“Tanto o alheamento do cidadão quanto o despreparo dos territórios são perigosos frente às mudanças climáticas” | Alice Grimm

Alice Grimm é uma das principais pesquisadoras do Brasil sobre oscilações climáticas. Como  professora do Departamento de Física da UFPR, Grimm alerta para os efeitos do El Niño esperado para este ano e pontua a necessidade de políticas públicas de prevenção de desastres articuladas com o conhecimento científico

A cidade de Rio do Sul (SC), onde morava a família de Alice Grimm, debaixo de uma enchente em julho de 1983. Foto: Acervo Pessoal

Por Camile Bropp para “Ciência UFPR”

No Oceano Pacífico, a mais de 5 mil quilômetros do Brasil, fica o Niño 3.4, um ponto monitorado por satélites de agências científicas que medem se as águas superficiais estão mais quentes ou subiram de nível. Esses são os indicadores para a previsão do El Niño, a fase quente da oscilação climática chamada ENOS (El Niño-Oscilação Sul), que alterna entre o aquecimento e o resfriamento da superfície do mar, influenciando o tempo em quase todo o planeta. Dessa medição partiu o aviso de que as águas começaram a esquentar entre abril e junho deste ano com aceleração incomum, sugerindo um El Niño de grau “muito forte” para 2026, que deve ter seu pico de intensidade perto do fim do ano.

O El Niño acontece em intervalos irregulares de dois a sete anos e sempre é pauta pública, porque aumenta o risco de desastres e prejuízo econômico. Por sua localização e extensão continental, o Brasil é um dos países mais impactados por essa oscilação climática, que tende a ficar mais comum e intensa como resultado do aquecimento global. Hoje o El Niño já aumenta a propensão para seca e incêndios ao Norte, tempestades, enchentes e ciclones mais ao Sul, e crise hídrica em boa parte do país.

Isso leva à questão: como o Brasil, que está no caminho das rotas preferenciais das alterações causadas pelo El Niño, tem se preparado para essa e outras oscilações climáticas? Segundo a professora titular e pesquisadora Alice Grimm, do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde coordena o Laboratório de Meteorologia (Labmet), há urgência na revisão de posicionamentos.

Alice Marlene Grimm figura na lista da Universidade de Stanford entre os cientistas mais influentes do mundo, com destaque nacional no campo das ciências atmosféricas. Outras credenciais da pesquisadora passam pela revisão do quinto relatório (2013-2014) do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), órgão científico da ONU sobre questões de clima, e pela atuação em comitês científicos internacionais, como o da Rede de Pesquisa em Mudanças Climáticas Urbanas (UCCRN) da Universidade de Columbia e o do Painel de Monções da Organização Meteorológica Mundial (WMO), no qual representou a América do Sul.

Os desastres climáticos que se repetem no país espelham entraves resistentes, como a insuficiência de planejamento estrutural de longo prazo e a falha de comunicação técnica entre a ciência e a gestão pública. Um exemplo disso está nos resultados do levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paraná que expôs, em julho, que 60% das prefeituras do estado não possuem estrutura de Defesa Civil e 70% carecem de sistemas de alerta de riscos para a população.

Neste ano, a professora tem agido para tentar quebrar o ciclo de desinformação, apresentando pontos de vista científicos a gestores públicos. Uma dessa falas está marcada para essa segunda-feira (17), às 14 horas, em Curitiba, com transmissão on-line pelo canal de eventos da UFPR TV no YouTube.

Como pano de fundo dessa atuação está uma motivação antiga, a mesma que a levou a estudar oscilações climáticas. Em 1983, mestre em Ciências Geodésicas e à procura de um tema para doutorado, vivenciou o que significa um desastre natural para uma família. Os pais de Grimm perderam parte da casa onde residiam no Vale do Itajaí (SC) durante a enchente que deixou a cidade debaixo d’água, em julho daquele ano, durante um evento de El Niño. Assim a pesquisadora começou a construir sua trajetória na investigação de eventos climáticos de teleconexão, o conceito meteorológico que trata da ligação entre regiões distantes do planeta.

Na entrevista abaixo, Alice Grimm explica descobertas científicas recentes a respeito das oscilações climáticas naturais e das mudanças climáticas antrópicas, além de comentar os aspectos que colocam o Brasil em risco na pauta climática: o foco em reação em vez de prevenção, a desinformação, e as lacunas de dados confiáveis e adaptados ao continente para serem disponibilizados aos gestores públicos, entre outras questões.

Confira a matéria completa: https://ciencia.ufpr.br/portal/?p=29748  


Fonte: Ciência UFPR

STF reconhece a Moratória da Soja, mas permite punições aos seus signatários: em plena emergência climática, estamos jogando com fogo

Em matéria publicada pelo ClimaInfo nesta quarta-feira (12), somos informados de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que contém uma contradição difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que a Corte reconheceu a validade da Moratória da Soja e determinou o encerramento de processos que questionavam o acordo sob alegações de irregularidade concorrencial, considerou legítimas leis estaduais que retiram benefícios fiscais de empresas que participam desse mecanismo de proteção ambiental.

Em outras palavras, o STF reconheceu que a Moratória da Soja é legítima, mas permitiu que governos estaduais criem mecanismos econômicos capazes de punir as empresas que decidam continuar participando dela. A decisão produz, assim, uma situação paradoxal: preserva-se formalmente um dos mais importantes instrumentos privados de combate ao desmatamento associado à expansão da soja na Amazônia, enquanto se legitima a utilização do poder público para aumentar o custo econômico de participar dele.

O problema se torna ainda mais grave quando essa decisão é confrontada com as evidências científicas acumuladas sobre o agravamento da crise climática. O desmatamento das florestas tropicais não representa apenas perda de biodiversidade. A remoção da vegetação libera carbono, reduz a capacidade dos ecossistemas de armazená-lo e interfere na evapotranspiração e na reciclagem da umidade, afetando o funcionamento do sistema climático regional. Na Amazônia, a continuidade desse processo ameaça progressivamente a própria capacidade da floresta de sustentar seu regime climático e hidrológico.

No Cerrado, onde a Moratória da Soja não se aplica, o avanço da fronteira agropecuária sobre a vegetação nativa também representa uma ameaça crescente à biodiversidade, aos recursos hídricos e à estabilidade climática. Aliás, no mesmo dia em que publicou a matéria sobre a decisão do STF, o ClimaInfo noticiou novos dados do MapBiomas mostrando o avanço do agro e a redução da vegetação nativa brasileira.

É justamente nesse contexto que a Moratória da Soja precisa ser avaliada. Criada em 2006, ela estabeleceu um mecanismo pelo qual grandes empresas passaram a se comprometer a não adquirir soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas depois da data de referência estabelecida pelo acordo. Ao separar, ao menos parcialmente, a expansão da soja da derrubada direta da floresta amazônica, a Moratória demonstrou que cadeias produtivas podem ser submetidas a critérios ambientais mais rigorosos do que aqueles estabelecidos pelo mínimo exigido pela legislação.

É exatamente aí que reside um dos aspectos mais preocupantes da decisão do STF. Existe uma diferença fundamental entre os estados estabelecerem critérios para a concessão de benefícios fiscais e utilizarem esses instrumentos para penalizar empresas justamente porque elas decidiram adotar compromissos ambientais. O precedente pode contribuir para transformar a legislação ambiental brasileira não em um piso mínimo de proteção, sobre o qual empresas e cadeias produtivas poderiam estabelecer compromissos mais ambiciosos, mas em uma espécie de teto ambiental, acima do qual comportamentos empresariais ambientalmente mais responsáveis poderiam ser economicamente desestimulados.

Uma decisão que ignora o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade

A gravidade dessa contradição fica ainda mais evidente quando lembramos um tema que tratei recentemente aqui no Blog do Pedlowski: o Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade (World Scientists’ Warning to Humanity: A Third Notice).

O documento, elaborado por William Ripple, Christopher Wolf, Johan Rockström e diversos outros pesquisadores, dá continuidade aos grandes alertas científicos dirigidos à humanidade em 1992 e 2017. Desta vez, porém, o diagnóstico é ainda mais contundente: os autores concluem que a Terra já se encontra em um estado de emergência planetária, provocado pela combinação entre mudança climática, perda de biodiversidade, degradação das terras e das águas, poluição e padrões insustentáveis de produção e consumo. O alerta destaca ainda que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados, aumentando os riscos de mudanças de grande escala e potencialmente irreversíveis no sistema terrestre.

