A vida é bela, apesar da farsa eleitoral e da tempestade

Enquanto a chuva inclemente se abate sobre Campos dos Goytacazes, sob o impulso de um Super El Niño, milhões de brasileiros se preparam para ir às urnas amanhã escolher o próximo presidente, os governadores, os senadores e os deputados federais e estaduais. Chegamos ao fim de uma campanha eleitoral particularmente medíocre, na qual a maioria dos candidatos não se deu ao trabalho de apresentar propostas concretas para os problemas que se acumulam diante de nós — problemas agravados não apenas pela crise climática, mas também pelos efeitos especialmente nefastos que ela impõe aos segmentos mais pobres de um país marcado por brutais desigualdades de renda e de condições de vida.

O debate que deveria ter existido foi substituído pela imposição de uma retórica que parte de visões de mundo reais, mas acaba por apresentá-las como simulacros do que de fato são. De um lado, fomos confrontados com os perigos de uma suposta ditadura comunista, dominada por tribunais corruptos; de outro, recebemos uma receita que combina o risco de ver o Brasil transformado em uma ditadura neofascista com a denúncia de que o país estaria submetido à vontade imperial do grande império do mal que nos vigia desde o Norte.

A verdade é que essas narrativas que se complementam servem, sobretudo, para ocultar que os dois lados compartilham a determinação de manter a ordem neoliberal que literalmente nos sufoca e nos deixa sem perspectivas de superação. Não quero dizer com isso que não vivamos sob o risco grave de uma intervenção política ou até militar — risco que decorre, em grande parte, do fato de a ordem capitalista estar submetida a uma pressão quase terminal. Esse risco existe. O problema é que, neste momento, os dois lados acenam para um tigre de papel: as aventuras desastradas na Ucrânia e no Irã tornam uma intervenção no Brasil mais provável a partir de forças internas do que de uma ação externa.

A quem me lê, parece necessário reconhecer que, independentemente de quem vença as eleições — seja o neoliberalismo tosco ou o sutil —, temos diante de nós uma tarefa histórica monumental: construir alternativas políticas e partidárias capazes de enfrentar o que o nosso tempo histórico nos impõe. Por mais que se diga que a extrema-direita avança em todo o planeta, essa é apenas uma meia-verdade, pois também temos visto o outro extremo avançar e conquistar importantes vitórias eleitorais. Mais importante ainda, o espectro da esquerda tem sido capaz de impulsionar grandes mobilizações contra as manifestações mais impiedosas da ordem neoliberal, como ocorre neste momento na Espanha, em protesto contra os despejos de idosos.

Há um detalhe importante: quando se acena apenas para o avanço eleitoral da extrema-direita, o que se pretende impedir é uma resposta à altura do outro extremo, pois o que importa é salvar o status quo reinante. O problema é que esse status quo não pode ser salvo, e a tentativa de preservá-lo apenas nos empurra para mais perto da barbárie completa, como um dia profetizou Rosa Luxemburgo.

Dito isso, considero correto desejar que as pessoas compareçam às urnas e derrotem eleitoralmente a extrema-direita. As tarefas políticas que estão postas, porém, não serão resolvidas apenas por meio das eleições. A plataforma política do futuro imediato precisa incluir a derrota das políticas neoliberais e um compromisso claro com a adaptação climática, centrada nas necessidades da classe trabalhadora e da juventude. E, se a chuva continuar caindo no ritmo atual, especialmente na Região Sul, o El Niño poderá se tornar um fator eleitoral que os institutos de pesquisa não previram, apesar dos alertas contínuos da comunidade científica sobre a intensidade e as consequências do fenômeno, inclusive durante o período eleitoral brasileiro. Ainda assim, é preciso preservar a esperança, como escreveu Leon Trotsky em seu testamento: “A vida é bela. Que as futuras gerações a livrem de todo mal e opressão, e possam desfrutá-la em toda sua plenitude.”

El Niño, 13 mil mortes e o silêncio da política brasileira diante da crise climática

Uma nova projeção divulgada nesta quarta-feira pelo The Guardian deveria estar ocupando um lugar central no debate público brasileiro. Segundo estimativa de pesquisadores do Climate Impact Lab, o atual episódio de El Niño poderá provocar cerca de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. O número não inclui outras mortes que poderão decorrer de secas, incêndios florestais, enchentes e outros eventos associados ao fenômeno.

O dado que mais deveria nos preocupar é que o Brasil está entre os cinco países que deverão registrar os maiores números de mortes adicionais relacionadas ao calor nos próximos seis meses. Ou seja, não estamos diante de uma ameaça distante, localizada em alguma região remota do planeta. Estamos falando de uma situação que terá consequências concretas para a população brasileira.

E o problema não termina no calor. O El Niño atualmente em desenvolvimento já alcançou uma intensidade excepcional e ocorre sobre um planeta cuja temperatura média foi significativamente elevada pela acumulação de gases de efeito estufa. Como explicou à reportagem a cientista Friederike Otto, o fenômeno natural passa a produzir consequências mais perigosas quando ocorre sobre uma atmosfera e uma superfície terrestre já muito mais quentes em consequência do aquecimento global.

No Brasil, essa combinação possui características particularmente preocupantes. O próprio Ministério da Saúde informou, em setembro, que o El Niño está em nível forte, com possibilidade de alcançar intensidade muito forte, e que seus efeitos deverão se estender até março de 2027. Para a região Sul, a previsão é de aumento do volume de chuvas e do risco de tempestades, enxurradas e inundações.

Basta observar o que vem acontecendo no Sul do país para compreender que não estamos discutindo uma possibilidade abstrata. As cenas de cidades atingidas por chuvas extremas, inundações e tempestades deveriam funcionar como uma espécie de antecipação concreta daquilo que significa viver em um país cada vez mais exposto à instabilidade climática.

Há, portanto, uma questão que ultrapassa a discussão sobre a intensidade específica deste ou daquele El Niño. O problema fundamental é que eventos climáticos naturais estão ocorrendo sobre uma base climática progressivamente mais quente e, por isso, seus impactos podem se tornar maiores e mais difíceis de administrar.

Isso deveria estar no centro da campanha eleitoral brasileira de 2026. Entretanto, ocorre justamente o contrário. A poucos dias do primeiro turno, a crise climática ocupa um espaço muito menor do que sua importância objetiva exigiria no debate sobre o futuro do país. Uma análise publicada recentemente pela Folha de S.Paulo, com base em levantamento do Observatório do Clima, mostrou que a pauta ambiental aparece de maneira bastante desigual nos programas dos principais candidatos à presidência da república. A análise identificou propostas robustas em apenas uma das candidaturas avaliadas, enquanto nos demais programas o tema aparece de forma mais vaga ou com menor detalhamento.

