Desmatamento na Amazônia cai 36% de janeiro a abril, mas é o 3º maior desde 2008

Devastação no primeiro quadrimestre chegou aos 1.203 km², ficando atrás apenas de 2021 e 2022

deforestation

A derrubada da floresta amazônica teve uma queda de 36% no primeiro quadrimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2022. Porém, isso ainda não foi suficiente para tirar 2023 do pódio das maiores áreas desmatadas de janeiro a abril em 16 anos.

Conforme o monitoramento por satélites do Imazon, a destruição acumulada no período chegou aos 1.203 km², a terceira maior desde 2008, quando a medição foi implantada. Este ano só não teve os piores primeiros quadrimestres do que 2021 e 2022, quando a devastação aumentou expressivamente na região.

Apenas em abril, a queda no desmatamento chegou aos 72%, passando de 1.197 km² em 2022 para 336 km² em 2023. Diminuição que precisa seguir durante o chamado “verão amazônico”, época de seca na região, que inicia entre maio e junho, quando a derrubada costuma ser maior.

“Essa redução observada em abril é positiva, porém a área desmatada ainda foi a quarta maior desde 2008 para o mês. Isso indica que precisamos implantar ações emergenciais de fiscalização, identificação e punição aos desmatadores ilegais nos territórios mais pressionados, focando nas florestas públicas que ainda não possuem uso definido e nas áreas protegidas, principalmente com a chegada do verão amazônico, onde historicamente o desmatamento tende a aumentar”, afirma Larissa Amorim, pesquisadora do Imazon.
 

Roraima e Tocantins apresentaram aumento na devastação

Embora o desmatamento acumulado tenha apresentado queda na Amazônia, Roraima e Tocantins tiveram alta em seus territórios. E a situação mais crítica ocorreu em Roraima, onde a devastação passou de 63 km² de janeiro a abril de 2022 para 107 km² no mesmo período deste ano, uma alta de 73%.

Pressão que tem afetado tanto terras indígenas, como a Yanomami e a Manoá/Pium, como assentamentos roraimenses, como o Paredão, o Caxias e o Taboca, todos territórios entre os 10 mais desmatados em suas categorias em abril. Já Tocantins apresentou um crescimento de 25% no desmatamento, passando de 4 km² de janeiro a abril de 2022 para 5 km² no mesmo período deste ano.

Mato Grosso, Amazonas e Pará seguem com as maiores áreas derrubadas

Apesar de terem registrado queda no desmatamento, Mato Grosso, Amazonas e Pará seguem como os estados com as maiores áreas derrubadas na Amazônia. De janeiro a abril deste ano, Mato Grosso devastou 400 km² de floresta, Amazonas 272 km² e Pará 258 km², o que representa 33%, 23% e 21% do total na região. Ou seja: juntos, esses estados foram os responsáveis por 77% da floresta destruída no primeiro quadrimestre de 2023.

Desmatamento por estado no primeiro quadrimestre de 2023

Estado Janeiro Fevereiro Março Abril Soma % em relação ao total
Mato Grosso 85 157 86 72 400 33%
Amazonas 21 55 104 92 272 23%
Pará 23 63 91 81 258 21%
Rondônia 18 21 22 52 113 9%
Roraima 41 19 28 19 107 9%
Maranhão 5 2 9 13 29 3%
Acre 3 7 3 5 18 2%
Tocantins 1 1 1 2 5 0%
Amapá 1 0 0 0 1 0%
Amazônia 198 325 344 336 1203 100%

Fonte: Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Imazon

Em abril, o estado que liderou a destruição foi o Amazonas, com 92 km². Desse total, 77 km² (84%) foram desmatados somente em cinco municípios da região sul: Canutama, Lábrea, Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã. Além disso, o estado teve a terra indígena mais desmatada da Amazônia, a Tenharim Marmelos (Gleba B), que fica nos municípios de Humaitá e Manicoré.

“Estamos reiteradamente alertando sobre o avanço do desmatamento no sul do Amazonas, na região de divisa com os estados do Acre e Rondônia, conhecida como Amacro, onde atualmente existe uma forte pressão pela expansão agropecuária. São necessárias medidas urgentes de fiscalização e destinação de terras públicas no local para evitar novas derrubadas, como infelizmente estamos vendo todos os meses”, alerta Bianca Santos, pesquisadora do Imazon.

Segundo estado que mais desmatou a Amazônia em abril, com 81 km², o Pará vem sendo destaque negativo na defesa de suas áreas protegidas. Sob cuidado do governo do estado, a APA Triunfo do Xingu foi a unidade de conservação mais desmatada em toda a região, com a perda do equivalente a 500 campos de futebol de floresta (5 km²) apenas em abril. No mês anterior, em março, o território também teve uma área do mesmo tamanho derrubada, somando 10 km² de devastação em apenas dois meses.

“Outra unidade de conservação estadual onde o desmatamento avançou em abril foi a APA do Tapajós, onde 2 km² foram derrubados, o equivalente a 200 campos de futebol. Juntas, essas duas APAs paraenses concentraram 58% de toda a derrubada ocorrida em unidades de conservação na Amazônia em abril. Ou seja, são territórios que necessitam de ações urgentes de retirada dos invasores ilegais”, informa Raíssa Ferreira, pesquisadora do Imazon.

Já em Mato Grosso, onde 72 km² de floresta foram derrubados em abril, o desmatamento está avançando por diferentes pontos da região norte. Entre os municípios, o que mais desmatou foi Peixoto de Azevedo, com 15 km², o correspondente a 21% de toda a destruição registrada no estado.

“Outro ponto negativo é o avanço na devastação dentro de áreas protegidas de Mato Grosso, como as unidades de conservação Resex Guariba-Roosevelt e Esec do Rio Roosevelt, e as terras indígenas Sete de Setembro, Sararé e Kayabi”, comenta Larissa.

Rondônia tem 4 das 10 UCs mais desmatadas

Quarto estado que mais destruiu a Amazônia tanto no primeiro quadrimestre deste ano (113 km²) como apenas em abril (52 km²), Rondônia também tem tido destaque negativo em relação às áreas protegidas. Em abril, o estado teve quatro das 10 unidades de conservação mais desmatadas na Amazônia: PES de Guajará-Mirim, Resex Jaci Paraná, Resex Rio Preto-Jacundá e Resex Angelim.
 

Em Rondônia, 46% da devastação ocorrida em abril se concentrou dentro da capital, Porto Velho, que ficou como o segundo município mais desmatado da Amazônia. Além disso, o estado também teve a terceira terra indígena mais destruída da região, a Igarapé Lage.
 

Confira os dados completos aqui
Entenda o monitoramento do Imazon aqui

Amazônia tem alta de 65% na área queimada de janeiro a abril

La Niña mais ameno pode ter contribuído para aumento, avaliam pesquisadores; acumulado foi divulgado pelo Monitor do Fogo nesta terça-feira (16)

queimadas

A Amazônia registrou alta de 65% na área queimada de janeiro a abril de 2023 em comparação com os quatro primeiros meses do ano anterior. O bioma teve 1,3 milhões de hectares atingidos pelo fogo, ou 91% de tudo o que queimou no Brasil no período. Divulgados nesta terça-feira, 16, os dados são do Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Acesse o boletim mensal com os destaques de abril e do quadrimestre.

Pesquisadores avaliam que uma fase mais amena do evento climático La Niña, direcionada para o fim do fenômeno neste ano, seria, ao menos em parte, a explicação para os números elevados.

“Um dos fatores que pode ter contribuído para o aumento está relacionado à transição do La Niña, que durou três anos, para uma condição de neutralidade. O La Niña traz mais umidade para a Amazônia, o que dificulta a propagação do fogo. No entanto, é importante ressaltar que a relação entre esse fenômeno e a ocorrência de queimadas também pode ser influenciada por atividades humanas, práticas agrícolas, e políticas de prevenção e controle de incêndios, por exemplo”, diz Felipe Martenexen, pesquisador no IPAM.

Foco em Roraima

O fogo se concentrou em Roraima: o estado teve 72% de tudo o que queimou no país de janeiro a abril. Foram 1 milhão de hectares atingidos, 95% a mais que o registrado no mesmo período do ano passado. Mato Grosso e Pará vêm na sequência, com 113 mil hectares e 81 mil hectares queimados. Os três estados somaram 85% da área queimada no Brasil nos quatro meses.

