Dois pesos e duas medidas: como contar meias verdades para dizer uma mentira inteira

Por Douglas Barreto da Mata 

Ao longo de minha carreira policial, em sua maior parte dedicada à investigação, aprendi alguns truques, que somaram um pouco na tarefa de observar pessoas e fatos. Alguns cientistas políticos, sociais e especialistas em marketing conhecem a esperteza, que também é recorrente em alguns depoimentos de investigados. A pessoa conta uma versão do fato, adiciona detalhes e circunstâncias reais, para omitir a verdade no principal. O objetivo, por óbvio, é confundir a percepção do interlocutor, e fazer prevalecer a fraude.

Na mais nova disputa política entre as forças antagônicas do cenário, os Bacellar e os Garotinho, tudo parece o de sempre. Uma briga mesquinha e inútil. Bem, você pode concordar ou não com essa tese. Eu não concordo.

Primeiro, é preciso acabar com essa história de desqualificar a disputa política, por mais chata e repetitiva que ela pareça. A alternativa para a solução de conflitos, quando não é política, é a violência. Ninguém deseja um faroeste cabrunco por votos. Agora, se vamos discutir os objetivos de cada grupo, seus feitos e desfeitos, erros e acertos, isso é outra coisa, e os militantes dos dois grupos DEVEM se dedicar a essa tarefa, e no fim, o eleitor deve decidir. A desqualificação da disputa política serve para jogar todos em uma vala comum, e para igualar atos e consequências dos dois lados, como se todos agissem da mesma maneira. Não. Não agem.

Mais uma vez, goste o leitor ou não de Wladimir Garotinho, colocar o gesto dele, de gravar um vídeo onde expressa que não apoiará o conterrâneo na corrida estadual ao governo do Estado, nunca pode ser comparado com as deliberadas retenções de verbas da saúde, a paralisação de obras em estradas, sobrecarregando a cidade de carretas de 50, 60 toneladas, ou enfim, a interrupção de obras em bairros, deixados como se tivessem sido atingidos por um bombardeio.

Desconsiderar que só restou ao prefeito local a manifestação de sua rejeição ao deputado candidato, e que essa atitude não poderá nunca ser igualada a sonegação de recursos, que servem para atendimentos médicos, cuja ausência pode matar pessoas, é ou má fé ou burrice. Seja lá o que for, o resultado é o mesmo.

De mais de 200 milhões para zero, ou a depender de quem conta, para 14 milhões é um acinte. Tanto que a Justiça decidiu bloquear e transferir 9 milhões para o município desde a conta do Estado. Ou seja, se não houvesse sentido ou verdade na reclamação do prefeito, a Justiça negaria seu pleito. Principalmente, porque a lógica ensina que nenhum prefeito do mundo reclamaria ou abriria confronto com alguém que lhe concedesse recursos.

Quem acompanha a cena recente já ouviu vários agradecimentos do prefeito local ao governador. Sim, mas gratidão não é rendição incondicional, ou submissão. Ensinam os protocolos da boa política que apoio não se consegue por chantagem. Enfim, o que temos é, um candidato a governador, que deve suceder o atual, pós renúncia, pretendente a reeleição que detém e retém recursos que não são favores a cidade de Campos dos Goytacazes, e que são devidos por serviços de saúde prestados em auxílio a diversos municípios vizinhos.

No outro canto, um prefeito e seu discurso, que não bloqueia estrada, não esburaca o bairro, nem deixa paciente sem atendimento. É de bom tom separar e dar a cada um a responsabilidade que cada um tem, caso contrário, estaremos contando meias verdades.

Eleições 2026 para o governo do Rio de Janeiro: cenário bem mais indefinido do que anunciam os oráculos de bancada

Por Douglas Barreto da Mata

]Tem muita gente dizendo que Wladimir Garotinho está “variando” das ideias, quanto se coloca entre o rochedo e o mar, isto é, no meio da disputa entre o prefeito carioca, Eduardo Paes, e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar.

Eu acrescentaria nesse jogo o “tubarão” Washington Reis, patriarca de um dos clãs mais poderosos do Estado. Pode ser que sim, pode ser que não.  Dizem alguns que o “limite é uma fronteira criada só pela mente”, citando o rapper Mano Brown.

O fato é que analisando por um ângulo específico, a partir do que disseram as pesquisas de opinião divulgadas hoje, pelo Instituto Paraná, há muita coisa a ser definida, apesar dos números apontarem um favoritismo esmagador do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, em relação ao presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar.

Se o presidente da Alerj receber o apoio de Jair Bolsonaro e família, as coisas vão se alterar, mas talvez não como espera o deputado estadual. Explico.  Não é novidade para ninguém que alguns quadros importantes, dentre eles o pastor Silas Malafaia, só para citar um nome, resistem em apoiar o deputado.

Quem se der ao trabalho de ler uma parte das hostes digitais do bolsonarismo, acerca da sucessão fluminense, vai ler cobras e lagartos dos bolsonaristas de carteirinha sobre o deputado Rodrigo Bacellar.  A história recente mostrou que o movimento bolsonarista tem oscilado, e não parece sempre caminhar na mesma direção, e o caso mais proeminente foi o “apoio” ao prefeito paulista, que concorreu à reeleição.