O contraste é ainda mais significativo quando se considera que uma pesquisa Ipsos realizada para o Observatório do Clima apontou que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar a crise climática, enquanto 62% classificaram esse tema como muito importante. Desta forma, existe uma distância considerável entre a dimensão do problema, a preocupação manifestada pela população e o espaço efetivamente dedicado ao tema na disputa eleitoral. E essa distância deverá custar caro. 

O fato é que a questão climática não diz respeito apenas à proteção de florestas ou à redução das emissões de carbono já que ela envolve saúde pública, habitação, mobilidade, produção de alimentos, abastecimento de água, energia, infraestrutura, planejamento urbano, proteção das populações mais vulneráveis e capacidade de resposta do Estado diante de eventos extremos.

No caso brasileiro, isto também significa discutir o futuro da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal, da Caatinga e da Mata Atlântica; a expansão de atividades econômicas em áreas ambientalmente frágeis; a política energética; o desmatamento; a ocupação das cidades; a prevenção de desastres; e a preparação do sistema público de saúde para uma realidade de temperaturas cada vez mais elevadas.

Significa, sobretudo, discutir adaptação. É porque mesmo que o mundo interrompesse imediatamente a emissão de gases de efeito estufa, uma parcela importante das mudanças climáticas já desencadeadas continuaria produzindo efeitos durante décadas. A redução das emissões é indispensável, mas não substitui a necessidade de preparar cidades, sistemas de saúde, redes de infraestrutura, áreas rurais e populações vulneráveis para aquilo que já está acontecendo.

O estudo citado pelo The Guardian oferece justamente uma dimensão importante dessa questão: os pesquisadores não estão apenas projetando mortes, mas indicando que parte delas poderia ser evitada por medidas de preparação, como sistemas de alerta para calor extremo, espaços de resfriamento, reforço dos serviços de saúde nos períodos críticos e proteção de trabalhadores expostos às altas temperaturas. Isso deveria nos levar a uma pergunta incômoda: quanto o Brasil está preparado para enfrentar os próximos episódios extremos?

E uma segunda pergunta é ainda mais importante: quanto essa preparação está sendo discutida pelos candidatos que pretendem governar o país? O silêncio relativo da campanha não significa que a crise climática tenha desaparecido. Ao contrário. Ela está se tornando uma presença cada vez mais concreta no cotidiano brasileiro. As chuvas extremas no Sul, as ondas de calor, as secas, os incêndios e os problemas crescentes de abastecimento e infraestrutura são manifestações diferentes de uma mesma transformação das condições ambientais nas quais nossa sociedade está organizada.

O risco é que continuemos tratando cada desastre como uma ocorrência isolada, mobilizando recursos depois que a tragédia aconteceu, em vez de construir políticas permanentes de prevenção, adaptação e redução de vulnerabilidades.O atual El Niño, portanto, deveria ser entendido como mais do que um fenômeno meteorológico excepcional. Ele é também um alerta sobre o tipo de futuro que pode estar se tornando cada vez mais frequente.

Diante disso, a ausência relativa da crise climática no debate eleitoral brasileiro é especialmente preocupante. Não porque faltem assuntos importantes em uma eleição, mas porque nenhum projeto de futuro para o Brasil pode ser considerado completo se não responder à transformação das condições climáticas em que esse futuro terá de ser construído. As cenas dramáticas que estão emergindo da região Sul deveriam ser suficientes para demonstrar que essa discussão não pertence a um futuro distante. Ela já chegou às nossas cidades, às nossas casas e aos nossos sistemas de infraestrutura.

O que está em jogo agora é saber se a política brasileira será capaz de reconhecer essa realidade antes que a sucessão de emergências climáticas transforme a adaptação em uma permanente política de reação às tragédias.

Super El Niño rompe recorde antes do pico e empurra a Terra para águas desconhecidas

O fenômeno natural encontra uma atmosfera superaquecida pela queima de combustíveis fósseis, ampliando secas, enchentes, incêndios e fome em escala global

Em reportagem publicada neste domingo (21), o editor de meio ambiente do The Guardian, Damian Carrington, informa que o atual El Niño já ultrapassou o maior aquecimento anteriormente registrado no coração do fenômeno, embora seu pico seja esperado apenas para novembro ou dezembro. A anomalia da temperatura no Pacífico equatorial chegou a 3,05 °C acima da média de 1991–2020, superando os 3,02 °C observados em novembro de 2015. Na métrica preferida por muitos meteorologistas, o índice Niño 3.4, o recorde está igualmente próximo de ser rompido.

As projeções reunidas pelo cientista climático Zeke Hausfather são ainda mais inquietantes: a média de 14 modelos indica que o aquecimento pode alcançar 4 °C no final do ano. Para efeito de comparação, um El Niño já é caracterizado a partir de 0,5 °C, enquanto eventos acima de 2 °C são classificados como muito fortes e frequentemente chamados de “super El Niños”. Evidências extraídas de corais, anéis de árvores e registros históricos sugerem que um episódio dessa magnitude pode não ter ocorrido nos últimos mil anos.

É importante, contudo, não transformar o El Niño em uma explicação conveniente para todas as catástrofes que virão. Trata-se de uma oscilação natural do sistema climático, mas que agora se desenvolve sobre um planeta aquecido pela emissão continuada de gases de efeito estufa. A crise climática aumenta a temperatura de fundo sobre a qual o El Niño atua, enquanto o próprio fenômeno transfere mais calor dos oceanos para a atmosfera. É uma combinação explosiva: o aquecimento global fortalece os extremos associados ao El Niño, e o El Niño, por sua vez, intensifica temporariamente o aquecimento global. Pesquisas recentes indicam que a variabilidade desses eventos aumentou cerca de 37% desde a industrialização.

O resultado provável não será apenas um novo número nos gráficos climáticos. Serão secas mais prolongadas, chuvas concentradas, enchentes, incêndios florestais, quebras de safras, aumento dos preços dos alimentos e pressão adicional sobre os sistemas de saúde e de abastecimento de água. O Programa Mundial de Alimentos estima que cerca de 50 milhões de pessoas poderão ser empurradas para uma situação de fome aguda. Como sempre, os maiores custos recairão sobre populações que pouco contribuíram para o aquecimento do planeta, mas que vivem em territórios com infraestrutura precária e reduzida capacidade de resposta.

