Mário Magalhães detona o golpe: Mais um golpe vagabundíssimo

 

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Com ressalvas insignificantes em relação conteúdo abaixo, penso que o jornalista Mário Magalhães matou a bola no peito e mandou para dentro do gol.  O artigo que ele acaba de postar talvez entre para um tipo de galeria de artigos notáveis dada a capacidade que ele teve de desvelar a natureza mais reacionária do golpe de estado que estamos vendo neste momento.

A única coisa que eu tenho a observar é que, como já tenho dito várias vezes nos últimos meses aqui mesmo neste blog, os golpistas estão esquecendo de combinar o jogo com os russos, neste caso a maioria pobre da população brasileira. E, por isto, é bem provável que venham colher ventos e tempestades muito além do que desejariam. É que como bem observou aquele banqueiro que levou a babá para empurrar seus filhos numa manifestação em Copacabana, vai ser muito complicado explicar para os pobres porque eles terão que abrir mão do pouco que conseguiram evoluir nos últimos 13 anos em nome da possibilidade que as elites brancas possam a voltar a viajar tranquilamente para Miami.

Mais um golpe vagabundíssimo

Por Mário Magalhães

O muso, a cara e o coração do impeachment – Foto Pedro Ladeira/Folhapress

Poucos anos depois da deposição do presidente constitucional João Goulart, em 1964, um dos arautos mais estridentes do movimento avacalhou-o como “golpe vagabundíssimo”. Houvera, de fato, golpe de Estado. Mas antes o arauto o incensara como “Revolução”, em caixa-alta. E como cruzada em defesa da democracia e contra a corrupção.

Proclamaram que seria uma “Revolução” destinada a assegurar eleições diretas para o Planalto. Logo aboliram-nas. Denunciados pelos golpistas como larápios, Jango e o ex-presidente Juscelino Kubitschek tiveram a vida devassada, e os esbirros não obtiveram uma só prova de que os investigados tivessem se apropriado de patrimônio público. Os dois acabaram formando ao lado do velho antagonista. Batalhando pela redemocratização, conforme os dois ex-governantes, ou democratização, como preferia o arauto do 1º de abril. Juntos contra a ditadura parida pela derrubada de Goulart.

Neste exato instante, começo da tarde de 11 de maio de 2016, o Senado debate o afastamento da presidente constitucional Dilma Rousseff. A guilhotina tem hora marcada, a madrugada vindoura. Sem blindados nas ruas e divisões de infantaria nas estradas. Com uma embalagem menos vulgar que a de 52 anos atrás. Mas mesmo assim um golpe de Estado. Mais um golpe vagabundíssimo.

Dilma sofre processo de impeachment sem que exista um único indício ou prova de que tenha cometido crime. Ao contrário de numerosos algozes, os senadores e deputados denunciados por uma vastidão de artigos do Código Penal. As manobras fiscais de créditos e ditas pedaladas não constituem subtração de dinheiro do povo. Eram práticas corriqueiras de todos os grandes partidos, aqueles que em maioria se preparam para eliminar a presidente consagrada em 2014 por 54.501.118 votos. Configura injustiça _ou golpe_ aplicar determinados critérios punitivos a gestores de certa coloração, e a de outras, não.

Dilma Rousseff não está sendo deposta em virtude do seu desastroso segundo mandato. Ao trocar suas promessas de palanque pela plataforma do candidato derrotado, ela impôs à sua base social os maiores sacrifícios da crise. Agravou-a, castigando os brasileiros mais pobres. Um dia a história talvez esclareça por que a presidente fez o que fez.

Seria indigno, contudo, culpar Dilma pelo golpe. As responsabilidades são dos autores. Na raiz do impeachment se identifica a rejeição à soberania do voto popular, cultivada atavicamente por castas sociais poderosas. Quatro dias após a reeleição, o PSDB já questionava a legitimidade da candidata que triunfara. Diante da inércia e da hesitação do governo, grupelhos de fanáticos de extrema-direita se vitaminaram, deflagrando a formação de coalização semelhante à que fulminou Jango (as Forças Armadas e a Igreja são exceções notáveis; os grandes proprietários de terras, o empresariado mais graúdo, os meios de comunicação hegemônicos, o Congresso conservador e a classe média mais radicalizada reeditam o papel desempenhado há meio século; a Casa Branca, rápida no gatilho para pitacar até sobre corrida de calhambeques mundo afora, cala sobre a farsa antidemocrática no Brasil).

