Um ano de Bolsonaro: o Brasil se tornou mais antidemocrático

O presidente Jair Bolsonaro está no poder há um ano no Brasil. Um inventário crítico.

bolso 1Presidente Jair Bolsonaro, Vice-Presidente Geral Hamilton Mourão e Ministro de Estado enquanto levanta a bandeira do Estado em frente ao Palácio da Alvorada – créditos da  foto

Por Annette von Schönfeld

O extremista de direita Jair Bolsonaro é presidente do Brasil desde janeiro de 2019. Depois de um ano, fica claro que, mesmo que (até agora) nem todas as ameaças que Bolsonaro fez na campanha eleitoral tenham sido implementadas, não é evidente que ele se absteve de fazê-lo. Como escreveu o filósofo e cientista social brasileiro Marcos Nobre em dezembro: “O objetivo real de Bolsonaro é a destruição da democracia” [1] . Isso pode ser visto em vários níveis.

O modelo de desenvolvimento neoliberal brasileiro, em detrimento do meio ambiente e do clima

Economicamente, o governo se apóia em um conceito radicalmente neoliberal e deseja financiar a estabilidade de suas políticas de direita por meio da exploração sistemática e intensiva de recursos. Os atuais desenvolvimentos no “país modelo neoliberal” do Chile estão sendo seguidos com grande preocupação, mas não levam a dúvidas sobre o próprio conceito neoliberal, que já havia perdido credibilidade devido à crise econômica de 2008.

No topo da lista de projetos do governo está a exploração da Amazônia. Parte do modelo de desenvolvimento para a Amazônia é a construção de estradas, portos e conexões ferroviárias para o transporte dos recursos da região. É sobre recursos minerais e produtos agrícolas. A expansão do agronegócio é explicitamente apoiada. Consequentemente, a proteção florestal é insignificante para o governo: está apenas na agenda desde que promova renda significativa para o país, por exemplo, através dos projetos REDD + financiados internacionalmente como programas para reduzir as emissões. Essa é uma das razões pelas quais o Brasil ainda não se retirou completamente do acordo climático, embora Bolsonaro seja um negador das mudanças no clima, e a luta contra as mudanças climáticas em si não desempenha quase nenhum papel. A proteção ambiental também não é uma alta prioridade nas ações do governo de Bolsonaro. O grande número de incêndios na Amazônia em agosto / setembro de 2019 não foi tão inconveniente para o governo. Os regulamentos para áreas protegidas indígenas também estão sendo gradualmente suavizados. Agricultura e mineração devem ser possíveis no futuro. As disputas sobre terra e recursos estão se intensificando. Os assassinatos de povos indígenas aumentaram significativamente em 2019. O Brasil continua sendo um dos países onde a maioria dos ativistas ambientais é perseguida e morta. Agricultura e mineração devem ser possíveis no futuro. As disputas sobre terra e recursos estão se intensificando. Os assassinatos de povos indígenas aumentaram significativamente em 2019. O Brasil continua sendo um dos países onde a maioria dos ativistas ambientais é perseguida e morta. Agricultura e mineração devem ser possíveis no futuro. As disputas sobre terra e recursos estão se intensificando. Os assassinatos de povos indígenas aumentaram significativamente em 2019. O Brasil continua sendo um dos países onde a maioria dos ativistas ambientais é perseguida e morta.

Além disso, o governo está apostando na extensa privatização de funções e infraestrutura públicas. A jornalista Eliane Brum fala de um processo ilegal de apropriação privada. Houve vendas iniciais de aeroportos e licitações estão sendo realizadas para a operação dos parques naturais, que são de interesse dos turistas. Nenhuma parte interessada estrangeira foi encontrada para o leilão de licenças de produção para os depósitos de petróleo da Pré-Sal na costa brasileira e a Petrobras semi-pública brasileira recebeu o contrato.

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Espaços e instituições ameaçados

O estado esbelto faz parte do conceito neoliberal. Desde o início, o governo lançou um processo de reestruturação de instituições públicas. O número de ministérios foi reduzido de 29 para 22. Os ministérios fechados incluíam aqueles para trabalho e cultura. Onde as autoridades governamentais não representam mais as prioridades do governo, por exemplo, no campo ambiental, elas são desacreditadas publicamente e seu trabalho se torna quase impossível devido a cortes no orçamento. Ao mesmo tempo, o sistema muito sofisticado de estruturas de participação ancoradas na constituição foi sistematicamente processado ou esvaziado. A maioria dos chamados “conselhos consultivos” [2]foi fechado ou reestruturado para que nenhum voto crítico do governo pudesse ser recebido. As estruturas de apoio público, por exemplo, para mulheres que sofreram violência, também diminuíram em número porque são subfinanciadas.  

Também é preocupante que o termo AI (Ato Institucional) 5 tenha surgido repetidamente, às vezes pelo ministro de Assuntos Econômicos Guedes, às vezes pelo filho de Bolsonaro, Eduardo, sempre banalizando e ameaçador. Por ocasião da onda de protestos no Chile, foi dito que tal coisa não seria permitida no Brasil, levaria a uma AI 5. A AI 5 foi em 1968: fechamento do parlamento, suspensão dos direitos civis, possibilidades de prisões “preventivas” e outras medidas que iniciaram o período mais sombrio da ditadura militar brasileira.

