Rede registrou o desmatamento de mais de 625 mil hectares nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia; região concentra 78% do desmatamento do Cerrado
A região do Matopiba – fronteira agrícola formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – desmatou 625 mil hectares em 2022. A área representa um aumento de 37% em relação a 2021 e equivale a quatro vezes a cidade de São Paulo, segundo dados divulgados pela rede MapBiomas Alerta nesta quinta-feira.
“Essa região abriga grandes produtores de soja, milho e algodão. O cenário, em conjunto com a expansão de novas áreas para agricultura e pastagem, e a deficiência de ações de fiscalização por parte dos órgãos ambientais, contribui para a concentração do desmatamento”, destaca Roberta Rocha, pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Segundo o levantamento, a área desmatada cresceu em todos os estados da região. Na Bahia, estado que lidera o ranking, foram detectados 225 mil hectares desmatados, 48% a mais do que no ano passado. Maranhão e Tocantins registraram 168 mil e 83 mil hectares desmatados, respectivamente. O maior aumento na área devastada, no entanto, foi observado no Piauí, que saltou 115% em relação ao ano anterior, chegando a cerca de 152 mil hectares em 2022.
Os dados foram produzidos por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) no âmbito do MapBiomas Alerta e anunciados em um webinário .
“Analisar os dados de desmatamento no Matopiba é fundamental para o nosso objetivo de desmatamento zero até 2030. O desmatamento na Amazônia continua em uma trajetória de queda expressiva, mas no Cerrado ainda não conseguimos estabilizar essa curva. Nosso maior desafio hoje é onde a frente da agropecuária no Cerrado é mais agressiva”, reforçou André Lima, secretário extraordinário de Controle de Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial no Ministério de Meio Ambiente e Mudanças do Clima.
Também participaram do evento os promotores Luciano Loubet e Francisco Brandes, dos Ministérios Públicos do Mato Grosso e do Tocantins, respectivamente, e representantes das pastas ambientais dos estados da região do Matopiba.
A área total desmatada na fronteira agrícola representa 78% de todo o desmatamento no Cerrado e 30% de toda vegetação nativa derrubada no Brasil em 2022. O principal vetor do desmatamento, em todos os estados, foi a agricultura.
Juntos, os estados do Matopiba englobam áreas dos biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Segundo o relatório, 84% do desmatamento ocorreu em áreas de Cerrado, enquanto 12% afetou áreas de Caatinga, 3% da Amazônia e 0,9% da Mata Atlântica. A maior parte da área desmatada nos estados do Matopiba, cerca de 14%, ocorreu em março de 2022.
O MapBiomas Alerta é um sistema de validação e refinamento de alertas de desmatamento coletados por imagens de satélite de alta resolução da rede MapBiomas. No Cerrado, os alertas de desmatamento são sistematizados por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em colaboração com o LAPIG da Universidade de Goiás (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento) e Universidade de Brasília.
Ritmo acelerado
Em 2022, 81% dos 997 municípios dos estados do Matopiba tiveram desmatamento detectado. Além disso, 36% de todo o desmatamento na região ocorreu em apenas 10 municípios concentrados no oeste da Bahia, sul do Maranhão e sudoeste do Piauí.
No Piauí, estado onde o desmatamento mais cresceu, também estão localizados os municípios com maior aumento da área desmatada em relação a 2021. Em Santa Filomena, município com 6 mil habitantes, a área desmatada em 2022 saltou 513% em relação a 2021, atingindo cerca de 16 mil hectares. Em Sebastião Leal, município vizinho de Santa Filomena, o aumento foi de 259%
1º
São Desidério (BA)
36.595
113%
2º
Formosa do Rio Preto (BA)
33.421
122%
3º
Balsas (MA)
28.157
73%
4º
Uruçuí (PI)
23.792
148%
5º
Jaborandi (BA)
20.928
56%
6º
Sebastião Leal (PI)
20.089
259%
7º
Correntina (BA)
19.087
120%
8º
Santa Filomena (PI)
16.434
513%
9º
Barreiras (BA)
13.623
157%
10º
Baixa Grande do Ribeiro (PI)
11.774
181%
Na Fazenda Estrondo, condomínio de propriedades rurais localizado no município baiano de Formosa do Rio Preto, o MapBiomas Alerta identificou a maior área desmatada do país em 2022, composta por três polígonos com cerca de 23 mil hectares. A vegetação nativa perdida estava inserida na APA (Área de Proteção Ambiental) do Rio Preto e sua supressão contou com a autorização do Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos) da Bahia.
“A gente entende a dimensão do Cerrado, do Matopiba e das dificuldades que vamos enfrentar no combate ao desmatamento. Entendemos que, de fato, não podemos fechar os olhos para a expansão do agronegócio em toda a região do Matopiba. Estamos levando em frente ações estaduais junto ao Inema, à sociedade civil, aos empresários e ao Governo Federal para ter o controle, em um primeiro momento e de maneira mais urgente, do desmatamento ilegal”, destaca Eduardo Sodré, secretário do Meio Ambiente da Bahia.
Os três polígonos de desmatamento detectados em Formosa do rio Preto, resultando numa área de 23.450 hectares (Fonte: MapBiomas Alerta)
Sobre o RAD e MapBiomas Alerta
O RAD (Relatório Anual de Desmatamento) do MapBiomas reúne dados consolidados de desmatamento de todo o Brasil. Analisa os alertas de desmatamento detectados entre 2019 e 2022, e que foram validados e refinados sobre imagens de satélite de alta resolução pelo MapBiomas Alerta.
Nesta quarta edição, no Cerrado, os alertas gerados pelo DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real do INPE), SAD Caatinga (Sistema de Alerta de Desmatamento da Caatinga, da UEFS e Geodatin) e SIRAD-X (Sistema de Indicação por Radar de Desmatamento na Bacia do Xingu, do Instituto Socioambiental), foram utilizados para localizar os alertas de desmatamento nas imagens de satélite diárias de alta resolução espacial. OSAD Cerrado, desenvolvido pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), está em fase de inclusão no sistema do MapBiomas Alerta, com os dados para o ano de 2023.
Todos os dados são divulgados de forma pública e gratuita em plataforma web para que órgãos de fiscalização, agentes financeiros, empresas e sociedade civil possam agir para reduzir o desmatamento ilegal. O relatório completo com todos os dados está disponível no site doMapBiomas Alerta.
Principais causas do desmatamento são omitidas da declaração final
O desmatamento da Amazônia continua
Por Philip Fearnside para o “JungeWelt”
O fato de os oito países amazônicos se reunirem e discutirem o desmatamento é positivo, ainda que os resultados da própria reunião e da “Declaração de Belém” sejam decepcionantes. Os estados amazônicos se recusaram a concordar com uma meta para acabar com o desmatamento ilegal, nem permitiriam que projetos de petróleo e gás na Amazônia fossem banidos. As únicas coisas em que eles concordaram são questões politicamente fáceis, como “admoestar os países desenvolvidos a cumprir suas promessas e contribuir com mais dinheiro para os esforços de redução do desmatamento”. Além disso, os países amazônicos são unânimes em condenar medidas unilaterais como restrições ambientais, por exemplo da União Européia, à importação de produtos como soja, carne bovina e madeira,
De fato, mais contribuições monetárias são necessárias para a conservação da floresta e podem ter um impacto positivo na redução do desmatamento. No entanto, se for bem-sucedida, a resistência dos países amazônicos às restrições de importação teria o efeito oposto e removeria uma via importante para influenciar as políticas que impulsionam o desmatamento. Reduzir efetivamente o desmatamento requer muito mais do que apenas dinheiro. Requer também coragem política. E a introdução de critérios ambientais nas importações pode ajudar a gerar essa coragem.
As ações mais importantes e politicamente difíceis de implementar também não foram consideradas na Cúpula da Amazônia e ficaram como elefantes na sala. Por exemplo, um acordo necessário para parar de construir estradas na Amazônia que dão acesso aos madeireiros a áreas de floresta tropical que ainda estão intactas. O primeiro e mais importante aqui é a renovação e asfaltamento da rodovia federal BR-319 de Manaus a Porto Velho planejada pelo Brasil com todas as estradas vicinais associadas. Também não foi abordada a necessidade de impedir reivindicações de terras públicas pelos governos federal e estaduais na Amazônia – eufemisticamente referido como “regularização” no discurso brasileiro. O reconhecimento estatal dessas reivindicações de terra, ou seja, a “regularização”, levaria a uma cadeia interminável de grilagem, desencadeiam invasões de terras e desmatamento. Tanto o desmatamento passado quanto o futuro seriam legalizados. E essa seria a maneira mais fácil de cumprir a promessa do presidente brasileiro Lula da Silva de acabar com o desmatamento “ilegal” até 2030, sem ter que realmente parar o desmatamento.
E os estados amazônicos em Belém não conseguiram sequer concordar com o fim do desmatamento “ilegal” da floresta tropical proposto pelo Brasil. No entanto, os efeitos do desmatamento legal de um hectare de floresta tropical são os mesmos para o clima e a biodiversidade que o desmatamento ilegal. Conclusão: Infelizmente, as principais causas do desmatamento não foram abordadas na cúpula de Belém. Mas são justamente essas que devem ser combatidas e eliminadas rapidamente se ainda quisermos evitar a derrubada da maior região de floresta tropical do planeta.
