Plantadores de soja adotam posturas obstrutivas, escapistas, e reacionárias contra as políticas de conservação ambiental, revela estudo

Um artigo que acaba de ser publicado pela revista Forest Policy and Economics revela como grandes plantadores de soja (os sojeiros) em Tocantins, um estado onde o Cerrado se encontra sob forte pressão por causa do desmatamento para expansão das monoculturas de soja, se posicionam em relação às políticas de conservação ambiental, especialmente a do chamado Desmatamento Zero.

O estudo que utilizou um grupo focal com sojeiros buscou avaliar 3 cenários:   (1) acesso a uma tecnologia de aumento de produtividade condicionado à abstenção de abertura de novas fazendas em áreas com vegetação nativa; (2) uma política europeia menos flexível que limita as importações à soja sem conversão, independentemente do ecossistema; e (3) um fortalecimento das política ambientais brasileiras que tendem a aumentar a quantidade de terras que os agricultores devem reservar para conservação ambiental.

A pesquisa mostra que os produtores de soja são altamente céticos em relação às regulamentações ambientais e desconfiam de  atores estrangeiros. Ao mesmo tempo que lutam por uma maior autonomia para realizar suas atividades, os sojeiros rejeitam as tentativas de controlar as suas práticas habituais de (agro)negócios e rejeitaram esses esforços políticos como sendo, em última análise, conduzidos por agendas ocultas. Segundo os autores do artigo, os resultados da pesquisa mostram uma forte inclinação por parte dos plantadores de soja de recorrer à teorias da conspiração, entendidas como explicações alternativas que atribuem eventos determinados a atores poderosos.

A pesquisa mostra ainda que os plantadores de soja possuem uma mentalidade de fronteira que é marcada pela presença valores libertários que são aliados a uma  desconfiança explícita nas instituições estatais, ou nos motivos dos reguladores estrangeiros interessados em conter o processo de desmatamento.

Esse cenário todo serviria para criar uma postura obstrutiva e reacionária face aos esforços em prol do Desmatamento Zero no Brasil. Este comportamento reacionário pode se manifestar na forma de medidas preventivas, tais a relutância em adotar práticas ou tecnologias agrícolas vinculados aos requisitos de Desmatamento Zero ou ao boicote aos esforços de governança ambiental. Em sintonia com uma preferência por um status quo ante – ou, simplesmente, pelo business as usual – tais atores escolhem recorrer a compradores de commodities que, na percepção dos sojeiros, não colocarão em prática as exigências ambientais, resultando numa forma de fuga. Finalmente, tal rejeição dos controles ambientais torna-se enredada na negação da ciência e no endosso de teorias da conspiração que, por sua vez, são disseminadas por associações setoriais e grupos de WhatsApp.

Quem desejar baixar o artigo de Aragão e colaboradores, basta clicar [Aqui!].

Monocultura devastadora: as consequências ecológicas do boom da soja na América Latina

197887Soja a perder de vista (colheita em plantação no Rio Grande do Sul, abril de 2024).

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Dificilmente qualquer outra cultura mudou tanto o sul da América Latina nos últimos 40 anos como a soja. O seu cultivo em grande escala para exportação transformou paisagens ricas em espécies em estepes agrícolas desertas, salpicadas de silos de armazenamento de aço que se elevavam ao céu, as novas catedrais do norte do Brasil ao norte da Argentina.

Na década de 1950, os campos de soja ainda eram uma raridade na América do Sul. Hoje eles se espalham por 1,2 milhão de hectares no Uruguai e 1,6 milhão de hectares na Bolívia. No Paraguai são 3,6 milhões de hectares, na Argentina 15,5 milhões e no Brasil gigantescos 46 milhões de hectares. Nem mesmo a Amazônia foi poupada do boom da soja. O feijão asiático cobre hoje uma área de mais de quatro milhões de hectares na Amazônia brasileira e boliviana.

Desmatamento e agrotóxicos

O impacto ambiental mais visível do cultivo da soja é a perda de biodiversidade através do desmatamento direto e da conversão de terras. Isto afeta os ecossistemas florestais da América do Sul: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Chaco, Chiquitânia, Pantanal, Caatinga e Pampas. De acordo com um estudo da Universidade de Maryland publicado em 2021, a perda florestal devido à conversão direta de terras para soja totalizou 3,4 milhões de hectares entre 2001 e 2016.

Ainda maior, mas mais difícil de quantificar, é a desflorestação indireta desencadeada pelo boom da soja. Apenas alguns produtores de soja limpam eles próprios a floresta. Em vez disso, compram ou assumem terras que já foram desmatadas a pequenos agricultores ou criadores de gado, que depois se deslocam e desmatam novas áreas. Grandes áreas do Cerrado eram anteriormente utilizadas para a pecuária extensiva, o que traz consequências menos danosas ao ecossistema do que o cultivo da soja, que é realizado com maquinário pesado e alto uso de agrotóxicos e fertilizantes.

O desmatamento também ocorre para a necessária expansão da infraestrutura. “A soja é ainda mais prejudicial do que outras monoculturas porque justifica projetos massivos de infraestrutura de transporte que desencadeiam uma cadeia de eventos que levam à destruição da natureza em vastas áreas, além das terras diretamente dedicadas ao cultivo da soja”, escreve o cientista Philip M. Fearnside. do Instituto de Pesquisas Amazônicos (INPA) em um estudo publicado em 2001 sobre as consequências da expansão da soja. O agronegócio necessita desta infra-estrutura para processar e transportar a colheita, bem como para fornecer pesticidas e fertilizantes artificiais. “Outros usos da terra, como a pecuária extensiva, também ocupam grandes áreas”, explica o pesquisador amazônico, “mas não têm peso político para incentivar o governo a construir hidrovias, linhas ferroviárias e uma ampla rede de estradas terrestres financiadas com recursos públicos. trazer dinheiro.”

Outras consequências ambientais incluem a erosão do solo, alterações no equilíbrio natural da água e uma redução de insectos, organismos que vivem no solo, peixes e crustáceos devido aos pesticidas utilizados, que são frequentemente prejudiciais para a fauna terrestre e para os seres humanos.

Os produtores de soja no Brasil aplicam em média 6,5 ​​quilogramas de  agrotóxicos por hectare, geralmente de avião: 69% deles são herbicidas, 16% inseticidas e 15% fungicidas. No entanto, o impacto ambiental desta carga tóxica ainda é em grande parte desconhecido, de acordo com o estudo de 2020 “A Pegada Tóxica da soja brasileira” da Universidade Chalmers da Suécia.

A soja não-OGM, que representa cerca de 10% da área plantada, recebeu tratamentos com vários herbicidas tóxicos diferentes, enquanto os campos de feijão geneticamente modificado receberam o controverso herbicida total glifosato. Quase todos os inseticidas pulverizados são tóxicos para as abelhas e organismos aquáticos. De acordo com o estudo sueco, a utilização de malatião, que é particularmente prejudicial para os organismos de água doce, aumentou significativamente durante o período de estudo de 2009 a 2018. Os fungicidas também são tóxicos para a fauna aquática. Além disso, podem resultar em mutações genéticas e danos aos fetos. Os pesquisadores já encontraram altas concentrações de toxinas agrícolas, especialmente glifosato, no sangue de animais selvagens e de pessoas na principal área de cultivo de soja, o Cerrado, no planalto central do Brasil.

Escassez aguda de água

Como esta região é a fonte mais importante do Brasil, os sistemas fluviais que ela alimenta, e em particular o Pantanal, também são afetados. Com as chuvas sazonais, a carga de  agrotóxicos e sedimentos provenientes das monoculturas atinge a maior planície aluvial tropical do mundo, cujas consequências ainda não foram estudadas.

Desde o início deste ano, o Pantanal está em chamas como nunca antes. Estes são os piores incêndios da história desta zona húmida rica em espécies. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contou mais de 4.000 focos de incêndio de janeiro até o final de julho deste ano. A maioria dos incêndios são iniciados por seres humanos para obter pastagens ou terras agrícolas ou simplesmente para queimar lixo. Mas no Pantanal há uma escassez crescente de água a cada ano, razão pela qual os incêndios estão se espalhando mais amplamente e ficando fora de controle com mais frequência. O “mar da soja” também é parcialmente responsável por isto – e não apenas pelas alterações climáticas.

A erosão do solo causada pelas monoculturas assoreia os afluentes e o Pantanal. Os rios ficam mais rasos e mudam o ciclo da água, o nível da água cai. Segundo dados da rede científica Mapbiomas, em 1985 o Pantanal registrava uma superfície hídrica de 1,9 milhão de hectares há pelo menos seis meses. Em 2023 eram apenas 382 mil hectares. Um declínio de mais de 80 por cento. Durante um período semelhante, o estado do Rio Grande do Sul perdeu aproximadamente 3,5 milhões de hectares de vegetação natural, enquanto o cultivo de soja aumentou de 1,3 milhão de hectares para 6,3 milhões durante este período.


