O grande mérito de Jair Bolsonaro é nos mostrar como as elites brasileiras realmente são

sinal de armaJair Bolsonaro faz sinal de armas com as mãos

Tenho assistido e lido a incontáveis manifestações de suposto horror frente às declarações e ações de Jair Bolsonaro enquanto ocupa o cargo de presidente do Brasil. Essas manifestações partem, inclusive, de setores robustos da mídia corporativa que ajudaram a pavimentar o caminho do ex-capitão ao cargo máximo da república. Vejo nisso tudo uma forte dose de cinismo e  hipocrisia pelo simples fato de que Jair Bolsonaro continua sendo coerente com o que sempre foi, e, provavelmente, continuará sendo.

Aliás, o grande mérito de Jair Bolsonaro é desvelar (no sentido de tirar o véu) da suposta aura de superioridade moral das elites que realmente governam o Brasil, as quais nunca fizeram o devido ajuste com seu passado oligárquico e escravocrata, mas adoram se pintar de limpinhas e civilizadas enquanto desfilam seus carrões importados por ruas cheias de brasileiros que não têm o que comer.

O fato inescapável é que Jair Bolsonaro não saiu do baixo clero da Câmara de Deputados para ocupar o cargo de presidente da república por algum capricho da natureza. A sua chegada ao Palácio do Planalto contou com a generosa contribuição de tempo e dinheiro das elites brasileiras que perderam a vontade de continuar apoiando o PT e suas políticas de distribuição ínfima das riquezas nacionais para as amplas camadas da nossa população que sempre estiveram sob o jugo de uma das sociedades mais desiguais já construídas na história humana.

E não nos esqueçamos que há quase uma perfeita orquestração que transborda limites de direita e esquerda para permitir que Jair Bolsonaro e seus ministros possam criar uma terra arrasada pelas botas de políticas ultraneoliberais criadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Economia, Paulo Guedes. Se não fosse assim, a reforma da previdência não teria passado tão facilmente, e sem qualquer resistência de rua, no congresso nacional.

Assim, alguns podem até ensaiar ares de indignação frente às declarações eivadas de misoginia e homofobia que partem de um político que moldou sua carreira política em fomentar os aspectos mais indignos do caráter nacional.  Mas ao final do dia, esses que fingem se indignar, saberão que são parte do processo que ajudaram a colocar em marcha. 

Mas como não há noite que não vire dia, o importante é nos prepararmos para construir um país que não seja tão raso como são suas elites.

De Michel a Rafael, a mesma toada de políticas anti-povo

TEMER / RIO

Por uma série de motivos venho atualizando o blog de maneira mais lenta do que o habitual. Mas isso não é por falta de assunto, já que a realidade está prenha de situações que merecem ser analisadas.  Vejamos, por exemplo, a situação por que passa o presidente Michel Temer que mais uma vez se safasse de um processo de impeachment, ainda que as razões para isso sejam flagrantes. A salvação de Michel Temer, ao contrário do que pode parecer, é um reflexo direto da sua sustentação pelas elites brasileiras e seu projeto de regredir o precário contrato social que rege o Brasil para meados do Século 19, de preferência para algum dia antes do 13 de Maio de 1889. 

O fato é que as cenas de teatro mambembe de deputados votando rapidamente para apoiar o não prosseguimento da investigação contra Temer e os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco escondem algo bem mais perverso que é o comprometimento das elites com um projeto ainda mais obscurantista de sociedade cujas manifestações mais óbvias são a “Escola sem Partido” e a pseudo cruzada moral que é liderada por figuras canhestras como Kim Kataguiri e Alexandre Frota.

Mas esqueçamos de Michel Temer por um segundo para nos concentrar no trágico (des) governo comandado nominalmente por Luiz Fernando Pezão.  Na mesma toada de elementos absurdos, vemos o Rio de Janeiro engolfado numa espiral de crise para a qual não se vê saída imediata. Aliás, muito pelo contrário, visto que os números da violência não param de crescer, quase na mesma toada da perda de empregos e fechamentos de pequenas empresas que não estão aguentando a crise prolongada.  E como já abordei, a receita adotada pelo (des) governador Pezão, o chamado Regime de Recuperação Fiscal (RRF), tenderá a agravar ainda mais o cenário recessivo e, por consequência, a crise social que já corrói o tecido social fluminense.

