem sempre ser um precursor do desmatamento local, mas pode servir como um indicador de que o desmatamento ocorrerá em breve naquela região .

Como mostra a Figura 3, a relação entre degradação e desmatamento varia entre as categorias de posse da terra. Embora seja impossível determinar as razões para essas diferenças a partir dos dados usados ​​no estudo, a análise levanta algumas interpretações prováveis. Existem três padrões principais. Em primeiro lugar, a conversão da degradação em desmatamento é consistentemente baixa dentro dos territórios protegidos, mesmo quando se contabiliza o desmatamento que ocorre nas proximidades de áreas degradadas. Considerando que crimes ambientais cometidos em territórios protegidos estão sujeitos a penas mais severas, as baixas taxas de conversão podem ser explicadas pelo fato de que remover mais vegetação em áreas degradadas, o que acarreta maior risco de detecção pelas autoridades ambientais, simplesmente não vale a pena. .

Em segundo lugar, a degradação parece ser seguida pelo desmatamento nas proximidades em pequenas propriedades privadas e assentamentos rurais. Nessas categorias, mesmo a conversão local de degradação para desmatamento é relativamente alta. Esse padrão provavelmente está relacionado ao alto custo de derrubar a vegetação em uma floresta tropical. Para pequenos proprietários e assentados, que normalmente têm acesso limitado a financiamento, a degradação pode ser uma maneira de remover a cobertura florestal aos poucos e a um custo menor.

Terceiro, propriedades privadas de médio e grande porte, áreas públicas não designadas e áreas não identificadas parecem estar em algum lugar entre os dois padrões anteriores. A conversão local da degradação em desmatamento é baixa, mas parece haver uma porção moderada de áreas degradadas que são seguidas por desmatamento nas proximidades. Essas categorias são menos homogêneas do que as anteriores, portanto, esse padrão provavelmente abrange uma variedade de perfis de degradação e desmatamento.

Finalmente, a evidência sugere que a parcela da degradação seguida pelo desmatamento local ou próximo cresceu nos anos finais da amostra em todas as categorias de posse da terra. Isso pode apontar para a degradação como um precursor cada vez mais relevante para – e, portanto, um importante indicador antecedente do – desmatamento.

Próximas Etapas para Pesquisa e Política Pública  

A degradação florestal parece estar intimamente relacionada ao desmatamento na Amazônia brasileira e, para determinadas categorias de posse da terra, parece ser um precursor do desmatamento. A degradação pode, portanto, ser usada como um indicador de dano ambiental iminente e ajudar a direcionar os esforços da política de conservação. Por outro lado, para os casos em que a degradação não se transforma em desmatamento, é importante entender por que a degradação dos ativos ambientais está acontecendo se a terra não está sendo posteriormente utilizada para a produção.

Nesse cenário, as políticas públicas devem adaptar as abordagens para abordar as várias práticas de conversão florestal encontradas nas diferentes categorias de posse da terra. A pesquisa, por sua vez, deve apoiar o desenho e a implementação de políticas públicas, avançando no entendimento de como as estruturas de governança baseadas na posse influenciam os padrões de degradação e subseqüente desmatamento. Este estudo oferece uma primeira visão de como os formuladores de políticas podem compreender a degradação e usar esse conhecimento para aprimorar sua capacidade de combater a perda florestal em suas várias formas.

Dados

A análise explora um conjunto de dados rico e espacialmente explícito (raster) criado a partir de uma variedade de fontes disponíveis publicamente. As variáveis-chave e suas fontes são: áreas degradadas do DEGRAD / INPE; áreas desmatadas do PRODES / INPE; e categorias fundiárias do Atlas Agropecuário / IMAFLORA e Cadastro Nacional de Florestas Públicas / Serviço Florestal Brasileiro.

Nota Metodológica

A análise visa caracterizar empiricamente a degradação florestal na Amazônia brasileira e investigar sua relação com o desmatamento por corte raso entre 2007 e 2018. A amostra espacial inclui áreas de floresta tropical no bioma Amazônia brasileira que foram degradadas e / ou desmatadas durante o período da amostra. Um banco de dados raster foi compilado com resolução de 30 metros para incluir dados georreferenciados sobre degradação e desmatamento ao longo do tempo, bem como sobre categorias de posse de terra para todo o bioma Amazônia. O estudo relaciona eventos de degradação e desmatamento ocorridos no mesmo local ou nas proximidades e estratifica os resultados por categoria de posse da terra. Devido ao grande número de observações no banco de dados (quase 2 bilhões), a amostragem aleatória foi usada para construir o conjunto de dados para análise (contendo 2.

VEJA A VERSÃO EM PDF AQUI

[1] Para um resumo das avaliações das políticas de conservação, consulte: Gandour, Clarissa. Por que proteger a Amazônia é importante? Climate Policy Initiative, 2019. bit.ly/3v0ow7N

[2] Hansen, Matthew C. et al. “Desmatamento de floresta tropical úmida de 2000 a 2005 quantificado por meio de dados multitemporais e multirresolução de sensoriamento remoto”. Proceedings of the National Academy of Sciences 105, nº 27 (2008): 9439–9444.

[3] Rappaport, Danielle I. et al. “Quantificando mudanças de longo prazo nos estoques de carbono e estrutura florestal da degradação da floresta amazônica”. Cartas de Pesquisa Ambiental 13, nº 6 (2018): 065013.

[4] Matricardi, Eraldo AT et al. “A degradação florestal de longo prazo supera o desmatamento na Amazônia brasileira”. Science 369, nº 6509 (2020): 1378-1382.

[5] Longo, Marcos et al. “Variabilidade da biomassa acima do solo em florestas intactas e degradadas na Amazônia brasileira”. Global Biogeochemical Cycles 30, nº 11 (2016): 1639-1660.

[6] O Arco do Desmatamento se refere a uma ampla região do Bioma Amazônia que se estende do oeste do Maranhão e sul do Pará em direção ao oeste, passando por Mato Grosso, Rondônia e Acre.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Climate Policy Initiative [Aqui! ].

Degradação, uma ameaça contínua para a Mata Atlântica

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A Mata Atlântica é uma das florestas tropicais mais importantes do mundo, mas suas florestas são altamente fragmentadas. Crédito da imagem: Angeloleithold / Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons 3.0

Dê uma olhada

  • Mata Atlântica já perdeu mais de 80 por cento de suas florestas
  • Monitorar a degradação florestal é tão importante quanto considerar o desmatamento, dizem os cientistas
  • Combate à degradação da Mata Atlântica atrairia grandes investimentos em créditos de carbono

Por:Washington Castilhos para a SciDev

Os impactos humanos sobre os remanescentes da Mata Atlântica causaram perdas de até 42% de sua biodiversidade e reservas de carbono, elementos essenciais para a conservação da vida e a regulação do clima, concluiu um novo estudo.

Com uma variedade de florestas tropicais de vários tipos e vegetação única – como o pau-brasil, a espécie de planta que deu o nome ao Brasil – a Mata Atlântica já cobriu toda a costa do Brasil e partes da Argentina, Paraguai e Uruguai. Hoje, apenas fragmentos sobrevivem.

Por meio da análise de 1.819 levantamentos, que levaram em consideração o clima, o solo, o nível de degradação florestal e o tamanho do que resta, uma equipe científica determinou que, em média, os fragmentos florestais apresentam um índice de 25-32. porcentagem menos biomassa (elementos da floresta, como raízes, tronco, folhas e galhos); 23-31 por cento menos espécies e 33, 36 e 42 por cento menos indivíduos de espécies endêmicas, de sucessão tardia e de sementes grandes, respectivamente.

