Caos nos EUA gera uma nova forma de viralatismo brasileiro

capitol

As cenas caóticas que apareceram nas telas de TV vindas diretamente das portas do congresso dos EUA serviram para uma impressionante sessão de uma nova forma de viralatismo brasileiro. É que desde jornalistas surpresos até membros do Supremo Tribunal Federal, o que se viu foi uma ode em defesa da democracia estadunidense por parte de muitos daqueles que em 2016 demandavam (ou mesmo tramavam) o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Se todos os que se pronunciaram em favor da democracia dos EUA (noto aqui que ao contrário dos membros do STF, nenhum membro da Suprema Corte estadunidense veio a público se manifestar sobre a confusão armada pelos apoiadores do brevemente ex-presidente Donald Trump) tivessem feito o mesmo quando era a nossa que estava sob ataque, é bem provável que o Brasil já tivesse, entre outras coisas, vacinado boa parte de nossa população contra a COVID-19.

Então essas lágrimas por uma democracia cujas instituições são mais bem mais sólidas do que as nossas são as verdadeiras lágrimas de crocodilo. Além disso, até por conhecer um pouco os EUA por dentro, é que se houve qualquer tentativa de golpe de estado, essa não passou nem perto de ter qualquer chance de ter êxito. É que se fosse para valer, os militares dos EUA não teriam assistido a coisa às margens. Aliás, nem as tropas do FBI ou das tantas outras forças militares que existem por lá.

Há que já esteja lançando alertas contra uma postura semelhante dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro caso ele perca as eleições em 2022. Esse tipo de preocupação para mim não passa de distracionismo barato da realidade brasileira, onde mais do que evidente de que são os militares, e não as instituições de Estado, que dão o aval necessário para o presidente brasileiro se manter no poder, em que pesem o seu governo desastroso em todos os níveis que se analisa. Eu diria que se há uma preocupação para 2022 é que os comandantes militares decidam que não será precisa eleição para que Bolsonaro seja mantido na presidência.

Por último, um elemento a ser melhor analisado se refere às consequências que o pequeno show de força dos aliados de Donald Trump terá na capacidade de Joe Biden articular suas alianças multilaterais, especialmente aquelas direcionadas para conter a crescente hegemonia da China no mundo. Ainda que se saiba que a real diplomacia dos EUA se dá pela ponta dos sabres, a desmoralização que ocorreu ontem sobre a ainda principal potência econômica e militar do mundo não foi pequena.  Pior para Jair Bolsonaro e, por extensão para o Brasil, pois muito provavelmente haverá pouca tolerância para imitadores de Donald Trump nas ações multilaterais da nova administração dos EUA. 

Finalmente, prestemos muita atenção no que dirão os defensores da democracia “in America” quando a democracia ameaça for a nossa. 

Eleições 2020: será que continuaremos presos à uma lógica onde o novo já nasce sempre velho?

pobeza extremaMoradia precária na Estrada do Jacu, no Parque Aldeia, em Guarus (Foto: Carlos Grevi)

Por Carlos E de Rezende e Marcos A Pedlowski

No ano de 2020, o Brasil respira com intensidade as eleições municipais e, na maioria das cidades brasileiras, vivemos a expectativa de que haja uma mudança de fato na forma em que nossos destinos são geridos pelos governantes de plantão. Em Campos dos Goytacazes, presenciamos – mais uma vez – a disputa entre nomes que nos remetem à dinastias políticas que há décadas se alternam no poder, seja no executivo e/ou no legislativo. É importante também ressaltar a expectativa de alguns atores locais tentando influenciar direta ou indiretamente no jogo de escolhas. Sim, jogo de escolhas, pois nas inúmeras considerações que certos arautos de uma democracia amordaça não entram, por exemplo, a qualificação das candidaturas e da possibilidade real de mudança, pois se opta por ressaltar a idade das candidatas, sem que se faça o mesmo com os candidatos, evidenciando uma evidente questão de intolerância de gênero que beira a misoginia explícita.

Por outro lado, a tentativa recorrente de enfraquecer e desacreditar as pautas identitárias é no mínimo uma bofetada no rosto de todos os cidadãos campistas que, em algum momento na sua vida, sofreram algum tipo de discriminação, seja por causa da cor da sua pele ou da sua orientação sexual. Portanto, aos teóricos reacionários informamos que estas pautas podem e devem ser defendidas por todas as candidaturas como forma de corrigir erros do passado, e também incluir toda a população de forma simétrica, sem que seja preciso abandonar a questão da classe social como elemento fundante das análises sobre a realidade social.