Não menos importante é o que se vê neste momento pelas ruas cada vez mais imundas de Campos dos Goytacazes. O que deveria ser o governo da mudança comandado pelo jovem prefeito Rafael Diniz está se tornando numa tragédia diária para a maioria pobre da população. Já se foram os programas sociais que minimizavam o sufoco financeiro que milhares de famílias, e vemos agora que o controle seletivo do déficit público municipal está lentamente atingindo vários setores do serviço público. Nesse avanço da precarização estão sendo atingidos setores que deveriam estar sendo poupados dos cortes, a começar pela Saúde, Educação e a limpeza urbana.  E o pior é que o governo que prometia mudar as formas de governar acaba sendo capaz de apenas repetir fórmulas velhas de alardear a inauguração de obras que o governo anterior levou Às portas da conclusão.  Há que se dizer ao prefeito Rafael Diniz e seus menudos neoliberais que isso não representa mudança de forma alguma, mas apenas a repetição de velhos padrões de governar, o que só aumenta a sensação de estelionato eleitoral que já acompanha sua gestão.

É preciso enfatizar que o que estamos assistindo nas diferentes escalas de governo pode até parecer aleatório e desconectado, mas se tratamento justamente do oposto. É que unificando a ação que parte de Michel e chega até Rafael, temos políticas que visam concentrar renda nas mãos dos ricos, enquanto se destrói os serviços públicos dos quais depende a maioria dos pobres. Essa combinação funesta é que une esses (des) governantes. Não é à toa que o jovem prefeito Rafael Diniz vive fazendo viagens para Brasília sob a desculpa de procurar recursos.  O mais provável é que ele esteja indo aos gabinetes ocupados por figuras como o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda Henrique Meirelles para melhor se orientar sobre como aumentar o torniquete no pescoço dos pobres.

Por isso que ninguém se engane. Vai ser preciso combater essas políticas do local ao federal, pois elas são a expressão única de um projeto de desnacionalização da nossa economia cujo objetivo é manter intacto o padrão de distribuição da riqueza existente no Brasil, enquanto o nosso país, estado e cidade são pilhados pelo capital internacional sob o disfarce de políticas de ajuste fiscal.  Por isso lembrem sempre: Michel é Pezão que é Rafael, e vice-versa.

Com um chargista como esse, quem precisa do Oráculos de Delfos?

Situado em Delfos na antiga Grécia, o Oráculo de Delfos era dedicado principalmente a Apolo e centrado num grande templo, ao qual vinham os antigos gregos para colocar questões aos deuses. Neste templo, as sacerdotisas de Apolo (Pitonisa) faziam profecias em transes. As respostas e profecias ali obtidas eram consideradas verdades absolutas.

Pois bem, a que mais poderia relacionar a charge que circula há tempos na internet com uma fotografia produzida em Copacabana no protesto deste domingo (13/03) senão uma incrível reincarnação de um das pitonisas de Delfos no chargista que a produziu de forma tão premonitória?

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Falem o que falarem esses que supostamente acorrem às ruas do Brasil para supostamente protestar contra a corrupção nos governos do PT. Mas a verdade nua e crua, e que a combinação da charge com a fotografia sintetiza, é que um bom número dos que protestam tem outro foco em sua ira, qual seja, os parcos avanços sociais que foram realizados por Lula e Dilma.  Simples, mas ainda assim, extremamente reveladores da nossa incrível pirâmide social.

E que ninguém estranhe que as empregadas domésticas sejam o primeiro alvo de um governo que emerja de um afastamento precoce de Dilma Rousseff do cargo para o qual ela foi eleita. É que as elites adorariam não ter mais que pagar férias, FGTS e 13o. daquelas mesmas pessoas a quem deixam os seus filhos para serem cuidados.

Elites podem estar errando a mão na perseguição a Lula. O resultado final pode ser sua eleição em 2018

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Faz tempo que não nutro qualquer simpatia pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, pois o considero responsável pela imensa regressão que estamos assistindo em vários aspectos dos mecanismos de proteção ambiental e social no Brasil. Vejo Lula como o principal artífice de um processo de colaboração com as elites que só causou danos aos trabalhadores no flanco estratégico da luta de classes em nosso país.

Dito isso, considero que as elites nacionais parecem estar cometendo um erro estratégico capital ao estabelecer um processo de perseguição jurídica e policial a Lula, basicamente por não querê-lo novamente como presidente do Brasil. 

Se observarmos o tratamento que está sendo dispensado a Lula e sua família pela mídia corporativa e pelo aparato jurídico-policial comandado pelo juiz Sérgio Moro não há como deixar de observar que se os mesmos tipos de cobranças e apurações fossem impostas ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seus filhos é bem provável que alguém já teria enfartado.

