Justiça holandesa barra fungicida com fludioxonil; no Brasil, substância continua presente no Maxim e Maxim XL

Decisão da Justiça holandesa determina retirada de produto contendo o fungicida após reconhecimento de suas propriedades de desregulação endócrina; no Brasil, o princípio ativo está presente em produtos como Maxim e Maxim XL

Uma decisão recente da mais alta corte administrativa dos Países Baixos deveria chamar a atenção das autoridades sanitárias brasileiras. O tribunal determinou que o fungicida Pitcher seja retirado do mercado o mais rapidamente possível porque contém fludioxonil, princípio ativo reconhecido como desregulador endócrino. O caso, divulgado pela Pesticide Action Network Europe (PAN Europe), coloca novamente no centro do debate uma questão recorrente na regulação dos agrotóxicos: o que fazer quando novas evidências científicas indicam riscos que não foram devidamente considerados no momento da autorização de um produto?

A importância da decisão vai muito além dos Países Baixos. Em 2024, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que o fludioxonil atende aos critérios europeus para identificação de substâncias com propriedades de desregulação endócrina nas modalidades relacionadas a estrogênio, androgênio e esteroidogênese, tanto para seres humanos como para organismos não alvo. A legislação europeia estabelece restrições severas para substâncias com essas características, razão pela qual o tribunal concluiu que uma formulação que permita exposição humana não deveria ter sido autorizada.

A questão interessa diretamente ao Brasil porque o fludioxonil continua autorizado pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura. Um dos produtos mais conhecidos é o Maxim, fungicida para tratamento de sementes registrado pela Syngenta, contendo 25 g/L de fludioxonil. Existe ainda o Maxim XL, também da Syngenta, que combina 25 g/L de fludioxonil com 10 g/L de metalaxil-M. O Maxim está registrado no MAPA sob o nº 05397, enquanto o Maxim XL possui registro nº 09499. Portanto, não estamos falando de uma molécula distante da realidade agrícola brasileira, mas de um princípio ativo efetivamente autorizado e comercializado no país.

E há aqui uma contradição que merece atenção. No sistema brasileiro de classificação, tanto o Maxim quanto o Maxim XL aparecem na Categoria 5 — “Produto Improvável de Causar Dano Agudo”. Essa classificação, entretanto, refere-se essencialmente à toxicidade aguda e não significa ausência de efeitos associados à exposição crônica. Esse ponto torna-se particularmente importante quando estamos diante de uma substância que a avaliação europeia passou a considerar desreguladora endócrina. Aliás, a própria bula brasileira do Maxim XL informa que, em estudos crônicos com animais, fígado e rins foram identificados como órgãos-alvo do fludioxonil, com alterações hepáticas, renais e hematológicas observadas nas doses mais elevadas.

Há também uma dimensão ambiental que não deveria ser esquecida. Enquanto o Maxim é classificado como “Produto Perigoso ao Meio Ambiente”, o Maxim XL é classificado como “Produto Muito Perigoso ao Meio Ambiente”. Assim, a confortável expressão “improvável de causar dano agudo”, quando lida isoladamente, pode transmitir ao usuário uma percepção de segurança que não corresponde ao conjunto das informações toxicológicas e ambientais disponíveis.

O caso holandês levanta ainda uma questão institucional particularmente relevante para o Brasil. O tribunal europeu reafirmou que as autoridades responsáveis pelo registro de agrotóxicos não podem simplesmente permanecer presas às avaliações realizadas no momento inicial da autorização quando surgem novas evidências científicas relevantes. A própria controvérsia começou porque a autoridade holandesa continuava autorizando determinados produtos sem incorporar adequadamente conhecimentos científicos mais recentes. O princípio é elementar: a autorização de um agrotóxico não pode funcionar como um salvo-conduto permanente diante do avanço do conhecimento científico.

É justamente aí que a situação brasileira merece acompanhamento. O fludioxonil permanece na lista de ingredientes ativos autorizados pela Anvisa e integra diferentes formulações comercializadas no país. Além do Maxim e Maxim XL, aparecem no mercado brasileiro produtos como Maxim XL Professional, Apron RFC e Celest XL, todos registrados pela Syngenta e contendo fludioxonil em diferentes combinações com outros fungicidas.

Até o momento, não consegui confirmar nos bancos públicos consultados quais produtos registrados por outras empresas poderiam ser rigorosamente classificados como genéricos do Maxim ou do Maxim XL no mercado brasileiro. Essa informação merece investigação adicional, inclusive porque a existência de registros por equivalência pode ampliar significativamente o universo de produtos e marcas comerciais associados ao mesmo princípio ativo.

O ponto central, entretanto, independe disso. Se uma autoridade científica europeia identificou o fludioxonil como desregulador endócrino e uma corte determinou a retirada de uma formulação do mercado justamente por causa desse risco, Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura deveriam explicar se essas novas evidências já foram incorporadas à avaliação brasileira do ingrediente ativo. Não se trata de importar automaticamente uma decisão europeia, mas de aplicar um princípio básico de proteção à saúde pública: diante de novas evidências sobre efeitos crônicos potencialmente graves, registros concedidos no passado precisam ser reavaliados à luz do conhecimento científico disponível no presente.

O caso do fludioxonil mostra mais uma vez por que classificar um agrotóxico apenas pelo risco de intoxicação aguda oferece uma imagem incompleta de sua segurança. Um produto pode não provocar facilmente uma intoxicação imediata e, ainda assim, apresentar riscos associados à exposição repetida, à interferência no sistema endócrino ou aos efeitos sobre organismos e ecossistemas. E é justamente nesse intervalo entre aquilo que mata rapidamente e aquilo que pode produzir danos silenciosos ao longo do tempo que muitas vezes se instala o problema dos agrotóxicos.

