Rachaduras colocam em xeque a situação de responsabilidade de Instituições Financeiras na regulação do desmatamento

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Internacionalmente, as instituições financeiras (IFs) continuam isentas de regulamentações cruciais para aumentar seus esforços e responsabilidade para deter o desmatamento e as violações dos direitos humanos ligadas às cadeias de suprimentos que financiam. Recentemente, no entanto, alguns passos iniciais foram propostos no Brasil para mudar essa situação, e um relatório do Rabobank mostrou que o dano ambiental e social vinculado ao financiamento do banco a setores de risco florestal no Brasil é material.

Em 29 de maio, a Associação Brasileira de Bancos (Febraban) lançou uma nova autorregulamentação que limita o financiamento a frigoríficos que solicitem a seus clientes a implementação de um sistema de rastreabilidade e monitoramento que permita demonstrar a exclusão de fornecedores (diretos e indiretos) ligados ao desmatamento ilegal . A regulamentação foi adotada voluntariamente por 21 bancos , incluindo grandes como Itaú Unibanco, Santander, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, Safra e BTG Pactual.

A regulamentação cria uma etapa que complementa algumas exigências existentes pelo Banco Central do Brasil na concessão de crédito a agroindústrias e produtores rurais. No entanto, tem várias deficiências. É importante ressaltar que abrange apenas o desmatamento ilegal e se limita à Amazônia Legal e ao Maranhão, deixando de fora a maior área de vegetação nativa do importante e em rápido desaparecimento do bioma Cerrado. Além disso, pede rastreabilidade total para matadouros até dezembro de 2025 e isenta fornecedores indiretos abaixo de 100 hectares.

Regulamentos da União Europeia

Na União Europeia (UE), as IFs foram excluídas da prestação de contas e relatórios no regulamento de desmatamento da UE (EUDR), bem como na posição de negociação do Parlamento Europeu (1º de junho de 2023) sobre a Diretiva de Devida Diligência de Sustentabilidade Corporativa (CSDDD) . Eles são excluídos no momento em que seus financiamentos permitem que as empresas continuem suas atividades nos biomas Amazônia e Cerrado. Essas atividades contribuíram para o desmatamento, danos ao clima e à biodiversidade, bem como danos à saúde e danos às populações indígenas. O CDSDD sustentará o Regulamento de Divulgação de Finanças Sustentáveis ​​(SFDR), que regula principalmente fundos de investimento e gestores de carteiras. Esses fundos, de propriedade das IFs, podem optar por não serem sustentáveis ​​caso não adotem o SFDR.

A EUDR diz que a presente iniciativa não terá como alvo específico o setor financeiro e os investimentos. A razão é que as iniciativas existentes na área de finanças sustentáveis, como a implementação do Regulamento de Taxonomia da UE e a futura Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) (sucessora da atual Diretiva de Relatórios Não Financeiros, NFRD), são consideradas adequadas para abordar os impactos do desmatamento dos setores financeiro e de investimento, complementando e apoiando, assim, esta iniciativa legislativa sobre o desmatamento.

No EUDR, as autoridades da UE avaliarão a posição atual das IFs. Isso também ocorre porque o papel dos bancos e investidores no financiamento de setores de risco florestal é significativo. De 2010 a 2022, os bancos e investidores da UE27 forneceram um total de USD 44,6 bilhões (Florestas e Finanças) em financiamento (identificado e ajustado) para setores globais de risco florestal. Os maiores provedores entre os bancos foram Rabobank, Santander e BNP Paribas, e os maiores investidores foram Crédit Agricole, PFZW (Pensioenfonds Zorg en Welzijn) e Deutsche Bank. Bancos na Holanda, Espanha e França foram de longe os maiores financiadores.

Relatório sobre os danos ambientais e sociais do Rabobank no Brasil

Um relatório sobre o Rabobank, um banco cooperativo comercial holandês ativo em todo o mundo com foco na agricultura, calculou os danos ambientais e sociais do banco. O relatório concluiu que o financiamento de atividades de risco florestal no Brasil e o financiamento de atividades pecuárias de origem holandesa resultaram em danos ambientais e sociais materiais no período 2000-2022. O financiamento total do Rabobank dessas duas atividades aumentou sete vezes de 8,8 bilhões de euros de 2000 até o final de 2022. A empresa obteve um resultado bruto (receita líquida de juros mais taxas menos custos operacionais) nessas atividades de 717 milhões de euros no período 2000-2022.

No entanto, a estimativa de danos ambientais, de saúde e sociais causados ​​por esses fluxos financeiros para os setores brasileiros de risco florestal é muito maior: pelo menos 66 bilhões de euros em um cenário “baixo” e 459 bilhões de euros em um cenário “alto”. O Rabobank não pagou por esses custos, mas eram custos externos para a sociedade: custos climáticos, custos do ecossistema e custos de saúde decorrentes da poluição do ar e da água. Um total de 387.700 hectares (66 vezes a área de Manhattan em Nova York, ou 23 vezes Amsterdã) de desmatamento pode ser vinculado à participação do Rabobank (ajustada para participação no valor da empresa) no financiamento de atividades de risco florestal. Não estão incluídos nas estimativas de custo os danos ao valor intrínseco da natureza, além dos danos sociais e culturais às populações indígenas que perderam suas terras. Estes não podem ser calculados.

Os financiadores terão de se preparar para eventualmente serem incluídos na EUDR e na UE CSDDD, com a sociedade civil a aumentar a pressão sobre eles. Eles podem enfrentar riscos financeiros se deixarem de cumprir os esforços de implementação e conformidade. Isso se soma aos riscos dos ativos que financiam: Esses riscos consistem em perda de receitas, perda de EBITDA, riscos de financiamento e perda de valor de reputação. Vários relatórios da Chain Reaction Research demonstraram que os custos de execução e monitoramento – por exemplo, políticas ou leis de não desmatamento, como NDPE (No Deforestation, No Peat, No Exploitation) e EUDR – são muito mais baixos do que os riscos financeiros, particularmente para os setores a jusante.


