Primavera silenciosa versão 2.0

Por: Jean Remy Davée Guimarães

Nos anos 1960, foi disparado alerta contra o DDT, que controlava pragas, mas matava insetos que não eram seu alvo e também aves. O problema está de volta – agora com o uso dos neonics, como mostra Jean Remy Guimarães em sua coluna de julho.

Primavera silenciosa versão 2.0

Análise de cientistas filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza revela que os inseticidas neonics ameaçam polinizadores como as abelhas, além de outros grupos animais. (foto: William Droops/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Uma análise da literatura das últimas duas décadas sobre os inseticidas neonicotinoides e fipronil confirma que eles são um fator significativo de declínio das abelhas e outros invertebrados úteis, comprometendo serviços ambientais como a polinização e o controle de pragas.

Apesar das eloquentes evidências, estas parecem nunca ser suficientes para deflagrar uma ação regulatória mais enérgica – ou menos anêmica, dependendo do ponto de vista –, visando à limitação do uso dos neonicotinoides.

Mas um pequeno grupo de irredutíveis guerreiros empreendeu uma profunda análise da literatura disponível nos últimos 20 anos e concluiu que já há evidências de sobra para acionar o alarme e ações regulatórias enérgicas para limitar ou suspender o uso de neonicotinoides e fipronil, apelidados de neonics para não enrolar a língua.

O Grupo de Trabalho sobre Pesticidas Sistêmicos, que reúne cientistas independentes filiados à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), se debruçou sobre 800 trabalhos revisados por pares e publicados em revistas indexadas.

Os resultados da iniciativa, batizada Worldwide Integrated Assessment (algo como Avaliação Global Integrada), serão publicados na revista Environment Science and Pollution Research.

Testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT

A meta-análise concluiu que esses compostos são uma séria ameaça às abelhas e a outros polinizadores, como borboletas e zangões, e também a uma vasta gama de invertebrados, como as minhocas, além de vertebrados, inclusive aves. Estamos na fila – e as filas andam.

Segundo Jean-Marc Bonmatin, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, um dos autores do estudo, as evidências são claras: testemunhamos uma ameaça à produtividade de nosso ambiente natural e agrícola tão grave quanto aquela causada no passado pelos organofosforados e pelo DDT.

Não custa lembrar que em 1962 a pesquisadora norte-americana Rachel Carson publicou o seminal Primavera silenciosa, em que descrevia os efeitos imprevistos da aplicação indiscriminada de DDT em cultivos. O pesticida de fato controlava diversas pragas, mas não havia como evitar que pássaros comessem sementes contaminadas e morressem, o que explica o título do livro, considerado fundador da moderna consciência ambiental.

Moderna? Há controvérsias. A espécie humana se destaca por sua capacidade não só de memória, mas também de esquecimento. Tanto que estamos repetindo exatamente o mesmo roteiro de meio século atrás. Os insetos, polinizadores ou não, estão de novo desaparecendo. Desaparecendo os insetos, somem seus predadores, entre os quais as aves são os mais visíveis. E audíveis. Ou ao menos eram, até aqui.

Não é para menos. Os chamados neonics são neurotoxinas com efeitos imediatos e crônicos. Exposições crônicas a baixas doses podem também ser prejudiciais, com efeitos que incluem comprometimento do olfato e da memória, redução da fecundidade, alteração no padrão de voo, maior susceptibilidade a doenças, alteração no padrão de alimentação e forrageio, alteração (em minhocas) no padrão de construção de tocas.

Minhoca
Invertebrados como minhocas e até vertebrados também estão ameaçados quando expostos cronicamente a doses, mesmo baixas, dos neonics. Em minhocas, viu-se mudança no padrão de construção de tocas. (foto: Daniel Kinpara/ Flickr – CC BY-NC 2.0)

Esses são alguns dos efeitos investigados e quantificados. Aguardamos trabalhos sobre os efeitos que ainda não foram investigados ou que ainda não são mensuráveis de forma confiável.

Estamos cercados

Os neonics contaminam espécies não-alvo de forma direta, como é o caso dos insetos que consomem o néctar de plantas tratadas, e atingem áreas anexas às áreas intencionalmente tratadas, o que alguns técnicos chamam pudicamente de “deriva técnica”.