Entre as seis grandes transformações propostas pelos cientistas está justamente algo que deveria orientar decisões públicas no Brasil: proteger e restaurar a natureza. O documento afirma que a proteção imediata dos ecossistemas ainda intactos e a restauração daqueles já degradados são essenciais para a estabilidade do sistema terrestre e para o bem-estar humano. Florestas e outros ecossistemas não são, portanto, obstáculos ao desenvolvimento econômico, mas componentes fundamentais da regulação climática, da disponibilidade de água, da conservação da biodiversidade e da própria manutenção das condições que tornam nossas sociedades possíveis.

Sob essa perspectiva, a decisão do STF parece caminhar precisamente na direção contrária ao alerta lançado pelos cientistas. Se estamos diante de uma emergência planetária e se uma das respostas consideradas indispensáveis é fortalecer a proteção dos ecossistemas naturais, como justificar que governos possam utilizar incentivos fiscais justamente para desestimular empresas que voluntariamente adotam mecanismos adicionais de combate ao desmatamento?

Não se trata, portanto, apenas de uma discussão jurídica sobre livre iniciativa, concorrência ou autonomia tributária dos estados. Existe uma questão ambiental muito maior. O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade afirma que a deterioração ambiental continuou avançando desde os alertas anteriores e que a margem disponível para ações corretivas tornou-se menor. Os autores também advertem que a emergência planetária persiste não por falta de conhecimento científico, mas pela incapacidade dos sistemas econômicos e políticos de se ajustarem aos limites físicos e ecológicos do planeta.

A decisão sobre a Moratória da Soja oferece um exemplo quase didático desse problema.

E tudo isso acontece sob um El Niño muito forte

Há ainda um componente que torna o momento particularmente preocupante. Estamos atravessando um período de forte influência do El Niño, fenômeno que pode amplificar extremos climáticos e agravar situações de calor, seca e risco de incêndios em partes do território brasileiro.

Nesse cenário, enfraquecer economicamente mecanismos destinados a impedir a conversão de vegetação nativa equivale a aumentar deliberadamente nossa exposição aos efeitos de uma crise climática que já está em curso. Amazônia e Cerrado cumprem funções fundamentais na regulação climática e hidrológica da América do Sul. Continuar permitindo que interesses econômicos imediatos prevaleçam sobre mecanismos destinados a conter sua destruição significa ampliar os riscos que recaem sobre toda a sociedade.  Por isso, há algo profundamente inquietante nessa decisão. Enquanto os cientistas aumentam o volume do alarme, parte das instituições brasileiras parece continuar operando como se ainda dispuséssemos de décadas para decidir o que fazer. Não dispomos.  O Terceiro Aviso dos Cientistas à Humanidade é explícito ao afirmar que a emergência planetária já está acontecendo e que as decisões tomadas nos próximos anos serão determinantes para definir se conseguiremos estabilizar o sistema terrestre ou se avançaremos em direção a transformações cada vez mais difíceis de controlar.

Nesse contexto, a contradição criada pelo STF é difícil de esconder: a Corte reconheceu a legitimidade da Moratória da Soja, mas também legitimou instrumentos capazes de contribuir para torná-la economicamente inviável. A floresta, entretanto, não responde a sutilezas jurídicas. Quando os mecanismos de proteção são enfraquecidos e o desmatamento avança, as consequências aparecem concretamente na forma de emissões de carbono, perda de biodiversidade, alterações no ciclo hidrológico, temperaturas mais elevadas e maior vulnerabilidade a secas e incêndios. 

Em plena emergência climática, sob a influência de um El Niño muito forte e poucos dias depois de cientistas de diferentes partes do mundo emitirem seu terceiro grande aviso à humanidade, permitir que governos penalizem economicamente quem adota mecanismos adicionais de proteção das florestas equivale a jogar com fogo. E, quando estamos falando da Amazônia e do Cerrado, essa expressão corre o risco de ser muito mais literal do que gostaríamos.

 

A geografia da desigualdade transforma o El Niño em uma tragédia social anunciada no Brasil

A cada novo ciclo do El Niño, a atenção da imprensa e dos governos se concentra, quase sempre, nas alterações dos padrões de temperatura e precipitação provocadas pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico. No Brasil, os modelos climáticos apontam para uma combinação particularmente preocupante de secas severas em parte da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que aumentam a probabilidade de chuvas extremas no Sul e em parcelas do Sudeste. Esses impactos decorrem da própria diversidade climática de um país de dimensões continentais.

No entanto, existe uma questão muito menos debatida, embora talvez seja a mais importante para compreender as consequências concretas do El Niño sobre a população brasileira: a geografia da desigualdade. O mesmo fenômeno atmosférico produz efeitos profundamente distintos porque incide sobre um território marcado por enormes disparidades econômicas, sociais e espaciais. Em outras palavras, não é apenas o clima que determina a dimensão dos impactos, mas a forma profundamente desigual como a sociedade brasileira produz e organiza seu território.

A primeira dimensão dessa desigualdade é física. O Brasil abriga diferentes biomas, regimes hidrológicos e paisagens naturais que respondem de maneiras distintas às alterações da circulação atmosférica. Enquanto algumas regiões enfrentam enchentes recorrentes, outras convivem com secas prolongadas, incêndios florestais e escassez hídrica. Essa distribuição desigual dos impactos decorre das próprias características naturais do território brasileiro.  Entretanto, essa geografia física apenas estabelece o palco sobre o qual se desenrola uma segunda geografia, construída historicamente pelas relações sociais e econômicas. Como ensinou Milton Santos, o espaço geográfico nunca constitui um simples suporte das atividades humanas. Ele representa uma construção social produzida por relações de poder, investimentos seletivos e diferentes capacidades de acesso aos recursos públicos. Dessa forma, também os riscos ambientais se distribuem de maneira profundamente desigual.

Décadas de urbanização acelerada, concentração fundiária, especulação imobiliária e políticas habitacionais insuficientes empurraram milhões de brasileiros para encostas instáveis, margens de rios, áreas de baixada sujeitas a inundações e periferias carentes de infraestrutura. Essas populações convivem diariamente com condições que amplificam qualquer evento climático extremo. A chuva intensa, portanto, não cria sozinha a tragédia. Ela encontra cidades previamente organizadas para produzir desigualdades.

Henri Acselrad demonstra que os chamados desastres naturais dificilmente podem ser compreendidos como fenômenos exclusivamente naturais. Eles expressam processos de injustiça ambiental, nos quais determinados grupos sociais concentram sistematicamente os maiores riscos enquanto outros desfrutam das melhores condições de proteção. No Brasil, essa lógica aparece de forma cristalina. Bairros valorizados contam com sistemas eficientes de drenagem, abastecimento de água, coleta de resíduos, redes de saúde, áreas verdes e infraestrutura capaz de reduzir os danos provocados por eventos extremos. Nas periferias urbanas, a realidade costuma ser exatamente a oposta.

David Harvey e Neil Smith ajudam a compreender por que essa desigualdade territorial não ocorre por acaso. Ambos demonstram que a produção capitalista do espaço direciona investimentos para áreas capazes de gerar maior valorização imobiliária, enquanto territórios ocupados pelas populações de menor renda permanecem historicamente subinvestidos. O resultado é uma distribuição profundamente desigual da infraestrutura urbana, da proteção ambiental e da própria capacidade de adaptação às mudanças climáticas.  Mike Davis mostrou, em seus estudos sobre as megacidades contemporâneas, que a expansão das periferias urbanas transforma milhões de pessoas em habitantes permanentes do risco. Não se trata apenas da ausência de renda, mas da combinação entre pobreza, localização territorial e fragilidade institucional. Essa descrição ajusta-se de maneira quase perfeita a inúmeras cidades brasileiras, onde enchentes, deslizamentos, ondas de calor e problemas sanitários atingem de forma recorrente exatamente os mesmos grupos sociais.

Essa realidade revela que os eventos extremos associados ao El Niño jamais atingem uma sociedade homogênea. Ao contrário, eles atravessam um território profundamente fragmentado por desigualdades históricas. Enquanto parte da população dispõe de seguros, moradias de alta qualidade, sistemas privados de abastecimento, climatização e acesso rápido aos serviços de saúde, outra parcela enfrenta os mesmos fenômenos vivendo em habitações precárias, frequentemente construídas sem assistência técnica, em áreas ambientalmente vulneráveis e com reduzida presença do Estado.

