Super El Niño de 2026-2027 poderá antecipar em uma década o clima da Terra

Projeções mostram que 2027 pode atingir 1,76°C acima dos níveis pré-industriais e funcionar como uma janela para o clima que, pela tendência atual, seria esperado apenas por volta de 2037

O material mostrado acima e que foi publicado pelo The Washington Post em sua conta no Instagram chama atenção para uma característica particularmente preocupante do atual ciclo do El Niño: sua combinação com o aquecimento global provocado pelas emissões humanas poderá fazer com que o planeta experimente, já em 2027, temperaturas que, seguindo a tendência recente de aquecimento, seriam esperadas apenas por volta de 2037.

A comparação é especialmente didática porque mostra que o El Niño não cria sozinho o aquecimento global. O fenômeno funciona, neste caso, como uma espécie de “máquina do tempo climática”. Durante um El Niño intenso, enormes quantidades de calor acumuladas no Pacífico tropical ocidental deslocam-se para leste. A atividade atmosférica acompanha esse deslocamento e transfere parte do calor armazenado no oceano para a atmosfera; a circulação atmosférica, por sua vez, contribui para redistribuí-lo pelo planeta.

O problema é que esse fenômeno natural ocorre agora sobre um planeta que já foi profundamente aquecido pela ação humana. As concentrações crescentes de gases de efeito estufa, resultantes principalmente da queima de carvão, petróleo e gás natural, elevaram a temperatura média da Terra. O El Niño acrescenta temporariamente mais calor a esse sistema já aquecido.

É justamente essa combinação que torna os números apresentados pelo Washington Post tão significativos. Segundo as projeções reproduzidas pelo jornal, existe cerca de 95% de probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente desde o início dos registros instrumentais, que remontam ao século XIX. A temperatura média global poderia chegar a aproximadamente 1,76°C acima da média pré-industrial.

Isso não significa que o planeta terá atingido definitivamente esse patamar de aquecimento. Com o enfraquecimento do El Niño, 2028 poderá apresentar uma temperatura inferior à de 2027. Entretanto, esse recuo temporário não deve ser confundido com uma reversão do aquecimento global. O cientista climático Zeke Hausfather resume bem essa diferença ao observar que as emissões humanas estão acrescentando ao sistema climático, a cada década, uma quantidade de calor comparável ao efeito de um El Niño.

A imagem da escada talvez seja a melhor forma de compreender o problema. Os grandes episódios de El Niño podem produzir degraus temporários para cima, enquanto as emissões humanas continuam elevando permanentemente o nível da própria escada. Depois que o El Niño desaparece, a temperatura pode recuar parcialmente, mas o planeta não retorna às condições climáticas anteriores.

Há ainda um aspecto político importante nessa discussão. O número de 1,76°C chama atenção porque ultrapassa temporariamente a referência de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris. Um único ano acima desse limite não significa formalmente que a meta tenha sido definitivamente ultrapassada, pois ela se refere ao aquecimento médio de longo prazo. Entretanto, experimentar antecipadamente temperaturas próximas de 1,8°C poderá revelar de maneira bastante concreta como funcionará um planeta permanentemente mais quente.

E é precisamente aí que o atual Super El Niño deve servir de alerta. Ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e enchentes não resultarão exclusivamente do El Niño, nem ocorrerão de maneira uniforme em todas as regiões. O fenômeno reorganiza a circulação atmosférica e modifica os padrões de precipitação e temperatura; ao interagir com um clima progressivamente aquecido, porém, aumenta a possibilidade de extremos mais severos em diferentes partes do planeta.

Para o Brasil, essa discussão deveria ocupar posição central no planejamento governamental. O país reúne grandes concentrações populacionais em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, extensas regiões sujeitas a secas e incêndios e uma infraestrutura urbana que frequentemente demonstra pouca capacidade de enfrentar eventos meteorológicos extremos. Conhecemos cada vez melhor os riscos, mas seguimos investindo muito menos do que seria necessário em prevenção e adaptação. Talvez essa seja a mensagem mais importante do material publicado pelo Washington Post. O Super El Niño de 2026-2027 não está simplesmente produzindo uma anomalia climática passageira. Ele poderá oferecer uma antecipação das condições que tendem a se tornar normais dentro de pouco mais de uma década se as emissões continuarem crescendo.

Nesse sentido, 2027 poderá funcionar como uma janela aberta para 2037. O que veremos através dela não deverá ser tratado como uma curiosidade meteorológica, mas como uma advertência sobre o mundo que estamos construindo. E, diferentemente do El Niño, que eventualmente termina, o aquecimento provocado pela acumulação de gases de efeito estufa não desaparecerá quando as águas do Pacífico voltarem a esfriar.


Fonte do material gráfico e das informações apresentadas nas imagens: Instagram do The Washington Post, publicação de 13 de agosto de 2026.

A meta de 1,5 °C já ficou para trás: Paulo Artaxo alerta para a urgência climática

Cientista do IPCC alerta que reduzir rapidamente as emissões e iniciar medidas concretas de adaptação são tarefas simultâneas e urgentes diante de impactos climáticos que já atingem o Brasil

No debate realizado na última quinta-feira sobre o atual ciclo do El Niño, o professor Paulo Artaxo (USP), membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), fez uma série de observações importantes sobre o avanço do aquecimento da atmosfera terrestre e suas consequências cada vez mais evidentes. Artaxo participou de uma atividade organizada pela Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF), que reuniu também os pesquisadores Luciana Gatti (INPE) e  Roberto Verdum (UFRGS) para discutir as mudanças em curso no sistema climático e os desafios que elas colocam para a sociedade brasileira.

Para começo de conversa, Artaxo lembrou que, apesar de todas as conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas para enfrentar o aquecimento provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, as emissões globais de gases de efeito estufa já ultrapassam 57 bilhões de toneladas por ano. Como resultado, a temperatura média global já aumentou cerca de 1,45 °C, enquanto nas áreas continentais esse aquecimento chega a aproximadamente 2,1 °C. No caso do Brasil, mantida a atual trajetória de aumento da temperatura, o aquecimento poderá atingir entre 3,5 °C e 4 °C, produzindo situações especialmente graves nas grandes cidades. Artaxo ressaltou ainda que o clima não se resume à temperatura, pois envolve também a precipitação e outros componentes do sistema climático; alterações importantes nos padrões de chuva já podem ser observadas em diferentes regiões.

Ao tratar dessas mudanças, Artaxo mencionou um estudo recente do MapBiomas que apontou uma redução de cerca de 30% no estoque de água do Pantanal, processo que já produz graves impactos ambientais, econômicos e sociais. No caso da Amazônia, ele destacou estudos que indicam que partes da floresta passaram da condição de sumidouro para a de fonte de carbono. Esse processo reforça a preocupação de que a Amazônia possa estar se aproximando do chamado ponto de não retorno, situação que produziria impactos não apenas sobre sua composição e estrutura florestal, mas também sobre sua capacidade de reciclar e transportar umidade para extensas áreas do território brasileiro.

