Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

Super El Niño pode causar um choque global nos preços dos alimentos que durará até 2028, afirmam especialistas

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços das commodities alimentares em até 9%, com a soja entre as mais afetadas. Fotografia: Bloomberg/Getty Images  

Por Richard Partington, correspondente sênior de economia, para “The Guardian”

Economistas alertam que um ciclo climático “super” El Niño este ano pode causar um choque severo nos preços globais dos alimentos, com efeitos que podem se estender até 2028.

Com a guerra no Irã elevando os preços mundiais dos alimentos ao nível mais alto em três anos, economistas afirmaram que as cadeias de suprimentos enfrentam “dois choques simultâneos”, provocados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global.

Cientistas afirmaram que o El Niño de 2026-27 – que se forma quando mudanças nos padrões de vento permitem que águas mais quentes se espalhem pelo Pacífico equatorial central e oriental – tem uma chance historicamente sem precedentes de se tornar um evento “muito forte”, provocando ondas de calor, inundações e tempestades.

Informalmente descrito como um El Niño “super” ou “Godzilla”, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmou no mês passado que as condições de aquecimento estavam se instalando no Pacífico e que havia 63% de chance de as temperaturas da superfície do mar ultrapassarem 2°C acima do normal ainda este ano.

Num momento em que as famílias em todo o mundo já sentem o impacto do aumento vertiginoso do custo de vida, especialistas afirmam que um El Niño extremo poderia agravar ainda mais a situação. A perspectiva de um novo choque inflacionário também preocupa os bancos centrais, aumentando o receio de que as taxas de juro possam ser mantidas em níveis elevados.

Algumas regiões da Índia receberam apenas metade da precipitação normal, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar. Fotografia: Charlie Riedel/AP

“O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda”, escreveram analistas do banco italiano UniCredit em uma nota de pesquisa. “As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda este ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global.”

O fenômeno natural tem um histórico de impacto nas colheitas e na rede de abastecimento alimentar. Há mais de um século, um El Niño, provavelmente o mais severo já registrado, provocou secas catastróficas na China, no sul da África, no Brasil, no Egito e na Índia. Causando condições de fome em uma situação agravada pelo domínio colonial, milhões morreram, incluindo mais de 6 milhões de pessoas na Índia entre 1876 e 1878.

Os eventos El Niño de 1981-82, 1996-97, 2015-16 e 2023-24 foram alguns dos mais intensos já registrados. No entanto, as projeções da NOAA indicam que o ciclo de 2026-27 poderá ser ainda mais severo, aumentando o risco de secas e inundações que afetarão as colheitas e o abastecimento de alimentos em todo o mundo.

 

Segundo analistas do Goldman Sachs, a intensidade deste El Niño poderá causar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. Isso teria um efeito cascata em todo o mundo, inclusive para os consumidores na Europa, onde a previsão é de um aumento de 1,3% nos preços dos alimentos em toda a zona do euro.

No entanto, o impacto total levará tempo para ser sentido, devido à forma como o custo das mudanças climáticas se propaga pela cadeia alimentar global. Consequentemente, o Goldman Sachs afirmou que as consequências podem levar até o segundo semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”.

A maior parte do atraso se deve ao momento em que eventos climáticos extremos afetam a produção de alimentos, considerando os diferentes ciclos de plantio, crescimento e colheita para os diversos tipos de culturas. Desafios logísticos – incluindo os níveis de água em canais e rios utilizados para importantes remessas – também terão impacto.

“O El Niño não afeta a agricultura de forma uniforme. Ele remodela os padrões globais de chuva e temperatura, criando regiões vencedoras e perdedoras”, afirmaram analistas do UBS. Algumas regiões podem se beneficiar de condições climáticas mais quentes. 

Um trabalhador segura uma amostra de grãos de soja. Fotografia: Fred Scheiber/AFP/Getty

Analistas afirmam que o El Niño agravaria os problemas causados ​​pela guerra com o Irã, adicionando dificuldades na cadeia de suprimentos de alimentos aos preços já elevados e à escassez de fertilizantes e energia. “Mesmo pequenas interrupções no fornecimento poderiam desencadear oscilações de preços muito maiores do que as previstas pelos padrões históricos”, disseram os analistas do UBS.

Normalmente, o El Niño acarreta riscos elevados de seca no sul da África e no norte da América do Sul, mas também de inundações no sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Analistas afirmam que os países de baixa renda – já os mais afetados pelo conflito com o Irã – provavelmente sofrerão mais.

“O El Niño já começou a afetar as colheitas, provocando uma estação das monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, escreveram os analistas do Goldman Sachs.

O impacto provavelmente será sentido em todo o mundo.

Analistas afirmam que a seca no sudeste asiático pode afetar o fornecimento de óleo de palma – um ingrediente importante em alimentos processados ​​– enquanto as colheitas de café e cacau também podem ser prejudicadas. Condições climáticas mais quentes e úmidas podem agravar a disseminação de doenças, afetando a produtividade agrícola nos próximos anos.

Na América do Norte, o impacto do El Niño é mais forte no inverno, e embora as condições na Europa possam ser influenciadas pelo fenômeno climático, analistas afirmam que outros fatores – como o efeito sobre os preços globais dos alimentos – serão onde ele será sentido.

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços globais das commodities alimentares em até 9%, com a soja, o milho e o arroz apresentando os maiores aumentos.

Pêssegos à venda em um mercado ao ar livre em Chauvigny, França.

O impacto mais profundo do El Niño na Europa provavelmente virá do aumento dos preços, e não de eventos climáticos extremos. Fotografia: lucentius/Getty Images/iStockphoto

A forma como os preços se refletem nas prateleiras depende das estratégias de mitigação e das políticas nacionais. Fatores como a demanda do consumidor e os preços no varejo também desempenham um papel importante.

Segundo o UniCredit, a possibilidade de um cenário extremo de El Niño permanece alta. Isso poderia levar a uma queda de 14,3% na produção agrícola global – o equivalente a US$ 342 bilhões (R$ 254 bilhões) em perdas de produção, afirmou a instituição.

“Os choques de preços podem atingir de 10% a 50% nas principais commodities, enquanto as culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café – podem subir de 50% a 100% ou mais”, afirmou o banco. “O sistema alimentar entra no segundo semestre de 2026 com reservas, mas com pouca margem para erros.”


Fonte: The Guardian

O El Niño está voltando. Porto Alegre está preparada para a próxima grande enchente?