Essa geografia da desigualdade também possui forte expressão regional. Municípios amazônicos enfrentam secas históricas sem infraestrutura logística adequada para atender populações isoladas. Comunidades do Semiárido convivem com sucessivos déficits de investimento em adaptação hídrica. Grandes regiões metropolitanas concentram milhões de habitantes em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos. Ao mesmo tempo, municípios mais ricos dispõem de maior capacidade financeira para investir em drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta precoce e reconstrução da infraestrutura danificada.

O quadro torna-se ainda mais preocupante diante das restrições fiscais impostas ao Estado brasileiro nas últimas décadas. A redução da capacidade de investimento público compromete justamente as políticas capazes de diminuir a vulnerabilidade da população, como habitação social, saneamento básico, defesa civil, monitoramento climático e adaptação às mudanças climáticas. Em um cenário de intensificação dos eventos extremos, essa combinação entre austeridade fiscal e desigualdade territorial amplia o potencial destrutivo de fenômenos como o El Niño.

Deste modo, discutir o El Niño no Brasil exige, portanto, ir muito além das previsões meteorológicas. Exige compreender que o risco climático não nasce apenas das anomalias atmosféricas. Ele resulta da interação entre processos naturais e uma estrutura social profundamente desigual. A atmosfera fornece o fenômeno físico; a sociedade determina quem perderá a casa, quem ficará sem água, quem verá sua renda desaparecer e, em muitos casos, quem sobreviverá.

É preciso reconhecer essa geografia da desigualdade constitui uma condição indispensável para que o Brasil construa políticas eficazes de adaptação às mudanças climáticas e aos eventos extremos associados ao El Niño. Isso significa abandonar a ideia de que o risco climático se distribui de forma homogênea pelo território nacional e reconhecer que diferentes regiões, cidades, bairros e grupos sociais apresentam níveis muito distintos de exposição, vulnerabilidade e capacidade de resposta. Políticas públicas orientadas por uma lógica meramente isonômica tendem, na prática, a perpetuar desigualdades históricas, pois distribuem recursos de maneira uniforme para realidades profundamente desiguais.

O Estado brasileiro precisa inverter essa lógica: quanto maior a vulnerabilidade socioambiental de um território, maior deve ser a prioridade dos investimentos em habitação, saneamento, drenagem urbana, sistemas de alerta, defesa civil, infraestrutura e proteção social. Dessa forma, a adaptação climática deixará de reproduzir desigualdades históricas e passará a enfrentá-las de maneira explícita, reconhecendo que justiça climática e justiça social constituem dimensões inseparáveis de um mesmo projeto de desenvolvimento. Somente uma política de adaptação construída a partir da geografia da desigualdade brasileira poderá reduzir os impactos humanos e materiais dos eventos climáticos extremos que, segundo todas as evidências científicas, tendem a se tornar cada vez mais frequentes e intensos nas próximas décadas.

Comissão do Ambiente da ABGF promove live sobre El Niño, crise climática e adaptação no Brasil

A Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) realizará, no próximo dia 20 de agosto, às 15h, a live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, reunindo alguns dos mais destacados pesquisadores brasileiros dedicados ao estudo das mudanças climáticas e de seus efeitos sobre o território nacional.

A atividade acontece em um momento particularmente oportuno. As projeções mais recentes indicam o fortalecimento de um novo ciclo do El Niño, fenômeno que tende a intensificar eventos climáticos extremos em diferentes regiões do Brasil. A combinação entre o aquecimento anômalo do Oceano Pacífico, o aquecimento persistente do Atlântico Tropical e o avanço da crise climática global amplia os riscos de secas severas, queimadas, ondas de calor, escassez hídrica e episódios de chuvas intensas, com impactos diretos sobre a agricultura, os ecossistemas, a infraestrutura e a saúde pública.

Diante desse cenário, a Comissão do Ambiente da ABGF propõe um debate que articula ciência de excelência e compromisso com a sociedade. A live reunirá pesquisadores que vêm produzindo algumas das contribuições mais relevantes para a compreensão das transformações ambientais em curso no país.

Participarão como palestrantes a Dra. Luciana Gatti (INPE), reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre o balanço de carbono da Amazônia e os efeitos do desmatamento sobre o clima; o Prof. Dr. Paulo Artaxo (USP), uma das principais referências brasileiras em física da atmosfera, mudanças climáticas e aerossóis; e o Prof. Dr. Roberto Verdum (UFRGS), pesquisador com ampla trajetória nos estudos sobre geografia física, vulnerabilidade ambiental e ordenamento territorial. A mediação ficará a cargo do Prof. Dr. Marcos Pedlowski (UENF), pesquisador da área de geografia política e ambiental, que conduzirá o diálogo entre os convidados e o público.

Mais do que discutir previsões meteorológicas, o encontro buscará analisar os desafios que o Brasil enfrenta para construir políticas efetivas de adaptação climática, reduzir vulnerabilidades socioambientais e fortalecer a capacidade de resposta das instituições públicas diante da intensificação dos eventos extremos.

A transmissão ocorrerá pelo canal GENATUFPB no YouTube e representa uma oportunidade para estudantes, pesquisadores, profissionais, gestores públicos e todos os interessados em compreender como o conhecimento científico pode contribuir para enfrentar um dos maiores desafios do século XXI.

Serviço

Live: Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação
Data: 20 de agosto
Horário: 15h

É urgente tomar medidas imediatas em face do El Niño e de eventos extremos

O El Niño, que está se intensificando rapidamente, pode ser um dos mais intensos desde 1950

Enquanto algumas regiões do mundo enfrentarão secas extremas, outras experimentarão chuvas intensas como resultado do El Niño global. Alguns países até mesmo vivenciarão uma combinação de ambos os fenômenos. Crédito da imagem: jcomp / Magnific .

SciDev.Net ] Os governos devem agir rapidamente para se prepararem para um fenômeno El Niño em aceleração, que trará condições climáticas extremas para várias regiões do mundo, exacerbando crises existentes que ameaçam a segurança alimentar e a vida humana, alertam especialistas em clima.

Na América do Sul, “Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai serão afetados por secas enormes associadas ao fenômeno, enquanto países mais próximos da costa do Pacífico, como Peru, Equador, Chile, mas também o Brasil, que está do outro lado, serão afetados por ondas de calor de altíssima intensidade”, disse Patricio Valderrama, especialista em geociências e gestão de riscos de desastres do Peru , ao SciDev.Net .

Organização Meteorológica Mundial (OMM) observou que as condições do El Niño, já presentes no Oceano Pacífico, irão se intensificar rapidamente nos próximos meses, aumentando o risco de ondas de calor , inundações e secas em todo o mundo.

As ondas de calor, que já eram mais frequentes e severas, irão se intensificar devido ao fenômeno global El Niño. Crédito da imagem: PxHere , imagem de domínio público.

 O calor extremo , as secas e as inundações voltarão a devastar comunidades na América Latina, no leste e sul da África, na Ásia e no Pacífico”, alertou Tom Fletcher, Subsecretário-Geral da ONU para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência, em um comunicado (13 de julho).

Segundo Fletcher, as previsões mostram que este El Niño “parece ainda pior” do que o anterior, que deixou dezenas de milhões de pessoas sem alimentos, nutrição , água, saneamento, cuidados de saúde, apoio agrícola e proteção em 2023-2024.

“O calor extremo, as secas e as inundações devastarão mais uma vez comunidades na América Latina, no leste e sul da África, na Ásia e no Pacífico.”

Tom Fletcher, Subsecretário-Geral das Nações Unidas para Assuntos Humanitários e Coordenador de Ajuda de Emergência.

Impactos na América Latina

El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre a cada dois a sete anos, quando as temperaturas da superfície aumentam no leste do Oceano Pacífico tropical. Ele pode alterar os padrões climáticos em todo o mundo, causando tanto condições mais quentes e secas quanto chuvas intensas e inundações.

Valderrama, que foi diretor de vários centros nacionais de pesquisa meteorológica, hidrológica e geológica no Peru, e é autor de diversas investigações sobre deslizamentos de terra, fenômenos eruptivos e geodinâmicos, afirma que os dados obtidos no Pacífico central, onde o fenômeno se origina, são “conclusivos”.

“Em certos momentos, essas são as medições mais fortes que tivemos na história moderna”, portanto, já existe uma “certeza matemática” de que teremos um fenômeno global El Niño “que durará ao longo de 2026 e provavelmente até o primeiro trimestre de 2027”.

Seção longitudinal das anomalias de temperatura (0°C) na camada superior do Oceano Pacífico equatorial (C0-300 m), centrada no pentante de 2 de julho de 2026. As anomalias divergem das médias do pentante de 1991-2020. Crédito: NOAA . Imagem em domínio público.

Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) observa que este episódio pode estar entre os mais intensos desde que os registros começaram em 1950.

Em sua atualização de 15 de junho , a NOAA indicou que as previsões estimam uma probabilidade de 63% de que a temperatura da superfície do Oceano Pacífico oriental exceda a média em 2°C, o que constituiria um episódio de El Niño “muito forte”, frequentemente referido como “Super Niño”.

“Mas não se trata apenas do aquecimento causado pelo El Niño; regiões que historicamente não deveriam ser afetadas pelo fenômeno estão apresentando anomalias de temperatura de 1 ou 2 graus acima do normal em regiões onde o mar costuma ser frio, como o sul do Chile, a costa japonesa ou o Mar Báltico”, explica Valderrama.

A principal diferença entre este episódio e os anteriores é que ele está ocorrendo em um mundo que já aqueceu quase 1,5°C, observa Mat Collins, chefe do departamento de Matemática e Estatística da Universidade de Exeter (Reino Unido). “É por isso que as regiões mais vulneráveis ​​estão sofrendo o duplo impacto do aquecimento global e do El Niño”, explica ele.

“Isso agrava os conflitos generalizados, o número crescente de deslocados internos e a alta dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos, que afetam as famílias mais vulneráveis, enquanto o sistema humanitário enfrenta cortes profundos”, destaca Fletcher.

O especialista observou que o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários está preparado para desembolsar US$ 100 milhões em fundos de emergência, dos quais US$ 20 milhões já foram alocados para medidas de “ação antecipatória” em seis países.

As famílias mais vulneráveis ​​são prejudicadas por fenômenos como o Super Niño, pois já sofrem com diversas privações que são agravadas pela emergência climática. Crédito da imagem: John Reyes/Diario La República.

Sem dúvida, 2026 e 2027 serão anos de desafios climáticos que nos mostrarão como devemos nos preparar para esse tipo de emergência e, como temos vivenciado ano após ano por quase uma década, essas emergências se tornarão cada vez mais recorrentes, enfatiza Valderrama, indicando que isso não afetará apenas os seres humanos.

Peru, muito atingido

“O aumento da temperatura dos oceanos afetará muito a vida marinha ; por exemplo, alguns governos já emitiram alertas de extinção para algumas espécies”, acrescenta.

Entre esses governos está o do Peru. A anchova, seu principal recurso pesqueiro de exportação, está migrando para outros países devido ao aquecimento das águas.

Além de deixar mais de 250 mil pessoas que dependem direta ou indiretamente desse recurso extremamente vulneráveis , sua ausência já está causando a morte por inanição de diversas espécies marinhas, como aves produtoras de guano, leões-marinhos e o icônico pinguim-de-humboldt. Numerosos espécimes mortos de espécies marinhas estão sendo encontrados nas praias, e outros vagam erraticamente pelos terminais de pesca ao longo da costa.

A anchova é o principal insumo da indústria pesqueira peruana, mas sua captura está agora em risco devido ao aquecimento das águas do Pacífico causado pelo El Niño. Crédito da imagem: Ministério da Produção (Produce-Peru). Imagem em domínio público.

Além da pesca, que contribui com 0,6% para o PIB nacional , outros produtos agrícolas de exportação serão afetados pelo fenômeno, como café, cacau e diversas frutas.

“As perspectivas sobre a ocorrência de um Super Niño na América do Sul têm se concentrado nos impactos na costa do Pacífico, havendo pouca referência ao seu impacto em outras regiões”, lamenta Lorenzo Castillo, gerente do Conselho Nacional do Café.

“No caso do Peru — e também em outros países andinos-amazônicos, como Colômbia e Equador — os impactos são diversos. Na Amazônia, o estresse hídrico terá um forte impacto nas colheitas deste ano e do próximo, e seus efeitos serão sentidos até 2028”, afirma, com base em dados dos primeiros meses do ano referentes à área plantada. “Prevemos uma queda de 20% na colheita de café este ano, e o próximo ano será ainda pior”, observa.

O pinguim-de-Humboldt vive no litoral do Peru e do Chile. É uma espécie vulnerável que está perdendo sua fonte de alimento devido ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, onde habita. Crédito da imagem: TimVickers/Wikimedia Commons , imagem de domínio público.

Uma situação semelhante ocorrerá nas regiões andinas de altitude, afetando particularmente as culturas de grãos e tubérculos, geralmente plantadas em altitudes acima de 3.000 metros e que constituem a principal dieta dessas populações. Devido ao fenômeno Super Niño, essas culturas estarão sujeitas a fortes chuvas, tempestades de granizo severas e geadas.

Em declarações à imprensa, a Convenção Nacional Agropecuária do Peru afirmou que o fenômeno global El Niño causará perdas de mais de US$ 3 bilhões no setor rural e que a produção de alimentos cairá em até 50%. O novo governo — liderado pela política de direita Keiko Fujimori, que assumirá o cargo em 28 de julho — ainda não apresentou um plano de contingência ou mitigação para lidar com os impactos previstos.

Brasil se prepara para El Niño

No Brasil, o governo buscou antecipar os potenciais impactos do El Niño criando uma Sala de Situação Interministerial para preparar e coordenar a resposta a possíveis desastres associados ao fenômeno. O objetivo é coordenar as ações dos governos federal, estaduais e municipais, juntamente com agências nacionais, para facilitar a rápida mobilização de recursos emergenciais.

Em 30 de junho, o Ministério da Saúde lançou um pacote de medidas destinadas a preparar o sistema nacional de saúde para os impactos do El Niño. Entre elas, está um Painel Nacional de Risco de Calor, que emitirá alertas de altas temperaturas com até cinco dias de antecedência para ajudar as autoridades a antecipar riscos e organizar os serviços de saúde antes de uma onda de calor.

O plano inclui investimentos de R$ 9,8 bilhões (aproximadamente US$ 1,92 bilhão) até 2035 para fortalecer a capacidade do sistema de saúde de responder a eventos climáticos extremos.

Os incêndios florestais podem se tornar mais frequentes na Amazônia devido à falta de chuvas causada pelo fenômeno. Crédito: Serfor/Peru, imagem em domínio público.

Mas o climatologista Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, acredita que o país ainda precisa passar de um modelo focado na resposta a desastres para uma cultura de prevenção, resiliência e adaptação às mudanças climáticas .

“A ação proativa e o preparo para desastres são nossas melhores ferramentas para lidar com esse fenômeno”, afirma ele.

Paulo Artaxo, professor de física ambiental da Universidade de São Paulo, alerta que a diminuição das chuvas no norte do Brasil “pode tornar a Amazônia mais vulnerável a incêndios florestais”.

“O fenômeno também pode reduzir os níveis dos rios, como aconteceu em 2023 e 2024 , afetando o transporte e limitando o acesso das comunidades ribeirinhas, que dependem das vias navegáveis ​​como principal meio de transporte e fornecimento de insumos essenciais”, explica ele.

Entretanto, prevê-se precipitação acima da média na parte sul do continente.

Em 13 de julho, o governo chileno declarou estado de emergência em dez regiões, prevendo fortes chuvas e ventos intensos na região centro-sul do país. No norte, entretanto, espera-se uma seca prolongada. Dois dias depois, uma forte tempestade — que persiste até hoje — começou a causar inundações nas regiões centro-norte do país, tradicionalmente secas.

A tempestade que vem atingindo diversas regiões tradicionalmente secas do Chile desde 1º de julho causou mortes, feridos e deixou milhares de pessoas desabrigadas. Crédito da imagem: Marinha do Chile/Directemar.

Segundo Alicia Cebrián, diretora do Serviço Estadual de Emergências, até o meio-dia de 21 de julho , havia dez mortes, 16 feridos, 2.286 pessoas afetadas, mais de mil pessoas em abrigos e 104.200 pessoas isoladas nas regiões de Atacama e Coquimbo. Também houve um número considerável de casas destruídas ou danificadas, além de cortes de energia e água em algumas áreas.

Por sua vez, a meteorologista Matilde Rusticucci alerta o SciDev.Net que as fortes chuvas também podem causar inundações na região da Mesopotâmia argentina.

“O setor pecuário seria seriamente afetado, […] a agricultura enfrentaria dificuldades na colheita e as pessoas que vivem em áreas baixas poderiam ser forçadas a se mudar”, afirma Rusticucci, professora emérita da Universidade de Buenos Aires e pesquisadora principal do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET).

