Desmatamento aumenta por 14 meses seguidos na Amazônia brasileira

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  • O desmatamento na maior floresta tropical da Terra aumentou pelo décimo quarto mês consecutivo, de acordo com dados divulgados hoje pelo governo brasileiro.
  • Atualmente, o desmatamento na Amazônia brasileira está 83% à frente de um ano atrás.
  • O alto nível de desmatamento nos primeiros meses de 2020 significa que o ano está se preparando para uma estação de incêndio ruim.
  • O aumento do desmatamento incomoda os cientistas que temem que a combinação da perda de florestas e os efeitos das mudanças climáticas possam levar a floresta amazônica a se inclinar para um ecossistema mais seco.

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

O desmatamento na maior floresta tropical da Terra aumentou pelo décimo quarto mês consecutivo, de acordo com dados divulgados hoje pelo governo brasileiro. Atualmente, o desmatamento na Amazônia brasileira está 83% à frente de um ano atrás.

mong 22Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais  (Inpe) mostram que 830 km de floresta tropical foram desmatados na “Amazônia Legal” durante o mês de maio, elevando o desmatamento total desde 1 de agosto para 6.437 quilômetros quadrados, uma área maior que Delaware ou Palestina. O Brasil acompanha o desmatamento com base no ano que vai de 1º de agosto a 31 de julho.

mong 3Desde 1º de janeiro, o desmatamento na região atingiu 2.033 km2, em comparação com 1.454 kmnos primeiros cinco meses de 2019, um aumento de 40%.

A análise independente da Imazon, uma ONG brasileira, acompanha aproximadamente o que está sendo relatado oficialmente pelo governo.

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Os novos dados foram divulgados dois dias depois que o INPE revisou sua estimativa oficial de 2019 para o desmatamento da Amazônia para cima para 10.129 km2 , marcando a primeira vez que o desmatamento na região ultrapassou 10.000 km² desde 2008. O desmatamento também está subindo em outros países da Amazônia , de acordo com dados da Universidade de Maryland (UMD) e do World Resources Institute (WRI).

mong 5O aumento do desmatamento perturba os cientistas que temem que a combinação de perda de floresta e os efeitos das mudanças climáticas possam levar a floresta amazônica a se inclinar para um ecossistema mais seco, mais propenso ao fogo, que gera menos chuvas locais e regionais, retira menos carbono da floresta. atmosfera e é menos hospitaleiro para espécies adaptadas às densas e úmidas florestas da planície amazônica. Os impactos nas economias locais e regionais que dependem da precipitação da Amazônia podem ser devastadores, privando áreas agrícolas, represas hidrelétricas e cidades da América do Sul da água. Já existem sinais de tendências de secagem sustentadas na Amazônia, anunciando o que pode estar por vir.

A curto prazo, o alto nível de desmatamento nos primeiros meses de 2020 significa que o ano está se preparando para uma estação de incêndio ruim. Normalmente, as árvores são cortadas após a estação das chuvas desaparecer em abril ou maio. A queima normalmente atinge o pico máximo durante a estação seca de julho a outubro, mas este ano já está em andamento: no início desta semana, os pesquisadores do Projeto Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP) relataram o primeiro grande incêndio na Amazônia em 2020 . Os dados sugerem que 2020 poderia ser um ano particularmente terrível para a Amazônia.

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Este texto foi originalmente publicado em inglês pela Mongabay News and Inspiration from Nature´s Frontline [Aqui!].

Europa aperta o cerco contra produtos brasileiros

Grupos varejistas, ativistas e até a UE vêm defendendo a retirada de itens do Brasil das prateleiras em resposta à política ambiental do governo Bolsonaro. Há 14 anos, boicote semelhante desencadeou a moratória da soja.

desmata 1Área devastada na Amazônia: grupos que pedem boicotes tem que aprovação do “PL da grilagem” acelere desmatamento

Diante de medidas recentes do governo do presidente Jair Bolsonaro, organizações não governamentais e redes varejistas europeias vêm endurecendo o discurso a favor do boicote a produtos agroalimentares brasileiros. De um mês para cá, movimentos do tipo têm ocorrido na Alemanha e no Reino Unido. No ano passado, houve boicote também na Suécia. Fora da Europa, uma organização nos Estados Unidos pede medidas semelhantes.

Nesta sexta-feira (19/06), a Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), anunciou querer uma estratégia mais incisiva para evitar que produtos oriundos de áreas de desmatamento na Amazônia cheguem a prateleiras dos supermercados de países do bloco.

Veja o Especial da DW Brasil sobre a Amazônia

A situação preocupa o governo brasileiro. Em junho do ano passado, no contexto da comoção internacional decorrente das queimadas na Amazônia, o Itamaraty enviou circular às embaixadas solicitando informações a respeito de eventuais boicotes sendo observados em outros países.

Pouco antes, em 27 de maio de 2019, a Embaixada do Brasil em Estocolmo, na Suécia, havia reportado ao governo Bolsonaro que a rede de supermercados Paradiset tinha decidido retirar os produtos de origem brasileira de suas prateleiras em decorrência da aprovação, nos cinco primeiros meses da gestão Jair Bolsonaro, de 169 novos pesticidas pelo Ministério da Agricultura – um recorde desde 2005.

Neste ano, entre 20 e 25 de maio, o tema voltou à tona nos telegramas de embaixadas brasileiras. Mensagens emitidas pelos postos de Roma, na Itália, e Londres, na Inglaterra, observaram o surgimento de novos movimentos de boicote a produtos nacionais. Uma dessas cartas afirmava que o veto a produtos brasileiros por redes britânicas de supermercados – e filiais de empresas alemãs no Reino Unido – estava condicionado à aprovação do Projeto de Lei 2633 (antiga Medida Provisória 910), o chamado “PL da grilagem”, que prevê regularização fundiária de terras ocupadas da União.

Outro telegrama citava um estudo realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que prevê que a medida, se aprovada, aceleraria o desmatamento de 11 mil a 16 mil quilômetros quadrados da Floresta Amazônica. A mesma carta informava que as redes inglesas de supermercados podem se sentir compelidas a aderir a um boicote, se o Brasil aprovar uma legislação que propicie o aumento do desmatamento.

Os documentos enviados ao Itamaraty citavam uma carta, publicada em 19 de maio e assinada por 47 empresas, grupos e associações empresariais com operações do Reino Unido – entre os signatários, companhias como Burger King e Tesco. Direcionada aos deputados e senadores brasileiros, o texto citava os incêndios florestais recordes do ano passado e informava estarem os empresários “profundamente preocupados” com o “PL da grilagem”.

A carta encerrava com uma ameaça velada de boicote. “Queremos continuar a buscar e investir no Brasil […] Instamos o governo brasileiro a reconsiderar sua posição e esperamos continuar trabalhando com parceiros no Brasil para demonstrar que o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental podem caminhar juntos.” Conforme telegrama enviado ao Itamaraty, os signatários da carta representam 96,8% dos varejistas britânicos.

Em 9 de junho, o cenário ganhou novo episódio. A ONG alemã Campact lançou uma petição online pedindo que redes de supermercados boicotem produtos brasileiros se o “PL da grilagem” for aprovado. Conforme afirmou à DW Brasil a ativista Svenja Koch, da organização, até a manhã desta sexta-feira, 360 mil assinaturas foram coletadas para a petição.

“Duas redes de supermercados alemãs já assinaram: Aldi Süd e Rewe”, relata. “Pedimos que as diretorias das grandes redes de supermercados alemãs sigam o exemplo de muitos varejistas do Reino Unido e assinem uma carta aberta ameaçando boicotar produtos do Brasil se o PL for em frente.”

