Estudo revela primeiros esforços para promover desinformação climática

Estudo detalha como uma extensa campanha de relações públicas nos Estados Unidos atrasou a ação climática em nível mundial

CO2 Emissons Report United Nations, Bergheim, Germany - 04 Dec 2018

Um artigo publicado hoje (11/4) na Environmental Politics revela novos detalhes sobre os primeiros esforços organizados para tentar enfraquecer a ação climática em nível mundial. Segundo a análise, a organização Global Climate Coalition (GCC) mudou o curso da política climática dos EUA no final do século 20, influenciando todo o contexto internacional, com táticas que servem de guia para a desinformação climática até hoje.

A Global Climate Coalition, criada em 1989 e encerrada em 2001, foi a primeira e maior organização dos Estados Unidos desenhada para se opor à ação climática. O artigo publicado hoje adiciona documentos previamente ocultos. Entre eles, estão arquivos da Associação Nacional de Fabricantes dos EUA de 1990-1998 e da agência de comunicação E. Bruce Harrison Inc., que revelam a estratégia inicial da GCC: lançar dúvidas sobre a ciência do clima e advertir sobre os danos econômicos que o combate às mudanças climáticas trariam.

Os documentos também detalham esforços para pressionar os regulamentos da EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, e como a GCC se vangloriou muitas vezes por ter conseguido influenciar negociações ambientais importantes, como a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática.

“As ações empreendidas pela Global Climate Coalition nos primeiros dias da política climática provaram ser incrivelmente eficazes em atrasar as ações climáticas por décadas”, disse Robert Brulle, autor da análise e professor visitante da Brown University. “Estes documentos revelam um livro de jogadas para o enorme e eficaz esforço de relações públicas que a indústria ainda emprega hoje.”

A revisão feita por Brulle hierarquiza da seguinte forma as táticas da GCC: 1) monitorar e contestar a ciência climática; 2) encomendar estudos econômicos sob medida para ampliar e legitimar seus argumentos; 3) mudar a compreensão cultural da mudança climática com campanhas publicitárias; e 4) conduzir um lobby agressivo sobre os legisladores e outros membros das elites políticas.

A análise inclui um documento da GCC de 1995 que resume os extensos esforços de relações públicas aplicados àquela altura para mudar a política climática internacional. Este material também detalha os principais doadores industriais da coalizão e seu orçamento.

Em sua formação original, a GCC era composta principalmente por empresas de serviços públicos, como água e eletricidade, representantes do setor de carvão e uma empresa petrolífera. Em 1991, o grupo tinha 79 membros.

O artigo foi publicado sob o título “Advocating Inaction: A Historical Analysis of the Global Climate Coalition” e está disponível aqui. Os novos documentos analisados na pesquisa podem ser consultados aqui.

Grandes empresas de relações públicas são peça central na desinformação climática, diz estudo

greenwashing

Um novo estudo revisado por pares argumenta que as empresas de relações públicas (RP) são uma força importante na obstrução da comunicação sobre mudanças climáticas nos EUA, influenciando a percepção pública sobre os desafios e soluções para enfrentar o problema.

O artigo “The Role of Public Relations Firms in Climate Change Politics” , publicado na revista Climatic Change, oferece a análise mais detalhada até hoje sobre como as empresas de relações públicas e publicidade têm auxiliado as indústrias de carvão, aço, ferrovia, petróleo e gás, bem como a indústria de energia renovável e grupos ambientais.

Um resumo da pesquisa em andamento do Brown Climate and Development Lab, “Beyond Climate Denial”, também lançado nesta semana, dá detalhes sobre algumas das campanhas e agências – muitas das principais empresas de relações públicas do mundo.

Analisando o período de 1988 a 2020, a pesquisa revela que as campanhas de RP foram bem sucedidas na criação de narrativas que moldaram o discurso das grandes empresas poluidoras sobre as mudanças climáticas. Termos como “carvão limpo”, “gás natural renovável”, “país do carvão”, “pegada de carbono” e “Hora do Planeta” são diretamente atribuíveis às campanhas.

“Nossa análise contínua mostra que as indústrias de combustíveis fósseis dependem das empresas de relações públicas para melhorar sua marca e atingir objetivos legislativos”, disse Cartie Werthman, co-autora do artigo sobre Mudança Climática e principal autora da análise Brown. “Desde a criação de grupos de liderança que levantam apoio de base falso para uma determinada indústria até a realização de campanhas publicitárias contra políticas climáticas, algumas das maiores agências de relações públicas do país ajudaram as empresas de combustíveis fósseis a avançar sua agenda”.

“A obstrução da indústria de combustíveis fósseis à ação climática vai além da desinformação e da negação do clima“, diz Robert Brulle, professor visitante da Universidade de Brown e co-autor do artigo. “Uma parte importante do esforço para obstruir a ação climática envolve o aumento da reputação pública positiva das empresas de combustíveis fósseis e enfatizar os benefícios do uso contínuo de combustíveis fósseis.”

Segundo Brulle, as empresas de RP são uma grande parte do mecanismo que orienta a maneira como a população dos Estados Unidos pensa o tema da mudança climática, da severidade dos impactos climáticos às políticas para enfrentar o problema.

Jogo duplo

A pesquisa revela que muitas das maiores empresas de relações públicas promoveram os interesses dos combustíveis fósseis e, em alguns casos, ao mesmo tempo apoiaram grupos ambientais. As empresas desenvolveram campanhas que frequentemente contavam com grupos de terceiros para se engajar com o público, criticar oponentes e servir como a cara de uma campanha publicitária.

O material suplementar do artigo apresenta perfis detalhados das empresas e das campanhas com as quais elas estiveram envolvidas, desde os primeiros esforços para desacreditar a ciência climática até as campanhas contrárias ao Green New Deal proposto por Joe Biden enquanto candidato à presidência dos EUA.