Os municípios Normandia, Pacaraima e Boa Vista, todos em Roraima, tiveram a maior área queimada: 331 mil hectares, 245 mil hectares e 140 mil hectares, respectivamente.

“Em particular, a região do lavrado de Roraima representou cerca de 93% da área queimada no estado nesse período. O lavrado é caracterizado por campos abertos e vegetação rasteira, composta principalmente por gramíneas e arbustos, sendo mais adaptado ao uso do fogo. Nessa região, muitas plantas dependem do fogo para a liberação de sementes e remoção de competidores”, explica o pesquisador.

Brasil e Cerrado

O Brasil teve 1,4 milhões de hectares queimados de janeiro a abril, uma área 48% maior do que a registrada no mesmo período de 2022. De tudo o que queimou, 71% era vegetação nativa e 7,5% eram pastagens de uso agropecuário.

Segundo bioma mais queimado, o Cerrado teve 86 mil hectares atingidos pelo fogo, ou 7% da área queimada do país no período. É um aumento de 10% em relação a 2022. Metade do fogo, 43 mil hectares, ocorreu em abril.

“O bioma Cerrado apresenta os maiores índices de chuva nos primeiros meses do ano, o que resulta em menor área queimada. As queimas prescritas são realizadas durante esse período como parte da estratégia de prevenção de incêndios florestais do MIF, o Manejo Integrado do Fogo”, acrescenta Vera Laísa Arruda, pesquisadora no IPAM.

Desmatamento faz Cerrado perder duas vezes a área da cidade do Rio de Janeiro no início de 2023

Quatro primeiros meses do ano registraram aumento de 35% em relação ao ano passado; Abril registrou desmate de 69 mil hectares

Desmatamento-no-Cerrado

O desmatamento do Cerrado ultrapassou 69 mil hectares em abril de 2023. Esse número representa um aumento de 36% em relação a abril do ano passado, quando foram registrados quase 51 mil hectares desmatados, segundo dados detectados e confirmados pelo SAD Cerrado (Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado) divulgados nesta sexta-feira.

Dados de abril confirmam a tendência de aumento registrada no início de 2023. Os primeiros quatro meses do ano totalizaram cerca de 257,3 mil hectares desmatados, mais que o dobro da área da cidade do Rio de Janeiro. Números representam um aumento de quase 35% em relação ao registrado nos primeiros quatro meses do ano passado. Os estados da Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí responderam por volta de 69% do desmatamento do Cerrado nesse período, com cerca de 177,8 mil hectares derrubados.
 

Pesquisadoras do SAD alertam para a influência do período de chuvas nas imagens de satélite e que os desmatamentos confirmados em abril podem ter ocorrido em outros meses de 2023, em áreas cobertas por nuvens nos meses anteriores. Regiões do sul do Maranhão, como o municípios de Balsas, e do Tocantins são especialmente afetadas pelo fenômeno.

“A alta cobertura de nuvens nas imagens de satélite por sensores ópticos durante a época de chuva é um grande desafio para o monitoramento do desmatamento nesta época. Os alertas detectados neste último mês não necessariamente ocorreram no mês de abril, mas podem ter ocorrido em qualquer momento desde o início da época chuvosa. Além disso, o SAD Cerrado preza por confirmar o desmatamento mapeado antes de se tornar um alerta, o que pode gerar um atraso na detecção de novas áreas desmatadas. Apesar desses fatores, o mês de abril teve um aumento significativo em relação ao mesmo período do ano passado, o que indica uma possível tendência de aumento do desmatamento no Cerrado. Esse aumento só poderá ser de fato confirmado nos próximos meses”, aponta a pesquisadora do IPAM, Fernanda Ribeiro.

A pesquisadora também destaca que a chegada da estação seca traz também uma menor cobertura de nuvens, além de um clima mais propício para o desmate de novas áreas. Juntos, esses fatores podem contribuir para números ainda maiores para o desmatamento do Cerrado, que costuma atingir seu ponto mais crítico nos meses de junho, julho e agosto.

“Durante o mês de abril, que é o começo da transição para a época de seca, já foi possível detectar novas áreas desmatadas que antes estavam possivelmente cobertas por nuvens. É esperado que esse número de alertas aumente durante a época de seca, principalmente entre junho e agosto, devido às condições climáticas favoráveis nas imagens de satélite e também ao calendário agrícola, que tem mais atividade nessa época do ano.”

Municípios

Líderes do ranking em março, municípios do oeste da Bahia seguem liderando a lista de municípios que mais desmataram. Em abril, foram confirmados 3,9 mil hectares de Cerrado desmatado em São Desidério, número 5 vezes maior do que o registrado no município em abril de 2022.

“É muito preocupante esse aumento constante e acelerado do desmatamento no oeste da Bahia. Essa é uma região onde houve uma rápida expansão do setor agropecuário, resultando em uma baixa cobertura de vegetação nativa nos dias de hoje. Essa supressão da vegetação nativa impacta não somente o meio ambiente e a biodiversidade, como também a própria produção agrícola e a população local através da disponibilidade hídrica, que está diretamente relacionada com o desmatamento. Além disso, a maior parte da vegetação nativa remanescente na região está localizada em propriedades privadas. Por isso, é necessário um fortalecimento das políticas públicas de combate ao desmatamento e de restrição de uso do solo, além de um maior incentivo à conservação em áreas privadas.”

Área afetada por desmatamento na região de São Desidério (BA). Imagens ©Planet Scope

Sobre o SAD Cerrado

O Sistema de Alerta de Desmatamento do Cerrado é um sistema de monitoramento mensal e automático utilizando imagens de satélites ópticos do sensor Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. O SAD Cerrado é uma ferramenta analítica que fornece alertas de supressão de vegetação nativa para todo o bioma, trazendo informações sobre desmatamento no Cerrado desde agosto de 2020.

A confirmação de um alerta de desmatamento é realizada a partir da identificação de ao menos dois registros da mesma área em datas diferentes, com intervalo mínimo de dois meses entre as imagens de satélite. A metodologia é detalhada no site do SAD Cerrado.

Relatórios de alertas para o mês de abril e períodos anteriores estão disponíveis neste link. No painel interativo, é possível selecionar estados, municípios, categorias fundiárias e o intervalo temporal para análise.

O objetivo do sistema é fornecer alertas de desmatamentos maiores de 1 hectare, atualizados mês a mês. Pesquisadores entendem que o SAD Cerrado pode se constituir como uma ferramenta complementar a outros sistemas de alerta de desmatamento no bioma, como o DETER Cerrado, do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), otimizando o processo de detecção em contextos visualmente complexos.

Acesse os dados georreferenciados clicando aqui.

Abril registra queda de 67.9% no desmatamento na Amazônia, em relação ao mesmo período em 2022

Dados do sistema Deter-B mostra 329 km² de alertas de desmatamento em abril de 2023, a menor taxa nos últimos três anos

unnamed (2)Floresta próxima ao Rio Manicoré, no sul do Amazonas – Foto: Valdemir Cunha / Greenpeace Brasil

São Paulo, 12 de maio de 2023 – Divulgados nesta sexta-feira (12), dados do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontam uma queda de 67,9% nos alertas de desmatamento na Amazônia, em comparação ao mesmo período no ano passado. Ao todo, foram registrados 329 km² de alertas de desmatamento, sendo a menor taxa dos últimos três anos. Os estados do Amazonas (89 km²), Pará (86km²) e Mato Grosso (80km²) foram os estados com maiores alertas em abril de 2023.

A queda, entretanto, não significa que o desmatamento esteja mais brando. Ao contrário, as áreas de alertas acumuladas continuam muito altas. “Se considerarmos o período fiscal do desmatamento que determina a taxa oficial publicada anualmente, que vai de agosto de 2022 a julho de 2023, este acumulado até abril, em comparação com os anos anteriores, é o maior da série histórica iniciada em 2015, registrando 5.977 km² de alertas de desmatamento”, declara Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil.

