Em Campos dos Goytacazes, a eleição para prefeito deverá ser por W.O. Mas e depois?

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Por Douglas Barreto da Mata

Há algum tempo, escrevi que a eleição de Campos dos Goytacazes seria decidida não pelo embate governo e oposição, mas por completa ausência desse último segmento, como você pode relembrar aqui.  Hoje, li o texto do Professor Marcos Pedlowski, tecendo considerações sobre o governo Wladimir Garotinho e suas respectivas a falhas.

Pois bem, é preciso fazer um pouco de justiça, a partir de algumas constatações.  É fato que encontrar a cidade após a desastrosa administração de Rafael Diniz já seria algo difícil de reconstruir.  Agora imagine essa condição, acrescentada pela pandemia da COVID-19.  O que se viu, literalmente, foi terra arrasada.  Boa parte do tempo da administração foi dedicado à reversão desse quadro. 

Aquilo que o neto do oligarca Zezé Barbosa disse que seria impossível, a repactuação da cessão de direitos dos royalties, foi costurada pelo atual governo com certa rapidez, assim como uma intensa negociação com o Governo do Estado, que alocou uma gama considerável de recursos na cidade, e deu alívio de caixa ao município.  Também na esfera federal, a atual administração circulou com boa capacidade de interlocução, e conseguiu recursos para melhora da frota urbana de ônibus e outras verbas.

Tudo isso deu chance à recuperação da pontualidade dos pagamentos dos servidores, para posterior recomposição parcial de perdas salariais, restituição dos programas sociais interrompidos, como o Cartão Goytacá, Restaurante Popular, e outros programas menores.

A rede municipal de educação e saúde pareciam uma zona pós guerra, tanto do ponto de vista físico desses equipamentos, quanto do funcionalismo.  Uma grande parte foi reconstruída, e a parte gerencial é prometida como próxima etapa. 

Com a entrada de recursos públicos, a economia gerou empregos, e aqui uma outra observação: sempre creditam o fracasso ou estagnação da economia local, um tipo de Doença Holandesa, a hiper dependência dos royalties.  30 bilhões em royalties, dizem.

Sim, é verdade, o que não dizem é outra coisa.  Apesar de concordar com a tese do desperdício, boa parte desse dinheiro foi destinado ao pagamento de inúmeros serviços públicos, além da indução da economia local, seja com obras públicas, seja com pagamento de servidores. Se não fosse esse gasto, quem geraria empregos? A iniciativa privada?  Onde?

Com saldo positivo de geração de empregos nestes quatro últimos anos, nenhum empreendimento gerador de emprego foi iniciado nesta cidade.  Nada. Os parasitas continuam onde sempre estiveram, esperando vagar uma teta no orçamento público.  Então, temos que rever alguns conceitos sobre esses valores, diante de uma elite tão preguiçosa e mau caráter como a nossa, legatária do tempo da escravidão, e que ainda não entrou no Século XX.

Assim, o Professor Pedlowski sabe muito mais que eu, que por tudo isso, o que foi realizado teve lugar dentro de um ambiente hostil, da maioria da mídia e dos chamados setores “intelectuais”, ao contrário do silêncio cúmplice na administração de Rafael Diniz.

E se governar também é disputar espaço dia-a-dia, uma parte do esforço deste governo foi empenhada na tarefa de construção, senão de um consenso, pelo menos de alguma boa vontade destes, digamos, leões contra a família Garotinho, e gatinhos quando se trata de outros grupos políticos.

Pois bem, há, ainda, grandes problemas?  Certamente.  Mas como os governos se orientam em um processo democrático?  Sem uma oposição forte, com capacidade de debate propositivo, estruturado em dados, os governos tendem a perder a referência de si mesmos.

Quando menciono oposição relevante, não falo apenas do aspecto do incômodo, como fez o grupo local de vereadores, que tentou barrar a votação da lei orçamentária, deixando a cidade em suspenso até o início deste ano.

Querem um exemplo?  Eu me recordo que no início do governo Wladimir Garotinho, diante da possibilidade de restrições orçamentárias, o prefeito enviou à Câmara Municipal um projeto de reforma tributária, bem tímido, diga-se, exortando os mais ricos a pagarem na proporção de suas riquezas, a conta do funcionamento da cidade.

Foi o caos, e pior, raro caso de unanimidade dos edis, governistas e oposicionistas, e de todos os setores da cidade, inclusive da esquerda.  Aquilo que seria o início de uma importante discussão para reconfiguração da estrutura urbana, e que reside na assertiva de que paga mais quem pode mais, e por tal razão, têm os melhores serviços da cidade, foi abortada no útero legislativo.

Outro estranho consenso?  Águas do Parahyba, uma das chagas da vergonha da cidade, uma concessão que age quase na ilegalidade.  Como o prefeito enfrentará essa corporação sem uma base sólida de apoio de todos os vereadores, ou ao menos, a maioria deles? 

O caminho da justiça, tentado pela Procuradoria do Município trouxe alguns ganhos, mas que são poucos, diante do que precisa ser feito como regulação dessa concessão nefasta.  Eu acho que o compromisso das pessoas que desejam uma Campos dos Goytacazes melhor, em todos seus aspectos, é estabelecer uma disputa política concreta e honesta, trazendo para a pauta aquilo que realmente importa:  a cidade e seus serviços devem atender aos que mais precisam, e quem deve custear tudo isso são aqueles que têm mais grana.

É preciso dar aos bairros mais periféricos o mesmo conforto, limpeza, mobilidade, e segurança dos bairros mais ricos. 

É preciso diminuir a quantidade de carros nas ruas, as cidades devem respirar, e a gente andando é que faz a cidade respirar.

É preciso disciplinar, fiscalizar, multar e diminuir a velocidade dos veículos, dizer aos motoristas que eles não são os senhores da vida e da morte.

É preciso praças arborizadas, nos bairros, equipamentos públicos de convivência, mas também com grandes parques, como o Parque Ecológico em construção.

É preciso levar as instalações da administração para as áreas degradadas (centro e etc), fazendo com que funcionários vejam e sejam vistos pela gente que eles servem.

É preciso interromper o ciclo de apropriação da cidade por uma minoria, e devolvê-la à maioria.

