Inpe: ondas de calor aumentaram quase oito vezes em 30 anos no Brasil

Pesquisa do Inpe mostra que, entre 1961 e 1990, houve estabilidade no país. Mas, de 1991 para 2020, o avanço anual foi expressivo. Distrito Federal bateu, pelo segundo dia consecutivo, o recorde de temperatura

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Ondas de calor – (crédito: Freepik)

Por Fábio Grecchi para o Correio Braziliense

Um levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) avaliou os dados das mudanças climáticas no Brasil, em 60 anos. A constatação é que o número de dias com ondas de calor, nas últimas três décadas, aumentou de sete para 52, a cada ano. Os dados, coletados a pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), abrangem todo o território brasileiro.

De acordo com a pesquisa, o aumento dos valores nas ondas de calor foi gradual e perceptível. Entre 1961 e 1990, a média se manteve em sete dias. Mas, nos últimos 30 anos, houve uma variação preocupante. De 1991 a 2000, os dias muito quentes passaram a ser 20. No período 2001-2010, verificou-se outro salto expressivo — chegou a 40 dias. Na última década (2011-2020) alcançou 52.

O aumento da temperatura entre 1991 e 2000 não passava de 1,5°C. Porém, no período de 2011 a 2020, a variação chegou a 3°C, principalmente na Região Nordeste.

A junção de eventos estudados pelo Inpe, somada à mudança climática, intensificou os processos extremos vividos no país. A seca na Amazônia, o grande volume de chuvas no Sul e a onda de calor intenso são algumas das consequências percebidas pela população em função das variações climatológicas.

O Inpe classifica como “onda de calor” o registro de seis dias seguidos com temperaturas acima do valor considerado máximo para o período estudado. O levantamento serve para detectar tendências de precipitação pluviométrica, temperatura máxima, dias consecutivos secos, além de subsidiar discussões para a atualização do Plano de Adaptação Climática

Contraste

Os dados coletados apontam, ainda, um aprofundamento do contraste climático entre regiões brasileiras no período de 2011 a 2020. De um lado, houve a queda na média de precipitações chuvosas, com variação entre -10% e -40%, no Nordeste, no Sudeste e na região central. De outro, no Sul, parte de São Paulo e Mato Grosso do Sul se observou um aumento entre 10% e 30%.

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afp anomalia(foto: afp )

Isso significa que as chuvas extremas no Sul do país não são um fenômeno recente. A precipitação máxima em cinco dias, entre 1961 e 1990, era de 140mm. Passou para 160mm, de 2011 a 2020.

Tais alterações climáticas mostram, ainda, que o Índice de Dias Consecutivos Secos potencializa os resultados preocupantes da pesquisa. Entre 1961 e 1990, os valores médios eram de 80 a 85 dias, mas, de 2011 a 2020, subiram para 100 nas regiões Norte e Nordeste, e no centro do país.

O Distrito Federal bateu, ontem, pelo segundo dia seguido, o recorde anual de temperatura. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia, a estação de Águas Emendadas registrou 37,3°C por volta das 16h. Esse também é o maior registro térmico da história para o mês de novembro, segundo o Inmet. Especialista do instituto, Andrea Ramos afirma que, a partir de amanhã, o DF deve ficar com o tempo mais fechado.

Segundo Lincoln Alves, coordenador dos estudos no Inpe, a maior frequência de eventos climáticos extremos e intensos denuncia que o Brasil já sente, mais claramente, os efeitos da crise ambiental mundial.

“O mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, entidade ligada às Nações Unidas) destacou que as alterações estão impactando diversas regiões do mundo, de maneiras distintas. E se agravarão nas próximas décadas, conforme o aquecimento global avança”, adverte.

Nova mortandade de botos

Pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, encontraram mais 70 carcaças de botos e tucuxis no lago Coari, no município de mesmo nome, a 363km de Manaus. A nova mortandade se soma a outras 154 carcaças de botos e tucuxis encontradas em Tefé (AM), em meio à seca histórica que atinge a Amazônia.

Líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, a oceanógrafa Miriam Marmontel afirmou que não é possível determinar as causas das novas mortes. Mas a suspeita é que seja um desdobramento do mesmo evento registrado em Tefé, devido às altas temperaturas registradas na água. Apesar disso, ela ressalta haver diferenças entre as duas ocorrências.