Juntos, isso equivale à perda de 55.000-70.000 km 2 de florestas ou US $ 2,3-2,6 bilhões em créditos de carbono , destaca o estudo publicadona Nature Communications .

“É preciso destacar que a Mata Atlântica tem nível endêmico igual ou superior ao da Amazônia, mas pouco se fala sobre sua riqueza em biodiversidade”.  Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Rio de Janeiro

Esses números têm implicações diretas para a mitigação das mudanças climáticas, já que um dos mecanismos para enfrentá-las é o combate à degradação florestal, explica à SciDev.Net o principal autor do estudo, Renato Lima, pesquisador do Instituto de Biociências do Universidade de São Paulo.

A pesquisa reconhece que “quantificar os impactos da degradação florestal é difícil e, portanto, tem recebido menos atenção do que o desmatamento nas mudanças climáticas e nas agendas de conservação , como o Acordo de Paris”.

A degradação ocorre quando o acúmulo de distúrbios dentro da floresta (como queimadas, extração de madeira e proliferação de espécies invasoras) altera todo o ecossistema e o funcionamento da floresta, afetando sua capacidade de armazenar carbono e água e prejudicando a biodiversidade.

Embora o desmatamento tenha recebido muita atenção nas últimas décadas, os cientistas alertam que o destino das florestas tropicais depende não só de promover o reflorestamento de áreas desmatadas, mas também de mitigar a degradação florestal nos fragmentos remanescentes de floresta.

As projeções do Centro Comum de Pesquisa – o serviço de ciência e conhecimento da Comissão Europeia – mostram que, se as taxas atuais de perturbação forem mantidas, as florestas tropicais virgens desaparecerão em 2050.

De acordo com essas projeções, algumas das florestas virgens da África Subsaariana desaparecerão entre 2024 e 2090; 2034 seria o ano do desaparecimento das pessoas localizadas na Tailândia ou no Vietnã; em 2040, os de Madagascar e da Índia desaparecerão, e em 2129 os da Amazônia brasileira.

Um mapa do Centro Comum de Pesquisa da UE mostra o ano esperado de desaparecimento das florestas em todo o mundo, com base nas perturbações observadas na última década

Antes da próxima COP15 – a Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB), a ser realizada em maio de 2021 em Kunming, China – pesquisadores de doze países mapearam 2,9 bilhões de hectares de diferentes tipos de ecossistemas degradados e Eles foram divididos em uma escala de prioridades, da mais alta à mais baixa.

Nessa escala, a Mata Atlântica está entre as áreas de maior prioridade global e, em outros trabalhos , aparece como uma das áreas críticas de conservação com maior área de restauração.

Para Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense, no Rio de Janeiro, a importância do novo estudo reside no fato de ter como foco a degradação da Mata Atlântica.

“Os esforços mais recentes levam em conta o desmatamento da Amazônia , sem levar em conta todos os outros biomas ou o problema da degradação. É importante ressaltar que a Mata Atlântica tem nível endêmico igual ou superior ao da Amazônia, mas pouco se fala sobre sua riqueza em biodiversidade ”, afirma Pedlowski, que não participou do estudo.

Esta vista aérea mostra o desmatamento da Mata Atlântica, porém medir a degradação florestal é muito mais difícil. Crédito da imagem: Cnes – Spot Image / Wikimedia Commons , licenciado sob Creative Commons 3.0

O geógrafo, cujo estudo recente chama a atenção para o índice de degradação da Amazônia, acrescenta que quanto menos perturbado o fragmento, mais serviços ambientais ele pode oferecer.

“Além de ser um ecossistema diversificado, a Mata Atlântica está localizada no entorno das maiores concentrações urbanas do Brasil e a água é um elemento importante para esses centros urbanos. Passamos por graves crises de água; entretanto, a geração de água é um dos serviços ambientais que as florestas preservadas podem oferecer ”, explica Pedlowski.

Segundo o estudo, o combate à degradação florestal no que resta da Mata Atlântica pode atrair bilhões de dólares em investimentos relacionados aos créditos de carbono.

Renato Lima acrescenta que como a maioria dos fragmentos está localizada em propriedades privadas, é fundamental criar alternativas atraentes para os proprietários.

“ A restauração florestal tem seus custos, mas pode gerar ganhos no mercado de créditos de carbono. A formulação de políticas pode ser a chave para a captação de recursos para a Mata Atlântica ”, afirma.

No Brasil, os recursos para reduzir as emissões de carbono por desmatamento e degradação florestal estão concentrados principalmente na Amazônia. Atualmente, apenas o estado do Rio de Janeiro possui um fundo voltado para a proteção da Mata Atlântica.

O estudo é financiado pela FAPESP, doadora da SciDev.Net

Link para o estudo na Nature Communication

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Este artigo foi escrito originalmente em espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

Bioma da Caatinga está cronicamente degradado mesmo em áreas não desmatadas

Um novo estudo publicado no Journal of Applied Ecology mostra que a Caatinga, um bioma de matagais e matas secas no Nordeste do Brasil, é severamente ameaçada pela atividade humana mesmo em áreas não desmatadas

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Por Meghie Rodrigues para a série Série Mongabay: Florestas Globais

  • Os autores chamam o efeito de distúrbio antropogênico crônico e o modelaram para áreas com assentamentos humanos, construção de infraestrutura, pastagem, extração de madeira e fogo em 47.100 fragmentos remanescentes do bioma.
  • A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, e abriga mais de 900 espécies de animais e plantas.
  • Mas, com mais de 27 milhões de habitantes, é também um dos biomas mais degradados do país, embora o estudo destaque áreas que ainda podem ser conservadas, incluindo corredores de vida selvagem.

Localizada no Nordeste do Brasil, a Caatinga, com seus matos e matas secas, é vista por muitos como pobre em biodiversidade. Como consequência, a região recebe poucos investimentos para ações de conservação. Especialistas dizem, porém, que com mais de 900 espécies de plantas e animais, o bioma é o maior e mais diverso entre as florestas tropicais sazonalmente secas do mundo. É também o único bioma totalmente brasileiro e uma das regiões menos estudadas do globo.

Distribuídos em 47,1 mil fragmentos, cerca de metade da vegetação da Caatinga permanece – e o constante estresse hídrico a torna profundamente vulnerável às mudanças climáticas. Agora, um estudo recente aponta que mesmo essas áreas remanescentes não desmatadas estão severamente ameaçadas pela ação humana acumulada ao longo de décadas e séculos. Os autores chamam o efeito de distúrbio antrópico crônico, e observam que é altamente dependente da localização: manchas de floresta ao norte e oeste são mais perturbadas do que aquelas no leste e sul da Caatinga.

Na imagem, os vetores de perturbação estão distribuídos geograficamente na Caatinga. (A) representa a população humana (CDI de 0,64), (B) mostra a infraestrutura (CDI de 0,86), (C) mapeia a pastagem (CDI de 0,49), (D) mostra a extração de madeira (CDI de 0,50) e (E) representa fogo (CDI de 0,04). Créditos: Journal of Applied Ecology, publicado pela primeira vez: 05 de julho de 2020, DOI: (10.1111 / 1365-2664.13686)

Os pesquisadores, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do World Resources Institute Brasil, queriam entender como a intensidade dessa perturbação varia entre as diferentes regiões geográficas, tamanhos de fragmentos florestais e em função da distância às bordas dos áreas florestadas. Eles então contabilizaram os níveis de degradação que encontraram usando um índice, o índice de perturbação antropogênica crônica (CDI).

