De sumidouro a fonte: por causa de desmatamento, Amazônia emite mais do que absorve CO2

carbono-Amazonas-996x567Um estudo descobriu que as partes sudeste e leste da Amazônia funcionam mais como emissores do que como sumidouros de carbono. Crédito da imagem: Márcio Isensee e Sá / Flickr , sob licença Creative Commons 2.0

Por Washington Castilhos para a SciDev

A Amazônia liberou, em nove anos, mais CO 2 do que absorveu, concluiu estudo que alerta que essa floresta passa a funcionar mais como emissora de dióxido de carbono do que como sumidouro.

“Se a Amazônia fosse mais bem preservada, teria um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas”, disse ao SciDev.Net. os autores do artigo.

De acordo com o estudo, foram liberados um bilhão de toneladas de CO 2 anualmente entre 2010 e 2018. “Se não houvesse queimadas e desmatamento, nesse período a Amazônia eliminaria 450 milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera”, acrescentou Aragão.

Além disso, eles descobriram que as partes sudeste e leste da floresta – a região do arco do desmatamento, já bastante alterada – funcionam mais como emissores do que como sumidouros de carbono. Essa região é responsável por 72% das emissões totais da Amazônia, sendo 62% provenientes de incêndios.

“Se a Amazônia fosse mais bem preservada, teria papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas”.

Luiz Aragão, Chefe da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Brasil

“A própria floresta tem capacidade de absorver carbono, minimizando o potencial de emissão. Mas depende se funciona bem ”, explicou Aragão.

Nas florestas tropicais, o carbono é normalmente absorvido e transformado em biomassa florestal por meio da fotossíntese. No entanto, os cientistas observaram que o equilíbrio entre emissões e absorção foi alterado pela ação humana, tornando a floresta menos capaz de agir como absorvente.

“O desmatamento na Amazônia contribui para menor absorção de CO 2 e maiores emissões pela floresta, favorecendo o aquecimento global”, acrescentou a climatologista Renata Libonati, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que não participou no estudo.

Além disso, o desmatamento está intimamente relacionado aos incêndios , a principal causa das emissões de CO 2 . Apenas 18% das emissões das queimadas são absorvidas pela floresta. “O desmatamento e os incêndios tornam essa vegetação mais vulnerável a secas extremas e causa mais mortalidade de árvores. Sem capacidade de absorção, isso vai gerar mais emissões de carbono ”, enfatizou Aragão.

As medições feitas para a pesquisa incluíram a Amazônia sul-americana como um todo – cerca de 7,25 milhões de km2 – o equivalente à maior área da Europa Ocidental. Mas a reportagem revelou que a parte oriental (o lado brasileiro, com seus dois milhões de km2 e 30% de área desmatada) é a região com maior emissão e menor absorção.

As consequências, porém, afetam o clima global, pois mais emissões aumentam a temperatura do planeta e isso favorece a ocorrência de eventos extremos, expansão de doenças, períodos mais chuvosos e outros de estiagem, que podem afetar a produção agrícola, a matriz energética. e consumo de água.

“Ao mesmo tempo em que absorve carbono, a floresta recicla a água por meio da evapotranspiração das plantas. Portanto, também permite que a umidade alcance outras regiões. Mas com a degradação da floresta, essa função fica comprometida, induzindo uma redução maior das chuvas ”, explicou Aragão.

Libonati acrescentou que, apesar de estudos anteriores já apontarem para a mudança da Amazônia de sumidouro para emissor, há incertezas. “A grande contribuição deste estudo é que os cientistas coletaram informações em campo, cobrindo a região de forma mais completa e fazendo medições mais próximas da realidade. Assim, dão mais força a uma discussão já iniciada ”, analisou.

Para Marcos Pedlowski, geógrafo da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Rio de Janeiro), que também não participou do artigo, “o estudo traz evidências científicas relevantes sobre as emissões, mas o carbono também vem da degradação . Quando somarmos os dois, veremos que a situação é muito pior ”, completou Pedlowski.

De acordo com a reportagem, dos países amazônicos, o Brasil é o que menos se preocupa com a floresta, já que a parte com as maiores emissões de CO 2 fica do lado brasileiro. “O Brasil está tecnicamente preparado e sempre foi reconhecido na gestão ambiental. Precisamos resgatar essa posição para que o país tenha voz ativa no caminho do desenvolvimento sustentável ”, finalizou.

Link para o estudo na Nature

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Este texto foi escrito originalmente em espanhol e publicado pela SciDev [Aqui!].

Significados da decisão judicial sobre a Shell e o processo contra o Grupo Casino para setores vinculados ao desmatamento

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Em uma decisão histórica, em 26 de maio de 2021, um tribunal civil holandês ordenou que a Shell cortasse suas emissões de CO2 em 45 por cento líquido em 2030 em comparação com os níveis de 2019. A decisão declara que a obrigação de redução se refere a todo o portfólio de energia da Shell e ao volume agregado de todas as emissões (Escopo 1 a 3), o que significa que o grupo deve não só assumir a responsabilidade por suas próprias emissões de CO 2, mas também por aquelas em todo o seu toda a cadeia de valor. A Shell é a quarta maior empresa de petróleo e gás do mundo em receita. Essa decisão abre um precedente importante , pois é a primeira vez que um tribunal impõe a uma parte privada a obrigação de reduzir as emissões de CO 2 .