Ele enfatiza que a preparação para o El Niño é essencial, embora observe que ainda não viu “medidas concretas” tomadas na Argentina.

África se prepara para inundações e secas

Historicamente, o El Niño causou secas no Sahel e no sul da África, além de provocar inundações no leste do continente. Caso esse cenário se repita, especialistas alertam que a insegurança alimentar será agravada, os meios de subsistência serão afetados e haverá um aumento na incidência de doenças em todo o continente

Muitos países africanos são altamente vulneráveis ​​a eventos climáticos extremos, como o Super Niño. Crédito da imagem: Cortesia da OMM (Organização Meteorológica Mundial).

Obed Ogega, cientista climático e gerente de programa do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), com sede em Nairóbi, argumenta que os governos têm muito pouco tempo para se preparar.

“Os governos africanos devem disponibilizar os recursos necessários para lidar com a crise iminente”, disse ele à SciDev.Net .

Em março, inundações repentinas em Nairóbi mataram mais de 30 pessoas e causaram prejuízos de milhões de dólares, evidenciando a vulnerabilidade de muitos países africanos a eventos climáticos extremos.

Ogega afirma que os governos devem fortalecer os sistemas de drenagem, as estradas e outras infraestruturas para melhor resistir a eventos como esses. Ele explica que, nas inundações de Nairóbi, muitas mortes foram causadas pelo colapso de estradas e sistemas de drenagem pluvial sob a pressão das chuvas torrenciais.

O documento também insta os governos a investirem em sistemas de alerta precoce e a trabalharem em conjunto com as comunidades em risco.

“As comunidades devem deixar de ser meras beneficiárias ou vítimas e tornarem-se protagonistas e impulsionadoras de ações locais eficazes para se adaptarem às mudanças climáticas e fortalecerem a resiliência”, acrescenta.

Peter Ofware, diretor da organização sem fins lucrativos Helen Keller International no Quênia, destaca que a desnutrição infantil será um dos principais problemas, “o que exigirá esforços coordenados entre várias instituições e agências para implementar as intervenções necessárias”.

A desnutrição infantil, um flagelo que já assola muitas regiões da África, poderá agravar-se nas comunidades em risco de sofrer os efeitos do Super Niño. Crédito da imagem: ACNUR/H. Dicko .

O Oriente Médio enfrenta uma potencial “falência hídrica”

Por outro lado, o Oriente Médio e o Norte da África podem enfrentar uma combinação de pressões climáticas, alimentares e econômicas caso o El Niño se desenvolva conforme previsto.

A região apresenta a maior dependência per capita do mundo em relação à importação de grãos . Ao mesmo tempo, as constantes interrupções na navegação pelo Estreito de Ormuz têm pressionado as cadeias de suprimento de energia e fertilizantes.

Caso o El Niño afete a produção agrícola nos principais países exportadores, é provável que os preços internacionais dos cereais permaneçam sob pressão, aumentando ainda mais a fatura de importação de alimentos em toda a região.

O especialista iraniano em recursos hídricos, Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirma que muitos países da região já estão enfrentando uma “falência hídrica”, na qual a extração de água excede sistematicamente a recarga natural, causando danos duradouros aos ecossistemas e reduzindo a capacidade de adaptação à variabilidade climática.

“Quando os pântanos secam no Iraque, na Síria ou na Turquia devido à seca, os países vizinhos também sofrem as consequências”, explica Madani, destacando a natureza interligada dos impactos das mudanças climáticas.

“Construímos nossas cidades , definimos a capacidade de nossos reservatórios e a altura de nossas barragens partindo do pressuposto de que o sistema climático era estável. E não é, e é por isso que não estamos preparados”, acrescenta.

“Precisamos tanto de infraestrutura física – como barragens – quanto de infraestrutura institucional, ou seja, políticas públicas, além de uma coordenação eficaz entre os sistemas de alerta precoce e de evacuação, com base em boa governança e infraestrutura adequada”, explica ele.

“Redes de segurança” para a Ásia

De Singapura, Paul Teng, pesquisador visitante sênior especializado em mudanças climáticas no Instituto ISEAS–Yusof Ishak, indica que grande parte dos gastos públicos foi desviada para lidar com a crise de combustíveis desencadeada pelo conflito no Oriente Médio.

“A maior ameaça que o previsto ‘Super Niño’ representa para a agricultura no Sudeste Asiático vem das interrupções esperadas na disponibilidade de água e dos picos de temperatura”, observa ele.

O arroz é uma cultura de subsistência e de rendimento muito importante na Ásia, portanto, a redução prevista na produção devido aos efeitos do Super Niño causará maior inflação em muitos países desse continente. Crédito da imagem: Ranak Martin/CGIAR , sob licença Creative Commons CC BY-NC-SA 2.0 Deed .

O texto acrescenta que a Indonésia, as Filipinas, a Tailândia e o Vietname preveem uma redução na produção de arroz na próxima época, o que provavelmente levará a aumentos de preços e a uma maior inflação alimentar.

Para Teng, “o problema não é apenas o clima”. “Estamos enfrentando uma crise multifacetada que se aproxima de uma tempestade perfeita devido aos eventos do ano passado”, diz ele, referindo-se ao aumento do preço dos fertilizantes e seu impacto nas economias rurais.

Portanto, ele argumenta que os governos do Sudeste Asiático devem preparar “redes de proteção social mais amplas para atenuar o impacto da insegurança alimentar nas famílias afetadas”.

BL Madhavan, físico e pesquisador atmosférico do Laboratório Nacional de Pesquisa Atmosférica da Índia, acredita que os sistemas de alerta precoce devem adotar uma “abordagem multirriscos”, pois o El Niño influencia fenômenos como calor extremo, qualidade do ar, risco de incêndios florestais, disponibilidade de água, preços dos alimentos e saúde pública.


Fonte: SciDev.Net 

Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

Super El Niño pode causar um choque global nos preços dos alimentos que durará até 2028, afirmam especialistas

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços das commodities alimentares em até 9%, com a soja entre as mais afetadas. Fotografia: Bloomberg/Getty Images  

Por Richard Partington, correspondente sênior de economia, para “The Guardian”

Economistas alertam que um ciclo climático “super” El Niño este ano pode causar um choque severo nos preços globais dos alimentos, com efeitos que podem se estender até 2028.

Com a guerra no Irã elevando os preços mundiais dos alimentos ao nível mais alto em três anos, economistas afirmaram que as cadeias de suprimentos enfrentam “dois choques simultâneos”, provocados por eventos climáticos extremos ligados ao aquecimento global.

Cientistas afirmaram que o El Niño de 2026-27 – que se forma quando mudanças nos padrões de vento permitem que águas mais quentes se espalhem pelo Pacífico equatorial central e oriental – tem uma chance historicamente sem precedentes de se tornar um evento “muito forte”, provocando ondas de calor, inundações e tempestades.

Informalmente descrito como um El Niño “super” ou “Godzilla”, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) confirmou no mês passado que as condições de aquecimento estavam se instalando no Pacífico e que havia 63% de chance de as temperaturas da superfície do mar ultrapassarem 2°C acima do normal ainda este ano.

Num momento em que as famílias em todo o mundo já sentem o impacto do aumento vertiginoso do custo de vida, especialistas afirmam que um El Niño extremo poderia agravar ainda mais a situação. A perspectiva de um novo choque inflacionário também preocupa os bancos centrais, aumentando o receio de que as taxas de juro possam ser mantidas em níveis elevados.

Algumas regiões da Índia receberam apenas metade da precipitação normal, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar. Fotografia: Charlie Riedel/AP

“O El Niño recoloca a ‘climaflação’ na agenda”, escreveram analistas do banco italiano UniCredit em uma nota de pesquisa. “As recentes ondas de calor na Europa são um lembrete de que a linha de base climática já está mudando. O El Niño pode adicionar uma nova camada de pressão ainda este ano, à medida que amplifica os efeitos do aquecimento global.”

O fenômeno natural tem um histórico de impacto nas colheitas e na rede de abastecimento alimentar. Há mais de um século, um El Niño, provavelmente o mais severo já registrado, provocou secas catastróficas na China, no sul da África, no Brasil, no Egito e na Índia. Causando condições de fome em uma situação agravada pelo domínio colonial, milhões morreram, incluindo mais de 6 milhões de pessoas na Índia entre 1876 e 1878.