Cinco elementos, ou vetores, compõem o CDI: população humana, infraestrutura, pastagem, exploração madeireira e fogo. Cada um tem um impacto diferente em várias regiões da Caatinga e, juntos, eles respondem pelos índices de perturbação encontrados pela equipe. O CDI vai de 0 a 1, e quanto maior o índice em uma determinada área, mais degradada ela fica. As áreas menos perturbadas foram encontradas nas regiões leste e centro do bioma (com manchas de floresta onde o CDI foi de 0,12) e as áreas mais degradadas no norte da Caatinga (com CDI de 0,80).

Localizada no município de Lajes, no estado do Rio Grande do Norte, a Serra do Feiticeiro possui forte potencial de conservação. Imagem cortesia de Juan Carlos Vargas Mena.

A Caatinga sozinha tem uma área total de 844.453 quilômetros quadrados (524.700 milhas quadradas), estendendo-se aproximadamente por 11% do território brasileiro. “Medir a degradação por meio de observação de campo em uma área tão vasta é extremamente difícil de fazer”, disse Carlos Roberto Fonseca, coautor e pesquisador do departamento de ecologia da UFRN, ao Mongabay em entrevista por telefone. “Queríamos extrapolar os resultados para a Caatinga como um todo, não apenas observar alguns pontos selecionados”, acrescentou.

Fonseca e seus colegas usaram dados existentes em diversos bancos de dados – como o censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o censo bovino brasileiro e mapas oficiais de rodovias, ferrovias, barragens e linhas de transmissão – para estimar os impactos. Em seguida, cruzaram esses dados com o mapa censitário do IBGE, que possui uma grade de pixels. O objetivo era medir o impacto da degradação de cada pixel do mapa da Caatinga medindo os diferentes pesos de cada vetor calculado.

A degradação está distribuída de forma desigual pela Caatinga, uma vez que diferentes regiões estão sob diferentes tipos de pressão.

“A urbanização e a pecuária degradaram profundamente o litoral leste ao longo dos anos, enquanto na parte norte há muita extração de madeira e assentamentos humanos, e nem todos são sustentáveis ​​por causa da caça furtiva. Algumas outras regiões ainda estão preservadas e podem vir a ser áreas de conservação ”, disse Fonseca.

Cactos, arbustos espinhosos e plantas de caule grosso constituem a maior parte da vegetação da Caatinga, que significa “floresta branca” na língua tupi (caa = vegetação, tinga = branca). Imagem cortesia de Juan Carlos Vargas Mena.

O estudo, publicado em julho de 2020 no Journal of Applied Ecology , mostra que fragmentos menores da Caatinga eram muito heterogêneos, variando de pouco a altamente degradados. Manchas maiores de vegetação apresentam níveis médios de perturbação. Infraestrutura foi o vetor encontrado para causar a maior perturbação (com um CDI de 0,86) e o fogo para causar a menor (com um CDI de 0,04). O impacto de todos os vetores – população humana, infraestrutura, pastagem, extração de madeira e fogo – foi maior nas bordas dos fragmentos de floresta.

Grandes obras de infraestrutura causam impactos imediatos e grandes ao meio ambiente. Por outro lado, o pastoreio, a extração de madeira e o fogo estão diretamente ligados à presença humana nos remanescentes de vegetação e são responsáveis ​​por uma parte significativa de sua degradação crônica.

Em entrevista por telefone ao Mongabay, Marcelo Tabarelli, professor do Departamento de Botânica do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco, disse que muitas famílias que vivem na região são altamente dependentes dos recursos naturais da Caatinga – e isso tem foi um longo processo histórico que se estende até o presente. “Eles extraem madeira para cozinhar, por exemplo, e também vendem para pequenas empresas vizinhas que dependem do carvão para combustível. Seus caprinos e bovinos se alimentam de pequenas porções de vegetação, e essa extração de biomassa é pequena, mas contínua ”, disse Tabarelli, que não participou do estudo.

Tabarelli disse que esses padrões em tal cultura de extração doméstica foram amplamente negligenciados pela pesquisa ecológica. Ele disse que o estudo é importante porque lança luz sobre um aspecto esquecido de um bioma amplamente não estudado. “Mostra que os remanescentes florestais da Caatinga estão expostos à extração de madeira e frutas e à agricultura de corte e queima. Este tipo de extração de nutrientes e biomassa faz parte da cultura sertanejo local de comunidades tradicionais aqui no Brasil e em muitas partes do mundo. ”

Cactos, arbustos espinhosos e plantas de caule grosso constituem a maior parte da vegetação da Caatinga, que significa “floresta branca” na língua tupi (caa = vegetação, tinga = branca). Imagem cortesia de Juan Carlos Vargas Mena.

Esses efeitos crônicos de distúrbios também ocorrem em outras regiões onde grupos menores dependem exclusivamente da extração de recursos naturais para viver, como as florestas secas em partes da África e nas regiões rurais da Índia, acrescentou Tabarelli. “À medida que as comunidades humanas se reorganizam nesses espaços e outras espécies proliferam e se adaptam a essas áreas degradadas, ocorre um processo de homogeneização biológica. Na Índia, por exemplo, esse processo é mais radical e está relacionado a processos de invasões biológicas e colapso de estruturas florestais sobre a vegetação remanescente ”.

Tabarelli disse que vê um vazio no planejamento do desenvolvimento sustentável da Caatinga. “A degradação ambiental não é um subproduto da mudança climática, mas aumentará à medida que a seca aumentar. Há uma carência histórica de medidas legais para enfrentar com eficácia os problemas da Caatinga e os dados sobre a desertificação são uma prova disso ”, afirmou.

A pressão sobre biomas como a Caatinga aumentará com as mudanças climáticas, à medida que secas e outros eventos extremos se tornam mais frequentes e fazem com que as florestas percam produtividade, disse Tabarelli.

Nesse sentido, tanto ele quanto Fonseca destacam a necessidade de criação de áreas de conservação entre os remanescentes florestais. “Apesar de metade da Caatinga [estar] perdida, a conectividade entre as manchas de vegetação remanescentes ainda é alta, e isso é fundamental para que os animais se desloquem de um lugar para outro”, disse Fonseca. Ele acrescentou que na primeira década dos anos 2000, “o Brasil caminhava em uma espiral ascendente – foi quando o país criou cerca de 80% das áreas de conservação do mundo. O cenário desacelerou nos anos Dilma Rousseff [2011-2016] e agora vivemos com uma perspectiva de retrocesso, arriscando sérios retrocessos em termos ambientais ”.

Imagem do banner: Algumas áreas da Caatinga, como este fragmento florestal nas Lajes, no Rio Grande do Norte, estão bem preservadas e têm potencial para se tornarem áreas protegidas. Imagem cortesia de Juan Carlos Vargas Mena.

Citações:

Antongiovanni, M., Venticinque EM, Matsumoto, M., & Fonseca, CR (2020). Perturbação antrópica crônica em fragmentos de floresta seca da Caatinga. Journal of Applied Ecology, 57 (10), 2064-2074. doi: 10.1111 / 1365-2664.13686

Silva, J. M., Leal, I. R., & Tabarelli, M. (2017). O futuro da Caatinga. Na  Caatinga: A maior região de floresta tropical seca da América do Sul  (pp. 461-474). Springer. doi: 10.1007 / 978-3-319-68339-3_19

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Mangabay [Aqui!].