A tragédia de dados e fatos

A redução da transparência também ajuda a reduzir a democracia. As autoridades não fornecem mais informações. Por exemplo, dados sobre áreas protegidas desapareceram do site do Ministério do Meio Ambiente e arquivos de fotos sobre violações de direitos humanos sob a ditadura militar foram destruídos. Como em outros contextos extremistas de direita, as notícias falsas são usadas de maneira direcionada, fatos cientificamente comprovados, como B. os números do desmatamento na Amazônia 2019, polemicamente questionados. A diferença entre verdade e mentira é obscura. Nas mídias sociais, que estão entre as plataformas de informação e comunicação mais importantes desse governo, a opinião se torna perícia. A manipulação se torna fácil.

Consequentemente, o governo também não está interessado em ciência forte e independente (social, política, humanidades). As universidades brasileiras precisam lidar com severos cortes no financiamento. Os programas estatais de bolsas de estudo foram radicalmente cortados. Foi iniciado um programa para escolas civis-militares para crianças em idade escolar, o que aumenta a influência dos militares no cotidiano escolar. Eles não são responsáveis ​​pelo currículo, mas pela disciplina e ordem.

Lidar com os fatos também coloca uma forte pressão sobre o relacionamento entre a imprensa e Bolsonaro – e vice-versa.

,A liberdade formal da imprensa continua, mas Bolsonaro difama qualquer pessoa que discorde dele. Você é acusado de mentir ou precisa aceitar grandes cortes na publicidade. As estações de televisão, rádios e jornais amigáveis ​​ao governo, geralmente evangélicos, são favorecidos. Sempre há avanços na direção da censura, mais recente e espetacularmente comparada à paródia de Natal da Porta dos Fundos, uma produtora de sátiras no Rio. O programa retrata Jesus como um homossexual que leva seu novo amigo para casa. O Supremo Tribunal decidiu agora contra a censura. Por outro lado, a imprensa tradicional dificilmente deixa o governo em boa forma. Exceções são dados econômicos positivos, que até agora foram poucos. Assim que a economia se recupera, o relato da mídia tradicional das antigas elites torna-se imediatamente “mais tolerante”. A mídia progressiva, amplamente baseada na Internet, está enfurecida contra Bolsonaro e o governo, descobrindo continuamente escândalos e criando um sério contra-público. Consequentemente, eles estão cada vez mais ameaçados.

Guerra de cultura e diversidade

O governo tem uma estratégia clara para reescrever a história do Brasil e suas narrativas. Começa com a exclusão da palavra ‘direitos humanos’ do Programa Nacional de Alfabetização e continua com a proibição de um videoclipe pelo Banco Nacional do Banco do Brasil, que lida com a diversidade de clientes, incluindo negros e gays. A agência estadual de promoção de filmes ANCINE foi instruída a parar de promover filmes que questionem os papéis clássicos na família e na sociedade. O concurso para o Prêmio Nacional de Arte 2020 foi anunciado recentemente pelo secretário de Estado responsável, Roverto Alvim, em um vídeo em que proferiu um discurso que quase se assemelhava a um discurso de Goebbels a partir da década de 1930.

Felizmente, há uma forte resistência a esses avanços, por um lado, e por outro lado, nem tudo pode ser implementado imediatamente. Mas os representantes políticos da extrema direita têm poder de permanência. Você colocará os projetos de volta à agenda este ano com um título um pouco diferente.

A provocação operada por Bolsonaro e arredores também pertence à guerra cultural. De novo e de novo, mesmo antes da eleição e desde então, diz-se que coisas indescritíveis tornam o impensável concebível.  

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A luta no parlamento e com a Suprema Corte

Com exceção de algumas grandes manifestações, o debate político público sobre Bolsonaro e seu projeto de extrema direita em 2019 ocorreu em grande parte no Parlamento, na Suprema Corte e na imprensa. Embora ele esteja no poder, ele até agora esteve subordinado a processos democráticos, o que ele não está disposto a fazer. O atual equilíbrio de poder não existe mais.

Uma das primeiras “medidas provisórias” que Bolsonaro promulgou em 1º de janeiro de 2019 foi permitir o controle estatal das ONGs. Outra posse de armas legalizada muito além do que anteriormente era o caso. Medidas provisórias são leis promulgadas pelo Presidente que são efetivas imediatamente, mas devem ser aprovadas pelo Parlamento dentro de 90 dias, caso contrário, elas serão canceladas. O Parlamento recusou-se a confirmar todas estas medidas. Por decreto, Bolsonaro tentou implementar a promessa de campanha de impunidade para as forças de segurança que prejudicam ou até matam alguém de plantão. Este e outros decretos foram anulados pelo Supremo Tribunal Federal como inconstitucionais. Bolsonaro, consequentemente, usou a anistia de Natal para

Estas não foram de forma alguma as únicas questões que encontraram resistência no Parlamento. Houve particularmente muitas disputas sobre questões ambientais, sobre tentativas de acessar territórios indígenas para uso agrícola ou sobre exploração de recursos.

