Barão de Cocais (MG): mineradora Vale condena Santuário de São José ao despejo

No “Ano de São José”, anunciado pelo Papa, devotos podem perder igreja construída sob o milagre do santo

santuárioSantuário de São José de Brumadinho foi construído em 1.742 e fica abaixo da barragem Norte/Laranjeiras, da Vale – Foto: Adenilson Cruz de Oliveira

Por Rafaella Dotta para o jornal Brasil de Fato

Em comemoração aos 150 anos da proclamação de São José como guardião universal da Igreja Católica, o Papa Francisco anunciou no último 8 de dezembro que 2021 será o “Ano de São José”, convidando todos a conhecerem melhor o pai adotivo de Jesus. O papa afirmou que o anúncio veio ao seu coração.

Talvez seja uma interseção do próprio santo, já que no Brasil, na cidade de Barão de Cocais (MG), uma igreja levantada no local de um milagre atribuído a São José pode ser despejada 10 dias após o anúncio.

O motivo do despejo é um triste cotidiano do estado: a mineração. O santuário, a gruta de São José e cerca de 10 famílias do distrito de Brumadinho serão removidos, de forma obrigatória, por conta da insegurança da barragem Norte/Laranjeiras, mina Brucutu, da mineradora Vale S.A.

 Segundo nota da empresa, ela iniciou em 18 de novembro um protocolo de emergência de nível 2, o que incluiu a remoção de toda comunidade da Zona de Autossalvamento, ou seja, dos locais onde as pessoas só contariam consigo próprias em uma situação de rompimento da barragem. Moradores afirmam que a Defesa Civil Municipal deu o prazo de 18 de dezembro para que todos se retirassem.

Santuário de quase 300 anos

A igreja de São José de Brumadinho teve sua primeira inauguração em 1.742, em Barão de Cocais, e sua primeira estrutura foi erguida no mesmo local de um milagre concedido a um negro escravizado.

“Um escravo, cumprindo ordens de seu senhor, cortava a golpes de machado uma baraúna de grossa espessura, neste exato momento desprendeu um galho da copa da árvore e o atingiu de maneira fatal. Ao ser atingido, o escravo ainda teve fôlego e gritou por socorro ao Santo Padroeiro São José do Brumadinho, e prodigiosamente apareceu no mesmo instante a figura de um médico e um padre”, relata Manoel Domingos Ribeiro, em carta escrita em 2006.


Imagem, talhada na madeira, é um documento que retrata o milagre de São José de Brumadinho / Imagem: Reprodução

Ali, sob o toco que o escravo coletava, foi erguida a primeira capela ao santo milagreiro, conta Manoel. E a história vem sendo testemunhada de pai para filhos, de devoto em devoto.

A carta relata a longa relação do santuário com a comunidade, todo construído, reformado e reconstruído pelos fiéis ao longo desses quase 300 anos. Por força da instabilidade do solo, a igreja mudou de local, e no ponto do milagre existe a gruta de São José, que assim como a igreja também será “despejada”.

Os devotos decidem ficar

Desalojar uma igreja tricentenária, com milhares de devotos, não é coisa banal. O devoto e morador da comunidade vizinha, Márcio Gonçalves Fernandes, chama os fiéis de “família de fé regional”, afinal, ali vão devotos de diversas cidades do entorno, como São Gonçalo do Rio Abaixo, Santa Bárbara, Nova Era, João Monlevade, Ipatinga, Belo Horizonte e Santa Luzia.

“Principalmente em 19 de março, que é o dia dedicado a São José, vem famílias de outros estados exclusivamente para a festa aqui em Brumadinho”, conta. A última missa no dia do padroeiro, em 2016, reuniu cerca de 7 mil pessoas, sem que fosse preciso divulgação, descreve Márcio.

Ao santo, os devotos “pedem de tudo”, e é muito comum o pedido de bênção e proteção às famílias, já que São José é patrono da família. “São José também era um carpinteiro, um trabalhador, então os operários costumam pedir muito em relação à vida e ao trabalho. E devido ao milagre que aconteceu aqui em Brumadinho, como tudo começou, as pessoas vêm de toda região também para agradecer”, diz Márcio.

A ordem de remoção da igreja não foi aceita pela comunidade, nos relata Padre Nequinho, o pároco da região, “e o padre assina embaixo”, completa. Ele afirma que não houve consulta alguma. “Mesmo se houvesse uma consulta ‘formal’, essa empresa respeitaria? Não houve consulta. Houve ordem para desocupação”, diz.