Dois anos depois da catástrofe de 2024, obras avançaram, mas vulnerabilidades persistem justamente quando o risco climático volta a aumentar

Uma reportagem publicada nesta quarta-feira (8) pelo Matinal traz uma pergunta que deveria preocupar não apenas os moradores de Porto Alegre, mas todas as cidades brasileiras expostas a eventos climáticos extremos: depois da catástrofe de 2024, quanto foi realmente feito para impedir que um desastre daquela dimensão volte a ocorrer?

Assinada pelo jornalista João Neto, a reportagem parte de uma circunstância particularmente preocupante. Pouco mais de dois anos depois das enchentes que atingiram 96% dos municípios do Rio Grande do Sul e provocaram 185 mortes, o El Niño volta ao horizonte. Em 2024, o fenômeno climático, intensificado pelos efeitos das mudanças climáticas, foi um dos fatores que contribuíram para a sequência excepcional de chuvas e enchentes que devastou o estado. Agora, quando um novo episódio se aproxima, o levantamento da Matinal mostra que Porto Alegre ainda convive com importantes fragilidades em seu sistema de proteção, especialmente nas ilhas e na zona sul.

O problema central é que a tragédia de 2024 não resultou apenas de uma chuva extraordinária. O desastre climático encontrou um sistema urbano enfraquecido por falhas de manutenção, deficiências de gestão e intervenções que comprometeram estruturas originalmente projetadas para proteger a cidade. No Centro, falhas nas casas de bombas permitiram que a água emergisse pelo sistema subterrâneo. No bairro Sarandi e em áreas de Canoas, trechos de diques teriam sido construídos 1,5 metro abaixo das cotas previstas nos projetos originais. Houve ainda o enfraquecimento de estruturas na zona norte, o rompimento de uma comporta próxima ao Aeroporto Salgado Filho e problemas de refluxo em estações de bombeamento.

Esses fatos ajudam a desmontar uma interpretação bastante conveniente segundo a qual a catástrofe de 2024 teria sido simplesmente um evento natural de magnitude imprevisível. Chuvas extremas ocorreram, sem dúvida, mas seus efeitos foram amplificados pela forma como o território urbano foi administrado. A diferença entre um evento climático extremo e uma catástrofe social costuma estar justamente aí: na qualidade da infraestrutura, na manutenção dos sistemas de proteção, no planejamento territorial e na capacidade das instituições públicas de agir antes que a água chegue.

É preciso reconhecer que obras foram iniciadas depois de 2024. A prefeitura afirma que há intervenções em diques, comportas, casas de bombas e redes de drenagem. Entretanto, o próprio balanço oficial mostra que algumas obras importantes continuam em andamento. A substituição das comportas 11 e 12, por exemplo, ainda tinha conclusão prevista para julho de 2026. Reportagens anteriores também já haviam mostrado que, em abril deste ano, reformas em casas de bombas, comportas e diques permaneciam inconclusas e que as melhorias realizadas seriam capazes de conter apenas parcialmente os efeitos de uma cheia semelhante à de maio de 2024.

A questão, portanto, não é negar o que foi feito, mas perguntar se o ritmo e a escala das intervenções correspondem ao tamanho do risco. Há uma diferença fundamental entre afirmar que uma cidade está mais protegida do que estava em maio de 2024 e demonstrar que ela está efetivamente preparada para enfrentar outro evento daquela magnitude. Quando o sistema ainda possui obras incompletas e áreas vulneráveis, a primeira afirmação pode ser verdadeira sem que a segunda também seja.

Esse é um ponto decisivo porque a emergência climática alterou os parâmetros sobre os quais as cidades brasileiras foram planejadas. Sistemas de drenagem, diques, comportas e estações de bombeamento concebidos com base nas estatísticas do século XX precisam agora operar em um clima diferente. O passado já não oferece necessariamente uma medida segura para o futuro, pois eventos antes classificados como excepcionais tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade.

Porto Alegre oferece, nesse sentido, uma advertência para o restante do Brasil. O país continua tratando a adaptação climática como se ela pudesse avançar no ritmo normal da burocracia administrativa, enquanto o clima muda em outra velocidade. Depois de cada desastre, multiplicam-se anúncios, projetos, licitações e promessas de reconstrução. Mas a verdadeira medida da capacidade de adaptação não está no volume de anúncios feitos depois que a água baixa. Está na quantidade de obras concluídas, sistemas testados, equipes treinadas e populações protegidas antes que a próxima chuva extrema comece.

Também é necessário perguntar quem permanece mais exposto quando a proteção é incompleta. Como quase sempre ocorre nos desastres ambientais, a vulnerabilidade não se distribui igualmente pelo território. Os moradores das áreas mais baixas, das ilhas, das periferias e das zonas onde a infraestrutura urbana é mais precária são aqueles que carregam o maior risco. Quando o poder público demora a concluir sistemas de proteção, essa demora também possui uma geografia social.

A reportagem da Matinal é importante justamente porque desloca a discussão do passado para o futuro próximo. A pergunta já não é apenas por que Porto Alegre inundou em 2024, mas o que acontecerá se uma nova combinação de chuvas extremas, rios elevados e falhas de infraestrutura voltar a ocorrer. Essa pergunta se torna ainda mais urgente diante da possibilidade de um novo El Niño.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma ruptura definitiva com a lógica de negligência que marcou a gestão da infraestrutura de proteção contra enchentes. Dois anos depois, contudo, a existência de obras ainda inconclusas e de territórios persistentemente vulneráveis mostra que a distância entre aprender com um desastre e simplesmente reconstruir depois dele continua sendo grande.

O El Niño pode voltar. As chuvas extremas certamente voltarão, seja durante este episódio ou em algum momento posterior. A única variável sobre a qual a sociedade possui algum controle é o grau de preparação existente quando isso acontecer. E é justamente por isso que a pergunta formulada pela reportagem da Matinal precisa continuar sendo feita: Porto Alegre está realmente protegida ou apenas menos desprotegida do que estava em maio de 2024?

