Com perdas estimadas em R$ 62,5 bilhões em 2025, as apostas online drenam recursos dos orçamentos familiares, comprometem o consumo de alimentos e aprofundam as desigualdades sociais
A expansão das plataformas de apostas online, conhecidas como bets, transformou-se em um grave problema econômico e social no Brasil. Muito além das perdas individuais, essas empresas construíram um negócio altamente lucrativo que explora a esperança de enriquecimento rápido, especialmente entre aqueles que enfrentam dificuldades financeiras. Em um país marcado pela desigualdade de renda e pela precarização do trabalho, as consequências dessa atividade recaem de maneira particularmente cruel sobre as famílias mais pobres.
Segundo levantamento divulgado pelo G1, com base em dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam aproximadamente R$ 62,5 bilhões líquidos para as bets em 2025. Outro indicador aponta perdas médias de R$ 4,7 bilhões mensais entre outubro de 2024 e março de 2026. Já as transferências realizadas por apostadores via Pix alcançaram quase R$ 351 bilhões no período analisado, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil. Embora esse último valor represente a movimentação bruta, incluindo recursos posteriormente devolvidos como prêmios, os números revelam a dimensão da captura de renda promovida pelo setor.
O impacto dessas perdas é profundamente desigual. Para uma família de alta renda, perder algumas centenas de reais pode significar apenas a redução de despesas supérfluas. Para quem sobrevive com um ou dois salários mínimos, entretanto, o mesmo valor pode representar menos comida na mesa, atraso nas contas de energia elétrica, dificuldades para comprar medicamentos ou a necessidade de recorrer ao crédito. O que está em jogo, portanto, não é apenas o dinheiro perdido nas apostas, mas a própria capacidade de milhões de famílias satisfazerem suas necessidades básicas.
Essa situação ajuda a explicar a relação entre as bets e o endividamento. Pesquisa da CNDL e do SPC Brasil identificou que aproximadamente 39,5 milhões de brasileiros haviam realizado apostas em um período de 12 meses, dos quais cerca de 7,5 milhões admitiram comprometer parte de sua renda com os jogos. Já um estudo do Ibevar e da FIA Business School, divulgado pelo UOL em março de 2026, apontou as apostas online como um dos fatores mais fortemente associados ao endividamento das famílias brasileiras, superando, no modelo analisado, variáveis tradicionalmente relacionadas ao problema, como juros e custo do crédito.
Há ainda um efeito econômico frequentemente negligenciado. O dinheiro perdido nas bets deixa de circular nas feiras livres, supermercados, farmácias e pequenos estabelecimentos comerciais. São recursos que poderiam fortalecer o consumo popular, sustentar empregos e movimentar as economias locais, mas acabam transferidos para empresas que lucram com a expectativa de ganhos dos apostadores. Isso cria uma contradição evidente com políticas públicas destinadas a recuperar salários, combater a pobreza e ampliar o mercado interno.
A responsabilidade por esse cenário não pode ser atribuída exclusivamente aos apostadores. As empresas de apostas investiram pesadamente em publicidade, influenciadores digitais e patrocínios esportivos, transformando o futebol brasileiro em uma gigantesca vitrine comercial. Dirigentes de clubes e personalidades esportivas ajudaram a naturalizar uma atividade cujos custos financeiros e sociais são suportados por milhões de torcedores e suas famílias. Não surpreende, portanto, que setores beneficiados por esses contratos resistam às restrições impostas ao mercado.
Nesse contexto, a decisão do governo Lula de proibir as operações das bets, por meio da Medida Provisória 1.394, de setembro de 2026, representa uma mudança importante no enfrentamento do problema. Entretanto, a medida também exige vigilância diante das pressões econômicas e políticas daqueles que lucravam com as apostas. Além de preservar mecanismos efetivos de restrição, será necessário ampliar o atendimento às pessoas que desenvolveram dependência do jogo e enfrentam situações de endividamento.
O debate sobre as bets precisa deixar de ser apresentado como uma simples questão de liberdade individual ou de arrecadação tributária. Estamos diante de um mecanismo de transferência de renda que compromete o orçamento das famílias, enfraquece o consumo popular e aprofunda desigualdades. Em um país onde milhões de trabalhadores ainda enfrentam dificuldades para colocar comida na mesa, não é aceitável que a esperança de escapar da pobreza seja transformada em fonte de lucros bilionários.
Afinal, quando as bets ganham bilhões, quem paga essa conta são, sobretudo, aqueles que menos podem perder.