Esta tarefa não é só do prefeito, é da comunidade, que deve cobrá-lo, permanentemente.

É preciso, terminada a eleição, sentarem todas estas partes envolvidas, governo, vereadores eleitos, os setores menos delirantes da oposição, e construírem um pacto pela governança da cidade.

Não com nostalgias de um passado horroroso e escravocrata, uma suposta opulência excludente e provinciana, que alguns bobocas de classe média, lacaios de uma elite arcaica, verbalizam por aí, com ares de academicismo. 

Uma cidade plural, viva e pulsante.  Uma cidade cidadã.

Em Campos, Wladimir ser melhor do que Rafael Diniz é muito pouco ou quase nada

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Rafael Diniz com Frederico Paes e Wladimir Garotinho no processo de transição de um governo que faz o atual parecer muito melhor do que realmente é

Passadas as primeiras semanas da propaganda eleitoral para as eleições municipais de outubro, tenho visto um deserto de ideias aflorando nas ondas de rádio e nas telas de TV.  É como se a maioria dos candidatos a prefeito e vereador não vivessem na mesma Campos dos Goytacazes que eu vivo, tamanha é a superficialidade das propostas. No plano das candidaturas a prefeito, o que se vê é um arremedo de programas misturado com ataques e contra-ataques. No geral, o que se vê é apenas o esquentamento de velhas temáticas sem que se reflita sobre o que aconteceu desde a posse do atual prefeito que, convenhamos, faz um governo muito melhor do que seu antecessor cujo mandato é visto como um excelente exemplo de desencontro entre a propaganda eleitoral e aquilo que nos entregue o que for eventualmente eleito.

O prefeito Wladimir Garotinho com toda esperteza surfa na péssima memória do seu antecessor, o hoje pouco notável Rafael Diniz, e colhe os saldos de ter seu governo visto como melhor do que o anterior. Mas para começo de conversa, o que significa ter um governo melhor do que o de Rafael Diniz? Convenhamos que é muito pouco ou quase nada.

Como alguém que vive a cidade o ano todo e converso com muitos pelas ruas, cada vez mais sujas e abandonadas, me preocupa muito verificar que a administração municipal continua, apesar de um verniz modernizador, mantendo práticas que nos mantém na mesma toada daquela que eu encontrei em 1997 quando transportei meus poucos pertences para cá.  E é preciso notar que nesse período os royalties do petróleo fizeram aportar muitos bilhões de reais nos cofres públicos, sem que houvesse melhoria perceptível em áreas estratégicas para o bem estar da população.

As áreas de educação e saúde continuam sem possibilitar o acesso digno a milhares de cidadãos e seus filhos, essa é a verdade. Quando se conversa com cidadãos pobres que precisam acessar escolas e unidades de saúde municipais, o que se ouve é um show de horrores.  Alguém poderá aparecer com o argumento de que a nota do IDEB foi histórica. Mas e daí? Quem já conversou com algum professor da rede municipal certamente ouviu histórias de horror sobre a condição das salas de aula, e de como a maioria dos que labutam no chão das escolas não é concursada, dependendo de contratos precários que não garantem nem renda digna ou tranquilidade para enfrentar a tarefa dura de educar crianças que muitas vezes só comparecem na escola para se alimentar. E obviamente da devida obediência e alinhamento ao que demanda o governo municipal.

No caso da saúde, posso narrar uma experiência pessoal com mulheres trabalhadoras que compartilham a característica de estarem hipertensas. Uma delas me confidenciou que tendo recebido apenas um determinado medicamento, desconfiava que o mesmo era pouco apropriado para sua condição, mas que o médico que a havia atendido teria informado que era o que se tinha para entregar. A partir da minha própria condição de saúde e de um medicamento que uso diariamente, pude logo notar que realmente o remédio entregue é daqueles que não se receitam mais para quem pode pagar pelo que há de mais recente no mercado. Como os pobres não tem como comprar remédios mais modernos ou sequer pagar por consultas particulares, resta-lhes continuar vivendo cada dia como se não houvesse amanhã. 

Mas não é só educação e saúde que sofrem, apesar de orçamentos milionários. Vejamos a condição do transporte público que continua indigno do nome. A população hoje padece de uma estrutura que torna os menores deslocamentos penosos, com um custo relativamente alto para os mais pobres. Com isso, viagens que deveriam durar 20 minutos se transformam em epopeias no interior de veículos velhos e perigosos.  Aliás, se o IMTT resolvesse sair da condição de hibernação eterna em que se encontra, quantos dos ônibus e vans que sacolejam com campistas assustados por diferentes partes do município não teriam de ser recolhidos? Sugiro aos mais céticos que tentem uma viagem desde a rodoviária velha até, por exemplo, Morro do Coco.  Se não se desejarem ir tão longe, uma viagem até Guandu já daria conta da experiência. 

Para compor esse cenário de dificuldade, temos ainda ruas inteiras que receberam melhoras cosméticas sem a devida sinalização. Com isso, transitar pelas ruas de noite é quase um exercício de coragem. Essa coragem tem de ser maior porque vivemos em uma cidade média cujo sistema de monitoramento e controle de cumprimento das regras de um trânsito que parece congelado na Vila de São Salvador. Com isso, se estabelece um clima do salve-se quem puder e o resultado são acidentes diários com feridos e mortos. Tudo isso sob os olhares lânguidos das autoridades municipais, a começar pelos dirigentes do IMTT.

E a situação do contrato com as concessionárias de serviços públicos, o da Águas do Paraíba para começar? Nem o prefeito ou vereadores se dão ao trabalho de explicar à população como se pode gastar tanto e ter em troca serviços de tão baixa qualidade.  A questão do abastecimento de água e do tratamento de esgotos já deveria ter tido por parte de Wladimir Garotinho algo a mais do que a encenação de se vetar aumentos anuais que serão garantidos pela concessionária no Tribunal de Justiça, como se tudo fosse apenas um jogo combinado para manter as aparências. Enquanto isso, os aditivos continuam, como continua a baixa qualidade dos serviços prestados.