O governo não tem maioria no parlamento; não existe, como na Alemanha, um partido no poder claro, nem uma coalizão fixa, mas muitas vezes mudando alianças. O PSL, com o qual Bolsonaro venceu a eleição, foi o segundo maior grupo com 52 membros (de 513). Bolsonaro e quase 30 deputados deixaram o PSL devido a disputas de poder. Além disso, outros 30 partidos estão representados no parlamento. Dependendo do assunto, há um constante vaivém de vitórias e derrotas. O número de decretos e medidas provisórias com os quais os fatos políticos deveriam ser criados era, portanto, enorme em 2019. E mesmo que nem todos os decretos se tornem lei, políticas autoritárias são feitas com eles e tópicos são levantados.

O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, desempenha um papel central na relação entre governo e parlamento. Ele é membro do partido conservador do DEM e cabe a ele colocar tópicos na agenda parlamentar – ou não. Ele é um político com muita experiência e para muitos, especialmente os representantes do centro, uma garantia de conformidade com processos e estruturas democráticas, mesmo contra o presidente. Seu mandato termina em 2021. Em 2019, ficou claro que todos os planos de reforma econômica foram rapidamente adotados pelo Parlamento. Por outro lado, os projetos de lei sobre os chamados “costumes e práticas”, que incluem questões como decência e moralidade, direitos sexuais e reprodutivos etc., dificilmente foram incluídos na agenda de votação.

Também há um constante movimento de vaivém entre o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF), que declara repetidamente medidas e medidas políticas do governo como inconstitucionais e, portanto, as retarda, em um nível conservador do estado de direito. Os apoiadores do governo impõem intenções políticas ao STF e já pediram publicamente sua abolição.

Um país de terços

Por muitos meses, os institutos de pesquisa deram a imagem de um terço do Brasil. Um terço da população rejeita categoricamente o presidente. Um terço diz “nem bom nem ruim” e um terço está atrás dele. Bolsonaro faz política para esse terço. Este terceiro concorda com suas declarações polêmicas e provavelmente já aceitaria uma forma de governo mais autoritária hoje em grande parte hoje. Um terceiro voto de aprovação provavelmente seria suficiente para alcançar a segunda votação se Bolsonaro candidatasse à reeleição. A direita ainda está em alta no Brasil. Até a extrema direita.

O centro, ao qual uma grande parte das elites tradicionais do país pertence, não age de forma consistente. Alguns apóiam o governo porque aprova sua política econômica neoliberal. As promessas de uma mão dura na política de segurança também são bem-vindas. Por outro lado, parte do centro rejeita os ataques à diversidade. Ela considera que a discriminação contra mulheres e LGBTI não está mais atualizada e vê muita exclusão como um obstáculo ao mercado. O centro congratula-se com a legislação trabalhista adotada e as reformas previdenciárias e o limite de gastos sociais. Mas até agora ele se baseou na democracia brasileira.

A esquerda ainda está praticamente sem palavras. Como partido, o PT não lidou com seus próprios erros políticos, que contribuíram para a situação atual. Pontes entre o PT e outras partes da esquerda são extremamente frágeis. A sociedade civil ainda ampla, progressista e crítica fracassou em seus esforços de diálogo com o governo. Ele se concentra nas análises e na sua disseminação e está cada vez mais se voltando para políticas locais e iniciativas de base. Mas no geral não há visões e utopias. Isso paralisa.

As eleições municipais de 2020 como medida política

As eleições locais em outubro de 2020 serão um parâmetro para o atual equilíbrio político do poder no Brasil. Desde que deixou o PSL, Bolsonaro começou a fundar seu próprio partido, a “Aliança pelo Brasil”. Ainda não está claro se ela pode concorrer às eleições locais, o que exigiria quase meio milhão de assinaturas até abril. Mas com e sem a Aliança ficará claro o quão forte será a extrema direita. Caso realmente se estabeleça ainda mais, pode-se esperar uma intensificação da política de extrema direita e um aumento do ataque a dissidentes e dissidentes.
No nível local, existem fortes oponentes de outros campos políticos. No entanto, é mais do que tempo de que alternativas claras sejam desenvolvidas além do nível local, a fim de possibilitar políticas alternativas no nível nacional.


[1] Revista Piaui, dezembro de 2019
[2] Conselhos são órgãos, nos quais representantes dos setores afetados da sociedade se reúnem, acompanham e aconselham a ação política de um ministério. O sistema de conselhos consultivos está ancorado na constituição brasileira de 1988. Exemplos são os conselhos consultivos sobre saúde, cidade, educação etc.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela FUNDAÇÃO HEINRICH BOELL [Aqui!].

55 anos do Golpe de 1964: as lições da história

Entre as lições a se tirar dos golpes de 1964 e de 2016, que se vinculam no tempo e na história, está a de que o assalto ao Estado foi precedido por longa articulação na sociedade civil. Este assalto relacionou-se com a unidade ideológica das classes dominantes e as vacilações e ambiguidades das lideranças progressistas para lhe responderem com firmeza. Tais ambiguidades e vacilações, seja por concessões realizadas ou por falta de vontade para o enfrentamento radical, proporcionaram o espaço para a formação de uma base de massas provisória para lhe dar suporte.