Questionado sobre a implantação de grandes projetos econômicos na Amazônia, especialmente sobre a expansão da exploração de petróleo na região, Artaxo observou de forma enfática que esse tipo de iniciativa caminha na direção contrária aos esforços necessários para conter o aumento da temperatura global. A abertura de novas fronteiras petrolíferas amplia a oferta de combustíveis fósseis justamente quando a ciência climática indica a necessidade de reduzir rapidamente sua utilização e, consequentemente, as emissões de gases de efeito estufa.

Outro ponto importante destacado por Artaxo foi a necessidade de o Brasil acelerar a implantação de medidas de adaptação a uma condição climática que deverá se tornar mais severa nas próximas décadas. Segundo ele, embora já existam recursos destinados a iniciar esse processo, o país utiliza pouco do dinheiro disponível e, em diversos casos, utiliza esses recursos de maneira inadequada. A adaptação deixou, portanto, de ser uma questão que pode ser adiada para algum momento futuro, pois parte das mudanças climáticas já está em curso e continuará produzindo consequências mesmo que o mundo consiga reduzir significativamente suas emissões nos próximos anos.

Finalmente, Artaxo observou que a comunidade científica já considera inalcançável a meta de limitar o aquecimento da atmosfera terrestre a 1,5 °C. Esse reconhecimento, longe de justificar qualquer acomodação, torna ainda mais urgente a redução rápida e consistente das emissões de gases de efeito estufa, pois cada fração adicional de grau amplia a intensidade e a frequência dos impactos climáticos. Ao mesmo tempo, governos e sociedades precisam iniciar imediatamente medidas concretas de adaptação, uma vez que os efeitos do aquecimento já começam a se manifestar nos territórios. Adiar essas duas tarefas significa aumentar deliberadamente a exposição da população a ondas de calor, secas, chuvas extremas, enchentes, perdas agrícolas, crises no abastecimento de água e outros eventos capazes de produzir graves consequências sociais e econômicas. A inação, portanto, não representa apenas um risco projetado para as próximas décadas; ela já cobra seu preço no presente e pode transformar fenômenos climáticos cujos impactos poderiam ser prevenidos ou mitigados em desastres de proporções cada vez maiores.

Quem desejar ouvir na íntegra as declarações de Paulo Artaxo e as contribuições dos demais debatedores, Luciana Gatti e Paulo Verdum, poderá acessar a gravação da atividade no canal do GENAT/UFPB [ Aqui!].

Investigação revela que mais de 300 lobistas do agronegócio participam da COP30

Lobistas representando a indústria responsável por um quarto a um terço das emissões globais participaram de negociações importantes na cúpula climática da ONU 

Pessoas seguram cartazes com os dizeres "emergência climática, nós somos a resposta".

Indígenas protestam por justiça climática e proteção territorial durante a COP30, a conferência climática da ONU, em Belém, Brasil, em 17 de novembro de 2025. Fotografia: Anderson Coelho/Reuters

Por Rachel Sherrington e Nina Lakhani para “The Guardian”

Mais de 300 lobistas da agroindústria participaram das negociações climáticas da ONU deste ano, realizadas na Amazônia brasileira, onde o setor é a principal causa do desmatamento, segundo uma nova investigação.

O número de lobistas representando os interesses da pecuária industrial, dos grãos e dos pesticidas aumentou 14% em relação à cúpula do ano passado em Baku – e é maior do que a delegação da décima maior economia do mundo, o Canadá, que levou 220 delegados à COP30 em Belém, de acordo com a investigação conjunta da DeSmog e do The Guardian.

Um em cada quatro dos grandes lobistas da agricultura (77) participam da COP30 como parte de uma delegação oficial de um país, com um pequeno subconjunto (seis) com acesso privilegiado às negociações da ONU, onde os países devem elaborar políticas ambiciosas para conter a catástrofe climática global.

A agricultura é responsável por um quarto a um terço das emissões globais e os cientistas afirmam que será impossível atingir as metas do Acordo de Paris de 2015 sem mudanças radicais na forma como produzimos e consumimos alimentos.

A pecuária é o principal fator de desmatamento na Amazônia, seguida pela produção industrial de soja, utilizada principalmente para ração animal. Cientistas alertam que até metade da floresta amazônica pode atingir um ponto de inflexão até 2050 devido ao estresse hídrico, ao desmatamento e às mudanças climáticas.

“Mais de 300 lobistas do agronegócio ocupam o espaço na COP30 que deveria pertencer aos povos da floresta. Enquanto falam em transição energética, despejam petróleo na bacia amazônica e privatizam rios como o Tapajós para o cultivo de soja. Para nós, isso não é desenvolvimento, é violência”, afirmou Vandria Borari, da Associação Indígena Borari Kuximawara, do território Alter do Chão.

As revelações surgem em meio à crescente frustração com o acesso irrestrito concedido a corporações que lucram com a manutenção da dependência global de combustíveis fósseis e/ou com a destruição de florestas e outros ecossistemas vitais para mitigar a catástrofe climática.

O setor alimentício industrializado celebrou a falta de ação nas recentes cúpulas climáticas, que não conseguiram recomendar metas vinculativas para a redução das emissões, do uso de combustíveis fósseis ou do consumo de carne. Um estudo de 2020 constatou que, mesmo que os combustíveis fósseis fossem eliminados imediatamente, a manutenção do status quo no setor alimentício provavelmente inviabilizaria a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais – e até mesmo a meta de 2°C.

Os setores de carne e laticínios enviaram o maior número de representantes, representando 72 dos 302 delegados. Esse número é quase o dobro do total de negociadores da Jamaica, a nação caribenha devastada pelo furacão Melissa no mês passado – uma supertempestade que, segundo cientistas, foi intensificada pelo aquecimento global causado pela ação humana. A Índia, um país com 1,45 bilhão de habitantes que enfrenta grandes desafios climáticos, enviou uma delegação de 87 negociadores.

Segundo uma análise recente da Friends of the Earth US, as emissões das 45 maiores empresas de carne e laticínios são equivalentes às da Arábia Saudita, o maior produtor de petróleo do mundo. A JBS, a maior empresa de carne do mundo, responsável sozinha por um quarto (24%) das emissões, tem oito lobistas na COP30, incluindo seu CEO, Gilberto Tomazoni.

Os agroquímicos – pesticidas e fertilizantes sintéticos – contam com 60 delegados, e os biocombustíveis com 38 representantes – um aumento de 138% em relação ao ano passado. A gigante dos pesticidas Bayer enviou 19 lobistas, o maior número, enquanto a Nestlé tem nove.