A Shell violou a convenção europeia sobre direitos humanos ao contribuir significativamente para “mudanças climáticas perigosas”, decidiu o tribunal. Esse resultado, no qual o tribunal agiu mais rápido do que o governo, não terá implicações apenas para outras empresas de petróleo e gás, mas também para outros setores que contribuem para as mudanças climáticas. Mesmo que a Shell lute para adiar a decisão, a reputação da empresa e da indústria de combustíveis fósseis como um todo foi afetada negativamente e os financiadores poderiam cada vez mais optar por não se envolver no setor.

Para empresas ligadas ao desmatamento, o caso Shell pode prenunciar dificuldades jurídicas. Como o desmatamento contribui com cerca de 13% para as emissões globais de CO 2 , todas as empresas em setores de risco florestal como óleo de palma, soja, gado, madeira e celulose e papel podem ser afetadas. No início deste ano, uma ação judicial foi movida em um tribunal francês contra o Grupo Casino, uma grande rede de supermercados francesa com subsidiárias latino-americanas. Ativistas indígenas apoiados por grupos ambientais afirmam que as práticas da empresa na cadeia de abastecimento de gado brasileiro e colombiano violam a lei de Due Diligence da França. Os autores alegam que as lojas do Casino na América Latina vendem carne ligada a grilagem e desmatamento na Amazônia. A posição do Grupo Casino piorou depois que um novo relatório da Agência de Investigação Ambiental (EIA) revelou que o Grupo não incluiu a pecuária no escopo de seu Plano de Due Diligence para a Colômbia. Enquanto isso, o EIA descobriu que fornecedores indiretos da subsidiária colombiana do Casino, Grupo Éxito, alimentaram o desmatamento ilegal nas florestas protegidas da Amazônia e fizeram pagamentos a grupos armados.

O Parlamento alemão também aprovou uma lei da cadeia de suprimentos em 11 de junho de 2021, que trará regras de conformidade obrigatórias para identificar e evitar direitos humanos e riscos ambientais. A UE está a consultar as partes interessadas sobre um sistema obrigatório da UE de devida diligência para as cadeias de abastecimento . O regulamento aplicar-se-ia às cadeias de abastecimento ligadas às atividades europeias, bem como às cadeias de abastecimento de empresas europeias noutros mercados. A combinação de sistemas obrigatórios implementados por autoridades governamentais e as decisões dos tribunais estão posicionados para tornar a UE uma “potência reguladora” global que impactaria todos os mercados globais .

Outra contribuição crucial para aumentar a pressão pela ação climática vem dos financiadores. O fundo de hedge ativista Engine No. 1 conquistou três assentos no conselho da ExxonMobil, forçando a empresa a acelerar seus preparativos para a transição para um mundo de emissão zero. O fundo de hedge já deu a entender à corretora de commodities de soja Bunge que também seria um novo alvo. Este ano, os acionistas da Bunge votaram esmagadoramente (98 por cento) a favor da empresa tomar medidas mais fortes para lidar com o desmatamento em sua cadeia de suprimentos. A proposta foi liderada pela Green Century Capital Management, juntamente com a Storebrand Asset Management. A política da UE provavelmente levará os financiadores europeus ainda mais nesta direção com base no Regulamento de Divulgação de Financiamento Sustentável, que exige que todos os participantes do mercado financeiro na UE divulguem questões ESG. No contexto da soja e da carne, mais processos judiciais provavelmente serão abertos em breve – Milieudefensie já sugeriu uma ação contra outros grandes emissores de CO 2 , como a produtora de carne Vion, a empresa de energia RWE, a produtora de aço Tata Steel e a empresa química Yara Sluiskil.

A decisão do tribunal sobre a Shell, as mudanças no ambiente regulatório e o crescente ativismo dos acionistas terão implicações importantes para os financiadores. Seus investimentos em empresas vinculadas ao desmatamento podem ser significativamente afetados pelo risco de regulamentação, risco de acesso ao mercado, risco de financiamento e risco de reputação. Os investimentos impactados não incluirão apenas a exposição a atores a montante, como fazendas e plantações. Os agentes intermediários (comerciantes, refinadores) e, em particular, as empresas a jusante (empresas de bens de consumo em rápida evolução, supermercados) podem enfrentar um número crescente de processos judiciais, bem como um impacto significativo em sua avaliação . Analistas em corretores e gestores de ativos provavelmente verão que os custos de implementação e verificação de uma estratégia de desmatamento zero são ofuscados pelos ganhos de reputação e que uma rápida mudança de estratégia para emissões zero poderia gerar valor material.

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Este texto foi escrito originalmente publicado em inglês e publicado pela Chain Reaction Research [Aqui!].