Desta forma, os componentes dentro do jogo de escolha nas candidaturas possíveis para sentar na cadeira de prefeito de Campos dos Goytacazes deveriam trazer a luta pela justiça e vulnerabilidade social, pois somos um dos países com a maior desigualdade e  o nosso município não é diferente, muito pelo contrário, pois os últimos quatro anos foram marcados por um profundo ataque  às políticas sociais que precariamente serviam como formas de mitigação da miséria extrema que se mostra ainda abundante. Outro ponto que chama nossa atenção é que a alternância de determinados grupos da política local não representou uma transformação na forma de gerir o município, e mantendo como prioridade as demandas das elites locais.

Ao se governar para quem sempre ganhou com os diferentes ciclos de riqueza que marcaram a história do nosso município, as demandas sociais da população mais pobre sempre foram ignoradas. Desta forma, entendemos que a mudança de fato só ocorrerá quando se levar em conta as demandas de toda a população, olhando em detalhe as necessidades dos que foram alijados das benesses trazidas por quase duas décadas de rendas do petróleo. A priorização das ações do governo municipal impõe como meta a garantia de serviços públicos de qualidade na saúde e assistência social, educação e na agricultura familiar. Do contrário, veremos o número lamentável de 45 mil famílias vivendo em miséria extrema em Campos dos Goytacazes aumentar exponencialmente.

Agora, quanto à continuidade no jogo de escolha das candidaturas gostaríamos de destacar o papel do legislativo local, ou seja, a da escolha dos futuros vereadores. A função dos vereadores é criar leis, representar os interesses da população, defender os interesses da sociedade com independência entre os poderes, e o mais importante, fiscalizar as contas públicas e o cumprimento das ações do poder executivo. Portanto, quando se responsabiliza apenas o prefeito sobre a não execução das suas propostas enquanto candidatos, não se pode deixar de levar em conta que os vereadores também possuem uma grande responsabilidade.  E mais, um prefeito que responsabiliza gestões anteriores pela situação encontrada, tendo ele sido vereador, como é o caso de Rafael Diniz, é no mínimo uma expressão leviana, pois deveria ter atuado com responsabilidade no controle das contas públicas e, pelo menos, conhecer minimamente a situação que iria encontrar a frente da Prefeitura.

Concluindo, esta também é a hora de conhecer os projetos daqueles que se apresentam para os próximos 4 anos na nossa Câmara Municipal. E temos alguns fatores a serem considerados, a saber: 1) os que pensam na reeleição devem mostrar os serviços que prestaram a população campista; 2) os que se apresentam como oposição ao atual governo, mas na realidade estiveram presentes no governo, se saíram por questões eleitorais simulando um novo que na realidade e o mesmo de sempre, e poucos foram os serviços prestados à população e ao nosso município; e 3) as candidaturas que vem com as propostas sociais e que tentam definitivamente incluir as populações vulneráveis e os pobres dentro do orçamento municipal.

Finalmente, acreditamos que chegou a hora da população campista votar em candidaturas para a Prefeitura e a Câmara de Vereadores que defendam uma nova pauta política que permita a inclusão social da população mais vulnerável, bem como a defesa intransigente da redução da desigualdade social em nosso município. Sem isso, corremos o risco de ficarmos em um eterno ciclo vicioso onde o novo já nasce sempre velho, e a chuva cai sempre onde inunda mais rápido.

fecho

*Carlos Eduardo de Rezende é professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e Marcos Pedlowski é professor associado do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf.

Outdoors pela democracia já estão nas ruas de Campos dos Goytacazes

Vakinha pela democracia finalmente está nas ruas!

Por Edmundo Siqueira

O movimento democrático conseguiu arrecadar mais de R$ 7.000,00 💰e os primeiros outdoors já estão colocados. Como disse anteriormente, o site da vaquinha — para minha surpresa — demora 14 dias para repassar o dinheiro, então levantei aqui o valor “do bolso” para contratar 7 mídias a um custo de aproximadamente R$ 4.000,00.