A comunidade decidiu que não irá retirar a igreja São José de Brumadinho do seu local. Caso os fiéis sejam impedidos de chegar até a igreja para as celebrações, elas serão feitas na estrada ou “onde der”, garante Márcio Gonçalves.

A estratégia da “barragem insegura”

A luta contra a extinção da igreja, causada por ações da mineradora Vale, não é de hoje. Em 2008, a comunidade se mobilizou fortemente contra a sua própria remoção, devido ao planejamento da empresa de construir ali uma grande barragem, chamada “Norte”. Com a resistência dos moradores de Brumadinho e a forte mobilização pela preservação da igreja, a Vale retrocedeu e levou à frente a construção de uma barragem menor.

Quem relata essa história é Luiz Paulo Siqueira, integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

“A Vale então dividiu essa obra em três projetos: a barragem de Laranjeiras, a barragem do Torto e a barragem de Tamanduá. Que ao final, ela irá juntar em uma barragem. No seu relatório de sustentabilidade de 2007, a Vale afirma que não fez a barragem Norte em sua totalidade na época, por causa da resistência do povo, mas deixaria para 2020 em diante para desapropriar a comunidade e completar o projeto”, narra Luiz.

No relatório, de fato, a mineradora transcreve uma fala do gerente de planejamento da mina de Brucutu, Joaquim Pedro de Toledo: “O que conseguimos foi postergar a ocupação da área da igreja para 2020. Assim, teremos mais tempo para planejar com a população local outras alternativas viáveis”.


Figura 1: etapa de construção das barragens Laranjeiras e Torto. Figura 2: no futuro, barragem Norte finalizada. Igreja e comunidade submersas / Imagem: Reprodução

O MAM avalia que a mineradora ainda sabe da resistência que deve encontrar e, por isso, se utiliza de algumas “curvas” para chegar no seu ponto final. Desde 2019, a mineradora não atestou mais a estabilidade da barragem de Norte/Laranjeiras, o que teria forçado o Ministério Público e a Defesa Civil a elevar o nível de insegurança da barragem e, com isso, remover a comunidade e a igreja que a mineradora não tinha conseguido remover anteriormente.

“A estratégia da Vale foi negligenciar as medidas de segurança da barragem para forçar o poder público a evacuar a população. Assim, a Vale consegue avançar no plano de dominar o território que lhe interessa”, avalia Luiz Paulo.

Atualmente

A barragem Norte/Laranjeiras está desativada desde dezembro de 2019. Porém, a mina de Brucutu continua em funcionamento, ao lado, inclusive com explosivos. Também ao lado, com a movimentação de caminhões pesados, continua em andamento a obra da barragem do Torto, que irá estocar mais rejeitos da mina Brucutu. Todo este complexo é de propriedade da Vale.


À direita: barragem Laranjeiras. À esquerda em construção: barragem Torto / Foto: Adenilson Cruz de Oliveira


Obra da barragem Torto, da Vale, em Barão de Cocais (MG) / Foto: Adenilson Cruz de Oliveira

A mineradora Vale foi procurada para se posicionar sobre a remoção da igreja e da comunidade, mas não respondeu até o fechamento da matéria.

O que a comunidade reivindica

Os moradores e apoiadores reuniram-se com o Ministério Público de Minas Gerais, em 16 de dezembro, ao qual entregaram uma lista de reivindicações. Assinam essa carta a Associação Comunitária de Cocais, a Comissão de Meio Ambiente da Arquidiocese de Mariana, a Comissão Pastoral da Terra, a Paróquia de São José e o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).

No documento, os moradores requerem: que o processo de evacuação seja suspenso, até que a Vale apresente um estudo e informações sobre a barragem; permanência da igreja e acesso livre à região; que seja feita uma avaliação independente dos impactos da evacuação e construção de parâmetros para uma negociação; que a barragem Laranjeiras seja oficialmente descaracterizada e suspenda as obras da barragem do Torto; e a construção de medidas que interliguem e eliminem toda a problemática das barragens na região.

Os moradores ainda acreditam que a remoção possa ser revista. Afinal, “para São José tudo é possível”, esperança Márcio.

Edição: Elis Almeida

fecho

Esta reportagem foi originalmente publicada pelo jornal “Brasil de Fato” [Aqui!].

