Um balanço amargo dos resultados do segundo turno das eleições municipais: a negação da política colocou o chicote nas mãos dos açoitadores

Flooding due to heavy rains in Rio Grande do Sul

Experiência devastadora das chuvas teve pouco ou nenhum impacto nas eleições municipais em Porto Alegre. Diego Vara/Reuters

Por João Anschau

Findado o segundo turno das eleições municipais é possível cravar sem medo de errar que os grandes perdedores destas eleições somos eu e você. Sim, nós dois ganhamos mais uma derrota. A novidade é que não tem nada de novo nesse resultado. Um trabalho árduo da criminalização da Política, aliado à miopia institucional de líderes estrategistas de ar condicionado no 19, pariu frutos nada saborosos e que terão que ser degustados por mais alguns anos.

A começar! Barrou-se toda e qualquer iniciativa que ousasse discutir, por exemplo, os impactos das mudanças climáticas nas nossas vidas nada românticas, e a consequente necessidade de colocar na agenda, colada na porta da geladeira, a preservação do que ainda resta de biodiversidade. Os poucos que se atreveram foram carimbados de apocalípticos. É mais fácil, cômodo e covarde fazer cara de paisagem, cordial e pacificador. Estes, confundem a fumaça branca do Vaticano com as queimadas produzidas e reproduzidas como de costume, achando que ambos sinalizam o mesmo. 

“Aos vencedores as batatas”

 A abstenção é uma vitória retumbante da chamada “grande” imprensa. Ela, que costuma usar seu o poder persuasão e chantagem, dá as cartas e joga de mão. Tem uma sorte danada e não perde nunca. Como estratégia prefere brigar com os fatos, jamais com os anunciantes. A informação é tratada como mercadoria e as narrativas são moldadas ao gosto do freguês. Umas quantas no cravo e, para vender imparcialidade gourmet, outra na ferradura lá de vez em quando. O Estado deve ser mínimo, minguado, para mim e para você que lê esse escrito agora. Tudo que envolve a política é tratada como uma doença incurável, capaz contaminar o bem bolado bolado pelos liberais que não conseguem viver sem as benesses do poder público. Não é incoerência. É um projeto. A indignação seletiva é alimentada e fortalecida diariamente e o alvo é sempre o mesmo. Os “liberais” não dormem. 

E o ganhador é…?

O acontecido no segundo turno em Porto Alegre já apresentou múltiplas análises. Não é tarefa simples processar o resultado final que reconduz um gestor incapaz de fazer o básico, e que tem como sua maior marca o  negacionismo. Mesmo tendo um currículo de não serviços prestados para o grosso da população, ele logrou êxito. No frigir dos ovos temos algo bem próximo a síndrome de Estocolmo “mas bah”. Ganhou o discurso do “nós por eles”, capturado e patrocinado pelos causadores do desastre. O homem do chapéu de palha deu um chapéu no sofrimento alheio, juntou-se ao grupo das vítimas e recebeu como prêmio um novo mandato. Uma distopia escrita em tempo real que centrou todo o enredo na frase “não é hora de achar culpados”. Não é necessário fazer nenhum exercício de futurologia para trás e saber qual teria sido o comportamento da mídia hegemônica se o paço municipal tivesse na cadeira de prefeito/a alguém do time da esquerda durante as chuvas de maio.  

Sirvam nossas façanhas, outra vez, de como não fazer e evitem seguir o nosso exemplo. Quem um dia se arvorou o carimbo de estado mais “politizado” do Bra(z)sil, hoje está na série D e correndo sério risco de ser rebaixado para divisões amadoras. Giovani Cherini, um deputado federal eleito democraticamente pelo RS, com o uso das urnas eletrônicas, mesmo que seu partido questione a lisura eleitoral há anos, é o chorume não aproveitável e que contamina toxicamente toda e qualquer tentativa de fazer uma conversa minimamente racional. Esse “nobre” parlamentar, a bem da verdade, não está sozinho nesta empreitada muito bem organizada e que não tem nada de estúpida, faz parte da chamada bancado do agro e como tal atende os interesses de seus patronos. Cherini, com o meu e o seu dinheiro, quer ir até a COP-30 e demonstrar – chupem cientistas, pesquisadores e afins – que o aquecimento global é uma grande mentira.

Contará, provavelmente, com a consultoria muito bem remunerada de Luiz Carlos Molion, o mesmo pesquisador que disse em 2023, no senado, que meteorologistas exageravam quanto à possibilidade de muita chuva no Rio Grande do Sul. Um dia depois da sua eloquente afirmação, parte do estado amanheceu debaixo d’água. Molion não foi folclórico ao contestar a ciência e o trabalho de seus pares. O adjetivo é outro.

O sucesso dos ganhadores do mesmo lado seguiu um roteiro muito parecido. Apostaram no medo e em temas que mexem com o imaginário dos eleitores. Continuarão a multiplicar o receituário de que o fim não está tão no fim assim, e que os extremos – chuvaradas, ciclones… – são parte do pacote da “felicidade” – e do Deus deles que quis assim -, mesmo que não os tenhamos contratado, portanto, seu cancelamento é impossível. E como não temos tempo para o óbvio, preocupados e pautados por trivialidades, interdita-se, em todos os sentidos, qualquer iniciativa que promova o contestar. Portanto, o SERASA não colocará em suas listas o nome dos dos delinquentes responsáveis pelo caos. 

