Os tênis mais populares da Adidas estão ligados ao desmatamento e à escravidão moderna no Brasil

A Adidas criou a tendência de tênis do ano. TikTok, Instagram e as ruas estão cheias de Gazelas e Spezials da Adidas. Mas a busca pela origem do couro leva ao Brasil, onde o hype contribui para a exploração dos trabalhadores e a destruição da Amazônia

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Por Yara Van Heugten para a “Follow the Money” 

A mesa está repleta de garrafas de conhaque D’Ussé e champanhe Armand de Brignac a 300 euros a garrafa. É uma noite de sábado no outono de 2022. DJ EFN e rapper NORE, apresentadores do popular podcast de música Drink Champs, estão sentados em um lado da mesa; do outro lado, o convidado: o rapper, produtor e estilista Kanye West, que desde 2013 desenha coleções para a marca esportiva alemã Adidas.

O podcast ainda não completou cinco minutos quando West – que legalmente mudou seu nome para ‘Ye’ – começa um discurso difícil de acompanhar, cheio de teorias de conspiração anti-semitas. Não é a primeira vez que ele faz isso, e a Adidas já o avisou antes.

Desta vez, ele afirmou que “poderia dizer coisas antissemitas e a Adidas não pode me abandonar”.

Dez dias depois, a Adidas terminou a parceria. 

O término dessa parceria representou um sério golpe financeiro para a Adidas – mas com a ajuda de novos modelos de tênis, a empresa conseguiu escapar dos problemas monetários. 

O único problema? Seu couro contribui para o desmatamento e a exploração da floresta amazônica, revela uma investigação conjunta das organizações de pesquisa SOMO e Stand.Earth and Follow the Money. 

Ganhar dinheiro com West – e perdê-lo

As coleções ‘Yeezy’ de West foram muito lucrativas para a marca. Segundo projeções obtidas pelo The New York Times, as vendas líquidas dos tênis Yeezy dispararam de 65 milhões de dólares em 2016 para 1 bilhão de dólares em 2021. Em 2022, as vendas deveriam atingir 1,8 bilhão de dólares.

Isso significa que a separação gerou preocupações financeiras na Adidas. “West é talvez a pessoa mais criativa, eu diria, que já existiu em nosso setor”, disse o CEO Bjørn Gulden aos investidores no final de 2022. “Perder isso é uma coisa muito, muito difícil.”

Pouco depois da separação com West, o preço das ações da Adidas despencou para o nível mais baixo em seis anos. A Adidas informou que, pela primeira vez em décadas, esperava um prejuízo operacional líquido em 2023: 700 milhões de euros de prejuízo operacional líquido num volume de negócios de 21 mil milhões de euros.

Meio ano depois, quando a Adidas apresentou os resultados do segundo trimestre de 2023, as coisas já estavam a melhorar, com a Adidas a conseguir limitar os prejuízos financeiros a uma perda de 450 milhões de euros – e parte ainda graças a West: The a empresa conseguiu isso em parte devido a um estoque de sapatos Yeezy que decidiu vender, afinal; A Adidas já os havia descartado por causa do “risco de reputação”. 

Mas havia algo mais importante: a nova tendência superpopular que a marca conseguiu criar com a sua coleção ‘Terrace’, incluindo ténis como os Adidas Samba, Gazelle e Spezial. São tênis estreitos e planos com três listras nas laterais. O modelo original – inicialmente concebido para futebol de salão – está na linha de produtos da empresa desde a década de 1940.

Em meados de 2022, a Adidas, em conjunto com a marca de luxo Gucci, relançaram os tênis em cores chamativas, do rosa ao verde mar e ao laranja. Preço: 800 euros o par. Influenciadores como Bella Hadid, Hailey Bieber, Kendall Jenner e Harry Styles foram vistosvestindo-os. Para as massas, existem sósias a 120 euros o par. 

Em outubro, a Vogue chamou o Samba de “o tênis favorito das it-girls” e a hashtag #adidassamba no TikTok foi vista mais de 1 bilhão de vezes. 

Graças à enorme popularidade dos tênis, a Adidas conseguiu evitar quase completamente as consequências financeiras do desastre de Kanye West. Segundo os últimos números, a empresa espera um prejuízo de apenas 100 milhões de euros em 2023, em vez dos 700 milhões de euros inicialmente previstos. Enquanto isso, o preço das ações é quase o dobro do que aconteceu logo após o rompimento com West. 

Mas tudo isto tem um custo – e especialmente para a floresta amazónica, apesar das promessas de sustentabilidade da Adidas.

“Promessas vazias” 

No topo da  página de sustentabilidade do site da Adidas, alte3rada no final da semana passada, uma imagem aérea mostrava um campo de futebol numa área florestal, ladeado pelas palavras: “Sem um planeta bonito, não há jogo bonito”. Abaixo disso havia uma imagem de passos em solo árido e seco, com grama crescendo dentro deles. O texto ao lado: “A hora de mudar é agora”.

A marca quis mostrar aos seus clientes que está a levar as suas preocupações a sério: “Entendemos. Você já ouviu tudo isso antes. As grandes reivindicações infundadas. As promessas vazias. A informação opaca. Você merece o melhor. Precisamos de algo melhor.”

A marca desportiva quer fazer isso “focando-se” nos resíduos e nas alterações climáticas. A Adidas promete utilizar materiais diferentes – “a mudança começa com os materiais que utilizamos”, prolongar a vida útil dos produtos – “mudando a nossa mentalidade”, e reduzir as emissões de CO2 – “estamos empenhados em fazer a nossa parte”.

Entre outras coisas, a Adidas promete especificamente uma pegada de carbono 15% menor por produto até 2025 em comparação com 2017 e a eliminação progressiva do poliéster virgem até 2024, substituindo-o por poliéster reciclado. 

No entanto, a Adidas não tem metas de reutilização ou eliminação de outros materiais, como o couro que utiliza em sua coleção de calçados. Ainda assim, promete trabalhar em prol de uma cadeia de abastecimento “livre de desmatamento” até 2030

Poucos dias antes da publicação deste artigo, a Adidas ajustou a sua página de sustentabilidade. Agora a marca diz : “Sim, sabemos que somos parte do problema”. 

E, de fato, as promessas de sustentabilidade parecem estar em desacordo com a ambição de aumentar a produção dos ténis Gazelle e Spezial. 

Baixos salários, alta carga de trabalho 

A fabricante Shyang Shin Bao, de origem taiwanesa, possui duas fábricas no Vietnã, uma na Indonésia e outra em Mianmar. 

Segundo a funcionária Maria Rizkiana, todas essas fábricas produzem os tênis Gazelle e Spezial para a Adidas. Ela trabalha para uma dessas fábricas na Indonésia há três anos e meio, primeiro como planejadora e atualmente como chefe de compras. Sua fábrica está localizada na ilha de Java, a 300 quilômetros da capital Jacarta. 

“Devido à alta demanda pelos tênis Gazelle e Spezial, temos que crescer muito rapidamente”, disse ela à FTM. 

Tanto as horas extras quanto o estresse aumentam na fábrica.

A fabricante de calçados tem cerca de 7.000 trabalhadores. Em janeiro de 2023, a fábrica produziu cerca de 50 mil pares de tênis Gazelle, disse Rizkiana; em junho de 2023, esse número subiu para 600 mil pares por mês, 12 vezes mais. 

Mas há um problema: Rizkiana está tendo dificuldades para encontrar couro suficiente. 

Shyang Shin Bao só pode comprar o material para os tênis de  fornecedores aprovados pela Adidas . O couro de vacas da Índia e da China é proibido, o que a Adidas proíbe devido à falta de bem-estar animal nesses países. Isso complica o fornecimento porque esses países, juntamente com os Estados Unidos e o Brasil, são os principais produtores de couro. 