Ela vislumbra que as cinco grandes redes de supermercados da Alemanha participem, o que significaria 70% do mercado. “Eles são poderosos, e a decisão deles influencia o comércio internacional”, comenta.

Rejeição por parte de consumidores

Mikael Linder, especialista em marketing agroalimentar e desenvolvimento rural e pesquisador da Universidade Livre de Bolzano, na Itália, afirma que tem se deparado com uma rejeição, tanto entre consumidores italianos como franceses, a produtos de origem brasileira.

“São pessoas que afirmam não desejar comprar, por exemplo, carne bovina brasileira, justificando que com isso estariam fomentando a destruição da Amazônia e outros prejuízos ao meio ambiente”, afirma ele, à DW Brasil.

Segundo informações obtidas por ele, vários supermercados europeus, atentos a esse fenômeno, estão reduzindo o espaço nas gôndolas para mercadorias brasileiras. “A médio prazo, isso pode afetar muito as vendas. A imagem do produto brasileiro está prejudicada”, diz o pesquisador.

Após questionamento da DW Brasil sobre o impacto que tais movimentos podem representar para o comércio agroalimentar brasileiro, João Adrien, assessor para assuntos socioambientais do Ministério da Agricultura, afirmou que boicotes do tipo “somente prejudicam os produtores rurais que produzem com sustentabilidade e acessam o mercado internacional.”

“Afinal de contas, o desmatamento na região ocorre principalmente de atividades ilegais e não pela agricultura brasileira”, afirma, apontando que a deflorestação decorre de “problemas de regularização fundiária e ordenamento territorial”. “Tais embargos somente prejudicam a renda do produtor rural e a capacidade de investir em tecnologias ainda mais sustentáveis”, diz.

Em evento do Ministério ocorrido nesta quarta-feira, Bolsonaro afirmou que, apesar do aumento do desmatamento na Amazônia, o país é um sucesso em termos de preservação. “Nós somos um exemplo na questão ambiental. Nos criticam lá fora de forma cruel e de forma não verdadeira”, afirmou.

Para o pesquisador Tiago Reis, que estuda ações de combate ao desmatamento e de uso do solo na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, os movimentos contra produtos brasileiros refletem a consciência do consumidor e vêm na esteira de outros ocorridos anteriormente.

“Veja por exemplo os movimentos de boicote a empresas que testavam produtos em animais, os boicotes a marcas famosas de chocolate por estarem ligadas à destruição de habitats de orangotangos para produção de óleo de palma, empresas de café que usavam trabalho escravo, entre outros”, enumera ele, à DW Brasil.

No ano passado, Reis foi um dos idealizadores de uma carta aberta publicada na revista Science propondo que a importação pela União Europeia de produtos possivelmente ligados a desmatamento no Brasil fosse usada como alavanca para negociar medidas “de proteção aos direitos humanos, participação de povos indígenas nas negociações e a implementação de instrumentos de verificação do desmatamento”.

Em tramitação na Câmara dos Deputados, o “PL da grilagem” é alvo de criticas porque pode permitir a regularização de áreas ocupadas ilegalmente pertencentes à União. No mês passado, a revista Nature Sustainability publicou um estudo – um dos autores é Tiago Reis – demonstrando que a regularização fundiária descolada de medidas e políticas socioambientais pode promover um aumento do desmatamento. “Em pequenas e médias invasões, porque permite a integração delas a mercados formais”, explica Reis. “Em grandes invasões, porque oferece um incentivo e uma recompensa à grilagem.”

Moratória da soja

Um exemplo histórico de movimento de boicote que funcionou foi o ocorrido na década de 2000 – e que acabou resultando na criação da chamada moratória da soja, pacto instituído em 2006. Pelo acordo, firmado entre governos, agroindústria e organização de defesa ambiental, ninguém compraria soja produzida em região de desmatamento da Amazônia. Dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente em 2018 mostram que deu resultados: a média anual de desmatamento nos 89 municípios que integram o grupo caiu 85% depois de firmado compromisso.

“A moratória da soja previne que a floresta amazônica seja desmatada diretamente para soja. Não resolve todo o problema porque a floresta continua sendo desmatada para outros usos, e também porque nem todas as empresas de soja são signatárias do acordo, portanto, há ainda mercado para soja com desmatamento e formas indiretas de contornar a verificação”, avalia Reis. “Mas com certeza a moratória oferece um exemplo e um sinal que desestimulou muito o desmatamento para soja.”

Para atrair a pressão popular, o Greenpeace liderou um movimento, entre 2004 e 2006, para que os consumidores boicotassem a rede de fast food McDonald’s. “Eles diziam, basicamente, que ‘se você come no McDonald’s, você come a Amazônia'”, lembra Reis. “Foi um sucesso, e a empresa cobrou ação imediata de seus fornecedores, que responderam.”

Além da Europa, também há movimentos populares nos Estados Unidos. Criado em 2018, o Boycott Brazil afirma que “está focado em todos os produtos brasileiros não certificados como sustentáveis”, principalmente “a carne bovina, pois as pastagens são responsáveis por dois terços do desmatamento atual”.

Conforme relatou uma das ativistas do movimento à DW Brasil, as críticas são as políticas dos governos de Bolsonaro e de Donald Trump. Presente nas redes sociais, o grupo pretende lançar um site até o fim do ano para intensificar suas ações.

“Estamos educando os consumidores sobre quais produtos comprar, em vez de tentar um boicote a certos varejistas, o que provavelmente não seria bem-sucedido”, explica ela, que pede para não ser identificada por temer retaliações.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Por que a ciência e as universidades públicas incomodam tanto o governo Bolsonaro? Fatos e previsões

No dia 11 de dezembro de 2018, 19 dias antes da posse do presidente Jair Bolsonaro, dei uma palestra em Helsinki (Finlândia) a convite do meu colega Markus Kroger, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Helsinki sob o título “The Brazilian Amazon and the prospects o explosive deforestation after the 2018 presidential elections” (ou em português “A Amazônia brasileira e as perspectivas de desmatamento explosivo após as eleições presidenciais de 2018”  (ver imagem abaixo).

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Naquele dia coloquei para a plateia presente, as minhas projeções do que deveria acontecer na Amazônia brasileira em termos de avanço do desmatamento, degradação via extração ilegal de madeira e garimpos clandestinos, bem como sobre os inevitáveis riscos que estariam colocados sobre as populações tradicionais, principalmente os povos indígenas. Obviamente as projeções deixaram a plateia formada por professores, estudantes e intelectuais de fora da universidade um tanto chocados com o que eu apresentei.

Passados 18 meses daquela palestra na fria capital finlandesa, estamos diante de uma situação catastrófica na Amazônia em função de todo o desmanche que foi feito em tempo recorde pelo governo Bolsonaro, sob a batuta inconfundível do improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

A situação criada pelo ataque sistemático aos mecanismos de governança ambiental e às estruturas de comando e controle que antes continham, ainda que precariamente, o ataque desenfreado de atores que agem ilegalmente para retirar das florestas amazônicos o máximo que puderem no menor tempo possível, nem que para isso tenham que causar o maior dano possível.

Mas é importante notar que nada disso acontece sem que possa medir e prever até onde chegaremos em termos de destruição ambiental e genocídio dos povos indígenas, pois o conhecimento científico sobre medir os processos que causam esses processos continua avançando, permitindo que previsões como as que eu fiz em Helsinki, sejam posteriormente confirmadas por dados científicos irrefutáveis.

