Epistemofobia: quando a preguiça de pensar posa de amor ao povo

Acusar a esquerda de demofobia exige pouco esforço quando se dispensa a obrigação de demonstrar o que se afirma

Há uma modalidade de comentário político que resolve a complexidade brasileira com uma coleção de frases pinçadas das redes sociais e uma conclusão previamente encomendada: a esquerda despreza o povo e, portanto, merece perder eleições. O expediente oferece ao comentarista duas vantagens: dispensa a investigação e permite posar de defensor dos trabalhadores sem examinar as condições em que trabalham, vivem e formam suas escolhas políticas. Basta reunir expressões desagradáveis, atribuí-las indistintamente a milhões de pessoas e anunciar que o resultado eleitoral está explicado. A conclusão chega de limousine; as evidências ficaram esperando o ônibus.

Insultar eleitores é um erro político, e ninguém precisa defender esse comportamento para reconhecer a indigência da explicação. Entre demonstrar que determinados militantes adotam uma linguagem arrogante e provar que essa linguagem produziu um resultado eleitoral existe uma distância que nenhuma palavra de origem grega consegue encurtar. Seria necessário investigar quem recebeu essas mensagens, como as interpretou, qual importância lhes atribuiu e como elas se combinaram com outras experiências e influências. Sem isso, temos uma hipótese apresentada como sentença. A expressão “demofobia” pode impressionar, mas o verniz conceitual não transforma uma impressão pessoal em conhecimento.

É precisamente aí que cabe falar em epistemofobia, entendida aqui como metáfora da aversão ao conhecimento que perturba certezas confortáveis. Quem pretende explicar o comportamento popular, mas foge das perguntas necessárias para compreendê-lo, oferece uma demonstração bastante eloquente desse problema. O povo aparece como personagem de uma história escrita de antemão: vota para dar uma lição na esquerda, confirma a sabedoria do comentarista e sai de cena antes que alguém lhe pergunte sobre salário, jornada 6 x 1, endividamento, serviços públicos ou expectativas de futuro. Curiosa homenagem à autonomia popular essa que concede ao povo apenas a fala conveniente ao roteiro.

O truque fica ainda mais evidente quando a diversidade dos trabalhadores é comprimida em uma única reação de ressentimento. Um entregador, uma trabalhadora doméstica, um pequeno comerciante e um aposentado podem compartilhar dificuldades e fazer escolhas distintas, por razões igualmente distintas. Compreender essas diferenças exige trabalho. Transformá-los em um bloco que simplesmente devolveu uma ofensa exige apenas disposição para generalizar. Quem tanto denuncia o paternalismo da esquerda deveria perceber o paternalismo embutido nessa representação de eleitores cuja ação política se resumiria a reagir ao desaforo alheio. O povo merece mais do que ser convocado como testemunha imaginária da superioridade de quem escreve.

Também é perfeitamente democrático discutir as consequências de uma escolha eleitoral. Respeitar o direito ao voto não obriga ninguém a suspender o juízo sobre projetos políticos, nem transforma a vitória nas urnas em certificado de justiça social. Uma proposta pode receber apoio popular e continuar merecendo crítica pelos efeitos que poderá produzir sobre os próprios trabalhadores. Confundir essa crítica com desprezo pelo eleitor serve para interditar o debate justamente onde ele deveria começar: nos interesses em disputa e nas consequências materiais das políticas propostas. A urna decide quem vence; não concede imunidade ao exame crítico.

A epistemofobia pode cumprir, assim, uma função política bastante conveniente: esconder, sob uma suposta defesa do povo, uma adesão tão arraigada a propostas que aprofundam sua alienação e seu empobrecimento que chega a parecer inata. O trabalhador é celebrado quando seu voto pode ser usado contra a esquerda, mas suas condições de vida desaparecem quando chega a hora de discutir quem pagará a conta das políticas defendidas. A preocupação com o povo termina precisamente onde começa a defesa de seus direitos. E como é fácil romantizar as escolhas feitas sob a pressão da precariedade quando se pode contemplá-las de uma posição confortável, com as coisas entregues de bandeja para usufruto diletante. Para quem desfruta dessa comodidade, a regressão social pode ser apenas assunto de conversa; para a classe trabalhadora, significa uma vida ainda mais difícil. Esse amor retórico ao povo sai barato: quem o proclama não se oferece para pagar a conta.

A esquerda tem erros, contradições e derrotas que precisam ser enfrentados com seriedade. Merece críticas melhores do que uma psicologia de botequim enfeitada com vocabulário grego. Quem pretende lhe cobrar autocrítica deve começar demonstrando capacidade de submeter as próprias explicações ao confronto com evidências e de explicitar os interesses das propostas que defende. Do contrário, a denúncia de demofobia acaba funcionando como um biombo para a epistemofobia: fala-se muito em respeito ao povo para evitar o trabalho de conhecê-lo e o desconforto de discutir o que se pretende fazer com seus direitos. E a ignorância, promovida a intérprete da vontade popular, ainda espera aplausos pela profundidade da análise que tem a profundida de uma poça de água esquecida em alguma rua localizada na beira do Rio Paraíba do Sul.

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