Degradação na Amazônia é maior que o desmatamento

desmatamentoO acúmulo de distúrbios na floresta (como queimadas e extração de madeira) causa a degradação da Amazônia, que entre 1992 e 2014 superou o desmatamento em termos de área afetada. Crédito da imagem: Bruno Kelly / Amazônia Real , sob licença Creative Commons 2.0

  • Embora o foco seja o desmatamento, a degradação da Amazônia é um grande risco
  • Autores alertam que ambos os fenômenos afetam 30 por cento do bioma
  • Menos atenção à degradação pode ser porque é mais difícil de medir do que o desmatamento
Por: Washington Castilhos

Mais de um milhão de quilômetros quadrados podem ter sido destruídos na Amazônia brasileira não só pelo desmatamento, mas pela degradação, fenômeno menos conhecido, mas que entre 1992 e 2014 superou o desmatamento em termos de área afetada, apurou um estudo.

Enquanto a degradação destruiu 330.427 quilômetros quadrados do bioma, 308.311 quilômetros quadrados foram desmatados neste período.

Os dados, publicados em estudo da revista Science , chamam a atenção para uma equação preocupante: somando a estimativa oficial de 20 por cento do desmatamento com a taxa de degradação de 10 por cento medida pelos autores, há apenas um máximo de 70 por cento da floresta preservada.

Esse cálculo sugere que mais de um de seus mais de cinco milhões de quilômetros quadrados de floresta já foi afetado.

“Toda a narrativa foi construída sobre o desmatamento. Não desmatar não significa que a floresta está sendo deixada intacta. Muita atenção tem sido dada ao desmatamento, enquanto o ritmo de degradação pode estar ocorrendo muito mais rapidamente “, alertou Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro, e um dos autores do estudo. 

“Muita atenção tem sido dada ao desmatamento, enquanto a taxa de degradação pode estar ocorrendo muito mais rapidamente.”

Marcos Pedlowski, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Brasil

Pedlowski explicou por telefone ao SciDev.Net que desmatamento e degradação não são necessariamente fenômenos coexistentes.

Provocado pela expansão da agricultura e da mineração , entre outros fatores, o desmatamento se refere à conversão total das florestas para outro tipo de uso do solo. Por sua vez, a degradação ocorre quando o acúmulo de distúrbios na floresta (queimadas e extração de madeira, por exemplo) altera todo o ecossistema e o funcionamento da floresta, afetando sua capacidade de armazenar carbono e água.

Esses distúrbios têm consequências ambientais importantes, incluindo a liberação de gases de efeito estufa, mudanças no balanço hídrico, perda de biodiversidade e aumento na incidência de doenças infecciosas.

No artigo, os pesquisadores destacam que, no período de 22 anos em que comparam um fenômeno a outro, a área degradada ultrapassou a área desmatada porque o desmatamento tem recebido maior atenção dos órgãos de controle e em desenvolvimento.

Eles também enfatizam que o desmatamento é mais fácil de medir. O desafio no monitoramento da degradação, observam os autores, é que ela ocorre dentro das florestas, então o dossel da floresta – o dossel superior da floresta, composto de copas de árvores – torna difícil a detecção de satélite.

Portanto, “a degradação é mais difícil de confirmar” porque “visualmente pode parecer normal”, disse Pedlowski. “Muitas madeireiras, por exemplo, usam estratégias para esconder a área perturbada. Nem tudo é óbvio ”, acrescentou.

Para estimar a área calculada, 1.200 imagens de satélite foram analisadas. Mas como o sensoriamento remoto não é absoluto, os cientistas foram a campo validar as informações do satélite.

Considerando que as medidas não são exatas, os especialistas acreditam que a área associada à degradação pode ser pelo menos igual à área desmatada, tornando os índices comparáveis. Como resultado, a taxa de destruição pode chegar a cerca de 40% e a soma da degradação com o desmatamento pode chegar a um milhão de metros quadrados.

Em particular, o trabalho mostra um alto índice de degradação em áreas protegidas e reservas indígenas .

“Considerando que a Amazônia representa 60% do território brasileiro, é uma área colossal”, alertou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que não participou da investigação , alertou por telefone o SciDev.Net .

“O estudo é importante porque mostra que o bioma está sendo mais afetado do que revelam os números oficiais projetados pelo Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], e a perda de carbono é muito maior do que o estimado”, acrescenta Artaxo, que trabalhou na NASA e é membro do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC).

Os pesquisadores acreditam que entender o que está acontecendo na Amazônia exige considerar todas as formas de degradação que podem ser prejudiciais à floresta, e não apenas o desmatamento.

“As estruturas de controle precisam funcionar tanto para um fenômeno quanto para outro. O governo brasileiro não pode continuar dizendo que 80% da floresta ainda está intacta, quando na verdade é muito menos ”, concluiu Pedlowski.

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Este texto foi originalmente publicado em espanhol pela SciDev.Net [Aqui!].

Descaso no Pantanal e Amazônia ameaça negócios do Brasil enquanto Governo se isenta de responsabilidade

Carta assinada por oito países alerta para dificuldade crescente em manter negócios com o país e empresas de agronegócios se unem a ONGs para cobrar ações contra desmatamento amazônico

onça águaUma onça ferida nos incêndios do Pantanal repousa na beira de um riacho no Parque Nacional Encontro das Águas, no Mato Grosso, que já teve mais de 60% de sua área destruída pelo fogo.MAURO PIMENTEL / AFP

Por Afonso Benites para o El País

Enquanto o Pantanal queima e a Amazônia registra índices de degradação cada vez maiores, o Brasil sofre a ameaça de ficar para escanteio na economia. Além dos alertas já emitidos por fundos de investimentos e bancos brasileiros e da ameaça de que o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul não se conclua, nesta terça (15) o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu uma carta assinada pelos embaixadores de oito países europeus – Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Noruega, Dinamarca e Bélgica. O recado da carta é claro: enquanto a questão do desmatamento e da preservação são foco dos governo e das empresas do continente, o “Brasil está tornando cada vez mais difícil para empresas e investidores atender a seus critérios ambientais, sociais e de governança”.

A pressão internacional se soma a uma inédita reação de mais de 200 organizações, entre ONGs, empresas de agronegócio e do setor financeiro, que enviaram um recado ao Governo nesta terça cobrando medidas para reduzir o desmatamento na Amazônia. “Não somente pelo avanço das perdas socioambientais envolvidas, mas também pela ameaça que a destruição florestal na região impõe às questões econômicas nacionais. Há uma clara e crescente preocupação de diversos setores da sociedade nacional e internacional com o avanço do desmatamento”, diz o texto, assinado pela chamada Coalizão Brasil Clima, Bosques e Agricultura. O grupo colocou lado a lado ONGs como a WWF, as indústrias JBS, Marfrig, além de Basf e Bayer. Entre as propostas do grupo, estão mais transparência nas ações e fiscalização nas florestas.