Este texto foi originalmente em alemão pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].
Cúpula dos países amazônicos termina com declaração final frouxa e recebe críticas de povos indígenas e organizações ambientais
Presidente Lula da Silva (2º da direita) com participantes da cúpula (Belém, 9 de agosto de 2023)
Por Norbert Suchanek para o JungenWelt”
A Cúpula da Amazon de dois dias acabou e a decepção é grande. Em vez de decisões importantes que salvariam a Amazônia, houve principalmente palavras vazias na cúpula de Belém, Brasil. Além disso, embora os chefes de governo dos países amazônicos e de outros estados da floresta tropical na África e na Ásia tenham sido convidados para a conferência de 8 e 9 de agosto, os chefes dos povos indígenas da Amazônia não foram.
A ciência concorda. Devido ao contínuo desmatamento em larga escala e ao aquecimento global, a região amazônica está à beira do colapso, o que, por sua vez, pode ter consequências catastróficas para outros continentes e para o clima global. Todo o desmatamento e a produção de petróleo e gás na região devem, portanto, ser interrompidos o mais rápido possível – de preferência imediatamente. Essa também é uma reivindicação dos mais de 500 povos indígenas da Amazônia que integram a organização COICA.
Diante desse cenário, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, convidou todos os estados participantes do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) pela primeira vez em 14 anos. Também foram convidados para o encontro na capital do estado do Pará o presidente francês Emmanuel Macron e representantes de países africanos e asiáticos com grandes áreas de floresta tropical. Mas apenas alguns dos chefes de estado aceitaram o convite. Apenas os presidentes da Bolívia, Colômbia, Guiana e Peru voaram para Belém. Venezuela, Suriname e Equador enviaram seus vices ou ministros das Relações Exteriores e do Meio Ambiente à cúpula, a França apenas seu embaixador em Brasília.
Também foi uma surpresa que o documento final da cúpula, elaborado pelo governo brasileiro, tenha sido apresentado no primeiro dia e recebido pelos representantes dos Estados sul-americanos e dos países tropicais convidados, a República Democrática do Congo, República do Congo, Indonésia e São Vicente e Granadinas foi assinado.
O presidente Lula saudou a declaração como uma vitória para “uma Amazônia com cidades mais verdes, ar mais limpo, rios livres de mercúrio e florestas protegidas”. Uma Amazônia com comida na mesa, trabalho decente e serviços públicos para todos, com crianças mais saudáveis, migrantes acolhidos, indígenas respeitados e jovens mais esperançosos”. Segundo Lula, a cúpula de oito países ficará para a história como um marco no desenvolvimento sustentável.
Por mais extensa que seja a chamada Declaração de Belém, com um total de 113 artigos, ela é pouco mais que conversa fiada. Na declaração de 20 páginas, a frase “sustentável” aparece mais de 80 vezes, mas não há medidas específicas ou prazos, por exemplo para acabar com o desmatamento ou a exploração de petróleo.
Portanto, choveram críticas de muitas organizações não-governamentais, povos indígenas e cientistas. Para Marcio Astrini, da rede brasileira de informações climáticas Observatório do Clima, a “Declaração de Belém” não é uma resposta concreta ao mundo em que vivemos. Astrini: O planeta está derretendo, estamos quebrando recordes de temperatura todos os dias. Em um cenário como esse, não é possível que oito países amazônicos não afirmem claramente que o desmatamento deve chegar a zero e que a exploração de petróleo na floresta tropical não é uma boa ideia.
Em entrevista à agência de notícias independente Amazônia Real, cinco lideranças do estado do Amapá não estranharam que uma das maiores preocupações dos indígenas, o fim da exploração de petróleo na Amazônia, não tenha sido considerada no documento final do cume de Belém. Eles não esperavam outra coisa, como o presidente Lula havia falado antes da conferência sobre a exploração de petróleo em curso na Amazônia. Ao contrário do chefe de estado da Colômbia, Gustavo Petro, que antes de sua chegada fez campanha publicamente pela paralisação total da produção de petróleo e gás na Amazônia.
Embora os estados amazônicos não se comprometam com praticamente nada na declaração, eles estão exigindo dinheiro dos países industrializados – ou seja, 100 bilhões de dólares americanos por ano para a proteção do clima. Não se trata de Brasil, Colômbia ou Venezuela precisando de dinheiro, disse Lula ao final de sua cúpula na Amazônia: “A Mãe Natureza precisa de dinheiro porque o desenvolvimento industrial a destruiu nos últimos 200 anos”. não aceitará o neocolonialismo verde que introduz barreiras comerciais sob o pretexto de proteção ambiental.”
Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungenWelt” [Aqui!].
Nenhum acordo foi firmado para interromper a produção de petróleo e gás na região amazônica. Organizações ambientais criticaram a “Declaração de Belém” como fraca e decepcionante
Lula discursa na Cúpula de Chefes de Estado e de Governo em Belém nos dias 8 e 9 de agosto. Fonte: Ricardo Stuckert/PR
Por Ulrike Bickel para o Amerika21
Belém.Os oito países que compõem a Pan Amazônia encerraram a cúpula com uma declaração finalconjunta . Foi a quarta reunião desde a assinatura do Acordo de Cooperação Amazônica (OTCA).
O objetivo era criar um compromisso para evitar que a floresta amazônica cruzasse o ponto de inflexão sem volta. Além disso, devem ser desenvolvidas posições comuns para as próximas negociações na Conferência Mundial do Clima em novembro e para a Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica 2024. Convidados de outros países densamente florestados, como a República Democrática do Congo e a Indonésia, bem como os Estados Unidos Os Emirados Árabes, onde será realizada a COP28, também participaram do encontro.
OTCA é um instrumento legal intergovernamental que reconhece a natureza transfronteiriça da Amazônia. Foi assinado em 1978 e entrou em vigor em 1995 após ratificação por todos os países vizinhos (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Peru, Suriname, Venezuela).
O presidente da Bolívia, Luis Arce, enfatizou que a Amazônia está presa em uma crise estrutural. A exploração agressiva cria um desequilíbrio com o meio ambiente e a saúde dos ecossistemas e da vida no planeta. Este ecossistema único deve ser preservado e o desenvolvimento sustentável promovido em harmonia com a Mãe Terra.
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, alertousobre a “ganância” das multinacionais farmacêuticas e alimentícias que dominam os mercados globais e criam imensas desigualdades. Diante da crise neste biótopo, ela sugeriu declarar ali uma “emergência regional”.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, destacouque não são os países da América do Sul os responsáveis pelas emissões, mas os países do Norte Global, onde estão sendo feitos esforços contraditórios: por um lado, suas políticas são voltadas para a descarbonização, por outro mão na manutenção de altos padrões de vida e níveis de consumo, bem como na execução duma hipoteca. Ele, portanto, pediu aos países ricos que troquem ou renunciem à dívida externa por pagamentos internacionais mais altos para proteção ambiental.
O Brasil se opôs à inclusão de uma meta de combustíveis fósseis no acordo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia afirmado anteriormente que a decisão do órgão ambiental de proibir a exploração de petróleo pela estatal Petrobras na foz do Amazonas não era definitiva.O governo Lula está atualmente lutando por um controverso projeto de produção offshore perto da foz do Amazonas , ao qual ele não se opôs, pelo menos inicialmente.
A “Declaração de Belém” enfatiza o compromisso com a conservação das florestas, envolvendo as comunidades indígenas e locais na sua proteção e lutando por uma “transição ecológica justa”. Preocupações com o descumprimento dos compromissos climáticos dos países “desenvolvidos” também são expressas.
Os países firmaram uma aliança para combater o desmatamento. O objetivo é “promover a cooperação regional para combater o desmatamento e evitar que a Amazônia chegue a um ponto sem volta, ao mesmo tempo em que reconhece e promove o alcance de metas nacionais, incluindo a meta de desmatamento zero”. Isso deve ser alcançado com a eliminação da extração ilegal de madeira, o fortalecimento da aplicação da lei nos estados contratantes, o manejo florestal sustentável e o manejo integrado do fogo para reduzir os incêndios florestais. Será criado um conselho científico para a proteção da Amazônia com sede em Manaus.
Um dos pontos mais importantes é a meta de mobilizar internacionalmente 100 bilhões de dólares por ano para financiamento climático e promover a troca de dívidas dos países amazônicos por medidas de proteção climática dos países industrializados. A nota também menciona a demarcação de terras indígenas e a cooperação policial contra atividades ilegais.
Mauricio Voivodic, diretor administrativo do WWF-Brasil, elogiou o fato de os chefes de estado terem reconhecido a necessidade urgente de evitar que a Amazônia “virasse”. No entanto, medidas concretas e sólidas devem ser tomadas para interromper o desmatamento o mais rápido possível. Combater e eliminar a mineração ilegal e insalubre de ouro e a poluição por mercúrio requer a mesma atenção e urgência. Além disso, a expansão das reservas naturais e dos territórios indígenas é fundamental.