O que explica a queda no desmatamento

Alguns fatores podem explicar esta queda significativa nos alertas de desmatamento no mês de abril, como a cobertura de nuvens, considerando que em abril de 2022 esse dado não estava disponível para todo o mês, e algumas iniciativas do governo federal, e de alguns estados da Amazônia, em defesa do meio ambiente, que inclui a ação coordenada de combate ao garimpo ilegal, exploração ilegal de madeira e outros ilícitos ambientais, considerando que tais práticas criminosas também contribuem para o avanço da destruição das florestas. Além disso, houve reestruturação nos ministérios e um aumento significativo no número de atividades de fiscalização ambiental, resultando no aumento de multas e áreas embargadas nos últimos meses.

Entretanto, para continuar avançando na premissa de zerar o desmatamento, o Brasil precisa de uma frente de trabalho estruturada e tecnológica para o combate ao desmatamento na Amazônia: “É muito importante ter um trabalho integrado entre diversos órgãos, atuando no comando e controle no chão da floresta. Mas é preciso promover inovações tecnológicas, legais e infralegais, considerando que a destruição da floresta hoje é operacionalizada por meios tecnológicos inovadores. Além disso, é preciso atuar diretamente na fiscalização de instituições financeiras que têm coparticipação direta no aumento do desmatamento”, finaliza Rômulo.

Agronegócio e congresso agem juntos e misturados para manter retrocessos ocorridos durante o governo Bolsonaro

Autor do livro ‘Formação Política do Agronegócio’, o antropólogo Caio Pompeia explica como o Instituto Pensar Agropecuária multiplicou a influência do setor ao articular associações de fazendeiros a corporações empresariais, ampliando o poder da bancada ruralista no parlamento para interferir em reformas de Estado, políticas de alimentação e até na organização dos ministérios

Fire Monitoring in the Amazon in Brazil in September, 2021
Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Setembro de 2021

Gado pasta ao lado de área desmatada e recém-queimada em Candeias do Jamari, Rondônia, em setembro de 2021. Foto: Victor Moriyama/Amazônia em Chamas

Por Cristiane Fontes para o “Sumaúma”

Há quase dez anos, e minuciosamente, o antropólogo Caio Pompeia investiga o agronegócio brasileiro como um fenômeno político, tema de seu livro Formação Política do Agronegócio, lançado em 2021 (Editora Elefante). Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o pesquisador, de fala suave e palavras escolhidas com cuidado, descreve como se deu a formação e a consolidação do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), estratégico para o fortalecimento da atuação política do agronegócio na última década. Com sede em Brasília, equipe especializada, agenda de trabalho permanente e orçamento de mais de meio milhão de reais por mês, o IPA é responsável pela convergência de discursos das elites regionais, nacionais e transnacionais do agronegócio e pela atuação empresarial-parlamentar que fortaleceu a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso.

Essa rede sustentou, por exemplo, ações orquestradas contra a demarcação de terras indígenas e a criação de Unidades de Conservação (UCs). Nos últimos anos, passou a tratar ainda de políticas públicas ligadas à alimentação, como sua tentativa de alterar o Guia Alimentar para a População Brasileira, para melhorar a imagem dos ultraprocessados – produtos apresentados como bebidas e alimentos que passam por processos industriais e sofrem a adição de substâncias, estando relacionados ao aumento de várias doenças e a problemas de saúde pública, como a obesidade.

Compreender como a aliança entre associações de fazendeiros e corporações de alimentos se fortalece cada vez mais é essencial para enfrentar a crise climática, que já levou ao aumento do número de eventos extremos, como o que, neste ano, matou e desabrigou pessoas e destruiu casas no litoral de São Paulo, no sudeste do Brasil, e no estado do Acre, na Amazônia. Estudo recém-lançado por cientistas norte-americanos, intitulado Future Warming from Global Food Consumption (Aquecimento futuro devido ao consumo global de alimentos), revela que, se os atuais padrões de consumo forem mantidos até o fim deste século, será adicionado 1 grau Celsius ao aquecimento global até 2100. Se isso acontecer, a meta de redução da emissão de gases de efeito estufa estabelecida pelo Acordo de Paris será severamente afetada. Os principais vilões são os alimentos com alto teor de metano (CH4), como carne e laticínios.

O metano é o segundo gás de efeito estufa mais abundante, depois do dióxido de carbono (CO2) – representa 17,6% das emissões globais. O Brasil é o quinto maior emissor de metano do mundo, e a agropecuária é responsável por 71,8% dessas emissões, geradas, majoritariamente, pelo processo digestivo do rebanho bovino, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima. Além disso, a agropecuária é a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil e o principal vetor de desmatamento e de conflitos fundiários, especialmente na Amazônia. De acordo com o último relatório da organização internacional Global Witness, de 2022, o Brasil foi o país mais letal do mundo para ativistas ambientais na última década.

Indígenas protestam contra a PEC 215 Na Esplanada Dos Ministérios, Brasília, Em novembro de 2015. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Atualmente vivendo na Inglaterra, professor visitante do Latin American Centre, da Oxford School of Global and Area Studies, Caio Pompeia pretende, ao longo de 2023, estudar como as diferentes correntes do agronegócio vão se reorganizar a partir da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se elegeu com um discurso pró-Amazônia e pró-enfrentamento da crise climática. A gestão do petista já começou bastante movimentada. Nas últimas semanas, representantes do agronegócio apresentaram emendas à medida provisória que reestrutura os ministérios sob Lula e que, se aprovadas, enfraquecerão órgãos como o Ministério do Meio Ambiente e aFundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O setor reagiu à fala do presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o petista Jorge Viana, sobre a relação do agronegócio com o desmatamento na Amazônia durante recente visita à China e publicou uma nota de repúdio. Também acaba de ser aprovada na Câmara dos Deputados uma medida provisória que permite o desmatamento de vegetação primária e secundária em estágio avançado de regeneração na Mata Atlântica, hoje o bioma mais ameaçado do Brasil.

 

O antropólogo Caio Pompeia investiga o agronegócio brasileiro como um fenômeno político. Ele é autor do livro ‘Formação Política do Agronegócio’, Lançado em 2021 pela Editora Elefante. Foto: Divulgação

Segundo Caio Pompeia, o termo “ruralismo” não dá conta de explicar a complexidade desse bloco de poder que envolve o agronegócio no Brasil e “protege a reputação de corporações que exercem expressiva influência política, mas preferem não estar na vidraça”. “Evidentemente, [o termo ruralismo] tem a sua importância histórica e atual no Brasil, mas está longe de dar conta de identificar a participação, ao lado de fazendeiros, das grandes corporações agroalimentares nos espaços de concertação política em Brasília, que operam para definir posições que depois serão defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária”, afirma o antropólogo.

Setembro de 2020: homenagem ao então presidente da república, o extremista de direita Jair Bolsonaro, em Sinop, no Mato Grosso. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

SUMAÚMA: O que seu trabalho de pesquisa revela sobre a agenda política do agronegócio no Brasil?

Caio Pompeia: Analiso o agronegócio como um fenômeno político dinâmico e heterogêneo, caracterizado tanto por conflitos quanto por articulações entre seus atores, como, por exemplo, a [articulação] que levou à retirada de Dilma Rousseff do poder [em 2016]. A mobilização contrária ao governo de Dilma começou em segmentos de bovinicultores com posições mais extremistas e distanciamentos mais ideológicos em relação aos governos petistas e levou aproximadamente um ano para ganhar espaço relevante na Frente Parlamentar da Agropecuária [FPA], no Conselho do Agronegócio da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e até na própria Abag [Associação Brasileira do Agronegócio]. Em 2023, vou pesquisar como as diferentes correntes do agronegócio vão se reorganizar a partir da vitória de Lula.

Como se deu o fortalecimento da articulação política do agronegócio em Brasília?

Existia um escritório político ainda informal mantido por representações do algodão e da soja de Mato Grosso, juntamente com alguns poucos deputados da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Foi esse escritório que, em 2011, se tornou o Instituto Pensar Agropecuária [IPA]. Com a consolidação do IPA, em meados dos anos 2010, houve mudanças importantes na representação de interesses do agronegócio em Brasília. A primeira foi colocar em processo convergente as elites dos sistemas alimentares no Brasil, disciplinando a captação de recursos, unificando os discursos políticos e organizando um aparato técnico mais robusto. Outra mudança importante foi o aluguel de uma grande casa no Lago Sul [bairro nobre de Brasília que concentra a maior renda per capita do país] e a montagem de uma equipe focada na representação de interesses empresariais, que deu impulso à especialização na defesa dos interesses desses atores. A terceira grande mudança foi o fortalecimento do núcleo estratégico da Frente Parlamentar da Agropecuária, composto de aproximadamente duas dezenas de parlamentares. Esse núcleo ampliou sua atuação em uma série de temas em que não tinha tanta capacidade de influência. É por meio do Instituto Pensar Agropecuária que o agronegócio se fortalece de maneira inigualada.