Algo que cobro desde o início do governo Wladimir Garotinho é o restabelecimento de uma secretaria municipal de Meio Ambiente e um plano mínimo de adaptação climática para Campos dos Goytacazes. Como pode ser possível que em uma cidade tão pressionada por fatores climáticos, estejamos sem uma secretária específica?  A recente crise da proliferação de cianobactérias no Rio Paraíba do Sul já deveria ter acendido um alerta gigante por causas dos riscos existentes para a saúde da população, mas tudo continuou literalmente como dantes no quartel de Wladimir.  Enquanto isso, as queimadas dos campos de cana afundam a cidade em espessas camadas de fumaça que trazem de volta compostos mercuriais presos nos solos desde os anos de 1970, os quais representam grave ameaça à saúde. Qual a reação do governo municipal a isso? Nenhuma, pois sendo o vice-prefeito um dos que seguram a caixa de fósforo até seria ingenuidade esperar o contrário. E tome gente (a maioria crianças e idosos) correndo atrás de farmácias e postos de saúde atrás de tratamentos.

Há ainda que se lembrar que não vivemos em um município desprovido de orçamento. Com as idas e vindas dos últimos anos, temos consistentemente orçamentos bilionários os quais são devidamente gastos sem que veja onde e com o quê exatamente. E não se trata de falta de dinheiro, mas de disposição para democratizar o acesso ao orçamento. Em outras palavras, trata-se de uma opção política no sentido de quem ganha e de quem perde na alocação dos recursos públicos. 

Finalmente, não pretendo ter exaurido todas as áreas em que vejo problemas na administração de Wladimir Garotinho, pois escolhi apenas as mais salientes.  Aqui é preciso que se diga que Wladimir segue uma cartilha que é puro suco de neoliberalismo, e isso explica porque seu governo tem os contornos que tem, com os pobres segurando a parte podre da corda.  O problema é que os seus concorrentes na atual rodada eleitoral parecem não ter problema algum com a cartilha em si, apenas com o fato de querem ser aqueles que a aplicam. Com isso, não chega a ser surpresa que as chances de Wladimir se reeleger em primeiro turno estejam tão altas. É que pelo menos com sua aplicação da cartilha, uma parte mínima do orçamento municipal ainda chega aos pobres na forma de políticas sociais pontuais.  Essa, aliás, me parece ser a principal razão por suas expectativas de voto estarem tão altas, apesar do sofrimento todo que os pobres experimentam em seus bairros. Os pobres sabem que o atual governo é ruim, mas que a coisa sempre piorar, como bem mostrou o governo que prometeu mudanças e removeu impiedosamente os pobres do orçamento.

Agora, se reeleito, Wladimir vai ter que lembrar que não será mais comprado com Rafael Diniz, mas com ele próprio. E aí poderão começar os problemas para claramente sonha em concorrer com o Palácio Guanabara em 2026.

Alô PT Campos: passarinho que anda com morcego, acaba dormindo de cabeça para baixo

passarinho morcego

Por Douglas Barreto da Mata

O PT de Campos dos Goytacazes encaminha, ao que tudo indica, uma das campanhas mais vergonhosas da sua história, que já não é lá grande coisa.  É indisfarçável a inclinação dos petistas a servirem de muleta da candidata delegada, em uma estranha simbiose com a extrema-direita. Pois bem, quem não escuta cuidado, escuta coitado. 

É o caso do PT de Campos dos Goytacazes, e seu ingênuo (ou cínico?) candidato a prefeito.  Quem assistiu ao programa eleitoral ontem, por completo, tem a nítida impressão que o redator dos textos e dos roteiros da candidata delegada e do candidato professor são a mesma pessoa.  A tática é idêntica. 

Certamente, a candidata e o candidato detêm informações sobre o desempenho após início de propaganda, e internamente sabem que os esforços têm sido inúteis, por isso o redirecionamento dos discursos.  A mudança de chave do professor e da delegada, ao mesmo tempo, e com o mesmo conteúdo, revela que o PT é uma linha auxiliar da delegada. Eu não tenho problemas com isso, se não fosse um detalhe. 

O diabo, como sabemos, mora nos detalhes. A delegada é a manifestação da extrema-direita na cidade, um tipo de KKKampos, que sai na primeira defesa daquele que é tido como “cão-chupando-manga”, o infame “influencer” goiano que mais parece uma mistura de curandeiro religioso, treinador de RH e “terapeuta” do Love School da TV Record.  Ainda pesam sobre o moço suspeitas de envolvimento com pessoas ligadas ao PCC.

É a esse tipo de gente que o PT de Campos dos Goytacazes resolveu alugar seu candidato. Onde espera chegar o PT de Campos dos Goytacazes?   O que lhe foi oferecido e quem ofereceu?  Qual é o cálculo dessa equação política? 

Qualquer que seja o ângulo da análise, parece que os petistas celebraram um acordo que se pode chamar de Caracu. O partido conseguiria eleger um vereador, de qualquer forma, nesse pleito, já que alterações na lei impõem que o beneficiado com “a sobra” não necessite de fazer votos de legenda para alcançar o coeficiente eleitoral, como me ensinou uma raposa petista.  É consenso que o PT terá a maior “sobra”. 

Então, se não foi para eleger um vereador, qual a razão do PT de Campos se misturar com a extrema-direita?  Por mais que o perfil do candidato Jefferson sugira um viés “coxinha-classe-média”, mais próximo das lunáticas vivandeiras de quarteis do que das classes menos afortunadas, o fato é que essa inclinação para a KKKampos não é coisa só dele. 

Vai ver, tem alguém infiltrado na legenda, quem sabe?

A montanha pariu um rato: como a extrema-direita tentou iludir os eleitores de Campos dos Goytacazes

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Por Douglas Barreto da Mata

A montanha

Um dos mais caros ensinamentos praticados pela extrema-direita é a distorção da realidade. O espancamento dos fatos até que estes se apresentem como uma versão favorável.  Nos últimos dias, como é de costume em campanhas eleitorais, o exército nazicampista (termo da lavra do meu amigo Gustavo Landim Soffiati), representado na candidatura da delegada, tentou, sem conseguir, apresentar um viés favorável dos números obtidos em uma pesquisa realizada pelo Jornal O Dia/Instituto Paraná Pesquisas.