OObservatório do Climano Brasil, uma coalizão de mais de 90 representantes da sociedade civil, comentou: “Os 113 parágrafos operacionais da declaração são uma bela declaração de intenções que tem o mérito de reviver a esquecida OTCA e reconhecer que o biótopo tem um ponto de ameaça a ser alcançado do qual não há retorno, mas não oferece soluções práticas ou cronograma de ação para evitá-lo”.
Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo Amerika21 [Aqui!].
A floresta amazônica está ameaçada de desastre, mas os países da região ainda querem explorar suas riquezas. Nós também poderíamos influenciar o destino da floresta tropical por meio de acordos comerciais, diz pesquisador
Por Sara Vainio para o YLE
As nações da região da floresta amazônica estão se reunindo no Brasil pela primeira vez em 14 anos.
A reunião está sendo realizada literalmente em meio às controvérsias sobre a floresta tropical: a cidade portuária de Belém está localizada perto da foz do rio Amazonas, onde o Brasil estuda atualmente a exploração de petróleo. O plano despertou oposição em todo o mundo.
Foto: Aurora Ferm / Yle, MapCreator, OpenStreetMap
A primeira grande notícia do encontro foi uma decepção em relação ao clima: os estados não chegaram a um acordo para interromper o desmatamento da floresta até 2030.
O objetivo comum foi proposto pelo presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva , que prometeu desacelerar a destruição acelerada da floresta tropical. Durante seu mandato, o antecessor de Lula, Jair Bolsonaro, permitiu a expansão de minas, extração de madeira e pecuária cada vez mais fundo na floresta tropical.
Em seu discurso de abertura, Lula exigiu cooperação urgente dos países da região.
– Estamos nos reunindo pela primeira vez no contexto de uma grave crise climática que se agrava. Os desafios e oportunidades do nosso tempo exigem ações conjuntas, disse Lula.
No entanto, outros países não quiseram se comprometer com o cronograma.
Abertura do Amazon Summit na terça-feira, em Belém. Foto: Antonio Lacerda/EPA
Contrastando projetos de conservação e econômicos
No geral, a reunião foi vista como uma decepção, diz Markus Kröger , professor de estudos de desenvolvimento global da Universidade de Helsinque .
– Nenhuma regulamentação clara foi criada para evitar que a Amazônia atinja um ponto de inflexão crítico do qual não há retorno.
O chamado ponto de inflexão significa uma situação em que a floresta tropical começa a se transformar em savana e deserto em ritmo acelerado, e o ciclo não pode ser interrompido. A maior parte da Amazônia está muito próxima a este ponto.
Segundo Kröger, Lula não é um protetor puro da Amazônia, apesar de sua retórica.
– Um pouco antes dessa reunião, ele visitou outra cidade na Amazônia, e disse lá que a Amazônia não pode se tornar uma área protegida, mas deve dar riqueza ao Brasil. Em muitos lugares, a política econômica de Lula ainda acredita no desenvolvimento, embora a derrubada da floresta tropical tenha diminuído drasticamente.
O conservacionista mais vocal na reunião foi o presidente de esquerda da Colômbia, Gustavo Petro , que pediu a proibição total da exploração e perfuração de petróleo e gás na Amazônia. Também não houve apoio comum para esta proposta. Além do Brasil, pelo menos Guiana e Venezuela têm novos projetos de petróleo em desenvolvimento. A Bolívia, por outro lado, tem desmatamentos em grande escala e não quer interferir neles.
– Muitos países da região têm atritos internos. Os presidentes estão em uma posição precária, o poder pode mudar e os discursos precisam ser pensados, diz Kröger.
Representantes de povos indígenas e organizações não governamentais se manifestaram em Belém na terça-feira. Foto: André Borges/EPA
Estados amazônicos exigem dinheiro para proteção
A floresta amazônica é um habitat excepcionalmente rico e um importante sumidouro de carbono que está diminuindo a cada ano. A floresta tropical está sendo derrubada em nome do petróleo, da pecuária, da forragem e da mineração.
O resto do mundo exige que os estados da região protejam a floresta tropical, mas, por outro lado, ainda quer comprar carne brasileira barata e cobre equatoriano. A propriedade fica na floresta tropical e, se tiver que ser deixada de pé, os estados da região acham que o resto do mundo poderá pagar mais indenizações por ela.
Encontrou-se um entendimento comum sobre o tema: em comunicado conjunto, os países amazônicos exigem que os países desenvolvidos cumpram suas promessas de financiamento climático e participem da meta de arrecadar 200 bilhões por ano no futuro.
– Na reunião, os estados não quiseram assumir sua própria responsabilidade e empurraram a responsabilidade ainda mais para a UE e outros países ricos. E, ao mesmo tempo, eles ainda perseguem projetos destrutivos. É uma estrada perigosa, diz Kröger.
Por exemplo, de acordo com Kröger, o Lula do Brasil continua muitos dos projetos problemáticos de Bolsonaro, como asfaltar estradas na floresta tropical e legalizar novos agrotóxicos.
O líder da tribo Kayapó, Raoni Metuktire em Belém na segunda-feira. Foto: EPA
O crime organizado criou raízes na selva
Representantes e simpatizantes dos povos indígenas da floresta tropical marcharam do lado de fora do local do encontro na terça-feira. Eles gostariam de direitos oficiais sobre sua própria área de vida e garantias de que a terra não será vendida para mineração e empresas petrolíferas para destruição.
– Peço aos presidentes que se comprometam com a proteção da floresta tropical, disse o líder da tribo Kayapó Raoni Metuktire em entrevista à agência de notícias Reuters.
– Se o desmatamento continuar, criaremos problemas, tanto para os povos indígenas quanto para todas as pessoas.
Cartéis internacionais de drogas e outras organizações criminosas, que já controlam parte da mineração amazônica, também lutam pelo controle da selva. A violência aumentou drasticamente nos últimos anos.
Segundo Kröger, o assunto mais importante do encontro não foi o clima, mas a segurança da Amazônia. Os países concordam com o controle transfronteiriço do crime organizado.
– Acho que o mais importante da reunião é evitar que a Amazônia acabe em um estado tão caótico como o do México. Grandes organizações de drogas já estão lavando dinheiro lá. O risco é que em breve você não poderá mais ir até lá.
Apresentação na marcha das ONGs na terça-feira em Belém. Foto: André Borges/EPA
Amazônia é ameaçada por número recorde de incêndios florestais
Em termos de clima, o tempo para agir ameaça esgotar-se. Segundo Kröger, no próximo inverno a floresta tropical estará ameaçada por incêndios recordes. As temperaturas oceânicas já estão relativamente altas devido à crise climática, e o forte fenômeno El Niño durante a temporada de incêndios florestais no inverno agrava ainda mais a situação.
– A Amazônia provavelmente experimentará muito mais seca do que antes. Pode haver grandes incêndios difíceis de controlar, diz Kröger.
Incêndios são praticamente todos iniciados por pessoas.
– Deve ser evitado por todos os meios possíveis. Mas quando você ouve os discursos desses líderes de que a Amazônia deve ser desenvolvida, uma nova indústria de petróleo e estradas construídas e riquezas tomadas, parece que a situação em que estamos não é totalmente compreendida.
Os países da UE poderiam, por sua vez, influenciar o destino da Amazônia, por exemplo, impedindo a venda de soja e carne produzidas na floresta tropical aqui.
No entanto, a UE parece ter um forte desejo de poder comercializar os mesmos produtos sul-americanos que, por exemplo, a China, diz Kröger.
– Grandes empresas na Europa, Estados Unidos e China querem aproveitar esses recursos naturais. Atualmente, a corrida entre os estados determina o destino das florestas.
Este artigo escrito inicialmente em finlândes foi publicado pela tv pública finlandesa YLE [Aqui!].
Sobre a responsabilidade do Brasil na Amazônia e no aquecimento global. Uma conversa com o pesquisador climático Philip Martin Fearnside
Indígenas em área desmatada da Bacia Amazônica (perto de Humaitá, 20/08/2019)
Pesquisadores da Amazônia e do clima concordam: a maior região de floresta tropical do mundo está à beira do colapso. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, convidou, portanto, os chefes de governo de todos os países da bacia amazônica para a cúpula amazônica nos dias 8 e 9 de agosto em Belém, capital do estado do Pará, que já foi fortemente desmatado. O objetivo é uma posição comum para a próxima conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP 28), em novembro. “Queremos dizer ao mundo o que faremos com nossa floresta e o que ela precisa fazer para nos ajudar, porque US$ 100 bilhões foram prometidos em 2009 e não foram pagos até agora”, disse Lula antes da cúpula. . 14 perguntas para a Amazônia e o pesquisador do clima Philip Martin Fearnside sobre a cúpula da Amazônia, a política de proteção florestal do governo brasileiro, barragens, construção de estradas, petróleo e desmatamento zero.
Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”
Quão perto estamos do ponto sem volta do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso em um futuro próximo?