Este comentário foi elaborado a partir da reportagem “El Niño à vista: como está a proteção antienchente em Porto Alegre”, de João Neto, publicada pela Matinal em 8 de julho de 2026

El Niño está de volta com força total – e o medo de uma força comparável à de Godzilla pode ser a menor das nossas preocupações

O Programa Mundial de Alimentos da ONU e a agência de agricultura lançam um apelo conjunto por fundos para evitar uma crise global de fome

Por Ajit Niranjan para “The Guardian”

Dugna Woyessa era um menino quando a seca devastou seu país pela primeira vez. No início da década de 1970, enquanto as colheitas fracassavam nas regiões da Etiópia afetadas pela seca, e sua escola transformava uma sala de aula em um depósito de grãos para que os agricultores pudessem enviar ajuda, ele não fazia ideia de que os cientistas estavam começando a conectar a força que ressecava os campos com as mudanças cíclicas nos ventos alísios, que há muito intensificavam os eventos climáticos violentos da América do Sul à Austrália.

O agora notório El Niño – que em espanhol significa “menino”  recebeu esse nome de pescadores do Pacífico no século XIX, mas foi somente na década de 1970 que os cientistas compreenderam sua natureza global e começaram a reconstruir o impacto histórico desse padrão climático natural, caracterizado por anos quentes e extremos brutais.

O El Niño de 1972-73 aqueceu as águas peruanas a níveis que levaram ao colapso da maior pescaria de anchova do mundo – o que levou cientistas a realizarem a primeira previsão sobre o seu estado no ano seguinte – e trouxe uma seca severa para o sul da Ásia, o Sahel e partes da África Oriental, às vésperas de uma crise do petróleo que agravou a fome global. Na Etiópia, os protestos contra a forma como o imperador lidou com a fome contribuíram para um golpe militar que instaurou uma ditadura comunista.

Um homem segura dois tubarões-martelo que pescou em um terminal de pesca.

Dois tubarões-martelo capturados em Lima, em 1997. Peixes de água quente foram atraídos pelas águas peruanas aquecidas pelo El Niño. Fotografia: Ricardo Choy Kifox/AP

“O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais desafiadores”, disse Woyessa, que se tornou epidemiologista no Instituto Etíope de Saúde Pública e estudou seus efeitos sobre as epidemias de malária . “A nutrição é fundamental para a capacidade de resistir aos desafios dos seus impactos negativos na saúde humana.”

Com muita frequência, porém, o que o El Niño tira é da nutrição, justamente daqueles que mais precisam. Woyessa estava no ensino médio quando um El Niño mais forte atingiu a região uma década depois, em 1982-83, obrigando alguns de seus colegas a viajar 150 km para ajudar nas colheitas em fazendas estatais. Em seu primeiro ano de universidade, novas quebras de safra e a guerra civil agravaram a fome generalizada, transformando-a em uma crise ainda mais devastadora, que atraiu a atenção mundial por meio do concerto Live Aid . Woyessa e seus colegas se revezavam para ajudar as pessoas em abrigos perto da universidade. “Recebíamos dois pães pela manhã e tínhamos que dividir o café da manhã.”

Uma menina coleta água no rio Shabelle, em Gode, Etiópia, em 2022, quando a seca levou 20 milhões de pessoas à beira da fome. Fotografia: Eduardo Soteras/AFP/Getty Images

Este ano, o El Niño está de volta – e os cientistas temem que ele se assemelhe mais a um adulto do que a um menino. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) afirmou que as condições do El Niño se formaram no Pacífico na semana passada e que há 63% de chance de que ele atinja um pico “muito forte” perto do final do ano. O Departamento de Meteorologia da Austrália seguiu o exemplo na terça-feira, alertando que o fenômeno agravará o calor extremo e os incêndios florestais que assolam o país todos os anos.

Alguns cientistas o apelidaram informalmente de El Niño “super” ou “Godzilla”, com base na magnitude esperada da anomalia de temperatura, que elevará o calor global em um momento em que eventos climáticos extremos, como as recentes ondas de calor e tempestades na Europa , estão testando os limites da capacidade de resposta da sociedade. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) usou uma linguagem mais cautelosa ao nos alertar para a possibilidade de seu retorno no início deste mês, argumentando que a grande dispersão nos resultados dos modelos tornava prematuro prever sua intensidade.

Espectadores do Aberto da França de 2026, em Paris, se refrescam em um posto de pulverização de água durante uma onda de calor. Fotografia: Benoît Tessier/Reuters

Em março, o Fundo Monetário Internacional alertou que cerca de metade dos 68 países mais pobres do mundo enfrentam dificuldades com a dívida ou correm alto risco de enfrentá-las. Além disso, a guerra com o Irã levou a altos preços da energia e à restrição do fornecimento de fertilizantes, o que enfraqueceu as reservas contra choques climáticos. Este mês, a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome projetou que entre 115 e 125 milhões de pessoas precisarão de assistência alimentar urgente até dezembro, com riscos de fome no Sudão, Sudão do Sul e Somália. O corte drástico na ajuda externa dos EUA e a redução dos orçamentos de desenvolvimento europeus significam que menos apoio poderá chegar quando as crises ocorrerem.

Na quinta-feira, a ameaça representada pelo El Niño levou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a lançarem seu primeiro apelo conjunto por fundos para evitar uma crise antes que ela aconteça. Citando pesquisas que mostram que cada dólar gasto em “ação preventiva” economiza sete dólares em custos de ajuda humanitária, as agências afirmaram que precisavam de US$ 167 milhões dos US$ 202 milhões necessários para ajudar 8,8 milhões de pessoas com sementes resistentes à seca, defesas contra inundações, sistemas de armazenamento de água e transferências de dinheiro.

Mulheres do grupo étnico Murle aguardam na fila para receber distribuição de alimentos.

Mulheres da etnia Murle fazem fila em um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos em Gumuruk, Sudão do Sul, em 2021, onde o conflito armado agravou a escassez de alimentos. Fotografia: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

A boa notícia, se é que existe alguma, é que não se espera que o El Niño leve a piores resultados para as colheitas em escala global, já que os ganhos em algumas regiões normalmente compensam as perdas em outras, mas os perdedores incluirão aqueles com menos condições de lidar com a situação. Muitos dos países africanos e asiáticos mais expostos também foram duramente atingidos por choques nos preços dos fertilizantes e apresentam alguns dos maiores níveis de dependência de importação de alimentos e endividamento, afirmou Anne Jellema, diretora executiva da 350.org, um grupo de campanha climática. “Isso significa que o El Niño elimina o último recurso doméstico para pessoas que não conseguem acessar os mercados, que cada vez mais não conseguem obter ajuda humanitária e que não podem se locomover livremente.”