Fonte: JungeWelt 

Proteção ambiental na Colômbia: operação sob medo da morte

Os conservacionistas na Colômbia vivem perigosamente. O país tem a maior taxa de homicídios de ativistas ambientais do mundo

197903A mineração legal e ilegal causa grandes danos na Colômbia (Magüí Payán, 20 de abril de 2021)

Por Sara Meyer, Bogotá, para o “JungeWelt”

Qualquer pessoa na Colômbia que defenda água potável, alimentos e solo para a população local vive perigosamente. O país latino-americano tem a maior taxa de homicídios de ambientalistas do mundo. Só em 2022, 60 ativistas foram mortos – quase o dobro do ano anterior. Uma grande parte dos assassinatos fica impune. Os ativistas ambientais enfrentam não só ataques mortais, mas também ameaças, vigilância e criminalização.

O caso mais conhecido é o da mina de carvão El Cerrejón, da qual a Alemanha também obtém carvão mineral . Os relatos de doenças e mortes causadas pela poluição da água estão aumentando. Os ativistas que fazem campanha contra a mina são assediados – não são incomuns visitas domiciliares noturnas de pessoas mascaradas exigindo que parem de resistir ao negócio.

Não é apenas a mina de carvão que põe em perigo a subsistência de muitos colombianos: a mineração ilegal de terras raras, ouro e esmeraldas, o desmatamento das florestas tropicais e o cultivo de monoculturas estão destruindo a delicada ecologia da região. Freqüentemente, são bens produzidos para exportação.

O vencedor deste ano do Prêmio de Direitos Humanos da Amnistia Internacional, Yuly Velásquez, é um dos que faz campanha contra a exploração da natureza. A pescadora de 39 anos é presidente da associação pesqueira Fedepesana e vive pela proteção do maior rio do país, o Rio Magdalena. Ela está se rebelando contra a maior empresa petrolífera do país, a Ecopetrol, e a tomar medidas legais com a sua associação contra a poluição e a extinção de espécies nas águas adjacentes.

Ela realiza essa missão com medo da morte: Velásquez já sofreu três tentativas de assassinato e seu segurança levou um tiro no rosto na sua frente, relata. Ela já deixou sua vila de pescadores e vive sob proteção policial na cidade grande mais próxima, Barrancabermeja. Houve momentos de desespero, dias em que ela não queria sair da cama, momentos em que queria fugir, mas no final das contas desistir não era uma opção para a pescadora. »Venho de uma região que foi gravemente afetada pela guerra civil. Hoje, a violência dos grupos armados e a falta de controlo estatal causam pânico e medo na condução do nosso trabalho. “As mulheres, em particular, que se defendem publicamente contra a poluição ambiental estão entre as que correm maior risco”, diz Velásquez, explicando o seu trabalho. Mesmo assim, o ambientalista demonstra confiança. Ela tira forças para seguir em frente do sentimento de “nunca ser deixada sozinha”. Ela está sempre acompanhada de outros pescadores, dos filhos ou do marido.

Ela atribui ao primeiro presidente de esquerda do país, Gustavo Petro, que está no cargo há dois anos, “a vontade de fazer as coisas de forma diferente”, mas ainda encontra muita resistência.

A luta dos ativistas ambientais na Colômbia não é apenas uma luta contra a destruição da natureza, mas também uma luta pela justiça social e pelos direitos das comunidades indígenas e agrícolas. Muitas das comunidades afectadas pertencem às populações mais pobres e marginalizadas do país. Sem área cultivada e acesso a água próxima, eles não conseguem colocar comida na mesa. Para eles, trata-se de sobrevivência.

Apesar dos muitos desafios, os ativistas ambientais na Colômbia também alcançaram sucesso. Os tribunais suspenderam repetidamente projetos mineiros e petrolíferos devido a danos ambientais e violações dos direitos das comunidades indígenas. Uma conhecida decisão da Suprema Corte de 2018 reconheceu a floresta amazônica como uma entidade legal, exigindo que o governo tomasse medidas para proteger o ecossistema amazônico.

Velásquez descreve como a sua comunidade respondeu de forma criativa aos desafios das alterações climáticas e da pesca excessiva. O foco está no empoderamento das mulheres, no estabelecimento de fontes alternativas de renda e no compromisso com a proteção da natureza. “Nós, pescadoras, desempenhamos um papel crucial na proteção do nosso planeta”, enfatiza a ativista. »Fortalecemos as mulheres na nossa comunidade e desenvolvemos novas fontes de rendimento sustentáveis ​​para além da pesca – por exemplo, através da gastronomia e do ecoturismo. Desta forma, podemos compensar o declínio dramático dos recursos haliêuticos e, ao mesmo tempo, preservar a natureza da qual todos dependemos.«


Fonte: JungeWelt

Latifundiário é condenado a pagar R$ 280 milhões por danos à Amazônia

Justiça brasileira congelou bens de Dirceu Kruger para pagar indenização climática por desmatamento ilegal

pecuariaGado em uma fazenda no estado do Pará, Brasil. O caso é o maior processo civil por crimes climáticos no Brasil até o momento e o início de um esforço legal para reparar e impedir danos à floresta tropical. Fotografia: Bloomberg/Getty 

Um pecuarista brasileiro foi condenado a pagar mais de UR$ 280 milhões pela destruição de parte da floresta amazônica e a restaurar o precioso sumidouro de carbono.

Na semana passada, um tribunal federal no Brasil congelou os bens de Dirceu Kruger para pagar uma indenização pelos danos que ele causou ao clima por meio do desmatamento ilegal. O caso foi movido pela Procuradoria Geral da República, representando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama). É o maior caso civil movido por crimes climáticos no Brasil até o momento e o início de um esforço legal para reparar e impedir danos à floresta tropical.

Kruger já havia sido forçado a pagar indenização pelo Ibama pela destruição de 5.600 hectares nos municípios amazônicos de Boca do Acre e Lábrea. Isso era em terras públicas pertencentes ao governo federal e ao estado do Amazonas.

O fazendeiro usou motosserras para limpar a vegetação, depois ateou fogo para limpar a terra e finalmente plantou grama para estabelecer pasto para criação de gado. Imagens de satélite mostraram a escala do dano e Kruger admitiu tê-lo causado em filme.

A floresta amazônica é vital para o sistema climático global , mas está seriamente ameaçada por atividades legais e ilegais; um estudo recente mostrou que metade dela pode atingir um ponto crítico até 2050.

Ao abrir um processo civil contra Kruger, o gabinete do procurador-geral argumentou que suas ações prejudicaram o clima de duas maneiras: queimar a vegetação emite gases de efeito estufa diretamente, e remover as plantas significa que elas não conseguem mais extrair dióxido de carbono da atmosfera.

O tribunal ouviu que danificar a floresta amazônica emite em média 161 toneladas de carbono por hectare, totalizando 901.600 toneladas.

O tribunal avaliou o valor desses danos em R$ 339,60 a tonelada, um número derivado da média do custo social do carbono calculado pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA e pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse é um valor relativamente baixo; estimativas mais recentes de custo social são significativamente maiores.

Isso coloca o dano total causado por Kruger em R$ 292 milhões. O dinheiro pago por Kruger irá para o fundo nacional de emergência climática. Os ativos de Kruger foram congelados e ele está proibido de receber financiamento do governo ou benefícios fiscais. Ele também está proibido de vender gado e produtos agrícolas, bem como comprar máquinas como motosserras e tratores.

Além disso, Kruger terá que restaurar a terra que degradou para que ela possa se tornar um valioso sumidouro de carbono novamente. O tribunal disse que fazer os infratores pagarem indenização por danos climáticos é vital porque o dano causado nunca pode ser totalmente remediado.

Esta foi a maior ação por danos à floresta tropical movida até o momento pela Procuradoria-Geral da República, que pretendia que fosse “apenas a primeira de uma série de ações que buscam reparar os danos climáticos causados ​​pela destruição não apenas da Amazônia, mas de todos os biomas brasileiros”.

Mariana Cirne, da Procuradoria Nacional de Defesa do Clima e do Meio Ambiente, disse que o sucesso do caso era “uma questão de justiça climática” e ajudaria o Brasil a atingir suas metas nacionais de emissões.

Cirne disse: “Hoje, milhões de pessoas já estão sofrendo os impactos diretos e indiretos das mudanças climáticas, com a preocupação adicional de que as populações mais vulneráveis ​​são as mais duramente atingidas. Portanto, é crucial garantir a responsabilização total pelas emissões ilegais e a imposição da obrigação de implementar projetos de captura de carbono.”

A decisão ainda não foi finalizada pelo tribunal e ainda pode ser apelada. Vários casos semelhantes estão se desenrolando no sistema judicial do Brasil. Não são apenas aqueles que destroem diretamente a floresta amazônica que estão sendo processados. Um processo está em andamento contra a empresa importadora e exportadora Importação e Exportação de Madeiras Floresta Verde por armazenar madeira que supostamente veio de desmatamento ilegal.

Rafaela Santos Martins da Rosa, juíza federal e editora de um livro sobre litígios climáticos no Brasil, que será lançado em breve, disse que os tribunais brasileiros estão cada vez mais reconhecendo que cada ato de indivíduos e empresas que libera emissões de gases de efeito estufa ou causa perda de sumidouros de carbono aumenta o efeito cumulativo no clima.

Quantificar o custo social mais amplo desses danos também ajuda a deter futuras atividades ilegais. Da Rosa disse: “Condenações por danos ambientais em geral no Brasil nunca atingiriam esses valores monetários. Somente com o reconhecimento da dimensão climática e o cálculo monetário das emissões esses níveis serão alcançados. Isso poderia, na verdade, desencorajar comportamentos semelhantes de outros desmatadores.”