EUA tentam assumir protagonismo na luta contra as mudanças climáticas. E agora, Bolsonaro?

Joe Biden convida 40 chefes de governo para a cúpula do clima em abril. Vladimir Putin e Xi Jinping também são convidados, apesar de todas as tensões. E: Os EUA prometem melhoria em termos de emissões.

bidenO presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer retomar a tradição de George W. Bush e Barack Obama e realizar uma cúpula sobre o clima com outros chefes de governo. © Carlos Barria / Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quer fazer avançar os esforços para proteger o clima e também convidou os presidentes da Rússia e da China para uma cúpula online. O governo dos Estados Unidos anunciou que Biden emitiu convites para um total de 40 políticos internacionais para o evento online nos dias 22 e 23 de abril. Além do chefe do Kremlin, Vladimir Putin, e do chefe de Estado e do partido da China, Xi Jinping, eles também incluem a chanceler alemã, Angela Merkel, e a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen. O evento será transmitido ao vivo pela Internet.

EUA querem anunciar meta de emissões mais ambiciosa

De acordo com a Casa Branca, a cúpula tem como objetivo sublinhar a urgência de medidas mais fortes para a proteção do clima e seus benefícios econômicos. Antes disso, os EUA anunciariam “uma meta ambiciosa de emissões” para 2030 como uma nova contribuição para o Acordo Climático de Paris. Biden pediu a outros chefes de estado e de governo que usem a reunião online para se comprometer com uma maior economia também. A próxima conferência climática da ONU será em novembro em Glasgow, na Escócia.

Pouco depois de assumir o cargo em janeiro, Biden anunciou que iria convocar uma cúpula do clima em 22 de abril – Dia da Terra . Os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush e Barack Obama, já haviam realizado reuniões nas quais as maiores economias do mundo trocavam opiniões sobre a mudança climática. Sob o comando do antecessor de Biden, Donald Trump, que repetidamente expressou dúvidas sobre a mudança climática, as conferências não existiam mais e os EUA se retiraram do Acordo de Paris. No dia em que prestou juramento, Biden ordenou seu retorno. Ele reiterou repetidamente que os EUA desempenhariam um papel de liderança na implementação do acordo.

Ao contrário do republicano Trump, o democrata Biden fez da proteção climática um de seus objetivos mais importantes – a Casa Branca fala de uma “emergência climática”. Pouco depois de assumir o cargo, Biden nomeou o ex-secretário de Estado John Kerry como enviado especial do clima, membro do Conselho de Segurança Nacional nessa função. Na semana passada, Kerry pediu mais ambição internacional na proteção do clima em um congresso online organizado pelo governo federal.

Ainda não está claro se Putin e Xi participarão da cúpula online. As tensões com a China e a Rússia se intensificaram sob Biden. Os EUA e seus aliados decidiram sancionar a China por reprimir a minoria muçulmana uigur. Em entrevista, Biden também afirmou que achava que Putin era um assassino e ameaçou a Rússia com novas sanções porque o país havia tentado influenciar a eleição presidencial. Os governos dos dois países rejeitam as acusações.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Die Zeit  [Aqui!].

Sistemas alimentares são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa

sistema alimentarA base de dados EDGAR-FOOD representa um marco para a compreensão de como o sistema alimentar global se desenvolveu.  Foto | FAO

Os sistemas alimentares mundiais são responsáveis por mais de um terço das emissões antropogênicas globais de gases de efeito estufa, de acordo com um novo estudo pioneiro publicado na Nature Food.

O estudo, de co-autoria do estatístico sênior e especialista em mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Francesco Tubiello, em colaboração com pesquisadores do Centro de Pesquisa Conjunta da Comissão Europeia em Ispra, Itália, oferece um tesouro de dados e, pelo menos em nível de importância, apresenta uma nova base de dados – EDGAR-FOOD – que remonta a 1990 e permite o rastreamento granular de tendências atuais e futuras. A nova ferramenta, baseada nos principais dados de uso da terra do FAOSTAT, fornece uma série de dados completa e consistente abrangendo vários setores que serão essenciais no projeto de ações de mitigação eficazes e caminhos de transformação para sistemas alimentares sustentáveis.

Abrangendo desde mudanças no uso da terra e produção agrícola até embalagem e gestão de resíduos, as emissões do sistema alimentar foram estimadas em 18 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2015. Isso representa 34% do total, uma parcela que está diminuindo gradualmente – era de 44% em 1990 – mesmo com as emissões dos sistemas alimentares aumentando em quantidades absolutas.

O estudo também oferece uma compreensão e estimativa mais precisa dos efeitos climáticos da produção, distribuição e consumo de alimentos antes da Cúpula dos Sistemas Alimentares das Nações Unidas de 2021 no final deste ano. O Relatório Especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), sobre Mudanças Climáticas e Terras, recentemente atribuiu aos sistemas alimentares entre 11 e 19 bilhões de toneladas de emissões por ano, uma ampla gama que ressalta a necessidade de reduzir nossas lacunas de conhecimento.