Ditadura Militar

Por Carlos Eduardo Martins para o Blog da Boitempo*

A iniciativa do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, de oficializar a comemoração do Golpe de 1964, em afronta aos princípios, direitos e garantias fundamentais da Constituição Federativa do Brasil de 1988, assim como a impunidade daí resultante, em razão da forte inação dos poderes constituídos, a despeito dos protestos dos setores democráticos da sociedade civil, do Parlamento e do Ministério Público, revelam a profundidade do legado deste Golpe na configuração das estruturas do Estado brasileiro.

A literatura crítica mais recente tem utilizado os conceitos de ditadura civil-militar ou empresarial-militar para designar o período a que o Golpe deu lugar, buscando superar as limitações do termo ditadura militar, que não aponta as conexões deste acontecimento com a sociedade civil. Entretanto, esta terminologia tampouco é suficiente, pois não precisa o seu componente civil ou empresarial – afinal trabalhadores são civis e há empresas estatais e de diversas frações do capital, como as pequenas e médias empresas – nem a relação do poder civil com o poder militar na ditadura. O Golpe de 1964 deu início à ditadura militar do grande capital, principalmente de sua fração estrangeira e seus sócios internos, que constituiu o principal articulador e o centro de comando estratégico do processo. Em razão da sua fragilidade enquanto ator civil para se afirmar eleitoralmente com sua agenda social e nacional regressiva, delegou-se aos segmentos militares, mais transnacionalizados e subordinados aos interesses estadunidenses, delegou-se a liderança política para romper com a Constituição de 1946 e a democracia liberal, impondo a ditadura. Ao grande capital coube a articulação do golpe, o controle da política econômica e grande parte da política externa, além da iniciativa de distensão quando se avolumavam as pressões em setores da corporação militar e da tecnoburocracia estatal para direcionar o padrão de acumulação rumo a um capitalismo de Estado subimperialista e dependente.

Desde 1945, o varguismo venceu seguidamente as eleições presidenciais com Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. À imensa mobilização provocada pelo suicídio de Vargas, às traições que o PSD impôs à agenda varguista, somou-se o fortalecimento dos trabalhadores da cidade e do campo, impulsionado pelo acelerado processo de modernização, para deslocar crescentemente o apoio popular para o PTB. Este, nas eleições de 1962, ultrapassou a UDN e fez a segunda maior bancada na Câmara, praticamente empatando com o PSD, saltando em participação de 17% em 1954 para 28% em 1962. Preocupados com o crescimento das reivindicações sindicais e dos movimentos populares em torno às reformas de base, com a mobilização política e social dos suboficiais, impulsionada pela reivindicação de elegibilidade dos sargentos e marinheiros, e pelo êxito da cadeia da legalidade que fraturou o aparato militar, garantindo a posse de Jango Goulart na Presidência, o capital transnacional e seus sócios locais decidiram agir para impedir o avanço da onda de democratização que ganhava força no país. Criaram então, em novembro de 1961, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) com o objetivo de desestabilizar o governo Jango, reprimir e desbaratar os movimentos sociais e tomar o controle do Estado.

O IPES representou o ponto de fusão de uma ação molecular realizada no pós-guerra para redefinir o Estado brasileiro e colocá-lo a serviço da modernização industrial, financeira e política impulsionada pela reestruturação da divisão do trabalho e das relações internacionais estabelecida pela consolidação da hegemonia dos Estados Unidos no mundo. Para isso, criaram-se programas de treinamento de oficiais latino-americanos no War College, e de assistência técnica e modernização de suas forças armadas. Chave, no caso brasileiro, foi a aproximação entre as tropas brasileiras e estadunidenses a partir da presença da FEB na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1948, foi fundada a ESG, encarregada de elaborar a versão brasileira da Doutrina de Segurança Hemisférica, produzida no War College. A ESG funcionou, desde então, como o centro de organização de um pensamento militar periférico, dependente, que subordinou a soberania nacional aos interesses do grande capital estadunidense e das velhas potências europeias, principais aliadas dos Estados Unidos no bloco histórico hegemônico que formaram. Diversos think-tanks civis e grupos de trabalho foram desenhados no Brasil para dar respaldo a esta visão que vinculou a modernização e o desenvolvimento do país à internalização da liderança estratégica do capital estrangeiro. Tais grupos que ganharam espaço na administração paralela do Governo Kubitschek e centralidade na administração pública pelo breve período do governo Jânio Quadros, perderam lugar no governo Jango à medida que cresceu a radicalização e o suporte social para implementação das reformas de base, como resposta às desigualdades estruturais da formação social brasileira, às remessas de lucros do capital estrangeiro para suas matrizes e à tentativa de imposição de um programa recessivo de estabilização para a economia brasileira através do FMI.