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Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

Apesar da perda de habitat, mais onças estão habitando o Parque Nacional do Iguaçu

As populações de grandes felinos se recuperaram um pouco em torno das Cataratas do Iguaçu no Brasil e na Argentina

onça pniCom a ajuda de armadilhas fotográficas, foi possível contar as onças-pintadas na Mata Atlântica. Foto: Projeto Yaguareté (CeIBA-CONICET)

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

O Parque Nacional do Iguaçu, no estado do Paraná, no sul do Brasil, é famoso por ter as maiores cachoeiras de mesmo nome do mundo. Cerca de dois milhões de turistas visitam anualmente o parque nacional na fronteira com a Argentina. O que é menos conhecido é que abriga um dos últimos grandes remanescentes da Mata Atlântica rica em espécies e, portanto, um importante refúgio para a onça-pintada, ameaçada de extinção neste biomaO número de onças no santuário mais do que dobrou no ano passado em comparação com 2009. Em números absolutos, ainda existem apenas cerca de 25 animais perambulando pelo santuário. Esse foi o resultado de um estudo divulgado em junho pelos projetos de proteção à onça-pintada “Yaguareté”, na Argentina, e “Onças do Iguaçu”, no Brasil.

Há 20 anos, os dois projetos monitoram as mudanças na população do maior felino da América do Sul nas áreas transfronteiriças da Mata Atlântica nos rios Paraná, Iguaçu e Uruguai. Com o apoio da Fundação Vida Silvestre Argentina, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil) e de instituições estatais de conservação da natureza, realizaram no ano passado o censo de onça-pintada mais completo até hoje.

A área de estudo, com área total de 582.123 hectares, inclui a província de Misiones, no nordeste da Argentina, e as duas unidades de conservação brasileiras adjacentes, o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, com 185.262 hectares, e o Parque Estadual do Turvo, com área de 17.491 hectares no Rio Grande do Sul . Os pesquisadores de grandes felinos colocaram armadilhas fotográficas em 224 locais selecionados, que são ativados por sensores sensíveis à temperatura e ao movimento.

Um dos grandes felinos tímidos, que chegava a 2,50 metros de comprimento e pesava 140 quilos, caiu em uma das armadilhas um total de 3.763 vezes durante o período do estudo. Como os animais podem ser distinguidos pelo padrão de suas manchas de pelo, como as pessoas por suas impressões digitais, os pesquisadores puderam contar o número de indivíduos fotografados e, usando modelos matemáticos, calcularam o tamanho provável da população de grandes felinos na região. .

Os resultados mostram que no ano passado havia entre 72 e 122 onças em Misiones com 95% de certeza, dando uma população média de 93. A população se estabilizou em um nível entre 90 e 100 indivíduos desde 2016, após um declínio drástico no início do século XXI na província do nordeste argentino.

“Considerando que tínhamos apenas cerca de 40 onças em Misiones em 2005, podemos supor que as medidas de conservação desta espécie trouxeram bons resultados”, comenta Agustín Paviolo, coordenador do projeto “Yaguareté”. “No entanto, a ameaça aos grandes felinos permanece latente e, em alguns casos, crescente, por isso precisamos redobrar nossos esforços para salvar as espécies da extinção”.

Biólogos identificaram de 19 a 33 onças-pintadas no Parque Nacional do Iguaçu, no Brasil. Em comparação com 2009, quando apenas nove a onze gatos-pintados foram contabilizados e a espécie estava ameaçada de extinção local, a população na área protegida pelo menos se recuperou, de acordo com o estudo.

Segundo estimativas dos cientistas, entre 1990 e 1995 viveram entre 400 e 800 onças-pintadas na região de estudo, 164 delas na Unidade de Conservação do Iguaçu. As principais causas dodeclínio na população de grandes felinos desde 1995 houve a perda de habitat, a maior fragmentação das áreas florestais devido à construção de estradas e os acidentes de trânsito associados, bem como o tiro ilegal dos predadores e a caça excessiva de sua presa mais importante, os queixadas. Essa espécie, também conhecida como queixada, foi considerada extinta no Parque Nacional do Iguaçu em 1996. Somente em 2016 os pecaris retornaram à área, o que os pesquisadores acreditam ter tido um impacto positivo na população de onças-pintadas do Iguaçu. Eles supõem que cerca de 250 a 300 onças vivam ainda em toda a área da Mata Atlântica.

A Mata Atlântica, chamada de Mata Atlântica no Brasil, é um dos ecossistemas de maior biodiversidade da Terra, que já se estendeu por cerca de 1,4 milhão de quilômetros quadrados do norte da Argentina e Paraguai ao nordeste do Brasil. A Mata Atlântica no Brasil está sob proteção rigorosa, pelo menos no papel, desde 1993. Mesmo assim, cerca de 90% da Mata Atlântica brasileira já foram destruídos. E o desmatamento continua.

Segundo relatório divulgado em maio pela organização ambiental SOS Mata Atlântica, mais de 20.000 hectares de Mata Atlântica no Brasil foram queimados ou desmatados em 2022. Embora grande parte do crime florestal tenha ocorrido de forma ilegal, a Mata Atlântica do Paraná também está sendo atacada legalmente, até mesmo em nome do turismo de natureza: para que ainda mais “turistas da natureza” possam visitar a Unidade de Conservação do Iguaçu, que foi privatizada desde 1998, de carro , o governo para dobrar a largura da única estrada de acesso em uma distância de 8,7 quilômetros. Centenas de árvores já foram derrubadas para esse fim. Não houve resistência à expansão rodoviária, nem em Brasília nem no estado do Paraná, cuja principal fonte de renda é o turismo de massa de Iguaçu.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!]

MCTI vai expandir monitoramento dos biomas para identificar causas do desmatamento

Ferramenta TerraClass usada apenas na Amazônia aponta motivos para derrubada de árvores, como garimpo ou pecuária

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Foto: Luara Baggi (ASCOM/MCTI)
 

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vai expandir o monitoramento dos biomas para identificar as possíveis causas do desmatamento. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (6) pela secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI, Marcia Barbosa, durante entrevista coletiva sobre os dados do desmatamento no primeiro semestre de 2023. Segundo ela, a ferramenta TerraClass, que usa como base os dados de satélites, passará a monitorar outros biomas, além da Amazônia.

Enquanto os programas Prodes e Deter fazem o mapeamento das áreas desmatadas, o TerraClass investiga os motivos e aponta as possíveis causas da derrubada de árvores, como garimpo ou pecuária.