E é justamente por isso que a ciência e, por extensão, as universidades públicas brasileiras incomodam tanto o governo Bolsonaro.  Esses ataques não são porque a ciência e as universidades brasileiras não geram conhecimento robusto. É justamente pelo contrário!

Voltando à palestra em Helsinki, me foi perguntado como é que seria possível impedir o cenário devastador que eu acabara de prever. Dividi minha resposta em 3 componentes: a) a ciência deveria continuar ocupada em gerar dados robustos sobre a destruição que viria, b) haveria que se organizar a resistência política interna à destruição que estava planejada pelos vencedores das eleições presidenciais de 2018, e 3) a solidariedade internacional ativa aos que resistiriam dentro do Brasil seria fundamental para que a resistência tivesse a mínima chance de ser vitoriosa. 

Pensando bem, aquele meu receituário simples parece mais necessário do que nunca. E os amplos sinais de que há uma solidariedade internacional em prol da preservação da Amazônia e dos seus povos originários,  demandam que continuemos trabalhando internamente nos outros dois itens.

Reuters: investidores europeus ameaçam desinvestimento no Brasil por desmatamento

fogo Um trecho em chamas da selva amazônica é visto enquanto é desmatado por madeireiros e agricultores em Porto Velho, Brasil, 23 de agosto de 2019. REUTERS / Ueslei Marcelino

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BRASÍLIA (Reuters) – Sete grandes empresas de investimento europeias disseram à Reuters que vão se desfazer de produtores de carne bovina, comerciantes de grãos e até títulos do governo no Brasil, caso não vejam progresso na resolução da crescente destruição da floresta amazônica.

As crescentes ameaças de investidores com mais de US $ 2 trilhões em ativos sob gestão, incluindo a Nordea, com sede na Finlândia, e o Legal & General Investment Management (LGIM) do Reino Unido, mostram como o setor privado está adotando ações globais para proteger a maior floresta tropical do mundo.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, diminuiu a pressão diplomática sobre o assunto.

O desmatamento da Amazônia brasileira subiu para uma alta de 11 anos em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, e aumentou 34% nos primeiros cinco meses de 2020, de acordo com dados preliminares da agência de pesquisa espacial do governo INPE. O populista de direita enfraqueceu as proteções ambientais e pediu mais mineração e agricultura na região amazônica.

“As tendências que vimos no Brasil são muito preocupantes”, disse Daniela da Costa-Bulthuis, gerente de portfólio do Brasil para o gerente de ativos da Holanda, Robeco. “Você tem um desmantelamento dos mecanismos regulatórios de controle ambiental desde o ano passado.”

A assessoria de imprensa de Bolsonaro se recusou a comentar as preocupações dos investidores. Ele defendeu o histórico ambiental do Brasil contra críticas de líderes mundiais no ano passado, com incêndios destrutivos na Amazônia provocando protestos globais. Até o momento, a pressão corporativa se mostrou mais eficaz em desviar a atenção de Brasília para o meio ambiente.

Um projeto de lei proposto originalmente por Bolsonaro para conceder ações de propriedade de terras públicas irregularmente estabelecidas, uma medida vista como incentivadora do desmatamento, não conseguiu ser votado em maio e agora está atrasado indefinidamente depois que mais de 40 empresas européias ameaçaram boicotar as exportações brasileiras.

Sob escrutínio

Em setembro, 230 investidores institucionais assinaram uma carta pedindo ações urgentes para combater os incêndios na floresta amazônica, capturando a atenção global.

No entanto, as sete empresas de gestão de ativos que conversaram com a Reuters – Storebrand, AP7, KLP, DNB Asset Management, Robeco, Nordea Asset Management e LGIM – foram mais longe ao expor a ameaça de desinvestimento, se não houver progresso. As empresas detêm mais de US $ 5 bilhões em investimentos vinculados ao Brasil, incluindo traders globais de grãos com grandes operações no país.

Maior fundo de pensão da Noruega KLP disse que estava envolvido com empresas de comércio Archer Daniels Midland (ADM) ( ADM.N ), Cargill e Bunge (BG.N ) e julgar se as suas políticas ambientais são adequados.

“Se a nossa conclusão for negativa, o desinvestimento pode ser o resultado provável, potencialmente já neste ano, e esperamos que essa ação faça com que outros investidores maiores sigam nossa liderança”, disse Jeanett Bergan, chefe de investimentos responsáveis ​​da KLP, via o email.

Em resposta a perguntas sobre desinvestimento, a Bunge e a Cargill descreveram uma série de esforços para erradicar o desmatamento de suas cadeias de suprimentos, citando sua adesão à “Moratória da Soja Amazônica”.

Nesse acordo voluntário, grandes empresas comerciais, como Cargill, Bunge e ADM, se comprometeram a não comprar soja de partes da Amazônia desmatadas desde 2008.

A ADM não respondeu ao pedido de comentário.

O fornecedor norueguês de seguros e pensões Storebrand e o maior fundo nacional de pensão da Suécia, AP7, também disseram que poderiam se desfazer da ADM e da Bunge se as empresas não adotarem medidas adequadas para combater o desmatamento.

O DNB Asset Management AS da Noruega disse que os fundos de índice que administra, que incluem participações na Bunge, podem excluir empresas que não cumpram seus padrões de sustentabilidade.

Outras empresas de investimento mencionaram preocupações relacionadas aos frigoríficos brasileiros, que no passado haviam examinado minuciosamente o fornecimento de carne bovina de áreas desmatadas da Amazônia.

A LGIM está pressionando as empresas brasileiras, incluindo o maior frigorífico do mundo, a JBS (JBSS3.SA ) e as rivais menores Marfrig ( MRFG3.SA ) e Minerva (BEEF3.SA ) por “metas climáticas robustas e políticas de uso da terra, com inação potencialmente líder sanções de votação e desinvestimentos direcionados ”, disse Yasmine Svan, analista sênior de sustentabilidade da LGIM, em comunicado por e-mail.

JBS, Minerva e Marfrig disseram em declarações separadas que estão comprometidos com a eliminação do desmatamento da Amazônia de suas cadeias de suprimentos e detalham seus esforços.

Depois da “quarentena”

O braço de gerenciamento de ativos do Nordea NDAFI.HE ), um dos maiores bancos dos países nórdicos, interrompeu a compra da dívida soberana brasileira no ano passado, depois que os incêndios florestais explodiram, colocando seus aproximadamente 100 milhões de euros (US $ 112 milhões) em títulos do governo brasileiro em ” quarentena.”

Thede Ruest, chefe de dívida de mercados emergentes da Nordea Asset Management, disse que a empresa poderia ir mais longe.

“O próximo nível de escalada da quarentena na verdade significa vender nossos títulos do governo do Brasil, o que poderia desencadear outros fundos após o processo”, disse Ruest. “Estamos desapontados com a falta de progresso do atual governo, com as taxas de desmatamento continuando a subir antes de outra grande temporada de incêndios.”

Da Costa-Bulthuis, da Robeco, que administra pelo menos 3 bilhões de euros em ações brasileiras e até 5 bilhões de euros ao incluir dívida e outros ativos, se recusou a comentar sobre participações específicas.

Mas ela disse que a empresa pode reduzir sua exposição ao Brasil se seu registro ambiental se deteriorar ainda mais.

Da Costa-Bulthuis, junto com Svan, da LGIM, e Ruest, da Nordea, expressaram preocupação com o recente vídeo de uma reunião do gabinete brasileiro, divulgada devido a uma investigação federal.