Os eventos El Niño de 1981-82, 1996-97, 2015-16 e 2023-24 foram alguns dos mais intensos já registrados. No entanto, as projeções da NOAA indicam que o ciclo de 2026-27 poderá ser ainda mais severo, aumentando o risco de secas e inundações que afetarão as colheitas e o abastecimento de alimentos em todo o mundo.

 

Segundo analistas do Goldman Sachs, a intensidade deste El Niño poderá causar um aumento de 15,8% nos preços globais das commodities alimentares. Isso teria um efeito cascata em todo o mundo, inclusive para os consumidores na Europa, onde a previsão é de um aumento de 1,3% nos preços dos alimentos em toda a zona do euro.

No entanto, o impacto total levará tempo para ser sentido, devido à forma como o custo das mudanças climáticas se propaga pela cadeia alimentar global. Consequentemente, o Goldman Sachs afirmou que as consequências podem levar até o segundo semestre de 2028 para serem “totalmente percebidas”.

A maior parte do atraso se deve ao momento em que eventos climáticos extremos afetam a produção de alimentos, considerando os diferentes ciclos de plantio, crescimento e colheita para os diversos tipos de culturas. Desafios logísticos – incluindo os níveis de água em canais e rios utilizados para importantes remessas – também terão impacto.

“O El Niño não afeta a agricultura de forma uniforme. Ele remodela os padrões globais de chuva e temperatura, criando regiões vencedoras e perdedoras”, afirmaram analistas do UBS. Algumas regiões podem se beneficiar de condições climáticas mais quentes. 

Um trabalhador segura uma amostra de grãos de soja. Fotografia: Fred Scheiber/AFP/Getty

Analistas afirmam que o El Niño agravaria os problemas causados ​​pela guerra com o Irã, adicionando dificuldades na cadeia de suprimentos de alimentos aos preços já elevados e à escassez de fertilizantes e energia. “Mesmo pequenas interrupções no fornecimento poderiam desencadear oscilações de preços muito maiores do que as previstas pelos padrões históricos”, disseram os analistas do UBS.

Normalmente, o El Niño acarreta riscos elevados de seca no sul da África e no norte da América do Sul, mas também de inundações no sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Analistas afirmam que os países de baixa renda – já os mais afetados pelo conflito com o Irã – provavelmente sofrerão mais.

“O El Niño já começou a afetar as colheitas, provocando uma estação das monções mais seca na Índia, com algumas regiões registrando apenas 25% da precipitação normal e partes da Índia central recebendo apenas 50%, o que pode afetar o abastecimento de trigo, arroz e cana-de-açúcar”, escreveram os analistas do Goldman Sachs.

O impacto provavelmente será sentido em todo o mundo.

Analistas afirmam que a seca no sudeste asiático pode afetar o fornecimento de óleo de palma – um ingrediente importante em alimentos processados ​​– enquanto as colheitas de café e cacau também podem ser prejudicadas. Condições climáticas mais quentes e úmidas podem agravar a disseminação de doenças, afetando a produtividade agrícola nos próximos anos.

Na América do Norte, o impacto do El Niño é mais forte no inverno, e embora as condições na Europa possam ser influenciadas pelo fenômeno climático, analistas afirmam que outros fatores – como o efeito sobre os preços globais dos alimentos – serão onde ele será sentido.

Há três anos, o Banco Central Europeu estimou que um El Niño forte poderia elevar os preços globais das commodities alimentares em até 9%, com a soja, o milho e o arroz apresentando os maiores aumentos.

Pêssegos à venda em um mercado ao ar livre em Chauvigny, França.

O impacto mais profundo do El Niño na Europa provavelmente virá do aumento dos preços, e não de eventos climáticos extremos. Fotografia: lucentius/Getty Images/iStockphoto

A forma como os preços se refletem nas prateleiras depende das estratégias de mitigação e das políticas nacionais. Fatores como a demanda do consumidor e os preços no varejo também desempenham um papel importante.

Segundo o UniCredit, a possibilidade de um cenário extremo de El Niño permanece alta. Isso poderia levar a uma queda de 14,3% na produção agrícola global – o equivalente a US$ 342 bilhões (R$ 254 bilhões) em perdas de produção, afirmou a instituição.

“Os choques de preços podem atingir de 10% a 50% nas principais commodities, enquanto as culturas mais expostas – incluindo arroz, óleo de palma, açúcar e café – podem subir de 50% a 100% ou mais”, afirmou o banco. “O sistema alimentar entra no segundo semestre de 2026 com reservas, mas com pouca margem para erros.”


Fonte: The Guardian

O El Niño está voltando. Porto Alegre está preparada para a próxima grande enchente?

Dois anos depois da catástrofe de 2024, obras avançaram, mas vulnerabilidades persistem justamente quando o risco climático volta a aumentar

Uma reportagem publicada nesta quarta-feira (8) pelo Matinal traz uma pergunta que deveria preocupar não apenas os moradores de Porto Alegre, mas todas as cidades brasileiras expostas a eventos climáticos extremos: depois da catástrofe de 2024, quanto foi realmente feito para impedir que um desastre daquela dimensão volte a ocorrer?

Assinada pelo jornalista João Neto, a reportagem parte de uma circunstância particularmente preocupante. Pouco mais de dois anos depois das enchentes que atingiram 96% dos municípios do Rio Grande do Sul e provocaram 185 mortes, o El Niño volta ao horizonte. Em 2024, o fenômeno climático, intensificado pelos efeitos das mudanças climáticas, foi um dos fatores que contribuíram para a sequência excepcional de chuvas e enchentes que devastou o estado. Agora, quando um novo episódio se aproxima, o levantamento da Matinal mostra que Porto Alegre ainda convive com importantes fragilidades em seu sistema de proteção, especialmente nas ilhas e na zona sul.

O problema central é que a tragédia de 2024 não resultou apenas de uma chuva extraordinária. O desastre climático encontrou um sistema urbano enfraquecido por falhas de manutenção, deficiências de gestão e intervenções que comprometeram estruturas originalmente projetadas para proteger a cidade. No Centro, falhas nas casas de bombas permitiram que a água emergisse pelo sistema subterrâneo. No bairro Sarandi e em áreas de Canoas, trechos de diques teriam sido construídos 1,5 metro abaixo das cotas previstas nos projetos originais. Houve ainda o enfraquecimento de estruturas na zona norte, o rompimento de uma comporta próxima ao Aeroporto Salgado Filho e problemas de refluxo em estações de bombeamento.

Esses fatos ajudam a desmontar uma interpretação bastante conveniente segundo a qual a catástrofe de 2024 teria sido simplesmente um evento natural de magnitude imprevisível. Chuvas extremas ocorreram, sem dúvida, mas seus efeitos foram amplificados pela forma como o território urbano foi administrado. A diferença entre um evento climático extremo e uma catástrofe social costuma estar justamente aí: na qualidade da infraestrutura, na manutenção dos sistemas de proteção, no planejamento territorial e na capacidade das instituições públicas de agir antes que a água chegue.

É preciso reconhecer que obras foram iniciadas depois de 2024. A prefeitura afirma que há intervenções em diques, comportas, casas de bombas e redes de drenagem. Entretanto, o próprio balanço oficial mostra que algumas obras importantes continuam em andamento. A substituição das comportas 11 e 12, por exemplo, ainda tinha conclusão prevista para julho de 2026. Reportagens anteriores também já haviam mostrado que, em abril deste ano, reformas em casas de bombas, comportas e diques permaneciam inconclusas e que as melhorias realizadas seriam capazes de conter apenas parcialmente os efeitos de uma cheia semelhante à de maio de 2024.

A questão, portanto, não é negar o que foi feito, mas perguntar se o ritmo e a escala das intervenções correspondem ao tamanho do risco. Há uma diferença fundamental entre afirmar que uma cidade está mais protegida do que estava em maio de 2024 e demonstrar que ela está efetivamente preparada para enfrentar outro evento daquela magnitude. Quando o sistema ainda possui obras incompletas e áreas vulneráveis, a primeira afirmação pode ser verdadeira sem que a segunda também seja.

Esse é um ponto decisivo porque a emergência climática alterou os parâmetros sobre os quais as cidades brasileiras foram planejadas. Sistemas de drenagem, diques, comportas e estações de bombeamento concebidos com base nas estatísticas do século XX precisam agora operar em um clima diferente. O passado já não oferece necessariamente uma medida segura para o futuro, pois eventos antes classificados como excepcionais tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade.