“O MCTI é parceiro do Ministério do Meio Ambiente neste controle do desmatamento através dos programas Prodes e Deter. Mas queremos expandir o TerraClass, que permite um outro olhar do que está ocupando o espaço desmatado. O MCTI está expandindo essa ferramenta para outros biomas, e vamos disponibilizar a ferramenta para ter um olhar diferenciado em relação ao desmatamento”, afirmou a secretária.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no primeiro semestre deste ano, o desmatamento na Amazônia caiu 33,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Por outro lado, foi registrado aumento de 21% no desmatamento no Cerrado.

“A redução do desmatamento na Amazônia se deve a um conjunto de ações que vão desde o aumento da fiscalização, dos embargos feitos pelo Ibama, ações coordenadas juntos com os estados e um processo de dissuasão de que não haverá conivência com a criminalidade. Isto tem um efeito positivo para a redução do desmatamento”, destacou a ministra Marina Silva.

Nacionalismo da motosserra desconhece ideologias para justificar o injustificável

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As últimas declarações irritadas do presidente Lula sobre as demandas da União Europeia por contenção do avanço do desmatamento na Amazônia parecem saídas do mesmo baú de onde Jair Bolsonaro tirava as suas falas. Aliás, se olharmos um pouco mais para baixo e analisarmos a trajetória do ex-comunista Aldo Rebelo também notaremos forte semelhança no discurso.

As falas geralmente incluem uma recriminação para o desmatamento cometido pelos europeus em suas terras, o que objetivamente ignora as discrepâncias de formações florestais de lá e de cá e também os esforços realizados do outro lado do Atlântico para recuperar parte das florestas perdidas ao longo do tempo, o que trouxe ganhos visíveis na cobertura florestal europeia.  Aliás, essas falas desconhecem que os principais desmatamentos cometidos pelos europeus ocorreram em suas colônias na América, África e Ásia.

Mas nada disso importa quando se equaciona desmatamento a desenvolvimento econômico, pois objetivamente o que se diz é que se os europeus puderam desmatar e degradar suas florestas para se desenvolverem, o Brasil também teria que ter esse direito. 

Essas afirmações todas obscurecem ainda que no Brasil já existe terra desmatada o suficiente para que não seja mais desnecessário derrubar mais um centímetro de floresta que seja, e que todo esse discurso que eu chamo de nacionalismo da motosserra” serve pra ocultar a disposição de aceitar que o processo de grilagem de terras e saque dos recursos naturais siga seu curso, em nome do processo de desenvolvimento nacional, é claro.

O problema é que o Brasil é um dos maiores emissores globais de CO2 justamente por causa do desmatamento e queima de suas florestas. Disso decorre que, ao contrário do que prega o nacionalismo da motosserra,  nosso país é um dos “major players” do aquecimento global, e que não é possível tolerar que continuemos devastando nossas florestas em nome de um processo que nada tem a ver com desenvolvimento, já que os beneficiários do saque das riquezas representam uma fração mínima da população brasileira.

Em suma, que ninguém se deixe levar pelo nacioanalismo da motosserra, pois as mudanças climáticas são reais e os próximos meses de El Niño vão deixar isso bastante claro.

A posição de Lula sobre o desastroso acordo UE-Mercosul é acima de tudo hipócrita

lula eu mercosulLula se reúne com a presidente da Comissão Europeia e critica previsão de sanções no acordo Mercosul-UE. Ricardo Stuckert/PR 

Quem ouve o presidente Lula reclamando das demandas europeias por mais controle do desmatamento como condição para a assinatura final do acordo União Europeia (UE)-Mercosul pode até pensar que esse é o real problema nas negociações, mas não está nem perto de ser. 

Para quem já acompanhou minimamente os debates em torno desse acordo de livre comércio, as questões são muito mais graves e preocupantes, pois se aprovado o UE-Mercosul representará um aumento das relações neocoloniais entre os países europeus e os membros do bloco sul americano, e a piora das condições de vida dos trabalhadores de lá e de cá. 

Como negociado por diferentes governos, incluindo as distintas administrações do presidente Lula, o que teremos se o acordo for finalmente assinado será mais desindustrialização, desemprego, desmatamento e envenenamento por aqui, e mais precarização dos padrões de proteção ambiental e sanitário na Europa. Os grandes beneficiários deste acordo são as grandes corporações europeias que controlam as cadeias de insumos e equipamentos agrícolas do lado de lá, enquanto que aqui os grandes vencedores serão os latifundiários que hoje controlam a produção de grãos e carnes, enquanto que os perdedores serão os agricultores familiares e trabalhadores em geral.

Existem vários estudos interessantes feitos para oferecer análises críticas sobre os impactos devastadores do acordo UE-Mercosul. Um que me parece ser bastante acessível foi produzido pela Handel Anders! é uma coalizão de sindicatos, organizações sociais e camponesas, e cidadãos comprometidos com o comércio sustentável e justo. Intitulado “O Acordo Comercial UE-Mercosul: uma análise crítica e uma alternativa“, este relatório traz de forma didática vários dos aspectos negativos deste tratado de livre comércio.

Por que o governo Lula apoia um tratado tão ruim para o Brasil?

Uma mente menos ingênua poderá se perguntar o porquê do governo Lula estar tão empenhado em apoiar um tratado com repercussões tão ruins. A minha resposta é que, apesar de todas as cacofonias usadas para embaralhar a discussão, o presidente Lula acredita que este é o único caminho para que haja algum tipo de dinamismo na balança comercial brasileira, a ponto de salvar algumas migalhas para amenizar as graves desigualdades sociais que o modelo agro-exportador causa.

Assim, não há um espaço real para outras alternativas de inserção em uma economia globalizada cada vez mais complexa.  Esse apego a uma ideia de que temos de usar o que temos de melhor (no caso a produção em massa de commodities agrícolas e minerais) já estava presente no Neodesenvolvimentismo engendrado e aplicado nos anos em que Lula e Dilma comandaram o Brasil.  A diferença é que agora não há mais sequer a tintura Neodesenvolvimentista, e se escancara um discurso supostamente realista em prol da completa reprimarização da economia brasileira.

Obviamente como se trata de Lula há sempre um espaço de manobra para um discurso em prol de um modelo de desenvolvimento sustentável com proteção ambiental e outros quetais. Mas no frigir dos ovos, o que surge é uma versão requentada do PAC que coloca em risco áreas ainda relativamente intactas das florestas amazônicas, beneficiando grileiros nacionais e corporações multinacionais que se beneficiam do processo de destruição que a expansão das monoculturas de exportação e da pecuária bovina levam consigo.