A recusa às urnas não é mera idiossincrasia desvinculada de outros propósitos. Coube a um jornalista bem-humorado boa explicação. Falando pela boca da dona História, Luis Fernando Verissimo escreveu: “[…] A ilusão que qualquer governo com pretensões sociais poderia conviver, em qualquer lugar do mundo, com os donos do dinheiro e uma plutocracia conservadora, sem que cedo ou tarde houvesse um conflito, e uma tentativa de aniquilamento da discrepância. Um governo para os pobres, mais do que um incômodo político para o conservadorismo dominante, era um mau exemplo, uma ameaça inadmissível para a fortaleza do poder real. Era preciso acabar com a ameaça e jogar sal em cima. Era isso que estava acontecendo [em 2016]”.

Não é no piscar de olhos histórico de pouco mais de um século desde a Abolição que são suprimidas relações de poder obscenas na derradeira nação a extinguir a escravidão formal. O Brasil permanece como um dos dez países mais desiguais. A terra onde uma patroa de classe média tinha e quem sabe ainda tenha chiliques ao se deparar com a empregada doméstica trajando roupa igual à sua.

Há uma pegadinha marota, abrangendo apenas três anos e pouco, nos balanços da economia e de indicadores sociais na queda de Dilma. Seu governo agoniza, mas o cartão vermelho é sobretudo para os 13 anos e quatro meses de representantes do PT na Presidência. Perdas e danos devem ser contabilizados desde 2003.

Nesse período, ninguém insinuou revolução ou ameaça aos interesses mais caros dos manda-chuvas de sempre. Mas o que se passou não foi indiferente à população que desde o desembarque de Cabral levou a pior. Nos 13 anos petistas, a renda dos mais pobres teve 129% de aumento real, descontada a inflação. E a dos mais ricos, 32%.

De 2001 a 2009, a taxa de pobreza no país despencou de 35,2% para 21,4%. A da extrema pobreza, para menos da metade, de 15,3% para 7,3%. O programa Bolsa Família contribuiu para a queda, bem como o aumento real do salário mínimo em 53%, nos oito anos de Lula (2003-2010). Em 2013, 13,8 milhões de famílias eram atendidas pelo Bolsa Família, aproximadamente 27% da população ou ao menos 50 milhões de viventes. Poucas iniciativas dos anos Lula-Dilma foram tão demonizadas como o Bolsa Família. O programa tem notórias limitações, mas comer um prato de comida não é capricho para os ao menos 30 milhões de seres humanos que deixaram a miséria absoluta, a da fome.

Nesses 13 anos, as universidades receberam mais estudantes que antes. E mais negros. Avião deixou de ser transporte só de bacana. Empregadas domésticas conquistaram carteira assinada. O desemprego hoje, a despeito do aumento recente, é menor do que em tempos de Fernando Henrique Cardoso. A mortalidade infantil despencou. O salário mínimo recuperou-se também com Dilma.

Nada foi benesse, e sim conquista de quem foi à luta. Mas tudo sobreveio de 2003 a 2016, o que é fato, e não opinião.

Eis o que a dona História, de Verissimo, quis dizer: até dividir um pouquinho da riqueza é inaceitável para os donos do dinheiro.

Tomara que no porvir os historiadores não minimizem um capítulo decisivo da deposição de Dilma: o golpe não ocorreria se o PT tivesse aceitado livrar Eduardo Cunha do voto pró-cassação por quebra de decoro parlamentar. Para retaliar, Cunha instaurou a ação do impeachment, acelerou-a, tramou e presidiu a sessão da Câmara em 17 de abril, encaminhando a degola.

Dilma paga por um gesto de decência do PT, e não por uma das numerosas ações indecentes que caracterizam a trajetória do partido. Se Aécio Neves tivesse se submetido à manifestação soberana dos cidadãos em 2014, talvez o impeachment não prosperasse. Sem Eduardo Cunha, com certeza a conspiração não teria vingado.