 

Brasília, 6 De outubro de 2021: Bolsonaro toma café da Manhã com a Frente Parlamentar da Agropecuária. Foto: Isac Nóbrega/PR

Mas o agronegócio já era um setor muito forte politicamente mesmo antes do IPA, não?

As elites agrárias detêm, historicamente, muito poder no Brasil, com certeza. Mas a articulação política sustentada delas com representantes de atividades industriais e terciárias, que caracteriza o agronegócio, foi perseguida desde os anos 1980 para enfrentar a perda de influência das cadeias de commodities [produtos primários] agropecuárias na política nacional, em razão de um conjunto de alterações econômicas no país. O IPA representa o êxito mais notável desse programa de articulação política. Com o IPA, o “agro” começa a ter maior incidência em temas nos quais antes era mais defensivo, como a agenda ambiental. Nos últimos anos, ampliou muito a atuação em inúmeros assuntos, passando, por exemplo, a tratar de políticas ligadas à alimentação, inclusive com movimentações para alterar o Guia Alimentar para a População Brasileira. Agora, no terceiro mandato de Lula, o agronegócio tem disputado, por exemplo, os rumos das principais reformas e a própria estrutura organizacional da Esplanada dos Ministérios, como estamos acompanhando.

Qual o papel e a participação das indústrias no Instituto Pensar Agropecuária?

O IPA nasceu como um escritório montado por entidades de representação da agropecuária, de fazendeiros. Durante as discussões sobre as mudanças no Código Florestal, algumas das corporações industriais começaram a participar mais ativamente e a contribuir financeiramente para o fortalecimento do instituto. Em 2015, houve uma mudança bastante relevante quando o Supremo [Tribunal Federal] proibiu o financiamento empresarial de campanhas eleitorais. Foi justamente depois dessa proibição que aumentou de forma significativa a presença de associações industriais que financiam o IPA. A partir de 2017, as indústrias passaram inclusive a ser preponderantes numericamente em comparação com associações de fazendeiros. E isso se revelou também no aumento da participação delas na liderança de algumas das comissões do IPA, como meio ambiente, questões agrárias, relações internacionais e alimentação.

Quais são as principais fontes de financiamento do IPA e qual é seu orçamento anual?

São os recursos transferidos mensalmente por cerca de meia centena de associações ligadas ao agronegócio que são membros do instituto. As transferências, somadas, superam meio milhão de reais mensais.

 

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e o deputado federal Pedro Lupion, na Cerimônia de posse da nova diretoria da Frente Parlamentar da Agropecuária, para o biênio 2023-2024. Foto: Divulgação

A atuação dessas comissões do Instituto Pensar Agropecuária tem correlação com a atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso?

Sim, justamente. A consolidação do IPA amplia a desestabilização das fronteiras entre o público e o privado na representação de interesses. O que ocorre é um processo conjunto de criação de propostas que possam ter efetividade política na capital do país. Anteriormente, atores empresariais do agronegócio tentavam construir uma posição de forma mais individual ou mais coletiva e, a partir disso, engajar o parlamentar A, B ou C para conseguir que aquela posição fosse defendida no Congresso. Agora, com o instituto, ocorre uma construção coletiva desde o começo. Um diálogo que é sistemático, com um conjunto de mediações, dentro desse casarão em Brasília. Há, portanto, uma construção que de saída é empresarial-parlamentar. O IPA é um bloco que organiza as principais elites regionais, nacionais e transnacionais do agronegócio no Brasil, assessoradas por agentes técnicos especializados e atuando juntamente com um núcleo de parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária. A partir dessas decisões empresariais-parlamentares, as bandeiras defendidas no Congresso se espraiam por meio de negociações com as presidências e lideranças partidárias das duas Casas do Congresso [Câmara e Senado], de trabalhos fragmentados com parlamentares e de negociações com lideranças do governo.

Como essa aliança pragmática do agronegócio se expressou em relação aos direitos territoriais dos povos indígenas e comunidades tradicionais?

A resistência aos direitos territoriais de povos indígenas e populações tradicionais é, obviamente, muito antiga e, regionalmente, envolve as elites agrárias, mas nos grandes fóruns intersetoriais do agronegócio isso ganhou expressividade. O caso da Raposa Serra do Sol [terra indígena situada no estado de Roraima, homologada em 2005, onde vivem os povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana] foi importante nesse sentido, pois, além de despertar muita animosidade por parte de elites do estado em que as disputas aconteceram, mobilizou líderes do agronegócio de todas as regiões do país que temiam que desdobramentos de decisões relacionadas a esse caso pudessem influenciar seus empreendimentos.

 

Mulher indígena protesta contra o Marco Temporal e o Pacote do Veneno no acampamento Terra Livre (ATL) realizado em Brasília em 2022. Foto: Mídia Ninja

O tema da demarcação dos territórios indígenas passou a ganhar maior notoriedade a partir de dois êxitos políticos [do agronegócio]: o enfraquecimento da criação de assentamentos rurais para fins de reforma agrária e a mudança do Código Florestal. Foi depois disso que eles [lideranças do agronegócio] decidiram que o próximo passo seria uma atuação orquestrada contrária à demarcação de terras indígenas, aos territórios de outras populações tradicionais e à criação de novas unidades de conservação.

Esse processo foi muito bem construído dentro do instituto ao longo dos anos seguintes, a ponto de ser montada, no Instituto Pensar Agropecuária, uma comissão de assuntos relacionados às questões fundiárias. A oposição aos direitos indígenas foi ganhando força na Frente Parlamentar da Agropecuária e passou a exercer uma influência considerável sobre o governo de Dilma Rousseff. É importante lembrar que nessa época teve muita relevância a tramitação no Congresso Nacional da Proposta de Emenda Constitucional [PEC] 215, que transfere os processos demarcatórios do Executivo para o Legislativo [a proposta foi arquivada depois de muita luta de organizações indígenas e socioambientais]. Esse processo ganhou ainda mais ímpeto com Michel Temer [MDB], mas foi durante o governo Bolsonaro que as posições anti-indígenas receberam um espaço de intervenção mais avançado.

Se até 2017 as agendas diziam respeito sobretudo a desmobilizar o reconhecimento dos territórios indígenas, a partir de então começa a ganhar força, em âmbito nacional, o intuito de abrir as terras indígenas já homologadas para a sua inserção em circuitos nacionais e internacionais de produção de commodities agropecuárias. Durante o governo Bolsonaro, como sabemos, houve estímulo à entrada de atores não indígenas com equipamentos, sementes e seus processos de produção em terras indígenas já homologadas.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura é favorável à demarcação de territórios indígenas. Qual o significado disso como contraponto à agenda do agronegócio no Congresso?

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que nasceu entre 2014 e 2015, não mencionava os territórios indígenas em seu manifesto de lançamento. A iniciativa passou a tratar desse tema principalmente no fim de 2018 e, desde então, tem chamado a atenção para isso em alguns de seus posicionamentos. Essa é uma mudança bastante relevante quando comparada às posições de representações do agronegócio que estão fazendo pressão contrária aos processos demarcatórios. Entretanto, não se notou até o presente momento uma atuação efetiva, com os instrumentos de pressão em Brasília, em prol desses direitos. É preciso que os posicionamentos sobre o tema ganhem maior concretude, sobretudo nos grandes embates travados no Congresso ou nos julgamentos do Supremo, e haja interlocução ampla e horizontal com os povos tradicionais. Em 2023, a Frente Parlamentar da Agropecuária tem como um de seus principais objetivos defender a “tese do marco temporal”, que condiciona as demarcações à comprovação de que os povos indígenas ocupavam suas terras em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. É importante que a coalizão mobilize seus instrumentos de influência, juntamente com sua inserção privilegiada na esfera pública, para fazer oposição efetiva a isso.