A base de dados EDGAR-FOOD representa um marco para a compreensão de como o sistema alimentar global se desenvolveu. Ele permite avaliações de como as mudanças no comportamento do consumidor ou evolução tecnológica podem impactar as emissões de GHG (Gases de Efeito Estufa) do sistema alimentar e pode servir como uma ferramenta preciosa para pesquisadores com foco em setores específicos, bem como formuladores de políticas encarregados de projetar estratégias de mitigação que não apenas deslocam emissões para outros setores.

A FAO tem poderosos conjuntos de dados de emissões sobre a agricultura e o uso da terra e está construindo um novo para apoiar o trabalho da Cúpula dos Sistemas Alimentares da ONU.

Principais conclusões

Cerca de dois terços das emissões dos sistemas globais de alimentos vêm do setor baseado na terra, compreendendo agricultura, uso da terra e mudanças no uso da terra. Esse número é mais alto para os países em desenvolvimento, mas também está diminuindo significativamente com a redução do desmatamento e o aumento das atividades a jusante, como processamento de alimentos e refrigeração.

Em termos de sua participação em todas as emissões antropogênicas de GHG, os sistemas alimentares dos países industrializados são amplamente estáveis em cerca de 24%, enquanto nos países em desenvolvimento diminuíram notavelmente – em parte devido a aumentos muito elevados nas emissões não alimentares – para 39% em 2015 para 68% em 1990.

Os principais emissores são, pela ordem: China, Indonésia, Estados Unidos da América, Brasil, União Europeia e Índia.

Os estágios de produção que levam os alimentos para a fazenda – incluindo insumos como fertilizantes – são agora os principais contribuintes para as emissões gerais do sistema alimentar, constituindo 39% do total. O uso da terra e fatores relacionados contribuem com 38%, enquanto a distribuição é responsável por 29%, uma parcela que está crescendo e deve continuar crescendo.

EMISSÕES

Emissões de GEE do sistema alimentar. a, b, gráficos de pizza mostram a contribuição dos diferentes setores do sistema alimentar (baseado em terra, energia, indústria e  resíduos) às emissões de GEE provenientes de alimentos em 1990 (a) e 2015 (b). As cores no mapa mostram a parcela das emissões de GEE dos sistemas alimentares como uma fração do total de emissões de GEE (as participações detalhadas de GEE no sistema alimentar por país são relatadas na Tabela Suplementar 4). Emissões totais de GEE (incluindo CO2, CH4, N2O e gases F) são expressos como CO2  equivalente (CO2e) calculado usando os valores GWP100 usados no IPCC AR5, com um valor de 28 para CH4 e 265
para N2O. OCDE, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

O metano (CH4) é responsável por cerca de 35% das emissões de GHG do sistema alimentar, praticamente o mesmo em países desenvolvidos e em desenvolvimento, e provém principalmente da pecuária e do cultivo de arroz.

A pesquisa destacou como os sistemas globais de alimentos estão se tornando mais intensivos em energia, refletindo tendências nos setores de varejo, embalagem, transporte e processamento, cujas emissões estão crescendo rapidamente em alguns países em desenvolvimento. Os países industrializados, por sua vez, aumentaram a emissão de gases fluorados com efeito estufa – que têm um efeito turboalimentador no aquecimento global – usados na refrigeração e em outras aplicações industriais. A refrigeração é responsável por quase metade do consumo de energia do setor de varejo e supermercado, cujas emissões aumentaram mais de quatro vezes na Europa desde 1990. As atividades da “cadeia de frio” mundial respondem por cerca de 5% das emissões globais do sistema alimentar, um número esperado para aumentar.

Ele também revelou que a embalagem agora contribui com cerca de 5,4% das emissões globais do sistema alimentar, mais do que qualquer outro fator da cadeia de abastecimento, incluindo transporte. No entanto, a intensidade das emissões varia notavelmente por produto, com o vinho e a cerveja sendo responsáveis por uma parcela significativa dos impactos das embalagens, enquanto as bananas e o açúcar de beterraba têm maiores emissões de transporte.

Em média, as emissões globais per capita anuais relacionadas aos alimentos diminuíram de 1990 a 2015 em cerca de um terço, para 2 toneladas de CO2 equivalente. Esse número não deve ser entendido como o mesmo que uma “pegada do consumidor”, pois variam de acordo com padrões dietéticos específicos, mas pode ser usado para avaliar os esforços nacionais de mitigação para reduzir as emissões de GHG do sistema alimentar como um todo.

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Este texto foi originalmente publicado pela seção brasileira da Organização das Nações Unidas [Aqui!].

“O jogo agora é outro”

 Nova política americana sobre mudanças climáticas aumenta pressão sobre o Brasil para preservar a Amazônia e reduzir suas emissões

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Por Helton Escobar para o “Jornal da USP”

A chegada de Joseph Biden à Casa Branca e o retorno dos Estados Unidos à frente de batalha contra as mudanças climáticas globais têm implicações importantes para o Brasil. Sem Donald Trump para lhe fazer companhia no seleto clube de países negacionistas do aquecimento global, o governo Bolsonaro fica ainda mais isolado e sujeito a pressões por parte da comunidade internacional para combater o desmatamento da Amazônia, que — além de ser majoritariamente ilegal e extremamente nocivo do ponto de vista social, econômico e ambiental — é a fonte brasileira mais volátil de emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.