A pressão, porém, não tem mudado a resposta do Governo Bolsonaro apesar de fatos concretos mostrarem que a gestão está aquém da necessidade. “O comportamento que vemos na crise ambiental é um espelho da postura do governo na pandemia de COVID-19. Ele nega que seja um problema grande, nega a gravidade e alimenta a narrativa por meio de falas que não têm nenhuma substância científica”, diz Rômulo Batista, um dos porta-vozes do Greenpeace.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), responsável pelo Conselho da Amazônia, descarta que o Governo esteja errando, e fala em “seletividade na divulgação dos dados” no que diz respeito ao desmatamento. “Quando o dado é negativo o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga, entendeu?”, acusou o vice em declaração à imprensa na tarde do dia 15. Indagado sobre quem seria essa pessoa, Mourão respondeu: “Não sei, não sou diretor do INPE”. O que o vice-presidente não diz é que os dados são públicos. Basta acessar o site do INPE para saber quase em tempo real quantos focos de calor ocorreram em cada bioma.

Mourão defende que uma das saídas para combater os incêndios é manter os militares em operação constante na floresta até 2022 e decretar uma moratória do fogo, que está em vigor desde julho, uma estratégia que já foi questionada no Supremo Tribunal Federal pelo Partido Verde.

Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.MAURO PIMENTEL / AFP

O vice-presidente e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entraram em uma campanha para desacreditar os discursos de ambientalistas e seus apoiadores. Usando trechos de um vídeo do Greenpeace sem autorização, o vice-presidente diz no Twitter: “De que lado você está? De quem preserva de verdade ou de quem manipula seus sentimentos? O Brasil é o país que mais preserva suas florestas nativas no mundo. Essa é a verdade. Nós cuidamos”. O vídeo foi uma resposta a outra postagem da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Na peça, a organização diz que a “Amazônia é o coração do Brasil. Quem coloca fogo nela é inimigo do país”. Ainda pede que em defesa da Amazônia, o presidente brasileiro deveria deixar de ser financiado.

“Discutimos hoje temas que não deveríamos estar discutindo, que já tinham sido superados. Temos de provar que o fogo existe, que os dados são fatos, e não ideologia. Temos de lutar contra lendas de que o fogo é para subsistência e de que ele foi criminoso, não provocado por um raio”, diz a diretora-adjunta do ICV, Alice Thuault.

A realidade se impõe

Enquanto o governo briga com os fatos, a realidade segue se impondo no Pantanal. A Polícia Federal deflagrou no início desta semana a Operação Matáá, que cumpriu dez mandados de busca e apreensão Mato Grosso do Sul. De acordo com a instituição, investigações apontam que o fogo na região foi provocado deliberadamente para transformar a mata nativa em pastagem para o gado. Além disso, no período atual de seca na região ― que só se encerra em novembro ―, raramente caem raios na pastagem. Por isso, há a clara sinalização de que os incêndios foram causados por interferência humana.

A impunidade aliada à política de Bolsonaro de reduzir o número de infrações são outros fatores que interferem no aumento do fogo. Mesmo com o recorde de queimadas, neste ano houve uma queda de 48% nas infrações aplicadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os dois estados pantaneiros. Dados publicados pela BBC, e confirmados pelo EL PAÍS, mostram que de janeiro a 14 de setembro o Ibama aplicou 223 infrações nos dois Estados neste ano, contra 425 no mesmo período de 2019.

Ao analisar imagens de satélites do INPE e da NASA, o ICV também constatou que até agosto apenas nove pontos eram os responsáveis por 67% dos focos de incêndio em todo o Pantanal mato-grossense. Em cinco deles, é possível apontar que a propriedade onde iniciou o fogo era privada e estava registrada no cadastro ambiental rural (CAR). Ou seja, pode-se saber quem deveria estar preservando essa área e, como não o fez, poderia ser responsabilizado criminalmente. Outros três pontos eram de áreas não cadastradas. E um, em uma terra indígena. “As multas estaduais pagas no Mato Grosso é de mais ou menos 2% da quantidade de multas aplicadas. O ciclo da responsabilização não fecha. É uma impunidade que garante a continuidade dos incêndios ano após ano”, diz Thuault, do ICV.

Devastação

Em 33 dias, os incêndios no Pantanal praticamente dizimaram o Parque Estadual Encontro das Águas, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Imagens de satélite analisadas por técnicos da ONG Instituto Centro de Vida (ICV) mostram que, no dia 9 de agosto, alguns focos de incêndio provinham apenas da parte norte do parque, conhecido ponto de ecoturismo da região. Em 13 de setembro, no entanto, o fogo já vinha de todos os lados, atingindo 85% dos seus 108.000 hectares (veja vídeo abaixo).

As chamas se tornaram rotina diante de uma clara falta de planejamento dos órgãos ambientais, principalmente da esfera federal. A avaliação foi feita ao EL PAÍS por representantes de quatro organizações da sociedade civil que atuam principalmente na área ambiental: ICV, Greenpeace, WWF e Observatório do Clima. Desde o início do ano já se sabia que a região enfrentaria a sua maior seca em quase cinco décadas, que um dos principais rios da região, o Paraguai, teriam seu fluxo diminuído consideravelmente e que a falta de atuação no principal bioma vizinho, o cerrado, teria impacto direto no Pantanal.

Ainda assim, o governo demorou quase três meses para mobilizar os brigadistas e reduziu o orçamento para o combate ao incêndio em até 48%. “Essa situação no Pantanal está se repetindo. Também tivemos uma grande catástrofe. 2019 queimou mais que nos últimos dez anos. Já era um indicativo de que era necessário planejar. Mas nada foi feito”, disse Cássio Bernardino, analista em Conservação do WWF-Brasil.

Análise da ONG Instituto Centro de Vida com base em imagens de satélite apontam que até o dia 13 de setembro de 2020, mais de 92.000 hectares haviam sido atingidos pelo fogo no Parque Estadual Encontro das Águas. Isso representa 85% da área total do parque, que tem 108 mil hectares.ICV

Até o último dia 15, o Pantanal já tinha registrado 15.453 focos de calor, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É o maior índice da série histórica, iniciada em 1998. Mais de 15% de todo o território pantaneiro foi destruído. Na Amazônia, os números também não são nada animadores. No mesmo período, o bioma amazônico superou o total de focos registrados em todo mês de setembro de 2019. Já foram registrados 20.486 focos de incêndio, um crescimento de 86% em relação ao mesmo período do ano passado.

Queda de recursos

Uma das críticas feitas à gestão Salles- Mourão-Bolsonaro é quanto a redução dos recursos de prevenção e de fiscalização ambiental. Os dois principais órgãos federais que atuam nesta área são o Ibama e o ICMBIO. Entre 2019 e 2020, a rubrica controle de fiscalização ambiental do Ibama perdeu quase 35% de seu orçamento (caiu de 102,8 milhões de reais anuais para 66,2 milhões de reais). Já a de prevenção e controle de incêndios florestais teve queda de 16% no mesmo período, caindo de 45,9 milhões de reais anuais para 38,6 milhões. No ICMBIO, a queda proporcional foi maior. A área de fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais perdeu 48,6% de seu orçamento. Eram 37,1 milhões de reais em 2019. Agora, são 19 milhões de reais.

No início de 2019, a mando do presidente Bolsonaro, o ministro Salles desconstituiu o conselho do Fundo Amazônia, que geria recursos internacionais usados na área ambiental de todo país. Seus principais doadores são os governos da Noruega e da Alemanha. Hoje, há 1,5 bilhão de reais congelados em uma conta que não podem ser usados por ninguém porque não há quem administre esses recursos. “Enquanto nos deparamos com cortes no orçamento, temos dinheiro internacional parado que poderia estar sendo usado na prevenção e no combate aos incêndios”, destaca a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo.