Os impactos também serão sentidos no mundo desenvolvido, à medida que o El Niño traz ondas de calor mais intensas e uma disseminação mais ampla de algumas doenças transmitidas por vetores. Sua chegada “persistentemente” retarda as melhorias na mortalidade, mesmo em países ricos como os EUA, Austrália, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Nature Climate Change.

Um trabalhador lança feixes de mudas de arroz para o ar antes de transplantá-las para um arrozal alagado.

Plantação de arroz em Srinagar, na região de Jammu e Caxemira administrada pela Índia, em 2026, em meio a temores de que a guerra com o Irã eleve os custos de fertilizantes, combustível e transporte. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Em certa medida, os danos causados ​​pelo El Niño foram controlados nas últimas décadas por um certo nível de previsibilidade – mas ele oferece uma amostra dos horrores em cascata que os cientistas climáticos alertam que desestabilizarão as sociedades à medida que o planeta aquece.

Agravados por tensões geopolíticas, preços elevados de energia e fertilizantes e cadeias de abastecimento frágeis, os choques relacionados ao El Niño podem estar “aumentando a probabilidade de impactos sistêmicos compostos e não lineares”, alertou um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia na segunda-feira, com efeitos em cascata que abrangem todos os setores econômicos ligados ao mundo natural.

“Um possível caminho de transmissão seria desde secas, inundações e estresse térmico afetando a produção agrícola, a produtividade do trabalho, a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica e os sistemas de transporte, até preços mais altos de alimentos e energia, pressão inflacionária, estresse fiscal e menor capacidade de pagamento dos mutuários”, escreveram os autores.

Será possível evitar tais calamidades no próximo ano? O El Niño não precisa ser “uma receita para o desastre”, segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), que afirmou que suas previsões são mais um apelo à ação antes que os riscos se transformem em crises. Sua secretária-geral, Celeste Saulo, instou o mundo a intensificar os esforços para construir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos, já que apenas 128 países relatam possuir tais sistemas.

Enquanto isso, ativistas climáticos têm defendido o cancelamento da dívida do Sul Global e o financiamento de proteções sociais por meio de impostos sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás, em vez de financiar combustíveis fósseis. “Há muitas pesquisas que mostram que a proteção social direcionada é muito mais eficaz do que subsidiar combustíveis fósseis e fertilizantes, porque chega às pessoas que mais precisam”, disse Jellema.

Pessoas aguardam em uma longa fila para comprar gás liquefeito de petróleo.

Em março deste ano, em Calcutá, na Índia, pessoas aguardam para comprar gás liquefeito de petróleo (GLP), em meio a interrupções no fornecimento e controles sobre as importações de gás devido ao conflito no Oriente Médio. Fotografia: Debajyoti Chakraborty/NurPhoto/Shutterstock

António Guterres, cujo mandato como secretário-geral da ONU termina no final deste ano, tem feito apelos igualmente desesperados aos líderes mundiais há anos, implorando-lhes que abandonem a dependência dos combustíveis fósseis, que tem impulsionado o superaquecimento do planeta e a degradação do mundo natural. O mundo aqueceu cerca de 1,3°C desde a Revolução Industrial, e as temperaturas estão subindo tão rapidamente que os piores anos do El Niño no passado recente – como 1997-98 – são muito menos quentes do que os anos atuais, em que o sistema muda para La Niña, seu equivalente mais frio.

Para Woyessa, o aumento das temperaturas e o desmatamento perturbaram os padrões de chuva, mesmo ao redor da aldeia onde cresceu. O rio em que costumava nadar quando menino foi reduzido a um pequeno riacho, e a chuva, da qual as gerações anteriores dependiam para o plantio, tornou-se irregular. Ele acrescentou que, quando telefonava para o falecido pai, perguntar sobre a chuva era uma forma típica de iniciar uma conversa.

“A principal preocupação é a mudança na época das chuvas”, disse ele. “O início delas mudou completamente em comparação com a minha infância.”


Fonte: The Guardian

El Niño está de volta e o planeta pode estar às portas de um novo período de extremos climáticos

Análise publicada por Marshall Shepherd na Forbes alerta que o aquecimento do Pacífico poderá evoluir para um evento intenso, agravando secas, enchentes, incêndios florestais e a insegurança alimentar em um planeta já superaquecido pelas mudanças climática

A confirmação oficial da formação de um novo El Niño no Oceano Pacífico não representa apenas uma mudança cíclica do sistema climático. Segundo análise do climatologista Marshall Shepherd, publicada na revista Forbes, os indicadores atuais sugerem que o fenômeno pode evoluir para um evento de grande intensidade, com potencial para alterar profundamente padrões de chuva, temperatura e ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta.

As projeções mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apontam uma probabilidade elevada de que o episódio de 2026-2027 figure entre os mais fortes desde o início dos registros sistemáticos, em 1950. Essa possibilidade é especialmente preocupante porque o El Niño se desenvolve sobre um planeta que já apresenta temperaturas médias recordes devido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, a variabilidade natural do clima passa a atuar sobre uma nova linha de base muito mais quente, potencializando seus efeitos.

Marshall Shepherd destaca que o fenômeno não deve ser visto como uma simples curiosidade meteorológica. O aquecimento anormal das águas do Pacífico modifica a circulação atmosférica global e desencadeia uma cascata de impactos: secas severas em algumas regiões, chuvas torrenciais em outras, ondas de calor mais intensas, incêndios florestais, perdas agrícolas e alterações importantes nos ecossistemas marinhos.

Para o Brasil, os sinais merecem atenção redobrada. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados à redução das chuvas na Amazônia e no Nordeste, ao aumento do risco de queimadas e ao comprometimento dos recursos hídricos, enquanto a região Sul pode experimentar precipitações muito acima da média e enchentes de grandes proporções. Essas mudanças afetam diretamente a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento urbano e a biodiversidade.

O aspecto talvez mais importante da análise de Shepherd é o reconhecimento de que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos são amplificados pelo aquecimento global antropogênico, criando uma combinação particularmente perigosa. A energia adicional acumulada nos oceanos e na atmosfera funciona como combustível para eventos extremos mais frequentes e intensos, tornando mais vulneráveis justamente as populações que dispõem de menos recursos para adaptação.

Esse cenário também lança luz sobre a fragilidade dos sistemas alimentares globais. Alterações simultâneas nos regimes de chuva de grandes regiões produtoras de grãos, associadas a ondas de calor persistentes e incêndios florestais, podem provocar perdas significativas de produção e aumentar a volatilidade dos preços internacionais dos alimentos. Países em desenvolvimento e populações de baixa renda tendem a suportar o maior peso dessas transformações, ampliando desigualdades já existentes.