O PMDB participou das administrações do PSDB e do PT. Agora deve alcançar o poder, sem intermediários. O Brasil cai na mão do que existe de mais atrasado, e não apenas em matéria de zelo pela coisa pública. É medieval a agenda sobre comportamento e direitos civis de muitos figurões do impeachment e do iminente governo Michel Temer. Quem assume é a agremiação de Eduardo Cunha.

Collor foi apeado em 1992 depois de comprovadamente ter cometido crime. Com Dilma, isso não ocorreu. A deposição de 2016 pertence à família da de 1964.

A saída à força da presidente é menos uma derrota pessoal e muito mais uma tragédia para o Brasil e a democracia tão golpeada.

P.S.: o autor da expressão “golpe vagabundíssimo” é Carlos Lacerda, governador da Guanabara em 1964. Durante sua vida, Lacerda (1914-1977) foi protagonista de golpes bem ou mal sucedidos. Mas enfrentou duas ditaduras e muitas vezes lutou pela democracia e contra o golpismo. Militou no comunismo, tornou-se anticomunista. “Não era um homem, mas uma convulsão da natureza”, disse Barbosa Lima Sobrinho. É legítimo supor que hoje Lacerda estaria deste ou daquele lado. Não me arrisco a chutar. Ele é o protagonista do meu próximo livro, a sair pela Companhia das Letras no ano que vem. Sem deixar de contar as décadas anteriores, concentro-me no período 1964-1977. Ao iniciar a empreitada do livro, sabia que seus personagens e temas permanecem apaixonantes. Mas não imaginava que seriam tão atuais.

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O mergulho no escuro

O impeachment que se avizinha da presidente Dilma Rousseff é um verdadeiro mergulho no escuro a que os brasileiros estão sendo empurrados por suas elites econômicas e políticas. As incertezas geradas pela interrupção de um mandato garantido nas urnas são amplas, gerais e irrestritas.  

O fato é que o impeachment de Dilma Rousseff é um golpe de estado via o uso de um parlamento pouquíssimo representativo e da participação partidarizada da justiça, a começar pelo Ministério Público Federal, passando pela Procuradoria Geral da República,e chegando no Supremo Tribunal Federal.

Nessa equação de usurpação da vontade popular também está a imensa maioria da mídia corporativa brasileira que, em vez de informar, se portou como um agente ativo da derrubada de uma presidente eleita, ainda que por uma margem estreita.

Entretanto, ao contrário de muitos colegas que se angustiam com esse golpe parlamentar/judiciário/midiático, eu penso que estamos entrando num período em que as elites ainda vão se arrepender do que estão fazendo. É que não há como um mergulho no escuro de tamanhas proporções dar certo. A disposição demonstrada de empurrar milhões de brasileiros de volta para a miséria absoluta certamente terá uma resposta pot parte da maioria da população que se manteve basicamente silenciosa desde que todo esse imbróglio começou.   Sinais disso já estão sendo dados pela juventude que ocupa escolas em vários estados brasileiros contra as mesmas políticas que Michel Temer diz que vai implantar a partir da decisão do Senado Federal de interromper o mandato de Dilma Rousseff.

E antes que eu me esqueça: boa parte da culpa da crise política que estamos vivendo cabe ao ex-presidente Lula que desenvolveu e aplicou uma engenharia política que dependeu sempre dos mesmos personagens que hoje se movem para retirar a sua escolhida do poder. E Dilma Rousseff tem uma boa parcela de culpa por ter abraçado o programa econômico que ela mesma derrotou nas urnas.  

 

Waldir Maranhão ratifica o que eu disse: viramos uma “Banana Republic”

O presidente interino da Câmara de Deputados, Waldir Maranhão (PP/MA) resolveu “surpreender” de novo e aos 20 minutos desta 3a. feira publicou um ofício anulando a sua própria anulação das sessões que votaram pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

A estas alturas penso que o estrago na credibilidade do processo de impeachment já foi feito, retirando de Michel Temer o pouco da aura democrática que ele procurava reclamar para este processo digno de uma república bananeira.

Agora com as ações aparentemente desconexas de Waldir Maranhão, o que temos é a explicitação de que estamos em meio a um óbvio e flagrante golpe de estado via parlamentar. Mas, como já disse em minha postagem anterior, com fragilidades tão profundas que é ofensivo aos golpistas do Paraguai e de Honduras qualquer comparação com o que está ocorrendo por aqui.