A maioria dos fertilizantes sintéticos é derivada de combustíveis fósseis e emite óxido nitroso – um gás de efeito estufa 300 vezes mais potente que o CO2, sendo a agricultura a principal responsável por sua emissão.

“Essas descobertas comprovam que a agricultura industrial conseguiu cooptar a convenção climática. A COP jamais alcançará ações climáticas efetivas enquanto os lobistas da indústria tiverem permissão para influenciar governos e negociadores”, afirmou Lidy Nacpil, do Movimento dos Povos Asiáticos sobre Dívida e Desenvolvimento.

A alimentação não é o foco das negociações deste ano, mas o setor tem a ganhar com vários temas importantes em discussão, incluindo decisões sobre biocombustíveis – muitos dos quais são produzidos a partir de produtos agrícolas como milho e soja, que contribuem para o desmatamento.

O Brasil está empenhado em quadruplicar o uso de biocombustíveis, que muitas vezes são comercializados como energia verde – mas um estudo recente constatou que eles podem gerar 16% mais emissões do que os combustíveis fósseis devido aos impactos do uso da terra no cultivo de monoculturas.

Outro fator crucial é o financiamento climático, do qual os maiores poluidores agrícolas do mundo – que já são grandes beneficiários de subsídios públicos – estão se posicionando para receber grandes parcelas.

“O que está acontecendo em Belém não é uma conferência climática, mas uma negociação de reféns sobre o futuro do planeta, onde aqueles que detêm os detonadores – os barões da soja, os cartéis da carne, os vendedores de pesticidas – estão sentados à mesa como mediadores honestos”, disse Raj Patel, autor de Stuffed and Starved: The Hidden Battle for the World Food System (Enchidos e Famintos: A Batalha Oculta pelo Sistema Alimentar Mundial).

“Esses lobistas da indústria alimentícia estão comprando acesso e legitimidade por meio de políticos dispostos a aceitar seus cheques enquanto o planeta queima”, acrescentou Patel, professor de pesquisa na Escola de Assuntos Públicos Lyndon B. Johnson da Universidade do Texas, em Austin.

A análise baseia-se na lista provisória da UNFCCC com 56.000 delegados da COP30 e inclui representantes das maiores corporações de carne e laticínios, pesticidas e fertilizantes, processadores de alimentos, comerciantes de commodities e sementes, varejistas de alimentos e biocombustíveis. Os números também incluem grupos comerciais globais e regionais, além de sindicatos e institutos nacionais de agricultores com vínculos corporativos e/ou histórico de lobby alinhado às demandas da indústria.

A Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) , principal braço de lobby do agronegócio no Congresso, apoiou diversas leis antiambientais controversas, incluindo um projeto de lei que restringe a demarcação e o acesso à terra para populações indígenas, e tentou revogar a moratória da soja na Amazônia, um acordo voluntário histórico para bloquear a venda de soja ligada ao desmatamento.

O Instituto da Carne – que representa 350 empresas de processamento e embalagem de carne, responsáveis ​​por 95% da produção de carne e aves nos EUA – possui dois delegados. A associação comercial tem feito forte lobby contra regulamentações, incluindo a oposição a iniciativas que obrigam as empresas americanas a divulgar a extensão total de suas emissões, e contra mudanças nas diretrizes alimentares para a redução do consumo de carne vermelha.

Nos Estados Unidos, as corporações do agronegócio e os grupos comerciais gastaram bem mais de meio bilhão de dólares em lobby no Congresso entre 2019 e 2023 para obter legislação favorável, então não é surpreendente ver o agronegócio em larga escala na COP30, de acordo com Karen Perry Stillerman, vice-diretora do programa de alimentos e meio ambiente da União de Cientistas Preocupados.

“Os defensores já estão pedindo que a indústria de combustíveis fósseis e sua desinformação sejam banidas das futuras negociações climáticas, e a influência do agronegócio é igualmente tóxica… não teremos sistemas alimentares sustentáveis, justos, saudáveis ​​ou resilientes às mudanças climáticas em nenhum lugar do mundo enquanto as gigantescas empresas do agronegócio e da alimentação estiverem ditando as regras.”

A participação da agroindústria aumentou 71% em comparação com a COP27 em Sharm el-Sheikh, mas está abaixo do recorde da COP28 em Dubai, que foi a maior cúpula da ONU de todos os tempos, com 86.000 delegados, em comparação com os 56.000 inscritos no Brasil.

Um porta-voz da Bayer afirmou: “Temos sido transparentes em relação aos nossos compromissos com a COP… apoiamos firmemente as ações para evitar a crise climática. O processo exige o envolvimento de todos.”

Um porta-voz da JBS afirmou em comunicado: “A JBS, como empresa do setor alimentício, concentra-se em aumentar a produtividade agrícola, aprimorar a eficiência do sistema alimentar e reduzir as perdas e o desperdício de alimentos.”

A Nestlé, a CNA e o Instituto da Carne não responderam aos pedidos de comentários. A presidência brasileira da COP30 e a UNFCCC também não responderam aos pedidos de comentários.


Fonte: The Guardian

Uso global de carvão atinge recorde em 2024, e relatório mostra que emissão de gases estufa aumentou

Relatório sombrio descobre que as emissões de gases de efeito estufa ainda estão aumentando, apesar do crescimento “exponencial” das energias renováveis

Fumaça sai de uma usina elétrica.

Uma usina elétrica a carvão em Ohio, EUA. Donald Trump declarou seu apoio ao carvão e outros combustíveis fósseis. Fotografia: Jason Whitman/NurPhoto/Shutterstock

Por Fiona Harvey para o “The Guardian” 

O uso de carvão atingiu um recorde histórico no mundo todo no ano passado, apesar dos esforços para mudar para energia limpa, colocando em risco as tentativas mundiais de controlar o aquecimento global.

A participação do carvão na geração de eletricidade caiu com o avanço das energias renováveis. Mas o aumento geral na demanda por energia significou que mais carvão foi utilizado em geral, de acordo com o relatório anual “Estado da Ação Climática” , publicado na quarta-feira.

O relatório pintou um quadro sombrio das chances do mundo evitar impactos cada vez mais severos da crise climática. Os países estão ficando aquém das metas estabelecidas para a redução das emissões de gases de efeito estufa, que continuam a aumentar, embora a um ritmo menor do que antes.

Clea Schumer, pesquisadora associada do think tank World Resources Institute, que liderou o relatório, afirmou: “Não há dúvida de que estamos, em grande parte, fazendo a coisa certa. Só não estamos avançando com a rapidez necessária. Uma das conclusões mais preocupantes da nossa avaliação é que, pelo quinto relatório consecutivo da nossa série, os esforços para eliminar o carvão estão bem longe do caminho certo.”