O tribunal enfatizou que a decisão contra Kruger não abriu caminho para alegações sobre desmatamento legal, mas Da Rosa disse que ações civis desse tipo poderiam ser movidas contra autoridades públicas.

No início deste ano, o supremo tribunal do Brasil ordenou que o governo federal restabelecesse um plano para prevenir e controlar o desmatamento na Amazônia e para monitorar e investigar crimes ambientais ocorrendo lá. O tribunal reconheceu que a política ambiental do Brasil ainda estava sendo atualizada após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 , mas disse que mais poderia ser feito.


Fonte: The Guardian

Desmatamento da Amazônia é ainda mais impactado por demandas do centro-sul do que pelas exportações

Estudo da USP mostra que a expansão da pecuária, pressionada pelo aumento do consumo interno, foi o fator que mais contribuiu para a eliminação ou degradação da cobertura vegetal da região. Produção agrícola vem em segundo lugar

desmatamento fapesp

Atualmente, 23% da área correspondente à Amazônia Legal Brasileira já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados (foto: Ibama)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

A Amazônia Legal Brasileira (ALB) – que compreende toda a parte da Bacia Amazônica situada no Brasil e vastas porções adjacentes do Cerrado, estendendo-se por nove Estados – soma mais de 5 milhões de quilômetros quadrados (km2) e corresponde a quase 60% do território nacional. Atualmente, 23% dessa área já foi desmatada e mais de 1 milhão de km2 encontram-se degradados, colocando a região em risco de atingir um ponto de inflexão ecológica que poderia colapsar os ecossistemas e liberar bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Algumas regiões da ALB, especialmente nas franjas do Cerrado e no chamado “Arco do Desmatamento”, já são emissoras líquidas de carbono. A manutenção da área preservada e a recuperação de porções degradadas são necessidades urgentes, que mobilizam diferentes atores da comunidade global.

A demanda estrangeira por commodities é frequentemente considerada a motivação principal do desmatamento. Mas, embora esta constitua um fator muito relevante, os mercados domésticos exercem pressão ainda maior. Foi o que constatou um estudo realizado por Eduardo Haddad e colaboradores, publicado na revista Nature Sustainability.

“O desmatamento é frequentemente avaliado a partir da perspectiva da oferta, ou seja, quais setores produtivos estão promovendo a substituição das florestas por outros usos da terra, como agricultura e pecuária. A metodologia que adotamos permite ver o fenômeno do desmatamento também a partir da perspectiva da demanda, identificando as fontes de estímulos econômicos para que os setores produtivos se envolvam no desmatamento. Com base nesse critério, nosso estudo mostrou que 83,17% do desmatamento foi desencadeado por demandas de fora da Amazônia e apenas 16,83% por demandas da própria região. Na composição dos 83,17%, verificamos que 59,68% foram decorrentes de demandas do restante do Brasil e 23,49% de demandas do comércio internacional”, relata Haddad.

O pesquisador é professor titular da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e consultor de agências internacionais de desenvolvimento, como o Banco Mundial (BM), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Joint Africa Institute (JAI).

A metodologia adotada no estudo baseou-se principalmente na chamada Matriz de Insumo-Produto (MIP). Criada pelo russo naturalizado norte-americano Wassily Leontief (1906-1999), a MIP (Input-Output Matrix, em inglês) representa matricialmente as relações entre os diversos setores da economia, registrando os fluxos de bens e serviços e possibilitando conhecer os impactos que as alterações em um setor produzem nos outros.

“No Brasil, a MIP mais recente foi feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE] em 2015. Devido à complexidade matemática e à restrição de acesso aos dados de milhões de empresas e suas estruturas comerciais, não houve atualização depois disso. Usar dados de 2015 poderia ser inadequado se não fosse pelo fato de que, infelizmente, a estrutura da economia brasileira mudou muito pouco desde então. A década de 2010 foi a pior na série histórica de 120 anos do Produto Interno Bruto do país, com crescimento de apenas 0,3% ao ano. Por isso, utilizamos a MIP de 2015 adaptada para a Amazônia Legal Brasileira, combinada com dados setoriais e regionais de desmatamento e de emissões de gases de efeito estufa, para medir os impactos diretos e indiretos da demanda doméstica e internacional por insumos e produtos finais da ALB, com foco em setores intensivos em desmatamento, como a agricultura e a pecuária”, explica Haddad.


A configuração atual da Amazônia Legal Brasileira (imagem: IBGE)

Mudanças no uso da terra

A Amazônia passou por enormes transformações no último meio século. Inovações técnicas, investimentos em infraestrutura e mudanças políticas facilitaram a expansão do cultivo de soja: da região central do Cerrado para vastos segmentos da ALB. A produção local de soja, que era inferior a 200 toneladas em 1974, representando apenas 0,02% do montante nacional, alcançou 50 milhões de toneladas em 2022, 41,5% do total brasileiro. Igualmente vertiginoso foi o crescimento da pecuária: de 8,9 milhões de cabeças de gado em 1974 (9,5% do rebanho brasileiro) para 104,3 milhões de cabeças em 2022 (44,5% do total).

“A expansão da pecuária atendeu principalmente ao crescimento do consumo de carne, produtos lácteos e couro em outras regiões do país. Impulsionado pelo aumento da renda média per capita e pela rápida urbanização, o consumo de carne no Brasil subiu acima da média global após os anos 1960. Dos 1,4 milhão de hectares desmatados pela pecuária, 61,63% visaram atender, direta ou indiretamente, à demanda interna de fora da Amazônia e 21,06% à demanda internacional. O desmatamento por atividades agrícolas mostra um padrão diferente, com 58,38% atendendo à exportação e 41,62 ao mercado interno”, informa Haddad.

O estudo ressalta que, apesar de afetar diferentes biomas da Amazônia Legal, o desmatamento ocorrido até agora no Brasil se concentrou geograficamente nessa região. Em 2015, a ALB respondia por 65,7% do total do desmatamento acumulado no país. A pecuária foi a principal causa imediata (93,4% do total regional), seguida pela produção agrícola, principalmente de soja, milho e algodão (6,4%), e pela mineração (0,2%). A construção de infraestrutura e o processo intensivo de urbanização também fazem parte dos fatores antrópicos diretamente ligados à eliminação ou à degradação da cobertura vegetal original da Floresta Amazônica e do Cerrado.

“Atividades ilegais, como a grilagem de terras, são muito relevantes no contexto. Um estudo recente mostrou que metade do desmatamento da ALB nas últimas duas décadas ocorreu em terras públicas ocupadas ilegalmente por grileiros. Disputas legais têm levado décadas e não impedem que a maioria das áreas ilegais ou do desmatamento ilegal em propriedades privadas participe tanto do mercado de terras quanto do processo de produção”, acrescenta Haddad.

O estudo em pauta demonstra que a demanda econômica originada no centro-sul mais desenvolvido do Brasil impõe uma pressão ainda maior sobre o desmatamento na Amazônia do que as exportações internacionais. Esse conhecimento é muito relevante para orientar políticas públicas e ações da sociedade civil voltadas para preservação ou regeneração. E, como as mudanças no uso da terra, por meio da pecuária e da agricultura, continuam sendo as principais fontes de emissões de dióxido de carbono (CO2) no Brasil, o controle do desmatamento e da degradação torna-se imperativo para que o país possa cumprir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

Além de Haddad, participaram do estudo Inácio Fernandes de Araújo Junior, Rafael Feltran Barbieri, Fernando Salgueiro Perobelli, Ademir Rocha, Karina Simone Sass e Carlos Afonso Nobre.

O grupo recebeu apoio da FAPESP por meio de dois projetos (14/50848-9 e 21/12397-9).

O artigo Economic drivers of deforestation in the Brazilian Legal Amazon pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41893-024-01387-7.


Fonte: Agência Fapesp

O agronegócio quer fazer um “rebranding” para tudo continuar como está

Setor se esforça para mudar a percepção do público; só não admite o que está errado dentro e fora das quatro porteiras

rebranding

Por Giovana Girardi para a “Agência Pública”

Quem passa frequentemente pelo entorno do estádio do Palmeiras, na zona oeste de São Paulo, já se acostumou com os avisos de interdição de trânsito na avenida Palestra Itália, antiga Turiaçu, em dias de jogos ou de grandes shows. Já tocaram ali de Paul McCartney a Titãs; de Taylor Swift a bandas de K-pop. Os sertanejos todos também estão sempre por lá, e foi um show de um deles que eu imaginei que iria acontecer no estádio na semana passada quando vi o aviso de um tal de Gaffff (assim, cheio de Fs mesmo). Não captei de imediato o que significava a sigla, mas vi que tinha agro e tinha festival.

Na verdade, era um negócio muito maior, o Global Agribusiness Festival, com a proposta nada modesta de ser “o maior festival de cultura agro do mundo”. Sim, tinha shows de sertanejos, mas também, como apresentado no prospecto: food (comida), fun (diversão), fair (feira de negócios) e forum (fórum de discussões). Daí os 4 Fs, em inglês, afinal, o evento era “global”. Afff.