Como comprovamos em várias publicações na plataforma Instagram (@douglasbarretodamata), o pessoal da KKK da planície usou um expediente maroto.  Em resumo, o instituto realizou as entrevistas por telefone, o que em si já traz um prejuízo das amostras e dos dados.

Neste caminho, a pesquisa revelou um dado inédito, 53% de indecisos, que deu à delegada um surpreendente índice de intenções de voto, no quesito votos válidos, que são, justamente, aqueles que descontam os indecisos, brancos e nulos.  Logo percebemos o “truque”, que é a ordem dos questionários, associada com a má vontade do eleitor entrevistado em atender telefonema, ainda mais na era digital, das mensagens por aplicativos.

Pois bem, se oferecida por último a pergunta no quesito espontâneo (o eleitor fala em quem votará, sem nenhuma indicação ou informação prévia do entrevistador), é certo que muitos dos entrevistados irão falar que “não sabem”, no desejo de encerrar logo a conversa telefônica.  Isso aumenta os indecisos, e claro, altera os números apurados.

Bem, dias depois, outro instituto, desta vez o Big Data, contratado pela Rede Record, fez outra sondagem, e surpresa (?):  o número de indecisos caiu para 30%.  Não digo aqui que o Jornal O Dia quisesse agradar o grupo político que patrocina a candidatura de oposição, já que esse grupo está instalado no Governo do Estado do RJ, um cliente poderoso.

Nada disso.  Acredito na seriedade do veículo e do seu contratado.  No entanto, não podemos desprezar que a discrepância entre os indecisos nos dois casos é relevante, a ponto de nos autorizar a conclusão de que métodos diferentes foram empregados, um mais preciso, neste caso o Big Data, e outro menos preciso, como o Instituto Paraná.

Outra coisa interessante, é que mesmo com essa ligeira diferença, que atendeu a uma demanda dos nazicampistas, os resultados de aprovação do prefeito, seus índices de intenções (63%), e enfim, rejeição (16%), não se alteraram tanto.

Insisto:  Se houvesse uma variação significativa de todos os demais resultados, poderíamos dizer que tal diferença seria fruto de metodologias diferentes, e claro, cada um escolhe a sua.  O que se viu não foi isso, e só em uma variável (a de indecisos) houve distorção.

Novamente, afirmamos que a discrepância de número de indecisos está na base do “aumento” de intenções de voto da delegada.

O rato

Vamos falar, agora, do quadro eleitoral atual, tendo como referência a pesquisa mais próxima da realidade, a do Instituto Big Data/Rede Record.

O prefeito Wladimir Garotinho parece sedimentado em um patamar bem elevado, que converge e reflete a aprovação da sua gestão (governo), e a diferença entre intenções dos votos válidos e aprovação de gestão ainda permitem um pouco de crescimento, a ser verificado nestes últimos 30  dias de campanha, ou não.

A TV tende a atingir uma faixa de eleitorado que usa pouco internet, mais pobre e mais do interior, menos escolarizada.  Justamente o eleitorado cativo da família Garotinho.  A rejeição do prefeito bate, quase que exatamente, com a soma dos eleitores que dizem preferir os candidatos adversários.

Guarde essa informação, vai ser útil ali adiante.

É uma rejeição que pode ser traduzida no sentimento anti garotista mais renhido, que não se move, e se dispõe a votar em qualquer um que se apresente como antagonista da família Garotinho.

Assim, é certo dizer que haveria um certo espaço para o PT dobrar, ou até mesmo passar dos dois dígitos, desbancando os nazicampistas do segundo lugar, se não insistisse em evitar este confronto com a extrema-direita, preferindo o ataque ao prefeito.

Para ser honesto, a recente polêmica do prefeito com o candidato petista sobre o IDEB conferiu ao petista um pouco de holofote, e lhe permitiu avançar, um pouco, sobre o eleitorado indeciso.  Sabemos que as intenções de Wladimir ficaram intactas, sendo óbvio que Jefferson Azevedo cresceu sobre os indecisos, já que não ganhou eleitores da delegada.

Esse expediente tem um limite, que não parece claro ao petista e sua coordenação, que animada por esse ligeiro, mas importante crescimento, imagina que manter as baterias sobre o prefeito trará mais eleitores.  O limite é a rejeição do prefeito, e alcançado esse teto, que, como já falamos acima, que já está bem próximo.  Este patamar consiste na soma das intenções dos adversários do prefeito face à rejeição. Além dele, o petista não avançará mais, nem ele, nem os demais.

Ao contrário, tendem a perder votos, já que atacar um prefeito e uma gestão bem avaliados é antipático, e mais ainda, interdita a nominata de vereadores, que passa a perder votos de eleitores híbridos (que votam em vereadores da oposição e no prefeito), o que esvazia mais a campanha do candidato majoritário.

A rejeição, na verdade, é a segunda colocada nas intenções de voto.

Nenhum dos adversários do prefeito conseguiu ter mais intenções que as suas rejeições, e é essa a barreira que os impede de avançar dentro dos votos do prefeito, como imaginam os coordenadores do PT.  Observar a série histórica das rejeições mostra que, exceto Wladimir, que, inclusive já é muito conhecido, todos os demais angariaram muito mais rejeições que intenções de votos, com o passar do tempo, na medida que se tornaram mais conhecidos.

Podemos dizer, no caso da delegada em destaque, e dos demais com menos variações, que quanto mais conhecidos se tornaram, mais rejeitados ficaram.

Deste modo, repito, cabe ao PT tentar canibalizar os votos da extrema-direita, por mais paradoxal que pareça, é uma possibilidade dentro da lógica dos anti garotistas, e ao mesmo tempo demarcar um campo/território, mostrando aos indecisos quem é o verdadeiro adversário do prefeito.  Se mantiver o ataque ao prefeito, o PT vai solidificar a polarização dele (prefeito) com os nazicampistas.

Qualquer dos dois cenários é bom para o prefeito, que do alto da sua enorme aprovação, e de suas intenções, pode escolher quem bater, ou melhor, quem ignorar.

Permitir isso é um revés trágico, ainda que o PT eleja um vereador, olhando a perspectiva de médio e longo prazos do partido na região.  É repetir erros passados, esperando resultados diferentes, como já cansamos de falar. 