Tal como prometido durante a campanha eleitoral, uma das primeiras atitudes de Biden ao assumir a presidência dos Estados Unidos foi recolocar o país no Acordo de Paris, principal esforço internacional de combate às mudanças climáticas. Mas mais do que isso: uma Ordem Executiva, publicada por ele em 27 de janeiro, eleva a crise climática a uma questão de segurança nacional, a ser tratada como prioridade em todas as políticas nacionais e internacionais dos Estados Unidos.

“É política da minha administração que as considerações climáticas sejam um elemento essencial da política externa e da segurança nacional dos Estados Unidos. Os Estados Unidos trabalharão com outros países e parceiros, tanto de forma bilateral quanto multilateralmente, para colocar o mundo em um caminho climático sustentável”, diz a Ordem Executiva. E também: “Reconhecendo que as mudanças climáticas afetam uma ampla gama de assuntos, será uma prioridade dos Estados Unidos pressionar por uma maior ambição climática e integração de considerações climáticas em uma ampla gama de fóruns internacionais”.

Para liderar essa nova diplomacia climática, Biden nomeou o ex-chanceler John Kerry, um experiente negociador e profundo conhecedor do tema, como “enviado especial” dos Estados Unidos para o clima. Caberá a ele dialogar com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, que se coloca abertamente como um negacionista da crise climática.

Queimada em Lábrea (AM). Foto: Christian Braga/Greenpeace

“O jogo agora é outro; não tem mais espaço para conversa mole”, diz o pesquisador Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e especialista em mudanças climáticas. “Queira ou não queira, o Brasil vai ter que se alinhar com políticas internacionais de conservação ambiental, se não quiser perder mercado e ficar fora das negociações.”

O professor e ex-reitor da USP Jacques Marcovitch, especialista em política climática internacional, ressalta que não se trata apenas de uma posição isolada dos Estados Unidos, mas de um alinhamento das principais economias do mundo (incluindo China, Grã-Bretanha e União Europeia) em favor do desenvolvimento sustentável de baixo carbono e do combate às mudanças climáticas, que pode acabar marginalizando o Brasil no cenário internacional. O discurso do vice-presidente Hamilton Mourão na última reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, buscando apresentar o Brasil como um país engajado na defesa do meio ambiente, mostra que o governo está atento a esse risco, avalia Marcovitch. “Se não tomarmos cuidado, poderemos enfrentar essa hostilização da comunidade internacional, e isso não é interessante para o Brasil.”

O ponto-chave para o Brasil nessa questão climática é a Amazônia. Diferentemente dos países desenvolvidos, onde a maior parte das emissões de gases do efeito estufa (relacionados ao aquecimento global) provém da queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão mineral) para geração de energia, aqui a principal fonte histórica de emissões é o desmatamento — ou “mudanças no uso do solo”, como se diz na linguagem técnica dos relatórios internacionais. Cada hectare de floresta tropical contém entre 100 e 150 toneladas de carbono “embutidas” em sua vegetação; e quando a floresta queima ou a vegetação apodrece esse carbono é liberado para a atmosfera na forma de gases (principalmente dióxido de carbono, CO2), da mesma forma que acontece na queima de combustíveis fósseis (que também são derivados de matéria orgânica, rica em carbono). Uma vez na atmosfera, não importa se esse gás carbônico veio de uma árvore queimada ou do escapamento de um carro; ele contribui para o aquecimento global da mesma forma.

Destruir a floresta, portanto, é tão nocivo para o clima quanto queimar petróleo. Apesar da contribuição histórica do Brasil para o aquecimento global ser relativamente pequena (cerca de 1%), a maior parte dessa contribuição nociva tem origem, principalmente, no desmatamento da Amazônia e na agropecuária, já que a matriz energética brasileira é majoritariamente limpa (baseada em hidrelétricas e biocombustíveis) e o País é pouco industrializado. Uma comparação simples entre os dados oficiais de desmatamento e de emissões de gases do efeito estufa do País nas últimas décadas deixa isso claro: quando a destruição da floresta aumenta, as emissões também aumentam; e quando o desmatamento diminui, as emissões encolhem na mesma proporção (veja abaixo).