Um levantamento feito pela EMATER/RS, após o dilúvio de maio, mostra um cenário nada paradisíaco quando o assunto é perdas, danos e consequências em se tratando de comida no nosso prato para logo ali adiante. Como vivemos cercados pelo improviso nada genial dos gestores públicos municipais, existe uma grande chance de termos gôndolas quase vazias de comida. E não é preciso ser um gênio para saber que segurança alimentar (para a galera que gosta de armas, vamos acabar com a chaga da fome?) foi mandada às favas mais uma vez em nome do “progresso” e das prioridades da turma do 1%.

As indústrias de processados e de remédios agradecem com generosas doações eleitorais. Sejamos honestos, o senhor e a senhora viu/ouviu durante alguns minguados segundos, dedicados por candidato/a ao legislativo ou a executivo municipal, independente de mídia, alertas – alertas – que o tempo não é – nem será tão cedo – de colheita farta, e que o mundo alimentar não se resume à soja? Ou que tomamos agrotóxicos de copinho, fazendo com que sejamos os top one no campeonato da insanidade produtiva e reprodutiva no uso de venenos? Cartas para a ouvidoria do blog. 

E por que chegamos nesse estágio quase terminal? Diferente do outro Deus, os “nossos” gurus acreditam no poder da magia e da osmose. A imortalidade de sua melhor referência política está na lista depositada no pratinho que fica ao lado da vela de 7 dias. No mundo real, aquele em que a desigualdade ainda reina, o modo no qual a relação é recíproca foi abandonada há muito. Ações simples, mas eficazes, foram deixadas de lado, tornando-se obsoletas. O diálogo contínuo foi deletado das práticas mais elementares. Ao invés de habilidosos camisas 10, o que se apresenta atualmente são caneludos que costeiam o alambrado do lado esquerdo e que comprometem o resultado final. Perdeu-se a mão e a forma fraterna de interação. A disputa para estes não é mais Política, mas, apenas, e tão somente, eleitoral. Alguém, com um mínimo de sensibilidade, precisa alertar essa galera que a balança da conciliação pende toda para o lado dos bem nutridos.

Não existe almoço grátis

“Não existe almoço grátis” ou “é a economia estúpido” deixaram de ser apenas mantras que dão as tintas para parte da sociedade que abandonou o caminho da coletividade e optou pelo pragmatismo do despachante ouvidor, bancado por quem já se deu conta de que no final da contas, problemas têm família grande, como já sentenciou o saudoso Paulo Leminski. Não é tão somente a conquista de corações e mentes, mas, voltar a conhecer e conviver com essa galera que têm corações, mentes, sonhos e muito medo represado. Dá pra ser radical, e manter as origens, sem perder a empatia pelos irmãos de jornada. É importante reforçar que mutações fazem parte de outra gaveta. A apatia e o descontentamento interessa apenas ao adversário que joga no ataque a todo o momento de forma sincronizada. 

Peço desculpas mais uma vez aos seres não racionais pela nossa total e irrestrita incapacidade. De fazer o beabá mais simples. De amar ao próximo como se não houvesse amanhã – nos tempos atuais, o amanhã é tão certo como 2+2 são 3. O breve futuro é uma incógnita, mas mesmo assim os advogados do capitalismo predatório, homens brancos, “héteros” e detentores dos meios, querem nos fazer crer que tudo está sob controle e a falta de freio é psicológico. Ao cabo de tudo o que temos é uma luta de equação básica: mais e mais estupidez resulta em cada vez menos tempo por estas paragens. E as opções, para eu que escrevo e você que acompanhou o texto até aqui, de encontrar outro lar, lamento informar, é zero. E morar em Marte, tô fora. A vizinhança é estranha. Portanto, o último apaga a luz. Espera, depois das privatizações, nem isso mais está garantido.

Abstenções, o dado escondido pela direita, mas também pela esquerda

Falta de identificação com projetos pode explicar alta de | Política

Tenho notado uma série de análises sobre a vitória dos partidos de direita e extrema-direita nas eleições municipais, mas vejo pouca coisa em relação às abstenções. Vale lembrar que abstenções incluem aqueles eleitores que sequer se dão ao trabalho de irem votar, em que pese a obrigatoriedade de voto.

Neste segundo turno das eleições municipais, o total de eleitores que se abstiveram foi 29,26%, um número que desde o ano 2000 só foi superado em 2020 quando o Brasil experimentava a dureza da pandemia da COVID-19 (ver imagem abaixo).  Na capital paulista, o índice foi ainda maior,  já que o número de ausentes chegou em 31,54%, ou seja, 2.940.360 eleitores (valor mais alto do que o dado a Guilherme Boulos que foi de 2.323.901 votantes).

abstenções

Esconder o total das abtenções serve a vários propósitos, mas o principal me parece ser o de esconder a descrença de uma parte considerável do eleitorado com o sistema político brasileiro. Esses eleitores que se abstém mandam um recado que me parece claro: este sistema não nos representa a ponto de que queiramos sair de casa para votar em quem quer que seja.