O bolsonarismo é bem presente em Campos, pude ver ainda mais nesses dias, que me trouxeram muitas dificuldades para colocar em prática nosso movimento. Mas é preciso resistir e garantir o mesmo espaço e voz a todos os lados, tendo a democracia como norte.

Desde o início do movimento muitas pessoas me procuraram e ofereceram ajuda, para fazer as artes, dando ideias, ajudando na divulgação e apoiando a causa, que é de todos nós que valorizamos a democracia. Agradeço muito a todos e todas que contribuíram de alguma maneira.

Acabei tento muitas outras ideias para fortalecer esse movimento e informar sobre a realidade dos fatos ao maior número de pessoas possível. Criei uma página no Instagram também, sigam @campospelademocracia – https://instagram.com/campospelademocracia?igshid=1lm5df6cpjfbk.

Vem mais novidades por aí! ✅

A empresa alegou alguns problemas de pessoal, que impediram os outdoors sempre colocados ontem, mas hoje pela manhã já estavam nas ruas, nos seguintes pontos:

– Na rotatória de entrada do Shopping Boulevard.

– Após a Rodoviária Shopping Estrada, sentido Rio, lado direito.

– Na Avenida 28 de Março, sentido Jockey, antes da Universidade Estácio de Sá.

– Em Guarus, em frente ao IFF, no contorno após a ponte.

– Rua dos Goitacazes, descida da ponte da lapa.

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Este texto foi originalmente publicado na página de Edmundo Siqueira na rede social Facebook [Aqui!].

Divulgando o livro “Brasil : Estado social contra a barbarie”

A obra “Brasil : Estado social contra a barbarie” acaba de ser lançado pela Fundação Perseu Abramo e merecido ser lido por todos os que estão procurando reflexões críticas que lancem caminhos para sairmos da barafunda política, social, econômica e sanitária em que o Brasil está afundando neste momento.

estado social

Organizado por Jorge Abrahão de Castro e Marcio Pochmann, este livro reúne artigos de um conjunto de professores, pesquisadores e técnicos das diversas áreas de conhecimento e com abordagens multidisciplinares, muitos dos quais participaram da formulação, implementação e gestão de políticas públicas. Formam um conjunto valoroso, uma contribuição crítica, norteada pela identificação dos limites, possibilidades e desafios de um Estado social no Brasil no século XXI.

Entre os autores podem ser citados os nomes de Ermínia Maricato, Rolf Hackbart, Denise Lobato Gentil e Marilena Chaui, mas todos os que participaram da construção do livro oferecem reflexões interessantes sobre o estado de coisas que vigem no Brasil neste momento.

Quem desejar baixar uma cópia pdf deste livro, basta clicar   [Aqui!]

Diário de Pandemia

democracia

Por Douglas da Mata

O mito ocidental da democracia (e sua impossibilidade de convívio com os sistemas capitalistas).

Boa parte de nossa ciência social, destacando a sociologia brasileira, e certamente parte considerável da latino-americana, padece de um erro conceitual que deriva diretamente da mentalidade colonizada.

Na verdade, esta submissão não é deletéria às nossas ciências e cientistas sociais, mas a constatação de um fato histórico, ou seja, assim como o capitalismo subordina as relações sociais dentre as classes sociais de uma nação, ele o faz quando se trata de sociedades localizadas em países de diferentes posições relativas, aquilo que Adam Smith chamou de divisão internacional (do trabalho).

Claro que devemos afastar o risco economicista que ronda tais análises, mas não é errado supor que parte do que a ciência social produz aqui repercute uma anterioridade científica como referência, seja para criar novos olhares sobre as teses produzidas no chamado “mundo anterior” (principalmente a Europa), seja para confirmar outras teses.

O capitalismo subordina seus atores, e com boa chance de acerto, subordina também as narrativas elaboradas por estes.

Neste sentido, a ciência social brasileira nunca questionou a existência da Democracia e sua convivência com o sistema capitalista que se hegemonizou a partir da Era Moderna.

No mínimo, sempre teve um grande receio de abordar com profundidade a possibilidade que a Democracia seja incompatível com o capitalismo.

Democracia aqui mal definida como um sistema de representação (direta e/ou indireta) que proporcione a supremacia de um projeto majoritário, sem aniquilação de minorias, fortalecimento de impessoalidade e isonomia (cada qual na medida de sua capacidade, responsabilidade, necessidade) na aplicação de recursos públicos e tributação, e que via de regra, dê chance para que as classes que se opõem no capitalismo se alternem no poder!