Rizkiana se recusou a indicar de onde exatamente vem o couro. 

No entanto, os fluxos comerciais internacionais podem ser acompanhados através de declarações aduaneiras de importação e exportação. 

Juntamente com as organizações de investigação SOMO e Stand.Earth, a Follow the Money verificou centenas de declarações de importação do grupo Shyang Shin Bao e dos seus fornecedores, descobrindo a origem duvidosa de alguns dos courosusado para aqueles populares tênis Adidas.

A questão da ligação da indústria da moda ao desmatamento na floresta amazônica não é nova. Em 2021, Stand.Earth publicou um  relatório ligando os principais varejistas à prática.

“Devido à grande procura pelos ténis Gazelle e Spezial, temos de crescer muito rapidamente.”  

Mas esta investigação revela que a Adidas continua a adquirir o seu couro a fornecedores activos em áreas em risco de desflorestação e não está disposta a parar de o fazer, apesar de ter sido informada dos riscos. 

Os registos de importação mostram que o grupo Shyang Shin Bao adquiriu pelo menos 2,5 milhões de quilogramas de couro de três fornecedores vietnamitas em 2023, que por sua vez compraram mais de 20 milhões de quilogramas de couro bovino a fornecedores no Brasil conhecidos por provocarem a desflorestação. 

A investigação mostra que o couro para os proeminentes calçados da Adidas é produzido no Brasil pelos maiores produtores de carne do mundo, como JBS e Minerva, para quem o couro bovino é um negócio paralelo lucrativo, e por produtores de couro bovino como Viposa, Vancouros e Fuga Couros. 

Desmatando as florestas do Brasil 

A fiscalização do trabalho do Ministério do Trabalho invadiu a fazenda de gado de Lenir Maria Pimenta, fornecedora do maior produtor mundial de couro bovino, JBS, em 12 de maio de 2021  mostra relatório do ministério. A fazenda está localizada no Pará, estado da região amazônica brasileira que faz fronteira com o Suriname. 

A floresta amazônica desempenha um papel crucial na regulação do clima da Terra. Mas isso está em risco, com os criadores de gado ateando fogo a grandes partes da floresta tropical todos os anos para que o seu gado possa pastar ali. Desde 2020, um pedaço de floresta tropical maior que a Bélgica desapareceu. 

E embora a floresta tenha sido apelidada de pulmão do planeta, atualmente ela  emite mais CO2 do que absorve. Os cientistas  alertam que o mundo está próximo de um ponto de inflexão: não demorará muito para que todo o ecossistema amazônico entre em colapso, após o qual uma grande parte da floresta se tornará uma savana seca. Em escala global, o desmatamento é responsável por cerca de 10 %de todas as emissões de CO2.

No Brasil, é ilegal destruir florestas em reservas naturais e áreas indígenas. A exploração madeireira também não é permitida nas terras dos agricultores sem autorização. No entanto, sob a presidência de Jair Bolsonaro, o poder das agências ambientais foi severamente restringido. Isso significa que as chances de ser penalizado eram mínimas. Os criadores de gado tiraram o máximo partido desta situação, transformando terras densamente florestadas em pastagens para o seu gado: estima-se que 80% do desmatamento na região Amazônica esteja ligada à pecuária,  mostram estudos .

Desde 2020, um pedaço de floresta tropical maior que a Bélgica desapareceu. 

A JBS contesta as acusações e  afirma que os couros bovinos que vende são “socialmente” e “ambientalmente” sustentáveis. A empresa escreve que possui um “sistema de rastreabilidade muito preciso” que permite aos clientes rastrear as peles compradas até a fazenda de origem. O sistema iria assim “garantir” que todos os animais adquiridos provêm de explorações que “não estão localizadas em áreas onde ocorre desflorestação” e “não utilizam trabalho forçado”. 

Mesmo antes da operação, Pimenta já conhecia as autoridades. Em 2017, o órgão ambiental nacional Ibama flagrou o pecuarista desmatando ilegalmente 186 hectares de terra. Porém, as árvores estavam sendo derrubadas em outra fazenda, possivelmente por isso a JBS não tirou nenhuma conclusão. 

Quatro anos depois, na fazenda de Pimenta, a fiscalização encontrou cinco homens que auxiliavam na criação de gado. Eles não tinham contrato e ganhavam 50 reais por dia (cerca de 7,50 euros na época). Eles moravam na propriedade, em uma cabana de madeira com grandes rachaduras nas paredes; algumas paredes estavam apenas cobertas com lona. 

Do relatório de vistoria: Sala com piso de cimento, apresentando diversos furos e fissuras que impossibilitaram a higienização e paredes de madeira com vãos significativos, tornando-as incapazes de proporcionar vedação e segurança.Do relatório de vistoria: Sala com piso de cimento, apresentando diversos furos e fissuras que impossibilitaram a higienização e paredes de madeira com vãos significativos, tornando-as incapazes de proporcionar vedação e segurança.© MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, BRASIL.

Os inspectores estavam preocupados com a segurança dos homens, argumentando que as suas condições poderiam equivaler à escravatura moderna. A cabana não oferece proteção contra animais venenosos, “especialmente cobras”, escreveram  no relatório de inspeção. Além disso, os homens guardavam a comida no chão. Beberam, cozinharam e lavaram-se com águas subterrâneas contaminadas com mercúrio “com consequências diretas para a saúde”. 

“Humilhante”, concluíram os inspetores. Trêsdos cinco homens foram libertados da fazenda naquele mesmo dia.

Nos meses seguintes à operação, a JBS comprou pelo menos mais 104 vacas da Pimenta, segundo documentos de transporte obtidos pelo Follow the Money, contendo informações sobre origem, destino e quantidade de vacas transportadas. Foram apenas dois anosapós a operação, quando o Ministério do Trabalho colocou oficialmente a fazenda de Pimenta na lista negra de sua “lista suja”, a JBS rompeu os laços com a fazenda. 

A JBS não respondeu aos pedidos de comentários. 

Pele do maior desmatador

O mecanismo de controle das empresas é tudo menos infalível, disse Paulo Barreto, engenheiro florestal e fundador do instituto de pesquisa brasileiro Imazon. 

Em outubro de 2023, o Ministério Público Federal descobriu problemascom transações da JBS em quatro estados brasileiros; dezenas de milhares de animais abatidos pela JBS vieram de áreas onde ocorreu desmatamento ilegal, de terras desapropriadas de indígenas ou de fazendas com trabalho escravo. Além disso, estes eram apenas problemas com fornecedores diretos porque eram os únicos verificados. 

Mais abaixo na cadeia de produção, os problemas só são piores. 

Um dos principais problemas é que produtores de couro como a JBS apenas verificam seus fornecedores diretos – eles não examinam onde os fornecedores obtêm suas vacas. 

Isto permite que os criadores de gado vendam vacas que foram criadas em áreas desmatadas através de uma fazenda sem problemas de desmatamento. Pode ser uma segunda fazenda de sua propriedade, uma fazenda de um membro da família ou um comerciante sem fazenda. Este último vende as vacas para o matadouro, contornando os cheques. Muitas vezes, as vacas nem sequer são movidas fisicamente. Todo o processo existe apenas no papel e é chamado de lavagem de gado, disse Baretto. 

“JBS e Minerva atuam em áreas com risco muito elevado de desmatamento”, disse. “E eles não têm controle total e verificável sobre seus fornecedores indiretos. Dessa forma, você torna muito fácil para os pecuaristas cometerem fraudes. É muito provável que grande parte do gado tenha sido proveniente indiretamente de fazendeiros que estão desmatando.”

Exatamente quanto não está claro, devido à complexidade das cadeias de abastecimento. 

Mas a ligação entre os produtores brasileiros de couro bovino e o desmatamento ilegal já foi demonstrada em numerosos casos.