Na gravação, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu a Bolsonaro e outros ministros que o governo acelere a desregulação ambiental enquanto o público se distrai com a atual pandemia de coronavírus.

“Ele está trabalhando contra o meio ambiente. O que ele disse foi inaceitável ”, disse Costa-Bulthuis. “Se eles (o governo) forem sensatos ou não, acho que uma maneira de começar seria mudar o ministro do Meio Ambiente, porque esse cara não tem credibilidade.”

Salles e sua assessoria de imprensa não responderam aos pedidos de comentários sobre a declaração. Na época, o ministro disse que estava apenas pedindo o corte da burocracia inútil que dificulta o investimento.

Bolsonaro despachou os militares no mês passado para combater a destruição da Amazônia, embora o desmatamento tenha aumentado novamente em maio em comparação com o ano anterior pelo 13º mês consecutivo.

Da Costa-Bulthuis disse que a implantação foi “o mínimo” que o governo poderia fazer e não um substituto adequado para o fortalecimento de agências especializadas em fiscalização ambiental.

“Não achamos que eles estejam fazendo o suficiente.”

Reportagem de Jake Spring; Edição por Brad Haynes

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Este texto foi originalmente em inglês pela agência Reuters [Aqui!].

União Europeia quer boicote a produtos de áreas desmatadas na Amazônia

Órgão executivo do bloco quer acelerar medidas para evitar que itens derivados de áreas destruídas da Amazônia cheguem às prateleiras de países europeus

caminhaoCaminhão transporta madeira na Amazônia brasileira

A Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia (UE), quer uma estratégia mais incisiva para evitar que produtos oriundos de áreas de desmatamento na Amazônia cheguem a prateleiras dos supermercados de países do bloco.

A intenção foi tornada pública nesta sexta-feira (19/06), pelo comissário europeu para Meio Ambiente, Virginijus Sinkevicius, em discurso no Parlamento Europeu em Bruxelas.

No momento, explicou Sinkevicius, está sendo avaliada a viabilidade de projetos legislativos e outras sugestões apresentadas à comissão. O objetivo inicial, segundo ele, é poder contar com acordos voluntários com a indústria, para a aplicação de rotulagem obrigatória e esquemas de certificação.

No debate desta sexta, deputados europeus acusaram o governo Jair Bolsonaro de explorar a pandemia para fazer avançar o desmatamento na Amazônia e privar os povos indígenas de seu habitat. A eurodeputada Anna Cavazzini, do Partido Verde, pediu que fossem asseguradas “cadeias de abastecimento sem desmatamento” para a Europa.

Delara Burkhardt, da bancada social-democrata, disse, por sua vez, que o desmatamento na Amazônia não é apenas um assunto brasileiro.

Mairead McGuinness, da bancada conservadora, lembrou que o acordo de livre-comércio com o Mercosul –ainda não ratificado – abriria o mercado europeu para os produtos de soja e carne do Brasil, que têm potencial para vir de terras desmatadas.

Já o comissário europeu Sinkevicius classificou o acordo como um instrumento importante para exercer influência sobre o governo brasileiro. As partes contratantes – incluindo o Brasil – poderiam, assim, garantir o cumprimento das normas ambientais e do Acordo Climático de Paris de 2015.

Com o acordo, a União Europeia e o bloco sul-americano querem criar a maior área de livre-comércio do mundo. Espera-se que isso gere uma economia às empresas da UE de 4 bilhões de euros por ano em direitos alfandegários e impulsione as exportações. O Mercosul inclui Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

O desmatamento atingiu no Brasil seu nível mais alto desde 2008. Na semana passada, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revisou para cima sua estimativa anterior, divulgada em novembro último, para a devastação ocorrida entre agosto de 2018 e julho de 2019. Usando dados de satélite, os cientistas calcularam que o desmatamento anual da Amazônia brasileira aumentou 34% em relação ao período anterior, atingindo uma área superior a 10 mil quilômetros quadrados ‒ tão grande quanto a da Jamaica.

A Floresta Amazônica ‒ 60% da qual se encontra no Brasil ‒ é um dos maiores sumidouros de CO2 do mundo. A preservação de suas árvores é crucial para atingir as metas internacionais que limitam o aumento da temperatura global a dois graus Celsius (2°C) acima dos níveis pré-industriais.

RPR/dpa

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Este texto foi publicado originalmente pela Deutsche Welle [Aqui].

Brasil, o pária ambiental de quem até os grandes fundos de investimentos querem distância

salles bolsonaroO desmanche ambiental promovido pela dupla Jair Bolsonaro e Ricardo Salles já transformaram o Brasil em um pária ambiental global, e os efeitos econômicos desastrosos só estão começando a aparecer

Em uma longa matéria assinada pelo jornalista Rennan Setti intitulada “A fuga de fundos trilionários do Brasil por causa da tragédia ambiental“, confirma-se algo que eu já venho tratando neste blog desde meados de 2016: o nosso país se tornou um pária global por causa do acelerado desmanche de sua governança ambiental e dos frágeis mecanismos de comando e controle que impediam o saque desenfreado de nossas riquezas naturais.

Mas o aspecto mais dramático para o futuro econômico do Brasil e dos brasileiros é que a matéria se concentra na verdadeira fuga de grandes capitais que até agora apoiavam as últimas molas de resistência da economia brasileira que são as commodities agrícolas e minerais. 

E é preciso que os fundos que estão vetando ou até mesmo retirando investimentos do Brasil estão entre os maiores do mundo, o que já causou um saldo negativo está negativo em R$ 76,8 bilhões, que, segundo a matéria de Setti, é o maior volume de saídas já registrado para período equivalente.

O curioso é que toda essa aversão ao Brasil decorre não de questões éticas ou morais, mas da percepção que os gestores destes mega fundos de investimentos estão tendo de que pegaria muito mal para eles junto aos seus próprios investidores manter negócios em um país cujo governo central optou pela política do “passa boiada” sobre a proteção ambiental, desconhecendo a preocupação global em torno das mudanças climáticas globais, por exemplo.

A matéria revela que apesar da situação da Amazônia, com o alto de queimadas decorrente do desmatamento desenfreado, ter sido a primeira a colocar o Brasil em uma condição desfavorável como destino de investimentos, os gestores dos grandes fundos internacionais também estão atentos ao avanço da destruição do Cerrado, bem como os múltiplos incidentes ambientais causados pelas mineradores, principalmente a Vale.

Algo que objetivamente passa despercebido no governo Bolsonaro é que o Brasil não apenas não é o único fornecedor de determinadas commodities, a exemplo da soja, mas como há disposição em determinados países de se mudar o funcionamento das cadeias de suprimento,  o que poderá colocar em xeque até a necessidade de se continuar adquirindo grandes quantidades de commodities que hoje fazem parte do ciclo de alimentação de rebanhos.

Uma prova que os gestores desses fundos estão vendo para além do que conseguem os membros do governo Bolsonaro no tocante ao humor dos consumidores é o avanço da campanha promovida na Alemanha para pressionar três grandes cadeias de supermercados a não mais comprar carne produzida na Amazônia. Quando eu primeiro mencionou o total de aderentes a essa campanha no dia 09 de junho era de 16.168; mas passados 10 dias o total de pessoas que aderiram já chegou a mais de 360 mil.