A imposição dessa visão desnacionalizante e dependente não seria possível sem a conversão das principais lideranças empresariais, militares, políticas e intelectuais locais que a sustentavam em sócias do capital estrangeiro. Isto se estabeleceu por meio da construção de uma densa rede de interpenetração econômica e social que envolveu a sua presença em diretorias e conselhos das empresas multinacionais, a participação no controle acionário, ou a ligação a estas através da prestação de serviços de consultoria ou seminários. Esta forma de suborno foi o preço político a se pagar pela hegemonia interna do capital estrangeiro. Entre os casos mais notórios de interpenetração, podemos mencionar os de Golbery do Couto e Silva, Chefe e fundador do SNI a partir do sistema de informação que montou no IPES, que presidiu a filial estadunidense Dow Chemical entre 1968-73; de Roberto Campos, sócio da CONSULTEC, prestadora de serviços a empresas multinacionais, como a Hanna Mining, que foi Ministro do Planejamento entre 1964-67, tornou-se Presidente do Investbanco, controlado pelo Chase Manhattan Bank e pelo First National Bank, Presidente da Olivetti do Brasil e assumiu assento no Conselho de Administração da Mercedes-Benz, junto com Mario Henrique Simonsen, sócio da CONSULTEC e do Banco Bozzano-Simonsen, Presidente do MOBRAL no Governo Médici e Ministro do Planejamento no Governo Figueiredo. A lista de promiscuidades é imensa e impossível de ser reproduzida aqui. Remeto os leitores ao clássico de René Dreyfuss, 1964: a conquista do Estado, que faz um amplo detalhamento dessas redes. A tentativa do neofascismo brasileiro de apresentar o golpe de 1964 e a ditadura que implicou como símbolos do interesse público e das bandeiras de combate à corrupção é absolutamente ridícula. São notórios os processos de corrupção e a apropriação do interesse público pelo privado e estrangeiro que esse regime implicou.

Tampouco são corretas as teses que pretendem ver entre 1968 e 1964 uma grande descontinuidade. O golpe de 1964 foi brutal e assentou todos os fundamentos institucionais necessários para o seu aprofundamento. O Ato Institucional nº 1, promulgado pelos comandantes das forças armadas, lançou as bases da ditadura ao investi-la de poder constituinte, incluindo os de suspender direitos políticos e garantias constitucionais, cassar mandatos, demitir e aposentar servidores públicos, ou processar e prender por crime contra a segurança nacional. Este Ato atingiu principalmente a esquerda, em particular os trabalhistas e comunistas, mas também os militares legalistas e nacionalistas. Entre março e agosto de 1964, 50 mil pessoas foram presas por razões políticas. O Golpe foi apoiado pela UDN e pelo PSD que elegeu, em 1964, o Vice-Presidente da República, Jose Maria Alckmin, no Congresso, transformado em Colégio Eleitoral. O PTB representou mais da metade dos deputados federais que foram cassados durante o governo Castello Branco. Castello cassou 224 mandatos populares e 10 governadores, cifra apenas superada por Costa Silva/ Junta Militar, enquanto Médici e Geisel cassaram, juntos, 22 mandatos populares. Castello Branco ainda interveio no STF ampliando o seu número de 11 para 16 membros, para esvaziar a força política das nomeações feitas por Jango, e Médici aposentou compulsoriamente Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva, reduzindo novamente seu número para 11, com a renúncia, em protesto, de Gonçalves de Oliveira e Lafayette de Andrada.

Nelson Rolim, em Não esquecemos a ditadura: memórias da violência faz uma síntese da violência e arbitrariedade da ditadura: 434 mortos ou desaparecidos, 500 mil investigados pelos órgãos de segurança, 200 mil detidos por suspeita de subversão, 10 mil brasileiros exilados, 1.148 servidores públicos civis demitidos, 1312 militares reformados, 1202 sindicatos sob intervenção, 3 ministros do STF afastados, 49 juízes expurgados, o Congresso Nacional fechado 3 vezes e 7 assembleias estaduais postas em recesso. O número total de militares atingidos com cassações, prisões, mortes e aposentadorias compulsórias é ainda maior: 6.300 segundo a Comissão Nacional da Verdade, evidenciando a disputa que aí se estabeleceu para impor a hegemonia da ESG nas forças armadas.

Entre os atingidos pela ditadura militar também estão os trabalhadores e setores populares, alvos das política econômicas da ditadura, que se expressaram na elevação da desigualdade, nos altos níveis de superexploração do trabalho, na precariedade das políticas sociais, nos baixos índices de saneamento público, que produziram grandes assimetrias de expectativa de vida, segundo região e classe social, e elevados índices de mortalidade infantil nas camadas populares. Há que se mencionar ainda a morte de aproximadamente 8 mil indígenas que foram atingidos pelas políticas de expansão da fronteira agrícola para o grande capital, sobretudo, nas regiões norte e centro-oeste. A ditadura brasileira teve ainda papel importante na invasão da República Dominicana em 1965, na conspiração para desestabilizar os governos de Juan Torres Gonzalez na Bolívia em 1971 e de Salvador Allende no Chile em 1973, e para respaldar o golpe de Estado, em 1973, no Uruguai.