Como descreveria os posicionamentos de correntes do agronegócio nas eleições de 2022 e o que esperar nos próximos anos?

Uma boa parte das bases da agropecuária lideradas por sojicultores e bovinocultores teve uma adesão quase que irrestrita às agendas de Jair Bolsonaro no governo. Esses atores e suas entidades representativas, como a Aprosoja [Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso], são os que têm mostrado maior animosidade ao governo Lula. As principais razões de sua oposição ao atual governo são ideológicas, mas também estão ligadas a agendas fundiárias e ambientais.

A segunda corrente importante é formada por algumas das principais associações nacionais da agropecuária, com uma posição um pouco mais modulada, que eu chamaria de conservadora. Elas nutrem desconfiança significativa em relação a agendas do governo, mas são mais pragmáticas e menos fechadas a negociações.

Uma terceira corrente de atores, que eu tenho chamado de volúvel, é composta de grandes agroindústrias, tanto as nacionais quanto as transnacionais. Entre Lula e Bolsonaro, muitas preferiram Bolsonaro, mas foram hábeis politicamente, como costumam ser sempre, para dialogar e manter canais abertos com as duas candidaturas. Para elas, foi muito importante o aumento dos preços das commodities agrícolas. Esse aumento operou para contrabalançar algumas insatisfações com o governo Bolsonaro, como algumas derrapadas diplomáticas em relação à China. Existe, por parte das indústrias, uma preocupação com as relações capital-trabalho, como elas podem ser modificadas durante um governo petista.

Já os descarbonizadores, como tenho chamado a atuação de algumas associações nacionais do agronegócio, como a Abag [Associação Brasileira do Agronegócio], fizeram críticas claras ao governo Bolsonaro, principalmente a suas políticas antiambientais, porque são muito suscetíveis a riscos de imagem e a pressões de investidores, importadores e segmentos organizados da sociedade civil, em especial na Europa. Se elas rechaçavam Bolsonaro, tampouco queriam Lula. Esses atores optaram por fortalecer o que se convencionou chamar de terceira via, a candidatura de Simone Tebet [MDB], que apoiaram de maneira muito firme. Não que esperassem que ela pudesse vencer, mas achavam que ela contribuiria para levar as eleições para o segundo turno, o que de fato ocorreu, e, com seu apoio a Lula, se inserisse como líder influente dentro do governo.

Como poderá avançar a agenda de direito à terra no Brasil nos próximos anos, considerando-se o tamanho e a força da bancada ruralista?

É fundamental que os valores e as expectativas das pessoas que subiram a rampa do Planalto em 1º de janeiro de 2023 sejam de fato respeitados, entre eles os direitos territoriais dos povos indígenas e das populações tradicionais. Que o governo, nos momentos em que sofrer pressões ou tiver que arbitrar entre conflitos internos e dificuldades com sua base no Congresso, priorize esses direitos, porque, obviamente, são esperados conflitos.

É importante também que o governo implemente, já no início de seu mandato, ações vigorosas e de longo prazo para a promoção de atividades econômicas que sejam ambientalmente sustentáveis e socialmente justas. O anúncio, neste início de ano, da retomada dos processos demarcatórios em algumas terras indígenas é muito bem-vindo.

Seria muito pertinente também a criação de um centro estratégico estatal, como a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], com uma equipe especializada e com recursos substanciais, para que o país dê um salto, que pode dar, para fomentar atividades econômicas que contribuam para fortalecer a biodiversidade, manter as florestas em pé e respeitar os modos de vida e os mundos das populações tradicionais.

Durante um evento no ano passado, você afirmou que tem muita coisa misturada no que a gente chama hoje de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), práticas agrícolas mais sustentáveis e com baixa emissão de carbono. Que problemas você identifica no Plano e no Programa Agricultura de Baixo Carbono, que fazem parte da Política Nacional de Mudanças Climáticas?

Chamo a atenção para a necessidade de que sejam adotadas métricas mais claras quanto às práticas abrangidas na expressão “agricultura de baixo carbono”. Houve avanços muito expressivos com relação ao plantio direto na palha [técnica de semeadura na qual a semente é colocada no solo não revolvido], mais até do que no sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. Há ainda muito espaço para ampliar a recuperação de pastagens degradadas. Todas essas ações têm relevância. Elas não são só questões técnicas, seus aspectos políticos também precisam ser considerados. É salutar, por exemplo, que pastagens que estão sendo subutilizadas pela pecuária extensiva possam ser incorporadas em outros processos produtivos, e espero que isso aconteça em escala. Agora, como está muito bem descrito na literatura nacional e internacional, parte dos atores que operam de forma muito significativa com ganhos de produtividade não abre mão da incorporação de novas terras. O que eu quero dizer com isso é que a ação específica de “baixo carbono” em si não garante que a pressão pela expansão horizontal [sobre florestas e outros ecossistemas] vá diminuir. É importante, portanto, que iniciativas técnicas que são bem avaliadas sejam tratadas em conjunto com ações políticas que desestimulem a especulação imobiliária em áreas rurais e a continuidade do avanço sobre vegetações nativas e territórios tradicionais. Além disso, como sabemos, os recursos para o Programa ABC+ e as linhas de financiamento do Plano ABC ainda são muito pouco representativos em relação ao total de crédito rural disponibilizado. Em 2023, é possível que a recuperação de pastagens degradadas ganhe impulso. Vamos ver como isso se traduzirá no Plano Safra [a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, têm discutido a inclusão de critérios do ABC no Plano Safra].

 

Uma grande Castanheira se mantém em pé cercada de campos desmatados para plantação, em Sinop, Mato Grosso. Foto: Pablo Albarenga

Com exceção dos movimentos sociais, tem havido um desuso proposital de termos adotados para descrever o setor agropecuário, como “latifúndio”?

As palavras, dependendo de como são mobilizadas, têm muito poder político-econômico. Vou dar outro exemplo. “Ruralismo” é um termo muito usado na esfera pública brasileira. Evidentemente, tem a sua importância histórica e atual no Brasil, mas está longe de dar conta de identificar a participação, ao lado de fazendeiros, das grandes corporações agroalimentares nos espaços de concertação política em Brasília, que operam para definir posições que depois serão defendidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária. Ou seja, esse termo está longe de dar conta do bloco de poder que lidera o agronegócio no Brasil e assim protege a reputação de corporações que exercem expressiva influência política, mas preferem não estar na vidraça.

Com o aumento da participação de mulheres indígenas na política institucional e a centralidade dada ao combate à crise climática no novo governo, como o setor deve se movimentar para manter o mote “o agro é pop”?

Elites dos sistemas alimentares lideram, desde o começo dos anos 2010, uma estratégia organizada para cativar corações e mentes no país. Com isso, disputam o imaginário nacional, com notórios desdobramentos políticos, econômicos, sociais e culturais. Essa tem sido uma operação parcialmente exitosa. É esperado que tais elites deem maior impulso às iniciativas comunicacionais, adaptando-as à nova configuração de forças no Brasil.

Revisão ortográfica (português): Elvira Gago
Tradução para o espanhol: Meritxell Almarza
Tradução para o inglês: James Young

 


compass black

Este texto foi inicialmente publicado pelo “Sumaúma” [Aqui! ].

Árvores do Sul da Amazônia têm maior probabilidade de morrer com a seca

canopy

bori conteudo

As mudanças no clima e nos padrões de chuva decorrentes do desmatamento da Amazônia tornam o bioma mais vulnerável à seca, e as árvores da região Sul da floresta são as mais propensas a morrer nessas condições. É o que reporta estudo publicado nesta quarta (26) na revista “Nature” e assinado por 80 pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras, como Universidade de Campinas (Unicamp), Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e Universidade de Leeds, no Reino Unido.

O artigo estuda como diferentes espécies de árvores se adaptam à seca e como diferentes áreas da floresta são vulneráveis às mudanças climáticas. O estudo traz evidências sobre a heterogeneidade da Amazônia, destacando a diferença entre a sensibilidade das florestas do oeste, na região de Acre, Peru e Bolivia, e do centro-leste, na região de Manaus e Pará, que é mais resistente à seca. O trabalho também identifica, pela primeira vez, que a capacidade da floresta de atuar como sumidouro ou fonte de carbono para atmosfera é relacionado com a fisiologia das árvores.