Certamente alguns sociólogos mais precipitados correrão a recitar o chavão: Democracia é um processo em construção!

Pois bem, mas para aceitar este sofisma temos que enxergar algum aspecto de progressividade, ou de avanço do empoderamento das classes subalternas.

A pergunta que se deve fazer, além dos parâmetros econométricos (IDH, PIB, longevidade, mortalidade infantil, etc) ou dos parâmetros institucionais formais (direito a voto, funcionamento das chamadas instituições, com imprensa e judiciário) é se, de fato, os “processos democráticos” permitiram alguma forma real de alternância de PODER.

Há pergunta anterior?

Sim, há:

É possível, dentro dos limites da ordem capitalista, que haja tal alternância?

Pensamos que não, e pensamos ainda que o chamado “processo democrático” nos trouxe a lugares bem distantes desta necessidade democrática de alternância, sem a qual, a etimologia da palavra democracia perde sentido ou utilidade.

Não me refiro aos dias atuais, onde esta distância parece óbvia, seja no chamado berço democrático (Europa, GBR), seja nos “campeões da democracia”, os EUA.

Falo de toda a história do capitalismo, que excetuando a rasa análise das agregações formais e econométricas que já citamos, sempre foi um vai e vem, de um passo a frente e vinte atrás, no quesito dos controles sociais dedicados a conservar as estruturas de subordinação!

Na verdade, toda a gama de “direitos” conquistada ao longo deste processo nunca teve sua permanência garantida, e “coincidentemente” (não é coincidência, mas causa e efeito recíproco), a cada volta da espiral de refluxo e fluxo da acumulação capitalista (agora pós capitalista, no rentismo) foi cassada parte considerável destas conquistas, trazendo as lutas para estágios anteriores aos que foram estabelecidos.

Enquanto isto, as estruturas de dominação nunca foram alteradas e/ou ameaçadas, ao contrário, a cada “direito” conquistado, criaram-se outros tantos freios ao avanço das sociedades, diluindo tais conquistas em uma equação de resultado (-1).

Por isto não nos espanta que os sistemas militares globais tenham estabelecido suas agendas como concorrentes a expansão rentista, monitorando e tutelando, direta ou indiretamente, os governos e entidades.

O medo da nossa ciência social de falar em alto e bom som que não existe e nem existirá democracia alguma em um sistema capitalista, é explicável.

Deriva do truque semiótico imposto pelos detentores do capital, imputando a pecha de autoritários a todos àqueles que desejam romper esta ordem pseudo-democrática.

Aproveitando o que nos diz Robert Kürz, este erro grave leva a outro, que é a construção de uma práxis “revolucionária” que só macaqueia e reproduz os erros de uma sociedade baseada nos mesmos pilares capitalistas, sem romper com esta ordem, sem oferecer a mesma dinâmica do consumo (prazerosa) e deixando apenas a parte autoritária das experiências planificadoras estatais, no chamado capitalismo planejado de estado, que tem seu maior expoente a China!

Só existirá Democracia ou processo democrático na luta anti-capital, e na extinção completa de suas formas de organização da sociedade.

Robert Kürz chama tudo isso de totalitarismo democrático, porque no capitalismo todas as escolhas já estão pré-determinadas, e o capital sempre sabe o resultado.

Algo como o alegado livre-arbítrio religioso, frente a um deus onisciente que sabe o que você escolherá!

É isso que a ciência social precisa dizer, e é isto que devemos ouvir:

Capitalismo e democracia são incompatíveis!

Relatório alerta o Congresso dos EUA para erosão da democracia e precarização da proteção ambiental no Brasil

trump bolsonaroDocumento aponta que nem a proximidade entre Donald Trump e Jair Bolsonaro apaga problemas potenciais para boas relações entre os EUA e o Brasil

Um documento intitulado “Brazil_ Background and U.S. Relations” que foi preparado pelo Congressional Research Service, corpo técnico que assessora o congresso dos EUA, apresenta uma avaliação sobre as relações políticas, econômicas e de cooperação com o Brasil em tintas que diferem em grande parte da imagem otimista que o governo Bolsonaro, pelas vozes de Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo, o chanceler que considera as mudanças climáticas um complô marxista) , sempre tenta apresentar.

brazil us relations

Assinado por Peter J. Mayer, especialista em assuntos para a América Latina, o documento cobre uma série de áreas, incluindo o papel do governo Bolsonaro e a situação da democracia brasileira, a situação de descontrole da pandemia da COVID-19, o  avanço explosivo do desmatamento na Amazônia, e ainda a incapacidade do Brasil de atender as metas do Acordo Climático de Paris.