Há ainda um aspecto político que merece destaque. Embora a ciência venha alertando há décadas sobre o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, grande parte dos governos continua investindo pesadamente na expansão da exploração de petróleo, gás e carvão, aprofundando justamente o problema que torna fenômenos como o El Niño cada vez mais destrutivos. O resultado é um círculo vicioso em que a sociedade paga duas vezes: primeiro pelos impactos da crise climática e depois pelos elevados custos econômicos e sociais da adaptação e da reconstrução.

Assim, mais do que acompanhar a evolução das temperaturas do Pacífico, é fundamental compreender que o possível fortalecimento do El Niño constitui um alerta sobre os limites do atual modelo de desenvolvimento. Se as previsões se confirmarem, o planeta poderá enfrentar, nos próximos meses, uma combinação particularmente perigosa de extremos climáticos, insegurança alimentar, perdas econômicas e agravamento das injustiças ambientais. Ignorar esses sinais significará aceitar que eventos cada vez mais severos deixem de ser exceções para se tornarem parte permanente da nossa realidade.

El Niño se fortalece enquanto Brasil segue despreparado para enfrentar eventos extremos

NOAA alerta para um El Niño potencialmente muito forte enquanto milhares de municípios brasileiros seguem sem infraestrutura, planejamento e protocolos capazes de enfrentar enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos intensificados pelas mudanças climáticas

Reportagens publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, assinadas por Clayton Castelani, Jéssica Maes e Philippe Watanabe, traçam um quadro preocupante: ao mesmo tempo em que cresce a probabilidade de um El Niño de grande intensidade, o Brasil continua apresentando baixíssima capacidade de adaptação a enchentes, deslizamentos e demais eventos climáticos extremos.

Segundo a reportagem de Clayton Castelani, aproximadamente 3,6 mil municípios brasileiros apresentam baixa capacidade de adaptação aos efeitos das chuvas intensas. Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que avaliou 5.570 cidades, mostra que apenas uma pequena parcela possui elevada capacidade institucional para enfrentar enchentes e deslizamentos. O levantamento considera fatores como infraestrutura, políticas públicas, recursos financeiros e capacidade administrativa, revelando que grande parte da população permanece altamente vulnerável.

A segunda reportagem, de Jéssica Maes, argumenta que a adaptação climática depende muito menos de obras caras do que de planejamento e organização institucional. Especialistas defendem a criação e atualização permanente de protocolos de emergência, sistemas de alerta, rotas de fuga bem sinalizadas, centros públicos de resfriamento durante ondas de calor e planos de contingência conhecidos pela população. O texto ressalta que essas medidas possuem custo relativamente baixo quando comparadas aos enormes prejuízos econômicos e sociais provocados por desastres climáticos, que já se multiplicam em diversas regiões do país.

Complementando esse diagnóstico, Philippe Watanabe informa que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 84% a probabilidade de desenvolvimento do fenômeno entre setembro e dezembro de 2026. Além disso, existe uma possibilidade significativa de que o evento alcance a categoria de El Niño muito forte entre novembro e janeiro, podendo estabelecer novos recordes históricos de temperatura do oceano Pacífico.

A reportagem destaca que o aquecimento observado na região Niño 3.4 já ultrapassa valores compatíveis com um El Niño moderado e pode superar a marca de 2°C acima da média, patamar característico dos episódios mais intensos já registrados. Caso essa projeção se confirme, os impactos poderão incluir secas severas em algumas regiões do planeta, enchentes em outras, redução da produção agrícola, aumento do risco de incêndios florestais e maior ocorrência de eventos climáticos extremos.

Para o Brasil, as consequências podem variar regionalmente. A Amazônia e parte do Norte tendem a enfrentar redução das chuvas e aumento do risco de queimadas, enquanto o Sul pode registrar precipitações acima da média e enchentes mais frequentes. Ao mesmo tempo, o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa atua como um fator de amplificação desses fenômenos, tornando os eventos associados ao El Niño ainda mais intensos.

Em conjunto, as três reportagens da Folha de S.Paulo oferecem uma mensagem clara: o problema não é apenas a possibilidade de um El Niño muito forte, mas a enorme distância entre os riscos climáticos conhecidos pela ciência e a capacidade efetiva do Estado brasileiro de proteger sua população. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, investir em adaptação, planejamento e prevenção deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade urgente de política pública.

El Niño está se formando no Pacífico e, segundo especialistas, provavelmente intensificará os eventos climáticos extremos

Meteorologistas preveem que será o ciclo mais forte do século, enquanto o secretário-geral da ONU a classifica como um “alerta climático urgente” 

Um bombeiro carrega uma mangueira ao longo de uma estrada enquanto um incêndio se alastra ao fundo.

Um bombeiro monitora as chamas causadas pelo incêndio Hughes em Castaic, Califórnia, em 22 de janeiro de 2025. Fotografia: Jae C Hong/AP

Por Dani Anguiano para “The Guardian”

O El Niño , fenômeno climático que intensifica as condições meteorológicas em todo o mundo, chegou oficialmente e poderá atingir níveis históricos no outono, disseram autoridades americanas na quinta-feira.

Os meteorologistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmaram a formação do El Niño no Oceano Pacífico, próximo ao equador, que está mais quente que o normal e afeta os padrões climáticos globais.

Cientistas já haviam alertado que o El Niño deste ano poderia ser o mais forte do século. António Guterres, secretário-geral da ONU, descreveu o El Niño como um “alerta climático urgente”.

Segundo a NOAA, havia 63% de probabilidade de o El Niño se intensificar tanto no final do outono e início do inverno que “estaria entre os maiores eventos El Niño já registrados historicamente, desde 1950”.

Nos Estados Unidos, o El Niño tem sido associado a tempestades mais intensas no sul, aumento do risco de inundações por maré alta, proliferação de algas na costa oeste e alterações nos padrões migratórios da vida marinha. Mas essas condições afetam o clima em todo o mundo, alterando as correntes de jato e modificando os padrões de chuva, o que pode levar a tempestades mais severas, aumento das temperaturas e secas.

“Cada El Niño é diferente; cada um é único, com sua própria marca em nosso clima”, disse Ken Graham, diretor do Serviço Nacional de Meteorologia (NWS) da NOAA, em um comunicado. “O monitoramento avançado e uma melhor compreensão dos padrões do El Niño permitem que o NWS preveja melhor e prepare melhor o público e nossos principais parceiros para o que está por vir.”