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Como o ano de 2020 será marcado por queimadas semelhantes ou ainda maiores do que as ocorridas no ano passado, é muito provável que o mau humor dos gestores dos grandes fundos venha a aumentar ainda mais, causando uma fuga ainda maior de capitais do Brasil.  O resultado disso será que todas as expectativas sendo difundidas pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, de recuperação econômica via atração de capitais internacionais dificilmente se concretizará, levando ao que ele parece mais temer neste momento que será um processo de profunda depressão da economia brasileira.

É isso só mudará quando o Brasil sair da condição de pária ambiental global em que foi colocado pelo governo de Michel Temer e aprofundado pelo de Jair Bolsonaro. Mas para que isso possa acontecer, as mudanças nos rumos atuais terá que ser drástica, sem muito espaço para balelas ou “passa boiadas”. Simples assim.

Helicóptero utilizado para realizar desmatamento ilegal (com agrotóxicos) é apreendido em Mato Grosso

Na ação realizada a 63 km do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado.  A aeronave apreendida será periciada e removida

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Créditos: Sema-MT – Foto por: Sema-MT

Por Juliana Carvalho | Sema-MT

Uma operação integrada da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), polícias Civil e Militar e Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) flagrou a pulverização de agrotóxico em floresta nativa, áreas de regeneração e pasto, ocasionando danos visíveis à flora.

Esta é a primeira vez que Mato Grosso apreende um helicóptero sendo utilizado para realizar desmatamento ilegal. A equipe considerou o crime um atentado contra a saúde pública e o meio ambiente.

Na ação realizada a 63 quilômetros do município de Colniza (Noroeste de Cuiabá), duas pessoas foram conduzidas para a delegacia de polícia. O piloto do helicóptero não foi localizado.  A aeronave apreendida será periciada e removida, enquanto os produtos utilizados na pulverização serão periciados no local.

A operação ocorreu nesta segunda-feira (15.06) e foi motivada por denúncia anônima que relatou o uso de agrotóxico por diversas propriedades no entorno da Vila Maguila, distrito de Colniza.

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MT apreende helicóptero usado para pulverizar agrotóxico na Floresta Amazônica
Créditos: Sema-MT

Após um trabalho pelo Núcleo de Inteligência e Operações Integradas (NIOC) da Sema, a área foi identificada e o Ciopaer foi acionado para sobrevoar a área. Os agentes identificaram a vegetação amarelada e localizaram a aeronave com os pulverizadores acoplados.

A equipe também encontrou os tanques utilizados no armazenamento de agrotóxicos, nas margens de um lago que aparenta ser uma nascente hídrica represada. As investigações iniciais apontam para a contaminação da lagoa.

De acordo com o relato de um dos conduzidos, foram pulverizados 83 galões de 20 litros de agrotóxicos em duas propriedades, em uma área aproximada de 850 hectares e estavam preparando para realizar o trabalho na terceira propriedade.

heli2O suspeito relatou ainda que todo material era manipulado às margens da nascente. Demais sanções administrativas estão sendo calculadas e a Polícia Civil conduz o inquérito criminal

Desmatamento ilegal zero

A ação realizada em Nova Bandeirantes integra Operação Amazônia Arco Norte do Governo de Mato Grosso em parceria com a Operação Verde Brasil do Governo Federal, visando zerar o desmatamento ilegal em Mato Grosso.

Desde o início da Operação, em maio, foram aplicados R$ 101 milhões em multas por crimes contra a flora, como desmatamento, exploração florestal e queimadas ilegais, dentre outros. Foram embargados mais de 21 mil hectares e apreendidos 44 tratores.

Desde janeiro, Mato Grosso aplicou R$ 555 milhões por crimes contra a flora e embargados 78 mil hectares. As ações conduzidas resultaram na apreensão de 116 tratores e 27 caminhões.

Atividade essencial

As atividades de fiscalização ambiental, que incluem as ações de monitoramento e controle de crimes ambientais como desmatamento e exploração florestal ilegais, pesca predatória, caça ilegal, poluição causada por empreendimentos, dentre outros, seguem em pleno funcionamento durante a pandemia do Covid-19.

De acordo com artigo 8° do decreto Estadual 432/2020, a fiscalização ambiental é considerada atividade essencial no Estado. Ao se deparar com crimes ambientais, o cidadão pode fazer denúncias pelo 0800 65 3838 ou via aplicativo MT Cidadão (disponível para IOS e Android).

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Este artigo foi publicado originalmente pelo portal oficial do governo do estado do Mato Grosso [Aqui!].

Rede Cerrado e WWF-Brasil lançam Campanha Cerrados

A iniciativa visa sensibilizar a conservação e valorização do Bioma, por meio de podcasts com histórias reais de populações locais e interação virtual.

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Um olhar de valorização para o Cerrado, suas gentes, costumes e biodiversidade. É isto que propõe a Campanha Cerrados, lançada pela Rede Cerrado e pelo WWF-Brasil . De 15 de junho a 17 de agosto serão lançados, semanalmente às segundas-feiras, dez episódios de podcasts sobre as realidades do Bioma contadas a partir de histórias reais de moradores da região. A campanha também conta com o site cerrados.org.br , que terá informações e dicas de mobilização para a preservação local, bem como chatbot pela página da Rede Cerrado no Facebook . A iniciativa é resultado da articulação entre o WWF-Brasil e a Rede Cerrado – esta reúne mais de 50 organizações da sociedade civil que atuam na promoção da sustentabilidade, em defesa da conservação do Cerrado e dos seus povos.

Os podcasts, disponíveis no Spotify e em outras plataformas digitais, expõem os desafios humanos e ambientais do Cerrado a partir de histórias de pessoas locais e seus esforços de sobrevivência e conservação do Bioma. O primeiro episódio, Semeando água, conta como Fabrícia Costa, uma coletora de sementes nativas que, sofrendo com a falta de água em sua região, une-se a outros moradores da comunidade Roça do Mato para replantar o Cerrado no norte de Minas Gerais como forma de combater a escassez hídrica. Poucos sabem, mas o Cerrado é indispensável para a regulação hídrica do Brasil: as raízes das árvores deste Bioma atuam como uma esponja gigante, absorvendo e estocando água da chuva e distribuindo para 8 bacias hidrográficas do Brasil, alcançando milhões de nascentes e aquíferos importantes, como o Bambuí, Urucuia e Guarani.

A relevância do Bioma está em suas propriedades pouco conhecidas, tanto na fauna quanto na flora. Mesmo abrigando 12% da população brasileira e alcançando 11 estados mais o Distrito Federal – o Cerrado ainda é pouco conhecido e valorizado se comparado à Amazônia, por exemplo. Trata-se da maior savana biodiversa do mundo, que abriga 5% de todas as espécies da Terra (32% das quais são únicas), com 12 mil espécies de plantas.

O Cerrado tem ainda um patrimônio cultural vivo nas comunidades tradicionais e povos originários, também conhecidos como guardiões da biodiversidade e das águas do Cerrado. Eles detêm um saber especializado sobre o uso dos recursos naturais, ciclos da natureza, clima e conservação do Bioma, de onde retiram seu sustento. “No Cerrado vivem cerca de 80 etnias indígenas, além de quilombolas,  extrativistas, geraizeiros/as, vazanteiros/as, quebradeiras de coco, veredeiros e veredeiras, ribeirinhos e ribeirinhas, apanhadores de flores sempre-viva, pescadores e pescadoras artesanais, barranqueiros e barranqueiras, fundo e fecho de pasto, sertanejos e sertanejas, ciganos e ciganas, agricultoras e agricultores familiares, entre tantos outros, que vivem, principalmente, do extrativismo e do artesanato”, lembra Maria do Socorro Teixeira Lima, quebradeira de coco e coordenadora-geral da Rede Cerrado. De acordo com ela, os modos de vida tradicionais são importantes aliados na conservação dos ecossistemas, pois formam paisagens produtivas que proporcionam a continuidade dos serviços ambientais prestados pelo Cerrado, como a manutenção da biodiversidade, dos ciclos hidrológicos e dos estoques de carbono.