Essa dubiedade no “apoio” quase custou o cargo ao prefeito Nunes.  Boa parte desses eventos tem a ver com o próprio destino de Jair Bolsonaro, tornado inelegível, o que altera significativamente as estratégias eleitorais, afinal, o bolsonarismo enfrenta um paradoxo:  se o bolsonarismo derrotar Lula em 2026, com Tarcísio ou outro nome, como ficará Jair Bolsonaro?  Tarcísio presidente significa 08 anos, em tese, com outra configuração de poder, apesar da suposta lealdade entre ambos.

Então, eleições em estados-chave, como os do sudeste, devem ser acompanhadas com lupa pelo campo da direita. Apesar do foco sempre ter sido o Senado, para os pretendidos enfrentamentos com o STF, a questão é que as máquinas estaduais controlam cargos, recursos e muito mais importante, as polícias estaduais, que estão no eixo central do debate político, já que a agenda da segurança pública foi alçada a preocupação principal do eleitor.

No Rio de Janeiro, talvez mais que em São Paulo, o uso da segurança como bandeira política é essencial aos bolsonaristas. Então, a eleição de governador com um candidato que patina em 10%, e pior, em um cenário atual onde um pouco mais de 80% não têm candidato a governador, não é exagero dizer que o novo governador pode ainda não ter aparecido nas sondagens.

Outros lembram que Paes tem um péssimo histórico de derrotas que o assemelham ao Celso Russomano, que ficou conhecido como “cavalo paraguaio paulista”, pois sempre largava disparado na frente, e “morria na praia”.  Essa eleição fluminense, enfim, pode ter dois candidatos, um de direita e outro de centro que vão tentar, sem sucesso, angariar votos bolsonaristas.

A rejeição de Rodrigo Bacellar e de Eduardo Paes nessa faixa de eleitorado bolsonarista pode abrir campo para um terceiro candidato, justamente aquele que Washington Reis afirmou que não convidou, mas que parece que o ex-prefeito de Caxias não tira da cabeça como opção para a inelegibilidade dele próprio, Washington Reis: o prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho. O prefeito campista é assumidamente de direita, é evangélico, e transita com facilidade no terreiro de Eduardo Paes, mais ao centro, e não tem, como Paes vínculo com Lula, que no Rio tira mais votos que dá.

Ao mesmo tempo, Rodrigo Bacellar é detestado por boa parte dos bolsonaristas, como já dissemos, e pior, carregará uma parte da rejeição do governador que lhe apoia, e que lhe entregará um governo mal avaliado. Parece certo que haverá um montante enorme de “votos perdidos”. Talvez essa seja a brecha que setores do PL, Washington Reis e outras forças tenham enxergado para embaralhar o jogo. Adicionando nessa mistura, o ótimo resultado de Clarissa Garotinho para o senado, que dá ao irmão mais musculatura para articular sua entrada no páreo.

Assim, o que pode ter começado como uma “brincadeira”, ou tenha parecido “maluquice”, tem uma chance razoável de se tornar real. Afinal, a diferença entre a “loucura” e uma vitória espetacular não é apenas o resultado, mas antes, a ousadia da tentativa.

Venezuela e a volta dos intelectuais consentidos

midia-manipuladora

Um dos aspectos que de tempos em tempos noto neste blog é a existência de um tipo de personagens que possuem treinamento acadêmico e são tolerados pela mídia corporativa nacional e local por expressarem o mesmo tipo de conservadorismo emperdenido que caracteriza também os donos dos veículos que lhes dão voz. São o que eu caracterizo de “intelectuais consentidos’.

Alguns dos personagens aceitos nacionalmente incluem o ex-esquerdista Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé, mas também existem aqueles que circulam na mídia local, até porque seus currículos acadêmicos magérrimos só os habilita para o consumo digno das províncias.

O último episódio que está assanhando os intelectuais consentidos são os resultados das eleições presidenciais na Venezuela. Esses intelectuais consentidos estão não apenas reproduzindo a retórica vinda dos centros de poder ocidental, mas se omitindo em fazer qualquer análise sobre as condições em que esse processo se deu, visto que a Venezuela se encontra sob pressão das sanções econômicas ditadas pelos EUA e seguidas por um grande número de países europeus.

Particularmente não nutro simpatia por Nicolas Maduro, mas não há como ignorar qual é o tipo de oposição com que ele se debate. Se olharmos o passado imediato da situação venezuelana, veremos que o mesmo tipo de cantilena sendo para tentar emplacar  Edmundo González como presidente já foi usada para fazer o mesmo com o agora irrelevante Juan Guaidó.

O interessante é que quando os intelectuais consentidos falam sobre a Venezuela temos sempre chamados em prol de um tipo democracia que é hoje apenas uma miragem.  Esse clamor democrático não se vê, por exemplo, em relação ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy que adiou eleições e se manteve no poder sem que se veja a mesma rotulação de ditador que se aplica a Maduro.  A grande diferença aparente é que Zelenskyy, que baniu a maioria dos partidos que lhe faziam oposição, é chancelado pelos mesmos países que querem impor González  na Venezuela.

Por essas e outras é que temos que sempre desconfiar do fervor democrático seletivo dos intelectuais consentidos. É que esse fervor seletivo serve apenas para esconder uma adesão às ideias que percolam dos centros decisórios que manipulam a democracia sempre que necessário para impor interesses estratégicos das grandes empresas monopolistas.