Isso afeta os padrões climáticos ao trazer “muito calor extra para a superfície, alimentando muitos eventos extremos em muitos lugares ao redor do mundo”, disse Abby Frazier, cientista climática da Universidade Clark.

Ela disse que “a situação pode ficar crítica muito rapidamente”, especialmente no Pacífico.

Os efeitos variam conforme a região. O El Niño geralmente atenua – mas não elimina – a atividade da temporada de furacões no Atlântico, porém a intensifica no Pacífico. Assim, enquanto as costas leste e do Golfo dos EUA podem ter um alívio, o Havaí e outras ilhas correm maior risco, disse Frazier. Normalmente, o fenômeno resulta em invernos mais chuvosos na Califórnia.

O Oriente Médio, assolado pela seca, poderá se beneficiar, disseram cientistas climáticos. Outras regiões, porém, enfrentam maiores riscos. Partes do oeste da América do Sul – onde os primeiros fenômenos El Niño foram observados décadas atrás – frequentemente sofrem com chuvas torrenciais e inundações, além de verões excepcionalmente quentes. A Índia enfrenta ondas de calor mais intensas, enquanto a seca, os incêndios florestais e o calor ameaçam a Austrália.

O nordeste da África provavelmente sofrerá com mudanças climáticas bruscas, passando de secas intensas a chuvas perigosamente fortes, disse Muhammad Azhar Ehsan, cientista climático da Universidade de Columbia e especialista em El Niño.

O fenômeno El Niño pode beneficiar a indústria agrícola dos EUA, afirmou Jon Gottschalck, chefe da divisão operacional do Centro de Previsão Climática da NOAA.

Michael Ferrari, meteorologista e chefe de pesquisa da empresa de pesquisa de investimentos Moby, disse que as condições para grãos e sementes, especialmente soja, parecem favoráveis ​​em 18 dos principais estados produtores, mas são mais incertas quando se trata de laticínios e gado.

Mas especialistas alertam que as condições podem levar a um choque no abastecimento global de alimentos, com culturas como milho e arroz especialmente vulneráveis ​​ao El Niño e à seca, reduzindo a produção de alimentos na África do Sul, Índia, Indonésia, Vietnã e Brasil.

As Montanhas Rochosas do norte e o sudoeste – onde há uma seca de neve “fora de controle” – podem receber fortes chuvas de verão, disse Gottschalck. O maior impacto nos EUA costuma ocorrer no inverno, quando o sul fica mais úmido e o noroeste do Pacífico mais quente e seco.

Mas, no geral, o aumento das temperaturas causado por esse padrão climático pode prejudicar o crescimento econômico americano, afirmou Marshall Burke, economista climático de Stanford. Diversos cientistas climáticos preveem que 2027 será o ano mais quente já registrado devido aos efeitos tardios do El Niño, que deve atingir seu pico no outono ou inverno.

“Temos evidências bastante claras de que a economia dos EUA cresce mais lentamente quando as temperaturas estão acima do normal”, disse Burke.

Os eventos climáticos extremos causados ​​pelo El Niño também dependem de quando ele se desenvolve.

Normalmente, os fenômenos El Niño se formam no verão, atingem o pico no final do outono ou início do inverno e desaparecem na primavera seguinte, disseram os cientistas.

No entanto, a equipe de Ehsan prevê que este El Niño atingirá seu pico um ou dois meses antes, com base em fortes indícios das últimas semanas. O cientista climático da Universidade de Princeton, Gabriel Vecchi, afirmou que grandes El Niños como este também tendem a durar mais tempo.

Os primeiros indícios – incluindo o aquecimento das águas na superfície do Pacífico – têm sido tão fortes e perceptíveis que todos os meteorologistas têm previsto o mesmo El Niño extremamente forte, disse Vecchi, acrescentando que as previsões do El Niño costumam ser muito inconsistentes nesta época do ano.

Cientistas preveem El Niños mais intensos à medida que o mundo aquece devido à queima de carvão, petróleo e gás, disseram Frazier e outros. Mas ela afirmou ser muito cedo para dizer se este El Niño faz parte disso.

Mesmo antes de se formar oficialmente, este El Niño já havia recebido apelidos que variam de “super” a “Godzilla”.

“Em vez de termos medo, podemos pedir às pessoas que estejam preparadas”, disse Ehsan, da Universidade Columbia.

O Met Office, o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, afirmou que no Reino Unido isso poderia “aumentar a probabilidade de condições climáticas mais instáveis ​​no final do ano, incluindo uma maior chance de clima mais ameno, úmido e ventoso durante o outono e o início do inverno”.

A Associated Press contribuiu com reportagens.


Fonte: The Guardian

Super El Niño: um ensaio geral para a fome global?

Enquanto governos e corporações ignoram os sinais de alerta, a combinação entre mudanças climáticas e degradação ambiental pode transformar uma crise climática em uma crise alimentar planetária

O artigo publicado por Evan Fraser no portal The Conversation lança um alerta que vai muito além das oscilações climáticas normalmente associadas ao fenômeno El Niño. O que está em jogo, segundo o autor, não é apenas a ocorrência de secas, enchentes ou ondas de calor mais intensas, mas a possibilidade de que um evento climático extremo atinja simultaneamente diferentes regiões produtoras de alimentos, desencadeando uma crise alimentar de escala global.

A preocupação não é infundada. A história demonstra que grandes episódios de El Niño costumam provocar perdas agrícolas significativas em diversas partes do mundo. Entretanto, o cenário atual apresenta uma diferença crucial: a agricultura mundial tornou-se mais integrada, mais dependente de cadeias logísticas globais e, paradoxalmente, mais vulnerável a choques sistêmicos. Quando várias regiões produtoras sofrem perdas ao mesmo tempo, os mecanismos tradicionais de compensação deixam de funcionar.

O argumento central de Fraser é particularmente relevante porque desloca o debate da produção agrícola para a questão da resiliência dos sistemas alimentares. A fome raramente é resultado apenas da falta física de alimentos. Ela surge quando falham simultaneamente os sistemas ecológicos, os mecanismos econômicos e as instituições encarregadas de proteger as populações vulneráveis. Em outras palavras, a fome é tanto um fenômeno político quanto ambiental.