O segundo episódio, sobre Dona Lucely Pio, por exemplo, mostrará como a medicina tradicional pode ser uma forma de conservar o ambiente, gerar renda e ainda cuidar da saúde. Lucely encontra remédio para tudo nas plantas do Cerrado de Goiás. Pelas suas mãos, os conhecimentos ancestrais herdados pelos quilombolas da Comunidade do Cedro viram xaropes, pomadas, garrafadas, já o sétimo episódio, narra como lideranças jovens estão sistematizando os conhecimentos tradicionais dos anciões em uma aldeia Xavante no Mato Grosso.

O setor agropecuário cobre 40% do solo do Cerrado e embora existam mecanismos de recuperação da terra, cerca de 30% das pastagens estão degradadas ou subutilizadas. A riqueza e biodiversidade do Cerrado tem perdido espaço para o desmatamento causado pelo mau gerenciamento das cadeias produtivas de carne bovina, soja e também do processo de especulação fundiária – retratado no quarto episódio, que mostra como moradores da comunidade Cacimbinha enfrentam invasões, ameaças e se tornam vítimas da grilagem de terras. A história mostra como a jovem Lusineide se torna uma liderança comunitária, organiza um projeto, une vizinhos e cria novas ferramentas de proteção do Cerrado no oeste da Bahia.

Apesar dessas histórias de resistência, desde 2009 a média de desmatamento tem sido de 1 milhão de hectares por ano, segundo o INPE. Só em 2018 foram desmatados 660 mil hectares. Metade do Cerrado já foi perdido e a disseminação de informação e orientação sobre preservação e conservação ajudarão no conhecimento e valorização da identidade e riqueza local.

Para responder ao desafio de mobilizar mais pessoas em prol do Cerrado, a campanha inclui ferramentas virtuais de capacitação de movimentos e vozes locais, com conhecimento e legitimidade para propor pautas em defesa do ambiente e das comunidades do Bioma.

Pelo messenger do perfil no Facebook da Rede Cerrado será possível conhecer vários caminhos e ferramentas de mobilização social , incluindo exemplos de boas práticas e tutoriais passo-a-passo. Orientações sobre como organizar um financiamento coletivo, acompanhar ou propor um projeto de lei, como fazer um twittaço ou uma Live, entre outras opções, estão disponíveis de forma dinâmica e clara. Todas as ferramentas preveem o uso com poucos recursos e forte embasamento digital, de forma a envolver pessoas de todo o Bioma.

“Com esta campanha, convidamos as pessoas a se conscientizar sobre o momento que vivemos e a importância do agirmos juntos, agora – seja no ativismo digital, na educação, no voluntariado ou apoiando como doadores os projetos que realizamos com vários parceiros em todo Brasil”, explica Gabriela Yamaguchi, diretora de Sociedade Engajada do WWF-Brasil. “A mensagem coletiva que compartilhamos é que cuidar da natureza – florestas e savanas, rios, mangues, oceanos e toda a sua diversidade de vidas – é cuidar de nós mesmos.”

Divulgação:
AViV Comunicação
Rita Silva / Sandra Miyashiro
Tels: (11) 98864.7264 / 98863.8260
Emails: rita.silva@avivcomunicacao.com.br / sandra.miyashiro@avivcomunicacao.com.br

Petição pede boicote de supermercados alemães ao Brasil por desmatamento da Amazônia

A iniciativa visa pressionar três das maiores redes de supermercados da Alemanha a não comprarem mais do Brasil, principalmente produtos agrícolas. Se obtiver adesão, o boicote pode resultar no fechamento de 70% do mercado varejista alemão às mercadorias brasileiras.

bolso neroIlustração da petição online da ONG alemã Campact, que conseguiu mais de 300 mil assinaturas. A iniciativa exorta três das maiores redes de supermercado da Alemanha a não venderem mais produtos brasileiros devido ao desmatamento da Amazônia. © Campact

Márcio Damasceno, correspondente da RFI em Berlim

Um abaixo-assinado que colheu mais de 300 mil assinaturas em menos de uma semana exorta três das maiores redes de supermercado da Alemanha a não venderem mais produtos brasileiros por causa do desmatamento da Amazônia.

A ação, lançada na terça-feira (09/06) pela Campact, ONG sediada em Berlim, critica a polêmica Medida Provisória 910/19, substituída pelo Projeto de Lei 2633/20, sobre regularização fundiária. O projeto é conhecido por seus críticos como “PL da Grilagem”, por apresentar risco de promover mais devastação florestal. 

A organização alemã cita uma ameaça de boicote formulada em maio pelas principais redes de supermercados do Reino Unido e pede que três grandes redes alemãs sigam o exemplo. O apelo é dirigido às companhias Lidl, Edeka e Aldi Nord, que figuram entre as cinco maiores varejistas da Europa em volume de faturamento.  

A Campact afirma que duas grandes redes alemãs, Aldi Süd e Rewe, já aderiram à iniciativa das redes britânicas, que ameaçaram no mês passado, em carta aberta ao Congresso Nacional, boicotar produtos brasileiros em caso de aprovação da proposta de regularização fundiária.

"Salvem a floresta: parem Bolsonaro!", diz mensagem veiculada na petição ONG alemã Campact.“Salvem a floresta: parem Bolsonaro!”, diz mensagem veiculada na petição ONG alemã Campact. © Campact

Bloqueio de 70% mercado varejista alemão ao Brasil

O sucesso da petição da Campact, com a adesão dos três supermercados, fecharia, segundo a ONG, 70% mercado varejista alemão aos produtos brasileiros. O objetivo da ONG alemã é aumentar a pressão para que o texto seja não só retirado da pauta do Congresso, mas descartado por completo.

A proposta de lei ameaça a população indígena, a biodiversidade e o clima. Normalmente, recorreríamos diretamente aos políticos. Mas no caso do radical de direita Bolsonaro, a diplomacia é impossível. Por isso, visamos seu lado mais sensível: o sucesso econômico. Bolsonaro depende do apoio do lobby do agronegócio”, diz o texto da petição online, que também foi enviado a 2,3 milhões de assinantes do boletim informativo da entidade. 

“Queremos que as redes de supermercado alemãs se juntem aos supermercados britânicos no boicote a produtos brasileiros, principalmente à carne bovina, para pressionar economicamente o governo Bolsonaro”, afirma o grupo.

O texto da petição dá destaque à afirmação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em reunião ministerial do governo, em que ele fala em aproveitar o “momento de tranquilidade na aspecto da cobertura de imprensa” durante a crise de Covid-19 no Brasil para “passar a boiada”: mudar regras e simplificar normas ambientais.

“Em vez de punir o desmatamento ilegal, Bolsonaro permite a destruição da floresta. Essa lei é como um convite para destruir a Floresta Amazônica – isso pouco antes da temporada de queimadas”, disse em entrevista exclusiva à RFI Friederike Gravenhorst, integrante da Campact. “O pulmão verde da Terra está em perigo.” 