Os dados oficiais mais recentes sobre as emissões de gás carbônico do País vão até o ano de 2016, num período em que o desmatamento na Amazônia ainda estava relativamente controlado e as taxas de desmate ficavam abaixo de 8 mil quilômetros quadrados/ano. Tanto que, naquele momento, o desmatamento passou a ser apenas a terceira maior fonte de emissões do Brasil, atrás da agropecuária e do setor energético. Mas a situação, hoje, não é mais a mesma: nos últimos dois anos, sob a gestão do presidente Jair Bolsonaro, o desmatamento voltou a crescer, ultrapassando a marca de 10 mil km2, em 2019, e de 11 mil km2, em 2020, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — que Bolsonaro tentou de todo modo desacreditar no início de sua gestão. Consequentemente, as emissões de carbono aumentaram, e as críticas da comunidade internacional ao descaso ambiental do Brasil, também — não só pela questão climática, mas também da biodiversidade e de suas implicações sociais. O antagonismo gerado com os países europeus na área ambiental é tão forte que ameaça melar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, assim como a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A Ordem Executiva de Biden faz uma menção específica à Amazônia, requisitando aos secretários do Tesouro e de Estado (equivalentes aos ministros da Economia e das Relações Exteriores no Brasil) a elaboração de “um plano para promover a proteção da floresta amazônica e outros ecossistemas cruciais que atuam como sorvedouros de carbono, inclusive por meio de mecanismos de mercado”.

“Proteger a Amazônia é uma parte crítica dos esforços para estabilizar o clima, prevenir a próxima pandemia mundial e inibir a crise de extinção que se aproxima”, diz um relatório preparado pela US Network for Democracy in Brazil (USNDB), uma rede de pesquisadores, ativistas e organizações que defendem a democracia no Brasil. Entregue ao governo Biden no início de fevereiro, o documento lista uma série de denúncias contra o governo Bolsonaro, referentes a violações na área ambiental e de direitos humanos, e recomenda que o governo americano “congele negociações de comércio bilateral com o Brasil”, até que essas questões sejam solucionadas.

“Uma prioridade importante deveria ser a restrição, através de ordem executiva sobre compras e legislação governamentais, de importações de commodities de risco florestal como madeira, soja e produtos provenientes do gado, a não ser que possa ser determinado que as importações não estejam ligadas ao desmatamento ou a abusos de direitos humanos”, diz o documento — que chama atenção, também, para a vulnerabilidade de outros biomas brasileiros, como Cerrado e Pantanal. “Financiar a conservação ambiental sob o atual governo brasileiro pode parecer ‘jogar dinheiro no problema’, a não ser que o governo brasileiro inverta o curso de sua agenda destrutiva.”

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Geopolítica ambiental

“A Amazônia virou um tema geopolítico”, diz Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil e copresidente do Painel Internacional de Recursos do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (IRP-Unep). Considerando que o desmatamento da Amazônia afeta o clima de todo o planeta (e não só do Brasil), é natural que outros países, ao elegerem o combate às mudanças climáticas como prioridade, passem a se importar mais com a conservação da floresta. “Não é uma discussão sobre soberania, sobre territórios, mas sobre impacto que isso (o desmatamento) tem na atmosfera, que é um bem global”, destaca ela.

“Inicialmente, não acredito que o Brasil sofrerá sanções, ou mesmo pressão para uma mudança na política ambiental atual. Inicialmente. Mas, ao longo do tempo, se o desmatamento continuar com tendência de aumento, como está agora, creio que potencialmente haverá pressão, como a que já se sente por parte da Europa”, avalia Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) — mas que nesta reportagem não fala em nome do painel.

O retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, segundo ela, cria “um cenário muito positivo” para avanços no enfrentamento da crise climática global. A ordem executiva de Biden reforça o compromisso americano de apoiar financeiramente os países em desenvolvimento a lidar com o problema e adotar medidas mais ambiciosas de redução de emissões, que é um ponto-chave do acordo. “Isso deve estimular outros países desenvolvidos a cumprir seus compromissos de apoiar os países em desenvolvimento”, avalia Thelma. “Esta é uma das mudanças que vejo no curto prazo e que é extremamente necessária para ajudar os países em desenvolvimento a ampliar suas contribuições nacionalmente determinadas e colocar as emissões de gases de efeito estufa em uma trajetória consistente com o Acordo de Paris.”

A ajuda financeira internacional para a conservação da Amazônia e do Cerrado “seria muito bem-vinda”, avalia Thelma. “Só que essas contribuições não caem do céu”, alerta ela. “Há a necessidade do País ter um plano concreto, crível e executável para conter o desmatamento” — o que não é o caso atualmente.

O Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) foi abandonado pelo governo Bolsonaro em 2019, apesar dos ótimos resultados que vinha produzindo nos últimos 15 anos. O governo também desmontou ou desmobilizou quase todos os grupos de trabalho, comissões e outras estruturas internas de governo que lidavam com a questão climática, em diferentes ministérios; e adotou um discurso de ataque aos seus próprios órgãos de pesquisa e defesa ambiental (como Ibama e ICMBio), que tiveram sua atuação inibida nos últimos dois anos pela falta de apoio e de recursos para suas atividades.

“O primeiro passo é reconhecer os retrocessos e impedir os retrocessos. Não adianta ficar fazendo bravatas”, diz Izabella Teixeira. “A agenda ambiental brasileira está completamente fragmentada.” Segundo ela, o governo não só deixou de dar prioridade à questão como passou a desconstruir as políticas e programas que já existiam, sem colocar nada no lugar capaz gerar resultados positivos. “Os resultados que estão sendo entregues hoje são de retrocesso.”

