Porque o governo não deve concluir Angra 3

Por Heitor Scalambrini Costa**

O setor nuclear brasileiro tem em sua trajetória um passado nebuloso, repleto de episódios controversos. Desde o contrabando e exportação de areias monazíticas do litoral capixaba/baiano/fluminense, passando pela cabulosa venda de urânio para o Iraque; o encerramento das atividades do Programa do Tório na UFMG, em 1975; o legado de morte e contaminação provocado pela Nuclemon (antiga estatal) na extração de minerais radioativos e de terras raras; o secretismo do Programa Nuclear Paralelo/Clandestino; a tragédia do Césio-137, em Goiânia; o enorme passivo ambiental no Planalto de Poços de Caldas/MG e em Caetité/BA; a falta de transparência e de controle social; escândalos com o recebimento de propinas milionárias pelos gestores do setor; roubos e sumiços de radiofármacos e de fontes radioativas, até a omissão de informações cruciais para a população sobre graves ocorrências (por exemplo: vazamentos de água radioativa) nas usinas nucleares, em Angra dos Reis (RJ). 

Esses e outros episódios aprofundaram o crescente descrédito sobre o desempenho da indústria nuclear, com seus gestores privilegiados com supersalários. O desgaste sobressaiu, diante da atual crise financeira e gestão temerária, que acabou levando a uma greve inusitada dos trabalhadores da Eletronuclear, em 2025.

No caso específico de Angra 3 (construção iniciada em 1984), o governo não deve avançar na sua conclusão por razões diversas, reunindo desafios nas áreas tecnológica, econômica, ambiental, social, além dos riscos associados a esta forma de produzir energia elétrica. Angra 3 é o resultado do Acordo Nuclear assinado em 1974 com a Alemanha, em plena ditadura militar, e que previa a construção de 8 usinas, entre outras ações relacionadas ao ciclo do combustível nuclear. Deste acordo somente Angra 2 foi construída.

Também havia o interesse bélico de construir a bomba atômica, projeto tocado em sigilo pela ditadura militar, cuja intenção ficou evidenciado pela negativa, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear, só o fazendo no final dos anos 90.

Um dos aspectos a ser levado em conta para de vez interromper a construção de Angra 3 é o custo da energia nuclear muito mais cara (4 a 6 vezes) que as fontes renováveis. Segundo estudos recentes do BNDES (não acessível), a conclusão desta usina representaria um gasto de 23,9 bilhões de reais, com início de operação em 2031, e com custo da energia entre R$ 778 – R$ 817 por MWh. Este valor seria repassado para todos os consumidores, o que representaria um adicional na já exorbitante conta de energia. Existe também uma dúvida, se no cálculo da energia está incluído os custos de armazenamento dos resíduos (lixo atômico) e do descomissionamento da usina.

Os riscos da energia nuclear incluem o descarte/armazenamento seguro dos resíduos de alta radioatividade, que continuam a irradiar por milhares de anos, constituindo um grave legado para as gerações futuras, já que não existe uma solução definitiva e duradoura para o armazenamento de tais substâncias. Além da possibilidade de acidentes nas usinas, com a radiação contaminando solo, ar e água, exigindo evacuação de grandes contingentes populacionais, causando doenças graves (câncer, leucemia). Os impactos sociais, com o descarte inadequado do lixo nuclear, constituem um perigo constante para o meio ambiente e a saúde humana/animal. Acidentes importantes já ocorreram em usinas nucleoelétricas, o de Chernobyl (Ucrânia-1986), o de Fukushima (Japão-2011), só para citar os que tiveram maior publicidade. Além do maior acidente radiológico do mundo em Goiânia (Brasil-1987), mostraram os perigos da liberação de substâncias radioativas.

Outra questão relevante é a tecnologia antiga e ultrapassada de muitos equipamentos essenciais ao funcionamento dessa usina que já foram adquiridos desde a década de 80 do século passado. A obra, que já dura 45 anos, gasta R$ 1 bilhão por ano (R$ 800 milhões para pagar dívidas ao BNDES e CEF; R$ 200 milhões em manutenção de equipamentos e caducas estruturas). Os grandes e graves eventos ocorridos com usinas nucleares introduziram maior segurança nas usinas construídas posteriormente aos acidentes, todavia não impedindo que acidentes possam ocorrer. Uma máxima aceita é “não existe risco zero em engenharia”.

Afirmar que é uma fonte “limpa” é uma grande inverdade. Como se houvesse na natureza qualquer tipo de energia que não contamina, libera produtos tóxicos, polui, agride o meio ambiente e as pessoas. Não existe fonte de energia “limpa”. Só na propaganda mentirosa da Eletronuclear, repetida à exaustão pelo MME.