Para quem não se lembra, FHC privatizou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e colocou seu filho Paulo Henrique Cardoso para dirigir o processo, sempre em associação com o amigo do peito Benjamin Steinbruch. Como pai afetuoso que diz ser, FHC também colocou o marido da sua filha Ana Beatriz,  David Zylbersztajn, para dirigir a Agência Nacional do Petróleo. Aliás,  Zylbersztajn só foi apeado do cargo porque sua separação da filha de FHC causou uma tremenda saia justa no governo federal.

E os exemplos de tucanos enrolados em “causos” complicados são mais numerosos, mas não vou me ocupar de descrevê-los. É que meu ponto nesta postagem se refere ao fato de que o tratamento desequilibrado contra Lula, havendo tantos podres dos políticos tucanos em evidência, poderá ter um peso decisivo na decisão de muitas pessoas de votarem em Lula se ele decidir se candidatar novamente.

Como vivemos num país em que existem casos numerosos de políticos enrolados com a justiça que se reelegem ad eternum e sem o carisma e a atração sobre os pobres que Lula tem. Paulo Maluf que o diga! Assim, para vermos Lula eleito ou elegendo mais um de seus “postes” não custa nada. 

A verdade é que não são apenas os membros da elite brasileira que são capazes de destilar ódio de classe e transformar isto em opção eleitoral. Deste modo, eu não me surpreenderei nenhum pouco se Lula for preso por Sérgio Mouro e sair da prisão para ser eleito presidente do Brasil novamente. 

Sakamoto: Aquela, em Itaquera, não era a torcida brasileira. Nem de longe

Por Leonardo Sakamoto

Quem está acostumado a ir em estádios em jogos da série A e B do campeonato brasileiro (sou palmeirense, não desisto nunca), em caneladas de campos de várzea com esquadras de brasileiros e bolivianos ou se lembra do saudoso Desafio ao Galo, estranha quando vê as arquibancadas praticamente monocromáticas da Copa do Mundo.

Por favor, não me leve a mal. Todos têm direito a se divertir.

Mas como temos mais brancos ricos do que negros ricos por aqui (fato totalmente aleatório uma vez que não somos racistas) era de se esperar que isso acontecesse. Ainda mais, considerando-se a facada que pode ser um ingresso diretamente com a Fifa ou via a sagrada instituição do camelô.

Ouvindo o rádio, o locutor cravou: “Olha que maravilha! É a família brasileira voltando para os estádios”. Na verdade, um tipo específico de família, a de comercial de margarina. Pois os jogos de Copa são um momento em que o tecido espaço-tempo se rasga e tudo ganha caras de universo paralelo – regado a muito dinheiro público e ação pesada para manter as “classes perigosas” longe. Na dúvida, bomba nelas.

Particularmente acho que a consequência imediata mais nefasta da presença de uma torcida que não frequenta estádios regularmente é que ela não empurra o time como necessário.

“Leleô, leleô, lelêo”, “Brasil, Brasil, Brasil” e “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooor!” (#vergonhalheia) intercalados com grandes momentos de silêncio é algo estranho de se ver. Não estou defendendo que o estádio seja dividido entre a Mancha, a Gaviões e a Independente (essas, sim, capazes de empurrar qualquer coisa e que não param nunca – mas que vêm com a contrapartida de alguns dodóis que não sabem brincar sem bater). Apenas afirmando que aquela, no estádio, não era a “torcida brasileira”. Nem de longe! A torcida que, faça chuva ou faça sol, ganhando ou perdendo, está lá apoiando seu time, ao vivo, por mais medíocre que ele seja. Esse pessoal, que ajuda nosso futebol a ser o que é, mereceria estar melhor representado nas arquibancadas do Itaquerão.

Fico imaginando como seria se o preço fosse acessível e o acesso aos ingressos viesse pelas mais democrática das práticas: o sorteio de interessados cadastrados. Talvez mais gente que assistiu a partir do telão no Anhangabaú estivesse em Itaquera.

Pessoal que não tira selfie no trem, a caminho do jogo, e posta nas redes sociais pois já pega o mesmo trem todos os dias para ir ao trabalho.

Galera para a qual, esta quinta (12), não foi sua primeira, nem sua última vez na periferia da cidade.

Turma que trabalhou nas obras que tornaram o circo possível. Mas, agora, vão assistir tudo a uma distância considerada segura pelos donos da festa.

FONTE: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2014/06/13/aquela-em-itaquera-nao-era-a-torcida-brasileira-nem-de-longe/