E não é por falta de dinheiro, diz o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini. Ele lembra que há cerca de R$ 3 bilhões “parados” no Fundo Amazônia (mais do que o orçamento inteiro do Ministério do Meio Ambiente), que poderiam estar sendo usados no combate ao desmatamento, mas não são. “Dinheiro tem; o que falta é interesse do governo”, diz.

Área de queimada no entorno da BR-163 em Novo Progresso (PA). Foto: Lucas Landau/Greenpeace

Astrini tem poucas esperanças — para não dizer nenhuma — de que alguma pressão internacional vá mudar a postura beligerante e negacionista de Bolsonaro com relação ao meio ambiente, porque é justamente essa postura que atende aos interesses da sua base política e eleitoral mais fiel, que ele precisa agradar para se reeleger em 2022. “Se a claque dele quiser que ele desmate a Amazônia e enfrente o Biden, é isso que ele vai fazer”, aposta Astrini.

“Minha impressão é que até o fim do governo Bolsonaro nada vai acontecer”, prevê o ex-diretor do Inpe e atual diretor do Secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO), Gilberto Câmara. “É óbvio que a pressão vai aumentar, mas acho que o debate será pós-2022.”

O filósofo e cientista político Ricardo Abramovay, professor sênior do Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente da USP, também não crê numa mudança de postura do governo brasileiro. “Não vai mudar porque somos governados por uma seita fundamentalista que não é sensível a pressões internacionais”, diz. Será preciso acompanhar, segundo ele, qual será a postura diplomática adotada pelo governo Biden em suas relações com o Brasil daqui para frente. “Se os Estados Unidos adotarem uma posição muito inflexível, isso poderá ser aproveitado pelo governo brasileiro para se fazer de vítima da comunidade internacional”, avalia Abramovay.

As primeiras sinalizações vindas de Washington foram de abertura ao diálogo. “Na relação bilateral entre Brasil e EUA a diplomacia estará à frente para qualquer tema, incluindo a questão climática”, disse a porta-voz do Departamento de Estado americano, Kristina Rosales,segundo o jornalFolha de S.Paulo.

“Acho que faz todo sentido. Devem estender a mão primeiro na tentativa de ajudar a resolver o problema do desmatamento; o que não acredito que trará resultados, pois do lado de cá não deverão encontrar interesse nenhum”, avalia Astrini, do Observatório do Clima. “Em 2019, na época das queimadas, a (chanceler alemã) Angela Merkel fez o mesmo gesto, e Bolsonaro mandou ela reflorestar a Alemanha.”

Do ponto de vista do agronegócio brasileiro, a ordem executiva do presidente Biden abre perspectivas positivas, na avaliação do pesquisador Marcos Fava Neves, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP. “Vejo como uma oportunidade para o Brasil atrair cada vez mais recursos que auxiliem na preservação. A grande maioria dos indicadores ambientais do Brasil é extremamente favorável, mas o desmatamento na Amazônia Legal cresceu entre 2019 e 2020 e é necessário combater fortemente a ilegalidade”, afirma Neves. Um mercado que poderá crescer bastante, segundo ele, é o de biocombustíveis. “Mais de 98% do agro brasileiro não está ligado à Amazônia e são empresas que atendem aos mais rigorosos certificados internacionais, portanto não vejo ameaça a essas empresas com uma exigência maior.”

Compromisso assumido

Um primeiro passo do Brasil para demonstrar comprometimento com a causa climática, segundo Marcovitch, seria a apresentação de um plano estratégico para o cumprimento de seus compromissos já assumidos no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, em inglês) e do Acordo de Paris, por meio da sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que prevê a redução de 37% das emissões de gases do efeito estufa no País até 2025, e de 43%, até 2030, em comparação com o que era emitido em 2005. Um compromisso que passa, obrigatoriamente, pela redução do desmatamento e pela restauração de áreas degradadas.

“Acredito que isso seja uma pré-condição para qualquer diálogo”, avalia Marcovitch. “Nenhum país vai querer negociar com o Brasil se não houver um compromisso claro de cumprimento das metas.”

As NDCs são o principal instrumento de implementação do Acordo de Paris — que, em vez de estipular uma meta única de redução global de emissões (como foi feito anteriormente, no Protocolo de Quioto), permitiu que cada país determinasse sua própria contribuição, para um objetivo comum de manter o aumento da temperatura média da Terra abaixo de 2 graus Celsius. A primeira NDC brasileira foi apresentada em 2015, e o Acordo de Paris determinava que todos os países signatários apresentassem uma nova NDC, com metas mais ambiciosas, até o fim de 2020.