Quem deveria analisar este descontentamento em mais profundidade deveria ser aqueles partidos que se dizem de esquerda, pois muitas eleições se decidem em porcentagens muito menores do que a margem de abstenções. Mobilizar esse eleitorado poderia ser assim chave para garantir mais vitórias contra a direita e a extrema-direita.

O problema é que para mobilizar esse eleitorado, a dita esquerda teria que apresentar programas que representassem mudanças qualitativas e profundas na condição de vida dos brasileiros. O problema é que se olharmos com um mínimo de atenção o que estão propondo os partidos supostamente de esquerda, o que se verá é que seus programas não são assim tão diferentes da direita e da extrema-direita. E é aí que a porca torce o rabo.

PT Campos: um compromisso férreo com a derrota

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Por Douglas Barreto da Mata

Eu assisti ao programa do Igor José Alves com o professor  Luciano D’ Angelo: triste, lamentável, por onde quer que se olhe.  Não apenas pelos erros analíticos do fracasso eleitoral do PT local, afinal, ele tem o direito legítimo de defender as escolhas que fez. 

A narrativa não é execrável por essa razão.  Mas sim pela hipocrisia.  Ora pelotas, participar do jogo e reclamar depois do placar e do juiz é algo lamentável.  Ouvir o professor Luciano D’ Angelo falar de dinheiro e abuso de poder econômico em Campos dos Goytacazes, enquanto o partido governa Maricá, e um oceano de dinheiro, é de doer os ouvidos.

Fica a questão, quer dizer que no município de Maricá, que é governado pelo PT desde 2008,  a política é feita por frades e freiras?  Por lá, a população votou no PT pelo programa, princípios de esquerda e por uma execução orçamentária acima de qualquer problema? Entendo.

Porém, eu não gostaria de entrar por este campo movediço, até mesmo porque, há alguns anos, quando eu declarava minha crença em aspectos moralistas da política, fui advertido pelo mesmo professor Luciano D’ Angelo que me disse: “A questão da corrupção ou do moralismo não devem ser o principal norte da política”.

Anos depois, com a devassa hipócrita da Lava-Jato, entendi aquele argumento como uma premonição corretíssima.  Eis que, agora, me deparo com o professor Luciano D’ Angelo fazendo o discurso oposto do que fez antes.  Pior, faz um discurso oposto ao que praticou nessa eleição, porque até as placas de mármore da Praça 4 Jornadas sabem que o PT local funcionou como linha auxiliar da oposição, e pelo que se diz, teve bons motivos para tanto.

Alguns chamam essa conduta de hipocrisia. Eu chamo de esquizofrenia moral, para não usar termo mais pesado.  Enfim, parece que a surra que o PT de Campos levou nessa eleição de nada serviu.  A proposta de criar um grupo com o (derrotado, com meros 372 votos) ex-reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para dar conta de fiscalizar o atual governo é de dar vergonha alheia.

Ótimo.  Mas o problema é um ex-gestor público que sentou em cima de 20 milhões de verbas da Alerj, por anos, dinheiro destinado para restauração do Solar do Colégio (Arquivo Público), e que, por completa ineficiência, quase houve o desabamento daquele patrimônio histórico, ter legitimidade para apontar erros de gestão em uma prefeitura do tamanho da campista, ou de quem quer que seja. O ex-gestor de universidade pública, que não deu conta de 20 milhões de verbas, vai poder tecer críticas sobre um orçamento de 3 bilhões?  Algo parecido com Jefferson Azevedo criticando o IDEB, quando sua gestão rebaixou drasticamente o aproveitamento dos alunos do IFF no Enem/Enad.

Enfim, a caravana seguirá, e os cães permanecerão ladrando.  Lamentável.

Ascensão e queda da baronesa de São João da Barra

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A deputada Carla Machado, então prefeita de Sâo João da Barra, no dia da entrega da Medalha Barão de São João da Barra ao ex-bilionário Eike Batista

Por Douglas Barreto da Mata

Não entendo o fetiche do PT regional com a deputada Carla Machado.  Justiça lhe seja feita, ela nunca esboçou qualquer tentativa de parecer progressista ou mais afeita a uma agenda de esquerda. Pensando bem, acho que entendo sim.  Afinal, há muitos anos, nem o próprio PT tem se esforçado nesse sentido, seja no Planalto, seja na planície.

Mesmo assim, não deixa de ser estranho ver duas candidaturas oriundas do MST no PT Campos dos Goytacazes, convivendo com uma personagem como a baronesa, ou de figuras (simplórias) do PT, dedo em riste, acusando este ou aquele político de bolsonarista ou direitista, tendo uma matriarca de direita como a baronesa no PT. 