O PT de Campos continua falando sozinho

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Por Douglas Barreto da Mata

Dias atrás, aqui neste mesmo blog, eu avisei aos camaradas do Comitê Central do PT de Campos, e aos comissários do povo para a campanha de 2024, que bater nos índices do IDEB era como dar coices na própria sombra.

Não ouviram. Como sabemos, quem não escuta cuidado, escuta coitado. Pois bem, hoje me mandaram o que dois acadêmicos pensam sobre o tema:  George é companheiro de longa data, desde quando ele integrava a equipe do blog Outros Campos. Sempre que queria aporrinhar eles, dizia que eles eram “os que sabiam javanês”, em uma alusão à deliciosa crônica de Lima Barreto. Se não me engano eram Roberto Dutra, Vítor Peixoto, Brand Arenari e George Gomes Coutinho.

Divergências e rusgas à parte, que nos separaram em caminhos políticos diferentes, eis que o tempo trouxe de volta o camarada George para as tratativas políticas e análises.  Bem, parece que tanto ele, como o Eduardo Shimoda concordaram comigo no quesito “bola fora” do Comitê Central do PT e do Alto Comissariado Para As Eleições 2024.

Shimoda é contemporâneo de outros meninos da UENF, que moravam, assim como eu, no condomínio Verdes Campos, em frente à universidade.  Jogávamos boas “peladas” com Vitinho (se eu não me engano, biólogo), Marlon (acho que engenheiro agrônomo).  Boas risadas e épicas tardes de futebol de salão.

Como antes, no presente é bom estar em boa companhia.  Ou seja: o PT “chutou a bola no mato”, quando atacou um índice que ele mesmo gere, e pior, sem argumento teórico possível.

Hoje, um atordoado Professor Jefferson parece querer reagir, e comete outro erro, ao tenta unificar, em um mesmo campo político, coisas diferentes, ou seja, Wladimir Garotinho e a delegada candidata. Assista aqui.  Parece que o candidato continua perdido, como dissemos aqui.

Vamos tornar os problemas do Professor Jefferson um pouco mais difíceis, se é que isso é possível.  Falamos no texto aí em cima que ele e sua coordenação elaboram um cenário que inviabiliza um possível diálogo, caso haja um segundo turno entre Wladimir e a delegada.  Com o comportamento de hoje, o PT ficaria ainda mais isolado que já está.

Agora vamos virar a cabeça de vez, e pensar em um segundo turno entre o PT e a delegada, caso houvesse uma catástrofe na campanha favorita.  E aí, como dialogar com o pessoal de Wladimir?  Aliás, acreditando em uma previsão feita por uma cabeça coroada da coordenação da campanha petista, como se portará o (a) vereador (a) eleito (a), ou os (as) vereadores (as) eleitos (as), frente ao quadro político que se avizinha?

O PT vai conversar com quem, seguindo essa trilha do Alto Comissariado Para as Eleições? E 2026, já que é consenso que o pleito de 2024 é um ensaio geral das eleições gerais, no quesito alianças e montagem de palanques?

Acredito que desse jeito, o PT de Campos vai continuar como se encontra: ouvindo o som da própria voz.

O PT de Campos e suas possibilidades em 2024

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Por Douglas Barreto da Mata

Ninguém entra em uma campanha pensando em derrota. O Professor Jefferson não seria diferente. No entanto, cada candidato, cada coordenação de campanha e direções tendem a adequar o otimismo e o vigor, necessários para um bom trabalho eleitoral, com uma visão pragmática da realidade e dos cenários futuros.

Sim, a luta política do PT em Campos dos Goytacazes não se encerra em 2024, porém, a adoção de táticas e estratégias bem elaboradas podem transformar as perspectivas do partido na cidade e na região. 2024 é 2026, venho dizendo. Assim como digo sempre que, em 2026, poucas forças políticas vão ficar de pé, ou com forças suficientes para influir no jogo.

O PT de Campos dos Goytacazes é, mais uma vez, um elemento importante dessa equação, porque se localiza no epicentro, mais uma vez, da disputa de grandes dinastias políticas, agora o grupo do Prefeito Wladimir Garotinho e do Presidente da ALERJ, Rodrigo Bacellar.

Estes dois grupos sabem que suas sobrevivências políticas em 2026, e dali por diante, dependerão (muito) dos acordos e alianças feitas agora, em 2024.

O que o PT poderá fazer?  É uma pergunta difícil, mas há sinais claros do que o PT não deve fazer.

Os dados das pesquisas eleitorais recentes mostram que o Prefeito Wladimir está sedimentado em uma parcela grande do eleitorado, e apesar da campanha não ter começado, de direito, ainda, o fato é que nas redes sociais há uma intensa disputa, somada às recentes intervenções do grupo do Presidente da ALERJ na região, com direito à caravana com o Governador.

Tudo isso não movimentou muito as intenções de voto, e o Prefeito segue como um fenômeno atípico: as intenções de voto estimuladas quase igualam as de caráter espontâneo nas pesquisas.

Outro fator importante a ser analisado é a diminuta rejeição do Prefeito, apesar de já estar “na chuva” há três anos, e mais, o prefeito construiu, na sua curta carreira, um nome próprio, que ao mesmo se aproveita do “recall” dos pais, mas com atitude independente, sem, no entanto, igualar a inclinação ao conflito do pai.

Resumindo, parece difícil ao PT, ou a qualquer outra força política concorrente capturar votos do Prefeito.  O que resta então?

Um campo de eleitores que não votaria em ninguém, seja por abstenção, ou por votos brancos e nulos, uma parcela de anti garotistas ferrenhos, outros tantos indecisos, ou historicamente eleitores da esquerda.

É uma faixa pequena, mas que para o PT pode fazer toda diferença, já que um desempenho de 10%, ou algo próximo, pode fazer a legenda ter dois vereadores, e um nome viável para as eleições estaduais de 2026, que seria o próprio Jefferson.

Se tirar votos do Prefeito é tarefa pouco provável, até para a campanha mais estruturada da Delegada Madeleine, apoiada pelo “canhão” da Alerj e do Governo do Estado, como o PT poderá construir seu capital eleitoral?