Como mencionamos, apesar de atribuir ao mandato militar o poder constituinte permanente, a ditadura reservou as funções estratégicas do planejamento econômico, do desenvolvimento e das políticas monetária, industrial, agrícola e externa principalmente a setores vinculados ao empresariado transnacional e, em menor medida, a tecnoburocracia estatal. A ditadura impulsionou três padrões de acumulação: o liderado por Roberto Campos e Bulhões, por meio do PAEG; o desenvolvimentista, impulsionado pelos I e pelo II PNDs, que buscou sobretudo no governo Geisel, combinar a penetração do capital estrangeiro com a substituição de importações em direção à internalização da indústria pesada; e o subordinado ao ajuste estrutural determinado pelos credores internacionais para o pagamento da dívida externa, que dominou o governo Figueiredo. O primeiro padrão levou à centralização do capital, à elevação da heterogeneidade estrutural e à desnacionalização da indústria brasileira; o segundo buscou um processo de modernização acelerada que aprofundou a dependência financeira e política do país e desconsiderou os movimentos cíclicos do capital estrangeiro, resultando no colapso do crescimento econômico e abrindo o espaço para a estratégia de financeirização que se estabeleceu a partir dos anos 1980, pela qual criou-se uma imensa dívida interna para captar dólares e enviá-los para pagar os juros e amortizações da dívida externa. Tal estratégia de financeirização ganhou autonomia e independência e se tornou o principal negócio da burguesia interna brasileira, unificando suas frações monopolistas, constituindo-se na principal despesa do Estado, mesmo quando a dívida externa deixou de ser uma questão relevante durante o boom das commodities de 2003-2015.

Além da economia política da financeirização, a ditadura legou outros quatro grandes obstáculos à democracia: a lei de anistia imposta pelos militares em aliança com o grande capital, que pretendeu dar respaldo legal aos crimes de terrorismo de Estado que financiaram e praticaram; o poder midiático estabelecido a partir da violação das constituições de 1946 e de 1988, que impôs um os maiores índices mundiais de monopólio da informação em um país; a privatização do ensino superior e o aumento do monopólio da terra.

A lei de anistia tem funcionado para preservar a tutela das instituições democráticas brasileiras pelo poder militar e da ESG sobre este. É inaceitável que cientistas sociais defendam a tese da consolidação das instituições democráticas brasileiras diante desta permanência. A sua reivindicação nos termos impostos pelos golpistas, isto é, acima dos seus próprios termos legais, que anistiou apenas os crimes cometidos entre 1961-79, viola as deliberações da Corte Interamericana de Direitos Humanos, cuja competência o Brasil reconheceu em 1998, que considera como crimes continuados aqueles de sequestro e desaparecimento de pessoas. Tal blindagem colocou o Brasil na vergonhosa posição de ser o único país da América do Sul que não puniu os crimes de terrorismo de Estado, além de constituí-lo em destino de atração para o exílio de ditadores e genocidas como Alfredo Strossner, que viveu tranquilamente sua vida de luxo em Brasília entre 1989 e 2003.

O poder midiático no Brasil, controlado em sua maior parte por 5 famílias, além de impor o monopólio da informação violando o artigo 220 da Constituição de 1988, se articula abertamente com o poder político das oligarquias, violando o artigo 54, ao relacionar-se com senadores e deputados concessionários de emissoras de rádio e televisão. Tal poder atuou decisivamente para o golpe de Estado de 2016, sem ser molestado durante os governos petistas que continuaram lhes destinando enormes verbas publicitárias e nada fizeram para incluir a Telesur como canal aberto.

Os governos militares impuseram a privatização do ensino superior, invertendo a correção de matrículas de 60% na universidade pública durante o governo Jango para as privadas. Tal trajetória foi mantida no governo FHC quando 70% das vagas foram oferecidas nas universidades privadas e nos governos petistas onde este patamar atingiu 75%. Ainda que os governos petistas tenham ampliado a oferta de vagas nas universidades públicas e o número de professores e vagas de concurso público, não alteraram a correlação em favor do ensino público. Tal enfoque debilita o alcance do pensamento democrático, cidadão e socialmente comprometido na formação da juventude e das classes trabalhadoras que passaram a ter acesso às universidades públicas através do sistema de cotas, uma vez que as universidades privadas privilegiam a formação técnica, em detrimento da articulação com a pesquisa, dos interesses nacionais e de uma formação humanista.

O aprofundamento do monopólio da terra e do agronegócio tem se constituído em fonte de desestabilização dos processos democráticos, obstáculo a erradicação da herança colonial que persiste na economia brasileira, sobretudo com a reprimarização da pauta exportadora e sua projeção na circulação do capital produtivo.

Entre as lições a se tirar dos golpes de 1964 e de 2016, que se vinculam no tempo e na história, está a de que o assalto ao Estado foi precedido por longa articulação na sociedade civil. Este assalto relacionou-se com a unidade ideológica das classes dominantes e as vacilações e ambiguidades das lideranças progressistas para lhe responderem com firmeza. Tais ambiguidades e vacilações, seja por concessões realizadas ou por falta de vontade para o enfrentamento radical, proporcionaram o espaço para a formação de uma base de massas provisória para lhe dar suporte.

A vitória contra as oligarquias internas e internacionais é possível, como foi no Brasil em 1961, durante a cadeia da legalidade. Requer unidade e radicalidade das lideranças e formação de redes na sociedade civil para enfrentar o capitalismo dependente em todas as suas mazelas atuais: a superexploração do trabalho, a violação da soberania nacional, a desindustrialização, o subdesenvolvimento, a financeirização da economia, o agronegócio, o extrativismo predatório, a destruição do meio-ambiente, o racismo e o machismo estruturais, a homofobia, e o genocídio de negros, mestiços e povos originários.