Em cada uma das grandes áreas abordadas no relatório preparado por Peter Mayer, o que emerge é uma análise crítica da situação da governabilidade do Brasil e da aparente incapacidade do governo Bolsonaro em cumprir metas que retirem o nosso país do processo recessivo em que se encontra há pelo menos quatro anos, e da deterioração dos processos de governança democrática, e também do desmanche das estruturas de comando e controle que impediam o avanço da devastação na Amazônia brasileira. Um elemento ilustrativo é o gráfico abaixo mostrando a evolução do desmatamento na Amazônia Legal.

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No tocante às relações diplomáticas entre os EUA e o Brasil, o relatório indica que a aparente melhora causada pela proximidade entre os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro seja vista com cuidado, visto que há a possibilidade de que “o padrão histórico dos EUA-Brasil nas quais expectativas aumentadas dão lugar a decepções e desconfianças mútuas” possa ser repetido.

Por outro lado,  aponta para a “erosão da democracia, dos direitos humanos e da proteção ambiental” que estão ocorrendo sob a égide do governo Bolsonaro como elementos que colocam dúvidas sobre a estabilidade das relações dos EUA com o Brasil.

Um detalhe citado   diversas vezes e que, por isso, é importante para se entender as reais prioridades dos EUA em sua relação com o nosso país, se refere às inevitáveis tensões que decorrem das intensas relações comerciais do Brasil com a China, apontadas como elemento que pode concretamente descarrilar a boa convivência brasileiras-estadunidenses.

A situação descrita no relatório Congressional Research Service pode piorar ainda mais caso Donald Trump não seja reeleito, já que os democratas recentemente apresentaram seu programa para combater as mudanças climáticas que, se for aplicado, implicaria em cumprimento de metas que afetariam diretamente as decisões do Brasil, já que os EUA passariam a adotar uma plataforma muito mais próxima do que está sendo postulado na União Europeia. 

Jair Bolsonaro, o bode na sala

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Por Luiz Felipe Miguel*

Ao fazer com que boa parte da esquerda brasileira aceite ficar a reboque da direita “civilizada”, abrindo mão de toda a sua agenda em nome nem sequer da democracia representativa, mas simplesmente de um regime menos iliberal, Bolsonaro cumpre seu último serviço aos golpistas de 2016: ser o bode na sala.

A metáfora deve ser entendida em sua plenitude. A presença do bode não é banal. Ele fede, faz barulho, quebra coisas, destrói o estofamento do sofá, ataca as pessoas. Por isso é tão tentadora a sugestão de dar tudo em troca de retirá-lo.

Mas é preciso um pouco de sangue frio, para pensar: é preciso mesmo dar tudo? Não é possível expulsar o bode sem abrir mão de quem somos?

Para a classe dominante sempre é mais fácil. Ela negocia em condições de força – não é à toa que exibe o adjetivo “dominante”. Mostra que pode se acomodar com Bolsonaro, se nós não aceitarmos todas as suas condições.

Mas isso não é tão verdade. Se a acomodação com Bolsonaro fosse tão tranquila, esses acenos à sua derrubada não estariam nem sendo feitos. O Brasil está se tornando um pária no sistema internacional. Está caminhando para o colapso, com a gestão tanto obtusa quanto criminosa da crise sanitária e econômica.

A classe dominante tem mais condições de pretender que pode prosseguir com essa situação indefinidamente, mas é isso: pretender.

Por isso, submeter-se a seu programa não é a única alternativa. É possível afirmar a disposição por ação conjunta contra Bolsonaro sem deixar de reafirmar nossas diferenças profundas e irreconciliáveis.