A possível volta de um forte El Niño em 2026 ocorre em um contexto especialmente delicado. Os estoques globais de diversos alimentos estratégicos permanecem pressionados por conflitos geopolíticos, eventos climáticos extremos e pela crescente volatilidade dos mercados de commodities. Especialistas já alertam para a possibilidade de aumentos expressivos nos preços internacionais de arroz, milho, trigo, soja, café e açúcar caso as projeções mais pessimistas se confirmem.

Para o Brasil, os riscos assumem características particulares. Embora o país seja frequentemente apresentado como uma potência agrícola capaz de alimentar parte significativa do planeta, sua produção depende fortemente da estabilidade climática. A agricultura brasileira já enfrenta secas recorrentes na Amazônia, redução da disponibilidade hídrica em regiões do Cerrado e eventos extremos cada vez mais frequentes no Sul e Sudeste.

Nesse contexto, chama atenção a persistência de políticas que contribuem para ampliar a vulnerabilidade climática nacional. O avanço do desmatamento, especialmente na Amazônia e no Cerrado, reduz a capacidade dos ecossistemas de regular o ciclo hidrológico e enfraquece os chamados “rios voadores”, fundamentais para a distribuição de chuvas em grande parte da América do Sul. Assim, ao mesmo tempo em que o país se beneficia economicamente da expansão agroexportadora, ajuda a fragilizar os mecanismos naturais que sustentam sua própria produção agrícola.

Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada. O atual modelo agrícola global é altamente dependente de fertilizantes sintéticos, combustíveis fósseis e cadeias de transporte de longa distância. Isso significa que eventos climáticos extremos podem gerar efeitos em cascata, afetando não apenas as colheitas, mas também os custos de produção, a logística de distribuição e os preços finais dos alimentos.

O alerta de Fraser, portanto, não deve ser interpretado como uma previsão inevitável de fome global. Trata-se, antes, de um aviso sobre os limites de um sistema alimentar que se tornou extraordinariamente eficiente para gerar lucros, mas cada vez menos preparado para lidar com perturbações climáticas de grande escala.

Se um super El Niño vier a se materializar nos próximos meses, ele funcionará como um teste de estresse para a economia mundial. E talvez revele uma verdade incômoda: o maior risco não está apenas no clima que muda rapidamente, mas na incapacidade das instituições políticas e econômicas de se adaptarem à velocidade dessas mudanças.

El Niño ameaça agravar secas, enchentes e incêndios em um Brasil cada vez mais vulnerável

Com Amazônia e Cerrado sob pressão do desmatamento e das mudanças climáticas, retorno do fenômeno pode ampliar riscos ambientais, sociais e econômicos em todo o nosso país

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática das Nações Unidas, acaba de emitir um alerta preocupante: existe cerca de 80% de probabilidade de que um novo episódio de El Niño se estabeleça entre junho e agosto de 2026, aumentando para 90% a chance de sua permanência até novembro. Ainda que persistam incertezas sobre sua intensidade final, os cenários atuais apontam para um evento de moderado a forte, com potencial para amplificar significativamente os impactos das mudanças climáticas já em curso.

O alerta da ONU não surge em um momento qualquer. O planeta acaba de atravessar uma sequência de anos excepcionalmente quentes. O poderoso El Niño de 2023-2024 contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente já registrado, em combinação com o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis. Agora, a possibilidade de um novo episódio forte do fenômeno preocupa cientistas porque ele atuará sobre uma atmosfera e oceanos que já se encontram muito mais quentes do que em décadas anteriores.

Em termos simples, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora seja um fenômeno natural, suas consequências são globais. Alterações nos padrões de circulação atmosférica provocam secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras. O resultado costuma ser uma combinação perigosa de quebras de safra, incêndios florestais, crises hídricas, enchentes e impactos sobre a saúde pública.

O aspecto mais preocupante da atual conjuntura é que o El Niño já não atua sozinho. Diferentemente do que ocorria algumas décadas atrás, ele agora interage com um sistema climático profundamente alterado pela ação humana. Em outras palavras, aquilo que antes era um fenômeno periódico da variabilidade natural do clima tornou-se um multiplicador dos efeitos do aquecimento global. O resultado é a amplificação de eventos extremos, com ondas de calor mais intensas, secas mais prolongadas e precipitações mais destrutivas.  

Para o Brasil, os sinais de alerta são particularmente relevantes. Historicamente, episódios de El Niño costumam estar associados à redução das chuvas em partes da Amazônia e do Nordeste, ao mesmo tempo em que favorecem precipitações acima da média no Sul do país. Dependendo da intensidade do fenômeno, isso pode significar a combinação explosiva de secas severas em algumas regiões e enchentes em outras. O episódio de 2023-2024 já demonstrou essa capacidade destrutiva ao contribuir para eventos extremos de precipitação que atingiram o Sul do Brasil.

A situação da Amazônia merece atenção especial. Estudos recentes já indicam que o avanço do desmatamento e das mudanças climáticas está aproximando a maior floresta tropical do mundo de um ponto crítico de transformação ecológica. A chegada de um El Niño forte tende a agravar o déficit hídrico, aumentar a ocorrência de incêndios florestais e ampliar a mortalidade de árvores. Em um cenário em que a floresta já sofre com a perda acelerada de cobertura vegetal, especialmente nas áreas mais desmatadas, um novo período prolongado de seca pode produzir impactos duradouros sobre a biodiversidade, o regime de chuvas e a segurança hídrica de grande parte da América do Sul.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto econômico. O El Niño afeta diretamente a produção agrícola mundial. Reduções de produtividade, perdas de safras e problemas logísticos costumam pressionar os preços dos alimentos. Em um mundo já marcado por conflitos geopolíticos, insegurança alimentar e inflação persistente, novos choques climáticos podem aprofundar desigualdades e ampliar a vulnerabilidade das populações mais pobres.

Diante desse quadro, a mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, foi direta: o retorno do El Niño deve ser encarado como mais um sinal da urgência de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes renováveis de energia. Ao mesmo tempo, a OMM reforçou a necessidade de investimentos em sistemas de alerta precoce, planejamento climático e adaptação das infraestruturas urbanas e rurais.

A questão central, portanto, não é apenas se o próximo El Niño será forte ou moderado. A verdadeira pergunta é se governos, empresas e sociedades aprenderam algo com os eventos extremos que vêm se acumulando ao redor do planeta. As evidências sugerem que não. Enquanto a ciência alerta para riscos crescentes, muitos países continuam expandindo a exploração de petróleo, flexibilizando legislações ambientais e tratando a crise climática como um problema do futuro.