A pesquisa é baseada em coletas de amostras de mais de 500 árvores em 11 sítios Amazônia brasileira, peruana e boliviana, explica Julia Tavares, pesquisadora da Universidade de Uppsala, na Suécia, e autora principal do artigo, que é parte de sua tese de doutorado. As localidades brasileiras estudadas estão no Amazonas, Mato Grosso, Acre e Pará . As coletas ocorreram entre os anos de 2014 e 2018.

Os pesquisadores mediram as características fisiológicas dessas árvores, e uma das análises avaliou o estresse hídrico. “Era como se nós fossemos medir, por exemplo, a pressão das árvores, para ver o quão estressadas estão, sendo que ao invés de ser pressão sanguínea, é pressão de água”, diz Tavares. A pesquisadora adiciona sobre importância do trabalho intenso e contínuo de uma rede de pesquisadores nacionais e internacionais que realiza a identificação e o monitoramento de longo prazo das árvores estudadas e  forma parcelas permanentes de inventários florestais. “Por se tratar de florestas que estão sendo continuamente monitoradas, para que cada árvore que medimos, nós sabemos também quem ela é (qual espécie) e qual o seu histórico (com que velocidade ela cresce, quando ela morre, etc)”, frisa Tavares.

Tavares também explica os desafios de realizar um estudo em diversos pontos da Amazônia, ressaltando a importância da colaboração do numeroso time de pesquisadores para os resultados alcançados. “Para entender padrões de larga escala espacial e temporal na Amazônia, dada a sua grandeza e heterogeneidade, é imprescindível um enorme esforço colaborativo da comunidade científica. Além disso, todo esse trabalho de Ecofisiologia requer medidas minuciosa, tendo as coletas que serem realizadas durante a madrugada, e as amostras extraídas do topo das árvores, que tem entre 30 e 40 metros de altura”. A pesquisadora lembra que a concentração da maioria dos estudos sobre o efeito das mudanças climáticas na Amazônia na região centro-leste pode subestimar as diferenças de vulnerabilidade do bioma.

O estudo pode contribuir para políticas de conservação nas regiões da Amazônia mais suscetíveis aos eventos climáticos extremos. Ações como diminuir o aquecimento global e parar o desmatamento são essenciais, sublinha Tavares. A pesquisa também evidencia a importância do fomento à pesquisa no bioma. “Para entendermos as nuances das respostas das diferentes florestas amazônicas às mudanças climáticas que já estão acontecendo e às mudanças futuras, é imprescindível o investimento de recursos para realização pesquisa e valorização dos pesquisadores nacionais”, completa a pesquisadora.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [[Aqui!].

Brasil queimou área equivalente a Colômbia e Chile juntos entre 1985 e 2022

Foram mais de 185 milhão de hectares consumidos pelo fogo entre 1985 e 2022. A cada ano, a área queimada no Brasil equivale à do Suriname

unnamed (7)

Um novo mapeamento da superfície queimada pelo fogo no Brasil revela que a área queimada entre 1985 e 2022 foi de 185,7 milhões de hectares, ou 21,8% do território nacional. A média anual alcança 16 milhões de hectares/ano, ou 1,9% do Brasil. São extensões comparáveis a países: no caso do acumulado em 38 anos, a área equivale à soma da Colômbia com o Chile; na média anual, ao Suriname.

Os dados são da Coleção 2 do MapBiomas Fogo, lançados no Seminário “Fogo no Brasil: Estratégias aplicadas ao Manejo Integrado do Fogo (MIF)” no dia 26/04 com apoio do PrevFogo-IBAMA. O conjunto de informações sobre as cicatrizes deixadas pelo fogo sobre os mais de 851 milhões de hectares do território brasileiro são obtidas a partir de imagens de satélite e processamento em nuvem. O MapBiomas Fogo não contabiliza o número de focos de calor, mas sim a extensão consumida pelas chamas.

A área afetada pelo fogo varia entre os seis biomas brasileiros, com o Cerrado e a Amazônia concentrando cerca de 86% da área queimada do Brasil entre 1985 e 2022. O Cerrado queimou em média 7,9 mha/ano, ou seja: todo ano uma área maior que a da Escócia queimou apenas nesse bioma. No caso da Amazônia, a média foi de 6,8 milhões de hectares/ano — quase uma Irlanda. Mas quando se analisam as áreas dos biomas, a liderança é do Pantanal, que teve 51% de seu território consumido pelo fogo nesse período.

Clique aqui para ter acesso ao material com gráficos, mapas e destaques.

 

Bioma % no total do país Área queimada % em relação à área do bioma
Amazônia 43,6% 80,95mha 19,2%
Cerrado 42,7% 79,2mha 39,9%
Caatinga 5,7% 10,5mha 12,2%
Pantanal 4,2% 7,7mha 51,1%
Mata Atlântica 3,7% 6,8mha 6,2%
Pampa 0,3% 0,5mha 2,4%

 

O estado de Mato Grosso apresentou maior ocorrência de fogo, seguido pelo Pará e Maranhão. Os municípios que mais queimaram no país entre 1985 e 2022 foram Corumbá (MS), São Félix do Xingu (PA) e Formosa do Rio Preto (BA).

Os dados do MapBiomas Fogo dão importantes pistas para que os governos federal e locais possam combater queimadas e incêndios. Além dos biomas, estados e municípios de maior incidência, o mapeamento também mostra os períodos do ano de maior incidência. Em nível nacional, os meses entre julho e outubro concentram 79% da área queimada no Brasil, com setembro respondendo por 34% do fogo. Mas o registro mensal de fogo varia entre os biomas. No caso da caatinga, por exemplo, aproximadamente 60% do fogo acontecem entre outubro e dezembro;no Cerrado, 89,5% do fogo ocorre principalmente entre julho e outubro.

“Com essa série histórica de dados de fogo podemos entender o efeito do clima e da ação humana sobre as queimadas e incêndios florestais. Por exemplo, percebemos claramente que em anos de El Nino temos mais ocorrência de incêndios, como nos últimos El Ninos (2015 – 2016 e 2019), se comparados aos anos de La Niña, quando chove mais na Amazônia (2018 e 2021). A exceção a essa regra foi 2022, quando mesmo sendo um ano de La Nina, a Amazônia queimou bastante”, explica Ane Alencar, Coordenadora do Mapbiomas Fogo e Diretora de Ciência do IPAM. “Na realidade, para que o fogo ocorra e se espalhe precisa de uma combinação de três ingredientes: precisa ter material em quantidade e em boas condições de queima, um clima favorável para a queima e uma fonte de ignição. A história do fogo contada pelos dados do MapBiomas demonstra claramente tanto os anos de maior seca quanto os anos de maior desmatamento”, completa.

Sobre o Manejo Integrado de Fogo (MIF), Ane explica que “ as pessoas acham que todo o fogo é só ruim. O fogo só é ruim quando é utilizado de forma inadequada e em biomas que não dependem do fogo para se manter, como a Amazônia. Em biomas como o Cerrado, o Pantanal, o Pampa, o fogo tem um papel ecológico e ele deve ser manejado de forma correta para não virar um agente de destruição. Para isso, as práticas relacionadas ao Manejo Integrado do Fogo (MIF) são importantes pois elas podem, através das queimas prescritas e controladas, reduzir a quantidade de material combustível e evitar grandes incêndios”.

Vera Arruda, coordenadora operacional do MapBiomas Fogo e pesquisadora do IPAM, acrescenta que “o Cerrado é um bioma que evolui com a presença do fogo, sendo parte natural do seu ecossistema, onde muitas espécies vegetais e animais dependem dele para sua sobrevivência. Porém a frequência e intensidade do fogo têm aumentado nos últimos anos, devido ao desmatamento e às mudanças climáticas que causam o aumento da temperatura e da seca.”