Por exemplo, em novembro de 2022, a plataforma de pesquisa brasileira Repórter Brasil e o Greenpeace Brasil  descobriram um grande “lavador de gado” no oeste do estado de Rondônia: Chaulus Pozzebon, um homem anteriormente condenado por trabalho escravo e venda ilegal de madeira, que os promotores descreveram como “ um dos maiores desmatadores do Brasil”. A Minerva comprou cerca de 700 cabeças de gado de Pozzebon entre 2018 e 2022; A JBS comprou dele quase 9 mil no mesmo período. Oficialmente, eles compraram esse gado de uma fazenda sem problemas, mas documentos de transporte e imagens de drones mostraram que eles estavam de fato obtendo gado de uma área desmatada ilegalmente. 

Outra  investigação de dezembro de 2022 constatou que a Viposa e a Vancouros – que também fornecem peles para os tênis da Adidas – também compraram gado de áreas desmatadas. A Agência de Investigação Ambiental (EIA), uma ONG que investiga crimes ambientais em todo o mundo, obteve um conjunto de dados de mais de 6.500 documentos de transporte que lhe permitiram rastrear gado de uma área protegida. 

“Dois terços da área já foram destruídos”, disse Rick Jacobsen, investigador da EIA, ao Follow the Money. “É por isso que queríamos saber quem está comprando o gado.” 

Quase 5 por cento dos documentos de transporte iam directamente da área de vida selvagem para matadouros que entregavam as peles a um curtume propriedade da Viposa e da Vancouros. Outra pequena parcela do gado foi diretamente para o frigorífico da JBS. Mas na maioria dos casos, de acordo com os documentos de transporte, o gado foi primeiro para uma ou mais fazendas fora da área protegida antes de ser vendido para frigoríficos de propriedade da JBS, da Minerva ou de outros produtores de couro bovino. 

“Isso dá aos produtores a oportunidade de dizer: nossos fornecedores diretos cumprem nossa política”, disse Jacobsen. “Isso também mostra que a rastreabilidade completa do nascimento até o abate de animais individuais é necessária para garantir que o gado de regiões de alto risco como a Amazônia brasileira esteja livre de desmatamento e crime.” 

Por esse motivo, supermercados europeus como Albert Heijn, Lidl e Sainsbury romperam  relações com fornecedores brasileiros de carne bovina como JBS e Minerva. A marca de fast fashion H&M também  decidiu em 2019 não comprar mais couro brasileiro “até que existam sistemas de garantia confiáveis ​​para verificar se o couro não contribui para danos ambientais na Amazônia”. 

Tais boicotes são cruciais, disse o cientista Barreto. “Essas empresas prometem melhorar seus sistemas de monitoramento há 12 anos, mas ainda não resolveram o problema. É hora do mercado internacional ser duro e dizer: primeiro seja livre do desmatamento, depois eu comprarei de você.” 

Por enquanto, parece que a Adidas não está interessada em apertar os parafusos. Stand.Earth  apontou para a marca os riscos de desmatamento na cadeia de valor da Adidas em novembro de 2021. 

Quando a Follow the Money perguntou à marca o que ela fez com essas informações até agora, a Adidas disse que “está trabalhando com o Leather Working Groupampliar o escopo da auditoria para incluir a rastreabilidade até o matadouro até 2030. Isso aumentaria, disse Adidas, a transparência sobre o impacto que a origem dos materiais teve no meio ambiente, como o desmatamento.

Isto significa que a empresa aceita que, entretanto, os milhões de ténis Gazelle e Spezial continuem a contribuir para a desflorestação. 

No final de 2023, durante conversa com investidores, o CEO da Adidas, Gulden,  voltou a enfatizar que foram o Samba, o Gazelle e o Spezial que colocaram a empresa de volta aos trilhos após o rompimento com Kanye. Renunciar ao couro do Brasil, além da Índia e da China, causaria outro grande revés financeiro. 

No entanto, a Adidas disse à FTM que não cortará os laços comerciais com o Brasil porque com essa abordagem poderá “ter um impacto maior na prevenção do desmatamento. A marca ressalta que o couro representa apenas uma pequena parcela dos materiais que utiliza e que é um “subproduto do fornecimento de carne, que é o principal motor da pecuária”. Em 2020, a consultoria Bain & Company  estimou que o couro responde por um quarto do faturamento dos grandes frigoríficos do Brasil. 

Para o investigador da EIA, Jacobsen, a inação da Adidas demonstrou falta de compromisso.

“Isso mostra que eles não estão levando isso a sério. Até 2030, não terão feito nada significativo para manter o desmatamento fora da cadeia de abastecimento”, afirmou, referindo-se ao acordo feito pelos líderes mundiais na cimeira climática de 2021 para eliminar a desflorestação em todo o mundo até 2030. 

“Não se esqueçam”, disse ele, “deixar o gado pastar em áreas protegidas é um comportamento criminoso. São atos criminosos acontecendo. Toda empresa tem a responsabilidade de não lucrar com o crime.” 

Em colaboração com Poliana Dallabrida Repórter Brasil ), Gregg Higgs (Stand.Earth) e Max Lamb (The Counter at SOMO).


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela “Follow the Money” [Aqui!].

Efeito do desmatamento do consumo do Reino Unido é insustentável, dizem parlamentares

Comité considera que os consumidores britânicos contribuem de forma particularmente elevada para a destruição das florestas mundiais

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Uma vista aérea de um incêndio florestal desencadeado para limpar terras para o plantio de soja na floresta amazônica no Brasil. Fotografia: André Dib/WWF/PA

Por Helena Horton, repórter de Meio Ambiente, para o “The Guardian” 

O consumo do Reino Unido está tendo um impacto “insustentável” no mundo e contribuindo de forma particularmente elevada para o desmatamento, concluiu um relatório dos deputados.

Produtos como soja, cacau, óleo de palma, carne bovina e couro podem ser produtos de desmatamento, e o comitê de auditoria ambiental descobriu que a pegada de desmatamento do Reino Unido por tonelada de produto consumido é maior do que a de outros países, incluindo a China, chamando-a de “insustentável”. ”. Uma pegada de desmatamento é semelhante a uma pegada de carbono. Significa quanto ocorre desmatamento por tonelada de produto consumido. Os cientistas calcularam as pegadas de desflorestação de vários países, analisando os padrões de comércio de bens que estão ligados a elevados níveis de destruição florestal.

O governo anunciou recentemente que os produtos acima mencionados, produzidos por desflorestação ilegal, seriam banidos da cadeia de abastecimento. Mas isto só se aplica a uma pequena parte do problema, porque grande parte da desflorestação é legal nos países onde ocorre.

O relatório, divulgado na quinta-feira, cita o Client Earth dizendo que a proibição cria “incentivos perversos” para os países exportadores removerem leis que protegem as florestas, de modo que o desmatamento se torne legal e, como resultado, a importação de produtos associados para o Reino Unido não seja proibida.

A legislação, anunciada em dezembro, ainda não foi aprovada no parlamento. A proibição do Reino Unido foi criticada por não incluir produtos populares como o café.

Os deputados do comité de auditoria ambiental apelam no relatório aos ministros para que desenvolvam uma meta para reduzir o impacto do Reino Unido na desflorestação global, bem como um Indicador de Pegada Global para demonstrar esse impacto ao público. O relatório destaca que as florestas albergam 80% da biodiversidade terrestre mundial, apoiam a subsistência de 1,6 mil milhões de pessoas e fornecem serviços ecossistémicos vitais para apoiar as economias locais e globais.

O desmatamento contribui com 11% das emissões globais de carbono. Um estudo realizado pela RSPB e pela WWF concluiu que as importações do Reino Unido de apenas sete produtos de risco florestal – soja, cacau, óleo de palma, carne bovina e couro, papel, borracha e madeira – representaram uma pegada terrestre de 88% do tamanho do Reino Unido. cada ano. No mesmo estudo, a investigação mostrou que 40% da pegada terrestre do Reino Unido no exterior estava em países com elevado risco de desflorestação, com mecanismos de governação fracos e padrões laborais deficientes.