Aos que opõe à visão de destino que Lula e seu governo carregam só resta a opção de deixar as ilusões de lado e partir para a construção de alternativas a um modelo que já se sabe está nos condenando a um futuro nada lustroso.

Com insistência na “Ferrogrão”, governo Lula aposta no “quanto pior, melhor”

Críticas à Ferrogrão crescem no Mato Grosso; governo vê "lobby contrário"

O portal UOL trouxe ontem uma ampla matéria assinada pelo jornalista Wanderley Preite Sobrinho sobre a decisão do governo Lula de desengavetar o projeto de construção da chamada “Ferrogrão”, um projeto de ferrovia criado pelos gigantes do comércio global de grãos (ADM, Dreiffus, Bunge e Amaggi) para escoar soja do centro do Mato Grosso para um porto fluvial no Pará.

A notícia é péssima para quem se preocupa da floresta amazônica já que só para a construção da Ferrogrão será preciso desmatar 49 km2 de vegetação nativa, uma área que seria 11% superior ao território do estado do Rio de Janeiro. Mas esse montante seria apenas para construir a ferrovia, pois junto com ela viria o avanço da especulação de terras e ainda mais desmatamento.

E o custo desta brincadeira? Do ponto de vista financeiro seria inicialmente de R$ 34 bilhões, mas junto com isso viria  a emissão de 75 milhões de toneladas de gás carbono, o equivalente a R$ 9,2 bilhões, considerando o preço de US$ 25 (R$ 119,95) a tonelada de carbono.  Em outras palavras, para baratear o custo das gigantes do comércio da soja, o Brasil irá perder algo em torno de R$ 43 bilhões, apenas como estimativa inicial.

O curioso é que a reportagem mostra que essa devastação toda poderia ser evitada se alguém dentro do governo Lula parece para verificar que outras ferrovias em atividade e outras em fase de construção terão capacidade para transportar a produção agrícola do Centro-Oeste sem a necessidade da Ferrogrão (ver figura abaixo).

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Apenas essa estripulia da Ferrogrão explica o porquê do governo Lula estar tão irritado com as demandas de mais proteção das florestas por parte da União Europeia, já que com os planos da Ferrogrão isso não terá mesmo como ser firmado.

Aliás, os problemas futuros no Brasil com a questão ambiental passam ainda pela exigência de que a produção brasileira não contenha tantos resíduos de agrotóxicos para que seja aceita nos países da União Europeia. Em que pese a hipocria desta demanda, já que são empresas europeias que abastecem o Brasil com grandes quantidades de agrotóxicos banidos no velho continente, essa é uma demanda real, e não haverá como escapar dela nos próximos anos.

O mais lamentável disso tudo é que o passivo ambiental dos projetos neodesenvolvimentistas dos governos Lula e Dilma está aí para quem quiser ver, incluindo os trágicos casos das usinas hidrelétricas de Belo Monte e as do Rio Madeira. Mas, aparentemente, há no governo Lula quem queira mais destruição ambiental e degradação social na Amazônia.

Eu sinceramente fico imaginando por quanto tempo mais as ministras Marina Silva e Sonia Guajajara vão aguentar a pressão de estar em um governo cujas práticas vão de encontro às necessidades de proteção ambiental e dos povos originários.

Gigante chinesa recebe bilhões para garantir soja sustentável no Brasil, mas compra de desmatadores

Cofco assinou maior empréstimo do planeta vinculado a metas sustentáveis, mas investigação mostra caminho de grãos de áreas desmatadas até seus armazéns, em Mato Grosso

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Por Poliana Dallabrida e Sasha Chavkin para a Repórter Brasil

Em julho de 2019, a multinacional chinesa Cofco, uma das principais compradoras da soja brasileira, anunciou a assinatura do maior contrato de empréstimo vinculado a critérios de sustentabilidade do mundo recebido por uma empresa de commodities: 2,3 bilhões de dólares. Desde então, a linha de crédito já foi renovada em duas oportunidades – a última delas em julho do ano passado.

O Brasil tem um papel central nessa conquista: os 19 bancos responsáveis pelo financiamento bilionário, entre eles o espanhol Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA), que coordena o negócio, só aceitaram oferecer capital a juros baixos porque a Cofco se comprometeu a garantir a rastreabilidade da soja adquirida por fornecedores diretos no país, além de atingir outras metas de sustentabilidade em suas operações.

Mas uma investigação da Repórter Brasil, em parceria com a Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center, mostra que no mesmo período em que desfrutava do crédito verde a juros reduzidos, a trading estava recebendo em seus armazéns soja produzida em um complexo agrícola com áreas de desmate recente.

As compras foram realizadas com intermediação da Nutrade Comercial Exportadora, subsidiária da multinacional suíça Syngenta. Ou seja, a aquisição dos grãos pela companhia chinesa se deu de forma indireta – e por isso não descumpre a meta do empréstimo bilionário, de rastreamento de fornecedores diretos. Mas mostra que a Cofco ainda tem um longo caminho para alcançar a aquisição de soja livre de desmatamento.

Armazéns da Cofco em Mato Grosso receberam soja plantada em áreas desmatadas no estado através de contratos com intermediários (Foto: Sasha Chavkin)

“Talvez não seja diretamente uma violação aos termos do contrato, mas é preocupante porque os bancos emprestaram a uma empresa que promete melhorar o rastreamento e, no entanto, não o faz ou não faz eficientemente bem. Se eu fosse um banco, estaria preocupado”, avalia Merel Van der Mark, coordenadora da Coalizão Florestas & Finanças, plataforma que analisa os financiamentos recebidos por empresas do agronegócio que potencialmente podem causar danos socioambientais.

A reportagem utilizou bases de dados públicas, imagens de satélite e documentos obtidos com exclusividade e descobriu que parte dos grãos adquiridos pela Cofco no Mato Grosso em 2021, maior produtor nacional, foi cultivada em áreas desmatadas do Cerrado e da Amazônia.

Inicialmente, a Cofco negou qualquer relação comercial com as fazendas de soja mapeadas por esta investigação. Depois de ter acesso às notas fiscais e contratos obtidos pela reportagem, a trading mudou o discurso: “Atualmente, estamos trabalhando para aumentar a rastreabilidade das compras indiretas, o que nos levará a reforçar nossos controles e monitoramento de risco para esta parte da cadeia de fornecimento” e destacou que os compromissos assumidos nos empréstimos vinculados à critérios de sustentabilidade dizem respeito apenas aos seus fornecedores diretos.