“Vários animais morreram, mas em Coari são poucos por dia. Nunca houve o boom de Tefé (19 mortes e depois 70). Nos dois locais, são botos e tucuxis, mas em Coari são tucuxis, ao contrário de Tefé, onde a maior mortandade ocorreu com botos”, explicou. (Colaboraram Arthur de Souza e Mariana Dantas, estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi)


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Correio Braziliense” [Aqui!].

Academia Brasileira de Ciências promove mesa sobre El Niño e Crise Climática

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No dia 16 de novembro, às 10, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC), será realizada a mesa-redonda “Crise climática e desastres como consequência do El Niño 2023-2024: impactos observados e esperados no Brasil. A atividade terá participantes presencialmente no auditório e transmissão pelo YouTube da ABC.

O evento é promovido pela ABC, pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas Fase 2 (INCT MC2).

Na mesa-redonda serão discutidos diferentes aspectos do El Niño 2023-2024, sendo destacadas semelhanças e diferenças em relação a outros eventos do El Niño, bem como os impactos já observados em 2023 e aqueles esperados para o verão e outono de 2024. O foco da atividade está nas possíveis consequências das anomalias climáticas resultantes do El Niño 2023-2024 em temas como desastres (secas, risco de incêndios, inundações e deslizamentos de terras provocados por extremos de chuva), segurança hídrica, alimentar e energética, infraestrutura, entre outros. Também serão considerados possíveis cenários do El Niño como resultado das mudanças climáticas e ações que possam levar a medidas de adaptação para enfrentamento da crise climática. 

Inscrições gratuitas pelo link.

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‘Tudo está seco’: Amazônia luta contra a seca em meio ao desmatamento

A esta altura, os rios já deverim estar cheios. Mas a pecuária em grande escala, a crise climática e eventos climáticos como o El Niño significam que o Brasil está perto do ponto sem retorno

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A indústria de carne bovina do Brasil tem uma pegada de carbono maior do que todo o Japão. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

fluxos, poeira e fumaça. Foi isso que me cumprimentou ao voltar para casa em Altamira, depois de várias semanas na estrada. Uma estação de seca invulgarmente violenta teve um impacto terrível na paisagem amazónica, que já está devastada por fazendas de gado. Juntos, ameaçam a integridade da maior floresta tropical do mundo.

Em breve abordarei a ciência por trás dessa declaração horrível. Mas primeiro, deixe-me descrever o que está acontecendo no terreno, dentro e ao redor da minha casa em Altamira, no estado do Pará, norte do Brasil .

Tudo está ressecado. A vegetação estala sob os pés. Em comparação com a estação chuvosa, a floresta encolheu visivelmente a vários metros da beira da estrada. As árvores mais resistentes estão aguentando, mas nas margens, as palmeiras mais fracas começaram a murchar e a ficar marrons.

Várias áreas do meu bairro estão carbonizadas devido aos incêndios recentes. Os grileiros criminosos estão aproveitando as condições de seca. Todas as manhãs, quando acordo, o ar tem gosto de fumaça. Uma mortalha desfoca o horizonte. Os painéis solares não conseguem funcionar normalmente porque a luz solar não consegue penetrar na neblina.

Fumaça no ar em Altamira, Brasil

Os painéis solares não podem funcionar adequadamente porque a luz solar não consegue romper a fumaça. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

E há também as vacas, pobres criaturas, que vagam por pastagens marrons e doentias em busca das últimas folhas ou pedaços de grama que não tenham sido cobertos de poeira. Embora sejam vítimas inocentes, a sua presença contribuiu para este cenário sombrio. Outubro, novembro e dezembro são geralmente um período de transição. Por esta altura, a estação seca normalmente teria atingido o seu pico e os rios e aquíferos começariam a reabastecer-se. Mas as chuvas se recusam a vir. E a cada dia que passa, a sensação de mau presságio fica mais forte.

O rio Xingu, para onde levamos nossos cães todas as manhãs, fica 4 metros abaixo de seu pico e o pequeno afluente, onde costumo passear de canoa, encolheu para um riacho que chega até os tornozelos. Em casa, as torneiras da cozinha e do banheiro secam algumas horas a cada dois ou três dias. Vespas que normalmente zumbem ao redor da fruteira agora se reúnem perto dos canos, buscando gotas de água antes do néctar. Os sapos procuram refúgio nas tigelas de água dos nossos cães.