E relembrando Carmen Miranda, eu diria que “Yes, we are a Banana Republic”

Justiça seja feita: comparar o caso de Dilma ao de Zelaya e Lugo é uma ofensa aos golpistas de lá

Nas últimas semanas tenho comparado de forma reiterada a situação em curso no Brasil com o impeachment/golpe contra Dilma Rousseff ao que foi feita contra o presidente de Honduras, Manuel Zelaya, em 2009, e contra o do Paraguai, Fernando Lugo, em 2012.

É que depois de ver as cenas tragicômicas que ocorreram ao longo desta segunda-feira (09/05) depois que o presidente em exercício da Câmara de Deputados, deputado Waldir Maranhão (PP/MA), resolveu anular as sessões que resultaram na aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, eu só posso concluir que no caso brasileiro, a coisa adentrou um terreno pantanoso que os golpistas hondurenhos e paraguaios conseguiram evitar até com certa facilidade.

Tanto isto é verdade que tanto Manuel Zelaya como Fernando Lugo rapidamente reocuparam posições de destaque na política partidária de seus respectivos países, sendo que Lugo é atualmente um forte candidato nas próximas eleições paraguaias.

O fato que parece saltar aos olhos é que a saúde democrática do Brasil consegue ser mais frágil e cambaleante do que países para os quais costumamos olhar com algum desdém. O que parece estar ficando claro é que ao fim e ao cabo de, o Brasil é que está merecendo o título pouco glorioso de “Banana Republic” ou simplesmente “república bananeira”.

E durma-se como um barulho desses!

Joaquim Barbosa direto e reto: o Brasil como “laughing stock”

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Não sou de longe um fã do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Mas por um desses acasos do destino, a minha análise dos efeitos práticos da decisão do presidente em exercício da Câmara de Deputados,  Waldir Maranhão, sobre o processo de impeachment de Dilma Rousseff coincide com a de Joaquim Barbosa. 

É que eu também acho que a bomba armada por Waldir Maranhão vai acabar explodindo no colo dos 11 ministros do STF que permitiram que Eduardo Cunha conduzisse o processo de impeachment de Dilma Rousseff no peito e na marra, enquanto elas e eles faziam cara de paisagem.

E também concordo, como já mostrei aqui mesmo neste blog, que o Brasil tem tudo para virar um “laughing stock” mundial por causa das infindáveis trapalhadas que marcam a tentativa de remover Dilma Rousseff do poder via um impeachment paraguaio/hondurenho.  Para quem não sabe, a expressão “laughing stock” significa “someone who does something very stupid which makes other people laugh at them“, ou em bom português, “alguém que faz alguma coisa muito estúpida que os torna motivo de riso para outras pessoas”. Mais claro do que isso, impossível!

Segundo Joaquim Barbosa, Maranhão jogou STF na fogueira

Jornal GGN – O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa avalia que o deputado Waldir Maranhão joga o STF na fogueira, ao anular a decisão de impeachment contra a presidente Dilma. 

 
O jurista usou sua conta o Twitter para declarar que com a decisão do presidente interino da Câmara dos Deputados, a corte Suprema será obrigada da analisar os “vícios jurídicos” do rito.
 
Veja os twittes que o ex-ministro publicou há poucos minutos no seu perfil:
 
Sabem o que mundo inteiro deve estar pensando sobre nós, brasileiros? “A laughing stock”, muitos devem estar achando…
 
Dificilmente a inesperada decisão de Waldir Maranhão escapará ao crivo do STF, qualquer que venha a ser o seu desfecho. Por que?
 
Porque ela aponta “vícios jurídicos” no rito do processo de impeachment. Ou seja, matéria da alçada do tribunal.
FONTE: http://jornalggn.com.br/noticia/segundo-joaquim-barbosa-maranhao-jogou-stf-na-fogueira#.VzDfbAiSrEs.facebook

Repercussão imediata na mídia internacional mostra que Waldir Maranhão já teve êxito na sua manobra

O amplo esperneio dentro do congresso nacional e da mídia corporativa brasileira contra a decisão do presidente em exercício da Câmara de Deputados, Waldir Maranhão (PP/MA) pode até resultar na reversão da decisão. 