Porto Alegre oferece, nesse sentido, uma advertência para o restante do Brasil. O país continua tratando a adaptação climática como se ela pudesse avançar no ritmo normal da burocracia administrativa, enquanto o clima muda em outra velocidade. Depois de cada desastre, multiplicam-se anúncios, projetos, licitações e promessas de reconstrução. Mas a verdadeira medida da capacidade de adaptação não está no volume de anúncios feitos depois que a água baixa. Está na quantidade de obras concluídas, sistemas testados, equipes treinadas e populações protegidas antes que a próxima chuva extrema comece.

Também é necessário perguntar quem permanece mais exposto quando a proteção é incompleta. Como quase sempre ocorre nos desastres ambientais, a vulnerabilidade não se distribui igualmente pelo território. Os moradores das áreas mais baixas, das ilhas, das periferias e das zonas onde a infraestrutura urbana é mais precária são aqueles que carregam o maior risco. Quando o poder público demora a concluir sistemas de proteção, essa demora também possui uma geografia social.

A reportagem da Matinal é importante justamente porque desloca a discussão do passado para o futuro próximo. A pergunta já não é apenas por que Porto Alegre inundou em 2024, mas o que acontecerá se uma nova combinação de chuvas extremas, rios elevados e falhas de infraestrutura voltar a ocorrer. Essa pergunta se torna ainda mais urgente diante da possibilidade de um novo El Niño.

A catástrofe de 2024 deveria ter produzido uma ruptura definitiva com a lógica de negligência que marcou a gestão da infraestrutura de proteção contra enchentes. Dois anos depois, contudo, a existência de obras ainda inconclusas e de territórios persistentemente vulneráveis mostra que a distância entre aprender com um desastre e simplesmente reconstruir depois dele continua sendo grande.

O El Niño pode voltar. As chuvas extremas certamente voltarão, seja durante este episódio ou em algum momento posterior. A única variável sobre a qual a sociedade possui algum controle é o grau de preparação existente quando isso acontecer. E é justamente por isso que a pergunta formulada pela reportagem da Matinal precisa continuar sendo feita: Porto Alegre está realmente protegida ou apenas menos desprotegida do que estava em maio de 2024?

Este comentário foi elaborado a partir da reportagem “El Niño à vista: como está a proteção antienchente em Porto Alegre”, de João Neto, publicada pela Matinal em 8 de julho de 2026

El Niño está de volta com força total – e o medo de uma força comparável à de Godzilla pode ser a menor das nossas preocupações

O Programa Mundial de Alimentos da ONU e a agência de agricultura lançam um apelo conjunto por fundos para evitar uma crise global de fome

Por Ajit Niranjan para “The Guardian”

Dugna Woyessa era um menino quando a seca devastou seu país pela primeira vez. No início da década de 1970, enquanto as colheitas fracassavam nas regiões da Etiópia afetadas pela seca, e sua escola transformava uma sala de aula em um depósito de grãos para que os agricultores pudessem enviar ajuda, ele não fazia ideia de que os cientistas estavam começando a conectar a força que ressecava os campos com as mudanças cíclicas nos ventos alísios, que há muito intensificavam os eventos climáticos violentos da América do Sul à Austrália.

O agora notório El Niño – que em espanhol significa “menino”  recebeu esse nome de pescadores do Pacífico no século XIX, mas foi somente na década de 1970 que os cientistas compreenderam sua natureza global e começaram a reconstruir o impacto histórico desse padrão climático natural, caracterizado por anos quentes e extremos brutais.

O El Niño de 1972-73 aqueceu as águas peruanas a níveis que levaram ao colapso da maior pescaria de anchova do mundo – o que levou cientistas a realizarem a primeira previsão sobre o seu estado no ano seguinte – e trouxe uma seca severa para o sul da Ásia, o Sahel e partes da África Oriental, às vésperas de uma crise do petróleo que agravou a fome global. Na Etiópia, os protestos contra a forma como o imperador lidou com a fome contribuíram para um golpe militar que instaurou uma ditadura comunista.

Um homem segura dois tubarões-martelo que pescou em um terminal de pesca.

Dois tubarões-martelo capturados em Lima, em 1997. Peixes de água quente foram atraídos pelas águas peruanas aquecidas pelo El Niño. Fotografia: Ricardo Choy Kifox/AP

“O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais desafiadores”, disse Woyessa, que se tornou epidemiologista no Instituto Etíope de Saúde Pública e estudou seus efeitos sobre as epidemias de malária . “A nutrição é fundamental para a capacidade de resistir aos desafios dos seus impactos negativos na saúde humana.”

Com muita frequência, porém, o que o El Niño tira é da nutrição, justamente daqueles que mais precisam. Woyessa estava no ensino médio quando um El Niño mais forte atingiu a região uma década depois, em 1982-83, obrigando alguns de seus colegas a viajar 150 km para ajudar nas colheitas em fazendas estatais. Em seu primeiro ano de universidade, novas quebras de safra e a guerra civil agravaram a fome generalizada, transformando-a em uma crise ainda mais devastadora, que atraiu a atenção mundial por meio do concerto Live Aid . Woyessa e seus colegas se revezavam para ajudar as pessoas em abrigos perto da universidade. “Recebíamos dois pães pela manhã e tínhamos que dividir o café da manhã.”

Uma menina coleta água no rio Shabelle, em Gode, Etiópia, em 2022, quando a seca levou 20 milhões de pessoas à beira da fome. Fotografia: Eduardo Soteras/AFP/Getty Images

Este ano, o El Niño está de volta – e os cientistas temem que ele se assemelhe mais a um adulto do que a um menino. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) afirmou que as condições do El Niño se formaram no Pacífico na semana passada e que há 63% de chance de que ele atinja um pico “muito forte” perto do final do ano. O Departamento de Meteorologia da Austrália seguiu o exemplo na terça-feira, alertando que o fenômeno agravará o calor extremo e os incêndios florestais que assolam o país todos os anos.

Alguns cientistas o apelidaram informalmente de El Niño “super” ou “Godzilla”, com base na magnitude esperada da anomalia de temperatura, que elevará o calor global em um momento em que eventos climáticos extremos, como as recentes ondas de calor e tempestades na Europa , estão testando os limites da capacidade de resposta da sociedade. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) usou uma linguagem mais cautelosa ao nos alertar para a possibilidade de seu retorno no início deste mês, argumentando que a grande dispersão nos resultados dos modelos tornava prematuro prever sua intensidade.

Espectadores do Aberto da França de 2026, em Paris, se refrescam em um posto de pulverização de água durante uma onda de calor. Fotografia: Benoît Tessier/Reuters

Em março, o Fundo Monetário Internacional alertou que cerca de metade dos 68 países mais pobres do mundo enfrentam dificuldades com a dívida ou correm alto risco de enfrentá-las. Além disso, a guerra com o Irã levou a altos preços da energia e à restrição do fornecimento de fertilizantes, o que enfraqueceu as reservas contra choques climáticos. Este mês, a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome projetou que entre 115 e 125 milhões de pessoas precisarão de assistência alimentar urgente até dezembro, com riscos de fome no Sudão, Sudão do Sul e Somália. O corte drástico na ajuda externa dos EUA e a redução dos orçamentos de desenvolvimento europeus significam que menos apoio poderá chegar quando as crises ocorrerem.

Na quinta-feira, a ameaça representada pelo El Niño levou o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) a lançarem seu primeiro apelo conjunto por fundos para evitar uma crise antes que ela aconteça. Citando pesquisas que mostram que cada dólar gasto em “ação preventiva” economiza sete dólares em custos de ajuda humanitária, as agências afirmaram que precisavam de US$ 167 milhões dos US$ 202 milhões necessários para ajudar 8,8 milhões de pessoas com sementes resistentes à seca, defesas contra inundações, sistemas de armazenamento de água e transferências de dinheiro.

Mulheres do grupo étnico Murle aguardam na fila para receber distribuição de alimentos.

Mulheres da etnia Murle fazem fila em um centro de distribuição do Programa Mundial de Alimentos em Gumuruk, Sudão do Sul, em 2021, onde o conflito armado agravou a escassez de alimentos. Fotografia: Simon Wohlfahrt/AFP/Getty Images

A boa notícia, se é que existe alguma, é que não se espera que o El Niño leve a piores resultados para as colheitas em escala global, já que os ganhos em algumas regiões normalmente compensam as perdas em outras, mas os perdedores incluirão aqueles com menos condições de lidar com a situação. Muitos dos países africanos e asiáticos mais expostos também foram duramente atingidos por choques nos preços dos fertilizantes e apresentam alguns dos maiores níveis de dependência de importação de alimentos e endividamento, afirmou Anne Jellema, diretora executiva da 350.org, um grupo de campanha climática. “Isso significa que o El Niño elimina o último recurso doméstico para pessoas que não conseguem acessar os mercados, que cada vez mais não conseguem obter ajuda humanitária e que não podem se locomover livremente.”