Se o mundo quiser atingir emissões líquidas zero de carbono até 2050, a fim de limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, conforme estabelecido no acordo climático de Paris , mais setores devem usar eletricidade em vez de petróleo, gás ou outros combustíveis fósseis.

Mas isso só funcionará se o fornecimento global de eletricidade for transferido para um patamar de baixo carbono. “O problema é que um sistema energético que depende de combustíveis fósseis tem enormes efeitos em cascata e em cadeia”, disse Schumer. “A mensagem sobre isso é cristalina. Simplesmente não limitaremos o aquecimento a 1,5°C se o uso do carvão continuar quebrando recordes.”

Embora a maioria dos governos deva ter como objetivo “reduzir gradualmente” o uso do carvão após um compromisso assumido em 2021 , alguns estão avançando com o combustível mais poluente. O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, comemorou a ultrapassagem de 1 bilhão de toneladas de produção de carvão neste ano, e nos EUA, Donald Trump declarou seu apoio ao carvão e a outros combustíveis fósseis .

Os esforços de Trump para interromper projetos de energia renovável e remover financiamento e incentivos para a mudança para fontes de energia de baixo carbono ainda não se fizeram sentir, em grande parte, na forma de aumento das emissões de gases de efeito estufa. Mas o relatório sugeriu que esses esforços teriam efeito no futuro, embora outros, incluindo a China e a UE, pudessem atenuar o impacto continuando a favorecer as energias renováveis.

A boa notícia é que a geração de energia renovável cresceu “exponencialmente”, de acordo com o relatório, que descobriu que a energia solar é “a fonte de energia que mais cresce na história”. No entanto, isso ainda não é suficiente: as taxas de crescimento anual da energia solar e eólica precisam dobrar para que o mundo faça os cortes de emissões necessários até o final desta década.

As energias renováveis ​​precisariam substituir rapidamente outras fontes de energia para atingir as metas climáticas.
Geração global de eletricidade por fonte, %

Sophie Boehm, pesquisadora associada sênior do laboratório de mudança de sistemas do WRI e principal autora do relatório, disse: “Não há dúvida de que os recentes ataques dos Estados Unidos à energia limpa tornam mais desafiador para o mundo manter a meta do acordo de Paris ao alcance. Mas a transição mais ampla é muito maior do que qualquer país, e o impulso está crescendo em mercados e economias emergentes, onde a energia limpa se tornou o caminho mais barato e confiável para o crescimento econômico e a segurança energética.

O mundo está a avançar demasiado lentamente na melhoria da eficiência energética, em particular na redução do carbono gerado pelo aquecimento dos edifícios. As emissões industriais também são uma preocupação: o setor siderúrgico vem aumentando sua “intensidade de carbono” – o carbono produzido com cada unidade de aço fabricada – apesar dos esforços em alguns países para mudar para métodos de baixo carbono.

A eletrificação do transporte rodoviário está se movendo mais rápido – mais de um em cada cinco veículos novos vendidos no ano passado era elétrico. Na China, a participação estava mais próxima da metade.

O relatório também alertou sobre o estado dos “sumidouros de carbono” do mundo – florestas, turfeiras, pântanos, oceanos e outras características naturais que armazenam carbono. Embora as nações tenham se comprometido repetidamente a proteger suas florestas, elas continuam a ser cortadas, embora em um ritmo mais lento em algumas áreas. Em 2024, mais de 8 milhões de hectares (20 milhões de acres) de floresta foram perdidos permanentemente. Isso é menor do que a alta de quase 11 milhões de hectares alcançada em 2017, mas pior do que os 7,8 milhões de hectares perdidos em 2021. O mundo precisa se mover nove vezes mais rápido para deter o desmatamento do que os governos estão gerenciando, segundo o relatório.

Líderes mundiais e autoridades de alto escalão se reunirão no Brasil no próximo mês para a cúpula climática da ONU Cop30, para discutir como colocar o mundo no caminho certo para ficar dentro de 1,5 ° C do aquecimento global, de acordo com o acordo climático de Paris de 2015. Cada governo deve apresentar um plano nacional detalhado sobre cortes de emissões, chamado de “contribuição nacionalmente determinada”. Mas já está claro que esses planos serão inadequados, então a questão-chave será como os países responderão.


Fonte: The Guardian

Emissões passadas dos gases causadores do efeito de estufa podem elevar o nível do mar em quase 60 cm, conclui estudo

Por Dana Drugmand para o “The New Lede”

As emissões que retêm o calor, liberadas ao longo de mais de um século e meio pelos maiores produtores de combustíveis fósseis e cimento do mundo, devem fazer com que o nível global do mar suba cerca de 30 a 60 centímetros até o ano 2300, mesmo que as emissões futuras sejam drasticamente reduzidas, de acordo com uma nova pesquisa revisada por pares.

O estudo , publicado em 18 de março na revista Environmental Research Letters, é o primeiro a medir como as emissões passadas de gases de efeito estufa de empresas de combustíveis fósseis podem contribuir para o aumento futuro do nível do mar a longo prazo, uma das consequências das mudanças climáticas causadas pelo homem, de acordo com os autores.

“Esta pesquisa contribui para o  crescente corpo de trabalho  que quantifica como as emissões passadas dos produtores de combustíveis fósseis prejudicarão as gerações futuras”, disse Delta Merner, coautor do estudo e diretor associado do Science Hub for Climate Litigation na Union of Concerned Scientists, em uma declaração . “Comunidades insulares e costeiras suportarão o peso desproporcional dos impactos da elevação do nível do mar ao longo do tempo, incluindo danos à infraestrutura, perda de habitat, intrusão de água salgada, aumento de inundações, encargos econômicos e deslocamentos forçados.”

Os pesquisadores também descobriram que quase metade (37% a 58%) do aumento atual da temperatura do ar na superfície e cerca de um terço (24% a 37%) do aumento global do nível médio do mar até o momento podem ser atribuídos às emissões históricas dos 122 maiores produtores de petróleo, gás, carvão e cimento, conhecidos como “Carbon Majors”. O estudo se baseia em análises anteriores que examinam como as emissões decorrentes dos produtos dessas empresas contribuem para os impactos das mudanças climáticas, incluindo o aquecimento da superfície, o aumento do nível do mar e as condições de seca que ajudam a alimentar incêndios florestais .

O estudo examinou ainda quais seriam os impactos no aquecimento da superfície e nos níveis do mar se as grandes empresas de carbono tivessem reduzido as emissões eliminando a produção em períodos anteriores, como depois de 1950, quando pelo menos algumas empresas começaram a perceber que seus produtos impactariam o sistema climático, e depois de 1990, quando a comunidade internacional começou a abordar as mudanças climáticas.