Note que a Delegada ficou restrita a um campo ultra evangélico de extrema-direita, pelo menos é essa a mensagem refletida na sua postura “messiânica” recente, do tipo “Varoa Templária”.

Em que campo o PT poderia prosperar?  O de sempre, e que, infelizmente, foi esquecido nos últimos tempos: o campo da esquerda, levar a eleição para uma polarização com a extrema-direita, representada pela Delegada Madeleine.

É consenso, que não há como ganhar votos (só) criticando a administração atual, já que uma enorme parcela do eleitorado já vem dizendo que mesmo com problemas, o que hoje está aí é muito melhor que o desastre Rafael Diniz, cujos efeitos da péssima administração ainda não foram esquecidos, inclusive pelo ótimo trabalho de marketing da equipe do Prefeito.

Críticas ao transporte público, a saúde, etc têm algum apelo, mas não têm revertido em votos.

No entanto, como os petistas mesmo chegaram a afirmar, há um montante de votos conferidos a Lula no segundo turno de 2022 que demonstram que a mensagem anti extrema-direita, aqui refletida na campanha da Delegada, pode trazer alguns frutos.

Os especialistas, em sua maioria, aconselham a não nacionalizar as campanhas municipais, salvo exceções, que parece ser o caso de Campos dos Goytacazes: o tamanho do eleitorado (quanto maior a cidade, maior a chance de polarização nacionalizada).

A impossibilidade fática de atacar uma administração e um prefeito super bem avaliados, apesar dos problemas da cidade (o que mostra o quanto o trabalho de convencimento foi bem feito, e será difícil de reverter em 2 meses).

Sendo assim, o PT campista deveria, em meu raso entender, tentar tirar votos de onde é possível, por mais paradoxal que seja, da extrema-direita.

Para quem acha isso impossível, é bom lembrar que todas as sondagens nacionais mostram um nível de “confusão convergente” entre parte do eleitorado de Lula e de Bolsonaro.

Querem prova disso?  A última determinação do PL em “purificar” suas alianças proibindo a aproximação com PT, PDT, PC do B, PSB, etc.

O PL e os Bolsonaro já enxergaram nessa eleição municipal o perigo de diluição do apelo do extremismo pelo pragmatismo eleitoral das lideranças regionais e locais, e do próprio eleitor.

Temem, por assim dizer, que sejam engolidos pelas exigências da realidade, já que boa parte dos eleitores de Lula se aproxima da pauta conservadora de costumes do bolsonarismo.

É hora do PT campista elaborar uma agenda de enfrentamento da extrema-direita, representada pela Delegada Madeleine, ao mesmo tempo que estabelece uma ponte futura para dialogar com as forças de centro, representado em Wladimir e seu arco de aliados mais moderados, impedindo o avanço dos radicalismos, que intoxicam qualquer ambiente político.

A reitora da Uenf, sua entrevista desastrosa, e os riscos criados

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A reitora Rosana Rodrigues e seu vice-reitor durante a campanha eleitoral em 2023

Que os últimos reitores da Universidade Estadual do Norte Fluminense impuseram uma forte degradação na qualidade do que se espera de ocupantes do cargo máximo de uma instituição pública de ensino superior é uma opinião corrente dentro e fora dos muros universitários. Mas uma entrevista concedida pela reitora Rosana Rodrigues a um veículo da mídia corporativa campista conseguiu atingir um novo patamar inferior, confirmando o que diz a 1a. Lei de Murphy que diz em linhas gerais que aquilo que está ruim sempre pode piorar.

O resumo das falas da reitora Rosana Rodrigues cobrem uma série de tópicos sobre os quais ela deverá ter pensado melhor antes de falar. É que dada a seriedade e gravidade de alguns deles, ela deveria ter tido mais cuidado. Ao avançar sobre avaliações do processo eleitoral municipal com a erudição abaixo de um calouro do curso de Ciências Sociais, se pronunciar sobre um caso em que ela já errou ao levar intempestivamente ao Conselho Universitário, e desqualificar objetivamente um inquérito em andamento no âmbito do Ministério Público Estadual, a reitora mostrou um nível de despreparo e descuido que ainda poderá voltar para morder o seu calcanhar.

Eu não sou bacharel em Direito, mas tenho a impressão que várias das afirmações da reitora incorrem em, pelo menos, no uso prematuro da capacidade de falar coisas que deveriam ser tratadas com mais cuidado.  Algo que me chamou a atenção, entre muitos dos fatos arrolados por ela, foi o reconhecimento de que “quando chegou na Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, ela recebeu, via Ministério Público, as mesmas denúncias“. Pois bem, faltou a reitora dizer se à época ela teria feito algo para apurar as denúncias, solicitação, por exemplo, a instalação de uma comissão especial de sindicância para conduzir a devida apuração dos fatos denunciados. Se não fez isso, a reitora pode, dependendo dos resultados das apurações em curso pelo Ministério Público Estadual, ter prevaricado. Como sabemos que prevaricação é crime, essa afirmação que agora está disponível para quem quiser ler, foi, no mínimo, descuidada. E a promotora responsável pelo caso das bolsas poderá inquirir a reitora sobre o que ela fez ou deixou de fazer sobre este assunto espinhoso enquanto segurou a caneta de pró-reitora.

Já a incursão da reitora pelo caminho da avaliação do cenário eleitoral foi uma demonstração de que ela não teme falar sobre o que claramente não entende. Ao juntar a situação das eleições estadunidenses com o pleito municipal, ela conseguiu proferir uma série de afirmações desconexas e com baixo ou nenhum elemento analítico plausível. Mas ao fazer isso, a reitora se arriscou, de forma desnecessária, a irritar um prefeito que possui grande nível de aprovação e, pior, tem buscado fazer parcerias com a Uenf. Bastaria Rosana lembrar de duas áreas doadas por Wladimir ao projeto Pescarte para mostrar, pelo menos, um mínimo de cuidado.