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Reforma agrária às avessas: a então prefeita Carla Machado, sentada ao lado de Sérgio Cabral, olhando para as terras que seriam tomadas dos agricultores do V Distrito de São João da Barra para a instalação do natimorto Distrito Industrial de São João da Barra

Logo ela, uma das envolvidas por aquilo que pode ser chamada de maior reforma agrária invertida da história recente do país.  Ao invés de desapropriação de terras para benefício de muitos, no V Distrito de SJB se fez o inverso, desalojaram centenas de famílias para instalação do porto, e até hoje, há pendências no pagamento desses agricultores.  Uma vergonha.

Bem, muito tem se falado quem saiu menor ou maior desse pleito.  Eu diria que a baronesa deputada saiu muitíssimo menor que entrou. Antes, na pré campanha, tida e havida como carta na manga do grupo de oposição, reunido em torno dos Bacelar, a ponto do PT (linha auxiliar desse mesmo grupo) ter mantido a vaga da candidatura à prefeitura em aberto, até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dissesse o que todos sabiam, a baronesa deputada também foi considerada um manancial de transferência de votos.

A candidata delegada e o candidato professor sonhavam herdar esse capital eleitoral, que, afinal, se diluiu entre os principais concorrentes, incluindo aí o atual prefeito reeleito.  Deste modo, à baronesa deputada restou um papel melancólico na campanha, que piorou ainda mais, mesmo que ninguém achasse ser isso possível, quando ela esfaqueou o PT pelas costas, subiu no palanque da delegada, e, pecados dos pecados, fazendo um discurso de desagravo ao ex-prefeito Rafael Diniz, o pior de todos os tempos.

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A subida da deputada Carla Machado no palanque da delegada Madeleine teve o efeito de matar duas campanhas nas eleições municipais de 2024

Em um movimento, como já disse em vários textos, neste blog, ela matou duas campanhas, a do PT, já moribunda, e da delegada, cuja base de apoio ficou sem saber se a delegada era mesmo de direita, como jurou ser, além de ressuscitar o “bode na sala” (Rafael Diniz), que foi cuidadosamente escondido pela coordenação das campanhas do PT e da delegada, que contavam com a amnésia do eleitor acerca da umbilical relação de todos com o governo desastroso do neto de Zezé Barbosa.

Ah, mas você se esqueceu da esmagadora vitória em São João da Barra, onde a sucessora e pupila da baronesa conseguiu uma votação histórica.  Bem, pode ser, mas tenho lá minhas dúvidas.  A julgar pelo número de votos alcançado pela prefeita reeleita, Carla Caputi, tudo indica que a baronesa deputada não seja mais a única referência de seu campo político na cidade, pois emergiu das urnas uma força autônoma, com condições e intenções de se desvincular da baronesa, em franco declínio.

A prova principal da queda da baronesa é a ridícula votação de seu irmão, Fred Machado, ex-presidente da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes, que concorria à reeleição naquela casa. 

Campos dos Goytacazes parece ter rejeitado invasores como os deputados que aqui estiveram para despejar mais modos e truculência.  Rejeitou também a baronesa, que deverá correr de volta para SJB, sob pena de ficar sem espaço por lá também.

Aguardemos.

Apesar das aparências, Lula foi o grande vencedor do 1o. turno das eleições municipais

lula kassab

Lula, e não Gilberto Kassab (PSD), foi o grande vencedor no primeiro turno das eleições municipais de 2024

Tenho lido e ouvido análises sobre os resultados do primeiro turno das eleições municipais onde a maioria dos analistas, alguns até honestos, apontam para o que seria uma derrota flagrante do presidente Lula e do seu partido, o PT.  Essas análises são apoiadas em números de votos recebidos e candidatos eleitos, o que dá uma aparência de irrefutabilidade às indicações de que Lula e o PT foram derrotados por partidos que seriam de centro ou centro-direita, seja lá o que seja isso em termos práticos.

Eu discordo dessas análises porque avalio que a estratégia eleitoral determinada por Lula e pela cúpula dirigente do PT era algo que ia no sentido de “entrar em campo para jogar, fingindo que se quer ganhar, mas  fazendo uma força danada para perder”.  Basta ver o tipo de suporte político e financeiro que foi dado aos candidatos oficiais do PT, a começar aqui pela terra do chuvisco, Campos dos Goytacazes.

Na maioria dos casos, faltou de tudo nas campanhas “raiz” do petismo, a começar por uma linha política que habilitasse seus candidatos a terem um mínimo de chance.  Isso também ficou claro em campanhas próximas do que seria o campo popular, como foi o caso da campanha de Guilherme Boulos, o mais petista dos psolistas ainda no PSOL.  A imposição de Marta Suplicy como candidata a vice-prefeita, por exemplo, só serviu para esmaecer as tinturas esquerdistas de Boulos que, convenhamos, não eram tão fortes para começo de conversa. De resto, o PT paulistano e o paulista não fizeram muita coisa para apoiar Boulos que quase conseguiu a façanha de enviar dois candidatos bolsonaristas para o segundo turno, o que foi alcançado pelo PT de Curitiba que resolveu apoiar uma espécie de não-candidatura do PSB local.

Mas é para além das derrotas do petismo raiz que o sucesso da estratégia eleitoral de Lula ficou mais evidente. Seja nas vitórias como a de Eduardo Paes no Rio de Janeiro onde o PT foi aliado de primeira hora de uma candidatura que aposta na privatização até do ar poluído que os cariocas respiram, seja nas alianças com os ditos partidos de extrema-direita pelo Brasil afora. Foi pouco noticiado, mas até com o PL de Jair Bolsonaro, o PT esteve aliado.