Já a Nutrade afirmou que, no momento da compra, todos os fornecedores cumpriam as regulamentações ambientais e não se encontravam na lista de embargos do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Leia as respostas na íntegra aqui.

Violação da Moratória da Soja

Um desses casos é o do produtor João Luiz Lazarotto, dono das fazendas União e União II, em Tapurah, município localizado na Amazônia. As propriedades, coladas uma na outra, totalizam 9,5 mil hectares, e são destinadas aos cultivos de soja, algodão e milho.

Notas fiscais emitidas pela Nutrade e obtidas pela Repórter Brasil mostram diversos envios de soja da Fazenda União, em fevereiro de 2021, para o armazém da Cofco International em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso. Outro documento acessado pela investigação reforça a parceria comercial entre a trading e o produtor: um contrato de compra e venda assinado em janeiro de 2021 entre a Nutrade e a Cofco prevê a retirada de 1,8 milhão de toneladas de soja do armazém de João Lazarotto pela multinacional chinesa.

Imagens de satélite acessadas pela Repórter Brasilrevelam que 650 hectares de vegetação nativa foram desmatados dentro da Fazenda União II em 2017. O desmatamento não ocorreu ilegalmente. No mesmo ano, Lazarotto recebeu autorização da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso (Sema-MT) para desmatar 689 hectares na propriedade.

Imagens de satélite revelam desmate de centenas de hectares em propriedade de Lazarotto no ano de 2017, área depois cultivada com lavouras (Foto: Reprodução Google Earth)

Segundo análise feita com imagens da plataforma MapBiomas, corroborada por outros sistemas de satélite, a área desmatada na Fazenda União II foi destinada ao cultivo de soja já em 2018 – o que estaria em desacordo com  a Moratória da Soja, acordo que prevê o boicote à aquisição do grão plantado em áreas desmatadas da Amazônia após julho de 2008. A Cofco é uma das signatárias.

Mas segundo a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) – que representa as indústrias signatárias da moratória e integra o Grupo de Trabalho da Soja (GTS), responsável pelo monitoramento do pacto – a área desmatada se destinava ao plantio de arroz. Por isso, o produtor João Luiz Lazarotto não integra a lista atual de propriedades bloqueadas, segundo a associação. “Entretanto, há indícios que o produtor produziu soja não conforme na safra 2022 e 2023. Caso confirmado, ele passará a constar na Moratória da Soja a partir deste ano”, complementou a entidade. Leia as respostas na íntegra aqui.

Já a Cofco afirmou que conseguiu detectar, por meio de imagens de satélite, que a soja adquirida de Lazarotto foi cultivada na Fazenda União, área sem registro de desmatamento, “já que a outra área (Fazenda União II) só começou a colheita em 21 de abril e nosso contrato com a Lazarotto via Nutrade foi 100% recebido em 21 de fevereiro”.

No entanto, durante a entrevista concedida para esta reportagem, realizada 8 meses depois do fim do contrato com a Nutrade, Lazarotto afirmou que é também era fornecedor direto da Cofco, seu segundo maior cliente, segundo o próprio produtor. Confrontada com este fato, a Cofco não se manifestou.

João Luiz Lazarotto confirma que é fornecedor da Cofco e vende, também, sem intermediários para a companhia (Foto: Giovanny Vera)

Mesmo com o possível impacto comercial, o produtor, que também forneceu para a brasileira Amaggi, afirma que seguirá com o desmatamento na Fazenda União II. “Eu tenho direito de abrir mais 350 hectares. Está na lei, e eu vou abrir esses 350 hectares”, garante, referindo-se ao percentual de 20% da propriedade que pode ser desmatado legalmente na Amazônia, sempre que autorizado pelo órgão ambiental. “Essa Moratória da Soja tem que ser revista”, defende Lazarotto.

Dois cadastros, mesma propriedade

Em seus esclarecimentos, a Cofco também informa que adquire soja originada apenas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) da fazenda União. Apesar da divisão da propriedade em duas áreas – União e União II –, Lazarotto possui inscrição estadual apenas na primeira. Este documento é obrigatório para a emissão de notas fiscais. Ou seja, qualquer produção agrícola da União II necessariamente será repassada ao mercado com outro documento fiscal – talvez o da União, evidenciando o risco de “contaminação” dos grãos cultivados na fazenda União com a soja plantada na área desmatada.

A Repórter Brasil visitou a propriedade de Lazarotto em setembro de 2022 e constatou que as duas áreas de lavoura das propriedades contíguas ficam distantes pouco mais de um quilômetro uma da outra e são unidas por uma estreita faixa de terra cultivada – este corredor permite o manejo integrado das duas fazendas, bem como o transporte dos grãos da União II até os silos de armazenamento, que estão localizados na União.

Fazendas União e União II produzem grãos, mas apenas uma possui inscrição estadual e silos de armazenamento (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O fato de a declaração comercial ser proveniente de um CAR não significa que a produção não seja proveniente de outro. É uma interpretação errada das empresas considerar o CAR como uma declaração de propriedade”, explica Joana Faggin, consultora da organização holandesa Aidenvironment. Ela ressalta que não é incomum que proprietários dividam uma mesma área em vários CARs com outro propósito, como excluir áreas irregulares da propriedade nomeada no registro comercial da fazenda. “O comprador da commodity precisa considerar o que está acontecendo em toda a área e verificar se existe algum desmatamento ou outra irregularidade”.

Desmatamento para plantio ameaça Cerrado

Outro caso mapeado pela reportagem é de um fornecedor da Cofco International no Cerrado, segundo bioma mais desmatado do país, atrás da Amazônia. A região é central para o setor da soja: 52% do grão cultivado no país está concentrado em municípios do bioma.

Em março de 2021, a Uggeri Agropecuária, localizada em Nova Mutum, fez diversas entregas de soja ao armazém da trading chinesa em Lucas do Rio Verde, também em Mato Grosso. Assim como no primeiro caso, um contrato de compra e venda de novembro de 2020 firmado entre a Cofco e a Nutrade mostra a promessa de entrega de 1,3 toneladas de soja com origem na Uggeri Agropecuária.