Para o Brasil, o alerta deveria ser tratado como assunto de Estado. Os padrões históricos associados ao El Niño indicam risco de excesso de chuva no Sul e de estiagem e calor intenso em áreas das regiões Norte e Nordeste, embora um evento tão extremo, combinado ao aquecimento global, possa produzir comportamentos fora dos padrões conhecidos. Também é necessário considerar os efeitos indiretos sobre a produção agrícola, a geração hidrelétrica, os reservatórios, os preços dos alimentos e a ocorrência de desastres urbanos. Preparação, neste caso, não significa divulgar alertas quando a chuva já começou ou distribuir água quando os reservatórios estiverem vazios, mas antecipar cenários, proteger populações vulneráveis e coordenar políticas públicas entre os diferentes níveis de governo.

A reportagem de Damian Carrington desmonta, sobretudo, a narrativa confortável segundo a qual ainda dispomos de tempo abundante para agir. O recorde foi ultrapassado meses antes do pico previsto, e 2027 poderá superar todas as marcas anteriores de temperatura global. O planeta já não está apenas se aproximando de uma zona de perigo: começa a operar fora dos parâmetros que orientaram nossa agricultura, nossas cidades e nossos sistemas de proteção social.

O El Niño é natural; a vulnerabilidade social, a dependência dos combustíveis fósseis e o despreparo governamental não são. Quando um fenômeno climático inevitável encontra um sistema econômico que continua queimando carvão, petróleo e gás como se a atmosfera fosse um depósito gratuito de resíduos, a catástrofe deixa de ser exclusivamente natural e passa a ser também uma escolha política. O “espantoso” El Niño descrito pelo The Guardian talvez seja uma prévia do clima que estamos fabricando — e uma demonstração de que a conta dessa fabricação será distribuída de maneira profundamente desigual.

Marcha pelo Clima no Rio: El Niño com capitalismo é pior!

Neste domingo, 20 de setembro, a partir das 14 horas, o Leme, no Rio de Janeiro, será palco da Marcha pelo Clima, mobilização que pretende chamar atenção para o agravamento da crise climática e para a necessidade de respostas políticas diante das transformações ambientais em curso.

Com o lema “El Niño com capitalismo é pior!”, os organizadores partem de um fenômeno natural conhecido há muito tempo — o aquecimento anômalo das águas do Pacífico equatorial — para discutir sua interação com um planeta já submetido a um intenso processo de aquecimento provocado pelas atividades humanas.

A manifestação propõe, entretanto, ir além do diagnóstico climático. Na perspectiva dos organizadores, a crise ambiental não pode ser separada do modelo econômico baseado na exploração intensiva dos recursos naturais, no consumo crescente de energia e matérias-primas e na apropriação desigual dos benefícios e prejuízos produzidos por esse processo.

A Marcha também pretende confrontar diferentes formas de negacionismo climático, desde a negação aberta das mudanças climáticas até posições que, segundo os organizadores, reconhecem a existência da crise, mas apostam na possibilidade de solucioná-la sem alterar profundamente as estruturas econômicas responsáveis pela pressão sobre os ecossistemas.

Nesse sentido, a palavra de ordem “El Niño com capitalismo é pior!” procura estabelecer uma conexão entre um fenômeno climático natural e as condições sociais e econômicas que podem ampliar seus impactos, sobretudo sobre as populações mais vulneráveis.

Marcha pelo Clima – Rio de Janeiro

Data: 20 de setembro
Horário: 14h
Local: Leme – Rio de Janeiro

“Venha marchar com a gente! Não existe planeta B!”

Não haverá desculpa para a surpresa: é hora de preparar o Brasil para o El Niño

O artigo “Emergência climática: o que o Brasil precisa fazer para enfrentar os impactos esperados do El Niño que já começou”, de Regina Célia dos Santos Alvalá, diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com José Antônio Marengo e Marcelo Seluchi, publicado originalmente pelo The Conversation Brasil, traz uma contribuição particularmente oportuna: o El Niño 2026–2027 deixou de ser uma possibilidade distante e exige que previsões meteorológicas sejam transformadas imediatamente em políticas de prevenção, preparação e proteção da população.

O problema é especialmente complexo porque não existe um único “efeito El Niño” para o Brasil. Enquanto o Sul poderá enfrentar chuvas extremas, enchentes e deslizamentos, partes do Norte e Nordeste estarão mais expostas à seca, aos incêndios e à redução da disponibilidade de água. Centro-Oeste e Sudeste, por sua vez, poderão experimentar temperaturas excepcionalmente elevadas, baixa umidade e ondas de calor. Como lembra Regina Alvalá, os impactos ultrapassam a meteorologia e alcançam simultaneamente agricultura, geração de energia, abastecimento de água, logística, saúde e segurança alimentar.

A questão decisiva, portanto, é preparar as pessoas antes que os eventos extremos ocorram. Isso significa identificar populações residentes em áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, estabelecer e divulgar rotas de evacuação, testar sistemas de alerta e preparar abrigos. Significa também criar protocolos específicos para ondas de calor, incluindo adaptação dos horários de escolas e trabalhos realizados ao ar livre, disponibilização de água e ambientes refrigerados ou termicamente protegidos e atenção especial a crianças, idosos, trabalhadores expostos e pessoas em situação de rua.

O mesmo princípio deve valer para a saúde pública. O Ministério da Saúde já apresentou um plano para o El Niño 2026–2027 que prevê salas de situação, estoques emergenciais de medicamentos e capacidade de deslocamento de equipes da Força Nacional do SUS. Mas esses mecanismos precisam chegar efetivamente aos estados e municípios, porque é na rede local do SUS que aparecerão inicialmente os casos de desidratação, insolação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias e outras consequências do calor, da fumaça dos incêndios, das enchentes e da deterioração das condições sanitárias.

Também será indispensável transformar informação climática em informação pública compreensível. Não basta anunciar que haverá um El Niño “muito forte”. Cada município deveria informar aos seus moradores quais são os riscos esperados naquele território, quem está mais vulnerável, onde procurar ajuda e como agir diante de cada tipo de emergência. Sistemas de alerta por celular, agentes comunitários de saúde, escolas, associações de moradores, rádios locais e redes sociais precisam integrar uma estratégia permanente de comunicação de risco. O próprio Painel El Niño recomenda que a população mantenha atualizado o cadastro para alertas da Defesa Civil e conheça previamente áreas de risco e rotas de fuga.

Há ainda uma dimensão social que não pode ser escondida. Eventos climáticos extremos atingem populações diferentes de maneira profundamente desigual. Quem possui casa climatizada, automóvel, reserva financeira e acesso regular à água enfrenta uma onda de calor de maneira muito diferente de quem vive em uma residência precária, trabalha sob o sol ou depende diariamente do transporte público. Da mesma forma, uma enchente possui consequências muito diferentes para quem dispõe de seguro e recursos para deixar rapidamente uma área ameaçada e para uma família que perderá praticamente tudo o que possui se tiver de abandonar sua casa.