Alguém pode me perguntar como é que eu possa estar fazendo este tipo de análise contra um presidente tão com cara de esquerda como Lula.  O problema é que tanto Lula quanto a direção do PT já abandonaram o campo da esquerda faz algum tempo (eu diria que desde a Carta aos Brasileiros de 2002). O que restou do velho PT foi um simulacro de partido de esquerda que em alguns aspectos está mais à direita do que o Partido Democrata está nos EUA.

Pode-se perguntar o motivo das opções estratégicas de Lula para abandonar o esforço de eleger prefeitos e vereadores do próprio PT e entregar de graça a chance de governar para a direita ou até a extrema-direita.  A primeira coisa é que Lula sabe muito bem que os partidos políticos no Brasil, com a possível exceção do próprio PT, não passam de agremiações que juntam oportunistas e aventureiros de todo tipo e matiz que estão dispostos a servir caninamente os que realmente mandam no país (banqueiros e latifundiários) em troca das migalhas que ainda restam nos cofres de governos municipais e estaduais.  Partidos no sentido ensejado pela democracia liberal burguesa que é bom, nem sombra. E Lula, como poucos, sabe operar nesse mar de oportunistas.

A segunda coisa é que ao entregar os anéis, Lula sabe que aumenta em muito as chances de manter os dedos que, no caso presente, é o controle do governo federal.  Em que pese o esperado encarecimento do preço político das eleições (normalmente contado em número de ministérios e de cargos de segundo e terceiro escalão), ao entregar as prefeituras para a direita, Lula também se livra o ônus de ter que conversar sob o tacão das políticas neoliberais que são impostas aos municípios pelo seu próprio governo.  De quebra, diante do inevitável fracasso das promessas feitas pela direita nas eleições municipais, Lula, ou um escolhido para substituí-lo,  pode manter a fachada de esquerda para ganhar as eleições de 2026, usando a repetida, manjada, mas efetiva assertiva de que a direita não governa para os pobres.

Em suma, discordo de quem diz que a política da “Frente Ampla” de Lula foi derrotada no primeiro turno das eleições municipais de 2024. Na verdade, essa política ficou fortalecida ao apontar para um cenário em 2026 em que novamente será o PT (e seus aliados) contra o conveniente fantasma da extrema-direita.

O fato é que a primeira tarefa de quem realmente deseja mudar o cenário político brasileiro e movê-lo para a esquerda é superar toda e qualquer ilusão em Lula. Com isso será possível liberar as forças populares da paralisia que lhes é imposta por Lula e pelo PT. Essa, convenhamos, não será uma tarefa fácil, pois basta ver o que foi feito para desmoralizar quadros emergentes da esquerda como era o caso de Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, ou para abandonar e deixar à mercê da direita uma liderança ascendente como Glauber Braga. 

Contudo, em tempos históricos tão desafiadores, não posso deixar de lembrar de uma frase de Rosa Luxemburgo que dizia que “há todo um velho mundo ainda por destruir e todo um novo mundo a construir. Mas nós conseguiremos, jovens amigos, não é verdade?” Mas  para a frase de Rosa Luxemburgo ser transformada em realidade, há que se entender como o jogado é realmente jogado, e aquilo que precisa ser feito para virar o placar.  Mas pelo que eu vejo e ouço, as forças que lutam por um novo mundo estão aí e se movimentando com vigor.  O que nos impede de saber disso é que noticiar a existência e a ação dessas forças não interessa a quem controla a distribuição da informação.

Quem é Wladimir Garotinho? Decifra-me ou te devoro

esfinge de tebas
Por Douglas Barreto da Mata

Nessas eleições recentes aconteceram episódios pitorescos.  Enquanto a esquerda tentava emplacar a pecha de bolsonatista no prefeito, muito mais para justificar suas escolhas, de funcionar como linha auxiliar de ultra direitistas (um paradoxo aparente), do que para demarcar uma posição progressista, de fato, do outro lado, a direita, representada na delegada candidata, quis emplacar a narrativa que o prefeito reeleito não era bolsonarista suficiente, ao mesmo tempo que recebeu a deputada petista Carla Machado (outro aparente paradoxo) em seu campo.

Resultado conhecido, o PT amargou um desastre, e a delegada não foi além do teto conhecido do chamado anti garotismo.  Juntos ficaram na medida das abstenções, brancos e nulos.  Em analogia ao termo torcida arco-íris, que reúne os torcedores que são anti flamenguistas, podemos dizer que o arco-íris ou está com cores a menos, ou desbotou.

O erro de cálculo desse pessoal foi não entender o caminho político do prefeito, rumo ao centro, já antevendo um movimento natural pós saturação de extremismos de direita, e que se confirmou nos resultados nacionais pelas cidades, o PSD foi o grande vencedor, e ampliou seu capital político, que não era pequeno.