A resposta do Governo é investir na militarização do combate aos incêndios. A operação Verde Brasil 2, comandada por Mourão, é a principal delas. Por mês ela custa cerca de 60 milhões de reais e mobiliza cerca de 4.000 militares. “Com dois meses desta operação pagamos os salários de mil fiscais do Ibama por um ano”, diz Araújo. Para ela, o problema não é, necessariamente, a falta de recursos, mas a ausência de vontade política para aplicá-los.

Nesta semana, os Governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul decretaram estado de calamidade e situação de emergência, respectivamente. Por meio desses decretos, é possível facilitar a burocracia para o uso de recursos no combate ao fogo. Para as próxima semanas, contudo, ainda nos depararemos com as chocantes imagens de animais mortos carbonizados.

jacaré mortoUm jacaré morto por causa de incêndio próximo à rodovia Transpantaneira.MAURO PIMENTEL / AFP

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo jornal El País [Aqui!].

A Amazônia degradada já é maior que a desmatada


A área de selva alterada por extração de madeira ou fogo superou a desmatada nas últimas décadas

fogo amazoniaDepois de degradadas, as porções remanescentes de floresta ficam ainda mais expostas a incêndios, como o ocorrido próximo a Novo Progresso, no Pará, em agosto passado.ANDRE PENNER / AP

Por Miguel Ángel Criado para o El País

Há florestas que deixam de sê-lo mesmo sem desaparecer. É o que adverte um grupo de cientistas sobre o estado da região amazônica. Seu amplo desmatamento é bem conhecido, mas igualmente dramática (e mais complexa de medir) é a degradação do que resta. Com dados de mais de duas décadas, os pesquisadores comprovaram que a porção de floresta empobrecida já é maior que a desaparecida.

Com base em dados de satélite reunidos desde 1992, o grupo de pesquisadores mediu o impacto humano sobre a Amazônia. O mais fácil é calcular quanto da vegetação desapareceu para que suas terras fossem destinadas a outra coisa, em sua maioria a pastagem. Segundo o estudo publicado na revista Science, entre 1992 e 2014 desapareceram 308.311 km². A curva do desmatamento foi ascendente ano após ano, até atingir o pico em 2003, quando foram perdidos 29.000 km² ―uma superfície quase equivalente à da Catalunha ou a 75% do Estado do Rio de Janeiro. Seja pela pressão internacional ou pela ação política interna, o ritmo diminuiu até o patamar dos 6.000 km² perdidos anualmente desde 2014.

Mais difícil de calcular ―e de medir as consequências― é a degradação da floresta remanescente. Entre uma vegetação intocada e outra que deu lugar a pastagens, há um amplo leque de paisagens florestais mais ou menos empobrecidos. A degradação pode assumir distintas formas: uma menor densidade de árvores, uma perda de continuidade entre florestas cada vez menores e mais isoladas ou a queima de sub-bosque, entre outras. Uma série de algoritmos considerou as variações de refletância da luz de cada paisagem para determinar o grau de alteração.

“Uma floresta degradada é aquela que foi alterada de forma significativa ou que sofreu o impacto das atividades humanas. Continua contando com um dossel arbóreo, mas com biomassa reduzida”, explica David Skole, pesquisador do Observatório Global de Serviços ao Ecossistema da Universidade Estatal de Michigan (EUA) e coautor do estudo. “Um bom exemplo de degradação florestal é quando a floresta é submetida ao desmatamento seletivo, cortando-se algumas árvores e deixando-se outras.” Nas zonas desmatadas, a degradação se concentra nos limites entre a floresta e a terra nua. “Essas árvores que sobrevivem nas bordas dos terrenos desmatados são afetadas por mudanças no microclima. E há provas de que, no longo prazo, sofrem um colapso em sua biomassa. É o que chamamos de efeito-limite”.

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Os autores do estudo estimam que a porção da floresta amazônica degradada já superou os 337.000 km². Ou seja, a superfície empobrecida excede a afetada pelo desmatamento. E se este provoca o desaparecimento da floresta e de todas as funções associadas, o empobrecimento também tem suas consequências: liberação de gases do efeito estufa, alteração do equilíbrio da água e dos nutrientes, queda da biodiversidade e surgimento de doenças infecciosas.

São quatro os agentes degradantes principais: corte mais ou menos seletivo, incêndios, efeito-limite ou fragmentação e isolamento de porções de floresta. Até 2003, auge do desmatamento, estes dois últimos agentes foram os protagonistas. Desde então, porém, o desmatamento e o fogo têm sido mais importantes.

“Nos anos anteriores, o desmatamento e a degradação geralmente ocorriam no mesmo espaço”, afirma Skole. Como se fosse uma condição prévia ou um estado precedente, “o que levou muitos a verem a degradação como um atalho para o desmatamento, não uma interferência diferente a ser considerada, medida e gerenciada. Demonstramos que agora existe degradação, sobretudo por corte ilegal, que é uma perturbação espacialmente diferente”. De fato, mais da metade das áreas degradadas pelas derrubadas, por exemplo, mantiveram-se nesse estado praticamente durante as duas décadas englobadas pelo estudo.

Raúl Sánchez, pesquisador florestal da Universidade Pablo de Olavide (Espanha), diz que “até agora colocávamos no mesmo saco o desmatamento e a degradação, e este trabalho mostra que não é assim.” O que ele não esperava eram as dimensões do problema ―mesmo com o patamar de 2014. “Este ano, o fator principal tem sido o incêndio de baixa intensidade, primeiro passo para a degradação”, afirma.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].

Destruição da Amazônia vai muito além do desmatamento recorde

Pesquisadores do Brasil e EUA analisaram dados de 1992 a 2014 e constataram que a degradação por exploração econômica ocupa área bem maior que a desmatada

amazonia-degradacaoPara pesquisador, degradação é um câncer que se espalha pela Amazônia

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O acelerado processo de desmatamento da Amazônia, que tem preocupado o mundo inteiro, deixou de ser o único problema. Estudo realizado por cientistas do Brasil e dos Estados Unidos publicado nesta quinta-feira (10) na revista especializada Science mostra que de 1992 a 2014 a degradação foi bem maior do que o desmatamento. Enquanto a área degradada foi de 337.427 quilômetros quadrados, o desmatamento se espalhou sobre 308.311 quilômetros quadrados.

Enquanto o desmatamento se caracteriza pela derrubada de árvores em grande extensão de terra para transformá-la em pasto e lavouras, a degradação é a alteração gradual da vegetação ao longo do tempo, com a derrubada de árvores de maior interesse econômico, que fornecem madeiras nobres, e a abertura de estradas para o seu transporte. A ação do fogo também contribui para esse processo que leva ao empobrecimento da cobertura vegetal que impacta a fauna e reduz a biodiversidade.

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores das universidades de Brasília (UnB), Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e do Michigan, nos Estados Unidos, utilizaram ferramentas de detecção automática de imagens utilizadas no sensoriamento remoto e no geoprocessamento, além de fazer trabalho de campo na Amazônia brasileira.

‘Mentira verde’

Com toda essa área desmatada e degradada, os cientistas constataram que a Amazônia brasileira está longe de ser preservada como apregoam o presidente Jair Bolsonaro, seu vice Hamilton Mourão e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. E muito mais perto de perder seu papel fundamental na regulação do clima.

Os dados derrubam a chamada “mentira verde”. Cunhada pelo climatologista Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a expressão refere-se à crença de que apenas o desmatamento é responsável pela destruição do bioma. E a estimativa de muitos ambientalistas, para os quais 80% da floresta é intocada.