“Em todos os cenários, descobrimos que o mundo teria sido mais frio e os níveis do mar mais baixos se as emissões de combustíveis fósseis tivessem sido eliminadas mais cedo”, explicou Shaina Sadai, a principal autora do estudo, em uma postagem de blog .

Se as emissões de combustíveis fósseis tivessem parado depois de 1990, por exemplo, o estudo estimou que o aumento futuro do nível do mar a longo prazo, atribuível às emissões passadas das grandes empresas de carbono, teria sido de cerca de 15 a 35 centímetros — menor do que os 25 a 53 centímetros esperados atualmente.

Pesquisas que analisam os impactos da falha em controlar as emissões são importantes para avançar nos esforços para responsabilizar os poluidores, disse Jennifer Jacquet, professora da Escola Rosenstiel de Ciências Marinhas, Atmosféricas e da Terra da Universidade de Miami, que não estava envolvida no estudo.

“À medida que nosso mundo muda significativamente para pior como resultado das mudanças climáticas, espero que tentemos responsabilizar os principais responsáveis ​​por essas mudanças — tanto em termos de poluição de carbono quanto de poluição de informação — nos tribunais e no mercado global, onde esse tipo de estudo será confiável”, disse Jacquet.

O nível médio global do mar está atualmente em seu nível mais alto desde que os registros de satélite começaram em 1993, e a taxa de elevação do nível do mar dobrou ao longo desse tempo, de acordo com um novo relatório da Associação Meteorológica Mundial. Esse relatório observa que as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e outros gases que retêm calor são as mais altas dos últimos 800.000 anos. O ano passado foi o mais quente no registro observacional de 175 anos, de acordo com o relatório.

Apesar desses indicadores de uma crise climática piorando, os EUA estão aumentando a produção de combustíveis fósseis sob a nova administração Trump enquanto atacam a ciência climática e a energia limpa e revertem as políticas climáticas federais. Trump, que anteriormente chamou a mudança climática de farsa , está tirando os EUA do Acordo Climático de Paris, e sua administração tem como alvo agências que fazem ciência climática crítica e trabalho de previsão do tempo com cortes profundos, incluindo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA). Um escritório da NOAA no Havaí que serve como o principal suporte para o Observatório Mauna Loa, que monitora as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, pode ter seu arrendamento cancelado como parte desses cortes.

Com os compromissos globais já aquém do que é necessário para atingir emissões líquidas zero até 2050, de acordo com as Nações Unidas, mudanças na posição do governo dos EUA sobre as mudanças climáticas podem afastar ainda mais o mundo do caminho, disse Sadai.

“Cada atraso [na ação para mitigar as mudanças climáticas], mesmo que seja de apenas algumas décadas, terá consequências a longo prazo”, disse ela.

(Imagem em destaque por Point Normal no Unsplash .)


Fonte: The New Lede

Estudo: Desmatamento zero é melhor chance do Brasil avançar em performance climática

Relatório de Transparência Climática mostra matriz energética mais suja e dinheiro público financiando combustíveis fósseis

transparencia

A rápida redução do desmatamento para zero é uma das oportunidades mais importantes para o Brasil melhorar sua ação climática, de acordo com a mais recente edição do Relatório de Transparência Climática (Climate Transparency). O estudo analisa todas as economias do G20 para verificar como elas estão se saindo com a mudança climática. De acordo com os dados mais recentes da SEEG, o desmatamento é responsável por quase metade das emissões brasileiras (44%).

A principal conclusão do Relatório de Transparência Climática é que os compromissos do Brasil não estão no caminho certo para um mundo de 1,5°C, ou seja, para manter o aquecimento global dentro deste limite, acima do qual as mudanças climáticas representam ameaças mais graves para a humanidade. Se totalmente implementadas, as políticas atuais do Brasil estariam alinhadas, na verdade, com o aquecimento de 3°C.

Segundo o relatório, isto significaria exposição a impactos muito elevados, com aumento de duração e intensidade das secas, frequência de ondas de calor, aumento de dias com temperatura acima de 35°C e redução da pluviosidade – tudo isso afetando tanto a saúde humana quanto a produtividade do agronegócio.

O Brasil está principalmente em risco devido a eventos meteorológicos extremos hidrometeorológicos, como inundações e secas, embora os incêndios florestais também estejam em ascensão desde 2020. O Brasil já viu um aumento médio de temperatura de 2,5°C nas regiões costeiras entre 1901 e 2012, devido às mudanças climáticas. O aumento da temperatura do mar, as mudanças na salinidade oceânica e o aumento da frequência, intensidade e duração dos eventos de El Niño / La niña são projetados para ter efeitos sobre o clima continental do Brasil.

“Entre 2015-2020, o Brasil perdeu cerca de 830 kha da área de floresta amazônica por ano, com um aumento de 44% nas taxas de desmatamento desde 2018”, afirma o pesquisador William Wills, professor do Centro Clima da Coppe-UFRJ e coordenador do capítulo brasileiro do relatório. “A preservação da Amazônia é fundamental para servir de sumidouro natural e para melhorar a capacidade de adaptação diante da variabilidade climática”, explica.

Carbonização do setor de energia

Apesar de estar vulnerável às mudanças climáticas, o documento indica que entre 2018 e 2019, o Brasil forneceu uma média de USD 108 milhões por ano de dinheiro público para o setor de carvão, e USD 1,1 bilhões por ano para o setor de petróleo e gás, totalizando cerca de USD 1,28 bilhões por ano em finanças públicas direcionadas aos combustíveis fósseis.

O relatório Climate Transparency mostra que, além do desmatamento, outras fontes também estão em ascensão. As emissões de GEE do Brasil, excluindo a mudanças no uso do solo, aumentaram 79% (1990-2018), e a meta climática do governo de reduzir as emissões em 43% (abaixo dos níveis de 2005) até 2030 e de atingir a neutralidade climática não está em linha com um caminho de 1,5°C.

Quando considerado por categoria, foram observados aumentos sustentados nas emissões relacionadas à energia em todos os setores, com aumentos particularmente perceptíveis nos setores de transporte e eletricidade.

As emissões do transporte ainda estão aumentando. Dados de 2017 indicam que 92% do transporte de passageiros e 59% do transporte de carga é feito por estradas. Ambos os setores ainda são dominados por combustíveis fósseis e os veículos elétricos (VE) representam apenas 0,12% das vendas de automóveis. O petróleo representa 72% do mix de energia no transporte brasileiro.

Emissões pós-pandemia

Em geral, o relatório mostra que após um curto período de declínio, devido à pandemia, as emissões de gases de efeito estufa (GHG) estão se recuperando em todo o G20, com a Argentina, China, Índia e Indonésia projetadas para exceder seus níveis de emissões de 2019. Em 2020, as emissões de CO2 relacionadas à energia caíram 6% em todo o G20. Em 2021, entretanto, projeta-se que elas se recuperem em 4%.