Há que se lembrar que diferente de prefeitos anteriores, o prefeito Wladimir Garotinho nomeou um ex-reitor,o professor Almy Junior, para ocupar uma pasta estratégica para o município, no caso a de  Agricultura, Pecuária e Pesca.  Assim, qual foi exatamente o ganho esperado em abordar uma eleição em que ela como reitora da Uenf deveria se posicionar de forma, reafirmo, minimamente cuidadosa? É que se o cenário eleitoral se confirmar e Wladimir for reeleito como parece que será, o que pode se esperar para as parcerias em curso ou a que alguns docentes pretendem desenvolver a partir de 2025? Ainda que Wladimir seja uma pessoa com temperamento um tanto distinto dos pais, ele ainda é um Garotinho. 

Conheço a reitora Rosana Rodrigues desde que cheguei na Uenf em 1998. Nesses anos todos, ela foi uma perfeita ausente dos grandes debates que a Uenf travou, a começar pela luta em prol da autonomia universitária. O fato é que nesse tempo todo, ela manteve um perfil discreto e focado nas suas pesquisas científicas. Sem querer dar conselho a quem não pediu, eu diria que ela deveria voltar imediatamente à sua discrição costumeira, evitando assim falar sobre tópicos que ou ela não domina, ou sobre outros em que ela deveria se pronunciar somente com a devida orientação legal.  É que se ela mantiver a postura atual, ela poderá levar a Uenf por mares parecidos com aqueles que os antigos navegadores portugueses tinham que enfrentar no sul do continente africano. E aqui confesso um elemento egoísta: é que depois de passar mais de duas décadas tentando levar a nau uenfiana para frente, eu não gostaria de vê-la afundar, especialmente comigo ainda dentro dela.

Finalmente, há que se lembrar aqui uma das máximas dos tempos atuais: quem não sabe brincar, não deve descer para o play (ground).

Por onde anda Wally?

Por Douglas Barreto da Mata
Onde está Wally? Não, mesmo que você procure, você não vai encontrar Wally na foto abaixo.
wallyAliás, não é Wally que deveria estar na imagem, mas sim a deputada estadual Carla Machado.

Afinal, depois de ser a quase-ex-futura-candidata à prefeita pelo PT, e de juras de amor e fidelidade mútuas entre os petistas e a parlamentar, soa, no mínimo, intrigante o fato dela não estar na fotografia de convocação da Convenção do PT, ao lado de outras figuras proeminentes.

O PT, que poderia se chamar, no caso da deputada, de PG (porta giratória), parece que vai ter que sofrer para herdar as intenções de votos que deseja, e que estão no patrimônio político da deputada.

Ao que nos parece, a deputada recolheu “todos seus pertences”, e só não deixou o “lar” (partidário), por medo de ficar sem mandato. Assim, vão manter um “casamento de aparências”, sem qualquer laço de afinidade eleitoral. 

Os votos dela? Acho que o PT não vai ficar com nada, senão com as lembranças das promessas não cumpridas de “amor”. Porém, o que nos espanta não são essas conjecturas. Nada disso.

Espantosa é a falta de qualquer profissionalismo, de qualquer engenhosidade política, e permitir que se produza um material sem a deputada estadual, justamente ela que se dizia a referência de viabilidade do partido.

Ou seja, mesmo em um “casamento de aparências”, são necessárias certas formalidades, certos modos e salamaleques. E aqui, sim, entre a deputada e o PT tudo é o que parece ser. Enfim, por onde quer que se olhe, foi uma tragédia essa relação.

Pelo jeito, agora nem eu te ligo, nem você me telefona. Triste sina desse partido na cidade de Campos dos Goytacazes, e no Estado do Rio de Janeiro. Fazendo um trocadilho com os temas matrimoniais, um “péssimo partido”.

Esperando por Godot, o PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado

ovelhas

Por Douglas Barreto da Mata

O PT esperou Godot, e Godot não veio.

A tática do partido, em sua seção local de Campos dos Goytacazes, em emplacar a candidatura da Deputada Estadual Carla Machado, ex-prefeita de SJB, não deu certo. Deu a lógica, e o TSE confirmou o que todos sabiam, que um prefeito de município vizinho (limítrofe) não pode concorrer a um terceiro mandato na cidade ao lado, mesmo que tenha renunciado ao cargo no meio do segundo mandato.

Defendi essa tese no programa da Rádio Aurora, com meus amigos Léo Puglia e José Alves, e disse na ocasião que mesmo que houvesse uma mudança de entendimento da jurisprudência, ela não poderia valer neste pleito, dada sua natureza normativa e de amplo espectro, isto é, o novo entendimento alteraria, significativamente, a situação jurídica de vários interessados.

Ressalte-se que tais renovações têm se tornado tão comuns na Justiça brasileira, que já são chamadas de F5 (aquele comando do computador para atualização da página). É certo, como já apontou o juiz Nunes Marques, acompanhado de outro, que há chance de reexame do tema. Não é esse o assunto aqui, que merece até outro texto. Quero falar de outra questão.

O fato de que o PT se transformou em um partido-ônibus ou partido hospedeiro. Incapaz de elaborar uma estratégia política de médio e longo prazos, carente de quadros e de renovações destes quadros, a legenda repete os mesmos erro, enquanto espera resultados diferentes. Impossível.

O PT optou sempre por ser rabo de elefante, a ser cabeça de mosquito, e agora não faz diferente.  Em lugar de traçar um caminho próprio, ainda que modesto, o PT de Campos prefere embarcar nos projetos do anti-garotismo local, sem perceber que esse garotismo se alterou, com a atual administração do prefeito Wladimir Garotinho, mas mesmo assim, mantém sua indiscutível hegemonia.

Seria o momento de manter alguma interlocução com o atual prefeito?  Os petistas podem argumentar, com certa razão, que o atual prefeito simboliza hábitos políticos da direita, e ele mesmo admite isso, e que tal circunstância tornaria qualquer conversa um incômodo.

Há também cicatrizes históricas no embate do PT com a família Garotinho, certamente, com culpas para todos.  Porém, o fato é que parte dos antagonistas que o PT escolheu para se associar, como um partido auxiliar, agora retornam ao ninho garotista, como a família Vianna, dentre outros, todos recrutados pela extrema habilidade do atual prefeito Wladimir, que transita com facilidade nas esferas superiores de comando do próprio PT.

Para levar adiante esse plano equivocado, a nosso ver, o PT foi procurar aconchego nos rivais do atual prefeito, que nem de longe podem ser identificados como progressistas, os Bacellar, ele mesmo presidente estadual do União Brasil, aliado do governador bolsonarista, que administra o estado onde essa facção política joga quase todas as suas fichas, junto com SP.