Talvez eles dessem nomes menos pudicos se fossem vítimas desse infortúnio. Mas, mesmo que não frequentemos áreas tratadas com esses prodígios da revolução verde, sua solubilidade garante ampla dispersão para zonas ribeirinhas, estuarinas e costeiras.

Os neonics representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011

Que chato, pois eles representam cerca de 40% do mercado global de pesticidas e movimentaram 2,62 bilhões de dólares em 2011. Bem, mas isso é problema de quem vive no campo, não meu. Ledo engano, pois os mesmos produtos são usados em fórmulas para combater pulgas em cães e gatos, e cupins em estruturas de madeira. Você está cercado.

Mas convém resistir. Segundo Maarten Bijleveld van Lexmond, que preside o grupo de trabalho da IUCN, os resultados do levantamento são preocupantes, uma vez que evidenciam ameaças graves ao funcionamento dos ecossistemas e ao fornecimento de serviços ambientais como polinização e controle natural de pragas.

Resta explicar por que as entidades que regulam o setor não perceberam o que estava fartamente disponível na literatura. O grupo da IUCN chegou às suas preocupantes conclusões sem sequer levantar da cadeira; bastaram alguns cliques e muitos homens-hora e mulheres-hora de leitura.

As abelhas e seu sumiço são, já há algum tempo, a parte mais visível (sem trocadilho) do problema. Mas nem assim se tomaram medidas para limitar o uso dos neonics, à exceção de tímidas ações da Comissão Europeia.

Ativista do Greenpeace
Ativista do Greenpeace descansa após fixar cartaz em Basileia, na Suíça, pedindo o banimento de neonicotinoides. (foto: Greenpeace Switzerland/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

Enquanto isso, os fabricantes dos neonics juram que estes não têm culpa no colapso das abelhas e que alegações em contrário são obra da concorrência (qual?) e do poderoso lobby ambientalista internacional, que quer nos levar de volta a uma era de fome e doença.

Aluguel de polinizadores

Para as abelhas, tal era chegou faz algum tempo. Concentrações ambientalmente realistas de neonics afetam seriamente sua capacidade de orientação, aprendizado, coleta de alimento, resistência a doenças, fecundidade e longevidade.

Mesmo quando transferidas para um campo não tratado, cerca de metade das abelhas antes expostas a um campo tratado não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo.

Cerca de metade das abelhas expostas a um campo tratado com neonics não consegue retornar à colmeia e acaba morrendo

Mas pare de sofrer. Seus problemas acabaram. A iniciativa privada, sempre atenta às demandas do mercado, já tem solução para os problemas que ela própria causou: o aluguel de polinizadores, com colmeias volantes que são alugadas a agricultores.

Naturalmente, elas são criadas em áreas não tratadas antes de ir para o sacrifício. O serviço é caro, porque há poucas áreas não tratadas à disposição dos apicultores e porque as perdas de abelhas são elevadas, já que boa parte delas perde o rumo de casa após o trabalho – e não é porque pararam nalgum bar…

Não há dúvida, o mercado tem solução para tudo. Mas não para todos. Reserve já sua colmeia para a safra 2015: a demanda é maior que a oferta.

Jean Remy Davée Guimarães, Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/terra-em-transe/primavera-silenciosa-versao-2.0

Pelas abelhas

Campanha internacional criada por brasileiros chama atenção para o desaparecimento de colmeias e seu impacto sobre o ambiente e a segurança alimentar dos humanos.

Pelas abelhas

A maior parte dos cultivos agrícolas depende da polinização feita por abelhas. (foto: Bob Peterson/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

A notícia de que a população mundial de abelhas tem se reduzido pode até ser novidade para alguns, mas não aqui na CH On-line. Esses insetos vêm desaparecendo nos últimos 60 anos e 13 espécies foram extintas do planeta – das cerca de 20 mil existentes. O que parece uma boa notícia para os alérgicos é, no entanto, preocupante para o futuro da humanidade. Por isso, pesquisadores brasileiros lançaram uma campanha global para divulgar o sumiço de abelhas batizada de Bee or not to be? – um trocadilho em inglês com o verbo ‘ser’ (to be) e a palavra ‘abelha’ (bee) baseado na famosa frase de William Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão.”