Incentivo à destruição de novas áreas da floresta

O PL 2633/20 foi apresentado após a perda de validade em maio, por falta de acordo entre os parlamentares, da controversa Medida Provisória 910/19, editada em dezembro pelo presidente Jair Bolsonaro. O projeto prevê a regularização fundiária de imóveis da União, incluindo assentamentos, sem vistoria prévia, em áreas com até seis módulos fiscais e ocupadas até julho de 2008 – o texto da MP 910 incluía zonas ocupadas até 2014 e de até 15 módulos fiscais. 

O módulo fiscal é uma unidade cujo tamanho varia de acordo com o município, podendo ir de 5 a 110 hectares.

Defensores da iniciativa alegam que ela desburocratiza a concessão de títulos a agricultores, que poderiam produzir mais, com mais acesso a crédito. Críticos argumentam que a lei premiaria quem invadiu e derrubou florestas ilegalmente em áreas públicas e, ao possibilitar que desmatadores se tornem proprietários de áreas ocupadas ilegalmente, seria um incentivo à destruição de novas áreas de floresta.

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Esta matéria foi originalmente publicada pela Rede França Internacional [Aqui!].

Motosserras e cadeias de suprimentos: Como grandes empresas de carne e soja podem parar o desmatamento na Amazônia

Eles não cortam árvores da Amazônia, mas seus fornecedores cortam

pasto queimando

As emissões mundiais de dióxido de carbono podem cair 7% este ano devido a bloqueios em resposta à pandemia, segundo a revista Nature Climate Change. O Brasil é uma exceção gritante. Suas emissões aumentarão de 10 a 20% a partir de 2018, quando foram medidas pela última vez, diz o Observatório do Clima, um consórcio de equipamentos de pesquisa. O culpado é o desmatamento. Nos primeiros quatro meses de 2020, foram estimados 1.202 quilômetros quadrados (464 milhas quadradas) na Amazônia brasileira, 55% a mais do que no mesmo período de 2019, que foi o pior ano de uma década. Em agosto, quando os fazendeiros atearam fogo em áreas limpas para prepará-los para pastar, as chamas fugitivas poderiam superar os que chocaram o mundo no ano passado. Os cientistas dizem que a perda de árvores está chegando a um “ponto de inflexão”, após o que as árvores secam e morrem, liberando bilhões de toneladas de carbono na atmosfera.

Ambientalistas culpam o presidente populista do Brasil, Jair Bolsonaro, pela catástrofe. Ele é favorável à desregulamentação para permitir a extração de madeira, mineração e agricultura na floresta e enfraqueceu a aplicação das leis ambientais. Menos atenção foi dada ao papel de grandes empresas como a JBS e a Cargill, intermediárias globais de carne bovina e soja, os produtos que impulsionam o desmatamento (veja Detalhes gráficos).

soja desmata

Grandes empresas do agronegócio compram a maior parte da produção de soja em municípios onde muitas árvores foram cortadas ilegalmente

As empresas não cortam árvores. Em vez disso, são intermediários em cadeias de suprimentos complexas que lidam com soja e carne bovina produzida em terras desmatadas. O processo começa quando os especuladores, que tendem a operar fora da lei, compram ou capturam terras, vendem a madeira, colocam gado para pastar por vários anos e depois a vendem para um produtor de soja. As terras na Amazônia são cinco a dez vezes mais valiosas quando desmatadas, diz  o pesquisador Daniel Nepstad. Não derrubar árvores teria um grande custo de oportunidade. Em 2009, Nepstad estimou que o custo (em termos de produção perdida de carne bovina e soja) seria de US $ 275 bilhões em 30 anos, cerca de 16% do PIB desse ano.

Sob pressão da opinião pública, as grandes empresas tentaram controlar o problema. Em 2009, um relatório contundente do Greenpeace levou JBS, Marfrig e Minerva, gigantes da carne que, juntos, controlam dois terços das exportações brasileiras, a se comprometer a parar de comprar de fornecedores que desmatam ilegalmente. (O código florestal permite que os proprietários limpem 20% de suas terras.) A JBS, que é originária de uma área na Amazônia maior que a Alemanha, diz que bloqueou 9.000 fornecedores, usando satélites para detectar a limpeza. Negociantes de soja como Cargill e Bunge usam esses sistemas para fazer cumprir um acordo de desmatamento zero para a região desde 2008, quando empresas de varejo como McDonald’s e Tesco disseram que não comprariam mais soja amazônica colhida em terras desmatadas.

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Esses acordos contribuíram para um declínio acentuado na taxa de perda de árvores até 2012 (ver gráfico). Antes da “Moratória da Soja”, 30% dos novos campos na Amazônia envolviam a derrubada de florestas. Nos oito anos após a assinatura, 99% da expansão da soja ocorreu em terras já sem árvores. Mas, alerta André Vasconcelos, da Trase, uma organização de pesquisa que acompanha as cadeias de suprimentos de commodities, o frenesi do desmatamento sob Bolsonaro pode reverter essa tendência.

A onda de desmatamento mostra que os acordos têm um calcanhar de Aquiles, diz Nepstad. As grandes empresas ainda não estão exercendo o controle que poderiam sobre todos os seus fornecedores. E mesmo se o fizessem, grandes quantidades de soja e, principalmente, carne bovina, são comercializadas por empresas menores, com incentivos mais fracos para convencer os agricultores a mudar o comportamento.

O problema é especialmente grave na pecuária, responsável por aproximadamente 80% do desmatamento na Amazônia, quase todo ilegal. “As vacas se movimentam”, explica Paulo Pianez, da Marfrig. Todas as fazendas de engorda compradas pelos grandes frigoríficos têm, em média, 23 de seus próprios fornecedores, diz Holly Gibbs, da Universidade de Wisconsin. O monitoramento atual não abrange os pecuaristas que criam e pastam gado, por isso perdem 85 a 90% do desmatamento. Fazendas de engorda desonestas também podem “lavar” o gado, movendo-o para fazendas legais – talvez próprias – antes de vendê-las. Um novo relatório do Greenpeace alega que, por meio desse mecanismo, a Marfrig e a Minerva acabaram vendendo carne bovina de fazendas que desmataram uma reserva protegida da Amazônia na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Eles disseram que não sabiam de nenhuma ilegalidade.

O desmatamento causado pela soja afeta mais diretamente o Cerrado, a savana tropical que fica localizada a sudeste da floresta tropical. No Mato Grosso, estado que atravessa a Amazônia e o cerrado, 27% do desmatamento entre 2012 e 2017 ocorreu em fazendas de soja, de acordo com um novo relatório da Imaflora e do Instituto Centro de Vida (ICV), institutos de pesquisa brasileiros e Trase . O estado fornece um terço das importações de soja da UE do Brasil. Noventa e cinco por cento da clareira nas fazendas de soja eram ilegais. Um terço ocorreu na Amazônia, revelando uma lacuna na moratória da soja. Como abrange apenas as terras onde a soja é plantada, um agricultor que ilegalmente limpa outra parte de sua fazenda – digamos, para gado – pode continuar vendendo para comerciantes, que esmagam e exportam a soja.

André Nassar, da Abiove, um órgão de lobby da indústria da soja, destaca que a área de novos campos de soja plantados em áreas desmatadas no cerrado caiu: de 215.000 hectares por ano em 2000-06 para 79.000 hectares em 2013-18 . O setor deve distinguir o desmatamento legal do ilegal, diz ele – não faz monitoramento anual no Cerrado -, mas fazendas em embarque são de responsabilidade do governo. No entanto, a Bunge e a Cargill prometeram obter somente terras que não foram desmatadas, legal ou ilegalmente. Eles perderam o prazo de 2020, mas planejam ter sucesso em 2025 e 2030, respectivamente.