Em menor grau, todas essas coisas acontecem em cada estação seca, mas este não é um ano normal, como confirmei com alguns dos principais cientistas do Brasil. Marcelo Seluchi, chefe de modelagem e operações do Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, disse-me que esta já é uma das piores secas da história da Amazônia, uma área do tamanho da Europa.

Muitos rios da região, incluindo o poderoso Rio Negro, disse ele, caíram para níveis nunca vistos desde que as medições começaram, há mais de um século. Eu mesmo vi essa visão chocante algumas semanas atrás.

As temperaturas em muitas áreas atingiram níveis recordes e a seca está longe de terminar. Seluchi disse que as últimas previsões sugerem que as chuvas não retornarão à maior parte da Amazônia até o final deste mês.

Numa recente reunião de crise organizada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento e pelo chefe de gabinete do presidente Luis Inácio Lula da Silva , especialistas alertaram para as ameaças às barragens hidroeléctricas e ao transporte fluvial de produtos essenciais, como alimentos, combustíveis e medicamentos.Os meteorologistas explicaram que a seca amazônica deste ano é anormalmente severa devido ao efeito El Niño , ao aquecimento do Oceano Atlântico e à crise climática.

Esta explicação é precisa, mas limitada, faltando muitas das principais causas deste problema e as soluções mais viáveis. A mais importante delas, comprovada por estudos recentes , é que uma floresta saudável não só gera suas próprias chuvas , mas também atua como um poderoso refrigerador regional . Se limparmos a vegetação, como muitos agricultores continuam a fazer – embora a um ritmo muito mais lento do que fizeram sob o governo do antigo presidente de direita Jair Bolsonaro – então a região tornar-se-á mais quente e seca devido aos efeitos locais e às perturbações climáticas globais.

É aqui que meus vizinhos bovinos entram em cena. A indústria da carne bovina é o maior impulsionador do desmatamento da Amazônia. Nada mais chega perto. Os grileiros usam vacas como exércitos de ocupação para reforçar as suas reivindicações sobre florestas roubadas e desmatadas. Este tornou-se um dos crimes climáticos mais hediondos do mundo. Um novo relatório surpreendente do Observatório do Clima observa que a indústria de carne bovina do Brasil tem agora uma pegada de carbono maior do que a do Japão. Pense nisso por um momento. Este país tem 220 milhões de vacas, 43% das quais estão na Amazônia. As suas emissões de aquecimento global – provenientes dos seus arrotos e peidos, mas principalmente através das ligações dos seus proprietários ao desmatamento florestal e aos incêndios – são agora maiores do que todos os carros, fábricas, aparelhos de ar condicionado, aparelhos eléctricos e outras formas de consumo de carbono de 125 milhões de japoneses. vivendo em uma das economias mais industrializadas do planeta. Quando abatido, o gado rende bilhões de dólares para conglomerados alimentares globais . Através das vacas, estas empresas intensificam a crise climática e, assim, provavelmente ajudam a tornar os El Niños mais prováveis .

Terra seca em Altamira, Brasil

A indústria da carne bovina é o maior impulsionador do desmatamento na Amazônia. Fotografia: Jonathan Watts/The Guardian

Carlos Nobre, um dos climatologistas mais influentes do Brasil, confirmou-me que o desmatamento das explorações pecuárias está a contribuir – juntamente com as principais causas do El Niño e do aquecimento do Atlântico – para a devastadora estação seca deste ano. O perigo, alertou ele, é que tais eventos climáticos extremos, dentro de duas décadas, levem a Amazônia a um ponto crítico, após o qual a região secará e será incapaz de manter-se como uma floresta tropical. Na parte sul do sudeste da Amazônia, disse ele, a floresta está muito próxima daquele ponto sem volta. A estação seca é quatro a cinco semanas mais longa do que em 1979, a mortalidade das árvores está a aumentar e a floresta emite mais carbono do que absorve.

Numa nota mais esperançosa, ele diz que o desmatamento desacelerou rapidamente na maioria dos países amazônicos este ano. Só isso não será suficiente para evitar chegar a esse momento crítico. Os governos regionais também precisarão da ajuda das nações ricas – que são historicamente em grande parte responsáveis ​​pela crise climática – para reduzir os incêndios e a degradação florestal e para embarcar em programas de reflorestação em grande escala. Na Cop28 em Dubai no final deste mês, Nobre ajudará a lançar um desses projetos, denominado Arco da Restauração.