As áreas fortemente desmatadas no sul do Pará e norte do Mato Grosso podem já ter passado desse ponto, mas isso não significa jogar a toalha. Arce é outra região que está próxima ou além de um ponto crítico. O que será decisivo é o que acontece ao norte de Arce, na região do Trans-Purus, no Amazonas. Perder a floresta seria catastrófico, pois essa área é vital para a reciclagem da água. Existe o risco de que essa região do “Trans-Purus” seja aberta à exploração madeireira por estradas vicinais da BR-319.
De acordo com seu atual Programa de Conservação da Amazônia (PPCDAm), Lula quer acabar com a extração ilegal de madeira até 2030. Isso significa que o registro legal continuará?
A reafirmação da promessa de Lula em seu famoso discurso na COP 27 no Egito, sem dúvida, reflete os planos reais melhor do que o que ele disse, onde a palavra crítica “ilegal” não foi mencionada. Sim, a extração legal não apenas continuaria, mas aumentaria significativamente, pois Lula também promete regularizar as reivindicações fundiárias. Este é um eufemismo para o reconhecimento legal de reivindicações ilegais. A maior parte das terras está agora legalizada por meio de inscrições no Cadastro Ambiental Rural (CAR), criado em 2012 sob a atual Lei Florestal, que permite o registro on-line de propriedades sem uma inspeção no local. Na prática, o CAR tornou-se a principal ferramenta para grileiros se apropriarem de terras públicas sem destino. Uma vez que uma área é de propriedade legal, a exploração madeireira é permitida. Claro, esse reconhecimento alimenta novas reivindicações e invasões. O ciclo contínuo de “anistias” de invasões de terras anteriores só termina quando a última árvore é cortada.
A atual “meta de desmatamento zero” do Brasil até 2030 é suficiente para salvar a Amazônia?
Se o desmatamento parasse até 2030, incluindo o desmatamento “legal”, isso seria um progresso. No entanto, existem outras ameaças. Os incêndios florestais são favorecidos pelas mudanças climáticas, exploração madeireira e queima de pastagens em áreas já desmatadas.
O PPCDAm do Brasil também planeja expandir a exploração madeireira sustentável em florestas públicas para até cinco milhões de hectares. Isso está no espírito de uma estratégia de desmatamento zero?
O uso sustentável da madeira é uma ficção. Essencialmente, toda a exploração madeireira na Amazônia é insustentável, incluindo a madeira extraída de planos de manejo florestal sustentável legalmente aprovados. Nenhum desses planos leva em conta que a exploração torna a floresta muito mais vulnerável a incêndios florestais. Quando uma área explorada queima, a intensidade do fogo e a perda de biomassa são maiores. Isso cria um ciclo vicioso de incêndios repetidos. Além disso, o manejo florestal é insustentável devido a contradições na lógica econômica e brechas na lei.
Grande parte da Amazônia brasileira é propriedade do Estado, chamada de “terras públicas sem propósito”, bem mais de 50 milhões de hectares. O que o governo deve fazer com esta terra?
Essas áreas devem ser todas convertidas em reservas naturais, ou seja, áreas protegidas para a diversidade biológica ou territórios indígenas demarcados. Isso também deve incluir reservas de coleta para uso sustentável e tradicional da floresta. Nenhuma dessas terras deve ser legalizada como propriedade privada.
No passado, Lula foi responsável por grandes projetos hidrelétricos, como as hidrelétricas do Rio Madeira e do Rio Xingu. Você teme que outros grandes projetos hidrelétricos sejam decididos agora?
Esse é um grande temor, não só pelo passado de Lula, mas também por suas declarações de campanha defendendo as decisões tomadas na época. Adicione a isso o Plano de Desenvolvimento Energético 2050. Muitas outras barragens serão construídas na Amazônia depois se o projeto de lei PL191/2000 for aprovado, abrindo terras indígenas para construção de barragens – bem como mineração, agronegócio e exploração madeireira. Os grupos de interesse por trás dela têm votos suficientes para aprovar a lei, mesmo contra um veto presidencial.
Como você avalia as usinas hidrelétricas na Amazônia? Que contribuição eles fazem para a proteção do clima? Ou eles preferem aquecer o clima global?
As barragens existentes contribuem para o aquecimento global de várias maneiras. Eles emitem CO2 e metano. Essas emissões são muito maiores nos primeiros anos após o enchimento de um reservatório, tornando-as particularmente prejudiciais ao clima global. Ao contrário do CO2, o metano é um gás com forte efeito de aquecimento nos primeiros anos, o impacto do CO2 é relativamente pequeno, mas se estende por mais de um século. O que será decisivo é o que acontecerá nos próximos 20 anos. O último relatório do IPCC calculou que uma tonelada de metano produz 80,5 vezes mais que uma tonelada de CO2 nos primeiros 20 anos. Isso quadruplica o impacto das barragens na Amazônia em comparação com o valor relatado no Protocolo de Kyoto e na literatura atual sobre emissões de barragens (incluindo a minha).
Eles consideram a pavimentação da rodovia federal BR-319, na Amazônia central, uma das maiores ameaças à região. O senhor vê algum sinal de que o governo Lula vai concluir o projeto ou abandoná-lo?
Em entrevista a uma rádio em Manaus durante sua campanha eleitoral, Lula explicou que não entendia por que a reforma da BR-319 não deveria ser aprovada enquanto os governos estaduais e municipais se comprometessem com “salvaguardas”. Infelizmente, mesmo que tal promessa fosse feita, isso não reduziria os danos causados pela Autobahn. Com impactos que se estendem muito além das áreas ao longo da BR-319, não há sinal de que os governos locais estejam dispostos a pagar o custo astronômico de interromper o desmatamento em toda a área.
Como você avalia os projetos de produção de petróleo e gás existentes e planejados nos estados amazônicos? A produção de petróleo nas áreas de floresta tropical não deveria ser interrompida apenas por razões de proteção do clima?
Para conter a mudança climática, o mundo deve abandonar o petróleo e o gás rapidamente. Até a Agência Internacional de Energia (IEA) emitiu um relatório afirmando que nenhum novo campo de petróleo e gás deve ser perfurado e os existentes devem ser reduzidos a zero, com zero emissões líquidas no mundo até 2050. O Brasil deve seguir esse caminho. Na região amazônica, a eliminação também deve ser mais rápida do que em outros lugares, pois, além das mudanças climáticas, os danos ambientais também são causados pela poluição por óleo ou pela construção de estradas e desmatamento na floresta amazônica.
No projeto de óleo e gás na Bacia do Solimões. A Rosneft, empresa estatal russa de petróleo e gás, tem direitos de perfuração nesta área de floresta tropical intacta. Quando vai começar o financiamento? Ou o governo vai parar o projeto?
Nenhum cronograma ou decisão foi anunciado. Dados os laços estreitos de Putin com a Rosneft, a atitude de Lula em relação a Putin na guerra na Ucrânia é preocupante. O asfaltamento da BR-319 e a construção da rodovia estadual associada AM-366 são muito importantes para o projeto da Rosneft.
Quais seriam as consequências da implantação do projeto de óleo e gás para a floresta tropical da região?
O AM-366 passaria por três dos primeiros blocos de petróleo, bem como por uma grande área de potenciais blocos futuros. Se essa estrada for construída, grileiros e posseiros invadiriam as terras públicas ainda não designadas. Toda a metade leste da malha rodoviária proposta já é reivindicada por proprietários de terras no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O projeto de petróleo e gás pode acelerar a construção dessas estradas, já que o dinheiro da Rosneft e a influência de Putin o tornam uma prioridade para os governos federal e estadual.
Como o senhor vê o risco de produzir biocombustíveis a partir da cana-de-açúcar ou do dendê na Amazônia?
Isso é motivo de preocupação, principalmente no caso dos dendezeiros na área da Trans Purus. Esta área é climaticamente mais adequada para os dendezeiros. As empresas malaias de óleo de palma tentaram comprar terras lá já em 2008.
O que você gostaria de ver como resultado da conferência de Belém?
É de se esperar que o Brasil e os demais países se comprometam a abandonar projetos de infraestrutura como a BR-319. Os países amazônicos devem fazer mais do que pressionar o resto do mundo para contribuir financeiramente para deter o desmatamento. O Brasil, em particular, deve se conscientizar da importância da floresta amazônica.
Philip Martin Fearnside é um biólogo americano que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) em Manaus desde 1978. Com mais de 700 publicações, foi o segundo cientista mais citado no mundo sobre aquecimento global em 2006 e o cientista mais “influente” sobre mudanças climáticas no Brasil em 2021. Fearnside é membro do Amazon Science Panel (SPA).
Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].
Pesquisador da Amazônia Carlos A. Nobre fala sobre desmatamento, degradação e possível restauração
Mina de minério de ferro na floresta amazônica brasileira. Foto: AFP/MAURO PIMENTEL
Entrevista por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”
Os países amazônicos querem discutir a preservação da floresta tropical em sua cúpula em Belém. Quão dramática é a situação?