Apesar de ter nascido no berço dessa cultura agro, em Barretos, e de saber cantar de cor e salteado não apenas Evidências, fujo da Festa do Peão, e sertanejos não passam pela minha playlist. Mas fiquei interessada na parte “forum” do evento – e a promessa de acessar “conteúdos que transformam o agro e o planeta”. 

(Sobre os outros Fs, aliás, recomendo a leitura da ótima análise feita pela colega Mariana Grilli para o UOL.)

A descrição das palestras, restritas a convidados, era tentadora: “Além de reforçar a importância do agro no cenário econômico brasileiro e internacional, nossos painéis irão debater os rumos do setor e seus principais desafios, principalmente em relação às mudanças climáticas, preservação de recursos naturais e soluções sustentáveis para uma população em crescimento”.

Anti-greenwashing Efforts Could Be the Opportunity Your Brand Is Looking For

O leitor mais desconfiado sentiu um cheirinho de greenwashing? Eu também. Mas vamos lá. Não é todo dia que a gente vê o agro se dispondo a colocar mudanças climáticas e preservação de recursos naturais como prioridade no debate. Veja que tem um “principalmente” ali no resuminho. Achei que merecia uma colher de chá.

De 19 painéis, quatro traziam a palavra “sustentabilidade” no título e só dois falavam explicitamente em “mudanças climáticas”. Fui conferir um deles, sobre “como mitigar e evitar os riscos dos eventos extremos”. É de imaginar que essa deve ser a preocupação número 1 do setor, que vem sofrendo sucessivas perdas por causa de secas e chuvas muito intensas. Só no Rio Grande do Sul estima-se que os temporais entre o fim de abril e o começo de maio tenham levado a um prejuízo de R$ 3 bilhões à agricultura gaúcha.

Logo na abertura da mesa, porém, ficou evidente que, apesar de se identificar como vítima do aquecimento global, o setor não quer discutir suas próprias contribuições para o problema. Luiz Roberto Barcelos, presidente da Agrícola Formosa, do Ceará, que moderava a discussão, foi rápido em explicar: “A mudança ocorre, mas não vamos discutir o motivo, não vamos entrar em polêmica. Se é o homem do campo ou o homem da indústria que polui, não vamos debater”.

Na sequência, Caio Souza, head de agronegócios da Climatempo, entrou no jogo: “Precisamos olhar o problema, não precisamos buscar o ator principal da mudança climática. A mudança climática é o ator principal. Somos coadjuvantes e precisamos criar oportunidades”.

Tudo bem, eu entendo que existe uma estratégia aí de não apontar dedos para não afugentar ninguém, superar resistências e, principalmente, o negacionismo. Para lidar com o problema, todo mundo precisa estar junto, então bora trabalhar, deixa essa história de responsabilidades para lá.

]Mas… quando estamos tratando das mudanças climáticas, se, por um lado, sim, é preciso falar em adaptação, em criar formas de se proteger e, obviamente, de sobreviver ao novo cenário que já está posto; por outro, não tem como não considerar o que está causando o problema para começo de conversa – que é o fato de a humanidade estar emitindo loucamente gases de efeito estufa, que se acumulam na atmosfera como não ocorria há mais de 3 milhões de anos.

Adaptar-se ao aquecimento global é tão fundamental quanto mitigá-lo: fazer todos os esforços possíveis para diminuir a quantidade de gases que aquecem o planeta.

Se em todo o mundo a maior parte desses gases é proveniente da queima de combustíveis fósseis, no Brasil as fontes principais são o desmatamento e a agropecuária (por causa, principalmente, da digestão do rebanho – o proverbial arroto do boi). Considerando que a maior parte das áreas desmatadas no Brasil acaba sendo convertida, posteriormente, em pastagem e agricultura, pesquisadores do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) calculam que o setor, indiretamente, é quem mais colabora com as emissões brasileiras. 

Sinto muito, pessoal. Não discutir isso é não lidar com o elefante na sala.

Desenvolver técnicas para proteger as safras e os rebanhos, mas não trabalhar para zerar o desmatamento entre produtores que ainda o praticam só vai aumentar os riscos para o setor. Nunca é demais repetir: menos floresta = mais calor e menos chuva. Também é preciso trabalhar para que todo o crédito agrícola no Brasil seja vinculado a boas práticas que reduzam as emissões. Coisa que especialistas pedem todo ano, mas ainda não virou realidade no Plano Safra.

Infelizmente, não parece que o evento estava muito interessado em identificar os próprios problemas. O sentimento foi reforçado em outro painel a que assisti: “O rebranding no agronegócio: transformando a percepção sobre o setor”.

Rebranding é um conceito que vem da publicidade e que visa fazer um reposicionamento de marca, de imagem. A ideia é “fazer com que as pessoas mudem a percepção de alguma coisa”, como explicou o publicitário Marcelo Rizerio, da agência Euphoria, que se apresentou no painel. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, que moderou a mesa, disse que o agro precisa mostrar que é supertecnológico e, também, “como é difícil manter comida na mesa dos brasileiros”.

Eduardo Monteiro, diretor comercial e de marketing do Canal Rural, disse que histórias estão sendo contadas sem que o setor assuma o protagonismo delas. “Estão chegando na sociedade sem que a gente conte as nossas histórias”. Ainda defendeu: “Senão, um fica apontando o dedo para um, para outro. [Mas] o agro tem de ser o agro da paz. A discussão é saudável, mas o conflito e o confronto levam à rejeição”.

Fiquei esperando a hora em que alguém ia explicar qual história está chegando na sociedade, qual é a imagem que eles querem mudar. Mas assim como na mesa da mudança climática, ninguém quer tratar de problema. Um único slide trazia muito rapidamente palavras como desmatamento e agrotóxicos.

O agro quer mudar, mas não quer assumir o que está fazendo de problemático, seja da portaria para dentro ou para fora.

Achei simbólica uma frase que Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da XP, que promoveu o evento, disse repetidas vezes em sua apresentação: “Quando você fala uma coisa diversas vezes para uma pessoa e ela não entende, o problema não é a pessoa, o problema é você, que não explicou direito”.

Agora pensa comigo. Esse é o mesmo agro que conta com uma propaganda na maior rede de televisão vendendo à exaustão que é isso, é aquilo, é pop, é tudo e tal. Se esse setor diz que sente a necessidade de fazer um rebranding, fico pensando se o problema é que ele realmente não está explicando direito ou se os fatos, na realidade, é que não são tão brilhantes assim.


Fonte: Agência Pública

Queimadas aumentam na Amazônia, apesar de queda no desmatamento

Área queimada chegou a 10 milhões de hectares em 2023, mesmo com redução da perda de vegetação nativa no Arco do Desmatamento, na porção sul do bioma Amazônico

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Por Lucas Guaraldo para o Ecodebate

Apesar da redução de 50% no desmatamento na Amazônia, a pior seca em 125 anos aumentou o fogo em outras áreas do bioma, elevando a área queimada total para 10 milhões de hectares, 36% a mais do que em 2022.

Dados foram publicados Nota Técnica Amazônia em Chamas nº 12, produzida por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e Nasa e publicada nesta sexta-feira, dia 28.

“Tivemos a redução do desmatamento e da área queimada nos municípios do chamado Arco do Desmatamento, mas houve um aumento no restante do bioma . A gente sempre pensa que reduzir o desmatamento vai ajudar a reduzir o fogo, mas os resultados deste estudo demonstram claramente os efeitos das condições climáticas nesse processo”, destaca Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e uma das autoras da nota.

O estudo aponta que, dos 71 municípios considerados prioritários para ações ambientais do governo federal, todos localizados no Arco do Desmatamento, 62 viram uma redução na área desmatada, representando 88% de toda a redução no desmatamento em 2023. Além disso, dos 180 municípios amazônicos que conseguiram reduzir sua área queimada no ano passado, 47 eram prioritários e responderam por 68% da redução da área queimada registrada neste grupo.

Os dados confirmam uma redução do desmatamento e da área queimada na região do Arco, que vai do norte do Acre ao sudeste do Pará, passando pelo norte de Rondônia e sul do Amazonas. Ao todo, são cerca de 50 milhões de hectares de fronteira agrícola onde tipicamente encontram-se os maiores índices de desmatamento da Amazônia.

Apesar disso, a porção norte da floresta passou pelo caminho oposto: a área queimada aumentou em 245 dos municípios, sendo apenas 24 considerados prioritários pelo governo, totalizando um crescimento de 4 milhões de hectares nessa região. A mudança também pode ser percebida nos meses com mais alertas de fogo. Se em 2022 a floresta queimou principalmente nos meses de agosto e setembro, 2023 registrou uma área queimada maior em fevereiro e março, quando o norte da floresta está mais seco.

“Viemos de um ano com uma seca severa e estamos iniciando um ano mais seco do que o normal, anunciando que vamos ter dificuldades com o período de queimadas. Uma das recomendações é que prestemos atenção na geografia dos incêndios florestais e das áreas afetadas pela seca. A gente viu que teve essa diminuição no Arco do Desmatamento, mas uma outra região foi muito impactada e isso elevou bastante a área queimada”, alerta Ane.