A empresa é dona da Fazenda Ranchão, onde cultiva grãos e cereais. Na propriedade contígua Fazenda Ranchão II, três áreas foram embargadas pela Sema-MT em agosto de 2015. Imagens de satélite mostram que a Uggeri Agropecuaria continuou a plantar na área embargada, inclusive durante o período de suas vendas para a Cofco, o que constitui uma violação aos compromissos que assumiu publicamente, segundo especialistas que analisaram o caso a pedido da reportagem.

Em 2015 a Fazenda Ranchão, da Uggeri, foi multada por desmates além do limite autorizado e por isso sua área foi embargada (Foto: Sasha Chavkin)

Segundo o Código Florestal, é proibido realizar qualquer atividade econômica em áreas embargadas, que devem ser preservadas para a recuperação da vegetação nativa. Por sua vez, a Política de Fornecimento Sustentável de Soja da Cofco, diz que a empresa adquire soja apenas de produtores que estejam de acordo com legislações ambientais federais, estaduais e municipais, e que respeitem áreas embargadas e acordos setoriais. Tais políticas são aplicáveis “a todos os fornecedores, diretos e indiretos”.

Mas isso nem sempre é aplicado. No caso da Uggeri, a empresa tinha autorização do órgão estadual para desmatar 992 hectares na propriedade em junho de 2012. A área desmatada, no entanto, ultrapassou o limite permitido, e em agosto de 2015 a Uggeri Agropecuária recebeu três multas: uma por destruir 3,15 hectares de vegetação nativa em Área de Preservação Permanente, outra por desmatar 22,2 ha em área de reserva legal e a terceira por não atender solicitação do órgão ambiental. Pelas três infrações, a empresa foi multada em R$ 157 mil, além de ter as áreas embargadas.

Em janeiro deste ano, as áreas bloqueadas na Fazenda Ranchão II foram desembargadas pela Sema-MT – portanto, durante a vigência do contrato com a Nutrade, a soja produzida nessa área era irregular. A Repórter Brasil entrou em contato com a empresa e com a secretaria estadual para esclarecer o motivo do desembargo e para ouvir a versão dos fatos da produtora de soja.

À reportagem, a Sema-MT afirmou apenas que o desembargo à Fazenda Ranchão II, ocorrido no dia 16 de janeiro de 2023, “está embasado no artigo 15B do Decreto Federal nª 6514/2008. O artigo em questão afirma que uma área poderá ser desembargada caso a empresa ou indivíduo autuado apresente documentação que regularize a obra ou atividade na área. Leia a resposta completa aqui. A Uggeri Agropecuária não respondeu às tentativas de contato. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

Assim como no caso do produtor Lazarotto, a Cofco afirmou que a Fazenda Ranchão está dividida em três CARs e que adquiriu soja apenas do cadastro sem irregularidades ambientais. Leia as respostas na íntegra aqui.

Metas repetidas e falta de transparência

A obtenção das vantagens financeiras de empréstimos ligados a critérios de sustentabilidade – mais conhecidos pelo seu termo em inglês Sustainability-Linked Loans –, como juros baixos ou flexibilidade no prazo de pagamento da dívida, tem como contrapartida o cumprimento de metas pré-acordadas junto aos financiadores, avaliadas por meio de indicadores-chave de desempenho (KPI ou Key Performance Indicator, no termo em inglês).

Nessa modalidade de empréstimo, cada meta de sustentabilidade é auditada anualmente por uma terceira-parte independente. As metas e os prazos para o cumprimento de cada promessa, no entanto, não são públicos em contratos desse tipo.

Por outro lado, não há legislações nacionais que determinem o que é e o que não é uma operação financeira ligada a critérios de sustentabilidade. Sequer as regras do mercado financeiro possuem força para obrigar o cumprimento dos objetivos propostos em contratos deste tipo.

Empresas de grãos prometem metas de sustentabilidade, mas não conseguem garantir rastreabilidade completa de suas cadeias produtivas (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“O que existem são princípios que norteiam esse tipo de investimento. Todas as operações que querem ter credibilidade vão ser baseadas nesses princípios. Mas como o próprio nome já diz, são princípios, não são diretrizes”, ressalta Cristóvão Alves, diretor de pesquisa e avaliação ESG [Ambiental, Social e Governança, na sigla em português] da consultoria NINT, comprada em fevereiro pela ERM, maior consultoria global de sustentabilidade.

No primeiro contrato “verde” assinado pela Cofco International, em julho de 2019, a multinacional divulgou que, entre as metas acordadas, estavam a de “melhoria anual da performance ESG” e de “aumentar a rastreabilidade de commodities agrícolas, com foco para a aquisição direta de soja no Brasil”. A renovação dos acordos, nos anos seguintes, porém, não ensejou mudanças nas promessas, que seguiram sendo exatamente as mesmas inclusive em julho de 2022, na mais recente renovação.

“Como não tem transparência e não há regras definidas, é um mercado de faroeste. Qualquer um pode chamar um empréstimo de Sustentability-Linked”, avalia Merel Van der Mark, da Florestas & Finanças. “O que vemos é que fazem muita publicidade sobre isso: ‘é o maior Sustainability Linked Loan’, mas não fazemos ideia de qual foi acordo e nem se o acordo está sendo cumprido”.

Lavouras de grãos são um importante vetor de desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiros (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Alves pondera que o mercado de dívida sustentável ainda é recente e tem espaço para desenvolvimento e adequações. Como resposta, defende mais transparência. “Seria bem importante, até para operações bilaterais, entre um banco e uma empresa, ter algum nível de transparência. Quais são os indicadores? Quais são as metas? Não são aspectos tão confidenciais e estratégicos assim. Passa um pouco a impressão de que as empresas só divulgam quando há obrigação”.

À reportagem, a Cofco International afirmou que os contratos, os indicadores de desempenho e as vantagens obtidas na aquisição dos empréstimos vinculados a critérios de sustentabilidade são confidenciais. A reportagem também questionou o BBVA, coordenador do consórcio que forneceu e renovou os financiamentos bilionários à Cofco, se os casos de desmatamento ligados a fornecedores de soja da trading não violariam as regras estabelecidas em contrato. O banco declarou apenas não poder fornecer nenhuma informação sobre a relação com seus clientes. Leia as respostas na íntegra aqui.

Regras para diretos e indiretos

Em 2020, a Cofco anunciou a meta de rastrear toda a soja adquirida de forma direta no Brasil até este ano. Não há nenhuma menção ou meta específica relacionada ao monitoramento de fornecedores indiretos nos anúncios dos empréstimos obtidos desde 2019.