Parece muito atrasado. A Amazônia não pode sobreviver a menos que as vacas sejam substituídas por árvores, a poeira pelas plantas e a fumaça pela chuva.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Previsão climática alerta sobre agravamento da seca no Nordeste

Segundo institutos de pesquisa do MCTI, influência do fenômeno El Niño e aquecimento do Atlântico Tropical Norte manterão chuvas abaixo da média na região até janeiro de 2024

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Foto: Agência Brasil

A seca que atinge os municípios da área norte do Nordeste deve se agravar até janeiro de 2024. A previsão é do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), que monitora a estiagem na região. O painel de monitoramento do El Niño, publicado mensalmente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em conjunto com outras instituições, e o prognóstico de precipitação para os próximos três meses indicam chuvas abaixo da média para a área. As duas unidades são vinculadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A situação é desencadeada pela combinação de fenômenos que estão influenciando a região desde junho. O fenômeno El Niño costuma provocar chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste, e precipitações acima da média na região Sul. No entanto, cada episódio do fenômeno é único, visto que o impacto depende da localização e intensidade da anomalia de temperatura das águas no Pacífico.

Neste ano, as maiores anomalias de temperatura estão posicionadas mais próximas da costa leste do Oceano Pacífico, entre o Equador e o Peru, e isso pode causar impactos diferentes a depender da combinação com a situação do Atlântico Tropical Norte. Segundo o painel de monitoramento, o fenômeno El Niño deverá atingir o pico de intensidade entre os meses de dezembro de 2023 e janeiro de 2024. Em termos de temperatura, a perspectiva é de que o fenômeno mantenha a classificação como forte. Porém, no Atlântico, a anomalia de temperatura da parte Tropical Norte causa um efeito muito negativo nas precipitações do norte do Nordeste.

Nos últimos três meses, as chuvas foram escassas e irregulares no Nordeste, ampliando a área de déficit pluviométrico. A previsão para o trimestre indica que a falta de chuva deverá continuar até janeiro. Segundo o Inpe, os fenômenos continuarão a atuar no primeiro semestre de 2024, o que pode contribuir para manter as chuvas abaixo da média durante a estação chuvosa do norte do Nordeste, que ocorre principalmente entre os meses de fevereiro e maio.

“A preocupação é de que se não chover na estação chuvosa, as chuvas só deverão ocorrer na próxima estação, que começa a partir de novembro”, afirma o coordenador-Geral de Operações e Modelagem do Cemaden, Marcelo Seluchi.

Para caracterizar a condição de seca, os especialistas do Cemaden consideram um índice integrado, que combina informações sobre o índice de precipitação padronizado, a umidade do solo e a saúde da vegetação. As altas temperaturas e a baixa umidade registradas na região, que são captadas pelos índices, estão contribuindo para a degradação da vegetação e o aumento da evapotranspiração.

De acordo com dados do Cemaden, atualmente, a região apresenta pouco mais de 100 municípios em condição de seca severa, o que, em consequência, afeta cerca de 30% das áreas agrícolas e de pastagens. Em algumas regiões, como no extremo oeste da Bahia, a área impactada já chega a 80%. Por ora, os reservatórios da região ainda apresentam níveis regulares, decorrentes das chuvas do ano anterior, em que predominou o fenômeno La Niña, e estão absorvendo os impactos. Contudo, a situação caminha para se tornar mais severa nos próximos meses. “A tendência sistemática é de piora gradativa”, avalia Seluchi.

A região Nordeste tem 1.793 municípios e população de cerca de 57 milhões de pessoas, praticamente quatro vezes mais que o número de municípios da região Norte, que sofre, neste momento, com uma seca severa na bacia amazônica. Além do contingente populacional que pode ser impactado, a possibilidade de redução da produção agrícola, predominantemente de subsistência, e os impactos sobre a qualidade da água para consumo humano e animal indicam um cenário de preocupação. A região é caracterizada predominantemente por minifúndios e pequenos produtores.