Perfil das queimadas mudou

A combinação de redução do desmatamento e aumento da seca também trouxe mudanças nos perfis das queimadas, criando dificuldades para a estratégia de combate ao fogo. Em 2023, 57% do fogo atingiu áreas de vegetação nativa, principalmente campos e florestas, enquanto áreas de pastagem concentraram 43% da área queimada. O resultado é o inverso do registrado em 2022, quando 37% da área queimada era natural e 62% eram áreas de uso agropecuário. A mudança reflete as diferenças entre o norte da Amazônia, mais preservado e coberto por florestas, e o sul, com uma agricultura consolidada e mais áreas de pastagem.

Dentro dos incêndios florestais, a área queimada em florestas aumentou 123%, passando de 1,3 milhão de hectares em 2022 para 3 milhões em 2023.

Os campos naturais – que incluem campos alagados, campinaranas e lavrados – queimaram 93% a mais do que em 2022, passando de 2,3 milhões de hectares afetados pelo fogo para 4,5 milhões.

“É importante intensificar as medidas para conter o desmatamento na porção norte da Amazônia, de forma a reduzir as possíveis fontes de ignição para incêndios. Esse ponto de atenção se faz presente para a estação seca de 2024, em que a Amazônia, apesar da instalação do La Niña, que provoca mais chuvas na região, ainda apresenta riscos de sofrer com um meio de estação seca muito severa, devido ao estresse hídrico do ano anterior não ter sido suprido pelo período chuvoso no início de 2024, acendendo a luz crítica de alarme para a nova estação de fogo”, alertam os pesquisadores na nota.


Fonte: Ecodebate

Países da União Europeia no centro das atenções pela exposição ao desmatamento por importação de commodities agrícolas

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Por Marcos Titley para a Trase

As importações de produtos agrícolas da UE continuam a impulsionar substancialmente o desmatamento em nível global, sendo o cacau e o óleo de palma os principais culpados, mostra uma nova investigação da Trase. A análise da Trase revela diferenças marcantes entre os países na exposição à desflorestação e os produtos responsáveis, à medida que se preparam para implementar a regulamentação sobre produtos livres de desmatamento (EUDR). 

A partir de 30 de dezembro de 2024, os estados membros da UE implementarão o regulamento sobre os EUDR, que exigirá que as empresas forneçam provas de que as importações de vários produtos com risco florestal não foram produzidas em terras recentemente desmatadas. A Trase foi contratada pelo grupo da sociedade civil Fern para avaliar a exposição ao desmatamento de cada estado membro da UE e criar uma ficha informativa resumida para cada um que destaque sua exposição ao desmatamento proveniente de importações de produtos incluídos no EUDR. 

Entre 2019 e 2021, a UE esteve exposta, em média, a 190.500 hectares (ha) de desmatamento todos os anos devido às suas importações diretas – uma área mais de dez vezes o tamanho de Bruxelas. Durante este período, as importações da UE estiveram associadas a 15,0% da desmatamento mundial ligada ao comércio direto. Os principais países de origem para a exposição na UE foram a Costa do Marfim (19,9%), o Brasil (16,0%), a Indonésia (11,6%), o Gana (8,7%) e a Malásia (4,7%), que juntos representam 61% da Exposição total à desflorestação da UE.

As principais commodities para exposição da UE foram cacau (33,7%), produtos de óleo de palma (19,3%), café (13,0%), soja (9,2%) e produtos de gado (8,9%), que juntos respondem por 84% do total da UE. Para algumas commodities, particularmente óleo de palma, borracha e madeira, os números provavelmente estão subestimados, pois não foi possível vincular importações de formas mais processadas dessas commodities ao desmatamento.

O cacau da Costa do Marfim é a principal fonte de desflorestação na UE. Países produtores com os mais elevados níveis de exposição à desflorestação para a UE através de importações diretas. As mercadorias EUDR são mostradas individualmente e outras mercadorias agrupadas. Os valores são médias anuais para 2019–2021, os três anos mais recentes com dados disponíveis.

Globalmente, registrou-se uma diminuição substancial na exposição da UE ao desmatamento causado por produtos de base EUDR nos últimos anos, ascendendo a uma queda de 35% entre 2018 e 2021, apesar da quantidade de produtos de base importados permanecer elevada. No entanto, as tendências variam ao longo do tempo e por produto, realçando a necessidade de manter as regiões e produtos de alto risco sob constante revisão.

A exposição da UE à desflorestação causada pela soja e pelo óleo de palma diminuiu. Tendências na exposição à desflorestação e quantidades importadas em 2012–2021 para importações diretas para a UE. Os resultados são mostrados para todas as sete commodities EUDR combinadas, seguidas pelas cinco principais em ordem decrescente de exposição ao desmatamento em 2019–2021.

A maior parte da redução geral na exposição se deve a uma queda no desmatamento ligado à produção de óleo de palma na Indonésia. No entanto, os dados mais recentes sugerem que as taxas de desmatamento estão aumentando novamente, o que ainda não está refletido nas fichas informativas. Também houve uma queda substancial na exposição ao desmatamento das importações brasileiras de soja; no entanto, deve-se notar que a perda do Cerrado do Brasil devido à expansão da produção de soja e gado está aumentando, e esta região é amplamente excluída da EUDR e da definição de desmatamento usada para as fichas informativas.

Em contraste, esse declínio na exposição não foi visto para cacau, café ou produtos de gado. A exposição do cacau continua particularmente alta e tem geralmente apresentado tendência de alta. Os dados mais recentes da Trase sobre a Costa do Marfim , a maior fonte de exposição ao desmatamento de cacau da UE, sugerem que as taxas de desmatamento para a produção de cacau lá continuam particularmente altas. Grande parte desse fornecimento é de fontes indiretas, tornando a rastreabilidade para cumprir com a EUDR desafiadora.

Diferenças marcantes entre os países da UE

Ao comparar as fichas informativas, as diferenças na exposição entre os países da UE tornam-se claras, especialmente se considerarmos apenas o comércio direto para o primeiro ponto de importação. Por exemplo, as importações diretas dos Países Baixos foram associadas a 69.500 ha de desmatamento (em média entre 2019 e 2021) – quase o triplo do próximo maior, Espanha (24.200 ha). As importações diretas de países sem litoral como a República Tcheca (226 ha) e a Áustria (457 ha) tiveram uma exposição ao desmatamento muito menor. Isso ocorre porque o Porto de Roterdã, nos Países Baixos, é um importante ponto de entrada para importações para a UE. Ele destaca o papel crucial que as autoridades holandesas terão para fazer cumprir os requisitos da EUDR em verificações de importação. Considerando a reexportação de produtos, a exposição dos Países Baixos é significativamente reduzida para 23.300 ha, enquanto a exposição da Áustria sobe para 1.680 ha, por exemplo.

As commodities responsáveis ​​por essa exposição ao desmatamento também variam muito de país para país. Por exemplo, após o ajuste para reexportações, os produtos de óleo de palma foram os mais importantes para a Holanda e a Espanha; enquanto para a Dinamarca, Eslovênia e Romênia, a soja foi a mais importante. O cacau foi a maior fonte de exposição ao desmatamento para a Bélgica, França, Alemanha e Itália, enquanto o café foi o mais importante para Portugal. Muitos países da UE não têm exposição comercial direta de algumas commodities, como o cacau, mas estão mais expostos ao desmatamento indiretamente por meio de outros países da UE.

Essas pegadas contrastantes de desmatamento sugerem que as demandas que a EUDR imporá às autoridades em diferentes estados-membros da UE variarão muito, destacando a importância do compartilhamento de lições entre os países.

A exposição à desflorestação varia muito entre os países da UE. Exposição ao desmatamento para países selecionados da UE por produto em 2019–2021. Os resultados são apresentados tanto para o comércio direto como para o comércio ajustado para reexportação. Observe as diferentes escalas de eixo usadas entre A (seis principais países por exposição ao desmatamento) e B (outros países selecionados).

Algumas mercadorias fora da EUDR representam um risco substancial

A análise usada nas fichas técnicas incluiu um conjunto muito mais amplo de commodities agrícolas importadas para a UE, além das sete atualmente cobertas pela EUDR. Isso mostrou que 17,5% da exposição ao desmatamento da UE era de commodities não regulamentadas pela EUDR. Nos dados ajustados de reexportação, o mais importante deles era a castanha de caju, principalmente da África Ocidental, que teve a sexta maior contribuição (2,6%) para a exposição total ao desmatamento da UE. O milho também não é coberto pela regulamentação, mas traz a oitava maior exposição ao desmatamento para a UE (1,9%). O Brasil é o país de origem mais importante para a exposição ao desmatamento do milho.

As fichas informativas revelam um enorme potencial para a EUDR reduzir a exposição da UE ao desmatamento e destacam as commodities e os países onde essa oportunidade é maior para cada estado-membro. Além disso, elas mostram como qualquer atraso na implementação do regulamento levará a mais desmatamento impulsionado pelos consumidores da UE. No entanto, a devida diligência não é uma solução mágica e, para maximizar o impacto do regulamento nas taxas de desmatamento, é vital que a UE forneça suporte financeiro e técnico aos produtores, especialmente para garantir que os pequenos agricultores mantenham o acesso ao mercado da UE. Essas fichas informativas podem ajudar a direcionar esse suporte.

As fichas técnicas individuais de cada país, pode ser acessadas [Aqui!].