Elas podem ser resumidas ao seguinte contraste:

O que eles desejam restaurar, com a saída do bode, é o Brasil do pós-golpe. Violência estatal menos escancarada, menos irracionalidade no poder, aceitação ritual dos direitos humanos. Mas a disputa política continua tutelada de maneira a excluir de antemão o campo popular – e, portanto, deixar caminho aberto para o aprofundamento de todas as desigualdades.

Para o nosso lado, o projeto deles não é irrelevante, mas é insuficiente. Para nós, a verdadeira retirada do bode tem que significar, pelo menos, a vigência plena da Constituição de 1988. Abrir mão de assumir esse discurso é abrir mão da disputa política e aceitar, nos documentos e na prática, os limites que eles estão impondo.

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Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

Glauber Braga reage a pedido de Luiz Eduardo Soares para que manifestantes pró-democracia evitem sair às ruas

O deputado Glauber Braga (PSOL/RJ) reagiu ao “alerta” do cientista político Luiz Eduardo Soares sobre a possibilidade dos protestos pró-democracia abrirem o caminho para um golpe de estado no Brasil

No dia de ontem, o  cientista político Luiz Eduardo Soares fez soar uma espécie de alerta para que os manifestantes pró-democracia não saiam às ruas no próximo domingo sob pena de facilitar a realização de um auto golpe por parte do presidente Jair Bolsonaro que poderia usar os protestos para infiltrar provocadores visando a implantação de um estado de sítio no Brasil.

Eu particularmente me achei incomodado com o tom do alerta emitido, pois o chamado de Luiz Eduardo Soares soou para mim como um misto de alarmismo e covardia política, pois em sua “carta aos democratas”, o cientista político não ofereceu nenhuma saída objetiva para a realização de protestos de rua. Aliás, ofereceu sim, indicou que o caminho é aderir ao manifesto pela democracia que ele e milhares de outras personalidades públicas fizeram publicar no último domingo em jornais de grande circulação. 

Já o deputado federal Glauber Braga (PSOL/RJ) foi além do incômodo e lançou uma réplica a Luiz Eduardo Soares em página oficial na rede social Facebook que eu considero bastante objetiva em termos dos desafios que se colocam para a defesa da democracia no Brasil. O texto de Glauber Braga segue abaixo em sua íntegra.

Ao Luiz Eduardo Soares:

Com todo respeito, eu gostaria muito de saber o que você propõe Luiz Eduardo? Porque a sua tese nos leva a esperar as próximas eleições, se é que elas acontecerão. Ou temos dúvidas de que Bolsonaro vai sempre ameaçar com fechamento de regime? Quem estava ou vai pra rua não o faz por duvidar do que Bolsonaro possa fazer. Faz exatamente por considerar a necessidade presente, a urgência e o que possa estar por vir. Pergunto. Se houver recuo do lado de cá, Bolsonaro vai recuar do lado de lá? Não.  Se houver recuo do lado de cá, por conta das ameaças, Bolsonaro segue avançando do lado de lá? Tudo indica que sim. Então não restam tantas opções assim. Entendendo todas as dificuldades, vou seguir com as torcidas antifascistas. A não ser que me apresente uma proposta melhor. Por enquanto só vi uma carta incentivando ao não movimento, sem nenhuma proposta de ação concreta.

Com o argumento dos efeitos da pandemia eu não reajo da mesma forma. Ao contrário. Acho que  traz uma reflexão importante que devemos mesmo considerar e pensar muito. Não é uma decisão fácil.

Reajo ao seu texto Luiz Eduardo por trazer argumento que não deixa outra opção além do recuo frente às ameaças. E faz mais: coloca a responsabilidade em quem não adota a sua tese pelas prováveis consequências que desenha. Eu poderia apontar o dedo pra você e dizer: a responsabilidade é sua que não está fazendo o que deveria e etc, etc… mas aí sim eu estaria sendo um irresponsável e não entendendo a complexidade do cenário e a sua autonomia pra tomar o rumo que considere mais eficaz no combate ao fascismo. Não quero convencer você Luiz Eduardo a estar na rua, mas que não venha querer responsabilizar pelo fechamento de regime quem foi ou estará. O responsável pelo fechamento de regime, se ele vier a acontecer, é Jair Bolsonaro. Quem está se colocando em risco na rua o faz também porque está preocupado com essa possibilidade iminente.