A interrupção e construção de usinas nucleares no país não impedirá a aquisição de conhecimentos estratégicos na área nuclear, pois é nas universidades e centros de pesquisas que tais estudos são realizados, e não nas compras “turnkey” dos equipamentos que compõem uma usina nuclear.

Na discussão sobre se o Brasil avança na nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3, a mediocridade e a falácia dos argumentos pró nuclear andam à solta. Nada indica que usinas nucleares sejam necessárias ao país. As fontes renováveis constituem a espinha dorsal da matriz elétrica, e podem garantir a segurança e sustentabilidade energética em um contexto em que a diversidade e complementaridade andem juntas. Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país com extraordinário potencial de fontes renováveis.

Logo, neste ano que inicia, basta coragem ao governo federal para enfrentar os lobbies e interromper definitivamente a obra de Angra 3, e, de maneira clara, deixar uma mensagem ao povo brasileiro e ao mundo de que o Brasil não irá nuclearizar seu território.

 

“Em memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”


* Publicado no blog: https://taniamalheiros-jornalista.blogspot.com

**  Heitor Scalambrini é Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix – Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de   Energia Atômica (CEA)-França.

Organizações ambientais alertam contra rótulos verdes para gás natural e energia nuclear

ovelhasFoto: imago images / Chris Emil Janßen

Bruxelas. As organizações ambientais alertam a Comissão Europeia contra a classificação da energia nuclear e do gás natural como energias amigas do ambiente. Tal movimento contradiria as medidas que seriam necessárias para limitar a mudança climática a 1,5 graus, disse Sébastien Godinot do WWF na quinta-feira. A inclusão da energia nuclear e do gás natural na chamada taxonomia da UE seria “grosseiramente irresponsável”, disse a ativista do Greenpeace Silvia Pastorelli.

O pano de fundo para isso é o trabalho em andamento pela Comissão da UE em um sistema de classificação para investimentos sustentáveis. Isso deve dar aos investidores diretrizes claras sobre quais investimentos são considerados amigáveis ​​ao clima – o selo, portanto, oferece enormes vantagens financeiras.

Um documento circulou em Bruxelas pedindo que a energia nuclear e o gás fossem incluídos na taxonomia. De acordo com diplomatas, ele vem da França, mas também é apoiado por vários outros países, como a Polônia e a República Tcheca. Até agora, a Alemanha se manifestou claramente contra classificar a energia nuclear como amiga do clima. No entanto, existe um forte lobby para a promoção do gás como uma tecnologia de transição, a fim de garantir o fornecimento de eletricidade após a planejada eliminação da energia nuclear e do carvão.

Segundo os critérios propostos no documento, metade das fábricas de gás existentes na UE seriam consideradas “verdes”, disse Godinot. Também poderia financiar novas usinas de gás que poderiam durar até 2065. De acordo com o economista do WWF, isso não é compatível com os objetivos de proteção climática da UE.

Roger Spautz, do Greenpeace, alertou sobre as consequências ambientais dos resíduos radioativos produzidos pela fissão nuclear. “Em nossa opinião, a indústria nuclear quer entrar na taxonomia porque quer roubar dinheiro para manter seus antigos reatores funcionando”, disse Spautz. Depois de 70 anos, a indústria nuclear ainda não encontrou uma solução para o lixo nuclear, disse Godinot, colega do WWF.

De acordo com a comissária de finanças responsável da UE, Mairead McGuinness, a decisão sobre a classificação do nuclear e do gás deve ser tomada até o final do ano. Os estados membros e o Parlamento da UE têm então dois meses para levantar objeções – caso contrário, a taxonomia entrará em vigor. (dpa / jW)

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Relatório da Agência Internacional de Energia favorece combustíveis fósseis, diz estudo

Edição deste ano inclui pela primeira vez cenário com medidas para limitar aquecimento global a 1,5˚C

GLACIERImagem: Henryk Sadura Getty Images

O lançamento da edição 2020 do relatório Perspectivas Energéticas Mundiais (World Energy Outlook – WEO) da Agência Internacional de Energia (AIE) foi acompanhado de fortes críticas de setores científicos e organizações financeiras. Esses analistas apresentam estudos que apontam vieses nos relatórios da instituição para favorecer o setor de combustíveis fósseis.

Na edição deste ano, a AIE incluiu pela primeira vez um cenário que leva em conta ações para o cumprimento da meta de manter o aquecimento global em 1,5˚C. A medida atende aos pedidos de uma coalizão de investidores, empresários e estudiosos que vêm alertando a organização para essa necessidade há pelo menos 2 anos. O cenário de desenvolvimento sustentável que já existia nos relatórios anteriores previa um caminho para a redução de emissões que só atingiria emissões zero líquidas em 2070, ou seja, 20 anos mais tarde do que preconiza o Acordo de Paris.