Fonte: Trase

Amazônia: Modernização via desmatamento e extermínio

O legado da ditadura militar brasileira: projetos de desenvolvimento continuados e um genocídio não resolvido dos povos indígenas

195988Abrindo caminhos de destruição na floresta: construção de estradas na bacia amazônica no início da década de 1980

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt”

Os generais que derrubaram o governo do atual presidente João Goulart no Brasil há uns bons 60 anos, em 31 de março de 1964, com o apoio de setores da sociedade civil e com a ajuda de operações secretas da CIA, governaram o maior país do Sul América por 21 anos. A ditadura militar caracterizou-se sobretudo por graves violações dos direitos humanos; aqueles que se opunham ao regime foram sujeitos a duras repressões, incluindo tortura e assassinatos.

Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) brasileira publicado em 2014, os ditadores assassinaram ou desapareceram para sempre 434 não indígenas e 8.350 indígenas. Além disso, torturaram mais de 20 mil pessoas, segundo um estudo de 2019 da Human Rights Watch. No entanto, os historiadores assumem que o número real de pessoas assassinadas é muito maior, especialmente nas zonas rurais. A Comissão Independente da Verdade Rural do Brasil (CCV), fundada em 2012, concluiu em 2015 que pelo menos 1.196 pequenos agricultores foram vítimas do regime entre 1964 e 1985.

“Não foram apenas os opositores políticos e os activistas que sofreram com as políticas repressivas do regime”. “Toda a sociedade brasileira, talvez com exceção dos perpetradores, foi afetada por esta violência”, escreve Rogério Sottili, diretor do instituto de direitos humanos “Instituto Vladimir Herzog”, em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado pelos militares ditadura em 25 de outubro de 1975.

Derrubando a floresta tropical

O regime, apoiado pela inteligência dos EUA, não só agiu implacavelmente contra os membros da oposição do campo de esquerda, mas também contra os espaços de vida dos povos indígenas e dos grupos populacionais tradicionais. Foi o governo militar que lançou a destruição em grande escala do Cerrado central brasileiro e da floresta amazônica. Uma campanha de destruição florestal que os governos sucessores eleitos democraticamente continuaram até hoje em nome do “desenvolvimento”.

O regime incentivou a imigração de produtores agrícolas, como o futuro barão da soja Blairo Maggi, do sul do Brasil para as planícies da região do Cerrado, que antes era habitada por dezenas de povos indígenas, especialmente no estado de Mato Grosso, a fim de converter em um mar de campos de soja. Em 1965, o Brasil produziu 523,2 mil toneladas de soja. Em 1985 eram mais de 18 milhões de toneladas e hoje são quase 300 milhões de toneladas anuais. No Mato Grosso, a área cultivada com soja passou de doze hectares em 1970 para 795.438 hectares no final da ditadura. Esta área aumentou mais de dez vezes sob a nova democracia, atingindo hoje 12,13 milhões de hectares.

Outro legado vivo da ditadura militar é a construção de estradas e a destruição associada da floresta tropical na Amazônia. A mais conhecida é a construção da infame “Transamazônica” para assentar principalmente pequenos agricultores sem terra do nordeste e do sul da floresta amazônica, em vez de resolver o problema da distribuição injusta de terras. “Terra sem gente para gente sem terra” era o lema da época. O traçado de 4.260 quilômetros, oficialmente denominado BR-230 e inaugurado em 1972, foi um projeto do governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Menos conhecida, mas ainda mais ameaçadora para a maior floresta tropical do mundo, é a rodovia federal BR-319, que deveria ligar Manaus a Porto Velho, e que corre paralela aos rios Purus e Madeira, e foi encomendada pelo regime militar no coração da região amazônica. As obras da rota da floresta tropical, inaugurada oficialmente em 1976, começaram em 1968. Mas apenas 20 anos depois, em 1988, a rodovia federal foi abandonada por razões econômicas e deixada à própria sorte. Desde 2015, esta trilha na floresta tropical voltou a ser parcialmente acessível durante a estação seca, graças a um novo programa de manutenção governamental. Se for totalmente restaurada e pavimentada, como pretendido pelo atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a BR-319 e suas estradas secundárias planejadas conectariam o infame “arco de desmatamento” do já fortemente desmatado sul da Amazônia com Manaus. Os atores da destruição florestal, como os especuladores de terras, as empresas madeireiras, os criadores de gado e a agricultura industrial, poderiam avançar ao longo da rota asfaltada. Isto ameaçaria a preservação do último grande bloco intacto de floresta tropical na bacia amazônica brasileira.

Mas sem uma floresta tropical intacta na Amazónia Central, grandes partes do Brasil poderiam ficar altas e secas, teme o investigador climático e amazónico Philip Martin Fearnside, que descreve a BR-319 como a pior ameaça atual para toda a região Amazônica e mais além. Seu asfaltamento poderia levar a um aumento de cinco vezes no desmatamento da floresta tropical até 2030 e causar o colapso de todo o ecossistema amazônico. O cientista, que pesquisa no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, INPA, em Manaus, desde 1978, tem certeza de que os prejuízos para o Brasil seriam enormes.

O lema “Ocupar para não perder” foi o fio condutor da ditadura militar para a construção das primeiras estradas terrestres amazônicas, como a BR-319, para ocupar as áreas povoadas por indígenas, mas, na opinião dos generais, “desertado” com os brasileiros e, portanto, uma possível tentativa de impedir a tomada de poder por potências estrangeiras, diz Fearnside. Ironicamente, hoje a BR-319 pavimentada facilitaria a exploração dos recursos naturais da Amazônia por interesses estrangeiros, particularmente pela empresa petrolífera russa Rosneft, que já adquiriu concessões do estado brasileiro na região da floresta tropical.

Energia hidrelétrica destrutiva

Outro legado da ditadura militar são os megalomaníacos planos hidroeléctricos e de barragens na bacia amazónica para “desenvolver” e industrializar a região. Em 1974, os generais iniciaram a construção da primeira megabarragem da Amazônia, no Rio Tucuruí. A hidrelétrica de mesmo nome, com reservatório gigante de 2.875 quilômetros quadrados, foi finalmente inaugurada em 1984, o que ecologistas e protetores de florestas tropicais de todo o mundo denunciaram na época como um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil.

Graças à resistência obstinada e apoiada internacionalmente do povo indígena Kayapó contra a usina hidrelétrica de Altamira, no rio Xingu, que também foi planejada na década de 1970 e mais tarde rebatizada de Belo Monte, os grandiosos planos militares de barragens na bacia amazônica desapareceram novamente. a gaveta. Foi apenas Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), quem tirou do armário os planos hidrelétricos durante seu primeiro mandato como presidente brasileiro. Foi assim que foram construídas as megabarragens Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, e Belo Monte, no Rio Xingu, sob os governos petistas de Lula e sua sucessora Dilma Rousseff, financiadas com bilhões de dinheiro e dívidas dos contribuintes, apesar de todos os protestos dos indígenas. e ativistas ambientais.

Planos de energia nuclear militar

A situação é semelhante com o programa nuclear brasileiro, outro legado da ditadura, que também está intimamente ligado ao então governo federal alemão. Embora a pesquisa nuclear já existisse no Brasil desde a década de 1930, foi somente com o golpe militar de 1964 que o programa nuclear começou a decolar. Os militares não queriam apenas produzir electricidade a partir da energia nuclear, mas sim tornar-se uma potência nuclear e dominar toda a cadeia atómica: desde a extracção de urânio e o enriquecimento de urânio até aos submarinos nucleares e à bomba atómica. Para esse programa de armas nucleares, ainda secreto na época, os generais já estavam de olho e desenvolveram um local para testes subterrâneos: uma base da Força Aérea Brasileira na Serra do Cachimbo, na região amazônica do estado de Pára.

Mas para concretizar estes sonhos de grande potência, era necessário um reactor nuclear funcional. A ditadura comprou-o nos EUA em 1972 à Westinghouse com uma produção de 627 megawatts. A usina nuclear foi construída com o nome de Angra 1 no litoral sul do Rio de Janeiro, no território do povo Guaraní-Mbyá, nativo da região. Três anos depois, o então presidente brasileiro Ernesto Geisel assinou um acordo abrangente sobre cooperação nuclear com a República Federal. Dentro de 15 anos, oito usinas nucleares alemãs seriam construídas no Brasil pela Kraftwerk Union AG, uma cooperação entre AEG e Siemens. Além disso, o acordo também previa a exploração de jazidas de urânio e o desenvolvimento do enriquecimento de urânio e também considerava o reprocessamento de combustível nuclear.

A primeira mina de urânio do Brasil iniciou suas operações em 1982, no estado de Minas Gerais. A primeira usina nuclear, Angra 1, entrou em operação em 1985. A construção da segunda usina nuclear, Angra 2, iniciada em 1981, demorou um pouco mais. Devido à falta de fundos, o primeiro governo civil de transição interrompeu temporariamente o projecto em 1986. Somente no final de 1994 as obras de construção de Angra 2 foram retomadas, e a usina nuclear conseguiu gerar eletricidade pela primeira vez sete anos depois, no início de 2001. O terceiro reator nuclear planejado da Alemanha e já adquirido pelos militares, o Angra 3, foi trazido em navios de Hamburgo para o Brasil em 1984, mas nunca foi construído. A tecnologia das usinas nucleares permaneceu desativada na zona sul do Rio de Janeiro por décadas.