Uma pergunta muito simples pode ajudar a compreender certas análises consentidas: qual é o programa de governo que Edmundo González propõe para a Venezuela? E sobre as famigeradas guarimbas, alguma coisa a dizer? Nesse caso, só se ouve o mais profundo silêncio.

Uenf e a disseminação de fake news: o que há de novo sob o sol de Parador?

uenf fn

Desde a última 6a. feira (13/7) a comunidade universitária da Uenf permanece imersa em um debate que foi iniciado por anúncio feito pela reitora Rosana Rodrigues de que uma denúncia anônima sobre um suposto caso de assédio sexual seria uma espécie de prova de que estamos sob a influência de uma campanha fake news (ou em português, notícias falsas). 

Essa associação entre uma denúncia anônima que teria sido colocada em um banheiro no andar em que a reitora possui seu gabinete e uma campanha de fake news contra a Uenf foi materializada pela apresentação de uma proposta de moção de repúdio proposta na reunião do Conselho Universitário, e que ainda está por ser tornada pública.

Particularmente mantenho reservas sobre a associação que está sendo feita pela reitoria da Uenf entre denúncia anônima e uma campanha orquestrada para a criação e disseminação de fake news. Por que digo isso? É que este blog foi o primeiro espaço público a tratar do uso de fake news dentro da Uenf, ainda no mês de abril de 2023. Logo no 1o. de abril,  escrevi uma postagem dando conta do risco de que as eleições que ocorreriam no segundo semestre para eleger o novo reitor da universidade fossem marcadas por uma intensa campanha de fake news.

A postagem de abril funcionou como uma espécie de premonição, pois a campanha eleitoral para a reitoria acabou efetivamente sendo maculada pelo uso explícito de fake news contra a chapa formada pelos professores Carlos Eduardo de Rezende e Daniela Barros. A situação chegou a tal ponto que o professor Rezende teve que produzir uma série de vídeos para explicar o que não pretendia fazer o que as “fake news” diziam que ele estaria pretendendo fazer, caso fosse eleito. Analisei aquela situação em nova postagem que foi publicada em agosto de 2023.

Há que se dizer que os membros da chapa derrotada foram ainda alvo de uma intensa campanha que grassou livre nas redes sociais e mais livremente ainda em grupos de Whatsapp que contribuíram diretamente para que eles tivessem que passar muito tempo se explicando em relação a uma série de mentiras deslavadas (ou seja, fake news) que implicaram em um forte desgaste pessoal para Carlos Rezende e Daniela Barros, e também, obviamente, em suas chances eleitorais.

Logo após as eleições vencidas pela chapa formada pelos professores Rosana Rodrigues e Fábio Olivares, voltei a abordar os problemas que marcaram as eleições para a reitoria da Uenf no dia 21 de setembro de 2023, quando analisei as atividades de um perfil na rede social Instagram que se intitula “Uenfspotted“. Naquela postagem em específico, tratei de uma “boca de urna” eletrônica que teria sido feita com indicações óbvias de que fora feita mais para influenciar do que para captar preferências.

Pois bem, como procurei demonstrar em minhas postagens ao longo de 2023 foi que eleições que deveriam ter sido marcadas por um debate calcado apenas em compromissos com a consolidação de uma universidade dentro de padrões democráticos foram, na verdade, mais um palco para o uso de ferramentas que utilizaram esquemas que visavam claramente manchar reputações a partir do uso explícito de fake news.

O curioso é que nem no momento ou depois das eleições se viu por parte da reitoria da Uenf, a denúncia de fake news como algo que estaria ameaçando a manutenção de um “ambiente universitário saudável, ético e baseado na verdade”. Em relação ao que ocorreu durante as eleições, o silêncio foi próprio daquele que ocorre em ambientes repletos de sepulcros.

Mas vá lá, como uma pessoa otimista que sou, a minha expectativa é que agora a reitora e o vice-reitor da Uenf tenham acordado para o risco posto pela disseminação de fake news em um ambiente universitário. E mais ainda que  também cuidem de apurar eventuais denúncias de assédio (em todas as suas formas) com o devido rigor e que punam os eventuais responsáveis nas formas previstas pela lei.

 

Um mistério da meia noite: A Uenf e sua profusão de pré-candidatos a vereador para eleições municipais de 2024

misterio da meia noite

O Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro trouxe hoje a liberação de quatro servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf)  para participação da campanha eleitoral de 2024, incluindo aí um ex-reitor e um líder sindical em atividade. Mas além desses quatro servidores, já se tem notícia de pelo menos mais duas candidaturas de personagens ligados à universidade criada por Darcy Ribeiro (incluindo um ex-líder do DCE e ainda atual presidente da Associação de Pós-Graduando).

Em minha vivência de quase 27 anos dentro da Uenf, não me recordo de tantos candidatos associados de um jeito ou de outro à esta universidade.  Esse alto número de virtuais candidatos a vereador poderia indicar que vivemos uma espécie de ápice da mobilização política e que essas candidaturas refletem alguma decisão coletiva de colocar a Uenf em um novo patamar de abertura às coisas do mundo, em uma espécie de conversão a uma relação mais democrática com a população. Aliás, desconfio que vai ter candidato usando esse argumento como elemento programático.

Entretanto, como alguém que vivencia o cotidiano da instituição, penso que qualquer associação feita à Uenf por esses candidatos será algo que refletirá mais um ato de vontade do que uma expressão das relações políticas estabelecidas dentro da Uenf. 