A França e seu padrão duplo no uso de agrotóxicos: o caso do Clordecona nas Antilhas Francesas

A França finalmente reconhece o risco de câncer como uma doença ocupacional entre os trabalhadores das plantações nas Antilhas

clordecona 1Em muitas regiões do mundo, agrotóxicos altamente tóxicos ainda são pulverizados do ar. Foto: Alamy Stock Photo

Por Ralf Klingsieck, Paris para o Neues Deutschland

No departamento ultramarino francês de Guadalupe, a pequena reportagem foi celebrada como uma grande vitória de palco na mídia: no diário oficial “Journal officiel”, por decreto, câncer de pessoas que trabalharam durante anos nas plantações de banana e entraram em contato com o agrotóxico altamente tóxico Clordecona foi finalmente reconhecido como uma doença ocupacional. O Ministério da Agricultura ainda não anunciou qual é o valor das compensações e quantas pessoas têm direito a elas.

A Clordecona foi amplamente utilizada como inseticida nos territórios ultramarinos franceses das Antilhas entre 1972 e 1993 . De acordo com o presente decreto, no entanto, apenas os trabalhadores agrícolas que trabalharam nas plantações de banana por pelo menos dez anos e que tenham passado pelo menos 40 anos entre o último contato com o inseticida e o diagnóstico de câncer de próstata têm direito ao reconhecimento e à pensão . Para as associações de vítimas que estão litigando no estado desde 2006 por causa de “riscos à saúde com risco de vida”, este é apenas um sucesso inicial. Eles continuarão lutando até que as condições restritivas sejam relaxadas e o círculo de vítimas que podem reivindicar reparação financeira seja muito mais amplo.

O  “Atlas dos Agrotóxicos de 2022” apresentado em Berlim ontem (12/01) mostra que a quantidade de agrotóxicos usados ​​em todo o mundo aumentou 80% desde 1990, em algumas regiões como a América do Sul em quase 150%. O atlas foi publicado pela Federação para o Meio Ambiente e Conservação da Natureza, a Fundação Heinrich Böll e a Pesticide Action Network (PAN Alemanha). De acordo com isso, o uso de cerca de 350.000 toneladas na UE ainda está em um nível alto. Na Alemanha, as maçãs são pulverizadas cerca de 30 vezes por estação, as vinhas até 17 vezes e as batatas até 11 vezes.

A Clordecona é um desregulador endócrino, ou seja, um produto químico que pode interromper o modo bioquímico natural de ação dos hormônios e, assim, causar efeitos nocivos – por exemplo, a interrupção do crescimento e desenvolvimento. O agrotóxico, cuja natureza questionável era conhecida desde a década de 1960, foi colocado na lista de substâncias potencialmente cancerígenas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) da ONU em 1979.

Nas regiões das Antilhas Francesas de Guadalupe e Martinica, o número de casos de câncer de próstata per capita é o mais alto do mundo. Embora a Clordecona não tenha sido usada na França continental desde 1990, durou até ser proibida nas áreas das Antilhas Francesas até 1993, pois os proprietários das plantações obtiveram uma autorização especial. Os trabalhadores agrícolas preocupados foram acalmados pelas autoridades de saúde locais. Os riscos para a saúde só foram revelados anos depois por meio de pesquisas de associações ambientalistas e grupos de cidadãos. Cientistas a quem pediram ajuda descobriram que mais de 90% da população das Antilhas é afetada, o que pode ser atribuído ao fato de que o uso de clordecona não se limitou às plantações de banana. As áreas de cultivo de frutas e hortaliças provavelmente serão poluídas por séculos pelo envenenamento das águas subterrâneas.

As mentiras oficiais na questão da Clordecona levaram a uma profunda desconfiança das instituições estatais, especialmente em Guadalupe. Este é um terreno fértil para notícias falsas e teorias da conspiração espalhadas na Internet. Portanto, não é de surpreender que, na atual pandemia de corona , a taxa de vacinação seja a mais baixa de todos os departamentos franceses . Isso é perigoso para a saúde da população e arriscado para os hospitais, onde as unidades de terapia intensiva não têm capacidade suficiente.

Um conflito aberto surgiu quando o governo de Paris impôs exigências de vacinação para todos os profissionais de saúde meses atrás. Enquanto na França continental apenas algumas centenas dos mais de 200.000 médicos e enfermeiros se opuseram à vacinação, em Guadalupe o mesmo se aplica à maioria dos funcionários. Eles lutam há semanas com ações às vezes violentas para garantir que a vacinação obrigatória para as Antilhas seja suspensa. As sedes sindicais de Paris estão extremamente envergonhadas que os sindicatos locais estejam liderando essa luta.

Enquanto isso, as ações aumentam. Depois que os hospitais foram ocupados e bloqueados por dias, o departamento de saúde de Guadalupe foi sitiado na semana passada e seu conselho de administração foi sequestrado como refém e só liberado depois do expediente. As ações atingiram seu pico por enquanto no início desta semana, quando um membro do parlamento foi agredido do lado de fora de sua casa por manifestantes com os quais ele queria discutir. Ele havia votado anteriormente na Assembleia Nacional de Paris pelo certificado de vacinação, que será condição para acesso a instituições gastronômicas ou culturais ou viagens a partir de meados de janeiro.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].