O relatório também pede ao governo que adote legislação para garantir que todos os produtos que representam um risco florestal adquiridos por organismos públicos sejam certificados como sustentáveis ​​e não conduzam à desflorestação em áreas sensíveis. Isto garantiria que o próprio governo do Reino Unido não comprasse bens que estão ligados à desflorestação insustentável e serviria de exemplo para outras indústrias. Solicitou que os regulamentos relativos à madeira do Reino Unido garantissem que toda a madeira importada fosse extraída de forma sustentável, em vez de apenas impedir a entrada no país de madeira extraída ilegalmente.

Os deputados expressaram alarme face aos riscos enfrentados pelos povos indígenas que protegem muitas florestas em risco em todo o mundo. As suas vozes são frequentemente ignoradas e eles são privados de direitos das suas terras, sendo frequentemente expulsos dos seus antigos territórios. O comitê ouviu da Global Witness que uma pessoa é morta a cada dois dias defendendo a terra e o meio ambiente. O relatório afirma: “Os povos indígenas são protetores das florestas do mundo e podem possuir conhecimentos detalhados sobre a biodiversidade e as tendências dos ecossistemas. É, portanto, fundamental que lhes seja facilitada a participação plena nas negociações para abordar a actividade de desflorestação.”

O presidente do comité, Philip Dunne MP, disse: “O consumo do Reino Unido está tendo um impacto insustentável no planeta ao ritmo atual. Os mercados do Reino Unido não devem ser inundados com produtos que ameaçam as florestas do mundo, as pessoas cuja subsistência depende dela e os preciosos ecossistemas que as chamam de lar. No entanto, apesar do recente compromisso antes e durante a Cop28 de investir mais em medidas contra o desmatamento e no Fundo Amazônia para ajudar a travar a velocidade do desmatamento global, o Reino Unido precisa de tomar medidas tangíveis para mudar o rumo a nível interno.

“A ambição do governo e o compromisso declarado na Cop26 de travar a desflorestação até 2030 foram muito bem-vindos, mas não estão no caminho certo agora. A sua legislação relativa a um regime que exige que certos produtos sejam certificados como “sustentáveis” antes de poderem ser vendidos nos mercados do Reino Unido foi bem-vinda, mas a legislação de implementação ainda não foi apresentada. Há pouco sentido de urgência em conseguir um controlo rápido do problema da desflorestação, o que precisa de corresponder à retórica.

“Países de todo o mundo contribuem para o desmatamento e, claro, a comunidade internacional precisa de fazer muito mais para combater a desflorestação. No entanto, em alguns aspectos, a intensidade do consumo de produtos de risco florestal no Reino Unido é superior à da China . Isto deveria servir como um alerta para o governo. Para demonstrar uma liderança global genuína nesta área crítica, o Reino Unido deve demonstrar o progresso da política interna e incorporar proteções ambientais e da biodiversidade em futuros acordos comerciais.”

Um porta-voz do governo disse: “O Reino Unido está liderando o caminho globalmente com uma nova legislação para combater o desmatamento ilegal para garantir a eliminação das cadeias de abastecimento do Reino Unido de produtos que contribuem para a destruição desses habitats vitais.

“Esta legislação já foi introduzida através da Lei Ambiental e é apenas uma das muitas medidas para deter e reverter a perda global de florestas.

“Também estamos a investir em programas internacionais significativos para restaurar florestas, que evitaram mais de 410.000 hectares de desmatamento até esta data, juntamente com o apoio a novos fluxos de financiamento verde.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Política e meio ambiente colidem no Brasil: primeiro ano de volta ao poder de Lula

O presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, enfrenta o desmatamento, as promessas de combustíveis fósseis e os compromissos com as comunidades indígenas – tudo isso enquanto tem que trabalhar com um Congresso conservador

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Um indígena observa os resultados da exploração madeireira no norte do estado do Pará, no Brasil. Crédito: Lucas Landau/Reuters

Por Meghie Rodrigues para a Nature

A promessa de alcançar desmatamento zero até 2030 estava entre as promessas feitas por Luiz Inácio Lula da Silva quando se tornou presidente do Brasil – o 39º do país – pela terceira vez em janeiro. Sob seu antecessor de direita, Jair Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia atingiu suas taxas mais altas desde 2006 – mais de 13 mil quilômetros quadrados foram desmatados em 2021. E o garimpo ilegal de ouro levou o povo indígena Yanomami, que vive nos estados de Roraima e Amazonas, a uma crise sanitária e humanitária.

Sob Lula, como é amplamente conhecido o atual presidente, “houve um senso de urgência para a construção e reconstrução da política ambiental”, diz Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, um think tank com sede no Rio de Janeiro, Brasil, que concentra-se no monitoramento e análise da política climática do país. Mas Lula, um político de esquerda, teve muitas vezes de fazer concessões durante o seu primeiro ano no poder, porque o Congresso Nacional do Brasil – o órgão legislativo federal – é controlado por uma maioria de direita.

Os observadores ainda esperam que seja dada mais atenção às questões ambientais – mas dizem que será difícil mudar a direção da viagem. Em 2023, prevê-se que o desmatamento na Amazônia atinja cerca de 9.000 quilômetros quadrados (ver ‘Desmatamento na Amazônia’), de acordo com uma análise de imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil.

Um gráfico de barras mostra que o desmatamento no território da “Amazônia Legal” do Brasil variou durante os quatro presidentes mais recentes do país, atingindo o pico durante o mandato de Jair Bolsonaro.

Fonte: Painel INPE TerraBrasilis, consulte go.nature.com/485uk9m

Em outubro, o Brasil atualizou os compromissos assumidos em relação às mudanças climáticas junto às Nações Unidas. Em 2016, o Brasil propôs reduzir as emissões em 37% até 2025 e em 43% até 2030, em comparação com os níveis de 2005. Agora, propõe cortar as emissões em 2025 e 2030 em 48% e 51%, respetivamente.

Em contrapartida, quando Bolsonaro chegou ao poder em 2019, o seu governo manteve os cortes de emissões propostos em 2016, mas trabalhou com uma estimativa mais elevada das emissões de 2005. Unterstell diz que a política de Bolsonaro teria resultado em um aumento nas emissões em comparação com o plano original. Agora, com um compromisso atualizado, o país está a retomar o caminho nesta frente, diz ela.

No entanto, novas políticas são frequentemente ignoradas pelos madeireiros, por isso as agências ambientais e o governo do Brasil devem encontrar formas de combater rapidamente a exploração madeireira ilegal. O INPE opera o DETER, um sistema de detecção de desmatamento em tempo real que se baseia em dados de observação de sensores a bordo do satélite sino-brasileiro de recursos terrestres CBERS-4 e do satélite indiano IRS-R2. Com base nas imagens capturadas, o INPE envia alertas ao órgão ambiental brasileiro, IBAMA, para permitir ações rápidas de aplicação da lei no terreno. Atualmente o DETER é usado para monitorar dois dos seis biomas do Brasil. Além da floresta amazônica, o DETER monitora o Cerrado, uma vasta e diversificada savana que abriga as nascentes de alguns dos maiores rios da América do Sul e que carece de muitas das proteções legais de que a Amazônia desfruta.

De acordo com o DETER, a parte do Cerrado coberta por alertas de exploração madeireira deverá atingir um recorde em 2023 de cerca de 7,6 mil quilômetros quadrados – uma estimativa que é cerca de 1 mil quilômetros quadrados a mais do que em 2018, quando o INPE começou a registrar esses alertas para o bioma . Tal aumento mostra a necessidade de políticas mais eficientes e abrangentes para proteger o Cerrado, diz Unterstell.