“Pode ter no máximo 70% de área preservada. Como o desmatamento tem avançado, a gente pode estar caminhando para 65%”, diz o professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Uenf e um dos autores do estudo liderado por Eraldo Matricardi, professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB. “A degradação pode ser comparada a um câncer de grande intensidade se espalhando pelo organismo quase que imperceptivelmente”.

Segundo Pedlowski, a degradação poderá se manter nesse nível ou até mesmo aumentar. Para obter dados mais consistentes, ele e os colegas estão analisando dados de 2015 a 2018. “De qualquer forma, mesmo que a taxa se mantenha estabilizada, é muito ruim. Nossas medidas são bastante conservadoras porque no estudo consideramos apenas as formas perceptíveis, e não qualquer forma de degradação.”

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Amazônia: estudo sobre degradação indica que o ponto de inflexão provavelmente já foi excedido

Na nova edição do jornal científico “Science”, os cientistas calcularam com base nos dados do Landsat que enquanto entre 1992 e 2014 os números de desmatamento na Amazônia se estendiam a 308.311 km², as áreas degradadas na Amazônia no mesmo período já chegavam a 337.427 km² .

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Por Christian.russau@fdcl.org

Há muito que se fazem advertências sobre o iminente ponto de inflexão da Amazônia, o momento em que 20-25% da floresta amazônica já terão sido desmatados.  Em função disso, os ecossistemas amazônicos ameaçam “virar” e um processo imparável de desertificação e secas sistemicamente crescentes seria o resultado. Até agora, os governantes têm estado de olho no número de cientistas que se dedicam a avaliar os processos de limpar, desmatar e cortar e queimar. Este é de fato um indicador extremamente importante, principalmente em vista do rápido aumento dos cortes e queimadas na Amazônia desde que o presidente da extrema direita Jair Bolsonaro assumiu o cargo. 

Mas agora, em um novo estudo, os cientistas estão chamando a atenção para um fenômeno até então negligenciado: o das áreas já degradadas da Amazônia. Na nova edição do jornal científico Science, os cientistas: Eraldo Aparecido Trondoli Matricardi, David Lewis Skole Olívia Bueno Costa, Marcos Antonio Pedlowski, Jay Howard Samek e Eder Pereira Miguel,1 apresentam valores calculados a partir de imagem de satélite Landsat e mostram que, durante os valores de desmatamento na Amazônia é de 308.311 km² ,  e que no mesmo período a área degradada foi de km² 337.427.

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Com base nesses números , o professor universitário Marcos Pedlowski afirmou em entrevista ao KoBra que a afirmação “20% da Amazônia” foi “apenas apurada”, “80%” estão intactas, portanto não é sustentável. “Com base em nosso novo levantamento – mesmo com uma interpretação conservadora” podemos dizer que “pelo menos cerca de 30% da Amazônia já foi desmatada e degradada.” Em razão do anterior desconsiderar em grande parte a importância das áreas degradadas da Amazônia, essa parcela poderia ser menor estimativa conservadora – já levou ao fato de que apenas 65% da Amazônia são considerados intactos, disse Pedlowski em entrevista ao KoBra.

Pontos de inflexão na Amazônia e o fim iminente dos Rios Voadores Amazônia e o que isso significa para as metrópoles de milhões no sul e sudeste do país no futuro

Segundo os cientistas Thomas E. Lovejoy e Carlos Nobre 2, a Amazônia está à beira de um ponto de inflexão, a partir do qual não há mais volta: “Acreditamos que sinergias negativas entre desmatamento, mudanças climáticas e uso generalizado do fogo sugerem que isso O sistema amazônico irá tombar para ecossistemas não florestais no leste, sul e centro da Amazônia no caso de desmatamento de 20-25%. “

Para entender o que significaria se a paisagem da floresta tropical amazônica se tornasse uma savana seca, o conceito de rios voadores deve ser explicado.

O termo rios voadores foi cunhado pelo meteorologista do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais INPE e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas do IPCC, José Antonio Marengo Orsini. 3 Marengo e seus mais de 50 colegas de oito países tinham 700 balões, equipados com sensores, lançados na Amazônia em 2002-2003 e, portanto, eram capazes de entender as correntes de ar predominantes por temporada. O resultado: nos meses de verão, as nuvens formadas por evaporação na Amazônia derivam para o oeste a uma altura de menos de três mil metros e a uma velocidade média de 50 km / h, onde são bloqueadas nos Andes e então desviadas para sul / sudeste – antes de chover sobre o sudeste e sul do Brasil, sobre o Uruguai, Paraguai e norte da Argentina. “Essas correntes são como rios voadores que carregam umidade de norte para sul”, explicou José Marengo na época. Sua colega de pesquisa Carolina Vera, da Universidade de Buenos Aires acrescentou: “Principalmente no verão, quando essas correntes de ar são uma das principais causas das fortes chuvas”. Porque as nuvens que se deslocam para o sul aumentam a umidade lá, de acordo com os pesquisadores de Marengo já em 2003, em 20-30%, em alguns casos até 60%.

Antonio Nobre, do INPE, instituto nacional de pesquisa em questões espaciais, declarou em 2009 5A conexão entre a escassez de água no sul e o desmatamento da Amazônia é diferente: na Amazônia, 20 bilhões de toneladas de água evaporam todos os dias. Para efeito de comparação: o maior rio do mundo, o Amazonas, injeta 19 bilhões de toneladas de água no Atlântico todos os dias. Na floresta amazônica, a folhagem multifacetada da flora, atingindo até 40 metros de altura, oferece de oito a dez vezes a superfície potencial de evaporação em um metro quadrado de solo da floresta tropical. Enquanto uma árvore pode evaporar até 300 litros de água por dia, a taxa para pastagens é de apenas um oitavo desse valor, segundo Nobre. O termo rios voadores, portanto, significa o processo de evaporação diária para nuvens de 20 bilhões de toneladas de água através da folhagem amazônica, 50% dos quais chove novamente na Amazônia e puxa dez bilhões de toneladas para o oeste e são bloqueados nos Andes de seis mil metros de altura e empurrados para o sul de lá e chovem sobre a área de influência da Grande São Paulo. Se a evaporação na Amazônia for reduzida por meio da valorização, ou seja, desmatamento da região e conversão pela agricultura industrial, isso também reduz as chuvas para a bacia hidrográfica de São Paulo.

Nos últimos 40 anos, uma média de três milhões de árvores por dia foram derrubadas na Amazônia. A partir disso, o número assustador de 2.000 árvores por minuto ou um total de 42 bilhões de árvores é calculado. 6 Se os rios da Amazônia secam, o sul e o sudeste do Brasil com suas metrópoles de milhões, o norte da Argentina, bem como o Uruguai e o Paraguai, ficam em terra seca.