Emergência climática: ação global está “fora do rumo”, diz chefe da ONU

Ondas de calor mortais, inundações e aumento da fome são uma ameaça muito maior ao mundo do que o coronavírus, dizem os cientistas

5182Bombeiros e pessoal de resgate movem seu caminhão enquanto um incêndio mata perto de uma estrada principal e casas nos arredores da cidade de Bilpin, em Sydney, na Austrália, em dezembro de 2019. Fotografia: David Gray / Getty Images

Damian Carrington, editor para Meio Ambiente do “The Guardian

O mundo está “muito errado” no trato da emergência climática, e o tempo está se esgotando rapidamente, afirmou o secretário-geral da ONU.

António Guterres soou o alarme no lançamento da avaliação da ONU sobre o clima global em 2019. O relatório conclui que foi um ano recorde para o calor, e houve aumento da fome, deslocamento e perda de vidas devido a temperaturas e inundações extremas ao redor. o mundo.

Os cientistas disseram que a ameaça era maior que a do coronavírus, e os líderes mundiais não devem ser desviados da ação climática.

A avaliação climática é liderada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU, com contribuições das agências da ONU para meio ambiente, alimentação, saúde, desastres, migração e refugiados, além de centros científicos.

Em 2019, os oceanos estiveram mais quentes em relação a todos os anos registrados anteriormente, com pelo menos 84% dos mares experimentando uma ou mais ondas de calor marinhas. As temperaturas da superfície do ar em todo o mundo foram as mais quentes já registradas, depois que um evento natural do El Niño aumentou os números em 2016.

O relatório diz que os resultados do Serviço Mundial de Monitoramento de Geleiras indicam que 2018-19 foi o 32º ano consecutivo em que mais gelo foi perdido do que ganho. O derretimento do gelo terrestre combinado com a expansão térmica da água elevou o nível do mar à marca mais alta desde o início dos registros.

O declínio a longo prazo do gelo do Ártico também continuou em 2019, com a extensão média de setembro – geralmente a mais baixa do ano – a terceira pior já registrada.

“A mudança climática é o principal desafio do nosso tempo. Atualmente, estamos fora do caminho para cumprir as metas de 1,5 ° C ou 2 ° C que o acordo de Paris exige ”, disse Guterres. O ano de 2019 terminou com uma temperatura média global de 1,1 ° C acima dos níveis pré-industriais. “O tempo está se esgotando rapidamente para evitar os piores impactos da perturbação climática e proteger nossas sociedades”.

Ele acrescentou: “Precisamos de mais ambição em [cortes nas emissões], adaptação e financiamento a tempo da conferência climática Cop26, em Glasgow, Reino Unido, em novembro. Essa é a única maneira de garantir um futuro mais seguro, mais próspero e sustentável para todas as pessoas em um planeta saudável. ”

O professor Brian Hoskins, do Imperial College London, disse: “O relatório é um catálogo de condições meteorológicas em 2019 tornado mais extremo pela mudança climática e pela miséria humana que a acompanha. Isso indica uma ameaça maior para nossa espécie do que qualquer vírus conhecido – não devemos nos desviar da urgência de combatê-lo, reduzindo nossas emissões de gases de efeito estufa a zero o mais rápido possível. ”

A OMM disse que seu relatório fornece informações oficiais aos formuladores de políticas sobre a necessidade de ação climática e mostra os impactos do clima extremo.

Uma onda de calor na Europa tornou-se cinco vezes mais provável pelo aquecimento global, e o verão abrasador levou a 20.000 internações de emergência e 1.462 mortes prematuras somente na França. A Índia e o Japão também aumentaram e a Austrália começou e terminou o ano com forte calor e teve o ano mais seco já registrado. A Austrália teve “uma temporada de incêndios excepcionalmente prolongada e severa”, observou a OMM.

Inundações e tempestades contribuíram mais para desalojar as pessoas de suas casas, particularmente o ciclone Idai em Moçambique e seus vizinhos, o ciclone Fani no sul da Ásia, o furacão Dorian no Caribe e as inundações no Irã, Filipinas e Etiópia. Estima-se que o número de deslocamentos internos de tais desastres esteja perto de 22 milhões de pessoas em 2019, ante 17 milhões em 2018.

Os EUA sofreram fortes chuvas, com o total de julho de 2018 a junho de 2019 sendo o mais alto já registrado. As perdas econômicas totais nos EUA no ano foram estimadas em US $ 20 bilhões, informou a OMM.