Incompatibilidade política

Em Junho, o Congresso aprovou uma lei que os ativistas temiam que enfraquecesse as protecções tanto para o ambiente como para as comunidades indígenas. A legislação retirou a responsabilidade pelo registo de terras rurais e pela gestão de águas residuais do ministério do ambiente, entregando as duas áreas a outros ministérios. A lei também retirou do Ministério dos Povos Indígenas o poder de demarcar terras indígenas, entregando-o ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Pedro Jacobi, pesquisador de governança ambiental da Universidade de São Paulo, Brasil, diz que Lula foi forçado a aceitar essas mudanças. Em vez de arriscar um conflito no Congresso, diz Jacobi, Lula prefere concentrar-se em agendas-chave, como a economia e os programas sociais. Somente o Partido Liberal, de direita, de Bolsonaro representa 96 dos 513 representantes na Câmara dos Deputados após as eleições de 2022.

Este descompasso entre o governo e o Congresso estende-se especialmente à estratégia energética do Brasil – na opinião de Unterstell, o elefante na sala da política ambiental. Apesar de ter um secretariado para a transição energética, o país não tem uma política de transição energética, diz ela, e precisa de uma “estratégia rápida, completa e justa, com uma eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, uma data clara de início e fim, e um planeje alcançá-lo.”

Vista aérea de um pedaço de terra desmatado na floresta amazônica

Destruição da floresta tropical causada por incêndios no norte do Brasil em 2019. Crédito: Carl de Souza/AFP via Getty

Em Agosto, o Ministério das Finanças do Brasil lançou um plano de transformação ecológica como parte do programa de aceleração do crescimento do país, conhecido como PAC – um conjunto de políticas para impulsionar o investimento privado e público em infra-estruturas para criar empregos e reduzir as desigualdades regionais. O plano centra-se no desenvolvimento social e económico verde e inclui uma transição energética verde como um dos seus pilares principais. Mas “mesmo tendo uma componente energética, o plano fica aquém de uma política de transição energética adequada”, afirma Suely Araújo, especialista sénior em políticas públicas do Observatório do Clima, uma coligação de organizações da sociedade civil focada na política de alterações climáticas. no Rio de Janeiro.

A maior parte dos investimentos do PAC para a transição energética e a segurança irão provavelmente para as indústrias do petróleo e do gás. Dos 565,4 mil milhões de reais (116 mil milhões de dólares) atribuídos à transição energética e à segurança, o petróleo e o gás deverão receber 360,2 mil milhões de reais. E a maior parte desse dinheiro – 324 bilhões de reais – é destinada à produção e ao desenvolvimento de combustíveis fósseis.

Debates em torno dos combustíveis fósseis

De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Brasil, as importações de gás natural caíram quase pela metade em 2022 em comparação com o ano anterior. Mas as importações de petróleo aumentaram quase 70% durante o mesmo período, o valor mais elevado desde 2015.

O próprio Brasil foi o nono maior produtor de petróleo do mundo em 2022 e o oitavo maior consumidor de produtos petrolíferos. Unterstell saúda o surgimento de uma discussão mais ampla sobre o petróleo e a transição energética no Brasil. “Este é um assunto difícil que temos que enfrentar”, diz ela. “Existe uma política agressiva para transformar o Brasil no quarto maior produtor mundial de petróleo até o final desta década. Certamente não podemos parar de produzir petróleo da noite para o dia, já que 8 dos 26 estados do país dependem fortemente das suas receitas”, mas, com a energia limpa a ficar mais barata e o mundo a precisar de eliminar gradualmente a produção e o consumo de petróleo, isto não funcionará. no longo prazo, ela diz.

No início deste ano, um debate em torno de uma licença ambiental para um poço exploratório de petróleo na foz do rio Amazonas gerou tensão entre organizações governamentais. Em maio, o IBAMA rejeitou o pedido de licença, alegando que a avaliação de risco feita pela Petrobras, a multinacional petrolífera estatal, apresentava várias falhas técnicas.

A empresa recorreu e agora a licença depende de uma avaliação do impacto que o tráfego de e para uma plataforma de petróleo terá nas comunidades próximas, a ser feita pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas do Brasil (um órgão separado do Ministério dos Povos Indígenas). No início de outubro, a concessão de uma nova licença ambiental para a Petrobras explorar águas profundas próximas ao estado do Rio Grande do Norte despertou esperanças de que o mesmo poderia acontecer em breve na foz do Amazonas. Em setembro, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, pediu mais celeridade no processo.

O panorama geral e os caminhos a seguir

A atitude do presidente Lula tem sido importante para sinalizar uma mudança de direção, disse Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil, em entrevista à Nature em setembro. “Ele tem dito que quer uma matriz energética totalmente limpa e isso tem funcionado no sentido de que o Brasil pretende atingir o desmatamento zero em 2030”, disse Silva. O Brasil também assumiu compromissos climáticos e trabalhou para liderar discussões internacionais para orientar as mudanças, porque o que acontece globalmente ecoa no país, acrescentou ela.

Os impulsionadores do desmatamento e as estatísticas em torno dele são diferentes em 2023 do que eram em 2003, e o novo Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) do país enfrentará desafios que não existiam para o mesmo há duas décadas, diz Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro sobre Mudanças Climáticas – um grupo de especialistas inspirado no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – que reúne e avalia informações científicas para produzir relatórios de avaliação nacionais e outros documentos que cobrem temas de mudanças climáticas específico para o Brasil.

Lançado em 2004, durante o primeiro mandato de Marina Silva como ministra do Meio Ambiente do Brasil, o PPCDAm supervisiona a vigilância e os processos por crimes ambientais, bem como a gestão de terras públicas na Amazônia brasileira. Entre 2004 e 2012, conseguiu reduzir em 83% o desmatamento do bioma. Em junho, o governo brasileiro anunciou uma versão atualizada do programa.

“O crime organizado e o tráfico de drogas explodiram na Amazônia, mas mesmo assim vemos taxas de redução do desmatamento comparáveis ​​a 2005”, diz Nobre, quando esses crimes não eram tão flagrantes. Um aspecto positivo do PPCDAm reformulado, diz ele, é que “ele dá uma ênfase importante ao desenvolvimento sustentável na Amazônia”.

Isto é crucial para efeitos duradouros, diz Unterstell. “Se não houver alternativa económica, os resultados não serão sustentáveis ​​a longo prazo e a aplicação da lei será falha”, afirma ela. “Aqueles que estão hoje envolvidos na desflorestação devem ser capazes de fazer uma transição justa para uma economia viável e que preserve as florestas.”

Quando a Nature perguntou a Silva sobre a posição aparentemente contraditória do Brasil em reduzir o desmatamento e ao mesmo tempo investir em combustíveis fósseis, Silva disse: “Todo mundo quer resolver o problema dos combustíveis fósseis, mas infelizmente a humanidade ainda não pode viver sem eles. A China não poderá renunciar a estas fontes tão cedo – o mesmo acontece com a Índia. Até a União Europeia, com todos os seus esforços, atravessa uma situação muito complexa face à guerra [da Ucrânia]. É importante que tenhamos uma visão geral.”

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-023-04042-x

Este artigo faz parte do Nature Spotlight: Brazil , um suplemento editorialmente independente. Os anunciantes não têm influência sobre o conteúdo.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Enquanto governo Lula concede aumentos para apenas para PRF e PF, servidores do IBAMA anunciam movimento de luta

IBAMA servidores

O ano de 2024 começa no ritmo de alta tensão dentro dos servidores públicos federais à luz das políticas restritivas impostas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma reposição linear das perdas salariais acumuladas nos últimos anos. A temperatura subiu ainda mais com o anúncio de que o governo Lula anunciou um reajuste salarial escalonado para seis cargos na Polícia Federal (PF) e na Polícia Rodoviária Federal (PRF). O acordo abrange as carreiras de delegado, perito criminal, agente, escrivão e papiloscopista na PF, além dos policiais rodoviários federais.