Horas antes da divulgação do relatório, foi apresentado um estudo da University of Technology Sydney, na Austrália, mostrando que de 2000 a 2020 a AIE superestimou de modo sustentado o papel dos combustíveis fósseis, da energia nuclear e dos mecanismos de captura e armazenamento de carbono (CCS) no mercado de energia global, ao mesmo tempo em que subestimou o crescimento das energias renováveis.

O otimismo exagerado da agência em relação às tecnologias de CCS, diz o estudo, se deve ao fato de que elas poderiam tornar as fontes fósseis viáveis por mais tempo em um cenário de descarbonização da economia global. Segundo o texto, metas climáticas mais ambiciosas acabaram por reduzir o interesse em medidas de mitigação desse tipo, embora isso não tenha sido observado pelos relatórios da AIE.

Antes disso, a ONG Reclaim Finance já havia publicado uma análise em que aponta armadilhas que impedem que os cenários climáticos sejam alinhados com o Acordo de Paris, colocando as estudos da AIE como fonte fundamental dessas “ciladas”. Segundo a organização, a agência age para manutenção dos investimentos em combustíveis fósseis. Em paralelo, a consultoria de investimentos Analytica Advisors publicou um informe com evidências sobre a influência do relatório anual da AIE nas decisões de investimento das principais companhias de óleo e gás.

O Perspectivas Energéticas Mundiais é produzido anualmente desde 1977 e mapeia as expectativas de oferta e demanda de energia para médio e longo prazos, tendo se tornado uma referência no tema, com influência sobre decisões de governo e de empresas. Criada em 1973 no âmbito da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a AIE expandiu suas atividades para além do foco original, o setor de petróleo e gás, mas seus laços com a indústria fóssil permanecem fortes.

Avanço pequeno

Para o chefe do setor de compras da Unilever, Marc Engel, a nova postura da agência é um passo importante, mas a organização continua criando cenários distorcidos. Tipicamente, o relatório da AIE traz três cenários, que podem mudar de nome ao longo dos anos, mas que ainda podem ser diferenciados entre pessimista (chamado nesta edição de “business as usual”), provável (“Central”) e otimista (“Climático”). Na edição deste ano foi incluído um quarto cenário chamado de “net zero emission” (NZE2050).

Segundo Engel, a AIE deve se comprometer a tornar o novo cenário o “Central” do próximo relatório. “Empresas como a Unilever, assim como investidores e tomadores de decisão política, precisam urgentemente de ferramentas para planejar o sucesso no alcance de nossas metas climáticas. Este não é um momento para meias medidas, e o mundo precisa que a AIE esteja liderando e não seguindo a nova agenda energética global”, afirma.

“Estamos satisfeitos em ver que há um cenário de 1,5˚C no WEO 2020, entretanto, este cenário não está incluído na análise principal e termina em 2030”, lamenta Odd Arild Grefstad, CEO da Storebrand, uma empresa de finanças e seguros norueguesa. “Eu conclamo a AIE a estender o cenário de 1,5˚C para pelo menos 2040 como o resto dos cenários e dar a ele a posição central no WEO de 2021, para que seja visto como necessário e possível de ser implementado.”

A inclusão de um cenário para o mercado de energia que inclui a meta de limitar o aquecimento global a 1,5˚C foi o segundo aceno da AIE para a sustentabilidade este ano. Antes, a agência publicou um relatório especial de Recuperações Sustentáveis pós-COVID e convocou em julho uma Cúpula de Transição Limpa, com ministros de energia de dezenas de países.

“A AIE deu um pequeno passo hoje e isto não teria acontecido se os atores preocupados não tivessem se manifestado e exigido mudanças”, avalia David Tong, ativista sênior da ONG Oil Change International. “Mas a AIE permanece presa em uma crise existencial: servir aos interesses dos combustíveis fósseis em que foi fundada ou se transformar para liderar uma revolução de energia limpa? A AIE e seu chefe, o Dr. Fatih Birol, não podem ter as duas coisas.

Fontes disponíveis para entrevistas:

• Autor do estudo The IEA World Energy Outlook: a critical review 2000-2020: Sven Teske, Research Director at the Institute for Sustainable Futures, University of Technology Sydney: Sven.Teske@uts.edu.au

• Hannah McKinnon, Director, Energy Transitions and Futures Program da ONG Oil Change International: hannah@priceofoil.org