O retorno do El Niño pode ser apenas mais um fenômeno natural. Mas, em um planeta profundamente alterado pela ação humana, seus efeitos dificilmente terão algo de natural.

O El Niño está chegando mais rápido do que o esperado e crescem as chances de que ele seja historicamente forte

Por Chris Dolce para CNN

O fenômeno El Niño está surgindo ainda mais rápido do que o esperado no Oceano Pacífico, e as chances de que ele se torne historicamente forte — um raro “Super” El Niño — até o outono ou inverno estão aumentando.

Segundo uma atualização recém-divulgada pelo Centro de Previsão Climática da NOAA, há 2 em 3 chances de que o pico de intensidade do El Niño seja forte ou muito forte.

El Niño é um ciclo climático natural que ocorre quando o Oceano Pacífico tropical aquece o suficiente para desencadear mudanças nos padrões de vento em toda a atmosfera, o que tem um efeito cascata nas condições climáticas em todo o mundo.

Secas e ondas de calor podem se intensificar em algumas regiões, aumentando o risco de incêndios florestais e problemas no abastecimento de água, enquanto outras são inundadas por chuvas torrenciais. Os efeitos abrangentes do El Niño também podem prejudicar a temporada de furacões no Atlântico. Em uma escala maior, ele faz com que as temperaturas globais, já elevadas devido às mudanças climáticas causadas pelo homem, disparem ainda mais. El Niños mais fortes tornam todos esses impactos mais prováveis.

Aumentam as chances de um Super El Niño

O El Niño ocorre aproximadamente a cada dois a sete anos e dura de nove a doze meses . Sua intensidade é medida pela elevação da temperatura da água acima da média em uma área do Oceano Pacífico equatorial, e geralmente atinge seu pico no inverno do Hemisfério Norte.

As condições de um El Niño fraco desenvolvem-se quando a temperatura sobe mais de 0,5 graus Celsius acima da média por um período prolongado. As temperaturas da água devem estar mais de 2 graus acima da média para que seja considerado um El Niño muito forte ou um Super El Niño.

O retângulo mostra a área do Oceano Pacífico onde as temperaturas da superfície do mar estão sendo monitoradas para a formação do El Niño.

A temperatura média da água está agora pouco abaixo do limite de 0,5 grau, mas a previsão é de que suba acima desse patamar no próximo mês, de acordo com a atualização mensal de quinta-feira do Centro de Previsão Climática . Essa é uma mudança significativa em relação à atualização do mês passado, que indicava condições neutras — nem El Niño nem seu equivalente mais frio, La Niña — até junho.

É provável que o El Niño se intensifique durante o verão e o outono. As chances de ele persistir durante o inverno também aumentaram para 96%, praticamente uma certeza de que isso acontecerá.

O aumento da confiança deve-se à vasta massa de água quente que se acumulou nas profundezas do Pacífico equatorial central e oriental nas últimas semanas. Essa água acabará por subir à superfície, dando início ao El Niño e fortalecendo-o continuamente a partir daí.

Mas, embora os meteorologistas estejam mais confiantes em sua formação, “ainda existe uma incerteza considerável quanto à intensidade máxima do El Niño”, afirmou o Centro de Previsão Climática.

Ainda assim, as probabilidades de um Super El Niño entre novembro e janeiro aumentaram de 1 em 4 no mês passado para cerca de 1 em 3 nas últimas projeções de intensidade do CPC.

Um El Niño mais forte é mais provável se as mudanças na atmosfera continuarem a se sincronizar com as mudanças no Oceano Pacífico tropical neste verão, como o enfraquecimento dos ventos perto do equador ao mesmo tempo em que as temperaturas oceânicas aumentam, disse Michelle L’Heureux, cientista que lidera a previsão de El Niño e La Niña no CPC.

Alguns modelos computacionais geralmente confiáveis ​​indicam que o potencial do Super El Niño deste ano pode ser o mais forte já registrado. Seria o primeiro Super El Niño desde 2015-2016, que foi o mais forte nos registros da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), que datam de 1950. Outros exemplos incluem 1997-1998, 1982-1983 e 1972-1973.

Mesmo que este El Niño não atinja o status de “super”, ainda assim é provável que seja um El Niño forte. El Niños mais fortes geralmente têm um impacto maior nas condições climáticas globais, porém os efeitos nem sempre se manifestam como o esperado.

O Super El Niño de 2015-2016 fez jus à sua reputação de causar seca severa no Caribe, mas também não produziu o inverno mais úmido que a média, pelo qual é conhecido, no sul da Califórnia.

Um impacto mais provável é o aquecimento global: o El Niño está aumentando as chances de 2026 ou 2027 se tornarem os anos mais quentes já registrados na Terra. Já é “muito provável” que este ano seja um dos cinco mais quentes já registradosafirmou a NOAA na segunda-feira , e isso ainda não leva em conta o fator imprevisível de aquecimento do El Niño

Forte ou super, essas são as condições climáticas que o El Niño poderá impactar até o início do próximo ano.

 Temporada de furacões invertida: El Niños mais intensos costumam produzir condições favoráveis ​​à formação de tempestades no Caribe e no Atlântico tropical, resultando em menos tempestades tropicais e furacões nessas regiões. O oposto ocorre no Pacífico central e oriental, onde a temporada de furacões costuma ser mais intensa. Isso pode significar mais ameaças tropicais para o Havaí e o sudoeste dos EUA, dependendo da trajetória das tempestades.

 Os maiores impactos nos EUA ocorrem no inverno: Um inverno mais quente do que a média é típico do norte dos EUA até o oeste do Canadá e o Alasca, embora o frio intenso ainda possa ocorrer ocasionalmente. A faixa sul dos EUA costuma ser mais úmida e fria, já que uma corrente de jato mais forte direciona mais tempestades para essa região.

• Condições climáticas extremas, como períodos de seca e umidade, além de temperaturas extremas: No verão, as chuvas de monção diminuem na Índia e no sudeste da Ásia. O Caribe também costuma sofrer com o aumento da seca. Invernos quentes e secos são típicos em partes do sul e leste da Ásia. A seca pode se intensificar no sudeste da África durante o verão do Hemisfério Sul, de dezembro a fevereiro.

Impactos globais típicos do El Niño no inverno do Hemisfério Norte e no verão do Hemisfério Sul.