O problema fica ainda mais evidente com a decisão dos servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) anunciaram já no dia 1 de janeiro que se restringirão à realizar atividades internas em face do descaso com as suas demandas salariais e de condições de trabalho (ver imagem abaixo).

ibama

A verdade é que apesar de todas os acenos feitos em suas viagens internacionais, o presidente Lula ainda está devendo ações concretas para valorização dos servidores não apenas do IBAMA, mas também do ICMBio, na medida em que eles estão na linha de frente da defesa das florestas brasileiras, mas sem a devida valorização ou condições mínimas de trabalho.

Perspectivas para 2024 para florestas tropicais

Tropical Rainforest Landscape, Amazon

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

Na semana passada, a Mongabay publicou uma recapitulação das principais tendências nas florestas tropicais do mundo para 2023 . Aqui está um vislumbre de algumas das principais questões a serem monitoradas em 2024.

Brasil

taxa de desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu significativamente durante o primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula, após o restabelecimento de vários programas de proteção da floresta tropical. No entanto, Lula enfrenta oposição substancial do Congresso e dos governos estaduais em relação às suas políticas ambientais. Apesar destes desafios, o apoio internacional à Amazónia está a reforçar os esforços de conservação da sua administração.

Eleições na RDC e na Indonésia

As eleições presidenciais serão iminentes em dois países com extensas florestas tropicais, a República Democrática do Congo (RDC) e a Indonésia.

Na RDC, o Presidente Felix Tshisekedi foi reeleito em Dezembro, no meio de controvérsia, com observadores e oposição a afirmarem que a votação não foi livre nem justa. Dado que a presidência de Tshisekedi coincidiu com taxas de desmatamento persistentemente elevadas e uma forte procura pelos minerais do país, a sua reeleição provavelmente indica poucas mudanças substanciais na tendência actual. Contudo, a escalada da instabilidade no Leste, potencialmente agravando a crise humanitária existente, poderá introduzir mais incerteza.

Na Indonésia, o ministro da Defesa, Prabowo Subianto, emergiu como o favorito presidencial. Prabowo, um crítico veemente do Regulamento Desmatamento Zero da UE, suscitou preocupações das ONG sobre o futuro da protecção ambiental na Indonésia. A redução consistente, embora subreconhecida, do desmatamento no país desde então levanta questões sobre sua continuação sob a liderança potencial de Prabowo.

Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Passagem de Wallace na Papua Ocidental da Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Mercados de Carbono

Depois de um ano desafiante, marcado por controvérsias e pela descida dos preços das compensações baseadas na natureza, os defensores dos créditos de carbono florestais têm esperança de que os padrões recentemente mais rigorosos nos mercados voluntários de carbono possam revitalizar o sector.

O estado brasileiro do Tocantins está preparado para verificar e vender créditos jurisdicionais de REDD+ (JREDD), que os proponentes argumentam serem mais confiáveis ​​do que os créditos convencionais de REDD+ no mercado voluntário. Um lançamento bem-sucedido poderia catalisar o mercado para esses créditos.

FUTUROS DE COMPENSAÇÃO DE EMISSÕES GLOBAIS BASEADAS NA NATUREZA DA CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024.  Cortesia do CME.
Futuros de compensações de emissões globais baseadas na natureza da CBL: contratos de fevereiro de 2024 e maio de 2024. Cortesia do CME

El Nino

A NASA e a Organização Meteorológica Mundial prevêem que o atual evento El Niño terminará este ano. Este desenvolvimento traria um certo alívio às florestas tropicais da Indonésia e da Amazónia, que sofreram secas em 2023.

Floresta e dendê em Jambi, Indonésia.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta e dendê em Jambi, Indonésia. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Inflação global e preços de commodities

Embora a inflação global pareça estar a diminuir, os analistas estão divididos quanto às previsões dos preços das matérias-primas. Por exemplo, a S&P Global prevê preços elevados do óleo de palma devido à estagnação da produção em grandes produtores como a Indonésia e a Malásia, juntamente com o aumento da procura de biodiesel, potencialmente sobrecarregando a oferta. Por outro lado, a Fitch prevê preços significativamente mais baixos, atribuindo isso às condições climáticas favoráveis.

Avanços em dados florestais

Espera-se que as melhorias na recolha de dados florestais continuem em 2024, impulsionadas pela crescente prevalência de satélites e pelos avanços na inteligência artificial e outras tecnologias. Por exemplo, a empresa de satélites Planet deverá introduzir uma ferramenta de mapeamento de carbono florestal e lançar a sua próxima geração de satélites ainda este ano.

Espera-se que a Universidade de Maryland divulgue sua avaliação anual da cobertura florestal global na primavera, enquanto uma parceria entre a Iniciativa Internacional para o Clima e Florestas da Noruega (NICFI) e o Bezos Earth Fund expandirá o acesso gratuito e universal ao monitoramento de alta resolução por satélite do trópicos.

Floresta tropical no Equador.  Crédito da foto: Rhett A. Butler
Floresta tropical no Equador. Crédito da foto: Rhett A. Butler

Progresso em compromissos de alto nível?

Na COP26, em Glasgow, mais de 140 países comprometeram-se a travar e reverter a desflorestação até 2030. Este compromisso foi reafirmado na COP28, no Dubai, no mês passado. Contudo, progressos significativos na garantia do financiamento necessário para atingir este objetivo continuam a ser ilusórios. O mundo está alarmantemente fora do rumo , como evidenciado pelo aumento do desmatamento em 2022. A questão premente agora é: estarão os líderes mundiais, abrangendo as esferas política e empresarial, à altura do desafio de travar o desmatamento?


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela Mongabay [Aqui!].

Sul e Sudeste lideram perda de manguezais no Brasil em oito anos

MANGUEEstudo identificou perda de 34 km de manguezais; No detalhe, manguezais em Florianópolis (SC) próximo aos grandes centros comerciais. Foto:  Pedro Walfir Souza-Filho/ Arquivo Pesquisadores 

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Estudo realizado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), o Instituto Tecnológico Vale (ITV) e a empresa Soluções em Geoinformação (Solved), a partir de sensoriamento remoto, revela que os manguezais das regiões Sul e Sudeste do Brasil perderam 34 quilômetros quadrados de sua extensão em apenas 8 anos. Essa redução representa 4% da cobertura total desse bioma na área em questão e pode ser um alerta para ampliar os cuidados com o ecossistema. Os resultados estão descritos em artigo científico publicado na sexta (22) na revista “Anais da Academia Brasileira de Ciências”.

Os pesquisadores submeteram imagens de satélites radares e ópticos e dados coletados em campo a uma Análise Baseada em Objetos Geográficos (GEOBIA), método que classifica as imagens nas seguintes categorias: corpos d’água, terra firme e manguezais. Segundo um dos autores do estudo, Pedro Walfir Souza-Filho, da UFPA e do ITV, a técnica escolhida é mais precisa do que aquelas baseadas apenas em imagens de satélites ópticos. “Ela reúne pixels semelhantes baseadas na classificação do conteúdo. Assim, ela forma uma visualização mais integrada”, explica o cientista.

Os resultados revelaram a perda de 34 quilômetros quadrados de manguezais nas regiões Sul e Sudeste  entre 2008 a 2016, ou seja, a cobertura total passou de 823 para 789 quilômetros quadrados em oito anos. A diminuição foi observada em todos os cinco estados do Sul e Sudeste banhados pelo mar, com exceção do Rio de Janeiro. “Os manguezais têm um papel importante na proteção costeira em resposta a eventos extremos, na conservação de habitats marinhos e da vida selvagem, além de capturar grandes quantidades de carbono da atmosfera”, destaca Souza-Filho.