Em toda a região amazônica, que originalmente compreendia cerca de 6,5 milhões de quilômetros quadrados de floresta, pouco mais de 1 milhão de quilômetros quadrados já foram desmatados, cerca de 18%. Outros 17% são áreas degradadas em vários estágios. A maior parte dessas áreas desmatadas e danificadas está localizada no sul da Amazônia, nos estados brasileiros do Pará, Mato Grosso, Rondônia, Acre e Amazonas, e no sudeste da Bolívia. Um segundo arco de desmatamento se estende ao longo dos Andes entre 400 e 1300 metros de altitude no Peru, Equador e Colômbia.
Quão longe ou quão perto estamos do “ponto sem volta” do ecossistema amazônico? A Amazônia corre o risco de entrar em colapso?
Na verdade, a Amazônia não está longe de um ponto sem volta. Devemos parar o desmatamento, a degradação e os incêndios florestais definido para zero imediatamente e de preferência ontem. Precisamos de uma moratória nesse tipo de mudança de uso da terra, especialmente no sul da Amazônia porque está à beira do colapso. A estação seca nesta região de dois milhões de quilômetros quadrados já dura quatro a cinco semanas a mais do que nos últimos 40 anos. E é 2,5 graus mais quente e 25% mais seco. Esta região é agora uma fonte de emissões – liberando mais carbono do que retira da atmosfera. Portanto, se continuarmos com o aquecimento global e a destruição das florestas, passaremos desse ponto sem retorno em no máximo 20 a 30 anos. Portanto, é fundamental começar imediatamente a restauração de grande parte desses dois milhões de quilômetros quadrados que foram desmatados e degradados.
Entrevista
Carlos A. Nobreé um dos mais renomados pesquisadores da Amazônia. O cientista do sistema terrestre do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo investiga em particular as interações entre a biosfera e a atmosfera e as consequências do desmatamento para o clima. Nobre é um dos co-presidentes do Amazon International Science Panel de mais de 240 pesquisadores.
De acordo com suas declarações e seu programa de proteção da Amazônia apresentado em junho, o presidente brasileiro Lula da Silva quer acabar com o desmatamento “ilegal” na Amazônia até 2030. Isso é suficiente para evitar o colapso?
O Brasil e quase todos os países amazônicos assinaram um acordo durante a cúpula do clima COP 26 em Glasgow em 2021, que 134 países assinaram até o momento e que visa zerar o desmatamento no mundo até 2030. Esse deve ser o nosso principal objetivo. Embora o marco legal brasileiro permita o desmatamento de 20% e em alguns lugares até 50% na Amazônia, não podemos mais distinguir entre legal e ilegal para proteger a área. Os governos de alguns países amazônicos, como a Colômbia, estão trabalhando para interromper todo o desmatamento e essa deveria ser a política do Brasil também. Para salvar o planeta, combater a emergência climática e proteger a biodiversidade, o desmatamento não deve mais ser permitido.
O programa de proteção do Brasil também permite a expansão da extração “sustentável” nas florestas do estado para até cinco milhões de hectares. Isso faz sentido?
Como eu disse, desmatamos quase a mesma área que degradamos na Amazônia. Infelizmente, a exploração madeireira praticada bem como o corte “seletivo” levam a uma enorme degradação das florestas. Este não é o caminho para a Amazônia. Para salvar a Amazônia, é necessário acabar com o desmatamento e a degradação florestal e embarcar em grandes projetos de restauração. Na COP 27 do ano passado, nós, o Painel de Ciência da Amazônia, lançamos um projeto para restaurar grandes áreas de floresta, principalmente nas regiões dos dois arcos de desmatamento. Chamamos-lhe »Arcos da Restauração Florestal«.
Grande parte da Amazônia brasileira é considerada terra federal ou estadual “ sem designação ” . O que o governo deve fazer com esta terra?
As “terras devolutas” na Amazônia cobrem uma enorme área de 560.000 quilômetros quadrados. É muito importante que as florestas dessas áreas sejam preservadas e que a restauração florestal em larga escala ocorra em terras públicas já desmatadas. Um total de mais de 20 milhões de hectares de floresta tropical já foram derrubados em reservas naturais, reservas indígenas e nas »terras devolutas«. Então um megaprojeto de restauração florestal como o que lançamos na COP 27, abrangendo pelo menos 50 milhões de hectares, é muito importante. Todas essas terras federais e estaduais que permanecem sem designação devem ser demarcadas como territórios indígenas e usadas para criar um grande número de santuários de vida selvagem.
O que você gostaria de ver como resultado da cúpula dos países amazônicos em Belém?
Claro, temos grandes expectativas com o acordo alcançado na Cúpula de Belém com todos os presidentes dos países amazônicos, possivelmente também com o presidente da França, Emmanuel Macron. Seria desejável que os oito países amazônicos e a Guiana Francesa chegassem a um acordo e, a exemplo da UE, formassem uma União de países amazônicos para combater conjuntamente o desmatamento, a degradação florestal e os crimes ambientais que estão explodindo na região, como o grilagem, garimpo ilegal, tráfico de drogas e combate à pesca predatória.
Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].
Os estados do Pará e do Mato Grosso já concentram mais focos de calor este ano do que em 2022, o que torna o cenário preocupante. O fenômeno provoca alterações na temperatura da superfície do Oceano Pacífico e compromete o regime de chuvas na região(Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real/2020).
Por Wérica Lima para a Amazônia Real
Manaus (AM) – O cenário de queimadas e devastação na Amazônia pode ser mais crítico este ano devido à potência do fenômeno climático El Niño, que provoca alterações na temperatura do Oceano Pacífico e compromete o regime de chuvas na região, dizem cientistas consultados pela Amazônia Real. O momento é preocupante porque os focos de calor de 2023, que somam 12.124 registros até o momento, já superam os de 2022, com uma diferença de 772. Uma das ações de prevenção para grandes desastres naturais é o relançamento do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) pelo governo Lula.
Em julho, começa a estiagem em grande parte da região Norte (com exceção de Roraima), estação conhecida como “verão amazônico”. Até outubro, o volume de chuvas cai drasticamente, resultando em tempo seco, que pode ser agravado com o aquecimento do Pacífico.
O Mato Grosso, um dos Estados mais devastados pelas queimadas desde 2019, continua liderando o primeiro lugar no ranking do Satélite de Referência do BDQueimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desde o início do ano até o mês de julho. A região concentra quase metade de todos os focos de calor do ano na Amazônia Legal, com 43,8% de todas as queimadas e um aumento de 20% com relação ao ano passado.
Em segundo lugar no ranking está o Pará, com 25,3% dos focos e, em terceiro, Roraima, um Estado que ganhou destaque nos últimos anos pela grilagem e garimpo e compõe 10,5% de toda a destruição, tomando a posição de anos anteriores do Amazonas, com uma diferença de 0,5%.
“Os Estados da Amazônia onde o número de focos de calor aumentou foram o Pará e o Mato Grosso. No Mato Grosso pode ser que haja uma relação mais próxima entre o desmatamento recente e as queimadas, visto que o estado foi o único onde o desmatamento aumentou comparado com o período anterior. Já no Pará houve uma redução do desmatamento e a área que tem apresentado focos de calor é uma área que aparentemente está queimando mais cedo do que o normal, o que pode indicar um efeito ainda precoce do El Niño”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora da rede colaborativa Mapbiomas Fogo.
O mês de junho registrou 3.075 focos, o que não se via havia 16 anos, desde 2007, no satélite do Inpe. O número representa 20% a mais do que o ano passado e também acende o alerta para estratégias que podem estar sendo desenvolvidas para driblar o governo Lula nas ações de fiscalização.
Conforme os especialistas entrevistados pela Amazônia Real, ainda não há uma explicação exata para que as queimadas estejam maiores do que em 2022 em determinados meses considerados fora do período do fogo, como abril e junho.
Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) (Foto: Ivan Canabrava/ Ipam)
“As queimadas voltaram a preocupar na Amazônia. As causas desse aumento ainda são um pouco inconclusivas, pois um dos principais tipos de queimadas são aquelas utilizadas para finalizar o processo de desmatamento, entretanto, o desmatamento sofreu uma redução importante no primeiro semestre deste ano”, ressalta Ane Alencar.
A redução citada pela pesquisadora, em número, chega a 33,6% nos seis primeiros meses de 2023 em comparação com o mesmo período de 2022, um resultado significativo.
“Pode ser que uma parte dessas queimadas estejam relacionadas com o desmatamento que ocorreu no ano anterior, ou seja, pode ser ainda um legado do governo anterior. Por outro lado, o clima é um fator importante para o alastramento dessas queimadas, gerando incêndios. E no mês de junho foi confirmada a instalação do fenômeno El Niño, que causa seca na Amazônia, principalmente na Amazônia oriental”, afirma a pesquisadora.
Os Estados que Ane Alencar cita como os mais afetados pelo El Niño da Amazônia oriental são Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso. Sem muita surpresa, todos eles estão no ranking com os maiores focos de calor neste mês de julho. Liderando, o Pará encontra-se com 42,1 % dos 3.780 focos da Amazônia Legal somente do mês de julho; em segundo lugar está o Amazonas, com 21,8%; em terceiro, Mato Grosso (19,7%). Nos demais lugares do ranking encontram-se Rondônia (8%), Acre (4%), Maranhão (3,1%), Tocantins (0,8%), Roraima (0,3%) e Amapá (0,1%).