MPF: Acordo encerra 25 anos de despejo de esgoto no rio Paraíba do Sul

Após celebração de TAC com o MPF, é construída rede coletora de esgoto em condomínios

Após a celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre o Ministério Público Federal (MPF) em Campos (RJ) e a Concessionária Águas do Paraíba, três condomínios em Campos (edifícios Barcelos Martins, Tancredo Neves e João Paulo II) encerraram o despejo de esgoto sem tratamento nas águas do rio Paraíba do Sul. Os prédios existem há mais de 25 anos e possuem mais de 360 apartamentos, com cerca de 1.400 moradores. Foi construída rede coletora de esgotos para interligar os condomínios à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Guarus.

Clique aqui e confira o relatório sobre o cumprimento do TAC.

“O acordo pôs fim à situação que perdurava há anos envolvendo a Concessionária e os condomínios residenciais com o despejo direto de esgoto no rio Paraíba do Sul e foi celebrado no contexto do conjunto de medidas que vêm sendo adotadas pelo MPF na luta para a recuperação e preservação do rio Paraíba do Sul, que enfrenta a sua maior baixa das últimas décadas”, explica o procurador da República Eduardo Santos de Oliveira, que conduziu as negociações.

O TAC foi resultado de um inquérito civil público que apurava a situação desses condomínios e visava ao fim do despejo indevido de esgoto no rio. “Posteriormente, se ficar comprovado dano ambiental resultante da prática, os responsáveis poderão responder judicialmente pelos atos praticados”, destaca o procurador.

FONTE: Assessoria de Comunicação Social /Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro

Estado, fé e justiça

Por João Batista Damasceno

A ocupação da Catedral Metropolitana pelos despejados da Favela da Telerj, em decorrência de liminar deferida pelo Judiciário, expõe o calcanhar de Aquiles da política habitacional em nosso estado

#telerjresiste
A ocupação dos moradores da favela da telerj que foram violentame... virusplanetario

Rio – A ocupação da Catedral Metropolitana pelos despejados da Favela da Telerj, em decorrência de liminar deferida pelo Judiciário, expõe o calcanhar de Aquiles da política habitacional em nosso estado. O desalijo sem prévio cadastramento dificulta a implementação de política assistencial ou social. Despejados com truculência foram para a porta da prefeitura, onde permaneceram aguardando providências em seu proveito. Ao contrário de ajuda e solidariedade, receberam ameaças. Mães foram ameaçadas de perder a guarda dos filhos porque estavam em convívio familiar fora dos lares que não mais têm; sofreram a perturbação do sono noturno por sirenes da Guarda Municipal; crianças e mulheres grávidas foram retiradas da passarela do metrô, onde se protegiam da chuva durante a madrugada. Ao fim, foram de novo expulsos da porta da prefeitura com violência conjunta da Guarda Municipal e da Polícia Militar. Desrespeitou-se o preceito de que locais públicos são próprios para ir, vir e ficar. Abrigando-se da truculência estatal, foram para o único lugar onde, dizem, não sofreram violência: o pátio privado da Catedral; impróprio refúgio, mas necessário diante do que vivenciavam.

Os governantes estão tranquilos com a atual situação. Tratam-na como se fosse uma questão de fé a ser resolvida pela Arquidiocese. A questão é político-social e compete ao poder público, que apenas oferece a truculência do seu aparato repressivo, felizmente recusada pelo cardeal-arcebispo Dom Orani. Não é de hoje que governantes despidos de concepção adequada de suas funções consideram que problema social é caso de polícia.

Monteiro Lobato, no artigo ‘Velha Praga’, em 1914, escreveu se referindo ao povo: “Não há recurso legal contra ele. A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é ‘tocá-lo’. Curioso este preceito: ‘ao caboclo, toca-se.’ Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala.”

Remoções são realizadas à margem da lei, pois a ordem jurídica não as autoriza, aproveitando-se da cegueira ou miopia dos órgãos encarregados de garantir o império da justiça. Ainda que realocações sejam autorizadas legalmente em casos necessários, não devem afastar a pessoa de suas referências, da possibilidade de convívio com seus familiares e dos grupos com os quais se relacione. Mas ao povo, toca-se. Nem gado, hoje, é tocado. Quando necessário, é transportado com maior cuidado que o dispensado a trabalhadores. Gado se guarda e se protege, pois tem valor econômico.