Deputado federal Glauber Braga (PSOl/RJ)

A quem serve calar a boca da imprensa?

bolsonaro cala a boca

O presidente Jair Bolsonaro teve, mais uma vez,  uma reação intempestiva ao ser questionado por profissionais de imprensa sobre as implicações das mudanças operadas a seu mando em postos de direção da Polícia Federal (ver vídeo abaixo).

Em qualquer sociedade que se pretenda democrática, a obrigação dos governantes é responder, até à exaustão se for necessário, as perguntas que lhes sejam apresentadas por profissionais de imprensa.

Ao mandar calar a boca profissionais que lhe faziam perguntas coerentes e de interesse da sociedade em geral, o presidente Jair Bolsonaro demonstra sua intolerância para com os filtros que toda democracia que mereça o nome impõe a quem governa.

Resta saber até quando essa atitude autoritária será tratada com benevolência pelos proprietários da mídia corporativa.

Findo o Carnaval, continua a novela política

Extremista de direita Jair Bolsonaro age contra o equilíbrio in

Findo o Carnaval que teve todo tipo de protesto contra o governo de Jair Bolsonaro ao longo do território nacional, veremos como se desenrolará a novela causada pela decisão de repercutir um vídeo convocando um ato político para o dia 15 de março que terá (será que terá mesmo?) como alvos o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Todo o espectro político representado no Congresso Nacional, com a exceção dos apoiadores de Jair Bolsonaro, resolveu se manifestar contra o que é percebido com um convite à instauração de um governo autoritário e compatível com o que seria um crime de responsabilidade por parte do presidente da república.

Algo que tem me deixado encafifado é sobre quem interessaria, além de supostamente o próprio presidente e seu séquito familiar, a instauração de um regime bonapartista comandado por Jair Bolsonaro? É que esse tipo de governo historicamente se instala para dar vazão ao que desejam os estratos superiores das sociedades em que o mesmo se instala. Assim, quem no Brasil se interessaria por uma resposta positiva por parte das Forças Armadas para atender o chamado dos que convocam o ato do dia 15 de março?

Pergunto então: seriam os banqueiros, os latifundiários, os líderes neopentecostais ou seria o alto das forças armadas? Mas se houvesse tal apoio de quem quer que fosse, qual seria a agenda que seria apresentada para dar sustentação a esse golpe? Reformas neoliberais ainda mais duras do que as oferecidas até aqui por Paulo Guedes? Menos dinheiro para saúde e educação? Mais cortes de impostos para os mais ricos?

Há quem possa ver na possibilidade de um autogolpe autoritário a influência dos escalões inferiores das forças armadas e das polícias militares. Em suma, um autogolpe dado por soldados, cabos e sargentos. A questão aqui seria verificar em que capítulo da história brasileira houve um movimento comandado por esses segmentos que tivesse tido sucesso em vez de ter seus líderes esquartejados ou simplesmente desaparecidos.

Em minha modesta opinião todo esse movimento interessa a todos os segmentos que não querem que as massas insatisfeitas saiam às ruas para exigir do governo que aí está o cumprimento das suas principais promessas, a começar pelo fim da corrupção, mas chegando em coisas mais palpáveis como a melhoria dos serviços de saúde que objetivamente se encontram em piora acelerada, prejudicando exatamente aquele segmento mais pobre da população que votou em Jair Bolsonaro para obter algum tipo de melhoria nos serviços prestados pelo estado.

É sempre importante lembrar que em pleno Carnaval, o governo Bolsonaro enviou mais um pacote para ser aprovado pelo mesmo congresso que os que convocam o ato do dia 15 de março dizem querer fechar.  Isso mostra que toda a confusão que aparentemente está instalada entre os três poderes da república pode não passar de pura encenação para, mais uma vez, manter os principais interessados distraídos e inertes enquanto as reformas ultraneoliberais de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes continuariam a avançar de forma inclemente.

Finalmente, é interessante notar que os responsáveis pela convocação do ato de 15 de março devem saber que levarão poucas pessoas às ruas, visto que o calo hoje está apertando em questões concretas e menos ideológicas. Curioso seria checar quantos pretendem colocar nas ruas aqueles que defendem uma “frente ampla” em defesa do congresso nacional e do STF em nome da democracia. A minha suspeita é que também não têm muita expectativa de arrastar grandes multidões. 

Enquanto isso o valor do dólar e os números do desemprego continuam a subir vertiginosamente.