Alberto Setzer, pesquisador titular do Inpe, que atua na Coordenação-geral de Ciências da Terra (CGCT) e já coordenou diversos projetos de monitoramento de queimadas, analisa o aumento.
“Desde o início do ano a Amazônia Legal apresentou 1% a mais de focos do que no ano passado. Para o bioma Amazônia o aumento foi de 10%, já significativo mas não exagerado. Mato Grosso foi o Estado com mais focos em junho, talvez reflexo do período proibitivo de queima, cujo início foi marcado para 1º de julho de 2023, ou seja, uma antecipação das queimas para ficar menos exposto”, ressalta.
Há uma intensa preocupação com os possíveis impactos que o El Niño pode promover. “Anos de El Niño costumam apresentar períodos mais longos sem precipitação e com temperaturas mais altas no sul da Amazônia brasileira, o que facilita o uso e a propagação do fogo na região. A expectativa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, é de 56% de probabilidade de um El Niño forte neste semestre”, explica Setzer.
O grande El Niño
Em 2016, comunidades afetadas pelo El Niño “Godzilla” sofreram com a estiagem no município de Presidente Figueiredo, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).
O cenário para 2023 na Amazônia não é um dos mais favoráveis. A região encontra-se sobre um fenômeno que prolonga o verão e aumenta a temperatura, favorecendo os crimes ambientais e as queimadas. Em 2016, quando o El Niño Godzilla pairou sobre a Amazônia, as taxas de desmatamento e queimadas cresceram em 125% comparadas a anos anteriores, conforme publicado na época pela Amazônia Real. Agora, uma nova onda de calor promovida pelo El Niño, principalmente na região Norte, pode trazer seca e um verão prolongado.
Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o segundo cientista mais citado na área de aquecimento global, fez uma avaliação à reportagemda intensidade do fenômeno este ano.
“O aquecimento no Oceano Pacífico é forte e também está ocorrendo cedo no ano, indicando um grande impacto. A temperatura da superfície do mar está bem acima do normal em uma faixa que se estende praticamente de um lado ao outro do Pacífico na região equatorial. As grandes ondas de calor ocorrendo neste momento na Europa e na América do Norte são consistentes com um El Niño forte”, afirmou.
Conforme o cientista, apesar do El Niño ser um fenômeno natural, que ocorre há milhares de anos e resulta no aquecimento da superfície da água do Oceano Pacífico perto da linha do Equador, ele está aumentando em frequência devido às emissões de gases acima da média emitida pelos humanos.
Na Europa, as ondas de calor estão se espalhando, fazendo as temperaturas chegarem a 40 graus. Um gráfico da Noaa publicado nos últimos dias revela que a mais alta temperatura já registrada no Atlântico Norte em 41 anos, entre 1982 a 2023, é a deste mês de julho de 2023.
Ao ouvir especialistas, o jornal The Guardiannoticiouque “mais de 90% do calor extra causado pela adição de gases de efeito estufa à atmosfera pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento foi absorvido pelo oceano”, o que tem ocasionado altas temperaturas.
Referente aos impactos no Brasil, Fearnside prevê que o fenômeno deve impactar toda a Amazônia. “A Amazônia fica mais quente e mais seca. Isto leva a morte de árvores em pé pela combinação seca e calor, sendo que qualquer planta precisa de mais água se a temperatura aumenta. Também leva a incêndios florestais, que matam mais árvores. As secas de El Niño normalmente afetam mais a parte norte da Amazônia, Roraima sendo o lugar mais famoso para incêndios florestais. No entanto, às vezes as secas se estendem até a parte sudoeste da região, como ocorreu em 2015, quando houve grandes incêndios no Acre”.
Cadastro rural e o fogoBrigadista combate chamas em Rio Branco, no Acre (Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real/2020)
O equivalente a 60% do desmatamento de junho de 2023 ocorreu nas áreas inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), o que aponta para uma temporada de fogo conduzida não por grileiros, mas por fazendeiros. Os dados são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes).
Para Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, o governo federal está debruçado na análise do aumento de queimadas e ainda não conseguiu achar uma resposta. Ele ressalta, porém, o papel da matéria orgânica das áreas desmatadas anteriormente por fazendeiros.
Além disso, Astrini afirma que existem situações facilitadoras para que as queimadas estejam crescendo, principalmente o curto tempo que o governo Lula tem para que haja implementação das ações de combate e governança na região da Amazônia.
“Até agora eles [órgãos federais] têm tentado restabelecer essa governança, estão com problemas porque as agências de fiscalização sofreram sabotagem nos últimos anos, mas estão sendo recuperadas, estão atuando. Portanto, o que a gente pode esperar é que o governo, com as forças que tem, com as possibilidades que tem hoje, faça uma atuação para diminuir as queimadas e o desmatamento”, acrescenta.
Ele demonstra preocupação com as ações dos governos estaduais da Amazônia, que ao longo dos últimos anos adotaram agendas antiambientais. Astrini cita como exemplo o governador de Roraima, Antônio Denarium, que contribuiu com a situação do garimpo no estado ao autorizar o uso do mercúrio e as situações políticas vividas no estado de Rondônia, onde houve tentativa de acabar com as unidades de conservação.
“Os governadores precisam agora mostrar na prática que desejam mudar e realmente atuar contra as queimadas e a favor da floresta, mas infelizmente a gente não vê isso de forma clara, ostensiva ou tendo esperanças aí de que esses governadores vão se mobilizar, o que é torna ainda mais difícil qualquer batalha para proteção da Amazônia, porque o aparato dos Estados, principalmente a força policial, é fundamental para complementar a força do governo federal no combate ao crime”, complementa.
Fumaça das queimadasFumaça provocada pelas queimadas encobre a cidade de Novo Progresso, Pará, em 2022 (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2022)
Anualmente, os incêndios e impacto das fumaças chegam até as cidades. A temporada do fogo é um cenário que se repete, aumenta o número de doenças respiratórias, mas ainda não tem ação concreta de mitigação por parte dos estados da Amazônia. Como exemplo, no último ano a fumaça chegou nas áreas urbanas de Novo Progresso e Altamira, no Pará, e Manaus, no Amazonas.
Ane Alencar acredita que com o relançamento do PPCDam, os governos têm incentivos para trabalharem seus planos de controle do desmatamento e queimadas, ou, no mínimo, para reativar os planos nesta temporada.
Criado em 2004, o PPCDAm foi o principal responsável pela queda de 83% do desmatamento até 2012, segundo dados do Inpe. Com a revogação do PPCDAm em 2019 e o desmonte dos órgãos ambientais no governo Bolsonaro, o desmatamento atingiu a marca de 13 mil km² em 2021, o que não ocorria desde 2006. Isso afastou o país das metas estabelecidas em acordos internacionais.
A quinta fase do plano estabelece a meta de desmatamento zero até 2030, a partir de quatro eixos temáticos: atividades produtivas sustentáveis; monitoramento e controle ambiental; ordenamento fundiário e territorial; e instrumentos normativos e econômicos voltados à redução do desmatamento e à efetivação das ações abrangidas pelos demais eixos.
“Entretanto, a temporada do fogo está aí, no mínimo tanto o governo federal quanto os governos estaduais já deveriam estar com campanhas prontas para a redução do uso do fogo e para prevenção, porque eu acho que isso ajuda bastante, principalmente num contexto onde o clima está bastante favorável para ocorrência de incêndios”, ressalta a pesquisadora, que também frisa o papel do engajamento da sociedade no tema.
A respeito da governança e fogo nos estados, A Amazônia Real procurou todas as secretarias de meio ambiente dos nove estados da Amazônia Legal para coletar informações sobre preparo para a temporada de fogo e monitoramento, mas obteve baixo retorno, indicando uma possível falta de organização e preparo nos estados.
Apenas quatro estados retornaram até a publicação desta reportagem. No Mato Grosso (MT), a secretaria respondeu que o investimento para combater e prevenir queimadas chegou a R$ 38 milhões e que o Plano de Operações da Temporada de Incêndios Florestais (POTIF) prevê a implantação de 81 instrumentos de resposta, composto por 25 unidades do Corpo de Bombeiros, 29 Brigadas Estaduais Mistas, 17 Brigadas Municipais Mistas, sete bases descentralizadas de Bombeiro Militar e quatro equipes de intervenção e apoio operacional.
A respeito do monitoramento, a Secretaria de Meio Ambiente informou que possui quatro equipamentos para monitorar a qualidade do ar na capital Cuiabá. Elas são responsáveis por avaliar a concentração de gases poluentes e material particulado na atmosfera.
No Amazonas, a secretaria informou apenas que a primeira fase da Operação Aceiro 2023 começou para combater incêndios florestais no sul do Amazonas. É composta por 74 bombeiros militares e 10 viaturas com destino aos municípios de Humaitá, Apuí, Boca do Acre, Lábrea e Manicoré. Não houve respostas às demais perguntas sobre monitoramento da qualidade do ar, que até 2022 não possuía equipamentos.
