A “tempestade perfeita” de Tereza Cristina: muitos argumentos, nenhuma autocrítica

Senadora aponta juros, crédito, clima e endividamento, mas passa ao largo das vulnerabilidades produzidas por um modelo dependente de desmatamento, agrotóxicos, água e financeirização

A senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina aponta problemas reais ao falar em uma “tempestade perfeita” atingindo o chamado agronegócio brasileiro. Juros elevados, retração do crédito, endividamento, oscilação dos preços das commodities e eventos climáticos extremos formam uma combinação que efetivamente está colocando muitos produtores sob forte pressão financeira.

O problema está menos no que Tereza Cristina diz do que naquilo que omite. Em sua análise, a crise aparece essencialmente como resultado de forças externas que se abateram sobre o setor.  Mas Tereza Cristina  deixa de fora a pergunta mais incômoda: quanto da atual vulnerabilidade foi produzido pelo próprio modelo de agricultura que as principais organizações do agronegócio defenderam e ajudaram a consolidar?

Há primeiro uma contradição ambiental. Secas, enchentes e irregularidade das chuvas são apresentadas como adversidades climáticas, mas sem relacioná-las à expansão de um modelo agroexportador que, em importantes regiões do país, continua associado ao desmatamento, ao uso intensivo de agrotóxicos e à crescente pressão sobre os recursos hídricos. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a agricultura irrigada respondeu, em 2024, por 50,3% da retirada de água destinada aos usos consuntivos no Brasil. Ou seja, a crise hídrica não pode ser tratada simplesmente como uma ameaça que vem de fora da porteira, mas que é criada pela lógica que predomina dentro dela.

Além disso, existe ainda outra questão pouco mencionada: a crescente financeirização da agricultura. A expansão das Cédulas de Produto Rural (CPRs), fundos e outros instrumentos aproximou cada vez mais a produção agrícola dos mercados financeiros. Dados do Ministério da Agricultura mostram que as CPRs movimentaram cerca de R$ 205 bilhões na safra 2025/26. Isso amplia as fontes de financiamento, mas também submete a produção a uma combinação perigosa de juros, câmbio, preços internacionais e compromissos financeiros assumidos antes mesmo da colheita.  Quando esse endividamento se combina com monoculturas dependentes de fertilizantes, agrotóxicos, sementes, máquinas e combustíveis, qualquer choque climático ou econômico pode produzir efeitos em cadeia. A elevada produtividade física não significa, portanto, baixa vulnerabilidade econômica.

É justamente aí que a metáfora da “tempestade perfeita” se torna conveniente. Ela descreve a simultaneidade dos problemas, mas transforma em fatalidade aquilo que também resulta de escolhas econômicas, tecnológicas e ambientais acumuladas durante décadas.

Entretanto, a discussão não deveria se limitar, portanto, a quanto crédito será necessário para socorrer os produtores endividados.  Para ser coerente, a discussão deveria incluir uma pergunta muito mais importante: até que ponto um modelo assentado na especialização agroexportadora, na pressão crescente sobre os recursos naturais e na financeirização da produção está aumentando sua própria exposição às crises que agora denuncia?

Tereza Cristina identifica corretamente a tempestade.  Mas falta a ela reconhecer que parte da vulnerabilidade do telhado foi construída pelo próprio modelo que historicamente representa.

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