Por isso, preparar o Brasil para o El Niño significa também fazer política social de adaptação climática. Os R$ 1,335 bilhão mencionados por Regina Alvalá para ações relacionadas a abastecimento, segurança alimentar, saúde, monitoramento e prevenção de incêndios são importantes, mas o teste decisivo será verificar quanto dessa preparação chegará efetivamente aos territórios e às populações mais expostas.

O El Niño oferece, paradoxalmente, uma vantagem que terremotos e outros eventos súbitos não oferecem: sabemos antecipadamente que ele está chegando e temos uma ideia razoável dos tipos de impactos que poderá produzir. Se, mesmo dispondo de meses de antecedência, sistemas de monitoramento e conhecimento científico acumulado, continuarmos esperando as enchentes, secas, incêndios e ondas de calor acontecerem para então decretar emergência e distribuir ajuda, não estaremos diante apenas de desastres climáticos. Estaremos diante de desastres anunciados cuja gravidade também refletirá nossas escolhas políticas.

 

Do liberalismo ao neoliberalismo: a economia política das catástrofes climáticas

Mike Davis mostrou como El Niños, desigualdade e políticas liberais ajudaram a transformar secas em mortandade no século XIX. Em 2026, sua análise lança um alerta inquietante para o Brasil e outros países profundamente desiguais

A leitura de Late Victorian Holocausts, de Mike Davis, oferece uma chave particularmente inquietante para observar o El Niño que se desenvolve em 2026. Ao analisar as grandes fomes que atingiram Índia, China e outras regiões do mundo no final do século XIX, Davis contesta a explicação confortável segundo a qual milhões de pessoas teriam morrido simplesmente porque grandes secas acompanharam sucessivos episódios de El Niño. As secas existiram e foram severas, mas a transformação do fenômeno climático em mortandade de massa dependeu fundamentalmente das relações sociais e das decisões políticas existentes nos territórios atingidos.

O caso da Índia sob domínio britânico é especialmente revelador. Davis mostra como as autoridades coloniais combinaram princípios do liberalismo econômico, uma leitura malthusiana da pobreza e a crença na capacidade reguladora dos mercados para justificar uma intervenção limitada diante da fome. A assistência aos pobres poderia supostamente estimular dependência, a intervenção sobre os preços distorceria o funcionamento dos mercados e gastos excessivos comprometeriam as finanças públicas. Enquanto isso, populações já empobrecidas enfrentavam secas, perda das colheitas, elevação dos preços dos alimentos e destruição de seus meios de sobrevivência.

Eu reconheço que seria historicamente incorreto transportar mecanicamente aquela realidade para 2026. O colonialismo britânico do século XIX e os Estados contemporâneos são formações políticas profundamente diferentes. Mas a pergunta fundamental formulada por Davis permanece extraordinariamente atual: por que um mesmo fenômeno climático produz consequências relativamente administráveis para determinados grupos sociais e verdadeiras catástrofes para outros? Essa pergunta ganha importância diante de um El Niño que poderá alcançar grande intensidade justamente quando o planeta já se encontra muito mais quente devido à mudança climática antropogênica. O que teremos diante de nós, portanto, não será simplesmente mais um episódio da oscilação natural do Pacífico. Seus efeitos ocorrerão sobre temperaturas médias mais elevadas, cidades gigantescas, sistemas alimentares altamente concentrados, forte dependência de cadeias globais de abastecimento e sociedades marcadas por enormes desigualdades.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre neoliberalismo e austeridade retorna ao centro do problema. A linguagem mudou desde o século XIX. Poucos governos defenderiam hoje explicitamente que a fome constitui um mecanismo natural de regulação populacional. Em seu lugar aparecem conceitos aparentemente neutros como disciplina fiscal, equilíbrio das contas públicas, redução dos subsídios, focalização dos programas sociais, diminuição do tamanho do Estado e confiança dos mercados. O problema surge quando esses princípios passam a limitar a capacidade pública de responder a uma emergência climática. A questão fundamental será observar o que governos fortemente comprometidos com programas neoliberais farão quando forem obrigados a escolher entre preservar metas fiscais e ampliar rapidamente gastos com saúde, abastecimento de água, energia, defesa civil, segurança alimentar, agricultura familiar e proteção social. Uma grande crise climática exige justamente aquilo que décadas de austeridade procuram restringir: capacidade estatal, infraestrutura pública, planejamento, estoques estratégicos e possibilidade de mobilizar recursos rapidamente.

Essa contradição se torna ainda mais perigosa nos países marcados por desigualdades sociais profundas. Uma onda de calor de 45°C não significa a mesma coisa para quem dispõe de uma residência climatizada e para quem vive numa casa precária, trabalha oito horas sob o sol e depende de transporte coletivo superlotado. Uma seca prolongada não produz as mesmas consequências para uma grande empresa agrícola irrigada, capitalizada e segurada e para uma família de agricultores que depende diretamente das chuvas. Da mesma forma, uma crise no abastecimento de água é radicalmente diferente para quem pode comprar água mineral, instalar reservatórios e perfurar poços e para quem depende exclusivamente de uma rede pública já precária.

É por isso que o Brasil deveria prestar atenção especial ao argumento de Mike Davis. Somos uma das maiores economias do mundo, mas continuamos convivendo com enormes desigualdades de renda, habitação, saneamento, infraestrutura urbana e acesso aos serviços públicos. Em nossas cidades, essas desigualdades possuem inclusive uma geografia bastante clara. Os bairros mais arborizados e melhor equipados convivem com periferias densamente ocupadas, impermeabilizadas e praticamente desprovidas de cobertura vegetal. Quando chegam as ondas de calor, são justamente essas populações que recebem a maior carga térmica e possuem menos recursos para se proteger.  O mesmo raciocínio vale para secas, enchentes e crises alimentares. O Brasil possui capacidade científica, instituições públicas, sistemas de monitoramento meteorológico, um sistema público de saúde de dimensão continental e instrumentos de proteção social capazes de reduzir enormemente a mortalidade associada a eventos climáticos extremos. Portanto, se uma eventual sequência de ondas de calor, secas, enchentes ou crises de abastecimento produzir grande número de mortes evitáveis, dificilmente poderemos atribuí-las simplesmente ao El Niño.

É aqui que Late Victorian Holocausts deixa de ser apenas um extraordinário livro sobre o século XIX e se transforma em advertência para o século XXI. Davis nos ensina que devemos desconfiar da expressão “desastre natural”. A natureza produz secas, chuvas extremas e oscilações climáticas; sociedades produzem vulnerabilidades. E governos decidem, por ação ou omissão, quanto dessas vulnerabilidades será transformado em sofrimento e morte.