O fato é que lembrando um discurso em que John F. Kennedy dizia para que os jovens estadunidenses parassem de perguntar o que o seu país poderia fazer por eles e começassem a se perguntar o que poderiam fazer por ele, eu diria que algumas dessas candidaturas refletem trajetórias de personagens que mais usaram a Uenf em benefício próprio do que contribuíram para a construção dela enquantoa universidade estratégica que Darcy Ribeiro e Leonel Brizola esperavam. 

Cabe lembrar que esse tipo de apropriação partidária da Uenf era um dos grandes temores de Darcy Ribeiro que postulava a necessidade da universidade brasileira se livrar do que ele entendia ser usos inapropriados para fins corporativos.  Felizmente o criador da Uenf não está mais entre nós para se certificar de que uns dos seus temores pode ter se confirmado de uma forma contundente.

Uma questão que inevitavelmente surgirá em relação a essa pleiade de candidatos e sua viabilidade eleitoral.  Se considerarmos o tamanho da comunidade universitária e aqueles aptos a votar, as chances serão baixas, especialmente porque uma parte significativa aparece como estando associada ao Partido dos Trabalhadores  (PT) que sabemos há muito tempo não elege um vereador que seja.

Mas se as chances de eleição são baixas, quais são as razões para tanta pré-candidatura? Esse é o que poderíamos chamar, lembrando de uma famosa música de Zé Ramalho, de um mistério da meia noite.

Quem paga pelas apostas do Lula?

lula dança

Por Douglas Barreto da Mata

Apesar de todas as minhas críticas, algumas com tom até deselegante, reconheço, uma coisa não se pode subtrair da biografia de Lula:

Sua incrível capacidade de perceber o ambiente ao seu redor, e de tomar decisões para influir nesse ambiente.

A despeito dos chavões e lugares comuns acerca da sua origem, e o quão inédito seria um migrante de pau de arara possuir tais “dons”, como se inteligência e sabedoria para viver fossem qualidades exclusivas dos ricos e letrados (mito despedaçado na ótima obra de Suassuna, O Auto da Compadecida), o fato é que o “baiano” (como era pejorativamente apelidado nos tempos de ABC) é um cabra arretado, quando se trata de sobreviver e mudar a realidade.

Talvez por isso, justamente por isso, que eu seja tão ríspido com ele, porque se ele fosse um imbecil qualquer, eu diria: “está dentro do previsto”.

Se fosse um FHC estava tudo certo, não dava para esperar muito daquele sujeito mesmo.

Mesmo toda essa genialidade política de Lula não o salvou de si mesmo.

Explico:  Lula, como todo líder genial e carismático, é ameaçado constantemente pela sua própria figura, e Lula sendo Lula, com sua origem e sua carreira política, tende a ser massacrado pelas elites, e cobrado por sua base social.

O assédio das elites é auto explicativo, ainda que Lula tenha passado boa parte de seus anos e anos de vida pública tentando convencê-los de que é “confiável”.

Já o descontentamento da sua base social é diretamente ligado ao cumprimento ou a frustração das expectativas que ele mesmo, Lula, criou em torno de si.

Então, aqui um momento de pausa dramática:

Lula não é vítima, não é um coitado incompreendido que sofre por ser rejeitado pelos ricos, e acossado pelos mais à esquerda que ele, e/ou pelos pobres e classe média ingratos, como alguns querem acreditar.

Nem tampouco, é um refém da “governabilidade” ou de um tipo de fatalismo que o coloca como um boneco imóvel no cargo que ocupa.

Seu incômodo é resultante da conta política que ele fez, ao pretender ser o eterno conciliador, e com o seu sonho de ser um JK mais contundente, ou um Vargas menos autoritário. Não deu, não foi nem uma coisa, nem outra.

Por certo, não dá para colocar a culpa só nele, sim, há contingentes históricos poderosos, mas o fato que ele é a variável principal dessa equação, inclusive para alterar a realidade que o cerca.

Nesse quesito, Lula falhou ao se adequar a esta realidade, sem ao menos tentar propor um debate de desconstrução, de ineditismo institucional, e limitou-se a fazer o permitido, e mesmo assim, teve sua sucessora golpeada, com a mão de Obama que lhe deu tapas nas costas, e que cuja administração cevou e treinou os golpistas de togas e anéis de doutores que o prenderam.

Lula renunciou ao seu fazer histórico, que pode ser (mal) definido como a nossa capacidade de entender que há coisas que nos cercam, e nos empurram para uma direção, mas que há espaço para que assumamos certo controle para mudar estas coisas.

Ceder (sempre) à “governabilidade” é uma postura cretina, porque Lula sabe que a “governabilidade” é um saco sem fundo, que se alimenta do medo dos que não querem perdê-la, enquanto ela pede mais e mais concessões.  Lula é assim, um desperdício, um desperdício calculado, porém.

Agora, nesse triste episódio no Rio Grande do Sul (RS), que era mais previsível e certo que a morte e os impostos, Lula faz uma aposta.

Como não conseguiu definir no seu terceiro mandato qualquer agenda política viável, nem mesmo a defesa de seu mandato, quando bárbaros assistidos, carinhosamente, por militares vandalizaram Brasília, Lula “entregou” a pauta à uma “defesa da democracia” para o judiciário.