Queimadas mais recorrentes na Amazônia e no Cerrado

Em todo o Brasil, cerca de 63% da área afetada pelo fogo foi queimada mais de uma vez em 38 anos. Mas esse percentual muda quando analisamos a área queimada em relação ao bioma. No caso do Pampa, da Mata Atlântica e da Caatinga, por exemplo, a área queimada uma única vez entre 1985 e 2022 corresponde a 80%, 72% e 65% do bioma, respectivamente. Na Amazônia, entretanto, apenas 39% foram queimados uma única vez. Quase metade (48%) foi queimada entre duas e quatro vezes, sinalizando que a maioria das queimadas na Amazônia são recorrentes.

O percentual de áreas queimadas recorrentemente na Amazônia é maior do que no Cerrado, onde 36% da área queimada pegou fogo uma única vez. O fogo recorrente, de duas a quatro vezes entre 1985 e 2022, atingiu 38% da área queimada no Cerrado no período — 10% a menos que na Amazônia e 5% a menos que no Pantanal, onde a área queimada de duas a quatro vezes correspondeu a 43% do bioma. Em contrapartida, o Cerrado é o Bioma que tem a maior quantidade de áreas com recorrência de eventos de fogo maiores que 16 vezes, ou seja, áreas que queimaram pelo menos a cada 2 anos, totalizando mais de 2 milhões de hectares.

Mais de dois terços (68,9%) do fogo no período ocorreram em vegetação nativa; apenas 31,1% foram em área antrópica. Campos e Savanas são o tipo de vegetação nativa que mais queima; no caso de tipo de uso de solo, é a pastagem. Mas a proporção varia entre os biomas. Na Amazônia e Mata Atlântica a maior parte do fogo ocorreu em áreas antrópicas, como pastagem. Os demais biomas seguem o padrão nacional, com a maior parte do fogo ocorrendo em vegetação nativa.

 Sobre o MapBiomas Fogo

Mapeamento da superfície do Brasil por meio do processamento de mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2022. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área queimada em cada pixel de 30 m X 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo do período, em todos os tipos de uso e cobertura da terra. Os dados resultantes estão disponíveis em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada em para qualquer período entre 1985 e 2022 na plataforma aberta a todos. Ela também inclui dados de frequência de fogo, indicando as áreas mais afetadas nos últimos 38 anos e o tipo de cobertura e uso do solo que queimou, permitindo recortes territoriais e fundiários por bioma, estado, município, bacia hidrográfica, unidade de conservação, terra indígena, assentamentos e áreas com CAR.

Sobre o MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa. Além disso, a rede MapBiomas ampliou-se para outras regiões e países como na Amazônia, Chaco, Bosque Atlântico, Pampa Sul-americano e Indonésia, como também gera outros produtos como MapBiomas Alerta, MapBiomas Fogo e MapBiomas Água.

Amazônia queima mais de “duas Bélgicas” por ano desde 1985

Bioma tem em média 68 mil km² atingidos pelo fogo anualmente; é o mais queimado do país nas últimas quatro décadas

fogo amazonia

Área queimada acumulada na Amazônia brasileira entre 1985 e 2022 (Fonte: MapBiomas)

Todos os anos, desde 1985, uma área equivalente a mais de duas Bélgicas pega fogo na Amazônia brasileira. O bioma foi o mais queimado do país nas últimas quatro décadas, com uma média de 68 mil km² atingidos pelo fogo anualmente. É o que mostra a série de dados da Coleção 2 do MapBiomas Fogo que mapeia as cicatrizes do fogo no Brasil, lançada na quarta-feira (26). O mapeamento é realizado pela rede MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), que também é responsável pelo mapeamento da Amazônia e do Cerrado.

A área queimada ao menos uma vez entre 1985 e 2022 anos soma 809,5 mil km², ou 19% da Amazônia brasileira. Mantendo a comparação com o país europeu, 27 Bélgicas seriam necessárias para ocupar o mesmo espaço – ou mais que a metade do estado do Amazonas. O fogo foi mais frequente na maior parte das regiões: cerca de 68% da área afetada foi queimada mais de uma vez no período.

“A Amazônia é um ecossistema sensível ao fogo, o que significa que o fogo não é parte natural do processo de evolução ecológica das florestas do bioma. O fogo na Amazônia é totalmente decorrente das queimadas relacionadas ao desmatamento e ao manejo de pastagem. Essas acabam escapando para as florestas, originando incêndios florestais e causando degradação”, avalia Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

Em 38 anos, a Amazônia concentrou 43% de tudo o que foi queimado no país. Praticamente a mesma proporção vale para o Cerrado, que abrigou 42,7% de toda a área queimada em território nacional. Os dois maiores biomas da América do Sul foram afetados por 85,7% do fogo que se alastrou pelo Brasil desde 1985.

Onde queima e por quê

A vegetação nativa preenchia 44,3% da área queimada na Amazônia nos últimos 38 anos, enquanto que 55,7% do fogo no período ocorreu em áreas antrópicas, de uso humano, principalmente nas pastagens.

“O fogo é usado em uma etapa do processo de desmatamento, como uma forma ‘rápida e barata de limpar a terra’ para conversão da floresta em área de agricultura ou pecuária. A prática em áreas protegidas pode ocorrer por várias razões e, infelizmente, muitas dessas áreas na Amazônia são alvo de crimes ambientais, em que o fogo é usado para destruir evidências de desmatamento e para a expansão de atividades ilegais. No entanto, vale destacar a importância do Manejo Integrado do Fogo em áreas protegidas como estratégia para prevenir e controlar incêndios florestais de maneira sustentável e segura. Também é necessário que esse tipo de manejo seja realizado de forma planejada, levando em consideração as condições climáticas, a biodiversidade local, além de análises das necessidades das comunidades que habitam essas localidades”, explica Felipe Martenexen, pesquisador no IPAM.

Propriedades rurais privadas tiveram 41,1% da ocorrência de fogo no bioma entre 1985 e 2022, seguidas por assentamentos (17,1%), terras públicas (16%), terras indígenas (7,3%), unidades de conservação (7,1%) e florestas públicas não destinadas (6,8%).

Estados

Pará e Mato Grosso são os estados que mais acumularam área queimada na Amazônia no período, com 269,8 mil km² e 221,9 mil km² atingidos pelo fogo. Na sequência estão: Rondônia (92,6 mil km²); Maranhão (68,7 mil km²); Roraima (50,7 mil km²); Amazonas (43,2 mil km²); Acre (26,2 mil km²); Tocantins (20,6 mil km²) e Amapá (15,3 mil km²).

China, Holanda e França estão importando soja com risco de desmatamento ilegalmente na Mata Atlântica

China, Holanda e França estão importando soja com risco de ser cultivada em terras desmatadas ilegalmente na Mata Atlântica no Brasil, segundo análise da Trase e SOS Mata Atlântica

soy ma 1

Por Vivian Ribeiro, Luís Fernando Guedes Pinto e Tiago Reis

O desmatamento para limpar terras para plantações de soja está aumentando na Mata Atlântica do Brasil, apesar da proteção legal. Nos últimos cinco anos, mais de 30.000 hectares (ha) de floresta nativa e 50.000 ha de campos naturais foram convertidos em plantações de soja, segundo análise da Trase e do grupo de conservação SOS Mata Atlântica.

A Mata Atlântica corre de norte a sul ao longo das regiões orientais do Brasil, Argentina e Paraguai. Originalmente, era a segunda maior floresta tropical do mundo depois da Amazônia, mas apenas cerca de um quarto dela permanece como resultado de séculos de exploração madeireira, urbanização e expansão agrícola (veja o mapa).

Mata Atlântica Brasil

De acordo com a Lei da Mata Atlântica  promulgada em 2006, qualquer desmatamento no bioma é proibido com poucas exceções. Apesar disso, o desmatamento continua devido à forte demanda global por commodities agrícolas e ao fraco monitoramento e fiscalização do governo.

A análise da Trase dos dados do MapBiomas mostra que cerca de 3,2 milhões de hectares de vegetação nativa na Mata Atlântica foram desmatados para novas terras agrícolas ou pastagens entre 2008 e 2021 – 14% para o cultivo de soja (448.000 hectares). Esses números provavelmente estão subestimados porque são baseados nos limites oficiais do bioma Mata Atlântica, que são menores do que os limites da Lei da Mata Atlântica. Áreas adicionais cobertas pela lei que não estão incluídas no bioma oficial incluem fronteiras de desmatamento de soja nos estados da Bahia, Piauí e Mato Grosso do Sul.