No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão adicional porque teremos de enfrentar a intensificação dos extremos climáticos sob limites fiscais que restringem a capacidade de expansão dos gastos públicos. Isso significa que, diante de uma emergência de grandes proporções, poderá surgir uma disputa bastante concreta sobre prioridades: flexibilizar regras fiscais para proteger vidas ou preservar metas econômicas enquanto municípios, estados, SUS, Defesa Civil e programas de assistência social enfrentam uma demanda extraordinária por recursos.

Se o El Niño de 2026–2027 realmente atingir a intensidade que os modelos atualmente sugerem, ele não será apenas um gigantesco experimento climático. Será também um experimento político. Mostrará quais sociedades construíram capacidade para proteger seus cidadãos e quais aceitaram que renda, classe social, território e capacidade individual de consumo determinem quem poderá se proteger.  Mais de um século depois das grandes fomes analisadas por Mike Davis, talvez a questão fundamental continue assustadoramente semelhante. O clima poderá produzir o choque inicial, mas quem sofrerá suas consequências mais severas — e quem morrerá — continuará sendo, em grande medida, uma decisão política.

O calor mata mais do que mostram as estatísticas — e o Brasil precisa se preparar para o El Niño de 2026–2027

Estudo da National Public Radio (NPR) dos EUA aponta forte subnotificação das mortes associadas ao calor nos Estados Unidos, enquanto previsões indicam que um El Niño muito forte poderá expor diferentes regiões brasileiras a temperaturas extremas nos próximos meses 

Uma investigação realizada durante dois anos pela NPR, em parceria com pesquisadores da Boston University, oferece um alerta que deveria ser observado com muita atenção no Brasil. Ao desenvolver um modelo estatístico para estimar a mortalidade associada às temperaturas elevadas nos Estados Unidos, os pesquisadores concluíram que o número real de mortes relacionadas ao calor é muito superior ao registrado nas estatísticas oficiais. Entre 2018 e 2025, aproximadamente 9 mil mortes por ano teriam sido influenciadas pelo calor, cerca de cinco vezes a média registrada oficialmente no mesmo período. Em alguns anos, o total estimado ultrapassa 10 mil mortes.

A explicação para tamanha diferença está, em boa medida, na maneira como uma morte provocada ou agravada pelo calor acaba sendo registrada. Uma pessoa idosa ou portadora de doença cardiovascular, renal ou respiratória pode morrer durante uma onda de calor sem que a temperatura apareça na declaração de óbito como causa ou fator contribuinte. O resultado é uma espécie de mortalidade invisível que somente começa a aparecer quando se comparam estatisticamente os óbitos observados durante períodos de temperaturas extremas com aqueles que seriam esperados em condições normais. A investigação norte-americana encontrou diferenças impressionantes: na Flórida, por exemplo, estima aproximadamente 1.900 mortes anuais relacionadas ao calor, número cerca de 40 vezes superior aos registros oficiais.

O problema está longe de ser exclusivamente norte-americano. Na verdade, essas descobertas chegam em momento particularmente preocupante para o Brasil, justamente quando os principais centros de previsão climática indicam a consolidação de um El Niño excepcionalmente intenso. A atualização publicada em 3 de setembro pela Organização Meteorológica Mundial informa que o fenômeno já está firmemente estabelecido, deverá continuar se fortalecendo e apresenta probabilidade próxima de 100% de persistir durante o período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027. A OMM ressalva corretamente que a intensidade de um El Niño não determina automaticamente a magnitude dos seus impactos regionais, mas reconhece que um evento muito forte aumenta substancialmente a possibilidade de grandes alterações nos regimes de temperatura e precipitação.

Os números divulgados pela NOAA tornam o quadro ainda mais digno de atenção. Em seu diagnóstico de agosto, o Climate Prediction Center apontou probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno 2026–2027 do Hemisfério Norte. Mais significativo ainda é que o órgão estimou em 69% a possibilidade de que, entre outubro e dezembro, o evento alcance intensidade superior à dos grandes El Niños registrados desde 1950. Portanto, embora seja necessário evitar o alarmismo e lembrar que previsões sazonais trabalham sempre com probabilidades, tampouco existe justificativa científica para tratar o que está acontecendo no Pacífico como um fenômeno climático corriqueiro.

E o Brasil?

As próprias instituições brasileiras já estão advertindo para esse cenário. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por instituições como INPE, INMET, ANA, CEMADEN e Defesa Civil, aponta a possibilidade de anomalias superiores a 2°C nas águas do Pacífico Equatorial entre a primavera e o verão. Para setembro, outubro e novembro, a previsão indica chuvas acima da média em partes da Região Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte brasileiro. Os boletins anteriores também chamaram atenção para temperaturas superiores à média, maior ocorrência de ondas de calor e aumento do risco de incêndios florestais.

Isso significa que os impactos não serão espacialmente homogêneos. No Sul, a combinação característica do El Niño envolve aumento da precipitação, com possibilidade de episódios de chuva extrema, inundações e deslizamentos. No centro-norte do Brasil, a redução das chuvas pode ocorrer simultaneamente a temperaturas muito elevadas, aumentando o estresse hídrico, a possibilidade de secas e o risco de incêndios. Já áreas densamente urbanizadas do Sudeste e Centro-Oeste poderão enfrentar um problema particularmente perigoso: ondas de calor incidindo sobre cidades que acumulam enormes ilhas de calor e onde milhões de pessoas vivem em moradias inadequadamente ventiladas, trabalham ao ar livre ou simplesmente não possuem acesso a sistemas eficientes de refrigeração.

É justamente aqui que a investigação da NPR adquire importância para nós. Se países com sistemas relativamente estruturados de informação epidemiológica estão subestimando fortemente a mortalidade causada pelo calor, é razoável perguntar se não estamos fazendo algo semelhante no Brasil. Uma onda de calor não precisa produzir cadáveres nas ruas para representar uma emergência sanitária. Ela pode aparecer silenciosamente como aumento das internações por desidratação, insuficiência renal, problemas cardiovasculares e respiratórios, agravamento de doenças preexistentes e crescimento da mortalidade entre idosos. O calor extremo é, nesse sentido, uma expressão bastante concreta daquilo que Rob Nixon chamou de slow violence: seus efeitos são dispersos no espaço e no tempo e, exatamente por isso, tendem a permanecer politicamente invisíveis.