Os impactos também serão sentidos no mundo desenvolvido, à medida que o El Niño traz ondas de calor mais intensas e uma disseminação mais ampla de algumas doenças transmitidas por vetores. Sua chegada “persistentemente” retarda as melhorias na mortalidade, mesmo em países ricos como os EUA, Austrália, Japão e Coreia do Sul, de acordo com um estudo publicado em janeiro na revista Nature Climate Change.

Um trabalhador lança feixes de mudas de arroz para o ar antes de transplantá-las para um arrozal alagado.

Plantação de arroz em Srinagar, na região de Jammu e Caxemira administrada pela Índia, em 2026, em meio a temores de que a guerra com o Irã eleve os custos de fertilizantes, combustível e transporte. Fotografia: NurPhoto/Getty Images

Em certa medida, os danos causados ​​pelo El Niño foram controlados nas últimas décadas por um certo nível de previsibilidade – mas ele oferece uma amostra dos horrores em cascata que os cientistas climáticos alertam que desestabilizarão as sociedades à medida que o planeta aquece.

Agravados por tensões geopolíticas, preços elevados de energia e fertilizantes e cadeias de abastecimento frágeis, os choques relacionados ao El Niño podem estar “aumentando a probabilidade de impactos sistêmicos compostos e não lineares”, alertou um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia na segunda-feira, com efeitos em cascata que abrangem todos os setores econômicos ligados ao mundo natural.

“Um possível caminho de transmissão seria desde secas, inundações e estresse térmico afetando a produção agrícola, a produtividade do trabalho, a disponibilidade de água, a geração de energia hidrelétrica e os sistemas de transporte, até preços mais altos de alimentos e energia, pressão inflacionária, estresse fiscal e menor capacidade de pagamento dos mutuários”, escreveram os autores.

Será possível evitar tais calamidades no próximo ano? O El Niño não precisa ser “uma receita para o desastre”, segundo a OMM (Organização Meteorológica Mundial), que afirmou que suas previsões são mais um apelo à ação antes que os riscos se transformem em crises. Sua secretária-geral, Celeste Saulo, instou o mundo a intensificar os esforços para construir sistemas de alerta precoce para múltiplos riscos, já que apenas 128 países relatam possuir tais sistemas.

Enquanto isso, ativistas climáticos têm defendido o cancelamento da dívida do Sul Global e o financiamento de proteções sociais por meio de impostos sobre os lucros extraordinários das empresas de petróleo e gás, em vez de financiar combustíveis fósseis. “Há muitas pesquisas que mostram que a proteção social direcionada é muito mais eficaz do que subsidiar combustíveis fósseis e fertilizantes, porque chega às pessoas que mais precisam”, disse Jellema.

Pessoas aguardam em uma longa fila para comprar gás liquefeito de petróleo.

Em março deste ano, em Calcutá, na Índia, pessoas aguardam para comprar gás liquefeito de petróleo (GLP), em meio a interrupções no fornecimento e controles sobre as importações de gás devido ao conflito no Oriente Médio. Fotografia: Debajyoti Chakraborty/NurPhoto/Shutterstock

António Guterres, cujo mandato como secretário-geral da ONU termina no final deste ano, tem feito apelos igualmente desesperados aos líderes mundiais há anos, implorando-lhes que abandonem a dependência dos combustíveis fósseis, que tem impulsionado o superaquecimento do planeta e a degradação do mundo natural. O mundo aqueceu cerca de 1,3°C desde a Revolução Industrial, e as temperaturas estão subindo tão rapidamente que os piores anos do El Niño no passado recente – como 1997-98 – são muito menos quentes do que os anos atuais, em que o sistema muda para La Niña, seu equivalente mais frio.

Para Woyessa, o aumento das temperaturas e o desmatamento perturbaram os padrões de chuva, mesmo ao redor da aldeia onde cresceu. O rio em que costumava nadar quando menino foi reduzido a um pequeno riacho, e a chuva, da qual as gerações anteriores dependiam para o plantio, tornou-se irregular. Ele acrescentou que, quando telefonava para o falecido pai, perguntar sobre a chuva era uma forma típica de iniciar uma conversa.

“A principal preocupação é a mudança na época das chuvas”, disse ele. “O início delas mudou completamente em comparação com a minha infância.”


Fonte: The Guardian

El Niño está de volta e o planeta pode estar às portas de um novo período de extremos climáticos

Análise publicada por Marshall Shepherd na Forbes alerta que o aquecimento do Pacífico poderá evoluir para um evento intenso, agravando secas, enchentes, incêndios florestais e a insegurança alimentar em um planeta já superaquecido pelas mudanças climática

A confirmação oficial da formação de um novo El Niño no Oceano Pacífico não representa apenas uma mudança cíclica do sistema climático. Segundo análise do climatologista Marshall Shepherd, publicada na revista Forbes, os indicadores atuais sugerem que o fenômeno pode evoluir para um evento de grande intensidade, com potencial para alterar profundamente padrões de chuva, temperatura e ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do planeta.

As projeções mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) apontam uma probabilidade elevada de que o episódio de 2026-2027 figure entre os mais fortes desde o início dos registros sistemáticos, em 1950. Essa possibilidade é especialmente preocupante porque o El Niño se desenvolve sobre um planeta que já apresenta temperaturas médias recordes devido ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa. Em outras palavras, a variabilidade natural do clima passa a atuar sobre uma nova linha de base muito mais quente, potencializando seus efeitos.

Marshall Shepherd destaca que o fenômeno não deve ser visto como uma simples curiosidade meteorológica. O aquecimento anormal das águas do Pacífico modifica a circulação atmosférica global e desencadeia uma cascata de impactos: secas severas em algumas regiões, chuvas torrenciais em outras, ondas de calor mais intensas, incêndios florestais, perdas agrícolas e alterações importantes nos ecossistemas marinhos.

Para o Brasil, os sinais merecem atenção redobrada. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados à redução das chuvas na Amazônia e no Nordeste, ao aumento do risco de queimadas e ao comprometimento dos recursos hídricos, enquanto a região Sul pode experimentar precipitações muito acima da média e enchentes de grandes proporções. Essas mudanças afetam diretamente a produção agrícola, a geração de energia hidrelétrica, o abastecimento urbano e a biodiversidade.

O aspecto talvez mais importante da análise de Shepherd é o reconhecimento de que o El Niño não atua isoladamente. Seus efeitos são amplificados pelo aquecimento global antropogênico, criando uma combinação particularmente perigosa. A energia adicional acumulada nos oceanos e na atmosfera funciona como combustível para eventos extremos mais frequentes e intensos, tornando mais vulneráveis justamente as populações que dispõem de menos recursos para adaptação.

Esse cenário também lança luz sobre a fragilidade dos sistemas alimentares globais. Alterações simultâneas nos regimes de chuva de grandes regiões produtoras de grãos, associadas a ondas de calor persistentes e incêndios florestais, podem provocar perdas significativas de produção e aumentar a volatilidade dos preços internacionais dos alimentos. Países em desenvolvimento e populações de baixa renda tendem a suportar o maior peso dessas transformações, ampliando desigualdades já existentes.

Há ainda um aspecto político que merece destaque. Embora a ciência venha alertando há décadas sobre o aumento da frequência e da intensidade dos eventos climáticos extremos, grande parte dos governos continua investindo pesadamente na expansão da exploração de petróleo, gás e carvão, aprofundando justamente o problema que torna fenômenos como o El Niño cada vez mais destrutivos. O resultado é um círculo vicioso em que a sociedade paga duas vezes: primeiro pelos impactos da crise climática e depois pelos elevados custos econômicos e sociais da adaptação e da reconstrução.

Assim, mais do que acompanhar a evolução das temperaturas do Pacífico, é fundamental compreender que o possível fortalecimento do El Niño constitui um alerta sobre os limites do atual modelo de desenvolvimento. Se as previsões se confirmarem, o planeta poderá enfrentar, nos próximos meses, uma combinação particularmente perigosa de extremos climáticos, insegurança alimentar, perdas econômicas e agravamento das injustiças ambientais. Ignorar esses sinais significará aceitar que eventos cada vez mais severos deixem de ser exceções para se tornarem parte permanente da nossa realidade.