O clima imprevisível e o clima extremo foram um fator em 26 das 33 nações afetadas pela crise alimentar em 2019 e foram o principal fator em 12 dos países. “Após uma década de declínio constante, a fome está aumentando novamente – mais de 820 milhões sofreram com a fome em 2018, os últimos dados globais disponíveis”, diz o relatório.

A OMM disse que a precipitação invulgarmente pesada no final de 2019 também foi um fator no grave surto de gafanhoto nos desertos do Chifre da África, que é o pior em décadas e deve se espalhar até junho de 2020, em uma grave ameaça à segurança alimentar.

O professor Dave Reay, da Universidade de Edimburgo, disse: “Essa ladainha anual de impactos das mudanças climáticas e respostas globais inadequadas contribuem para uma leitura instigante. Em grande escala, é o efeito “multiplicador de ameaças” que é a mudança climática nos maiores desafios enfrentados pela humanidade e pelos ecossistemas do mundo no século XXI. “

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!].

El País faz matéria que expõe o papel da monocultura da soja nas inundações na América do Sul

Desmatamento para plantio de soja contribui para inundações na América do Sul

O El Niño não explica por si só as enchentes que deixaram mais de 160.000 desabrigados no Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai

ALEJANDRO REBOSSIO

O fenômeno do El Niño trouxe mais chuvas que o habitual ao sul da América Latina, mas por si só não explica as enchentes que deixaram mais de 160.000 desabrigados no Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai. A mudança climática torna mais extremo o fenômeno que causou o transbordamento nos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, entre outros, mas há mais razões por trás.

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O presidente argentino, Mauricio Macri, observa os bairros alagados na cidade de Concórdia. EFE

Diversos especialistas atribuem a gravidade das inundações ao desmatamento ocorrido nos últimos anos no Paraguai, sul do Brasil e norte da Argentina para o cultivo de soja transgênica. O ouro verde geneticamente modificado oferecia alta rentabilidade durante os anos de bonança das matérias-primas, entre 2002 e 2014, além de suportar as elevadas temperaturas da região, antes coberta de matas nativas. “O aumento das precipitações e a significativa perda de cobertura florestal na Argentina, Brasil e Paraguai, que figuram entre os 10 países com maior desmatamento no mundo, não permitiu a absorção natural da água”, alertou o Greenpeace em um documento.

O coordenador da campanha de florestas dessa organização ambientalista na Argentina, Hernán Giardini, explica: “Além de concentrar uma biodiversidade considerável, as matas e selvas desempenham um papel fundamental na regulação climática, na preservação das nascentes e cursos d’água e na conservação dos solos. São nossa esponja natural e nosso guarda-chuva protetor. Quando perdemos matas nos tornamos mais vulneráveis às chuvas intensas e corremos sérios riscos de inundações”. Só restam 7% da superfície original de matas da Mata Paranaense ou Missionária, atravessada pelos rios o Uruguai, Paraná e Iguazú, segundo o Greenpeace. “No Paraguai e no Brasil foi praticamente destruída, a maior parte remanescente se encontra na Argentina”, acrescenta a organização ambientalista.

Efeitos do El Niño

“O El Niño é um fenômeno cíclico, faz parte da natureza, mas seus efeitos podem ser agravados pelo desmatamento”, opina Benjamín Grassi, professor de meteorologia da Universidade Nacional de Assunção. “O desmatamento retira a proteção do solo. O tipo de precipitação que temos é torrencial, e muita água em pouco tempo afeta muito um solo nu, porque permite que a água escorra facilmente e danifique estradas, cultivos”, acrescenta Grassi.

Na Argentina, as inundações atingem a região limítrofe com o Paraguai, Brasil e Uruguai, mas também a província central de Córdoba, onde se reiteram as recriminações à soja. “A problemática não está necessariamente vinculada à precipitação pluvial, mas à ascensão dos lençóis freáticos”, afirma o ministro de Água e Ambiente de Córdoba, Fabián López. “Como consequência de diversas políticas agropecuárias, os cultivos de inverno deixaram de ser desenvolvidos, semeou-se menos milho, trigo e alfafa, e mais soja. Isso gerou um desequilíbrio hídrico, nos últimos anos o lençol freático subiu significativamente e está a poucos centímetros do solo”, descreveu o ministro López. Nesses países que produzem metade da soja de todo o mundo, a oleaginosa não trouxe só bonança.

FONTE: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/28/internacional/1451335126_237090.html?id_externo_rsoc=Fb_CM