China e UE são os principais mercados de exportação da soja da Mata Atlântica

Dados da Trase Supply Chainsmostram que a Mata Atlântica produziu quase 35 milhões de toneladas de soja em 2020 – 29% da produção anual de soja do Brasil. A China importou 55% da soja da Mata Atlântica, enquanto 25% foi para o mercado interno do Brasil. Os 20% restantes foram exportados para países como Holanda, França e Coréia do Sul. A soja importada pela Holanda provavelmente será reexportada para outros países da UE. Dados da Trase mostram que 11% da soja da Mata Atlântica foi comercializada pela Cargill, 10,6% pela Bunge e quase 5% pela COFCO.

A produção de soja ocupou cerca de 10,7 milhões de hectares de terras na Mata Atlântica. A Trase calcula que mais de 22.000 ha de soja colhida em 2020 foram plantados em terras na Mata Atlântica que foram desmatadas nos últimos cinco anos – um aumento de 15.000 ha em 2013. Grande parte dessa terra foi convertida diretamente para plantações de soja, provavelmente contrariando a Lei da Mata Atlântica (ver figura).

O desmatamento da soja na Mata Atlântica está aumentando

soy ma

Desmatamento de soja por ano no bioma Mata Atlântica, 2013-2020 (Fonte: Trase Supply Chains)

Cerca de 46% da soja com exposição ao desmatamento da Mata Atlântica foi exportada para a China em 2020, enquanto 44% foi consumida no Brasil. O agronegócio estatal chinês COFCO foi responsável por 14% da exposição ao desmatamento, enquanto os comerciantes americanos Bunge representaram 7% e a Cargill cerca de 5%.

Embora a exposição da UE ao desmatamento da soja da Mata Atlântica seja muito menor, cerca de 3%, o bloco concordou recentemente com uma legislação que proíbe a importação de soja e outras commodities agrícolas cultivadas em terras desmatadas. Os comerciantes nos países consumidores serão obrigados a realizar a devida diligência em suas cadeias de abastecimento para demonstrar que estão livres de desmatamento.

O desmatamento contínuo corre o risco de minar os esforços de conservação. Em 2022, a ONU declarou a Mata Atlântica como um dos dez ‘ Carro-chefe da Restauração Mundial ‘ sob a bandeira de sua Década de Restauração de Ecossistemas. Cerca de 700.000 ha já foram restaurados com a meta de atingir 1 milhão de hectares até 2030 e 15 milhões até 2050.

Ver artigo Soja também desmata Mata Atlântica de Luís Fernando Guedes Pinto e Vivian Ribeiro no Valor Econômico.


color compass

Este texto originalmente escrito em inglês foi publicado pela Trase Insights [Aqui!].

Desmatamento e direitos indígenas são questões de segurança nacional, afirma Paulo Moutinho

Em webinário, pesquisador sênior do IPAM aponta defesa dos povos originários e das florestas da Amazônia como chave para a proteção do planeta

tapajos munduruku

Durante episódio da série de webinários “Perguntas sobre o Brasil”, realizado no dia 19 de abril, o pesquisador sênior do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Paulo Moutinho, alertou para o papel fundamental desempenhado pela Amazônia e pelos povos originários na viabilidade da economia brasileira. O encontro foi promovido pelo Sesc São Paulo em parceria com a Apbra (Associação Portugal Brasil 200 anos), a Folha de São Paulo e a Universidade de Coimbra.

“O desmatamento na Amazônia e as violações dos direitos indígenas são uma ameaça à segurança nacional. O desmatamento em certas regiões já chegou em tal ponto que notamos o colapso do clima regional. Em São José do Xingu, a crise climática atingiu um nível que o IPCC previa como o pior dos casos para 2050. A situação só não é pior porque temos justamente o Parque Indígena do Xingu que produz 40% da umidade da região”, afirmou Moutinho.

O pesquisador também defendeu o respeito aos direitos dos povos originários como, além de uma exigência ética, um ponto chave para qualquer planejamento do futuro brasileiro. Segundo Moutinho, investir em sustentabilidade passa, necessariamente, por investir na proteção dos indígenas e suas terras.

“Todos aqueles produtores de grãos e carne da Amazônia devem proteger áreas como o Parque do Xingu ou aceitar que vão ser forçados a mudar de profissão. É isso que precisamos trazer à tona. Preservar o modo de vida dos indígenas não é só a proteção de um direito que deve ser respeitado, mas ele é chave para a sobrevivência do mundo inteiro. Quer investir na sustentabilidade dos seus negócios? Invista na proteção de indígenas e na recuperação de florestas”, completou.
 

A jornalista e editora de Ambiente e do projeto especial Planeta em Transe na Folha, Giuliana de Toledo, e a escritora e ativista Márcia Kambeba, do povo Omágua/Kambeba do Alto Solimões, no Amazonas, também participaram do debate. O evento pode ser assistido, na íntegra, através do canal do Sesc São Paulo no Youtube.

A nova cara da grilagem

O webinário também serviu para reforçar a preocupação com o crescimento da grilagem de terras na Amazônia, consequência direta do desmonte dos órgãos de fiscalização ambiental ocorrido nos últimos anos. Apesar da boa vontade do governo atual em combater a invasão e o desmatamento de terras públicas, Moutinho destaca que a solução está na inovação e na proteção das terras indígenas, e não apenas no restabelecimento de antigas práticas.

“O que acontece na Amazônia hoje é muito diferente do que vimos há 10 anos e ainda sofremos com um desmonte maior do que conseguimos compreender. As terras públicas e indígenas estão sendo diretamente afetadas e é lá que ocorre metade do desmatamento. Retomar aquela queda que vimos em 2005 e 2012, quando reduzimos em 80% o desmatamento, é mais difícil agora, mas é possível. Creio que grande parte desse esforço deve estar na proteção dos direitos dos povos indígenas, na demarcação de novas terras e na reorganização fundiária de toda a Amazônia”, afirmou o pesquisador.

Segundo dados do IPAM, cerca de dois terços do desmatamento registrado em terras públicas ocorrem em áreas com registros de CAR (Cadastro Ambiental Rural), uma ferramenta do Código Florestal para registro autodeclarado de propriedades rurais. Dos 56,5 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas na Amazônia, 18,6 milhões de hectares possuem CARs ilegais sobrepostos às áreas preservadas.

“Uma coisa é muito clara: o desmatamento via invasão de terras indígenas aumentou cerca de 60% nos últimos anos. Esse processo acontece por conta de pessoas que querem tomar essas terras por meio da violência e que fazem o uso irregular do CAR, uma conquista do povo brasileiro, para roubar terras”, pontuou.

Uma nota técnica publicada pelo IPAM no início de 2023 aponta que cerca de 7% das terras indígenas possuem alguma sobreposição irregular de CAR. Pesquisadores e indigenistas também destacam o risco desproporcional que a grilagem representa para os povos isolados, que tem 10,9% das áreas de suas terras sobrepostas por cadastros irregulares.

Cidadania Amazônica

Indagado sobre os caminhos para unir a redução do desmatamento e o crescimento econômico da região amazônica, Moutinho afirmou que o desenvolvimento sustentável da região passa, obrigatoriamente, pela participação dos povos originários na tomada de decisões.

“Quando escutarmos o que esses povos têm a dizer, teremos um futuro digno para as próximas gerações. É ouvindo eles que pautamos os critérios do desenvolvimento econômico e social da Amazônia. Não em critérios econômicos, mas em critérios amazônicos. Escutem os povos indígenas. Essa é a primeira regra para o desenvolvimento da Amazônia”, afirmou.

Moutinho também defendeu que a sabedoria dos povos indígenas e suas técnicas milenares de produção sustentável são inestimáveis para o Brasil e devem ser protegidos.

“A Amazônia e seus povos são uma biblioteca gigantesca, com milhares de livros e que ainda conhecemos muito pouco. Acontece que estamos queimando esses livros antes de abrí-los e, assim, perdemos o conhecimentos fantásticos. Precisamos construir uma cidadania amazônica, essa região imensa que precisa da nossa participação, porque a humanidade, no estado que está e com os problemas que enfrenta, não pode se dar ao luxo de não ouvir a Amazônia”, concluiu.