O judiciário que anos antes alimentou esse mesmo pessoal, quando se omitiu na cassação de Dilma, e o sequestrou na sede da Polícia Federal no Paraná

Os militares? Bem, os militares acolheram de volta dos vândalos, logo depois dos crimes, em flagrante associação ou bando (Artigo 288 do Código Penal), e mesmo assim, nada. A cena de blindados das forças armadas impedindo os policiais de efetuarem prisões dos acampados (em frente ao Comando Militar) é o retrato trágico do governo Lula, que desde ali seria marcado para sempre, como está.

Dúbio, fraco, acovardado, acossado.

No RS, Lula enxergou a sua possibilidade de recuperar terreno.  No Rio de Janeiro também.

Está em andamento uma estratégia que passa pela cassação do governador e dos seus aliados, e Lula imagina que o PT seria maior beneficiado, ao mesmo tempo que força Eduardo Paes a “convidar” um petista para a vice na chapa à prefeitura neste ano, pois desse modo, o PT herdaria a prefeitura em 2026, quando Paes renunciaria para concorrer ao governo do estado.

Como uma parte das grandes forças não sobreviverá no RJ para concorrer ao cargo de governador tampão nestas eleições extraordinárias, com a cassação do governador, vice e presidente da Alerj, o PT apresentaria um candidato em condições de se eleger, e tentar a reeleição em 2026, ou ceder a vaga para Paes, em uma acordo que garantiria a vice-governadoria para o PT (e espaço no governo), além de uma vaga na chapa de senador.

Pois bem, no Sul a jogada de Lula parece ser outra.  É emotiva, é a pieguice com a qual Lula imagina dominar a cena. Os vídeos de Lula beijando e abraçando as pessoas no abrigo, com o fotógrafo onipresente Stuckert ensaiando os desabrigados para o melhor “take” destruíram até essa coisa cafona, porém genuína de Lula, o seu trato com os mais pobres. Ficou feio.

Esta mesma pieguice cafona, que contaminou a todos, que parece ser um fetiche do Brasil caboclo pelos seus compatriotas de sangue europeu e olhos azuis, se materializou em uma “semi intervenção” federal, com a criação de um ministério da reconstrução. Como assim? O resto do país perguntará? Está tudo certo nas terras da Amazônia? No Cerrado? No Nordeste?

Será que essas regiões precisam se auto imolar para que tenham tamanha atenção? Ué, não é o “agro” a solução de tudo?

Por que um estado que se orgulha de sua incansável capacidade de gerar riquezas, dentro da narrativa da herança de organização rigorosa alemã e italiana, de uma ética de perfeição, frente a um país de mamelucos preguiçosos e corruptos, não conseguiu impedir o cataclisma, e pior, não conseguiu planejar como sair do lamaçal onde eles mesmos se meteram?

Por que um dos estados mais “agro” do país não consegue se reerguer com as suas próprias pernas, sendo certo que os estragos foram muito mais violentos, justamente, por causa da devastação causada por essa atividade econômica?

Não seria justo debater que este setor ajude a pagar a conta com impostos de reparação?

Não seria papel do líder máximo do país ajudar, principalmente os mais pobres, e simultaneamente cobrar responsabilidades dos ricos que causaram a tragédia, ou ao menos, concorreram fortemente para que ela acontecesse?

Lula tenta suprir sua carência de afeto, alimento principal dos líderes carismáticos, com a exploração rasteira de um fenômeno que um governo chamado de esquerda, ou progressista, ou vá lá, responsável, deveria estudar, debater e propor saídas, sem repetir as velhas fórmulas popularescas de crianças no colo, algum dinheiro nas contas, e bilhões para empresas e contratos.

Até quando Lula vai seguir matando Lula?

Silêncio sepulcral nos Pampas, onde até o Minuano virou tornado.

Ciência, pós -verdade e as eleições na UENF

pos-verdade

Por Luciane Soares da Silva

Importante esclarecer que não estudo economia, sistemas bancários, transações globais, golpes dados por grandes bancos ou inflação. O que me interessa é o aspecto antropológico da circulação de pessoas, mercadorias e crenças sociais sobre valor. Estudo mudança social e trânsitos. Em alguns momentos podem ser possessões e transes dependendo da ótica adotada.

Minha curiosidade endereçada aos meus alunos, ao mundo universitário, ao sistema político do qual participo e aos meus pares é objetiva mas exige o cruzamento de dois temas que podem frequentemente estar relacionados: a pós verdade e as fake news. Seria possível que pessoas aparentemente comuns, com condições de discernimento e em processo de formação aderissem ativamente a esquemas de pirâmide, golpes afetivos e mentiras capazes de alterar eleições e a vida política de instituições acadêmicas?

Algo que me interessa em pesquisa é “abrir as tripas” de fenômenos largamente comentados, transformados em conceitos e cujas consequências têm implicações concretas na vida de terceiros. Podem levar a demissões, separações, instaurar julgamentos cibernéticos, ameaças físicas e em casos raros, violência física e morte.