“A recuperação das emissões em todo o G20, o grupo responsável por 75% das emissões globais de GEE, mostra que cortes profundos e rápidos nas emissões são agora urgentemente necessários para alcançar anúncios líquidos zero”, diz Gahee Han da organização sul-coreana Solutions For Our Climate, um dos principais autores do relatório.

O documento também observa alguns desenvolvimentos positivos, como o crescimento da energia solar e eólica entre os membros do G20, com novos registros de capacidades instaladas em 2020. A participação das renováveis no fornecimento de energia deverá crescer de 10% em 2020 para 12% em 2021. E especificamente no que se refere à energia utilizada para produzir eletricidade e calor, as renováveis aumentaram 20% entre 2015 e 2020, e estão projetadas para se tornar quase 30% do mix de energia do G20 em 2021.

Ao mesmo tempo, os especialistas observam que, com exceção do Reino Unido, os membros do G20 não têm estratégias de curto ou longo prazos para alcançar 100% de energias renováveis no setor de energia até 2050.

Ainda o carvão

Apesar destas mudanças positivas, a dependência dos combustíveis fósseis não está diminuindo. Pelo contrário, o consumo de carvão deverá aumentar quase 5% em 2021, enquanto o consumo de gás aumentou 12% em todo o G20 de 2015 a 2020. O relatório conclui que o crescimento do carvão está concentrado principalmente na China – o maior produtor e consumidor mundial de carvão – seguido pelos EUA e Índia.

Anúncios recentes sinalizam que a maioria dos governos do G20 está ciente da necessidade de uma transição para economias de baixo carbono. Em agosto de 2021, 14 membros do G20 já tinham se comprometido com metas líquidas zero, cobrindo quase 61% das emissões globais de GEE.

Como declarado no Acordo de Paris, espera-se que cada parte apresente uma Contribuição Determinada nacionalmente – um plano climático que estabelece metas, políticas e medidas que cada governo pretende implementar. Em setembro de 2021, 13 membros do G20 apresentaram oficialmente atualizações de NDC, com seis estabelecendo metas mais ambiciosas já para 2030. No entanto, mesmo que totalmente implementadas, as atuais metas avaliadas até abril de 2021 ainda levariam ao aquecimento de 2,4°C até o final do século, advertem os especialistas.

“Os governos do G20 precisam vir à mesa com metas nacionais mais ambiciosas de redução de emissões. Os números deste relatório confirmam que não podemos mover o mostrador sem eles – eles sabem disso, nós sabemos disso – a bola está firmemente em com eles antes da COP26”, diz Kim Coetzee da Climate Analytics, que coordenou a análise geral.

Sobre o Climate Transparency

O Relatório de Transparência Climática foi desenvolvido por 16 organizações de pesquisa e ONGs de 14 membros do G20 e compara os esforços de adaptação, mitigação e finanças entre os países deste grupo; O estudo analisa os recentes desenvolvimentos políticos; e identifica oportunidades climáticas que os governos do G20 podem aproveitar. Sua missão é incentivar ações climáticas ambiciosas nesses países e estimular debates nacionais. Esta é a 7ª edição da revisão anual da ação climática do G20.

Brasil é o quarto maior emissor histórico de CO2, confirma estudo

Inclusão de dados de emissão por uso da terra empurra país para o alto do ranking, como mostrou Fakebook.eco em abril

tronco queimado

Em artigo publicado nesta terça-feira (5/10), o portal especializado em clima Carbon Brief confirma que o Brasil é o quarto país que mais contribuiu para as emissões históricas de CO2, depois de EUA, China e Rússia. Segundo o estudo, o Brasil é responsável por cerca de 5% das emissões no período 1850-2021, principalmente por causa do desmatamento descontrolado.

A análise do Carbon Brief incluiu as emissões da destruição de florestas e de outras mudanças no uso da terra, atualizando um estudo feito pela própria organização em 2019. Isso empurrou o Brasil para o topo do ranking, juntamente com a Indonésia (5º maior emissor histórico). Antes, eram consideradas apenas as emissões de combustíveis fósseis. O resultado confirma estudos anteriores que apontavam uma parcela maior de responsabilidade histórica do Brasil quando o uso da terra era levado em conta.

Em abril, o Fakebook.eco já havia desmentido afirmação de Jair Bolsonaro em carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, de que o Brasil “é responsável por apenas 1% das emissões históricas de gases do efeito estufa, e menos de 3% do total corrente de emissões globais”.

A ideia de que o Brasil é um dos países que menos contribuíram para o aquecimento verificado vem de um estudo da década de 1990, feito por cientistas do governo brasileiro e apresentado pelo país na conferência de Kyoto, em 1997. A análise embasou a chamada “Brazilian Proposal”, ou Proposta Brasileira, que ajudou a sedimentar o entendimento de que a conta climática do Brasil é pequena porque o país não tinha quase nenhuma responsabilidade histórica pelo aquecimento observado hoje. Além de ser antigo, o dado da proposta original só levava em conta gás carbônico emitido por combustíveis fósseis.

Nos séculos 19 e 20, porém, o Brasil praticamente acabou com a Mata Atlântica. E, desde o final dos anos 1970, as emissões brasileiras são dominadas pelo desmatamento na Amazônia – em especial nos anos 1980, quando mais de 300 mil quilômetros quadrados de floresta foram abaixo. Estudos posteriores têm mostrado um quadro bem diferente: em 2014, por exemplo, um grupo de cientistas calculou todos os gases, incluindo uso da terra, e mostrou que o Brasil tinha a quarta maior contribuição histórica absoluta para o aquecimento global e a sétima maior contribuição per capita.

Em 2015, o físico Luiz Gylvan Meira Filho, autor principal do estudo brasileiro original, mostrou no Observatório do Clima um cálculo revisado segundo o qual a contribuição histórica do Brasil para o aquecimento verificado em 2005 era de 4,4% se considerados todos os gases.

O Carbon Brief mostra que os EUA liberaram mais de 509 bilhões de toneladas (Gt) de CO2 desde 1850 e são responsáveis pela maior parte das emissões históricas: 20,3% do total global. A China ocupa o segundo lugar no ranking, com 11,4%, seguida por Rússia (6,9%), Brasil (4,5%) e Indonésia (4,1%).

De acordo com a análise, os humanos emitiram cerca de 2,5 trilhões de toneladas de CO2 na atmosfera desde 1850, um número que se alinha com os apresentados pelo IPCC e pelo Global Carbon Project.

Essas emissões cumulativas de CO2 correspondem a um aquecimento em torno de 1,13oC – e as temperaturas em 2020 atingiram cerca de 1,2oC acima dos níveis pré-industriais.