No Estado do RJ, esse papel coube ao PP, e ao PL, por estranho que pareça).  Todas as campanhas deste último partido (PL), apesar de usarem com mais ou menos intensidade a imagem dos Bolsonaros, se caracterizaram por candidaturas de centro, de prefeitos ou ex-prefeitos com quilometragem.  Foram poucas as “novidades” impetuosas.

O prefeito Wladimir entendeu isso antes, e nem renegou seu vínculo com Bolsonaro (teve no filho Flávio um apoiador presente), nem exagerou nessa exposição, mantendo canal aberto com outras forças. Há, no entanto, um outro viés, para o qual gostaria de chamar a atenção.

Nacionalizar a eleição seria um erro, que o PT não entendeu quando, em desespero, passou a veicular Lula em sua campanha, nem a delegada, quando reivindicou a condição de porta-voz do ex-presidente.

Ainda que houvesse margem para tanto, é preciso dizer que, em Campos dos Goytacazes, a família Garotinho e seu legado são muito mais relevantes que figuras nacionais. Foi assim em todas as eleições presidenciais que a família direcionou seus votos. Com Bolsonaro não foi diferente.

A base de apoio a família Garotinho, com exceção dos intervalos das vitórias de dissidentes deste mesmo grupo, sempre se manteve intacta.  Mesmo nestes intervalos, o grupo garotista foi grande cabo eleitoral de campanhas presidenciais.

A oposição não foi capaz de reconhecer, ou não teve humildade, ou inteligência, ou tudo junto, que a família Garotinho, agora renovada no personagem Wladimir Garotinho, uma versão ampliada e melhorada de seus pais, é ainda a grande eleitora na cidade, e não o contrário.

Esta planície é, historicamente, conservadora, mas este conservadorismo é mediado, desde a década de 90 do século XX pela família Garotinho, embora não seja irrelevante que este ou aquele líder nacional possa agregar mais capital político à família.

Assim, era inócuo, como foi, dizer que Wladimir era muito ou pouco bolsonarista, ou dizer que ele era a continuidade de seus pais.  O prefeito se consolidou como um ator relevante e autônomo, ainda que não rejeite, e nem afaste influências e heranças políticas. O desconhecimento dessas noções básicas levaram a oposição a combater moinhos de vento, ou seja, sequer conseguiram entender o adversário que enfrentavam, quanto mais, acertar o “alvo”.  A comemoração gaiata do grupo da delegada sobre a votação obtida mostra que nada aprenderam.

Afinal, com a montanha de recursos empenhados, a candidatura da delegada não conseguiu ir além do patamar histórico de votação dos anti garotistas, deixando claro que, para tanto, seria necessária uma estratégia muito melhor ou um nome com muito mais capacidade, sendo que estas hipóteses não se excluem.

Trilhando, talvez, o caminho de Getúlio Vargas, que se orgulhava de não ser decifrado, o prefeito, do alto de seus 190.000 votos, agradece.

Natália Soares se firma como principal liderança da esquerda em Campos dos Goytacazes

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Não vou me ater a uma análise global das eleições municipais que acabam de selar a reeleição de Wladimir Garotinho e da formação, em tese, de uma sólida bancada governista na Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes.  O meu propósito aqui é enfatizar algo que as análises rasteiras que ando lendo sobre os resultados eleitorais estão tratando de esconder.

Falo da impressionante votação obtida pela Professora Natália Soares (PSOL) que obteve impressionantes 3.583 votos com uma campanha propositiva, bem humorada, barata, e que foi capaz de angariar votos por diferentes partes do município.   Uma votação histórica, mas que não logrou obter o objetivo de colocar a Natália em uma das cadeiras da próxima legislatura.

Apesar do aparente fracasso, uma coisa é certa: se a esquerda campista precisava de uma liderança para avançar suas pautas, ela agora já existe e está sedimentada eleitoralmente. 

Mas como superar o bloqueio histórico que impede a esquerda campista de vencer, não apenas no número de votos, mas também consolidação de um campo político que faça avançar as demandas em prol dos segmentos mais pobres da população?  

Eu diria que existem vários passos básicos, mas o principal é de que se reconheça que Natália Soares sintetiza as expectativas e esperanças por mudança, começando pelo próprio PSOL cujo diretório municipal parece ainda não entender a força eleitoral que possui em seus quadros.  O segundo é que os partidos que se dizem de esquerda na cidade deixem de ser partidos eleitorais que só se mexem a cada dois anos, enquanto as diferentes matizes da direita fazem um trabalho diuturno para manter o status quo vigente totalmente intacto e impermeável a qualquer compromisso com a democratização do orçamento municipal.

Além disso, eu diria que é preciso que a própria Natália rejeite os caminhos tortuosos que figuras como Marcelo Freixo e Guilherme Boulos, cada um em seu estilo, adotaram para se tornarem elegíveis e palatáveis para as classes dominantes.  Mas se ela mantiver a firmeza de compromisso e avançar na sua compreensão sobre sua própria estatura política, é possível que estejamos vendo o nascimento de uma liderança com raízes efetivamente populares e sem qualquer cabresto em relação às dinastias familiares que controlam a vida política em Campos dos Goytacazes desde sempre.