Talvez as empresas se moveriam mais rápido se sentissem mais pressão de clientes e investidores. Uma das razões pelas quais os gigantes da soja parecem mais sérios do que os produtores de carne para reduzir o desmatamento, diz Maria Lettini, da FAIRR, uma rede de investidores preocupados com a sustentabilidade, é que a maior parte da soja é exportada. A União Europeia é o segundo destino depois da China. Mas as empresas lutam para que as pessoas paguem mais por uma “mercadoria oculta”, diz Juliana Lopes, da Amaggi, uma gigante brasileira da soja. “Você sabe que suas roupas são feitas de algodão e seu chocolate é de cacau”, diz ela. Mas poucas pessoas pagam mais por frango feito com soja sustentável, o que explica por que apenas 2-3% é certificado como livre de desmatamento. Rotular melhor poderia ajudar, diz ela.

Em contrapartida, quatro quintos da carne brasileira são consumidos no Brasil. As exportações vão principalmente para a China, Rússia e Oriente Médio, onde alimentar pessoas é uma prioridade mais alta do que salvar árvores. Os investidores, por sua vez, vêem as empresas de carne bovina como negócios não-sexy, com margens finas. Eles não exigiram grandes esforços para reduzir o desmatamento, diz João Paulo Dibo, da Rio Bravo Investimentos, gerente de ativos em São Paulo. Sexy ou não, os produtores de carne estão indo bem. Enquanto os preços das ações no Brasil caíram 18% este ano, a Marfrig viu seu preço subir 27% e o Minerva recuperou o que perdeu no início da pandemia. A jbs, a maior frigorífica do mundo, disse que 2019 foi o ano mais lucrativo de todos os tempos.

Morgan Stanley, Itaú e Santander se recusaram a discutir empresas de soja e carne com o The Economist. Um novo relatório de 58 páginas do Itaú recomenda investir na JBS, Marfrig e Minerva. (Ele não contém a palavra “desmatamento”.) Isso reflete “miopia” no momento em que o investimento em indústria sustentável está se expandindo rapidamente, diz Fabio Alperowitch, da Fama Investimentos. É um dos 230 fundos com mais de US$ 16 trilhões em ativos que assinaram uma carta após os incêndios do ano passado pedindo às empresas que parem o desmatamento. A BlackRock, um dos dez principais acionistas da JBS, não assinou, apesar de estar desinvestindo do carvão.

A turbulência econômica torna improvável que as empresas gastem muito no combate ao desmatamento, diz Marcello Brito, da Associação Brasileira do Agronegócio. “Os acionistas não querem isso”, diz ele.

Apesar desse desânimo, as empresas dizem que estão progredindo. Os frigoríficos afirmam que estão trabalhando para cumprir sua promessa, feita em 2009, de expandir o rastreamento para fornecedores indiretos. Uma idéia é usar licenças de trânsito de animais, que rastreiam as vacinas à medida que o gado é passado entre fazendeiros, para sinalizar o desmatamento. Mas o Ministério da Agricultura ainda não concordou. o Frigorífico Minerva está considerando usar uma ferramenta desenvolvida pela Universidade de Wisconsin, chamada Visipec, para mapear fornecedores, identificar regiões com alto desmatamento e priorizar fornecedores em outras áreas. O Minerva obtém 30% de sua carne bovina através da criação de ciclo completo, o que pode garantir que é livre de desmatamento. As restrições comerciais podem realmente beneficiar as principais empresas, diz seu diretor de sustentabilidade, Taciano Custodio. “Estamos melhor posicionados para nos adaptarmos.”

Mas a mudança dos três principais frigoríficos não garante uma redução no desmatamento, porque eles representam menos da metade do mercado. “Quando bloqueamos um fornecedor, ele pode atravessar a rua e vender para outro matadouro”, diz Márcio Nappo, da JBS. O progresso de toda a indústria exigirá melhor aplicação e incentivos para os pecuaristas. “Temos que tornar a produção sustentável como um todo”, diz Pianez.

Esse sentimento é ecoado na indústria da soja, onde reprimir o desmatamento é logisticamente simples, mas politicamente difícil. Segundo o estudo de Mato Grosso, 80% do desmatamento ilegal ocorreu em 400 fazendas, 2% do total. Eles são “frutos baixos” para a ação, diz Vasconcelos. Mas dois anos de negociações sobre a expansão da moratória para o cerrado pararam. De acordo com os produtores de soja, as empresas multinacionais falharam em arrecadar US$ 250 milhões para lançar um fundo para compensar os agricultores que retêm florestas. “Eles exigem, exigem, exigem, mas não oferecem nada em troca”, reclama Ricardo Arioli.

A Cargill diz que gastará US$ 30 milhões em maneiras de parar o desmatamento em todo o setor. Marfrig e Amaggi estão apoiando uma iniciativa lançada pelo governo de Mato Grosso em 2015 para reduzir o desmatamento por meio de uma “abordagem da paisagem”. Fernando Sampaio, diretor do comitê, que inclui ONGs e empresas, diz que os municípios que reduzem o desmatamento receberão assistência técnica e crédito e mais negócios das grandes empresas, incentivando outras a seguir. Mas embora a taxa de desmatamento no estado entre agosto de 2018 e julho de 2019 tenha diminuído 4% em relação ao ano anterior, a iniciativa parece estar muito aquém de sua meta de acabar com o desmatamento ilegal até 2020: 85% dos 1.685 km2 desmatados foram feitos de forma ilegal.

Entre os maiores obstáculos ao progresso está a falta de cooperação do governo federal. Em um vídeo de uma reunião de gabinete divulgada em abril pelo Supremo Tribunal Federal, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pediu ao governo que “empurre” a desregulamentação enquanto as pessoas se distraem com a pandemia. Uma mudança de regra na Fundação Nacional do Indio permite que os proprietários reivindiquem pedaços de territórios indígenas que aguardam demarcação oficial. Até a moratória da soja na Amazônia parece instável. Aprosoja, um lobby dos produtores, ameaçou abandoná-lo (porque proíbe o desmatamento legal). A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, chamou isso de “absurdo”.

Reduzir o desmatamento exigirá consenso sobre questões complicadas, como o destino de dezenas de milhares de colonos pobres em terras públicas na Amazônia, onde metade do desmatamento ocorre. No entanto, ambientalistas dizem que o projeto de “regularização fundiária” atualmente no Congresso também concederia títulos para grandes áreas desmatadas a “grileiros”, enviando a mensagem de que uma nova limpeza também pode ser aprovada. Uma versão anterior do projeto foi rejeitada em 20 de maio, depois que os supermercados britânicos ameaçaram boicotar produtos brasileiros.

Embora ainda fracos, esses ruídos estão ficando mais altos. Eles acrescentam ao argumento de que as empresas devem fazer mudanças não apenas por razões éticas, mas também por razões comerciais. Os supermercados podem acelerar as coisas dizendo aos consumidores de onde vêm a carne e a soja. A integração de agricultores e pecuaristas exigirá o equilíbrio certo de pressão e incentivos. As empresas têm alavancagem, insiste Gibbs. Há uma década, depois da JBS, a Marfrig e a Minerva se comprometeram a eliminar os fornecedores que desmataram, mais de 30 outras empresas de carne bovina assinaram acordos semelhantes. “Se você conseguisse que uma grande empresa desse o primeiro passo, outras seguiriam”,  ela prevê. ■

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista “The Economist” [Aqui!].