“Embora a grande maioria das emissões de CO2 hoje venha da queima de combustíveis fósseis, atividades humanas como o desmatamento tiveram uma contribuição significativa para o total”, destaca o Carbon Brief. “As mudanças de uso da terra acrescentaram cerca de 786 Gt entre 1850 e 2021, o que equivale a quase um terço do total acumulado, com os dois terços restantes (1,718GtCO2) advindos de combustíveis fósseis e de cimento.”

Fonte: Carbon Brief

Este texto foi inicialmente publicado pelo Fakebook.eco [Aqui!  ].

De sumidouro a fonte: por causa de desmatamento, Amazônia emite mais do que absorve CO2

carbono-Amazonas-996x567Um estudo descobriu que as partes sudeste e leste da Amazônia funcionam mais como emissores do que como sumidouros de carbono. Crédito da imagem: Márcio Isensee e Sá / Flickr , sob licença Creative Commons 2.0

Por Washington Castilhos para a SciDev

A Amazônia liberou, em nove anos, mais CO 2 do que absorveu, concluiu estudo que alerta que essa floresta passa a funcionar mais como emissora de dióxido de carbono do que como sumidouro.

“Se a Amazônia fosse mais bem preservada, teria um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas”, disse ao SciDev.Net. os autores do artigo.

De acordo com o estudo, foram liberados um bilhão de toneladas de CO 2 anualmente entre 2010 e 2018. “Se não houvesse queimadas e desmatamento, nesse período a Amazônia eliminaria 450 milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera”, acrescentou Aragão.

Além disso, eles descobriram que as partes sudeste e leste da floresta – a região do arco do desmatamento, já bastante alterada – funcionam mais como emissores do que como sumidouros de carbono. Essa região é responsável por 72% das emissões totais da Amazônia, sendo 62% provenientes de incêndios.

“Se a Amazônia fosse mais bem preservada, teria papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas”.

Luiz Aragão, Chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

“A própria floresta tem capacidade de absorver carbono, minimizando o potencial de emissão. Mas depende se funciona bem ”, explicou Aragão.

Nas florestas tropicais, o carbono é normalmente absorvido e transformado em biomassa florestal por meio da fotossíntese. No entanto, os cientistas observaram que o equilíbrio entre emissões e absorção foi alterado pela ação humana, tornando a floresta menos capaz de agir como absorvente.

“O desmatamento na Amazônia contribui para menor absorção de CO 2 e maiores emissões pela floresta, favorecendo o aquecimento global”, acrescentou a climatologista Renata Libonati, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que não participou no estudo.

Além disso, o desmatamento está intimamente relacionado aos incêndios , a principal causa das emissões de CO 2 . Apenas 18% das emissões das queimadas são absorvidas pela floresta. “O desmatamento e os incêndios tornam essa vegetação mais vulnerável a secas extremas e causa mais mortalidade de árvores. Sem capacidade de absorção, isso vai gerar mais emissões de carbono ”, enfatizou Aragão.

As medições feitas para a pesquisa incluíram a Amazônia sul-americana como um todo – cerca de 7,25 milhões de km2 – o equivalente à maior área da Europa Ocidental. Mas a reportagem revelou que a parte oriental (o lado brasileiro, com seus dois milhões de km2 e 30% de área desmatada) é a região com maior emissão e menor absorção.

As consequências, porém, afetam o clima global, pois mais emissões aumentam a temperatura do planeta e isso favorece a ocorrência de eventos extremos, expansão de doenças, períodos mais chuvosos e outros de estiagem, que podem afetar a produção agrícola, a matriz energética. e consumo de água.

“Ao mesmo tempo em que absorve carbono, a floresta recicla a água por meio da evapotranspiração das plantas. Portanto, também permite que a umidade alcance outras regiões. Mas com a degradação da floresta, essa função fica comprometida, induzindo uma redução maior das chuvas ”, explicou Aragão.

Libonati acrescentou que, apesar de estudos anteriores já apontarem para a mudança da Amazônia de sumidouro para emissor, há incertezas. “A grande contribuição deste estudo é que os cientistas coletaram informações em campo, cobrindo a região de forma mais completa e fazendo medições mais próximas da realidade. Assim, dão mais força a uma discussão já iniciada ”, analisou.

Para Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Rio de Janeiro), que também não participou do artigo, “o estudo traz evidências científicas relevantes sobre as emissões, mas o carbono também vem da degradação . Quando somarmos os dois, veremos que a situação é muito pior ”, completou Pedlowski.

De acordo com a reportagem, dos países amazônicos, o Brasil é o que menos se preocupa com a floresta, já que a parte com as maiores emissões de CO 2 fica do lado brasileiro. “O Brasil está tecnicamente preparado e sempre foi reconhecido na gestão ambiental. Precisamos resgatar essa posição para que o país tenha voz ativa no caminho do desenvolvimento sustentável ”, finalizou.

Link para o estudo na Nature

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Este texto foi escrito originalmente em espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

Significados da decisão judicial sobre a Shell e o processo contra o Grupo Casino para setores vinculados ao desmatamento

shell

Em uma decisão histórica, em 26 de maio de 2021, um tribunal civil holandês ordenou que a Shell cortasse suas emissões de CO2 em 45 por cento líquido em 2030 em comparação com os níveis de 2019. A decisão declara que a obrigação de redução se refere a todo o portfólio de energia da Shell e ao volume agregado de todas as emissões (Escopo 1 a 3), o que significa que o grupo deve não só assumir a responsabilidade por suas próprias emissões de CO 2, mas também por aquelas em todo o seu toda a cadeia de valor. A Shell é a quarta maior empresa de petróleo e gás do mundo em receita. Essa decisão abre um precedente importante , pois é a primeira vez que um tribunal impõe a uma parte privada a obrigação de reduzir as emissões de CO 2 .

A Shell violou a convenção europeia sobre direitos humanos ao contribuir significativamente para “mudanças climáticas perigosas”, decidiu o tribunal. Esse resultado, no qual o tribunal agiu mais rápido do que o governo, não terá implicações apenas para outras empresas de petróleo e gás, mas também para outros setores que contribuem para as mudanças climáticas. Mesmo que a Shell lute para adiar a decisão, a reputação da empresa e da indústria de combustíveis fósseis como um todo foi afetada negativamente e os financiadores poderiam cada vez mais optar por não se envolver no setor.