Preparar-se agora, e não quando os termômetros dispararem

Diante das previsões para o final de 2026 e início de 2027, a resposta governamental não deveria começar quando as primeiras ondas de calor extremo aparecerem nos aplicativos de meteorologia. Estados e municípios precisam identificar desde já populações particularmente vulneráveis, incluindo idosos que vivem sozinhos, crianças pequenas, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores submetidos à exposição direta ao sol, população em situação de rua e moradores de habitações precárias. Hospitais e unidades básicas de saúde precisam incorporar protocolos específicos para períodos prolongados de temperaturas extremas, enquanto sistemas de vigilância epidemiológica deveriam ser capazes de relacionar rapidamente aumentos de internações e mortalidade às condições meteorológicas.

Da mesma forma, escolas, universidades, locais de trabalho e serviços públicos precisam estabelecer limites para atividades realizadas sob calor extremo. Horários de trabalho ao ar livre precisam ser revistos quando determinados níveis de temperatura e umidade forem ultrapassados, enquanto cidades necessitam ampliar áreas sombreadas, arborização, acesso gratuito à água potável e locais públicos climatizados que possam funcionar como refúgios durante ondas de calor. Sistemas elétricos e de abastecimento de água também precisam ser preparados para aumentos excepcionais da demanda justamente nos momentos em que esses serviços se tornam essenciais à sobrevivência.

Há ainda uma questão de desigualdade que não pode ser escondida atrás do termo genérico “adaptação”. Uma temperatura de 40°C não significa a mesma coisa para quem vive em uma residência arborizada e climatizada e para quem mora sob uma cobertura de fibrocimento numa periferia densamente construída. Tampouco significa a mesma coisa para quem pode trabalhar remotamente e para um entregador, trabalhador rural, gari ou operário da construção civil obrigado a permanecer durante horas sob o sol. A vulnerabilidade ao calor é produzida tanto pela atmosfera quanto pela estrutura social.

O alerta deixado pela investigação da NPR é, portanto, muito maior do que uma discussão metodológica sobre estatísticas de mortalidade. Ele mostra que podemos estar convivendo com uma causa crescente de adoecimento e morte sem sequer contabilizá-la adequadamente. E isso ocorre justamente quando a mudança climática antropogênica eleva a temperatura de fundo do planeta sobre a qual fenômenos naturais como o El Niño passam a atuar.

Se as previsões atuais se confirmarem, o Brasil poderá entrar na primavera e no verão de 2026–2027 sob influência de um dos El Niños mais intensos das últimas décadas. Ninguém pode afirmar antecipadamente quais temperaturas serão registradas em cada cidade brasileira, mas já existe informação suficiente para saber que esperar o calor chegar para começar a agir seria uma irresponsabilidade. Quando se trata de temperaturas extremas, preparação, sistemas de alerta e políticas públicas de proteção não são luxo nem alarmismo climático: são medidas elementares de saúde pública.

‘Aumento exponencial diante dos nossos olhos’: ONU alerta para a aproximação de um El Niño recorde

Um arrozal afetado pela seca em Darul Imarah, Indonésia. O fenômeno El Niño pode levar 50 milhões de pessoas à fome aguda, segundo uma agência da ONU. Fotografia: Hotli Simanjuntak/EPA

Por Damian Carrington, editor de Meio Ambiente, para “The Guardian” 

O fenômeno climático El Niño está “aumentando de tamanho diante de nossos olhos”, afirmou a ONU. De acordo com as últimas previsões, é quase certo que o evento quebrará recordes de temperatura.

O El Niño provavelmente será o maior em pelo menos 1.000 anos e adicionará calor extra a uma atmosfera onde as temperaturas já estão subindo rapidamente devido ao aquecimento global. Essa combinação significa que 2027 está prestes a quebrar todos os recordes e se tornar o ano mais quente já registrado .

O aumento da temperatura causado pelo El Niño já está tendo impactos, desde o agravamento dos incêndios florestais na Indonésia até o enfraquecimento das vitais chuvas de monção na Índia . Os impactos se espalharão globalmente, desde um maior risco de incêndios na Austrália até inundações mais intensas na América do Sul. O Programa Mundial de Alimentos afirmou em agosto que o El Niño provavelmente levaria cerca de 50 milhões de pessoas à fome aguda .

A crise climática, causada pela poluição proveniente de combustíveis fósseis, já está intensificando eventos climáticos extremos e causando mortes , com a onda de calor mais extrema já registrada atingindo a Europa neste verão e resultando em pelo menos 35.000 mortes . O El Niño agravará ainda mais os impactos, com a escala do evento tendo sido descrita como “ verdadeiramente impressionante ” e um evento de “ nível Godzilla “.

O El Niño é um ciclo climático natural em que mudanças nos ventos sobre o Pacífico levam ao aumento da temperatura do oceano e à transferência de enormes quantidades de calor para a atmosfera. Os dados mais recentes, de segunda-feira, mostram que a temperatura do oceano no epicentro do El Niño está 2,6°C acima da média dos últimos 30 anos. Isso já se aproxima da maior anomalia já registrada na era dos dados de satélite, de 3,1°C em 2015, e ainda faltam meses para o pico ser atingido.

A previsão é de que esse pico atinja cerca de 4°C em novembro, de acordo com a média de 14 modelos diferentes. Dados de análises de corais, anéis de árvores e documentos históricos sugerem que nenhum El Niño atingiu esse nível no último milênio, afirmou Zeke Hausfather, analista climático. Qualquer anomalia de temperatura acima de 0,5°C é classificada como El Niño.

“O El Niño está se intensificando diante dos nossos olhos”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres. “A ciência não deixa dúvidas: o planeta está navegando em águas desconhecidas, e essas águas estão aquecendo. O mundo está na zona de perigo de eventos climáticos extremos. A corrida agora é entre os riscos crescentes e o nosso compromisso de agir contra as mudanças climáticas e proteger as pessoas. Precisamos vencer essa corrida.”

“O El Niño tem o potencial de causar um impacto devastador em comunidades e economias em todo o mundo”, disse Celeste Saulo, Secretária-Geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU. “Já estamos vendo transtornos e devastação causados ​​por secas e inundações, e esperamos que esses impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifica.”

“Nunca antes, nos 50 anos de história da OMM, lançamos uma mobilização tão grande com os serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, que estão na linha de frente da prestação de previsões e serviços para salvar vidas e meios de subsistência. Não temos tempo a perder.”

As atualizações da OMM sobre o El Niño são as previsões mais confiáveis ​​do mundo e baseiam-se em um consenso de modelos de centros de previsão climática de todo o planeta. A atualização mais recente, publicada na quinta-feira, afirma que o El Niño está firmemente estabelecido e se intensificará, tornando-se um evento “muito forte” nos próximos meses, com “grandes impactos”, incluindo inundações, secas e ondas de calor extremas, que persistirão até 2027.