Em comparação com outras regiões do Brasil, o Sul e o Sudeste foram os mais afetados pela perda de manguezais no período estudado. No Nordeste, as áreas cobertas por esse bioma permaneceram estáveis entre 2008 a 2016, enquanto, no Norte, elas cresceram cerca de 10%. Baseado em observações e análises, os pesquisadores levantaram hipóteses para explicar essa diferença e atribuíram a redução na cobertura principalmente à ocupação da zona costeira com aumento de urbanização e de atividades portuárias.

Para os pesquisadores, o método utilizado no estudo é uma ferramenta eficaz para o monitoramento dos manguezais, e os dados podem colaborar para uma proteção mais acentuada desse ecossistema. “Os resultados podem ser utilizados como referência para o estabelecimento de políticas de conservação, principalmente em função do mapeamento das áreas de manguezais estáveis”, salienta Souza-Filho.

Os cientistas pretendem seguir estudando o tema para contribuir com a compreensão e a preservação das áreas de mangue no Brasil. “Continuamos desenvolvendo pesquisas na região estudada e atualizando o mapeamento anualmente para que possamos observar as tendências atuais”.


Fonte: Agência Bori 

Desmatamento no Cerrado mais do que dobrou em novembro, aponta SAD Cerrado

Área de vegetação perdida aumentou 103% em relação a novembro de 2022, atingindo 115 mil hectares do bioma

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O desmatamento no Cerrado mais do que dobrou em relação ao ano passado, atingindo 115 mil hectares. A área registrada em novembro de 2023 é 103% maior do que a registrada no mesmo mês do ano passado e 70% maior do que a marca de 2021. Os dados foram divulgados pelo SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) nesta quarta-feira (20). O desmatamento acumulado de 2023 até este mês, para todo o bioma, chega a 966 mil hectares, já 19% maior do que todo o desmatamento de 2022 no bioma.

Além do aumento em relação ao ano passado, novembro registrou um crescimento de 5% em relação a outubro e se tornou o mês com a terceira maior área desmatada em 2023. A alta no desmatamento no período foi impulsionado pelo crescimento da área devastada no Matopiba – fronteira agrícola composta por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Área desmatada mensalmente no bioma Cerrado entre janeiro a novembro de 2021 a 2023 mapeada pelo SAD Cerrado/IPAM.

Matopiba

A área desmatada no Matopiba aumentou 173% em relação a novembro do ano passado, atingindo 84,3 mil hectares apenas em novembro de 2023. Esse número representa 73% do que foi desmatado no bioma no mês.

No cerrado baiano, o aumento nesse mês de novembro chegou a 671%, passando de 2,4 mil hectares desmatados em novembro de 2022 para 18,9 mil hectares em 2023. Já no Piauí, onde foram desmatados 18,1 mil hectares, o aumento foi de 259%. No Maranhão, estado que liderou o desmatamento em novembro, o crescimento foi de 131% e 32,7 mil hectares desmatados, enquanto o Tocantins aumentou seu desmatamento em 74%, chegando a 22,8 mil hectares perdidos.

“O ano de 2023 está se consolidando como o ano dos recordes de desmatamento no Cerrado. Historicamente, o pico costuma ocorrer no meio do ano, na época de seca. Estamos observando um aumento atípico do desmatamento agora no final do ano, sendo que a expectativa era de queda nesse período. Assim como foi possível reduzir o desmatamento na Amazônia em ao menos 50%, esperamos no próximo ano que esses esforços sejam também direcionados para uma drástica redução do desmatamento no Cerrado”, afirmou Fernanda Ribeiro, pesquisadora do IPAM.

Municípios

Por conta do aumento acelerado do desmatamento no Matopiba, municípios dessa região ocupam todas as posições nas listas dos dez maiores desmatadores do Cerrado. Em novembro, esse ranking foi ocupado por cinco municípios baianos, três tocantinenses, um maranhense e um piauiense.

Pelo segundo mês consecutivo, Cocos, no oeste baiano, sofreu o maior desmate do bioma, com 4,3 mil hectares derrubados. A segunda posição foi ocupada por Alto Parnaíba, no Maranhão, com 3,7 mil hectares desmatados. São Desidério, vizinho de Cocos, perdeu 3,5 mil hectares de Cerrado e ficou com a terceira posição.

A área de desmatamento registrada em Cocos, neste ano, foi 611 vezes maior do que aquela registrada em novembro de 2022, quando foram detectados apenas 7 hectares de desmatamento no município.

Concentração de alertas de desmatamento mapeados pelo SAD Cerrado/IPAM em novembro de 2023.

Vazio fundiário

Assim como no último mês, os vazios fundiários – áreas sem mecanismos de governança definidos – foram a segunda categoria fundiária mais desmatada, correspondendo a 14% dos alertas. A categoria com mais alertas, no entanto, ainda foi a de áreas privadas, com mais de 75% da área derrubada, cerca de 87 mil hectares.

O tipo de vegetação nativa mais derrubado no Cerrado segue sendo a savana, que ocupa a maior parte do bioma, enquanto as formações campestres ocuparam a segunda posição. As formações florestais, por sua vez, concentraram 21% do desmatamento de novembro.

“Precisamos implementar e fortalecer as políticas públicas voltadas para prevenção e controle do desmatamento, conservação e restauração do Cerrado, que são necessárias para garantir a proteção dos últimos remanescentes de vegetação nativa. É essencial incluir o Cerrado, juntamente com outros biomas não-florestais, em discussões internacionais sobre mudanças climáticas e biodiversidade, como a COP, para o fortalecimento e incentivo a essas políticas”, Ribeiro.

Sobre o SAD Cerrado

O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado é um projeto de monitoramento mensal e automático que utiliza imagens de satélites ópticos do sensor Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. O SAD Cerrado é uma ferramenta analítica que fornece alertas de supressão de vegetação nativa para todo o bioma, trazendo informações sobre desmatamento no bioma desde agosto de 2020.

A confirmação de um alerta de desmatamento é realizada a partir da identificação de ao menos dois registros da mesma área em datas diferentes, com intervalo mínimo de dois meses entre as imagens de satélite. O método é detalhado no site do SAD Cerrado.

Os relatórios de alertas para o mês de novembro e períodos anteriores estão disponíveis neste link. No painel interativo, é possível selecionar estados, municípios, categorias fundiárias e o intervalo temporal para análise.

O objetivo do sistema é fornecer alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado constitui uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Acesse os dados georreferenciados clicando aqui.

Desmatamento cai pelo 8º mês seguido na floresta amazônica, mas sobe no Cerrado

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O desmatamento na Amazônia brasileira diminuiu pelo oitavo mês consecutivo, apesar da região ser afetada por uma grave seca.

De acordo com os últimos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento em novembro totalizou 201 quilômetros quadrados. Isto eleva a perda acumulada nos últimos doze meses na maior floresta tropical da Terra para 5.206 quilómetros quadrados, o que é 51% inferior ao valor registado durante o mesmo período do ano passado.

Desde janeiro de 2023, o desmatamento atingiu 4.977 quilômetros quadrados, marcando uma redução de 50% em relação aos dados do ano passado.

Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2009.
Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2009.
Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento do sistema SAD do Imazon e do sistema DETER do INPE.  O Imazon é uma ONG brasileira que monitora de forma independente o desmatamento.
Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento do sistema SAD do Imazon e do sistema DETER do INPE. O Imazon é uma ONG brasileira que monitora de forma independente o desmatamento.

O declínio do desmatamento persistiu apesar de uma das secas mais severas já registradas na Amazônia. Esta seca levou à secagem dos rios, contribuiu para a extinção generalizada das florestas e criou condições propícias à propagação de incêndios na região. Como resultado da crise, as comunidades remotas ficaram isoladas, a poluição atmosférica intensificou-se e a segurança alimentar foi comprometida, conforme relatado por fontes locais .