Para empresas ligadas ao desmatamento, o caso Shell pode prenunciar dificuldades jurídicas. Como o desmatamento contribui com cerca de 13% para as emissões globais de CO 2 , todas as empresas em setores de risco florestal como óleo de palma, soja, gado, madeira e celulose e papel podem ser afetadas. No início deste ano, uma ação judicial foi movida em um tribunal francês contra o Grupo Casino, uma grande rede de supermercados francesa com subsidiárias latino-americanas. Ativistas indígenas apoiados por grupos ambientais afirmam que as práticas da empresa na cadeia de abastecimento de gado brasileiro e colombiano violam a lei de Due Diligence da França. Os autores alegam que as lojas do Casino na América Latina vendem carne ligada a grilagem e desmatamento na Amazônia. A posição do Grupo Casino piorou depois que um novo relatório da Agência de Investigação Ambiental (EIA) revelou que o Grupo não incluiu a pecuária no escopo de seu Plano de Due Diligence para a Colômbia. Enquanto isso, o EIA descobriu que fornecedores indiretos da subsidiária colombiana do Casino, Grupo Éxito, alimentaram o desmatamento ilegal nas florestas protegidas da Amazônia e fizeram pagamentos a grupos armados.

O Parlamento alemão também aprovou uma lei da cadeia de suprimentos em 11 de junho de 2021, que trará regras de conformidade obrigatórias para identificar e evitar direitos humanos e riscos ambientais. A UE está a consultar as partes interessadas sobre um sistema obrigatório da UE de devida diligência para as cadeias de abastecimento . O regulamento aplicar-se-ia às cadeias de abastecimento ligadas às atividades europeias, bem como às cadeias de abastecimento de empresas europeias noutros mercados. A combinação de sistemas obrigatórios implementados por autoridades governamentais e as decisões dos tribunais estão posicionados para tornar a UE uma “potência reguladora” global que impactaria todos os mercados globais .

Outra contribuição crucial para aumentar a pressão pela ação climática vem dos financiadores. O fundo de hedge ativista Engine No. 1 conquistou três assentos no conselho da ExxonMobil, forçando a empresa a acelerar seus preparativos para a transição para um mundo de emissão zero. O fundo de hedge já deu a entender à corretora de commodities de soja Bunge que também seria um novo alvo. Este ano, os acionistas da Bunge votaram esmagadoramente (98 por cento) a favor da empresa tomar medidas mais fortes para lidar com o desmatamento em sua cadeia de suprimentos. A proposta foi liderada pela Green Century Capital Management, juntamente com a Storebrand Asset Management. A política da UE provavelmente levará os financiadores europeus ainda mais nesta direção com base no Regulamento de Divulgação de Financiamento Sustentável, que exige que todos os participantes do mercado financeiro na UE divulguem questões ESG. No contexto da soja e da carne, mais processos judiciais provavelmente serão abertos em breve – Milieudefensie já sugeriu uma ação contra outros grandes emissores de CO 2 , como a produtora de carne Vion, a empresa de energia RWE, a produtora de aço Tata Steel e a empresa química Yara Sluiskil.

A decisão do tribunal sobre a Shell, as mudanças no ambiente regulatório e o crescente ativismo dos acionistas terão implicações importantes para os financiadores. Seus investimentos em empresas vinculadas ao desmatamento podem ser significativamente afetados pelo risco de regulamentação, risco de acesso ao mercado, risco de financiamento e risco de reputação. Os investimentos impactados não incluirão apenas a exposição a atores a montante, como fazendas e plantações. Os agentes intermediários (comerciantes, refinadores) e, em particular, as empresas a jusante (empresas de bens de consumo em rápida evolução, supermercados) podem enfrentar um número crescente de processos judiciais, bem como um impacto significativo em sua avaliação . Analistas em corretores e gestores de ativos provavelmente verão que os custos de implementação e verificação de uma estratégia de desmatamento zero são ofuscados pelos ganhos de reputação e que uma rápida mudança de estratégia para emissões zero poderia gerar valor material.

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Este texto foi escrito originalmente publicado em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

EUA tentam assumir protagonismo na luta contra as mudanças climáticas. E agora, Bolsonaro?

Joe Biden convida 40 chefes de governo para a cúpula do clima em abril. Vladimir Putin e Xi Jinping também são convidados, apesar de todas as tensões. E: Os EUA prometem melhoria em termos de emissões.

bidenO presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer retomar a tradição de George W. Bush e Barack Obama e realizar uma cúpula sobre o clima com outros chefes de governo. © Carlos Barria / Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer fazer avançar os esforços para proteger o clima e também convidou os presidentes da Rússia e da China para uma cúpula online. O governo dos Estados Unidos anunciou que Biden emitiu convites para um total de 40 políticos internacionais para o evento online nos dias 22 e 23 de abril. Além do chefe do Kremlin, Vladimir Putin, e do chefe de Estado e do partido da China, Xi Jinping, eles também incluem a chanceler alemã, Angela Merkel, e a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen. O evento será transmitido ao vivo pela Internet.

EUA querem anunciar meta de emissões mais ambiciosa

De acordo com a Casa Branca, a cúpula tem como objetivo sublinhar a urgência de medidas mais fortes para a proteção do clima e seus benefícios econômicos. Antes disso, os EUA anunciariam “uma meta ambiciosa de emissões” para 2030 como uma nova contribuição para o Acordo Climático de Paris. Biden pediu a outros chefes de estado e de governo que usem a reunião online para se comprometer com uma maior economia também. A próxima conferência climática da ONU será em novembro em Glasgow, na Escócia.

Pouco depois de assumir o cargo em janeiro, Biden anunciou que iria convocar uma cúpula do clima em 22 de abril – Dia da Terra . Os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush e Barack Obama, já haviam realizado reuniões nas quais as maiores economias do mundo trocavam opiniões sobre a mudança climática. Sob o comando do antecessor de Biden, Donald Trump, que repetidamente expressou dúvidas sobre a mudança climática, as conferências não existiam mais e os EUA se retiraram do Acordo de Paris. No dia em que prestou juramento, Biden ordenou seu retorno. Ele reiterou repetidamente que os EUA desempenhariam um papel de liderança na implementação do acordo.

Ao contrário do republicano Trump, o democrata Biden fez da proteção climática um de seus objetivos mais importantes – a Casa Branca fala de uma “emergência climática”. Pouco depois de assumir o cargo, Biden nomeou o ex-secretário de Estado John Kerry como enviado especial do clima, membro do Conselho de Segurança Nacional nessa função. Na semana passada, Kerry pediu mais ambição internacional na proteção do clima em um congresso online organizado pelo governo federal.

Ainda não está claro se Putin e Xi participarão da cúpula online. As tensões com a China e a Rússia se intensificaram sob Biden. Os EUA e seus aliados decidiram sancionar a China por reprimir a minoria muçulmana uigur. Em entrevista, Biden também afirmou que achava que Putin era um assassino e ameaçou a Rússia com novas sanções porque o país havia tentado influenciar a eleição presidencial. Os governos dos dois países rejeitam as acusações.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Die Zeit  [Aqui!].