*Carlos Eduardo Martins é Professor Associado do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ e Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia (LEHC/UFRJ). Membro do conselho editorial da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, é autor, entre outros, de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina  (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009), ambos publicados pela Boitempo. É colaborador do Blog da Boitempo quinzenalmente, às segundas.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Blog da Boitempo [Aqui!]

 

Bienal do Livro de Campos: ir, aproveitar e, com isso, derrotar as trevas da censura

VI Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes-04-Foto César Ferreira

Lamentavelmente não estou em Campos neste momento, pois se estivesse não deixaria de aproveitar de oportunidade de frequentar os stands e espaços de discussão que ocorrem a cada 2 anos dentro da já tradicional bienal. Eu que estive na última edição da bienal de Campos lembro ainda como meu filho ficou maravilhado quando pode conversar com as autoras de dois livros infantis que compramos no dia em que estivemos.  Aliás, melhor foi vê-lo apreciando as obras depois que a bienal já tinha sido encerrada.

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A decisão de apoiar a realização da Bienal do Livro transcende a crítica ou o apoio aos governos de plantão, pois a existência de espaços onde pessoas de todas as idades podem confluir e experimentar a chance de falar com os autores,  ouvir pessoas que normalmente sós se vê ou se conhece pela televisão, e ainda rever velhos e fazer novos amigos, é essencial num momento tão polarizado como o que atravessamos atualmente no Brasil.

Por isso, é não tenho dúvida de dizer que todos os que puderem, devem ir na bienal a partir do dia 20 de Novembro e aproveitar o máximo que puderem.  É fundamental recusar os denuncismos vazios que setores minoritários da nossa sociedade insistem em fazer para impedir que temas importantes sejam discutidos publicamente, ainda que causem desconforto e explicitem muitas das tensões que experimentamos em uma sociedade que ainda não conseguiu resolver muitas de suas dívidas sociais.

E não tenho como concordar com aqueles que acenam para censores sob a desculpa que a programação não é diversa o suficiente para os gostos daqueles cuja satisfação plena só seria possível apenas com a imposição do seu próprio pensamento obscurantista.  Os que querem censurar e banir posições diversas das suas não merecem qualquer tipo de concessão.

Obscurantismo não, Bienal sim. Por isso, quem desejar acessar a programação completa deste evento, basta clicar [Aqui!]. E uma boa bienal para todos!

Fareinheit 11/9: lições em meio aos caos de Michel Moore

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Até onde sei o filme “Farenheit 11/9” do diretor estadunidense Michel Moore ainda não começou a ser mostrado nos cinemas brasileiros. Eu o assisti esta semana numa sessão de cinema em Lisboa, e sai de lá com impressões discrepantes sobre o conteúdo e sobre a forma pela qual Moore construiu o seu argumento sobre os desafios que hoje ameaçam a democracia estadunidense. Em outras palavras, não consegui me decidir se o filme é bom ou ruim. Mas uma coisa eu consegui definir: vale a pena vê-lo.

Além disso, saí de lá com a impressão de que se um filme similar fosse feito no Brasil, o enredo seria muito semelhante, já que Fareinheit 11/9 trata em parte do mistério de como foi possível que um candidato que sempre viveu e se aproveitou do sistema pudesse se apresentar como antisistema e vencer.  Talvez seja porque alguns dos jogadores sejam os mesmos, a começar pelo envolvimento da Cambridge Analytics e do onipresente Steve Bannon.

Além disso, em que pese a narrativa fragmentada e as cenas emprestadas das redes sociais, os que estão hoje mais perdidos do que cachorros que caíram do caminhão de mudanças poderão aprender algumas lições valiosas de como retomar espaços que foram perdidos após mais uma década de aplicação de estratégias que basicamente desmontaram a capacidade de ação organizada da classe trabalhadora em prol de uma sociedade capitalista sem conflitos de classe. Só por esse detalhe, assistir o “Farenheit 11/9″ de Michel Moore.

Democracia, que democracia? O TSE e a cassação de 3 milhões de títulos

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A eleição presidencial de 2014 foi resolvida em favor de Dilma Rousseff por cerca de 3 milhões de votos. Agora em 2018 em um ambiente politicamente acirrado, o fazem os ministros do Tribunal Superior Eleitoral? Cancelam mais de 3 milhões de títulos sob a desculpa de que os eleitores afetados não realizaram o seu registro biométrico. Um detalhe a mais é que a maioria desses títulos cancelados está na região Nordeste, onde se espera que os candidatos de esquerda tenha votações expressivas.

Coincidência? Num país onde claramente nada é feito de forma arbitrária quando se trata de assegurar os interesses das classes dominantes, não há espaço para coincidências.  O que estamos presenciando é um ato discricionário que, em nome de uma suposta evolução tecnológica, está cassando o direito de milhões de eleitores de se posicionarem eleitoralmente. 

É que todo mundo se sabe que se a maioria desses títulos estivesse em São Paulo ou em estados da região Sul, o tratamento dado seria muito diferente.  É que, caso os ministros do TSE tenham esquecido,  o artigo 15 da Constituição de 1988 diz no inciso III que a suspensão dos direitos políticos de um cidadão só pode ocorrer em caso de “condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos”.