Se há dinheiro para a Copa do Mundo, para obras faraônicas e para empréstimos a fundo perdido a certos empresários, há de ter também para assegurar direitos constitucionais, dentre os quais o de moradia.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política pela UFF

FONTE: http://odia.ig.com.br/noticia/opiniao/2014-05-03/joao-batista-damasceno.html

A sexta-feira nada santa dos despejados da Favela Oi nas mãos de Eduardo de Paes e Adilson Pires

Escrito por  Augusto Lima e Raquel Boechat, com fotos da Mídia NINJA

A Sexta-feira Santa do ano cristão de 2014 começou com madrugada fria e violenta no Rio de Janeiro.

Por volta das duas da manhã, quando ainda restavam 71 adultos e 22 crianças no acampamento de desalojados refugiados no entorno da prefeitura do Rio, o que sobrou da população sem-teto despejada da favela da Telerj no último dia 11, a Guarda Municipal (GM) apareceu ameaçadora e truculenta – apesar do salvo conduto expedido no plantão noturno da segunda-feira, 13 de abril, em favor de crianças e adolescentes garantindo judicialmente às famílias que não poderiam ser removidos do local contra a sua vontade.

Um cordão de contenção foi formado por ativistas que faziam vigília das famílias na madrugada. O isolamento em proteção aos desabrigados resistiu por um tempo, mas não foi suficiente. Havia até bebê sendo amamentado naquele exato momento – e o boato de que havia um infiltrado (supostamente da prefeitura) entre os desabrigados, dormindo com eles na rua.

Por segurança, e com medo, mulheres e crianças começaram a se afastar, mesmo assim, a GM, agora com seus uniformes robocop e escudos como se o próprio Choque fosse, avançou com pressão sobre o cordão dos ativistas que foram empurrados com força.

As pessoas gritavam que estavam se retirando do local, mas, com truculência, a GM seguiu enxotando as famílias e avançando em direção aos ocupantes. Entre gritos de desespero ativistas pediam aos guardas mais humanidade, menos opressão, lembravam que eles também tinham família, que era Páscoa, e pediam para parar de bater até em mulher.

Carregadas às pressas de suas crianças, cobertas, colchões, água e restos de comida, entre o sair dali e o se defenderem da GM, várias famílias foram para o outro lado da Avenida Presidente Vargas tentando abrigo em cabine de um ponto de ônibus. Foram perseguidos ali também.

O Choque fez uma linha de retaguarda ao ataque da Guarda Municipal, que enxotou e enxotou e enxotou as famílias até, pelo menos, a região da estação da Central do Brasil. Ao final o Choque também agiu.

A diáspora carioca, assim como a do povo hebreu e o exílio da Babilônia no século VI a.C. com a destruição de Jerusalém, e em pleno dia que o mundo cristão lembra a via crucis de Jesus, seguiu caminhando até a Catedral do Rio.

Por volta das 7h da manhã, Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, já estava ciente de toda a tragédia e seus refugiados pedindo abrigo.

Roga-se que, por compaixão humana ou cristã, termine aqui, de algum modo, a maldição do “Serás disperso por todos os reinos da terra.”

FONTE: https://www.facebook.com/midiaNINJA/photos/a.299120590246093.1073741902.164188247072662/299120930246059/?type=1&theater

 

Leitor do blog envia imagem e pergunta: para onde vai o esgoto coletado na Barra do Açu?

trator limpa fossa

A imagem acima é de um trator acoplado a um tanque de estocagem de esgoto que foi tirada num momento de descanso do operador dessa engenhoca na localidade de Barra do Açu, que fica na região costeira do V Distrito de São João da Barra. O leitor do blog ainda me perguntou se eu sabia para onde esse material está sendo levado para ser despejado.

Como não tenho como oferecer uma resposta precisa ao que o leitor me perguntou (mesmo porque autorizar o trabalho de remoção de esgotos está fora da minha jurisdição de professor da UENF), transfiro a questão para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de São João da Barra e para o Instituto Estadual do Ambiente (INEA).  Afinal de contas, se o que está removido é esgoto urbano nada mais justo que esses dois órgãos ambientais possam informar à toda população o destino do material que está sendo, suponho eu, coletado de forma legalizada a partir de processos técnicos que devem ter passado pelo escrutínio dessas duas instâncias.

Esse aqui pode ser um exemplo clássico de que se seguirmos a trilha deixada por algo ou alguém, é possível que cheguemos a respostas surpreendentes sobre questões prementes que ninguém parece ter uma explicação plausível. Será?