Em resposta à reportagem, a Cofco afirmou “embora este tópico seja uma prioridade, os fornecedores indiretos de soja não estão incluídos em nossos últimos KPIs [indicadores-chave de desempenho] de empréstimos”. Leia as respostas na íntegra aqui.

O rastreamento dos indiretos é um dos principais gargalos do setor, já que o maior número de irregularidades ambientais acontecem nessa etapa “oculta” do fornecimento do grão. Ainda que a passos lentos, esse monitoramento já é realidade no setor: a brasileira Amaggi afirma ter 26% de rastreabilidade das aquisições indiretas de soja na Amazônia e no Cerrado e a americana Bunge divulgou ano passado ter atingido 64% do monitoramento de indiretos no Cerrado. A Cofco não divulga a porcentagem de fornecedores indiretos rastreados.


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Este texto foi inicialmente publicado pela ONG Repórter Brasil [Aqui!].

O desmatamento avança. Perda florestal aumenta apesar dos votos na Cúpula do Clima

yangambi_Congo_forestUm terreno aberto para agricultura na floresta de Tshopo, República Democrática do Congo. Recentemente, a perda de floresta primária tropical em todo o mundo aumentou dez por cento. Direitos autorais: Axel Fassio/CIFOR , (CC BY-NC-ND 2.0)

As maiores perdas ocorrem no Brasil, na República Democrática do Congo (RDC) e na Bolívia – lar das maiores e mais significativas florestas tropicais do mundo, de acordo com os dados de perda de cobertura de árvores da Universidade de Maryland em 2022, apresentados pelo Instituto de Recursos Mundiais (WRI) Observação Florestal Global.

Os novos dados mostram que em 2022 os trópicos perderam 4,1 milhões de hectares (10,1 milhões de acres) de floresta tropical primária – uma área aproximadamente do tamanho da Suíça – a uma taxa equivalente a 11 campos de futebol por minuto.

“Globalmente, estamos muito longe do caminho certo e indo na direção errada quando se trata de reduzir o desmatamento.”

Rod Taylor, diretor global de florestas, World Resources Institute

Isso representa um aumento de dez por cento em relação a 2021 e resultou em 2,7 gigatoneladas de emissões de dióxido de carbono – equivalente às emissões anuais de combustíveis fósseis da Índia, de acordo com a análise.

As florestas abrigam mais de 80% das espécies terrestres de animais, plantas e insetos e fornecem abrigo, empregos e segurança para as comunidades que as habitam, diz  a ONU . E estima-se que a perda e os danos florestais causem cerca de  10% do aquecimento global.

Na conferência do clima COP26 da ONU em Glasgow em 2021, 145 países se comprometeram a  interromper e  reverter  o desmatamento até 2030, enquanto na COP27 de novembro passado no Egito,  27 países se uniram para acelerar as ações em relação a essas promessas.

No entanto, o WRI diz que as metas não serão alcançadas na trajetória atual, com declínios na perda de florestas não se concretizando.

“Globalmente, estamos muito longe do caminho e seguindo na direção errada quando se trata de reduzir o desmatamento”, disse Rod Taylor, diretor global de florestas do WRI, em uma coletiva de imprensa em 21 de junho.

“Nossa análise mostra que o desmatamento global em 2022 foi mais de 1 milhão de hectares acima do nível necessário para atingir o desmatamento zero até 2030”, acrescentou.

A perda de florestas é vista como uma questão fundamental no combate às mudanças climáticas , pois o carbono é removido do ar pelas florestas vivas e emitido quando as árvores são derrubadas ou degradadas.

No Brasil, a taxa de perda de florestas primárias aumentou 15% de 2021 a 2022, principalmente na Amazônia. A perda geral do país representou mais de 40% do total global.

Incêndios e exploração madeireira

Marcos Pedlowski, professor associado da Universidade Estadual do Norte do Rio de Janeiro, no Brasil, disse ao Scidev.Net que o desmatamento – a remoção total de árvores – é apenas parte do problema.

“Embora os números possam ser vistos como dramáticos, eles não contam toda a história porque há outro elemento concomitante de mudança na cobertura da terra, que é a degradação florestal”, explicou.

As áreas degradadas, por exemplo, por incêndios e extração seletiva de madeira, são ainda mais comuns do que aquelas que estão sendo desmatadas, disse Pedlowski.

“Como resultado, há muito mais motivos de preocupação em relação ao empobrecimento das áreas florestais”, acrescentou.

Em relação ao Brasil, que abriga a maior área de floresta tropical do planeta, Pedlowski apontou uma combinação de fatores que impulsionam o desmatamento e a degradação.

“Alguns impulsionadores estão diretamente ligados ao que podemos chamar de desmatamento legal… ligados a políticas e projetos governamentais que apoiaram o crescimento da agricultura, extração seletiva de madeira e mineração”, disse ele.

Pedlowski acredita que essas tendências expõem as fraquezas das instituições e conferências multilaterais quando se trata de controlar a mudança florestal.

“Apesar das inúmeras reuniões e conferências, a tendência geral é de mais perdas e não o contrário”, acrescentou.

“Esta situação é ainda mais complicada pela complexa situação econômica global que foi agravada pela pandemia do COVID e pela guerra na Ucrânia e seu efeito na produção de alimentos.

“A menos que os comerciantes globais de grãos, madeira e carne levem a sério suas responsabilidades em relação à rastreabilidade de seus produtos e evitem comprar commodities produzidas em áreas desmatadas ilegalmente, não vejo como conseguir nenhuma mudança positiva”, acrescentou.

Preservação da floresta

Do lado positivo, a Indonésia reduziu sua perda de floresta primária mais do que qualquer outro país nos últimos anos, seguida pela Malásia, de acordo com o Global Forest Watch.

Intervenções do governo e programas corporativos e comunitários permitiram que os dois países mantivessem suas taxas de perda de florestas primárias tropicais perto de níveis recordes.

Os analistas atribuem o sucesso da Indonésia a políticas como a moratória da extração de madeira, monitoramento de incêndios e restauração de turfa, bem como ações corporativas eficazes.

M. Faiz Syuaib, engenheiro agrônomo e diretor de pesquisa, tecnologia e serviços comunitários do Ministério da Educação, Cultura, Pesquisa e Tecnologia da Indonésia, disse que o governo indonésio vem tentando ativamente preservar as florestas do país há mais de uma década.

