Observatório denuncia impactos da construção do Porto do Piauí sobre comunidades pesqueiras no Delta do Parnaíba no Piauí

Porto Piauí tem nova etapa concluída e avança para operação

Por Observatório do Delta do Parnaíba 

A proposta de implantação de um porto no litoral do Piauí remonta ao século XIX, quando o atual município de Luís Correia abrigava o Porto de Amarração, utilizado como ancoradouro para transporte de mercadorias e passageiros.

Ao longo do tempo, diferentes iniciativas buscaram transformá-lo em um porto comercial permanente. Entre as décadas de 1960 e 1980, foram realizados estudos técnicos e iniciadas obras preliminares, como a construção de um molhe, mas o projeto não chegou a ser concluído. A retomada do empreendimento ocorreu em 2007, com anúncio do governo federal, embora tenha enfrentado paralisações e disputas judiciais. Apenas em 2023 houve avanço concreto, com a dragagem do canal de acesso e autorização para funcionamento da primeira etapa do Porto Piauí. Ao longo de 2024 e 2025, o projeto seguiu com a expansão da infraestrutura, incluindo cais multipropósito, pátio logístico, sede administrativa e estruturas do terminal pesqueiro, além da contratação de cerca de R$ 543 milhões para implantação de um Terminal de Uso Privado (TUP). A projeção estadual indica investimentos que podem ultrapassar R$ 7 bilhões até 2030.

Apesar desses avanços, o porto ainda se encontra em fase inicial e depende de novas etapas de licenciamento ambiental e investimentos, sendo que o único licenciamento concedido até o momento refere-se ao terminal pesqueiro. O projeto está associado a uma estratégia logística mais ampla, voltada ao escoamento de minério de ferro de Piripiri, grãos do MATOPIBA, calcário da região de Tutóia (MA) e à produção de hidrogênio verde em Parnaíba — este último, entretanto, teve recentemente suas licenças ambientais negadas pela Justiça Federal, devido à ausência.

O estudo de impacto ambiental do Porto Piauí

O licenciamento ambiental do Porto do Piauí baseia-se em um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) que deveria analisar aspectos físicos, biológicos, hidrodinâmicos e socioeconômicos da região costeira. O estudo reconhece que o empreendimento está inserido em uma área de alta sensibilidade ambiental, dentro da APA Delta do Parnaíba — uma das regiões de maior biodiversidade do litoral brasileiro e onde se localiza o único delta em mar aberto das Américas. Apesar disso, análises independentes indicam lacunas importantes, especialmente na dimensão socioeconômica do estudo. Há uma caracterização limitada das comunidades pesqueiras tradicionais e a ausência de estudos etnográficos aprofundados dificulta avaliar como mudanças ambientais podem afetar diretamente a produtividade da pesca e o modo de vida dessas populações.

O pedido de licenciamento foi protocolado em 2025 junto à SEMAR-PI, mas, por se tratar de uma unidade de conservação federal, o ICMBio também se manifestou e negou a autorização, apontando riscos de impactos irreversíveis e a inviabilidade do projeto na área. Ainda assim, o governo estadual tem buscado rever normas e o zoneamento da APA para viabilizar o porto, o que gera preocupação, já que o próprio EIA reconhece um potencial de danos significativos aos recursos socioambientais e à biodiversidade da região.

A consulta prévia, livre e informada (CPLI)

Outro ponto central do debate sobre o Porto do Piauí é o processo de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), direito garantido pela Convenção 169 da OIT, que exige que povos e comunidades tradicionais sejam consultados antes da implementação de projetos que afetem seus territórios.

Embora tenham sido realizadas oficinas e reuniões com colônias e associações de pescadores e organizações sociais, pescadores e especialistas apontam fragilidades no processo: elaboração inicial do plano de consulta sem participação das comunidades; ausência de assessoria técnica independente para apoiar os pescadores; curto prazo de realização das oficinas; falta de compromissos concretos assinados, prazos e responsabilidades financeiras definidas pelos acordos anunciados pelo governo do Piauí ; remoção de pescadores artesanais profissionais tradicionais do Porto do Buraco do Dandão,devido à ampliação e consolidação do TUP.