Temos visto isto em sites de fofoca, em montagens para redes sociais, denúncias mal apuradas. Estranhamente, não deveria ocorrer, mas vimos isto recentemente em nossa Universidade. E após seis meses, é importante que os registros sejam feitos. Eles não alterarão os resultados mas mostrarão em que poço nos enfiamos nestas últimas décadas. E colocam uma questão importante para os alunos que receberemos em março. Falhamos em mostrar métodos de pesquisa capazes de evitar narrativas inconsistentes e julgamentos apressados? Perdemos para uma rede subterrânea sem face e condenamos pessoas e processos democráticos à mesma lama na qual mergulham milhares de pessoas diariamente ao consumirem fake News? Não há nenhuma instância que proteja minimamente nosso espaço de produção das mesmas regras que regem as ações de mercados que apostam na tragédia como forma lucrativa de atividade? Quem permite que seja assim? Falamos em regulação da mídia. Mas o que fazemos nas instituições de ensino superior? Creio que absolutamente nada.

Não estamos diante de novidade alguma quando tratamos do uso de notícias falsas como instrumento político. Lembremos do objetivo de incriminar a esquerda no caso Rio Centro, da tentativa de ligar Lula ao sequestro de Abílio Diniz nas eleições de 1989. Convivemos com a imprensa marrom e recentemente sabemos do poder global de Steve Banon. Abertamente agindo como uma máquina industrial de mentiras viaja pelo mundo colaborando com golpes brancos. Os sistemas religiosos não poderiam ficar de fora desta nova era. Onde reside a novidade? Creio que talvez na escala e na velocidade e na porosidade com que invadem todos os espaços privados e públicos.

Aqui temos nossa própria contribuição para o mundo das moedas falsas e da pós-verdade. Vamos tratar de um caso real, alterando personagens e mantendo as consequências para todos os envolvidos. A síntese da cena é a seguinte: estamos em um grupo de pessoas tendo uma conversa com universitários. Um dos candidatos ali presente (em um ano de eleição) expressa sua opinião sobre concursos com ações afirmativas. É uma opinião carregada de fatos, avaliações e nenhuma delas determina uma posição desfavorável. Apenas apresenta ponderações importantes para ampliação de um debate.  Naquele grupo, um dos seus opositores percebe que aquela opinião pode ser base para um ataque eleitoral. Edita o que ouve, aproveita esta habilidade crescente de selecionar qual parte de uma narrativa interessa e como em um passe de mágica a torna pública em menos de 24 horas. Na mesma noite, fora de qualquer contexto, em 150 palavras de uma rede social, o conteúdo é repercutido sem nomes, com referência a um certo candidato e este incidente recebe mais atenção da comunidade científica que a ausência concreta de política estudantil, banheiros sem funcionamento, crise institucional, problemas para acesso a diplomas. E perde-se a rara oportunidade de construção coletiva.

A era da pós-verdade: a distopia do mundo contemporâneo - O Pedreirense

Nesta eleição alguns descem à um nível de desagregação completa na qual os boatos ganham a centralidade tóxica. Julgamento feito, os ativos do ódio se espalham repudiando as tentativas de diálogo com o argumento de que se tenta “limpar a barra de alguém”. Ou seja, servidores públicos com vinte anos de carreira agora são igualados aos grupos de fofoca do zap. Vejam que temos um terrível cruzamento aí entre má fé, questões cognitivas sobre moral, populismo e eleição. Banon sorri ao olhar para o caso e pensa: “wonderful”. Uma instituição gratuita de estudo. Fica realmente animado com o Rio de Janeiro.

Quando olhamos a situação de fora, pensamos em 1984. Em sistemas distópicos. A crença nas habilidades mágicas de indivíduos dotados do desejo de varrer o passado, varrer os caciques. Uma estranha macheza tão distante dos ideais de nossos eleitores juvenis que apostam em outro perfil. Mas que soltam um cão raivoso para fazer um papel conhecido. Aquele homem cordial que se agarra as grades do salão para que possa beber até cair, admirado por sua simpatia e leveza. Mas que mostra os punhos fechados quase disposto a desferir um soco no adversário quando contrariado. Leve, popular, jovem. E profundamente violento. O vencedor dos tempos atuais. O rei da popularidade. Escolhido a dedo para dar cor a uma campanha cujas propriedades lembram a água. O que dizer? Genial. E claro que temos o coroamento desta união. Quem nunca ousou defender o direito das docentes, acorda com todo o ideário de Simone de Beauvoir na cabeça. Aplausos para uma caixinha de música que repete ad nauseaum o discurso sobre mulheres na ciência aprendido ontem. Comovente, merece mesmo a vitória. Como dizia meu professor de história no segundo ano da faculdade, “ah, ela é tão esforçada”.

O quadro se completa com a crença que aposta em um empreendedorismo grotesco. Quase um quem quer dinheiro no meio do saguão. Assim, explícito, uniformizado, exuberante nas propostas. Trumps brasilis, um novo tipo de liderança que seduz ouvidos pouco comprometidos com Paulo Freire, Darcy Ribeiro ou uma educação transformadora. Tudo é utilizado como bravata mas com uma encenação digna de Oscar. E o sorriso do talentoso Ripley.

talentoso

Vemos uma turba comemorar a democracia como se assistisse ao fim de Apocalipse Now. E passado o momento de império do ódio, quando todos precisam voltar ao trabalho, percebemos que seguimos sem luz, sem administração, sem sistemas modernos de conexão. Sem saúde mental. Estranhamente não é possível explicar facilmente como ocorrem fenômenos coletivos desta ordem. Alguns falam em ondas. O fato é que seria impossível negar um sentimento comum aos vencedores e perdedores: a frustração e o desânimo.