Ao tentar polinizar vegetais tratados com certos tipos de pesticidas, as abelhas desenvolvem um problema no sistema nervoso que faz com que ‘esqueçam’ o caminho de volta para sua colmeia e morram ao relento

Os pesquisadores chamam a atenção para um fenômeno mundial denominado ‘síndrome do desaparecimento das abelhas’, decorrente de um problema no sistema nervoso desses insetos que faz com que eles ‘esqueçam’ o caminho de volta para sua colmeia e morram ao relento. Essa alteração está relacionada principalmente ao uso na agricultura de uma classe de pesticidas à base de nicotina, os neonicotinoides. Ao tentar polinizar os vegetais tratados com esses pesticidas, as abelhas se contaminam e desenvolvem o problema.

Em sua página, o projeto pretende alertar a população sobre esse fenômeno e reunir assinaturas em todo o mundo para pressionar autoridades a regulamentar o uso dos pesticidas nocivos para as abelhas. “O uso de pesticidas no Brasil hoje é pouco regulamentado e produz muitos efeitos adversos ao ambiente e às espécies”, aponta o idealizador da campanha, o geneticista Lionel Segui Gonçalves, professor da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) em Mossoró (RN) e diretor do Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte (Cetapis).

Mapeamento colaborativo

Embora as abelhas ainda não tenham desenvolvido a capacidade de ler mapas e encontrar o caminho de volta para suas colmeias, é exatamente nos mapas que o siteaposta para preservar esses insetos. Na página, é possível baixar o aplicativo Bee Alert, disponível para computadores, tablets e smartphones. O programa, voltado para apicultores, meliponicultores, agricultores e pesquisadores da área, permite aos usuários registrar on-line em um mapa a ocorrência, o desaparecimento local ou a morte de espécies de abelhas e assim contribuir para o monitoramento da população desses insetos.

Mapa de ocorrência de abelhas
A página do projeto disponibiliza um aplicativo em que os usuários podem registrar em um mapa a ocorrência, o desaparecimento local ou a morte de espécies de abelhas para ajudar no seu monitoramento. (imagem: reprodução)

“O usuário precisa indicar, por exemplo, o nome do apicultor responsável pela colmeia e do proprietário do apiário, além de informações sobre o local, a quantidade de colmeias e a causa das mortes das abelhas”, diz Gonçalves. “Também pedimos, quando possível, dados sobre a perda financeira associada ao desaparecimento, para estimar o impacto econômico da síndrome.”

Segundo o pesquisador, nos Estados Unidos a população de abelhas passou de 5 milhões há sete anos para 2,5 milhões atualmente – uma queda que levou à falência inúmeros apicultores.

O aplicativo já conta com o registro de 40 ocorrências em oito estados brasileiros, contabilizando mais de 120 milhões de abelhas mortas

E não são só os apicultores que sofrem com o sumiço das abelhas. Mais de 70% das culturas agrícolas dependem da polinização feita por elas. “Sempre lembro a previsão feita por Albert Einstein quando afirmou que, caso as abelhas viessem a desaparecer, a humanidade desapareceria logo em seguida”, comenta Gonçalves.

O aplicativo, lançado em abril deste ano, já conta com o registro de 40 ocorrências em oito estados brasileiros, contabilizando mais de 120 milhões de abelhas mortas – fato bastante preocupante, segundo os coordenadores da campanha. “Desejamos entregar, além das assinaturas por uma regulamentação, dados documentados do impacto dos pesticidas nas colônias das abelhas”, diz o pesquisador. “Assim, o material servirá de apoio para a fiscalização dos pesticidas nas áreas apontadas.”

Além dos dados e assinaturas que estão sendo recolhidos, a página do projeto conta com dicas de medidas que podem ser tomadas pela população para reverter essa situação, como o consumo de alimentos orgânicos (sem pesticidas) e o cultivo de espécies de abelhas sem ferrão em casa.

Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line

FONTE: http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2014/07/pelas-abelhas