Porto do Dandão (à esquerda), em Luís Correia (PI), sendo cercado pelo TUP – Porto do Piauí (a direita.), em um processo de desterritorialização portuária. Fotografia: Maxim Repetto

Os desafios futuros das comunidades tradicionais pesqueiras

O Porto do Piauí é apresentado como um projeto estratégico para inserir o estado nas grandes rotas comerciais nacionais e internacionais, articulando a produção mineral e do agronegócio com grandes investimentos econômicos. No entanto, sua implantação ocorre em uma área ambientalmente sensível — a APA do Delta do Parnaíba — e em um território socialmente complexo, onde vivem comunidades tradicionais. Esse cenário evidencia a necessidade de fortalecer mecanismos de avaliação ambiental, participação social e proteção dos modos de vida locais. Verificamos que os pescadores artesanais profissionais tradicionais são os mais afetados, embora não tenham sido devidamente considerados no Estudo de Impacto Ambiental, nem no processo de Consulta Prévia, Livre e Informada. Diante disso, as comunidades vêm demandando acompanhamento e atuação de instituições como o Ministério Público Federal, a Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Estado.

Diante desse contexto, colocam-se questões fundamentais para reflexão: qual será o impacto sobre o preço do peixe nos mercados locais caso a produção regional seja direcionada à exportação? Projetos como esse fortalecem as comunidades pesqueiras ou tendem a subordiná-las a interesses externos? Qual modelo de desenvolvimento está sendo proposto para as comunidades tradicionais da APA do Delta do Parnaíba? E como equilibrar os impactos do empreendimento com a garantia dos modos de vida e direitos dessas populações?

Pescadores do Porto do Dandão, em Luís Correia (PI), questionam o TUP – Porto do Piauí, por lhes afasta de seu lugar tradicional de trabalho. Fotografia: Luciano Galé.

Para maiores informações sobre a luta das comunidades que estão sendo ameaçadas pela construção do Porto do Piauí, a dica é seguir o perfil do Observatório do Delta do Parnaíba na rede social Instagram que é  @Observatorio_delta_parnaiba.

Em denúncia à DPU, pescadores relatam ameaças aos seus modos de vida devido às obras do Porto Piauí

Por  Luan Matheus Santana, com informações do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP/PI) | Edição: Tânia Martins 

Na última quarta-feira (25/02), a Defensoria Pública da União (DPU) esteve na comunidade Porto do Buraco do Dandão, em Luís Correia, para averiguar o conflito que se estabeleceu no território após as obras do Terminal Pesqueiro, ligado ao complexo portuário da cidade. Antes da visita da DPU, no dia 15 de janeiro, o Ministério Público Federal (MPF) e Defensoria Píublica do Estado do Piauí (DPE) também visitaram a comunidade, que está no centro desse conflito, já que a empresa Porto Piauí quer retirar as embarcações e os pescadores do local para viabilizar a obra. Os pescadores, porém, resistem e lutam para permanecer no Porto do Buraco do Dandão, onde guardam suas memórias e garantem seu sustento. Além do impacto social, há também preocupação ambiental: o próprio Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do Porto Piauí aponta que o ecossistema do Delta do Parnaíba pode estar em risco com a implantação do projeto.

Porto de Luís Correia é uma das obras prioritárias do governador Rafael Fonteles (PT). Foi iniciado nos anos 70 e retomada agora com a promessa de trazer desenvolvimento para o Estado. Na vida real das centenas de pescadores que estão envolvidos no maior conflito de sobrevivência de suas vidas, a situação é de desespero.  “Estão tomando o porto devagarzinho. E ninguém faz nada. Vai acontecer que vão dispensar todo mundo. E ninguém chega aqui para dar uma satisfação aos pescadores. Só ficam falando em indenização. Ninguém quer indenização, não. Nós queremos o porto dos pescadores aqui, as canoas aqui”, desabafa um dos pescadores durante visita da DPU. 

O pescador, que optamos por não identificar nesta reportagem, nasceu e cresceu dentro das canoas do Porto do Buraco do Dandão. “Eu já tenho 40 anos e esse porto já existia. Meu pai hoje está aposentado, tem 75 anos e pescou aqui nessas canoas. E agora, de repente, querem tomar o porto dos pescadores. Querem mandar não sei para onde. Não tem condição, não. Isso não entra na cabeça do pescador. Nós queremos o porto dos pescadores aqui”, afirma.

Pescadores do Porto do Buraco do Dandão. Foto: CPP/PI

Reunidos durante a visita da DPU, os pescadores informaram que a direção do Porto Piauí determinou a retirada das embarcações e dos pescadores do porto Buraco do Dandão para a execução da obra, no entanto, eles decidiram resistir por considerar que é um direito lutar para permanecerem onde exercem a profissão há mais de 50 anos, e de onde tiram o sustento de suas famílias.