Agora, uma coisa é certa: o estrago para Michel Temer já está feito e é irreversível, tornando seu eventual governo (ou seria (des) governo?) prisioneiro de forças políticas que ele pessoalmente não terá como controlar.

Como posso afirmar isso? Ora, eu já fiz o que ando fazendo toda vez que preciso medir o pulso real da situação política brasileira!  Fui nos sites dos principais veículos da imprensa mundial para ver se e como a decisão de Waldir Maranhão estava sendo repercutida. E como os leitores deste blog poderão ver pelas imagens abaixo, a reação foi rápida e contundente.  

O que veículos como a BBC, a CNN, o The Guardian, o New York Times e o El País estão dizendo que a partir da anulação do impeachment por Waldir Maranhão, a situação política brasileira fez uma imersão definitiva no caos, com resultados imprevisíveis.  E isto é, de fato, o que aconteceu.

Agora, imaginem um desses CEOs de alguma multinacional interessada em vir para o Brasil nos próximos meses tendo essas matérias produzidas por veículos que para eles são mais bem informados e críveis do que os jornalões brasileiros pró-golpe (quer dizer, impeachment). Será que alguém com um mínimo amor ao cargo vai querer investir um centavo no Brasil num ambiente que beira o caos completo? Me parece que não. É que ninguém quer seguir o mesmo caminho trágico da CEO da Anglo American, Cynthia Caroll, que caiu no conto do vigário das minas de ferro de baixa qualidade que o ex-bilionário Eike Batista empurrou a ela a preço de ouro em Conceição do Mato Dentro (MG).

E atrair o capital multinacional para se apossar de estatais e da infraestrutura construída nos últimos 12 anos é justamente o motivo central do golpe/impeachment. É a própria “raison d’être” deste impeachment paraguaio/hondurenho!

Agora que o gênio foi posto para fora da garrafa, aguardemos os próximos capítulos dessa novelona mexicana. É certo que seguirá o modelo comédia/tragédia, com a  tragédia sobrando certamente para os trabalhadores e a juventude. A ver!

 

 

Como havia prometido, Waldir Maranhão causa a “mãe de todas as surpresas”

O presidente em exercício da Câmara de Deputados, Waldir Maranhão (PP/MA) prometeu ao assumir o cargo que iria surpreender aos que duvidam dele (Aqui!).  Eu mesmo achei que Maranhão, um aliado de primeira hora do afastado Eduardo Cunha, estava só tentando fazer firula, já que como membro do baixo clero ele é uma figura dotada de pouca capacidade de surpreender qualquer um que seja.

Mas não é que hoje Maranhão resolveu provar que estava falando ao sério e decidiu de “chofre” anular o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff! Essa decisão bombástica já está causando um verdadeiro terremoto político e econômico, visto que expõe de vez a natureza golpista do impeachment que foi orquestrado por Michel Temer, tucanos, demos et caterva.

Até o assessor parlamentar mais ingênuo nos corredores de Brasília sabe que essa impugnação tem pouco efeito prático no processo de impeachment em si, e Waldir Maranhão deve saber disso muito bem. Agora, o que esse ato de anular a sessão que aprovou o impeachment  e convocar outra serve de fato é para revelar de vez que estamos em meio a um golpe paraguaio/hondurenho.

A verdade é que a partir da decisão de Waldir Maranhão de anular o ritual imposto na Câmara de Deputados por um presidente, que depois foi afastado “ad eternum” do cargo por uma decisão unânime do Supremo Tribunal Federal,  Michel Temer ficará desprovido de qualquer pecha de legitimidade.  E esse fato básico criará toda sorte de embaraço para que Temer aplique seu saco de maldades contra o povo brasileiro. E, sim, jogou uma tremenda batata quente para o colo dos 11 ministros do STF. É que para anular a decisão de Maranhão, eles terão de levar em conta o destino de Eduardo Cunha. Em suma, é o que os gringos denominam de “catch 22“, ou em bom português, se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.

Por essas e outras, é que Waldir Maranhão já passou para a história política brasileira. Ele será lembrado como o deputado que golpeou o golpe, e causou a “mãe de todas as surpresas”. 