A nova NDC do Brasil foi enviada à UNFCCC em 8 de dezembro, basicamente reafirmando os compromissos da primeira versão. Em nota à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores descreveu a contribuição brasileira como “uma das mais ambiciosas do mundo”. Organizações não governamentais, porém, fizeram duras críticas à nova proposta, que, segundo elas, é menos ambiciosa do que a NDC original. Isso porque o valor de referência para o que o país emitia em 2005 foi atualizado (em função de uma revisão metodológica) de 2,1 bilhões para 2,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente. Consequentemente, como a linha de base aumentou, a quantidade de gases do efeito estufa que o Brasil poderá emitir em 2025 e 2030 também passou a ser maior do que a prevista na NDC original — cerca de 40% maior, segundo uma análise da Climate Action Network(CAN), uma rede com mais de 1,5 mil organizações não governamentais.

“O exemplo do Brasil, que apresentou uma NDC em muitos aspectos mais fraca e menos ambiciosa do que a anterior, não deve ser aceito no âmbito da UNFCCC e de seu Acordo de Paris, muito menos bem-vindo”, diz uma carta da CAN, enviada à secretaria executiva da convenção, em 25 de janeiro. O Ministério das Relações Exteriores publicou uma nova nota à imprensa, ainda em dezembro, rebatendo as críticas levantadas pelos ambientalistas. Segundo o ministério, a possibilidade de revisão dos dados de 2005 estava prevista na NDC desde o início, e “busca apenas respeitar a melhor ciência disponível”.

A NDC dos Estados Unidos, por sua vez, previa uma redução de 26% a 28% das emissões de gases do efeito estufa até 2025, comparado aos níveis de 2005. Em novembro de 2019, porém, o então presidente Donald Trump retirou oficialmente os Estados Unidos do Acordo de Paris, e por isso a revisão dessas metas não foi realizada. Umas das medidas previstas na ordem executiva do novo presidente Biden é, justamente, a formulação “imediata” de uma nova NDC, acompanhada de um ambicioso projeto de descarbonização da economia americana.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

Trabalhadores britânicos se juntam a ambientalistas para cobrar transição ecológica na aviação

Relatório divulgado hoje (8/02) critica socorro financeiro ao setor sem contrapartidas sociais e ambientais

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O Sindicato dos Serviços Públicos e Comerciais do Reino Unido (PCS), um dos maiores e mais atuantes do país, publicou nesta segunda-feira (08/02) um relatório que alerta para a vulnerabilidade dos postos de trabalho dos setores de aviação e turismo diante da crise climática. Segundo o documento, já está claro que a descarbonização desses segmentos é inevitável, mas as mudanças podem afetar severamente os interesses dos trabalhadores se não houver um projeto justo de transição.

O estudo, intitulado “Uma transição rápida e justa na aviação:  Mudança para uma mobilidade climaticamente justa” foi realizado pelo PCS em parceria com a rede global Stay Grounded, formada por 170 organizações globais pelo clima.

O ponto de partida da pesquisa é a crise provocada pela Covid-19, que imobilizou o tráfego aéreo. Segundo o documento, até agosto de 2020 governos ou entidades apoiadas por governos de 57 países destinaram cerca de 137 bilhões de euros para socorrer linhas aéreas durante a pandemia, sem contrapartidas ambientais e sociais. Apesar do socorro às empresas, ao menos 400 mil pessoas no setor de aviação foram demitidas nesses países, além de um número ainda maior de trabalhadores que tiveram redução de salários ou novos contratos em condições menos vantajosas.

A aviação é a modalidade de transporte de passageiros que mais contribuiu para o aquecimento global e também a que manteve, antes da pandemia, o ritmo de crescimento mais acelerado de emissão de gases de efeito estufa, diz o documento. As viagens de negócios normalmente representam entre 60% e 70% da receita das companhias aéreas, apesar de responderem apenas por 12% do número de passageiros. Os lucros oriundos das viagens de negócios permitiram que as companhias aéreas subsidiassem massivamente seus assentos econômicos, gerando um boom nos voos baratos de lazer desde o início do século XXI. Com as empresas forçadas a se adaptar às reuniões online e ansiosas para cortar custos desnecessários, analistas agora sugerem que todo este modelo de negócio está acabado.

O relatório divulgado hoje reconhece que a aviação que havia antes da pandemia se tornou inviável por questões econômicas e pela imposição de metas climáticas mais ambiciosas nas principais economias do mundo. Os autores defendem uma reformulação completa do setor aliada a outras transformações econômicas e de estilo de vida da população. E muitos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) já planejam a reconstrução do turismo em bases mais sustentáveis.

A aviação é um segmento de difícil descarbonização, diz o documento, e as soluções de tecnologias verdes, como a eletrificação de aeronaves, ainda estão muito distantes de estarem disponíveis. “É por isso que a redução das emissões da aviação exige uma diminuição significativa dos voos dos níveis pré-COVID-19”, defende o texto. “Uma possível tecnologia futura não deve ser uma desculpa para não agir agora.”

No ano passado, a Stay Grounded promoveu a campanha “Salve pessoas, não aeronaves” (#SavePeopleNotPlanes) que foi endossada por 350 organizações da sociedade civil e teve o apoio individual de 100 mil pessoas. A campanha destacou análises econômicas que apontaram o resgate do setor aéreo sem contrapartidas sociais e ambientais como a modalidade de socorro financeiro com menor retorno econômico entre os países do G20.