Em algumas áreas, as temperaturas subsuperficiais do oceano registraram valores extraordinariamente 8°C acima da média durante julho e início de agosto.

Chris Jaccarini, da Unidade de Inteligência de Energia e Clima do Reino Unido, disse: “Eventos climáticos extremos em todo o mundo elevaram os preços dos alimentos, afetando os mais pobres com mais força. Isso não se aplica apenas aos alimentos que importamos, mas também aos que cultivamos em casa.

“Após cinco ondas de calor e uma seca generalizada, os agricultores britânicos que cultivam lavouras enfrentam agora a pior colheita de sempre em 2026. No entanto, sem medidas concretas, estes poderão ser os anos bons. A menos que reduzamos rapidamente as emissões e reforcemos a resiliência, o impacto das alterações climáticas continuará a agravar-se, com o El Niño a intensificar esta tendência a cada poucos anos.”


Fonte: The Guardian

Às vésperas do super El Niño, municípios brasileiros não promovem transparência climática

Em uma escala de 0 a 100, nota média do conjunto de cidades avaliadas foi de 33,63 de acordo com nova edição do Índice de Transparência e Governança Pública

Em 2024, chuvas intensas destruíram o Rio Grande do Sul e alagaram o Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Ricardo André Frantz 

Por Transparência Internacional BRASIL

Às vésperas do ‘Super El Niño‘, um novo levantamento do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP), da Transparência Internacional – Brasil revela que a nota média dos municípios em transparência de informações sobre adaptação climática é de apenas 33,62 (em uma escala de 0 a 100).  

Na prática, isso significa que, justamente quando eventos climáticos extremos estão mais frequentes e intensos, muitas prefeituras ainda não disponibilizam de forma adequada informações que permitam aos cidadãos saber quais são os riscos de sua cidade, o que está sendo feito para prevení-los e como o poder público está se preparando para enfrentar esses eventos. 

O alerta ganha ainda mais importância diante da previsão da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados (NOAA, na sigla em inglês) de um El Niño de grandes proporções para os próximos meses. O evento deve figurar entre os mais fortes eventos climáticos registrados pela humanidade desde 1950. Por conta disso, este fenômeno, que deve durar até o início de 2027, ganhou o apelido de ‘Super El Niño‘. 

O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. Ele ocorre a cada dois a sete anos e impacta a temperatura do planeta inteiro. No Brasil, ele geralmente causa o aumento de chuvas na região Sul, o agravamento de secas e estiagens no Norte e no Nordeste e um clima mais irregular no Sudeste e Centro-Oeste – com aumento de calor, chuvas mal distribuídas e oscilações no comportamento de frentes frias.   

Maioria dos municípios brasileiros tem nota ‘ruim’ ou ‘péssima’ em transparência climática

Nesta edição do ITGP, 278 municípios de 10 estados foram avaliados no módulo Adaptação Climática. O objetivo foi saber como essas cidades promovem a transparência de informações sobre o assunto. Foram avaliadas, por exemplo, a existência e a divulgação de instrumentos para lidar com a crise do clima (como planos de adaptação e de contingência, metas climáticas no orçamento e espaços participativos) e como as prefeituras divulgam e disseminam informações sobre o tema aos seus cidadãos. 

O resultado não foi bom. Numa escala de 0 a 100, a nota média do conjunto de cidades avaliadas foi 33,62. O melhor resultado foi a existência de órgãos municipais de meio ambiente (85,3% das cidades cumpriram esse item) e o pior resultado diz respeito à divulgação de audiências e consultas públicas sobre clima e defesa civil (apenas 8,7% das cidades atenderam a esse quesito).  

Na análise de planos setoriais, o cenário permaneceu igualmente grave e preocupante: apenas 13% dos municípios avaliados possuem Plano de Adaptação à Mudança do Clima.

Isso é bastante relevante, pois é esse plano que reúne o conjunto de ações que busca preparar uma cidade e reduzir os impactos de eventos extremos como enchentes, secas, ondas de calor e deslizamentos. Ele ajuda a proteger vidas, moradias, serviços públicos e a economia, especialmente em áreas vulneráveis. Também orienta investimentos e políticas públicas para tornar os municípios mais seguros, resilientes e preparados para os efeitos atuais e futuros do clima.

Em 2023, uma estiagem histórica fez com que os rios da Amazônia secassem e prejudicassem milhares de pessoas no norte do Brasil. Foto: Alberto César Araújo/ Amazônia Real

Cidades melhoraram suas notas e classificação

A metodologia torna possível comparar os resultados do Índice de Transparência e Governança Pública de 2025 com 2026. Nos 233 municípios em que foi possível fazer essa comparação, todos os 22 indicadores melhoraram, com alta média de 7,9 pontos.

Diversos municípios melhoraram sua classificação – a concentração de cidades com nota ‘péssima’ ou ‘ruim ‘era de 75% em 2025; este ano, o número diminuiu para 59%.

As cidades classificadas como ‘regular’ cresceram (de 15% para 19%), assim como as classificadas com ‘bom’, de 7% para 15%. Em 2025, seis municípios foram classificados como ‘ótimo’; neste ano, a lista se estende a 14. Entraram neste grupo mais bem avaliado, por exemplo, as cidades de Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Gaspar (SC), Santa Tereza, Aracruz, Cachoeiro de Itapemirim, Sooretama e Serra (ES).

Questões climáticas não aparecem no orçamento

Somente 14% das cidades avaliadas possuem planos importantes para que as cidades estejam preparadas para eventos extremos (como Plano Diretor, Plano de Habitação, Plano de Saneamento Básico e Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos) e apenas 24,1% colocaram metas relativas às mudanças climáticas em seus Planos Plurianuais (PPA). O PPA é um instrumento de planejamento da prefeitura que define as principais diretrizes, objetivos e metas das políticas públicas e dos investimentos do município, orientando a elaboração dos orçamentos e a aplicação dos recursos públicos.

Dos 278 municípios avaliados, apenas 27% têm um órgão colegiado de mudanças climáticas ativo – prejudicando a participação e o controle social a respeito deste tema. Dos 75 municípios com colegiado de clima ativo, apenas 21 divulgam integralmente seu funcionamento; 29 não divulgam nenhuma informação.

Também é de 27% a taxa dos municípios que possuem órgão colegiado de proteção e defesa civil ativo. Das 77 cidades com colegiado de defesa civil ativo, 13 divulgam integralmente as informações referentes a esses conselhos e 36 não divulgam nenhuma informação. Das cidades analisadas, 57,2% não tem nenhum dos dois colegiados ativos.