Já no Maranhão, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais informou que 25 municípios estão dentro do plano de combate às queimadas com foco nos municípios mais atingidos e tem feito monitoramento de queimadas e emissão de boletins de monitoramento de focos de calor.
Com relação ao monitoramento da qualidade do ar, afirmou que possui seis estações de monitoramento em São Luís e nos demais municípios o controle da qualidade do ar é realizado através de relatórios de automonitoramento enviados por empreendimentos licenciados pelas secretarias locais.
À Amazônia Real, a Secretaria do Meio Ambiente de Rondônia, umestado devastado pelo agronegócio, não respondeu aos questionamentos sobre monitoramento, mas informou que “vem desenvolvendo atividades como campanhas de educação ambiental nas escolas, pit stop de educação e conscientização ambiental, intensificação na fiscalização, divulgação nas redes sociais, palestras com o tema risco de queimadas, além do WhatsApp de denúncias”.
As secretarias dos Estados do Pará, Tocantins, Acre, Amapá e Roraima não responderam às perguntas enviadas pela Amazônia Real.
Este texto foi publicado originalmente pela Amazônia Real [Aqui!].
Degradação da Floresta Amazônica é maior que desmatamento e emite tanto carbono quanto
Por Mariza Louven para o Carbon Report
A notícia de que oBrasil perdeu 15% de suas florestas tropicais primárias, de 2021 para 2022, a maior parte na Amazônia, não surpreendeu o professor Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense, de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Este problema, resultante do desmatamento, é a ponta mais conhecida do iceberg. Outro, menos visível e igualmente prejudicial ao meio ambiente e ao clima, é a degradação das áreas remanescentes. Ambos são agravados pelo que ele chama de “uma certa esquizofrenia” governamental.
A degradação florestal não é tão bem documentada quanto o desmatamento e nem recebe a mesma atenção do governo e da sociedade, dificultando seu combate. Isso torna ainda mais relevante a pesquisa científica sobre a extensão dos danos às florestas que ainda resistem em pé.
O fogo, a extração de madeira e outras atividades antrópicas (humanas) provocaram a degradação de 250 mil quilômetros quadrados (km2) da Floresta Amazônica, entre 2001 e 2018, segundo estudos de um pool de pesquisadores do qual Pedlowski faz parte. É uma área maior do que a do Reino Unido (243.610 km²) e equivalente a 38% do bioma.
São danos nem sempre reversíveis e que levam a emissões de carbono comparáveis às provocadas pelo desmatamento. Provocam também diminuição equivalente da biodiversidade e os mesmos impactos negativos sobre o regime de chuvas.
Dados baseados na ciência
Pedlowski é um dos que assinam textos sobre a degradação florestal da Amazônia veiculados por publicações como a Science Magazine. Um deles,“Os drivers e impactos da degradação da floresta amazônica”, de janeiro deste ano, revisou trabalhos anteriores sobre os impulsionadores da mudança na Amazônia e mostrou que elas estão ocorrendo muito rapidamente. A emissão de carbono provocada pela degradação florestal é comparável à resultante do desmatamento. Varia de 50.000 a 200.000 toneladas de carbono por ano, comparável à do desmatamento, de 60.000 a 210.000 toneladas.
Os pesquisadores haviam publicado, em 2020, o texto “Degradação florestal de longo prazo supera o desmatamento na Amazônia brasileira”, baseado em dados de sensoriamento remoto com resolução espacial de 30 metros. Eles descobriram que a extensão e a taxa de degradação florestal eram iguais ou superiores às desmatadas, com implicações importantes sobre a quantidade de carbono estocado pela floresta, a biodiversidade, o equilíbrio energético e a política internacional.
“Esses estudos já deveriam ter gerado uma mudança de paradigma nas ações governamentais em prol do uso sustentável da Amazônia, mas no governo Bolsonaro caíram em ouvidos surdos. E, no governo Lula, não vi mudança de postura até agora. Continua a ladainha do desmatamento zero, enquanto o problema da degradação é negligenciado”, afirma Pedlowski
A degradação florestal alcança atualmente um status tão ou mais grave do que o desmatamento. Ainda assim, os esforços realizados internacionalmente para impedir o avanço da destruição das florestas tropicais mencionam apenas o desmatamento. “É como se o que ainda não foi desmatado estivesse totalmente preservado. Isso não é, absolutamente, a verdade”, acrescenta.
Marcos Pedlowski enxerga avanços no governo Lula, mas também desencontro de ações
Desencontro de ações
Os próximos meses serão decisivos para diferenciar a gestão Lula da anterior. Pedlowski reconhece que qualquer avaliação do governo, agora, será sempre parcial e que houve avanços no controle do desmatamento. Ele vê recuperação de uma certa racionalidade no processo de gestão, inclusive do ministério do Meio Ambiente, e reconhece que, dado o que estava acontecendo antes, isso não é pouco.
Há, entretanto, lentidão na formação das equipes dentro de ministérios e agências, o que prejudica a execução da agenda proposta durante a campanha eleitoral do agora presidente Lula.
Quando fala em esquizofrenia governamental, o professor não está se referindo apenas à demora para reequipar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas ao desencontro de ações.
“Por um lado, dentro do governo, fomentam o desmatamento e a degradação; e, por outro, procuram conter esses processos”, diz ele. Para reforçar esta tese, cita o atraso na formação de equipes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), enquanto no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) técnicos que atuaram no governo Bolsonaro foram promovidos.
Desmatamento legal
O pesquisador também chama a atenção para o grande peso do desmatamento legal, relacionado às políticas e projetos governamentais que apoiam o crescimento da agricultura em grande escala, extração seletiva de madeira e mineração. “Se olharmos em retrospectiva a ocupação da Amazônia, desde a década de 1970, sempre encontraremos projetos governamentais que estimularam tanto o desmatamento quanto a degradação florestal”, afirma.
Agora mesmo, no governo Lula, continua Pedlowski, existem propostas para a pavimentação da BR-319 e para a construção da chamada Ferrogrão que, se executadas, resultarão na abertura da porta de entrada para áreas ainda relativamente intactas da floresta amazônica.
Na opinião dele, estamos diante de um momento que poderá ser paradigmático para o futuro da Amazônia. Se o governo insistir em financiar projetos que poderão ter um efeito dominó em relação ao desmatamento e à degradação florestal, qualquer menção ou discurso ao desenvolvimento sustentável das florestas brasileiras, incluindo aí o Cerrado, será letra morta.
“Há que se levar a sério a necessidade de proteger as florestas brasileiras. Seguramente, elas valem mais em pé do que deitadas”, afirma. Entretanto, para isso, será necessário “superar a mentalidade de que o desmatamento e a degradação justificam uma espécie de destino manifesto do Brasil”.
Diferentes soluções
Como combater, efetivamente, as perdas florestais, que estão levando ao desaparecimento das florestas tropicais primárias? Para ele, a resposta passa por diferentes dimensões.
Uma delas é mais da alçada do governo, como restabelecer o sistema de comando e controle que foi basicamente desmantelado durante a gestão anterior. Isso envolve não apenas recuperar a capacidade de fiscalização no chão, mas também os sistemas de monitoramento que existiam e funcionavam com toda a qualidade, principalmente aqueles instalados dentro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Outra, é a desmilitarização completa de órgãos como o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), “que foram asfixiados pela instalação de chefias militares”, complementa.
Na avaliação de Pedlowski, também será preciso recuperar a sinergia com os órgãos ambientais estaduais, fato que não ocorreu ao longo da administração de Jair Bolsonaro. Sem isso, o professor acredita que não será possível estabelecer processos de cooperação que fortaleçam as ações de fiscalização, o desenvolvimento de políticas positivas e ações de estímulo a setores que vivem da exploração dos recursos florestais para manterem a floresta em pé. Isso passa pela valorização dos produtos não madeireiros.
O engajamento do setor privado
Segundo Pedlowski, o setor privado também deve ter um papel relevante. Sem a participação do setor privado, reconhece, não há como resolver grande parte das dificuldades que existem em torno da proteção da biodiversidade e busca de um crescimento econômico que não potencialize esquemas deletérios para o meio ambiente: “O setor privado tem que contribuir com soluções e não apenas com ferramentas de corporate washing, mantendo o business as usual”.
No caso do desmatamento causado pela expansão das áreas cultivadas com grãos, prevê, não haverá saída se as corporações globais que controlam as cadeias de produção e comercialização não começarem a agir com seriedade. Precisam impor restrições a produtos oriundos de áreas desmatadas ilegalmente, como começará a ser feito pela União Europeia.
Ele inclui a questão da madeira extraída ilegalmente e que tem impacto direto sobre o avanço do processo de degradação florestal em todos os países tropicais. “Sem que esses grandes atores adotem mecanismos efetivos de rastreamento ao longo da sua cadeia de produção, qualquer compromisso será inútil”, prevê.
O engajamento de governos e empresas é fundamental para impedir que as atividades clandestinas sejam premiadas com a inserção de seus produtos nos mercados nacionais e internacionais. Sem esse passo básico e fundamental, na visão de Pedlowski, as estruturas de fiscalização não resolverão o problema sozinhas.