Podemos pensar na imagem de um balão em noite escura. Seu brilho fustiga os cegos, alimenta os míopes e dá alguma importância aos que podem seguir o balão, até que ele cai no meio do Paraíba e durante o seu resgate, fica tomado de lama. Alguns o abandonam sentindo que foram enganados. Outros se agarram ao resto de brilho, sonhando com cargos de importância. Há os que sempre aceitando pouco, querem manter alguns benefícios, uma viagem, um carro novo. Há mesmo quem se venda por pouco.

Sem conseguir explicar a perda de excelência, vemos avançar a perda de sentido, de discernimento, de vontade, e começam a ocorrer situações próprias de um passeio de trem fantasma. A mudança de escala está completa. As salas são violadas, as violências perpetuadas, as reuniões, mero arremedo democrático. Os alunos antes confiantes, perdem o interesse no voto depositado. E quem desejava o poder abre a mão deixando escorregar pepitas escada abaixo.

Não havia nobreza no ato de quem meses antes acusara um inocente. Só havia ódio ativo, desinformação e interesses inconfessáveis. Canetas em mãos sem coragem podem ser perigosas. Sumiram no anonimato os que ontem faziam a festa da diversidade, baixaram a cabeça os que enviaram as mensagens de ódio. Negaram aqueles que os formaram para aderir aos novos saqueadores. Ninguém mais queria ver-se no espelho. Ah, não existem mais espelhos por aqui. Aliás, parece que teremos apenas sombras até o Carnaval. É certo que teremos o baile de máscaras. Na verdade, já foi bailado.

Se em terra arrasada pode nascer algo, teremos de observar. Por aqui o terreno recente foi arado para plantar um estranho tipo de negacionismo. Aquele que de dentro dos laboratórios nega a própria vocação e vende por pouco o que custou o trabalho duro de gerações.

Escondido nas trevas da internet, Uenfspotted ataca novamente e lança “boca de urna fake” para as eleições da Uenf

trevas 1

No dia 01 de abril de 2023 (exatamente no dia da mentira) postei neste blog o texto intitulado “As eleições da Reitoria da Uenf sob risco de ser marcada por uma intensa campanha de fake news em que eu fazia um prognóstico de que o pleito em curso na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) corria o risco de ser manchada pelo uso de estratégias malignas de uso das redes sociais em prol da chapa que representaria o continuísmo da gestão Raul/Rosana.

Um dos elementos que me guiou nesse prognóstico foi o uso de um perfil denominado de “Uenfspotted” para atacar potenciais candidatos de oposição.  Ao longo da campanha eleitoral, o “Uenfspotted”, apesar de manter uma posição aparentemente imparcial, o Uenfspotted serviu como base para entre outras coisas disseminar uma “fake news” que imputava à candidata a vice-reitora pela chapa de oposição à atual gestão, professora Daniela Barros, o cometimento de um ato de transfobia. Assim, ainda que na referida postagem o nome da professora não tenha sido citado, os comentários fizeram isso de forma explícita. Uma característica nos comentários é de que os comentaristas invariavelmente eram apoiadores da chapa da situação formada pelos professores Rosana Rodrigues e Fábio Olivares (a chapa 10).

Ao longo da última semana, o Uenfspotted postou várias postagens com críticas a comportamentos de membros ou apoiadores da chapa 30, ao mesmo tempo em que nada foi publicado de similar teor contra a chapa 10. 

Tudo isso apenas confirmou algo que eu previ há mais de cinco meses atrás: o Uenspotted se transformou em uma espécie de correia de transmissão da propaganda dos apoiadores da chapa 10, sem que fosse dada a oportunidade da réplica aos atacados. Essa é uma tática explícita de “cyberware” que foi muito comum nas campanhas de Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil.

Mas nas últimas 24 horas, o Uenfspotted resolveu concluir sua participação na campanha eleitoral da Uenf com uma cereja em cima do bolo e lançou uma esquisitíssima enquete eleitoral, supostamente para medir as intenções de voto na terça-feira (ver imagens abaixo).

Dois detalhes básicos: 1) ao acessar a dita enquete, usei dois perfis distintos que eu gerencio no Instagram e fui diretamente dirigido apenas à opção de votar ou não na chapa 30. Isso aponta para o uso de rastreamento de IP, pois, do contrário, eu poderia ter sido dirigido à opção da chapa 10, o que não ocorreu; 2) nessa enquete como demonstrei, qualquer um pode votar quantas vezes quiser. Assim, alguém que criar múltiplos perfis no Instagram, poderá votar “n” vezes, o que distorce e desqualifica qualquer resultado que saia desta “entaque” que não obedece critérios científicos, o que é particularmente inaceitável já que a eleição se refere à eleição dentro de uma universidade pública.

O que esta enquete está fazendo na prática são duas coisas: a) tentando consolidar os votos já definidos na chapa 10 e 2) atrair votos de indecisos após a divulgação dos resultados da suposta enquete. Em ambos os casos, essa ação viola todos os preceitos de equalidade de tratamento entre as duas chapas e viola todos os regulamentos estabelecidos pela Comissão Eleitoral eleita pelo Conselho Universitário para dirigir o pleito e garantir que ele ocorra de forma democrática.