A transparência climática é fundamental para que os cidadãos tenham acesso à informação e saibam as providências a serem tomadas na ocorrência de eventos extremos. Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

 

Cidadãos não têm acesso a informações sobre clima

A Coordenadora de Projetos da Transparência Internacional – Brasil, Letícia Castro, disse que a transparência sobre adaptação climática não é apenas uma questão de acesso à informação – tem a ver também com uma diferença concreta na capacidade das pessoas de se protegerem diante de eventos extremos. Ainda há inúmeros instrumentos que necessitam ser criados e implementados pelas cidades.

“Apenas 37,1% dos municípios publicam o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil, por exemplo. Isso significa que em 175 cidades esse documento não está disponível para o público. O plano de contingência é o instrumento que define quais áreas são consideradas de risco, quais são as rotas de saída, onde ficam os pontos de abrigo, quais órgãos são acionados em cada nível de alerta. Sem acesso a ele, o morador não tem como saber, por exemplo, se a sua rua está mapeada como área de risco e para onde deve se deslocar em caso de evacuação”, explicou a coordenadora.

Conheça o Índice de Transparência e Governança Pública

O Índice de Transparência e Governança Pública é uma ferramenta da Transparência Internacional – Brasil que avalia a transparência de entes subnacionais do país, como governos estaduais, capitais, assembleias legislativas e municípios. Ele atribui a cada entidade uma nota de 0 a 100 pontos, classificada em faixas como “ótimo”, “bom” e “regular”, com base em critérios como acesso à informação e boas práticas de governança.

O objetivo é permitir comparações ao longo do tempo, mostrando a evolução de cada ente entre uma edição e outra do Índice. Na avaliação mais recente de governos estaduais, feita em 2025, o estado do Espírito Santo liderou o ranking com 95 pontos, enquanto o Amapá ficou em último lugar, com 46,9 pontos. O Índice de Transparência e Governança Pública é uma ferramenta que serve à melhoria da transparência no Brasil.


Fonte: Transparência Internacional Brasil

Oceanos mais quentes: o sinal de alerta que vem do mar

A reportagem “Com El Niño, dia mais quente em oceanos é registrado pelo Copernicus”, assinada pelo jornalista José Henrique Mariante, chama a atenção para uma dimensão da crise climática que muitas vezes recebe menos destaque do que o aumento da temperatura do ar: o aquecimento persistente dos oceanos. O texto, publicado pelo jornal Folha de São Paulo, informa que os oceanos atingiram uma temperatura média global recorde de 20,96°C, segundo dados do serviço europeu Copernicus, superando o recorde anterior registrado em 2016.

O El Niño ajuda a explicar a intensidade do fenômeno, mas seria um erro atribuir o recorde exclusivamente a ele. Como a própria reportagem destaca, os oceanos acumulam grande parte do excesso de calor produzido pelo desequilíbrio energético provocado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa. O El Niño atua, portanto, sobre um sistema oceânico que já se encontra progressivamente mais quente em consequência do aquecimento global. Essa combinação ajuda a explicar por que novos recordes vêm sendo alcançados.

A questão merece extrema preocupação porque os oceanos não funcionam apenas como grandes reservatórios de água. Eles constituem um dos principais componentes do sistema climático terrestre, absorvem enorme quantidade de calor e participam ativamente da redistribuição de energia entre as regiões tropicais e as altas latitudes. Quando a temperatura oceânica aumenta de maneira persistente, modifica-se também a interação entre oceano e atmosfera, com consequências sobre evaporação, circulação atmosférica, precipitação e ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

Além disso, existe ainda um problema ecológico de enormes proporções. O aumento da temperatura da água submete ecossistemas marinhos a condições que muitas espécies não conseguem tolerar. Ondas de calor marinhas podem provocar branqueamento e mortalidade de corais, deslocamento geográfico de populações de peixes, alterações nas cadeias alimentares e mudanças na produtividade dos ecossistemas. A redução da mistura vertical da coluna d’água também pode dificultar o transporte de nutrientes das águas profundas para as camadas superficiais, justamente onde ocorre grande parte da produção primária dos oceanos.

A verdade é que essa transformação ultrapassa em muito uma discussão sobre conservação da biodiversidade. Bilhões de pessoas dependem direta ou indiretamente de pescados e outros organismos aquáticos como fonte de proteína, micronutrientes, renda e segurança alimentar. O deslocamento ou a redução dos estoques pesqueiros pode atingir de maneira particularmente severa populações costeiras e países nos quais a pesca artesanal desempenha papel fundamental na alimentação. Nesse sentido, o aquecimento oceânico transforma uma questão climática e ecológica também em um problema social e alimentar.

Por outro lado, também há uma retroalimentação preocupante. Durante décadas, os oceanos amorteceram parte importante do aquecimento provocado pelas atividades humanas ao absorverem grande quantidade do excesso de calor do sistema climático e uma parcela significativa do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. Esse serviço planetário, entretanto, não possui capacidade ilimitada. Oceanos progressivamente mais quentes podem absorver calor adicional com maior dificuldade em determinadas regiões e circunstâncias, enquanto águas mais quentes também tendem a reter menos gases dissolvidos. Ao mesmo tempo, alterações na circulação, na estratificação e nos ecossistemas marinhos podem modificar a eficiência da chamada bomba biológica de carbono.

Por isso, talvez o aspecto mais inquietante do recorde apresentado por José Henrique Mariante seja justamente aquilo que um único número não consegue mostrar. 20,96°C parece uma diferença pequena quando observada em um termômetro doméstico, mas representa uma quantidade extraordinária de energia adicional quando aplicada à enorme massa de água dos oceanos do planeta. A elevada capacidade térmica da água significa que mudanças aparentemente pequenas na temperatura média oceânica correspondem a gigantescas acumulações de calor.

O recorde registrado pelo Copernicus deve ser entendido, portanto, como muito mais do que uma curiosidade estatística associada ao El Niño. Ele mostra que uma das principais estruturas reguladoras do clima terrestre está acumulando energia em níveis excepcionais. Os efeitos podem aparecer nos recifes de coral, nos estoques pesqueiros, na distribuição das chuvas, na intensidade das ondas de calor marinhas e atmosféricas e, finalmente, na mesa de populações que dependem do mar para obter alimento.

Finalmente, precisamos lembrar que o oceano durante muito tempo funcionou como um enorme amortecedor da crise climática. O problema é que o funcionamento da engrenagem capitalista ancorada no consumo de combustíveis fósseis está aquecendo justamente o amortecedor. E, quanto mais reduzirmos a capacidade oceânica de regular o sistema climático, maior será a quantidade de calor com a qual a atmosfera, os continentes, os ecossistemas e as sociedades humanas terão de conviver.