A extração de madeira é limitada a empresas estatais e novas árvores devem ser plantadas para substituir as derrubadas, disse ele ao SciDev.Net .

Em áreas vulneráveis ​​a incêndios florestais, disse Syuaib, fossos cheios de água estão sendo construídos para impedir que os incêndios se espalhem.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela SciDev.Net [Aqui!].

Enquanto Brasil lidera desmatamento no mundo, governo Lula libera R$ 400 bilhões para o “ogronegócio” continuar sua marcha na Amazônia

Uma área de floresta tropical primária do tamanho da Suíça foi derrubada no ano passado, sugerindo que o compromisso dos líderes mundiais de interromper e reverter o desmatamento até 2030 está falhando

desmatamento fogo

De acordo com dados liberados pelo World Resources Institute no dia de ontem, o Brasil foi o campeão de desmatamento no mundo, com as perdas de florestas nativas representando 43% de tudo o que desmatado no planeta em 2022, com o impressionante desaparecimento de 1,4 milhões de hectares.  Com isso, as emissões de carbono do Brasil em função da mudança da cobertura vegetal  foram de 1,2 Gt C02 sendo emitidas, ou 2,5 vezes as emissões anuais de combustíveis fósseis do nosso país.

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Brasil, República Democrática do Congo e Bolívia ficaram entre os três primeiros em perda de floresta tropical primária em 2022

Some-se a esses dados, o fato de que em 2022 (último ano de Jair Bolsonaro no poder), a variação em relação a 2021 aumentou em 20%, o que implica a maior perda de floresta primária sem fogo aumentou  desde 2005  (ver figura abaixo).

desmatamento 2002 2022

E sabemos que no Brasil os responsáveis por essas taxas astronômicas são os membros do chamado “ogronegócio” que avançam a franja de desmatamento na mesma velocidade em que deixam terras abandonadas para trás, visto que não há qualquer compromisso com a adoção de formas minimamente sustentáveis de uso da terra.

Entretanto, nem esse cenário de terra arrasada detém a influência do “ogronegócio” em abocanhar pesadas fatias de dinheiro público para subsidiar suas atividades destruidoras.  Uma prova disso é o fato de que nesta terça-feira, dia 27, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Agricultura e Pecuária (Mapa), Carlos Fávaro, lançam o Plano Safra 2023/2024.  Segundo fontes ligadas  ao “ogronegócio”, informações de bastidores indicam que será um plano histórico, que deve ultrapassar os R$ 400 bilhões.

O ato de lançamento de mais essa rodada de entrega de dinheiro para destruir os principais biomas florestais deverá ocorrer às 10 horas, em Brasília. E que soem as motosserras em festiva celebração, e junto com elas as bombas costais para despejar agrotóxico!

Desmatando para o ecoturismo. Estrada ameaça onça pintada no Parque Nacional do Iguaçu

fozIdílio enganoso na plataforma de visitantes das Cataratas do Iguaçu (Foz do Iguaçu, 21.6.2014)

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

A Mata Atlântica do Brasil é um dos ecossistemas mais biodiversos da Terra. No entanto, cerca de 90 por cento deles já foram destruídos. Desde 1993, os remanescentes da Mata Atlântica, que antes se estendia continuamente do norte da Argentina ao nordeste brasileiro por cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados, estão sob proteção rigorosa da lei. No entanto, o desmatamento desse ecossistema, único no mundo, continua.

Parque Nacional Privatizado

De acordo com um relatório recente da organização ambiental SOS Mata Atlântica, mais de 20.000 hectares de floresta tropical foram queimados ou desmatados no ano passado. O maior desmatamento foi em Minas Gerais com 7.456 hectares de perda florestal, seguido da Bahia com 5.719 hectares e do Paraná com 2.883 hectares. Os dados divulgados em junho pela rede “Map Biomas” estimam que a destruição da floresta no Paraná foi ainda maior em mais de 4.000 hectares no ano passado. Enquanto grande parte do roubo da floresta ocorreu ilegalmente, a Mata Atlântica também está sendo devastada legalmente no sul do estado – e em nome do turismo ecológico.

A área ao redor dos 185.262 hectares do Parque Nacional do Iguaçu, famoso pelas maiores cachoeiras do mundo de mesmo nome, é afetada. Todos os anos, cerca de dois milhões de turistas visitam o parque nacional e as cachoeiras na fronteira com a Argentina. Para que ainda mais “turistas ecológicos” possam visitar a área protegida de carro, o governo está atualmente duplicando a única via de acesso – a chamada rodovia das cachoeiras – de Foz do Iguaçu em uma distância de 8,7 quilômetros. Centenas de árvores da Mata Atlântica já foram vítimas das obras.

Não houve críticas ou resistências significativas ao projeto de construção da estrada, que custou cerca de 30 milhões de euros, seja em Brasília ou no estado do Paraná, cujas principais fontes de renda são o cultivo da soja, a hidrelétrica de Itaipu e o ecoturismo de massa das Cataratas do Iguaçu.

O parque nacional, privatizado desde 1998, não tem importância mundial apenas por causa de suas cachoeiras. Também é considerado um dos últimos refúgios das onças-pintadas na região da Mata Atlântica. Em 1995, os biólogos do projeto “Carnívoros do Iguaçu” estimaram o número desse maior predador da América do Sul em 164 na área protegida e em 400 a 800 animais fora – incluindo a região fronteiriça na Argentina. A caça ilegal e os tiros dos fazendeiros de soja e gado do entorno e a diminuição dos queixadas, principal fonte de alimentação dos grandes felinos, reduziram drasticamente a população dentro do parque para nove a onze animais contados em 2009. De acordo com o último levantamento, cerca de 24 onças estão novamente circulando pelo santuário hoje.

Apenas restos da floresta

Segundo Atilio Guzmán, biólogo do Parque Nacional do Iguaçu, no lado argentino, a pressão da caça sobre os grandes felinos e suas presas não é a única razão para sua crescente ameaça. O desmatamento e a fragmentação da Mata Atlântica e os acidentes de trânsito nas estradas que cortam os remanescentes da mata também dificultaram a sobrevivência das onças. Em entrevista ao jornal espanhol El País em 2 de junho, Guzmán disse: “Não basta multar os caçadores ilegais se o problema subjacente não for resolvido – ou seja, o desmatamento do ecossistema em que vivem os gatos malhados.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].