Lula e a energia nuclear

O presidente Lula se lembrou da central nuclear desactivada durante o seu primeiro mandato e surpreendentemente reviveu o programa nuclear congelado da ditadura a um custo de milhares de milhões – para deleite dos militares. Em 2007 anunciou que concluiria Angra 3 e construiria mais usinas nucleares. O Brasil possui todos os requisitos básicos para completar o ciclo nuclear. Não deveria mais faltar dinheiro, disse Lula da Silva à mídia na época. O Brasil se tornará, assim, um dos poucos países do mundo que domina todo o processo de enriquecimento. O presidente de esquerda até iniciou a construção do primeiro submarino nuclear sul-americano, sonho de longa data da Marinha do Brasil.

Talvez tenha sido precisamente este legado dos ditadores de direita que ele aceitou que levou Lula a colocar agora um ponto final na história e a não comemorar o 60º aniversário do golpe militar de Março passado. Ele até proibiu seu Ministério Federal de Direitos Humanos de realizar um evento memorial planejado com o título: “Sem memória não há futuro”. O presidente brasileiro disse em entrevista à televisão que não queria mais “mexer” no passado e acrescentou: “ Para ser sincero, não direi: “Continuaremos a abordar o assunto, mas sim tentaremos fazer este país avançar”. Em fevereiro anterior, Lula já havia afirmado em entrevista que o golpe era coisa do “passado” e que. ele não queria ter que se lembrar sempre disso. Segundo pesquisa do Datafolha, 59% dos brasileiros apoiaram a proibição imposta por Lula às comemorações do golpe de 1964.

No entanto, vítimas da ditadura e ativistas dos direitos humanos manifestaram-se em São Paulo e em outros locais do Brasil para assinalar o aniversário. Centenas deles gritavam “Chega de ditadura!” e “Punições para os generais!” Os manifestantes em São Paulo exigiram a punição dos golpistas, torturadores, estupradores e assassinos que ainda estavam protegidos de uma punição justa pela lei de anistia de 1979. O governo também deveria prosseguir uma política de memória e restabelecer a prometida comissão especial para os mortos e desaparecidos da ditadura.

Genocídio impune

Um capítulo particularmente sombrio e ainda não resolvido da ditadura é o genocídio dos povos indígenas do Brasil, especialmente na região do Cerrado e na Amazônia. Até hoje, os crimes cometidos contra os povos indígenas naquela época permanecem em grande parte obscuros e os perpetradores permanecem foragidos e impunes. Por exemplo, a construção da rodovia federal perimetral BR-210, que liga os estados do Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, no norte da Amazônia, teria trazido “devastação, violência, fome, doenças e a morte de milhares de Yanomami”. ”. O número exato de vítimas não é conhecido. A Comissão Nacional da Verdade estima vários milhares de vítimas entre o povo Yanomami.

O mais importante e primeiro documento até o momento que lista inúmeras violações de direitos humanos contra os povos indígenas durante o governo militar é o chamado Relatório Figueiredo de 1968, que ficou perdido 45 anos após sua conclusão. O relatório original de 7.000 páginas do procurador-geral Jader de Figueiredo Correia foi encomendado pelo ministro do Interior, general Albuquerque Lima, durante a ditadura, com o objetivo real de expor a corrupção na Autoridade Indígena da Funai.

Correia viajou mais de 16 mil quilômetros pelo Brasil com sua equipe de investigação. Eles viram um horror de proporções bíblicas. Nas cerca de 5 mil páginas do relatório, redescobertas no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, em 2013, Figueiredo Correia escreve sobre o extermínio de povos inteiros, torturas e todo tipo de atrocidades cometidas contra a população indígena, principalmente por grandes proprietários de terras e funcionários do Estado: assassinatos, prostituição forçada, trabalho escravo. O promotor também relatou caçadas humanas, com indígenas sendo metralhados de aviões ou explodidos com dinamite. Diz-se que populações indígenas isoladas foram deliberadamente infectadas com varíola mortal ou envenenadas com açúcar misturado com estricnina.

Segundo documentos do Congresso Nacional, segundo Marcelo Zelic, vice-presidente do grupo de pesquisa paulista “Chega de Tortura”, havia cerca de 300 mil indígenas no Brasil em 1963. Cinco anos depois, em 1968, havia apenas 80 mil. O que aconteceu com os 220 mil indígenas não registrados?

Não está incluído nessas estatísticas de 1968 o sofrimento dos Waimiri Atroari, que se autodenominam Kinja: sua área tribal fica entre os estados do Amazonas e Roraima, no norte da Amazônia, exatamente onde os militares bloquearam a rodovia federal BR-174 de Manaus a Boa Vista e Venezuela, a exploração de minerais e a “absurda” hidrelétrica econômica e ecologicamente “absurda”. Os povos indígenas atrapalharam o “modelo progressista” dos ditadores e, portanto, mataram quase 90 por cento desses povos indígenas. Segundo o cofundador do Conselho Missionário Indígena Católico (Cimi), Egydio Schwade, que atuou na região na década de 1970, a planejada hidrelétrica de Balbina, da Eletronorte, e a pretendida exploração de minérios na região pela mineradora Mineração Taboca , fundada em Pitinga em 1968, teve participação ativa no genocídio do povo Waimiri Atroari.

Os estudos do projeto da barragem de Balbina, concluído em 1987, tiveram início em 1968. Naquela época, existiam pelo menos oito aldeias indígenas na parte sul do território indígena, na área do atual reservatório de Balbina, com 2.360 quilômetros quadrados, diz Schwade. Outras nove aldeias Kinja desapareceram na área da atual mina de Pitinga, na zona norte. Em 1972, a Funai contava com cerca de três mil Kinja em seus territórios ao norte de Manaus. Em 1983, apenas 350 deles ainda estavam vivos porque não se deixaram expulsar voluntariamente das suas áreas tribais. O que exatamente aconteceu entre 1968 e 1983 ainda não foi totalmente revelado.

O certo é que os indígenas resistiram desde o início às obras de construção de estradas, como se pode ler no livro “História da Amazônia” do historiador brasileiro Márcio Souza. Em 1973, uma tentativa de contato teria culminado na morte de quatro funcionários da Autoridade Indígena da Funai. Um ano depois, os Kinja teriam matado quatro madeireiros contratados do Maranhão, no Nordeste do Brasil, porque estavam derrubando árvores em seu território para a construção de estradas. Na época, a mídia noticiou o “massacre dos Maranhenses”. Mesmo assim, os militares não desistiram do projeto da BR-174. A estrada era importante e precisava ser concluída a todo custo, disse na época um coronel do sexto batalhão de engenharia e construção da ditadura. Como resultado, os indígenas rebeldes foram simplesmente bombardeados e baleados, de acordo com o primeiro relatório publicado em 2012 pela Comissão Estadual da Verdade do estado federal do Amazonas. De acordo com relatos de sobreviventes, as aldeias Waimiri Atroari também foram bombardeadas com pólvora “semelhante a poeira” de aeronaves.

Os afetados tinham medo de falar sobre os massacres; era proibido, diz o antropólogo Stephen Grants Baines. Mesmo assim, os indígenas relataram aviões voando sobre suas cabeças e poeira caindo. E que eles respiraram essa poeira e como resultado pessoas morreram. “Portanto, é muito provável que tenham jogado veneno ou gás para destruir a população”, disse Baines em entrevista de 2019 à Universidade Estadual de Roraima (UFRR). O antropólogo iniciou suas pesquisas em 1982 na área Waimiri Atroari até ser proibido pelo governo e pela Funai. Baines: “Quando cheguei (para a região) em janeiro de 1982, a Mineração Taboca já estava lá explorando e minerando as jazidas de minério. Já vi a poluição do rio Alalaú e seus afluentes que vinha da área de mineração da Taboca. Os resíduos da mina Pitinga amarelaram o Alalaú. Hoje Pitinga é considerada um dos maiores produtores mundiais de estanho”. Além da matéria-prima primária estanho, também produz tântalo, nióbio e urânio em mineração a céu aberto, segundo o relatório “Matérias-primas estratégicas, projetos e oportunidades de negócios para empresas alemãs” da Câmara de Comércio e Indústria Teu-Brasileira de São Paulo. Paulo e a Agência Alemã de Matérias-Primas (Dera-BGR) o ano de 2019. A produção de estanho em Pitinga em 2018 foi de cerca de 7 mil toneladas.

Assim como os Kinja, muitos outros povos indígenas foram um obstáculo desagradável à colonização e ao desenvolvimento industrial e, sobretudo, aos grandes proprietários de terras e empresas agrícolas que se apropriavam cada vez mais de terras no centro e norte do Brasil, razão pela qual, além de assassinatos , o reassentamento forçado também fazia parte da tarefa dos generais. Talvez o exemplo mais marcante disso seja o dos Xavante de Marãiwatsédé, no Mato Grosso. Em 1966, por atrapalharem o grande proprietário paulista Ariosto da Riva, que se apropriara de cerca de 800 mil hectares de terras na região, os militares obrigaram os últimos 263 Xavantes de Marãiwatsédé a embarcar em um avião de transporte da Força Aérea e os levaram na estação missionária da Ordem Salesiana de São Marcos, a 400 quilômetros de distância. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, 83 deles morreram pouco depois de chegarem à missão, em consequência de um surto de sarampo. Um pouco mais tarde, em 1971, Ariosto da Riva vendeu com lucro as terras agora “livres de índios” para a empresa italiana Liquifarm.