E o mercado de carbono?
O mercado de carbono é uma das muitas ferramentas desenvolvidas para engajar o setor privado nos esforços de harmonizar demandas de crescimento com proteção ambiental. Para Pedlowski, no entanto, existem poucas evidências de que poderá alavancar essa sinergia.
Um dos principais obstáculos, na opinião dele, é a definição de quem irá efetivamente regular o funcionamento do sistema de créditos de carbono, ou ainda se isso é efetivamente viável. Um exemplo citado por Pedlowski é o episódio ocorrido no início deste ano, quando uma investigação liderada pelo jornal britânico “The Guardian” descobriu que compensações de carbono florestal aprovadas pela certificadora Verra, usadas por grandes corporações como a Disney, Shell e Gucci, são em grande parte inúteis e podem piorar o aquecimento global.
O peso do agronegócio e da geopolítica
O professor destaca a agricultura industrial, gerada pela “Revolução verde”, como uma grande emissora de carbono. Como hoje este setor domina a paisagem agrícola brasileira e cobre grandes extensões de terra, não há como pensar em soluções sem que o agronegócio seja parte integrante da equação.
Na opinião dele, o controle de emissões de gases de efeito estufa deve passar por uma combinação de mecanismos de regulação estatal com outros criados pelas relações de mercado. Entretanto, como o mercado é sempre mais pragmático, a questão seria como criar um sistema de incentivos que combine elementos positivos e negativos para, digamos, criar a dinâmica necessária e um controle mais eficiente.
Não se gera mudança em práticas de mercado só com restrições, reforça. É necessário colocar a possibilidades de ganho na equação. Caberia às lideranças multilaterais decidirem como criar um sistema de controle de emissões que combine restrição e incentivo.
“Uma coisa que se pode dizer é que as múltiplas reuniões multilaterais realizadas nas últimas décadas não geraram um sistema confiável para todos os atores envolvidos no processo”, avalia. Quando muito, complementa, produziram soluções parciais, enquanto a destruição das florestas continua avançando.
Mais recursos para a pesquisa
Pedlowski chama a atenção, ainda, para a necessidade de fortalecimento do financiamento para a pesquisa na Amazônia. Lá existem universidades e instituições de pesquisa como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) que têm um largo conhecimento sobre formas de exploração dos recursos das florestas amazônicas.
É fundamental, na avaliação dele, que essas instituições e grupos de pesquisa sejam corretamente financiadas, de modo a potencializar o desenvolvimento de estratégias e o uso sustentável dos ecossistemas amazônicos. Existem experiências e evidências científicas de que é possível explorar recursos madeireiros e não madeireiros na Amazônia, de forma eficiente e menos agressiva para as florestas.
“A questão é que, objetivamente, quando se formulam as políticas para a Amazônia, há mais dinheiro para boi e pasto e menos para sistemas agroflorestais, por exemplo. Enquanto isso não for alterado pelas diferentes esferas de governo e por instituições financeiras estatais e privadas, não há como esperar qualquer mudança prática”, completa.
“Participei de um projeto piloto de regeneração florestal em Rondônia, entre 1992 e 2008, e uma das lições que tirei dessa experiência é: muitas vezes, as soluções são geradas por quem vive na região. Posso afiançar que há muito espaço para criatividade e inovação em locais e pessoas que são normalmente invisíveis para quem formula as políticas públicas para a Amazônia”.
Este texto foi inicialmente publicado pelo CarbonReport [Aqui!]
Estudo publicado pela organização Mighty Earth mostra que fazendas fornecedoras da empresa desmataram 11 mil hectares no Matopiba entre 2021 e 2023; material cita entre as fontes reportagens e dossiê do De Olho nos Ruralistas
Por Nanci Pittelkow
Enquanto o governo de Luiz Inácio Lula da Silva comemora a redução de 31% no desmatamento da Amazônia de janeiro a maio de 2023, em comparação com o mesmo período do ano anterior, no Cerrado a alta foi recorde. Somente em maio deste ano os alertas de desmatamento no bioma foram 83% maiores do que em 2022, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Uma pesquisa da Mighty Earth, publicada em parceria com a Repórter Brasil e o Instituto Centro de Vida (ICV), mostra que a Bunge, principal exportadora de soja no Brasil, responde por parte significativa dessa destruição.
Relatório da Mighty Earth cita dados do De Olho nos Ruralistas sobre Bunge
Em 2022, a multinacional estadunidense anunciou uma nova política de “desmatamento zero” no Cerrado, tendo o ano de 2020 como data-limite para a compra de soja oriunda de áreas desmatadas — isto é, qualquer fazenda com desmate realizado após esta data seria cortada da relação oficial de fornecedores.
Essa política ainda não saiu do papel: o relatório “Salvando o Cerrado: porque Bunge, supermercados e governos devem agir imediatamente” aponta que, entre junho de 2021 e março de 2023, três fornecedores diretos da Bunge foram responsáveis pelo desmatamento de 11.351 hectares, nos municípios de Luis Eduardo Guimarães e Barreiras (BA) e Baixa Grande do Ribeiro (PI). Além disso, a empresa pode estar atrelada indiretamente a outros 14.598 hectares devastados em cinco fazendas no mesmo período, todas no Matopiba — região que engloba as áreas de Cerrado dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A Bunge confirmou possuir relações com quatro das oito fazendas listadas.
Entre os fornecedores diretos identificados pela Mighty Earth estão o Grupo Franciosi, o Condomínio Milla e a InSolo Agroindustrial. Esta última foi beneficiada na transferência de 61 títulos fundiários pelo ex-governador piauiense Wilson Martins (PSB), conforme mostrou reportagem do observatório durante as eleições de 2018: “Histórias de grilagem e venda de terras públicas marcam candidaturas no Piauí“.
Entre os indiretos, o destaque vai para Irineu Orth, suplente do senador ruralista Luis Carlos Heinze (PP-RS), ex-presidente e dirigente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Em 2019, De Olho nos Ruralistas identificou a relação de fazendas do político gaúcho no especial Mapa de Terras de Parlamentares. Entre elas, a Tapera Grande, em Correntina (BA), onde 937 hectares foram desmatados ilegalmente entre julho de 2022 e janeiro de 2023, segundo a Mighty Earth.
Bunge possuía imóvel sobreposto à TI Morro Alto, no porto de São Francisco do Sul. (Eduardo Carlini/De Olho nos Ruralistas)
Publicado em junho, o relatório da Mighty Earth aponta a política de controle e fiscalização de fornecedores da Bunge como uma das mais fracas do setor. Entre as fontes usadas para endossar o descumprimento das salvaguardas ambientais pela empresa, o estudo cita a primeira parte do dossiê “Os Invasores“, deste observatório, que tem um capítulo destinado à participação de gigantes da soja em sobreposições de terras indígenas.
No caso da Bunge, o povo Guarani Mbya luta desde 2009 para que a demarcação da TI Morro Alto, em Santa Catarina, seja concretizada. No caminho está o imóvel “Projeto São Francisco 135”, que avança 134 hectares no território reivindicado pelos indígenas. A área, destinada à instalação de armazéns portuários, pertencia, até meados de 2022, à Bunge Alimentos S.A., uma das subsidiárias da gigante estadunidense.
Entre 2019 e 2020, este observatório integrou um consórcio de pesquisa junto à Mighty Earth e à ONG holandesa AidEnvironment, para publicação de relatórios mensais de desmatamento na Amazônia e no Cerrado, identificando os proprietários de cada fazenda. Intitulado Rapid Response, o projeto teve mais de vinte edições e foi consolidado também em português: “De Olho nos Ruralistas publica relatórios sobre desmatamento na Amazônia e no Cerrado“. Parte dos dados foi usada na nova publicação sobre a Bunge.
Bunge responde de forma evasiva
A Bunge é a maior compradora da soja no Cerrado e com mais silos na região. (Divulgação)
A Bunge é a quarta maior exportadora entre todos os setores e a primeira no setor agrícola do Brasil. Os derivados de soja da Bunge são usados principalmente como ração na produção de carne bovina, suína, de aves e de laticínios, que é vendida em supermercados brasileiros e da Europa, além de abastecer cadeias de fast food. Mais de 80% da receita da multinacional depende da soja e seus derivados.
No Cerrado, as atividades da Bunge representam 50% do risco de desmatamento de todo o bioma. A Bunge confirmou o fornecimento direto de soja de quatro das oito fazendas identificadas com desmatamento, mas não demonstrou intenção de parar de comprar desses sojeiros. A empresa tampouco anunciou investigação interna sobre outras fazendas do Cerrado em áreas com risco de desmatamento.
Como conclusão, a Mighty Earth pede que a União Europeia inclua explicitamente o Cerrado e todos os outros ecossistemas naturais no escopo do regulamento de desmatamento e rejeite qualquer acordo de livre comércio que ponha em risco os ecossistemas naturais vulneráveis e a proteção dos direitos e dos meios de subsistência das comunidades indígenas e tradicionais.
Nanci Pittelkowé jornalista.
Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].