Depois de chegar ao Palácio Guanabara e conquistar 15 milhões de votos na disputa presidencial, o ex-governador parece ter encontrado seu limite não na força dos adversários, mas na incapacidade de avaliar a própria conjuntura
Como moro em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998, não tenho como ignorar a trajetória política de um dos seus filhos mais famosos e controversos: Anthony Garotinho. Além disso, como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) e diretor da nossa associação de docentes, tive a oportunidade de estar pessoalmente com Garotinho em duas ocasiões, ambas para realizar negociações políticas. Desses contatos e da observação que venho fazendo de sua trajetória ao longo dos anos, formei uma opinião que pode parecer surpreendente para muitos dos seus opositores, especialmente aqueles situados à esquerda do espectro político. É que considero Garotinho uma pessoa inteligente, criativa e particularmente hábil na comunicação social. Em outras palavras, Anthony Garotinho não tem nada de bobo. Muito pelo contrário.
Uma demonstração dessa inteligência e habilidade política foi sua eleição para o governo do Rio de Janeiro, em 1998, quando tinha apenas 38 anos e conseguiu sair de uma cidade do interior fluminense para ocupar o Palácio Guanabara. Além disso, antes de concluir um mandato relativamente exitoso, Garotinho decidiu abandonar o cargo para disputar a Presidência da República, eleição da qual saiu com expressivos 15 milhões de votos. Posteriormente, foi eleito deputado federal em 2010, além de ter ocupado diferentes cargos públicos, incluindo a espinhosa Secretaria de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro.
Toda essa trajetória deveria ter consolidado Garotinho como uma liderança política de primeira linha no cenário nacional, mas não foi o que aconteceu. Envolvido em uma sucessão de controvérsias e casos mal explicados, tanto em Campos dos Goytacazes quanto no governo estadual, Garotinho acabou seguindo um caminho de progressiva perda de protagonismo político. Se não desapareceu completamente do cenário, isso se deve, em boa medida, à capacidade de sua esposa, Rosangela (Rosinha) Matheus, e de dois de seus filhos, Clarissa e Wladimir, de aproveitar o capital político acumulado por Anthony para manter viva e influente a franquia familiar.
Os problemas políticos e judiciais de Garotinho, que ele atribui à perseguição de seus numerosos inimigos políticos — cuja existência não ignoro —, também acompanharam uma transformação ideológica que o levou para muito longe de suas posições originais. Afinal, Garotinho transitou de uma trajetória vinculada à esquerda petista para posições cada vez mais próximas da extrema-direita bolsonarista. Ele procura justificar essa metamorfose com o argumento de que não se deve aprisionar as pessoas em rótulos rígidos de esquerda e direita. Entretanto, por mais que essa justificativa possa parecer conveniente, ela não altera o fato de que suas posições políticas passaram a convergir de maneira inequívoca com o bolsonarismo. Essa aproximação se manifesta não apenas em sua relação com a família Bolsonaro, mas também na trajetória de seu filho Wladimir, que acaba de ser eleito pelo PL e mantém estreita proximidade política com Flávio Bolsonaro.
Entretanto, toda essa trajetória parece ter chegado agora a um ponto de não retorno. Depois de se candidatar ao governo do Rio de Janeiro e disputar uma eleição marcada pela judicialização de sua candidatura, Garotinho realizou um movimento político surpreendentemente rápido que, na prática, favoreceu a vitória do candidato bolsonarista Douglas Ruas. Com isso, acabou jogando na lata de lixo da história o capital político representado pelos mais de 274 mil votos que recebeu nas urnas. Independentemente das justificativas que venha a apresentar, minha avaliação é que Garotinho pode ter acabado de assinar a sentença de morte de sua própria carreira política.
O mais surpreendente é que essa decisão parece ter sido motivada por um açodamento absolutamente incompatível com a experiência acumulada por alguém que já governou o Rio de Janeiro e disputou a Presidência da República. Afinal, Garotinho poderia simplesmente ter aguardado uma decisão definitiva do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cujo desfecho, ao que tudo indica, tende a favorecer Douglas Ruas. Ao antecipar seus movimentos, acabou demonstrando uma leitura particularmente pobre da conjuntura política e, sobretudo, uma incapacidade de compreender o peso de suas próprias decisões. Para alguém cuja principal virtude sempre foi a habilidade de identificar oportunidades e explorar contradições políticas, trata-se de um erro tão elementar quanto potencialmente fatal.
Minha impressão é que Anthony Garotinho acaba de atravessar uma fronteira da qual dificilmente conseguirá retornar. E o mais irônico é que não terá sido necessariamente derrotado por seus numerosos adversários, mas por uma decisão que ele próprio tomou. Um desfecho melancólico para uma trajetória que, independentemente das críticas que merece, já esteve muito próxima de alcançar o primeiro escalão da política brasileira. É só esperar para ver.
Quem diria: Anthony Garotinho, tal como Greta Garbo, acabou no Irajá.