Depois não me venham cobrar concordância com determinados resultados eleitorais em nome do respeito à democracia. É que está evidente que durante esse processo eleitoral, a primeira vítima é justamente o direito do povo se posicionar democraticamente. 

Diálogos com a Democracia

Venham discutir, dialogar e participar conosco

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A Frente Antifascista promove uma série de encontros em várias instituições de ensino da cidade de Campos. Chama-se Diálogos com a Democracia, a intenção é nobre: a promoção da cidadania e defesa dos Direitos Humanos.

O primeiro encontro será na Universidade Estadual do Norte Fluminesne (Uenf).

Vivemos tempos sombrios onde um neo-fascismo ascendeu dos escombros da sociedade,  nos últimos anos, promovendo a violência como forma de desestruturação de nossa sociedade, o fim das políticas sociais, a criminalização dos movimentos populares, a privatização dos bens públicos como a Embraer e Eletrobrás, a entrega de nossas riquezas naturais como petróleo e água, o enfraquecimento das instituições públicas de ensino superior e o desmonte da política de ciência e tecnologia e de nossa engenharia nacional.

Nos últimos meses vimos o aumento do desemprego, do subemprego, a volta da mortalidade infantil, o cozimento de alimentos a lenha pelos mais pobres, insegurança alimentar (fome), o estrangulamento dos investimentos públicos em saúde, educação, moradia e transferência de renda.

Nós, cidadãos e cidadãs, temos a obrigação de nos posicionar contra o aprofundamento das mazelas em nossa já extrema desigualdade social. Lutar contra o retrocesso promovido por setores ultraconservadores de nossa sociedade.

Não é justo que os bens sociais sejam repartidos apenas ao 0,5% da população, os super-ricos.

Não é justo flagrarmos crianças e adultos remoendo o lixo em busca de algo para se alimentarem.

Não é justo as pessoas estarem em situação de rua por perderem seus empregos e não terem suas casas.

Não é justo vermos neo-fascistas defenderem a pena-de-morte como solução para a ineficiente segurança pública, num país onde mais de  318 mil jovens, maioria negros, foram brutalmente assassinados por arma de fogo, entre 2005 e 2015, dados do Atlas da Violência.

Não é justo jovens mães não trabalharem e estudarem por falta de creches públicas, para suas crianças, e serem vítimas da violência doméstica e sexual.

Não é justo vermos crianças perambulando pelas ruas em busca do mínimo de dignidade e esperança, sem escolas e parques para brincarem.

Como bem lembra o mestre Gonzaguinha: GUERREIRO MENINO

Um homem se humilha
Se castram seus sonhos
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho
E sem o seu trabalho
O homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata
Não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz.

A FRENTE ANTIFASCISTA conclama todos e todas que defendem uma Democracia que construa uma sociedade mais justa e solidária, que garanta a todos e todas os mesmos direitos, o direito a máxima felicidade possível.

Data e horários serão anunciados em breve.

Nos encontramos lá.

FRENTE ANTIFASCISTA

Judiciário performático e seus riscos para a democracia brasileira

 A imagem abaixo mostra o Juiz Federal Marcelo Bretas e desembargador do TJ/RJ Paulo Rangel gastando munição do Estado à guisa de treinamento para algo que nunca farão, qual seja, utilizar um fuzil de assalto.

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Na imagem acima, o Juiz Marcelo Bretas (terceiro da esquerda para a direita) e o Desembargador Paulo Rangel (quarto da esquerda para a direita) aparecem portando fuzis durante suposto treinamento na Cidade da Polícia.

Como observou em sua página pessoal na rede social Facebook o também Desembargador João Batista Damasceno esta foto manda diversas mensagens erradas para a população fluminense [1].  A primeira coisa apontada pelo Desembargador Damasceno é que, em plena crise, dois membros do judiciário gastam munição do Estado que, sendo reaproveitadas ou não, deveriam ser usadas para treinamento de policiais, e não deles.

A segunda questão é que se estes juízes não utilizarão esses fuzis na vida real, na Cidade da Polícia o fizeram  por qual motivo?  Nesse sentido, o Desembargador Damasceno questionou a necessidade de seus dois colegas aprenderem atirar com fuzis, dado que eles nunca portarão um. Para Damasceno a finalidade aparente é a pura diversão, o que, se for confirmado, seria um claro desperdício de recursos públicos.

De minha parte, o maior problema, contudo, é o fato de que tanto o juiz Marcelo Bretas como o Desembargador Paulo Rangel disponibilizaram essa imagem nas redes sociais, o que contribui para uma desnecessária transformação espetacularização do judiciário, num momento em que o Brasil atravessa uma grave crise econômica e política.

Lamentavelmente a tendência de determinados segmentos do judiciário é de aprofundar a opção por comportamentos performáticos em vez de esforçar para garantir a correta aplicação das leis e, principalmente, dos ditames da Constituição Federal Brasileira. Com isso, o que temos é o agravamento do risco de que ocorram fortes instabilidades políticas no Brasil num futuro muito distante.


[1] https://www.facebook.com/joaobatista.damasceno.50?hc_ref=ARTNoJeqUyzTDF7wJxFnxmDTh00xh2sHAJ1c1y5JeWlDSejPdXmFok7o3brAJ_JKpPQ&pnref=story