Alguns dos Xavante de Marãiwatsédé sobreviveram à ditadura e ao proselitismo. Hoje, em 2024, eles lutam contra a continuação e asfaltamento da rodovia federal BR-080, de Brasília ao Ribeirão Cascalheira, no Mato Grosso, porque ameaça um de seus lugares mais sagrados. O agronegócio, porém, considera a BR-080 necessária para escoar a safra crescente de soja da região do Araguaia.

*Norbert Suchanek viajou ao Brasil pela primeira vez em 1987, durante o período de transição da ditadura militar para a democracia. Um dos primeiros relatórios que publicou na Alemanha foi sobre o desmatamento e a destruição da floresta amazônica nessa época. O jornalista, autor e cineasta de Würzburg trabalha como correspondente estrangeiro no Rio de Janeiro desde 2006.


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Fonte: JungeWelt

Turbinado pelo desmatamento, vírus Oropouche está em ascensão na América do Sul e pode sobrecarregar sistemas de saúde

O desmatamento e as mudanças climáticas podem ajudar os mosquitos a espalhar o vírus Oropouche para muito além da Bacia Amazônica

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Casos de febre Oropouche em Manaus, na Amazônia brasileira, têm sido associados ao desmatamento. Michael Dantas/ AFP via Getty Images

Por Sofia Moutinho para a Science

Um patógeno pouco conhecido chamado vírus Oropouche está em movimento na América do Sul, alarmando cientistas e especialistas em saúde pública. O Brasil notificou 5.530 casos até agora este ano, em comparação com 836 em todo o ano de 2023. Bolívia, Colômbia e Peru também registraram aumentos. Embora o vírus tenha sido tradicionalmente endêmico na Bacia Amazônica, agora está adoecendo pessoas distantes da floresta tropical. Em maio, Cuba relatou seus primeiros casos.

O aumento deixou os cientistas preocupados com o fato de que o vírus, transmitido principalmente por mosquitos que picam, possa ser o próximo a causar um grande surto na América Latina, que lutou contra grandes epidemias de Zika e Chikungunya na última década e agora está no meio de uma das maiores epidemias de zika e chikungunya. as piores epidemias de dengue de todos os tempos. A maioria dos casos de febre Oropouche são leves, com sintomas como dor de cabeça, dores no corpo, náuseas e erupções cutâneas – mas o vírus também pode causar inflamação cerebral e problemas neurológicos, incluindo vertigens e letargia. E mesmo uma epidemia ligeira poderia sobrecarregar os sistemas de saúde do continente.

 “O que mais nos preocupa é a expansão de uma doença que estava praticamente restrita à Amazônia, que tem baixíssima densidade populacional, para áreas com maior densidade populacional”, diz Marcus Lacerda, pesquisador de infectologia da Fundação Oswaldo Cruz ( Fiocruz).

A estirpe que provocou o surto teve origem numa alteração genética há uma década, mas o vírus Oropouche foi identificado pela primeira vez em 1955, na aldeia de Oropouche, em Trinidad e Tobago. Em 1960, apareceu em amostra de sangue de uma preguiça doente durante a construção da rodovia Belém-Brasília. Um ano depois, muitas pessoas em Belém adoeceram com o que se acreditava ser a febre Oropouche. A maioria dos cerca de 30 surtos na América Latina desde então também ocorreu na Bacia Amazônica. Na floresta, o vírus circula entre primatas, preguiças e aves; não está claro qual inseto o espalha lá. Em ambientes urbanos, o mosquito Culicoides paraensis, do tamanho de uma cabeça de alfinete , transmite a doença entre humanos.

Os primeiros casos do surto atual foram detectados em Roraima, estado do norte do Brasil, no final de 2022. Desde então, a doença surgiu ao longo da populosa Costa Leste do Brasil, incluindo os estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina, Bahia, e Minas Gerais. Alguns pacientes viajaram pela região amazônica, mas outros não, o que significa que o vírus agora circula localmente. Os números provavelmente estão subestimados: os sintomas do Oropouche se assemelham aos da dengue, do zika e de várias outras doenças, e uma infecção só pode ser confirmada por meio da reação em cadeia da polimerase ou testes de anticorpos.

Para os poucos cientistas que estudam a febre Oropouche, nada disto foi uma grande surpresa. Desde 2000, o vírus tem se aventurado cada vez mais fora de sua região endêmica, diz a virologista Socorro Azevedo, do Instituto Evandro Chagas, centro de pesquisa de doenças tropicais na Amazônia brasileira. “O que estamos vendo é a crônica de uma tragédia anunciada”, diz ela.

O aumento da circulação de pessoas em todo o continente e entre áreas florestais e urbanas poderá estar a contribuir para a propagação. Os cientistas também veem uma ligação clara com o desmatamento , que poderia deslocar os animais hospedeiros do vírus e fazer com que os mosquitos se alimentassem de pessoas em vez de animais. Em Manaus, capital do estado do Amazonas, os primeiros casos do atual surto foram detectados perto de áreas recentemente desmatadas. Estudos utilizando imagens de satélite confirmaram a ligação. “Em vários locais onde o vírus foi detectado na América do Sul, detectamos consistentemente padrões de desmatamento”, diz Daniel Romero-Álvarez, epidemiologista da Universidade Internacional SEK em Quito, Equador.

As alterações climáticas provavelmente também desempenharam um papel. As temperaturas mais altas aceleram a maturação dos mosquitos, e o aumento das chuvas e das inundações criam mais água parada onde os insetos podem se reproduzir.

O Brasil agora está intensificando a vigilância. No passado, apenas laboratórios da região amazônica faziam testes para a doença, mas em janeiro o país decidiu testar 10% das amostras de pacientes em todo o país cujos sintomas correspondem à febre Oropouche, mas apresentam resultado negativo para zika, chikungunya e dengue. A Organização Pan-Americana da Saúde instou outros Estados-membros a intensificarem também a vigilância e organizou um workshop para formar investigadores e médicos de todo o continente sobre como diagnosticar a doença e realizar análises genómicas do vírus.

Não se sabe se a febre Oropouche matou alguém, mas algumas suspeitas de morte estão sob investigação, afirma o virologista da Fiocruz, Felipe Naveca. “À medida que aumenta o número de pessoas infectadas, aumenta também a chance de descobrirmos impactos inesperados”, diz Naveca, que observa que o Zika, uma doença que inicialmente parecia relativamente inócua, levou a uma onda de bebês nascidos com cérebro subdesenvolvido de mulheres infectadas com o vírus. O vírus Oropouche também pode infectar o cérebro, ressalta.

Controlar Oropouche é um desafio. C. paraensis é “um vetor negligenciado de uma doença negligenciada”, diz Joaquim Pinto Nunes Neto, entomologista do Evandro Chagas. “Ninguém se importou em estudar como controlá-lo.” Os minúsculos mosquitos passam facilmente pela malha dos mosquiteiros e os repelentes comuns de insetos podem não funcionar, diz Nunes Neto. O que pode ajudar é eliminar o desperdício de alimentos e as folhas mortas que atraem os insetos e drenar os reservatórios de água onde as fêmeas depositam os ovos.

Até onde a doença pode se espalhar não está claro. C. paraensis foi encontrado desde os Estados Unidos até o norte da Argentina, mas nem todos os lugares apresentam as condições adequadas para a propagação do Oropouche. Um modelo publicado em 2023 por Romero-Álvarez que levou em consideração o clima atual e a perda de vegetação sugeriu que até 5 milhões de pessoas nas Américas estão em risco . Mas o número é provavelmente subestimado, uma vez que o modelo não previu a atual expansão da doença para grandes cidades como o Rio de Janeiro e não teve em conta a desflorestação e as alterações climáticas futuras. Também não levou em conta a possibilidade de que o mosquito doméstico comum ( Culex quinquefasciatus ) – e talvez outros insetos – possam transmitir o Oropouche, como sugerem alguns estudos.

Os cientistas temem que, à medida que o vírus se espalha, possa sofrer alterações genéticas que o tornem mais perigoso. Os genomas da maioria dos vírus transmitidos por insetos consistem em apenas um segmento de RNA, mas o vírus Oropouche possui três. Quando duas cepas diferentes infectam a mesma célula, elas podem trocar segmentos, resultando em uma combinação nova e diferente de genes. Naveca, que lidera um grupo que rastreia mutações de Oropouche, atribuiu o atual surto a uma variante que surgiu no Brasil em 2015 a partir de um rearranjo entre linhagens de vírus do Peru e da Colômbia. Não está claro se essa troca tornou o vírus mais transmissível, diz Naveca.

Com tantas perguntas a responder, é urgente que os testes sejam alargados e que mais investigadores estudem o vírus Oropouche e rastreiem as alterações no seu genoma, Naveca diz: “Precisamos tirar este vírus das sombras”.

Sofia Moutinho é jornalista científica no Rio de Janeiro


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Fonte: Science