 1 Veja https://science.sciencemag.org/content/369/6509/1378

3 Revista pesquisa, Fapesp, agosto de 2005, http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/ Acessado em 4 de agosto de 2015

4 Revista pesquisa, Fapesp, agosto de 2005, http://revistapesquisa.fapesp.br/2005/08/01/o-mapa-dos-ventos/ Acessado em 4 de agosto de 2015

5 Daniela Chiaretti: “Sem chuva da Amazônia, SP vira deserto. Entrevista com Antonio Nobre, pesquisador do Inpe”, Valor Econômico, 12 de janeiro de 2009

6 Antonio Donato Nobre: ​​”O Futuro Climático da Amazônia. Relatório de Avaliação Científica”, São José dos Campos – SP, Edição ARA, CCST-INPE e INPA, p.30, http://www.ccst.inpe.br/ wp-content / uploads / 2014/10 / Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf Acessado em 12 de agosto de 2015

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

Na Amazônia, degradação florestal está ultrapassando o desmatamento total

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O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou abruptamente nos últimos dois anos, após ter apresentado uma trajetória de queda por mais de uma década. Com o presidente do país, Jair Bolsonaro, notoriamente entusiasmado com a expansão para a floresta tropical, novos dados de desmatamento regularmente chegam às manchetes globais .

Mas o que menos pessoas percebem é que mesmo as florestas que não foram desmatadas, ou totalmente “desmatadas”, raramente ficam intocadas. Na verdade, apenas 20% das florestas tropicais do mundo são classificadas como intactas . O restante foi afetado por extração de madeira, mineração, incêndios ou pela expansão de estradas ou outras atividades humanas. E tudo isso pode acontecer sem ser detectado pelos satélites que monitoram o desmatamento.

Essas florestas são conhecidas como “degradadas” e constituem uma fração cada vez maior das paisagens florestais remanescentes do mundo. A degradação é um grande desafio ambiental e social. Perturbações associadas à exploração madeireira, incêndio e fragmentação do habitat são uma fonte significativa de emissões de CO₂ e podem transformar as florestas de sumidouros de carbono em fontes, onde o carbono emitido quando as árvores queimam ou se decompõem supera o carbono retirado da atmosfera à medida que crescem.

A degradação da floresta também é uma grande ameaça à biodiversidade e tem demonstrado aumentar o risco de transmissão de doenças infecciosas emergentes . E, apesar de tudo isso, continuamos sem ferramentas adequadas para monitorar a degradação florestal na escala necessária.

degrad 1Degradado – mas não desmatado. CIFOR / flickr , CC BY-NC-SA

A principal razão pela qual a degradação florestal é difícil de monitorar é que é difícil ver do espaço. O lançamento do programa Landsat da Nasa na década de 1970 revelou – talvez pela primeira vez – a verdadeira extensão do impacto que os humanos tiveram nas florestas do mundo. Hoje, os satélites nos permitem rastrear as frentes de desmatamento em tempo real em qualquer lugar do mundo. Mas embora seja fácil detectar onde as florestas estão sendo derrubadas e convertidas em fazendas ou plantações, capturar a degradação florestal não é tão simples. Uma floresta degradada ainda é uma floresta, pois por definição ela retém pelo menos parte de sua copa. Portanto, embora florestas antigas e madeireiras possam parecer muito diferentes no solo, vistas de cima podem ser difíceis de distinguir em um mar de verde.

Detetives de degradação

Novas pesquisas publicadas na revista Science por uma equipe de pesquisadores brasileiros e norte-americanos liderada por Eraldo Matricardi deu um passo importante para enfrentar esse desafio. Ao combinar mais de 20 anos de dados de satélite com extensas observações de campo, eles treinaram um algoritmo de computador para mapear as mudanças na degradação florestal ao longo do tempo em toda a Amazônia brasileira. O trabalho deles revela que 337.427 km² de floresta foram degradados em toda a Amazônia brasileira entre 1992 e 2014, uma área maior do que o vizinho Equador. Durante o mesmo período, a degradação superou o desmatamento, que contribuiu para a perda de mais 308.311 km² de floresta.

Os pesquisadores deram um passo além e usaram os dados para separar a contribuição relativa de diferentes fatores de degradação florestal, incluindo extração de madeira, incêndios e fragmentação florestal. O que esses mapas revelam é que, embora as taxas gerais de degradação em toda a Amazônia brasileira tenham diminuído desde a década de 1990 – em linha com a diminuição do desmatamento e da fragmentação de habitat associada – as taxas de extração seletiva e incêndios florestais quase dobraram. Em particular, nos últimos 15 anos, a exploração madeireira se expandiu para o oeste em uma nova fronteira que até recentemente era considerada remota demais para estar em risco.

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Ao colocar a degradação florestal no mapa, Matricardi e colegas não apenas revelaram a verdadeira extensão do problema, mas também geraram os dados básicos necessários para orientar a ação. A restauração de florestas degradadas é fundamental para vários esforços internacionais ambiciosos para conter a mudança climática e a perda de biodiversidade, como o esquema da ONU para pagar aos países em desenvolvimento para manter suas florestas intactas . Se for permitida a recuperação, as florestas degradadas, particularmente aquelas nos trópicos, têm o potencial de sequestrar e armazenar grandes quantidades de CO₂ da atmosfera – ainda mais do que suas contrapartes intactas .

Simplesmente permitir que as florestas se regenerem naturalmente pode ser uma estratégia muito eficaz, já que os estoques de biomassa geralmente se recuperam em décadas . Em outros casos, a restauração ativa pode ser uma opção preferível para acelerar a recuperação. Outro estudo recente, também publicado na revista Science, mostrou como o plantio de árvores e o corte de lianas (grandes trepadeiras lenhosas comuns nos trópicos) podem aumentar as taxas de recuperação de biomassa em até 50% nas florestas tropicais do sudeste asiático. Mas a restauração ativa tem um custo que, em muitos casos, excede os preços que são pagos para compensar a emissão de CO₂ no mercado voluntário de carbono. Se quisermos implementar com sucesso a restauração do ecossistema em uma escala global, governos, empresas e até mesmo indivíduos precisam pensar cuidadosamente sobre como eles valorizam a natureza.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo site “The Conversation” [Aqui!].

Artigo científico mostra que extração de madeira em florestas ocorre como fenômeno desagregado do desmatamento

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Um artigo que acaba de ser publicado pela revista Ciência Florestal, que é publicada pela Universidade Federal de Santa Maria, aborda a questão da  extração seletiva de madeiras no estado do Mato Grosso. Nesse estudo, no qual tive a oportunidade de colaborar, é discutida a dinâmica espaço-temporal da extração seletiva de madeiras no estado de Mato Grosso com base em um série temporal  de dados de florestas exploradas seletivamente entre 1992 e 2016, usando dados de sensoriamento remoto.

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Os dados apresentados no artigo foram gerados a partir da interpretação visual e a classificação semiautomática de imagens Landsat que foram utilizadas para detectar a alteração de florestas pelas atividades de extração seletiva de madeiras.

Com base nos resultados obtidos,  foi estimado que 41.926 km2 de florestas nativas foram exploradas ao menos uma vez em Mato Grosso entre 1992 e 2016, com uma área média anual de 1.747 km2 (ver figura abaixo).

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As florestas exploradas seletivamente e detectadas com distúrbios persistentes ou recorrentes foram mais frequentes nos anos mais recentes do período analisado.  Uma constatação importante do estudo foi que a maioria das florestas exploradas seletivamente na área e no período de estudo não foram desmatadas até 2016.  Este fato indica que a extração seletiva de madeiras consiste em um fenômeno desagregado do desmatamento no estado de Mato Grosso (ver figura abaixo).

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Este estudo mostra que a exploração madeireira impacta uma grande extensão de florestas nativas anualmente no estado de Mato Grosso e, por isso, precisa ser devidamente considerada e monitorada pelos órgãos ambientais devido aos seus potenciais impactos nas florestas.

Quem desejar baixar este artigo na íntegra, basta clicar [Aqui!].