Então, vamos combinar, a questão não é ideológica ou apego ao histórico de lutas do partido.  No campo do cálculo eleitoral, há ainda a constatação de que os aliados que o PT procurou, os Bacellar, apesar de terem uma dimensão estadual considerável e nada desprezível, na cidade de Campos dos Goytacazes carecem de maior densidade, o que pode ser comprovado na ausência de um nome de peso do grupo para concorrer com o prefeito que tenta reeleição.

Se fosse, com certeza, a candidata não seria Carla Machado, que entrou e saiu do partido como se ali houvesse uma “catraca livre”, servindo-se da legenda sem trazer nada em troca, ou quase nada. Na trajetória da deputada, nada que se identifique com o PT, ao contrário, ela foi a patrocinadora de primeira hora de um dos maiores escândalos financeiros e da política nacional, protagonizado por Eike Batista e sua “grilagem” do V Distrito de SJB, onde até hoje as populações locais sofrem os efeitos do desterro, da salinização da água e do solo, e das violências praticadas em nome da propriedade portuária instalada ali.

Como se não bastasse, mesmo SJB sendo uma das cidades com maior orçamento per capita do país, com quase 1 bi para 2025 e 36 mil habitantes, o que dá R$ 27.777,00 por habitante, a cidade ostenta o maior nível de pessoas abaixo da linha da pobreza do Estado, e claro, do país.

O PT desperdiçou, novamente, um belo quadro, Jefferson Azevedo, ex reitor do IFF, ou sequer fez um debate de alianças, partindo para um adesismo barato, uma espécie de prostituição chamada, eufemisticamente, de “pragmatismo”.  Não!  Pragmatismo é quando se cede para ganhar algo.  E o PT não ganhou nada com Carla Machado, nem com os Bacellar, ou se ganhou, ninguém quis contar, e não ousamos dizer a razão do segredo.

Agora, o partido espera eleger ao menos um vereador. Pouco provável. Sem uma cabeça de chapa digna desse nome, que pelo menos mantivesse a densidade nos estratos eleitorais que já votaram no PT, ou da esquerda, é muito difícil.

Ao mesmo tempo, o ressurgimento das lutas campesinas poderia oferecer ao PT uma base de apoio social, mas o partido parece anêmico.  Agarra-se no SindiPetro/NF, um sindicato que parece atônito com a gestão privatista que foi colocada pelo Governo Lula na Petrobrás, cujo plano de ação em nada parece resgatar o aspecto crucial da estatal, ao contrário, domesticado pelo mercado, Lula, o seu governo, o PT e a Petrobrás adernam para o naufrágio iminente.

Agora, Inês está morta.  O PT de Campos foi buscar lã e voltou tosquiado.

E Godot? Será que vem?

Desastres no RS: adaptação a mudanças climáticas precisa entrar na pauta das eleições municipais

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas

Por André Luiz Cotting e Victor Marchezini

O ano de 2024 é ano de eleições municipais no Brasil. E os desastres são um problema que tem afetado os municípios e suas populações em todas as regiões do país. Desde as últimas eleições, presenciamos inundações nos estados da Bahia em 2021 e no Rio Grande do Sul em 2024, deslizamentos de terra nas cidades de Petrópolis (RJ) em 2022 e de São Sebastião (SP) em 2023, além da seca nos municípios do Amazonas no ano passado.

As perdas de vidas e econômicas em desastres só aumentam, mas menos de 15% dos municípios brasileiros têm planos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. No Rio Grande do Sul, essa porcentagem cai para menos de 5% dos municípios. As enchentes que estão atingindo as cidades gaúchas de forma desproporcional agora em maio mostram a necessidade de incluir a gestão de riscos de desastres nos programas de governo para prefeito(a) e nos planos de legislatura para vereador(a) nos municípios brasileiros.

O governo municipal tem uma série de responsabilidades nesse tema, conforme a Lei 12.608/2012, como garantir o pleno funcionamento das defesas civis municipais, que devem atuar em contextos de desastre, fazer o mapeamento das áreas de risco de inundação e deslizamentos para implantar medidas estruturais, como muros de contenção de encostas, e não estruturais, como sistemas de alerta e realizar o zoneamento municipal, que prevê melhorias na infraestrutura urbanas para as áreas de risco, como a drenagem da água das chuvas. Também cabe ao poder público municipal definir onde podem ser construídas moradias para pessoas desabrigadas por desastres.

Essas iniciativas são importantes para a adaptação às mudanças do clima, pois eventos extremos como chuvas intensas e ondas de calor serão cada vez mais frequentes e intensos. Mas outra frente de ação tão importante quanto a adaptação é a mitigação das mudanças do clima. A diminuição das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global, pode reduzir o aumento da temperatura média da Terra a níveis mais seguros para a adaptação.

Municípios podem ter soluções para essa agenda. Algumas sugestões: incentivar o uso do transporte público coletivo por meio de tarifas mais baixas (ou mesmo da gratuidade), criar condições seguras para pedestres e ciclistas para incentivar esse tipo de deslocamento e aproximar áreas de produção de alimentos aos locais de consumo, o que tem potencial de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no transporte. O governo municipal também pode investir na ampliação de áreas verdes, como parques, para aumentar a absorção dos gases pela vegetação, o que ajuda também a reduzir os efeitos das ondas de calor, e na promoção da coleta seletiva de resíduos sólidos, diminuindo o volume destinado a aterros sanitários e lixões, que emitem gases de efeito estufa.

A conscientização de eleitores sobre a necessidade e a possibilidade de medidas como essas pode mobilizar candidatas e candidatos às prefeituras e às câmaras municipais a apresentarem propostas para o problema. Afinal, apesar de as mudanças do clima serem um fenômeno global, seus efeitos se manifestam localmente. Portanto, o enfrentamento também deve partir do nível local.

Sobre os autores

André Luiz Cotting é planejador territorial e pós-graduando em Desastres pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com bolsa de apoio da Fapesp.

Victor Marchezini é sociólogo e pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/ MCTI).


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Fonte: Agência Bori