No entanto, embora o desmatamento na floresta amazónica tenha diminuído, continuou a aumentar no Cerrado – uma savana tropical localizada a sul e a leste da Amazónia. Em novembro, o desmatamento no cerrado totalizou 572 quilômetros quadrados, elevando a perda total no ano passado para 7.594 quilômetros quadrados. Isso representa o nível mais alto registrado desde que o INPE introduziu seu atual sistema de alerta em 2018.

Tanto o cerrado quanto a Amazônia são alvos da expansão agrícola no Brasil.

Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento para o cerrado do sistema DETER do INPE.

Dados de média móvel mensal e de 12 meses para dados de alerta de desmatamento para o cerrado do sistema DETER do INPE

Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2019.
Dados de alerta de desmatamento do sistema DETER do INPE de 1º de janeiro a 30 de novembro desde 2019.

Os dados são divulgados no momento em que o Brasil se posiciona como líder nos esforços de mitigação das mudanças climáticas na cúpula climática COP28. Na semana passada, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou uma proposta de 250 mil milhões de dólares destinada a proteger as florestas tropicais do mundo.

Os investigadores alertam que, devido aos efeitos combinados do desmatamento e das alterações climáticas, a Amazónia pode estar a aproximar-se de um ponto de inflexão onde vastas áreas da floresta tropical poderão transitar para um ecossistema mais seco, semelhante ao Cerrado. Tal desenvolvimento poderia perturbar os padrões de precipitação regionais e globais, desencadear a libertação de milhares de milhões de toneladas de carbono e levar à extinção de inúmeras espécies.

Imagens de satélite do Rio Negro no Brasil mostrando o efeito da seca de 2023 na Amazônia.  Imagem cortesia do Planeta.Imagens de satélite do Rio Negro no Brasil mostrando o efeito da seca de 2023 na Amazônia. Imagem cortesia do Planeta.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Mongabay.com [Aqui!].

Encarregados de combater o desmatamento na Amazônia, agentes ambientais brasileiros protestam contra condições de trabalho sob Lula

torasAgente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA) inspeciona árvore extraída da floresta amazônica, em uma serraria durante operação de combate ao desmatamento, em Placas, Pará, Brasil, 20 de janeiro de 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino//Arquivo Foto Adquire Direitos de Licenciamento

Por Jake Spring para a Reuters

DUBAI (Reuters) – Mais de 1.500 trabalhadores das agências federais  que atuam contra o desmatamento no Brasil estão exigindo melhores salários e condições de trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com uma carta que assinaram e que foi revisada pela Reuters na quarta-feira.

Os agentes ambientais foram encarregados de executar a postura mais dura de Lula em relação ao desmatamento, um elemento-chave de sua campanha para restabelecer o Brasil como líder em mudanças climáticas, através da emissão de multas por infrações ambientais, entre outros meios.

As taxas de desmatamento na floresta amazônica brasileira caíram 50% nos primeiros 10 meses da presidência de Lula, mas os trabalhadores dizem que continuam mal pagos e sobrecarregados de trabalho enquanto Lula apregoa o seu sucesso na Conferência Climática COP28 da ONU, em Dubai.

A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, é vital para conter as alterações climáticas porque absorve grandes quantidades de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global.

Os trabalhadores do IBAMA, órgão federal de fiscalização ambiental, e do  ICMBIO, agência encarregada de proteger as unidades de conservação,  acusaram Lula de “deslealdade” e disseram que suas condições de trabalho ameaçavam o combate ao desmatamento.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, nomeado por Lula, disse que os servidores tinham razão. “Boa parte dos resultados do desmatamento foram frutos do seu trabalho”, disse Agostinho à Reuters à margem da COP28.

“É uma afirmação justa da parte deles, mas trabalhamos com limitações”.

Agostinho disse que espera poder contratar mais trabalhadores no próximo ano e culpou o Congresso por atrasar as aprovações orçamentais.

O gabinete de Lula, o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente não responderam imediatamente a um pedido de comentário.

As taxas de desmatamento dispararam sob o governo do antecessor de direita de Lula, Jair Bolsonaro, que procurou abrir mais áreas da Amazônia à agricultura e à mineração, argumentando que isso tiraria a região da pobreza.

Jair Bolsonaro enfraqueceu os órgãos ambientais e os criticou abertamente por emitirem multas ambientais.

Reportagem de Jake Spring; edição por Miral Fahmy


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Produção de soja no país tem impactos socioambientais monitorados pelas próprias empresas e pouca ação do Estado

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Organismos internacionais pedem mais transparência sobre a origem e produção da soja no Brasil, segundo relatório

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Grandes empresas produtoras de soja são as responsáveis por determinar as normas do seu setor produtivo e por definir se a cadeia produtiva do grão cumpre com critérios de responsabilidade socioambiental, em relatórios anuais — papel de fiscalização que deveria ser executado pelo Estado. As conclusões são de um relatório divulgado nesta semana por pesquisadoras do Grupo de Pesquisa em Sociologia das Práticas Alimentares (SOPAS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O documento mostra a ausência do Estado no processo de monitoramento e divulgação de dados sobre a produção de soja no país e a falta de uma definição sobre um processo produtivo sustentável nos relatórios das empresas, o que gera lacunas no rastreamento desta produção. As pesquisadoras analisaram dados de documentos públicos do setor de sustentabilidade das empresas da cadeia da soja, de relatórios de desempenho dos programas e certificações. Elas também realizaram entrevistas entre abril e junho de 2023 com representantes do setor e entidades ambientalistas ativas no debate sobre sojicultura.

O objetivo foi entender a governança na cadeia produtiva da soja no Brasil, diante da demanda por transparência e responsabilidade socioambiental. O relatório aponta que a partir do momento em que as empresas determinam suas metas, sem que exista uma padronização sobre quais aspectos são relevantes e como tais informações devem ser divulgadas, se torna difícil obter dados sobre desmatamento, trabalho escravo, uso de agrotóxicos e invasões de terras indígenas.

Marília Luz David, professora adjunta do departamento de Sociologia da UFRGS e autora do estudo, destaca a importância do setor da soja e do Estado brasileiro se articularem para entrar no debate internacional sobre regras mais rígidas para a compra de produtos de origem agropecuária. Hoje, a expansão agropecuária da soja é responsável por índices altos de desmatamento no Cerrado, o que poderia trazer perdas de fatias de mercado em países com normas de governança mais rígidas como a China e alguns países da União Europeia.

“Estes resultados nos permitem sugerir que uma maior participação do Estado é bem-vinda na regulação e padronização dos modos de rastrear a soja e reportar resultados, assim como na articulação de compromissos internacionais com os maiores compradores da soja brasileira – notadamente, a China”, afirma David.

O trabalho das pesquisadoras chama a atenção para a emergência de modelos corporativos de governança ambiental. “Um olhar a partir dos estudos sociais, das ciências e das tecnologias pode oferecer novas perspectivas para questões do agronegócio no país, em particular, quais visões de vida em sociedade – o que queremos para biomas como Amazônia e Cerrado? – estão incorporadas em tecnologias, formas de mensuração e avaliação de práticas produtivas que prometem tornar a cadeia da soja mais sustentável e responsável “, diz a pesquisadora.

Para dar continuidade a essa pesquisa, David e Ângela Camana, doutora em Sociologia pela UFRGS e coautora do artigo, pretendem seguir explorando os acordos corporativos de governança ambiental na cadeia da soja, principalmente como são definidas a “soja livre de desmatamento e de conversão de vegetação nativa”. “O termo aparece em diversos documentos de empresas do setor e, por isso, precisa ser estudado”, explicam as autoras.

Fonte: Agência Bori