Esse local é muito mais que um simples porto. É um espaço de vida, identidade, trabalho e de encontro entre pescadores e pescadoras. Também é ali que eles guardam e conservam suas embarcações. “Aqui é do meu filho e nós vivemos da pesca, né? Há muitas gerações esse povo existe aqui. É aqui que os pescadores tiram o seu sustento, cuidam dos seus filhos, levam alimento para sua mesa e sustentam suas famílias. Todos os pescadores já sentiram o impacto ambiental por conta desse porto que está sendo construído. Nós não estamos aqui para julgar, mas temos sofrido as consequências”, afirma uma pescadora que utiliza o Porto do Buraco do Dandão. E ela tem um medo que, também é o medo de todos que vivem na comunidade: “se nos tirarem daqui, como é que a gente vai sobreviver?”

Diante desse cenário, moradores e trabalhadores da pesca avaliam que o modelo de “desenvolvimento” adotado pelo Governo do Piauí é excludente, pois limita a participação social, ignora as vocações do território e suas características socioambientais, além de colocar em risco os modos de vida das comunidades e o meio ambiente. Trata-se, segundo as críticas apresentadas, de um tipo de projeto que prioriza grandes empresas, muitas vezes associadas à degradação ambiental.

Porto do Buraco do Dandão. Foto: CPP/PI

Os impactos já chegaram

Desde as primeiras chuvas deste ano a comunidade Porto do Buraco do Dandão foi obrigada a conviver com alagamentos e o medo de perder tudo o que construíram. Ainda em janeiro, quando as chuvas começaram a cair no litoral, casas ficaram debaixo d’água, moradores perderam móveis, eletrodomésticos e outros bens, e o medo voltou a fazer parte da rotina de quem vive no local. 

Um vídeo gravado por um dos moradores mostra a situação depois da chuva. Nas imagens, a casa de Dona Maria aparece completamente alagada. A água tomou conta dos cômodos e causou muitos prejuízos. “Olha o prejuízo que eles deram para Dona Maria. colocaram piçarra mais alto do que a rua. E só quem é prejudicado são os moradores. Já vieram aqui, já mediram a quadra 3, não deram previsão. Até agora não fizeram nada pela gente. A gente ainda está aguardando e não tem nem previsão”, denuncia morador da comunidade, em vídeo gravado e compartilhado nas redes sociais. 

Segundo os moradores, esse problema não existia na comunidade até o início das obras da Porto Piauí. Para a construção do empreendimento do Terminal Pesqueiro foram erguidos aterros ao redor da comunidade, que deixaram o solo mais alto do que as ruas. Com isso, a água da chuva não consegue mais escoar para o rio. Ela fica represada e acaba entrando nas casas.

Comunidade existe há mais de 50 anos

O Porto do Buraco do Dandão foi criado há cerca de 50 anos pelo senhor Dandão, hoje aposentado. Desde então, o local se tornou um ponto importante para a pesca artesanal na região. Hoje, cerca de 60 embarcações usam o porto durante o ano. Aproximadamente 150 pescadores dependem diretamente desse espaço para morar, trabalhar e sustentar suas famílias.

Em alguns períodos, pescadores de Bitupitá, no Ceará, também utilizam o local como apoio, principalmente quando há ventos fortes no mar.

Para os moradores, o porto não é apenas um lugar de trabalho. Ele faz parte da história da comunidade, da cultura e da identidade das famílias que vivem ali.

Foto: CPP/PI

Poeira, prejuízo e dificuldade para trabalhar

Além dos alagamentos, os moradores convivem com outro problema: a poeira causada pelos caminhões que transportam terra para os aterros. Essa poeira suja as casas, as ruas e, principalmente, as redes de pesca. Os pescadores precisam gastar muito tempo limpando o material antes de ir para o mar. Isso significa menos tempo para pescar e menos renda no fim do mês. Muitos relatam também problemas respiratórios, principalmente em crianças e idosos, por causa da poeira constante.

Alerta foi feito antes das chuvas

Em dezembro de 2025, um relatório do Observador do Processo de Consulta Porto do Piauí, da Universidade Federal do Delta do Parnaíba, já havia alertado sobre o risco de alagamentos. O documento explicou que o aterro das áreas ao redor do porto estava bloqueando o caminho natural da água da chuva. Também alertou que, sem obras de drenagem, as casas seriam atingidas no período chuvoso.

Mesmo com esse aviso, nenhuma medida foi tomada para proteger a comunidade. Agora, o que estava previsto acabou acontecendo.


Fonte: Ocorre Diário