Como a Natália é uma pessoa leve e descontraída, eu aproveito para repetir a ele uma frase saída do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry: Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé  ou em bom português ”tú te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E o que ela cativou não é pouco: esperança por dias melhores.   

Uma conversa pós-eleição bem esclarecedora na bomba de gasolina

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Há quem diga que os membros da classe trabalhadora não possuam a devida consciência sobre os limites das eleições burguesas como a que ocorreu no dia de ontem, onde teoricamente cada cabeça é um voto, tornando o processo em algo democrático. 

Ao abastecer meu veículo no início desta tarde, fui perguntado pela pessoa que me atendia se eu havia ficado satisfeito com os resultados da eleição para a Câmara de Vereadores. Em vez de dar uma resposta imediata, perguntei a quem me inquiria como ela mesma via o resultado, e se algo mudaria em sua vida e a da sua família com o novo plantel de vereadores eleitos ou reeleitos no dia de ontem.

Após enumerar as dificuldades vividas em seu bairro, a pessoa que me inquiria e foi por mim inquirida me contou a história de um vereador reeleito que tinha conseguido se eleger anteriormente com o apoio massivo de seus vizinhos, mas que havia sumido logo após o pleito de 2020.  Segundo ela, por causa do sumiço, a votação deste ano do referido vereador teria diminuído bastante, o que demonstraria para ela que, pelo menos, os vizinhos tinham aprendido algo com o sumiço do vereador.

Perguntei a ela sobre como estavam coisas básicas no bairro dela, apenas para ouvir que tudo se encontrava muito precário, a começar pela escola das suas duas crianças pequenas, mas também passando por coleta de lixo, abastecimento de água, tratamento de esgoto, e serviços de saúde, etc. etc.  Aproveitei para perguntar se algum vereador teria aparecido nos últimos quatro anos para ver como as coisas andavam.  A resposta foi um lacônico:  ninguém apareceu por lá para fiscalizar o quer que fosse.

Por outro lado, me foi dito com algum desdém que ainda há quem venda o voto por um mero sacolão, o que mostraria para minha interlocutora que não falta quem não entenda o que valor do voto, já que ninguém dá sacolão à toa. 

A conversa seguiu até um ponto em que eu enumerei os aspectos negativos para o controle das ações de um prefeito por conta do fato da maioria dos vereadores serem de apoio ao prefeito. Argumentei com ela que sem uma Câmara que fiscalize, as chances de que qualquer prefeito vá governar de acordo com suas promessas diminui exponencialmente. Minha interlocutora aquiesceu dando de ombros, em um sinal de que concordava.

Como eu tinha que partir e deixar minha interlocutora com seus afazeres, perguntei se eu tinha dado uma resposta clara à pergunta dela. A resposta foi que sim.  Depois disso, segui o meu caminho. Mas sai do posto de combustíveis com a certeza de que uma parcela da população entende muito mais a situação do parece aos analistas de plantão.

Eleições 2024: dinheiro é importante, mas não é tudo

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma das principais lições que ficam nas eleições de Campos dos Goytacazes é de que o poder econômico, empregado em uma escala jamais vista na história da cidade, pelo grupo de oposição ao prefeito reeleito Wladimir Garotinho, pode muita coisa, mas não alcança tudo.

O resultado da oposição foi um fiasco, contabilizado como um todo, desde a candidata principal, a Delegada Madeleine, até as candidaturas auxiliares, como o PT e outros mais insignificantes.

Na eleição parlamentar, a oposição elegeu apenas 06 vereadores, e o atual Presidente da Câmara, o vereador Marcos Bacellar, irmão do Presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), liderança maior entre os oposicionistas, e grande artífice da estratégia eleitoral do seu grupo, ficou com a terceira colocação entre os mais votados.  Pouco, muito pouco para quem personificou a disputa com o atual Prefeito.

Voltando para a eleição majoritária, parece certo que não se pode imaginar que qualquer pessoa seja capaz de levar adiante um projeto político de tamanha envergadura, isto é, se eleger e governar Campos dos Goytacazes, mesmo que infindáveis recursos sejam colocados à sua disposição.

Eventos isolados, como eleições de um Wilson Witzel, ou mesmo de um Rafael Diniz não são regras, são exceções que as confirmam. Curiosamente, Witzel e Rafael mostraram que ganhar é até possível, mas governar, de maneira estável, quando eles significavam um descolamento total da política, sendo os arautos da antipolítica, seria uma tarefa pouco provável de ser cumprida. De fato, Witzel caiu, e Rafael sangrou o mandato todo, até ser execrado como o pior prefeito da história.

A delegada, além de não reunir carisma suficiente para o que lhe era exigido, faltava a ela traquejo, embocadura para uma luta dessa grandeza, e nem se encontrava em um momento conjuntural excepcional, como aqueles que elegeram Rafael, Witzel ou outros casos parecidos.

Enfrentar o legatário de uma dinastia que elegeu o pai prefeito, deputado estadual e federal, governador por duas vezes, a mãe governadora por duas vezes, e prefeita por dois mandatos também, além do fato de que boa parte dos outros prefeitos e deputados locais derivaram desse clã, e imaginar que bastava duas ou três frases de efeito, feitas para agradar audiência de palestras de “treinamento” (“coach”, argh!!!) é de uma ingenuidade atroz.