 

Fernando Molica: O impeachment e o precedente

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Por Fernando Molica 

A pressa do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) manifestada na entrega de seu relatório de 126 páginas favorável ao impeachment da Dilma é mais um ato que colabora para fragilizar um processo muito grave, que envolve o afastamento de um presidente da República.

O depoimento de advogados convocados pela defesa da presidente terminou na noite de ontem, é impossível que o teor dos longos debates tenha sido levado em conta pelo senador e por seus assessores que, menos de 15 horas depois do término da sessão, protocolaram o relatório.

Todo mundo sabia qual seria a conclusão do senador, mas o Anastasia poderia ter esperado uns dias. Isto, pelo menos, para passar à Nação a ideia de que agira com cuidado, com atenção, com rigor. .

Senadores, deputados e políticos como Michel Temer parecem não atentar para um fato óbvio. Tudo o que está sendo feito hoje terá consequências graves daqui pra frente. Eles não estão apenas afastando uma presidente impopular, estão abrindo um precedente gravíssimo – o próximo presidente a ser eleito num pleito com 143 milhões de eleitores não passará de um refém dos 594 senadores e deputados.

O voto destes parlamentares passará a valer muito mais do que o nosso. Eles terão, a partir do impeachment, uma espécie de poder revisor do voto popular. Em nome de Deus e da família, suas excelências é que dirão se o nosso voto pode valer. Não deixa de ser irônico que isso ocorra depois de tanta luta pela volta das eleições diretas para presidente.

Antes, um presidente assumia preocupado em ter base parlamentar para poder governar; a partir de agora, qualquer futuro presidente, de qualquer partido, saberá que precisará cortejar os deputados e senadores, que deverão ser mimados, atendidos, e – por que não? – muito bem comprados. Caso contrário, o presidente correrá o sério risco de ser derrubado. O mercado de compra e venda de votos no Congresso, veja só, sai fortalecido depois de tanta luta contra a corrupção.

Não haverá falta de pretextos para o impeachment – até as colunas do Palácio do Planalto sabem que Dilma não está sendo derrubada pelas tais pedaladas. As grandes manifestações contra Dilma começaram em março do ano passado, dois meses e meio depois de sua nova posse na presidência.

Não me lembro de ter visto, naqueles primeiros atos, qualquer referência a supostas fraudes orçamentárias – havia uma justa revolta com a roubalheira revelada pela Lava Jato, inconformismo com a derrota do Aécio e até ódio ao suposto comunismo representado pelo PT.

Mas aquelas pessoas vestidas de verde e amarelo não falavam nas pedaladas. O pretexto veio depois e, insisto, abre um grave precedente. O relatório que pede o impeachment do presidente a ser eleito em 2018 já deve estar sendo esboçado em algum gabinete do Congresso Nacional.

FONTE: http://www.fernandomolica.com.br/blog/2016/05/o-impeachment-e-o-precedente.php

A Rede Globo acabou na seção de comentários do The Guardian

guardian2016-04-23

Acostumados a mandar e desmandar no Brasil, os donos da Rede Globo estão pagando um mico mundial ao terminarem na seção de comentários do jornal britânico “The Guardian”. É que movidos por uma repentina necessidade de direito de resposta (que no Brasil negam de forma inclemente aos que são retratados negativamente em sua “cobertura jornalística”) os donos da Rede Globo, personificados no Sr.  João Roberto Marinho,  que se apresenta como o chefe do comitê editorial do O Globo, decidiram enviar uma resposta ao artigo assinado por David Miranda intitulada ” The real reason Dilma Rousseff’s enemies want her impeached” (Aqui!)

Pois bem, os diretores do “The Guardian” não se fizeram de rogados, e postaram a resposta do Sr. João Roberto Marinho na seção de comentários, como mostra a imagem abaixo.

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Em termos bastante simples, a toda poderosa Rede Globo (pelo menos aqui no Brasil) teve que se contentar a ser mais uma leitora do “The Guardian”, já que teve sua resposta postada no mesmo local destinado aos leitores individuais. E, pior, quem for ler a repercussão da “resposta” de João Roberto Marinho, vai ver que a emenda saiu muito pior que o soneto.

Como dizia Paulo Francis, só um louco manda carta para um jornal. Pois bem, João Roberto Marinho mandou e se prestou a um papelão internacional.