Finalmente, a minha própria cereja no presente texto será anunciar que a chapa 10 irá receber quase que a totalidade (se não a totalidade) das intenções de voto nessa enquete mequetrefe que o Uenfspotted lançou, a pedido ou decisão de sabe-se lá quem, mas com o objetivo óbvio de desfavorecer as chances eleitorais da chapa de oposição ao continuísmo incrustrado na reitoria da Uenf. 

Com perfil fake, eleições para a reitoria da UENF descabam para o vale tudo

fake

Por decisão da comissão eleitoral eleita pelo Conselho Universitário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), as chapas que concorrem à reitoria para o período de 2024-2027 tiveram que interromper a postagem de novos materiais a partir das 10:00 horas da manhã desta 6a. feira, o que foi efetivamente feito.

O que poderia parecer que haveria normalidade nas eleições que ocorrem amanhã (16/9)  nos polos CEDERJ e na próxima terça-feira (19/9) era apenas aparente. É que assim que os perfis oficiais cessaram a publicação de novos materiais, um perfil de autoria desconhecida (ou seja, um perfil fake) que já atendeu por pelo menos 4 nomes, sendo o último o sugestivo “estudantescomrosana10” começou a postar fotos e vídeos no que se configura em uma flagrante violação das normas eleitorias estabelecida pela comissão eleita pelo colegiado superior da UENF (ver imagens abaixo).

O fato é que ao agirem ao arrepio do que determina uma comissão eleitoral eleita pelo Conselho Universitário da Uenf, os criadores desse perfil agem claramente para minar as possibilidades de que o pleito que se inicia amanhã possa ocorrer de forma equânime.

Além disso, ao desprezar as regras estabelecidas pela Comissão Eleitoral, os criadores desse perfil que dissemina materiais que a estas alturas são ilegais em face das regras eleitorais aceitas por ambas as chapas certamente agem sob a certeza de que permanecerão impunes. 

Caberá agora aos representantes da chapa formada pelos professores Carlos Eduardo de Rezende e Daniela Barros acionarem inicialmente a própria Comissão Eleitoral da Uenf para que este perfil seja descontinuado. Mas se isto não ocorrer de forma imediata, o mais provável é que a derrubada deste perfil tenha ocorrer por via judicial.

Como alguém que já participou de 7 eleições para a reitoria da Uenf desde 1998, eu realmente nunca presenciei nada como o que está ocorrendo nos últimos dias, sempre tendo como protagonistas pessoas ligadas à chapa do continuísmo.

Por fim, eu fico imaginando o que pensaria Darcy Ribeiro se ainda estivesse de tamanha afronta à democracia dentro de uma universidade que ele criou para servir como alicerce científico e da democracia. Certamente Darcy estaria primeiro envergonhado e depois furioso.

As eleições da Reitoria da Uenf sob risco de ser marcada por uma intensa campanha de fake news

uenf fn

Normalmente não ocupa o espaço deste blog com muitos assuntos internos ao cotidiano da Universidade Estadual do Norte Fluminense por uma decisão editorial de não torná-lo muito restrito ao interior da instituição, o que iria de encontro ao próprio propósito de tê-lo criado.

Mas decidi abrir uma exceção e colocar novamente luz sobre um comentário feito pelo estudante de Ciência da Computação Jhonatan Cossetti, que fui informado é membro da atual diretoria do Diretório Central de Estudantes da Uenf (DCE/Uenf), na já comentada postagem feita no perfil “Uenfspotted” na rede social Instagram que foi motivo de outro texto meu na manhã deste sábado (ver imagem abaixo).

dce fn

O comentário do diretor do DCE/UENF joga uma camada a mais de ilações na postagem do Uenfspotted ao afirmar que “e se eu disser que tem futuro candidato que pensa exatamente isso? Cortar bolsas porque estudante não é prioridade”.

Como corretamente observado por três comentadores, as afirmações de Jhonatan Cossetti soam como uma espécie de fofoca pela metade, pois conta o milagre, mas não diz o nome do santo. Além disso, como observado pelo terceiro comentador, o diretor do DCE não informa como sabe quem são os futuros candidatos, nem como chegou à informação de que um deles é favorável ao corte de bolsas estudantis porque os estudantes não seriam prioridade.

Como até agora sequer foi criada a Comissão Eleitoral que organizará a consulta pública sobre o futuro reitor, é impossível saber quem são os candidatos, ainda  que o reitor da Uenf, Professor Raúl Palácio, já tenha dito publicamente quem seria a candidata à sua sucessão. Mas até que se forme a Comissão Eleitoral, qualquer indicação de quem serão os candidatos é, no mínimo, precoce.

Formalidades à parte, fico curioso em saber como o diretor do DCE sabe o que pensa um candidato que não sabemos se existirá. Conversou diretamente com o candidato ou apenas ouviu falar que o candidato defende isso? O problema é que ao ocupar um cargo dirigente, especialmente de um sindicato estudantil, haveria que se tomar mais cuidado com o que se escreve em redes sociais, pois há um peso político  inquestionável nesse tipo de posicionamento dada a condição de dirigente estudantil que o referido estudante possui.

Entretanto, o que me parece mais problemático é que ao se espalhar este tipo de ilação, o diretor do DCE contribui para que a campanha eleitoral da reitoria da Uenf seja marcada por uma indesejável disseminação de fake news. Como vivenciamos os efeitos deste tipo de influência nas últimas duas eleições presidenciais, já sabemos como isto pode agravar uma disputa que deveria estar imune a determinadas táticas de campanha.