A correlação dos eleitos para Câmara indica que o Prefeito Wladimir terá um segundo mandato mais tranquilo, desde que confirme o aprendizado da sua relação com a casa de leis na desastrosa antecipação da eleição da mesa diretora, quando levou uma rasteira de alguns de seus aliados.

Agora, uma nota triste para a esquerda local.  O PT, como previsto, fez a campanha mais vergonhosa da sua história, menos pelos parcos votos para prefeito e vereadores, mas muito mais pela sua impostura política, funcionando como legenda de aluguel da extrema-direita, em troca sabe-se lá do quê, e o que quer que tenha sido, não foi suficiente para tirar o partido do atoleiro. 

O texto do meu amigo George Gomes Coutinho, em um jornal local, desvendou aquilo que mantém o PT local sem qualquer chance de ser considerado uma força política de relevo.

Simplificando o que ele disse, é como se o PT vivesse no auge a Era Vargas, e tentasse conter essa hegemonia avassaladora se unindo a monarquistas escravagistas, imaginando que isso lhe daria espaço para avançar com uma proposta mais progressista que a organização do trabalho feita por Vargas na época.

A coordenação de campanha, que contava com a eleição de um vereador para justificar essa linha de atuação horrorosa, ficou sem argumento algum.  O candidato que era o líder dessa aposta, assessor de um deputado federal petista, e que contou com todos os beneplácitos da coordenação de campanha, para a insatisfação de todos os demais, somou pouco mais de 600 votos, desempenho sofrível.  Não houve qualquer eleito entre os petistas.  É preciso dar nomes e rostos a essa tragédia petista, e todos ali sabem quem são.

A incapacidade de articulação isolou o PT do PSOL, o que deixou uma candidata com mais de 3.500, a Professora Natália, sem mandato, apesar da votação fantástica. Como diz o antigo ditado, dos tempos da ditadura, esquerda junta só no bar ou na cadeia.

Já a deputada estadual petista Carla Machado, protagonista de uma traição indizível ao seu partido, e que embarcou na canoa furada da delegada, além de pouco somar a ela, ainda viu seu irmão ficar abaixo de 1.200 votos. 

É, definitivamente, as urnas mostraram a esse pessoal que planos mirabolantes para transferência de votos precisam de um detalhe importante para darem certo: convencer o eleitor.

A população parece ter respondido como a maioria dos analistas, pesquisadores e “pitaqueiros” (como eu) diziam.

A combinação de um antecessor cuja administração foi um fracasso colossal, junto a expertise de um atual prefeito que domina as mídias e as formas de articulação política, além da ineficiência completa da oposição, mesmo que de posse de recursos gigantescos, deram um resultado que confirma que o eleitor faz seu cálculo político dentro de um esquema com expectativas realistas.

Por outro lado, deve ter ensinado ao PT, e ao resto da esquerda, que não adianta brigar com esse senso (comum), usando da conhecida arrogância em desconhecer que o eleitor, a seu modo, ou sabe o que quer, ou sabe o que não quer.  E o eleitor campista, não quer o PT que parece também não querer o eleitor, no melhor estilo do “dois bicudos que não se beijam”.

Assim como ensinou ao grupo da delegada que dinheiro altera a realidade, mas não toda a realidade.

Sujeira pelas ruas mostra que candidatos tiveram muito dinheiro, mas não tiveram pernas

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Vive em Campos dos Goytacazes desde 1998 e já presenciei muitas campanhas eleitorais para prefeito e vereador, mas esta manhã tornou a atual certamente a mais capaz de jogar sujeira pelas ruas na forma de santinhos de campanha.  Pobres do pessoal da limpeza urbana que terá uma tarefa dura que será a de livrar nossas praças, ruas e avenidas de toneladas de materiais de campanha que foram despejados de sábado para domingo em uma prova de que verbas eleitorais nem sempre se traduzem em melhores práticas de urbanidade.

Por outro lado, o que todo esse material jogado ilegalmente pelas vias públicas mostra é que teve candidato com dinheiro de mais e pernas de menos para fazer sua mensagem chegar ao eleitor campista. É que todo esse material impresso é caro, pois a maioria é de alta qualidade gráfica.

O que me deixa um pouco curioso se refere ao controle dos gastos de campanha, pois existem limites declarados e o que se vê pelas ruas é que não houve o menor esforço para se evitar o desperdício. Como a maioria dos candidatos não tem dinheiro pessoal para investir na impressão desses materiais, a pergunta que fica é de onde saiu tanto recurso para ser investido em algo que agora não passa de lixo eleitoral.

Mas o fato é que esse desperdício todo apenas reflete uma campanha eleitoral rica que foi muito pobre no debate necessário para fazer a cidade de Campos mais democrática e menos socialmente injusta. Uma prova cabal da falta da fraqueza da nossa democracia. Vida que segue em meio a desafios cada vez maiores e que não couberam nem nos vistosos programas de TV nem no lixo que agora cobre nossas ruas.