Estréia de Bolsonaro em Davos foi ofuscada pelo crescente escândalo em torno do filho

Flávio Bolsonaro nega que jornal brasileiro afirma ter empregado uma vez a mãe e a esposa de um suposto líder do esquadrão da morte

Jair Bolsonaro diz que vai “abrir” a economia do Brasil em discurso pró-negócios em Davos – vídeo

Por Tom Phillips, correspondente para a América Latina do “The Guardian”

O presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, usou sua estréia internacional para soar a sentença de morte para a esquerda “bolivariana” da América do Sul e proclamar uma nova era conservadora de governança limpa e piedade na região.

Mas sua aparição concisa no Fórum Econômico Mundial na terça-feira foi ofuscada por um escândalo de bola de neve envolvendo um de seus filhos, o recém-eleito senador Flávio Bolsonaro.

Enquanto o presidente – que chegou ao poder prometendo libertar o Brasil da corrupção e da criminalidade – se preparou para subir ao palco em Davos, relatórios em um dos principais jornais brasileiros ligaram seu filho a membros de um grupo de extermínio do Rio de Janeiro chamado Escritório do Crime.

O jornal O Globo afirmou que durante o período de Flávio Bolsonaro como legislador do Rio, ele empregou a mãe e a esposa do suposto líder da gangue, um ex-agente Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Adriano Magalhães da Nóbrega.

Nóbrega, que supostamente está fugindo após a polícia atacar seu grupo com uma operação apelidada de Os Intocáveis“, é acusado de ser um membro sênior do que O Globo chamou de “a mais letal e secreta falange de pistoleiros” do Rio de Janeiro.

A polícia e os promotores  suspeitam que membros do Escritório do Crime estão por trás do assassinato ainda sem solução da vereadora Marielle Franco, da cidade do Rio de Janeiro, no ano passado.

O Globo também afirmou que a suposta esposa e mãe do gângster haviam sido recomendadas a Flávio Bolsonaro por Fabrício Queiroz, um amigo de longa data do presidente brasileiro que foi fotografado socializando com Jair Bolsonaro em uma foto onde os dois homens aparecem sem camisas.

Marcelo Freixo, legislador de esquerda e amigo de Marielle Franco, estava entre os que exigiam respostas nesta terça-feira. “A família Bolsonaro deve as explicações à sociedade”, ele twittou.

Flávio Bolsonaro rejeitou o relatório – que segue um punhado de outras alegações prejudiciais sobre suas transações financeiras – e afirmou que ele era a “vítima de uma campanha de difamação” destinada a ferir seu pai. “Aqueles que cometeram erros devem ser responsabilizados por seus atos”, disse ele em um comunicado.

Celso Rocha de Barros, colunista político do jornal Folha de São Paulo, disse: “A família Bolsonaro deve estar em pânico”.

“É difícil medir as repercussões que isso pode ter … É uma bomba – uma bomba nuclear”, acrescentou Barros.

O crescente escândalo abalou as promessas de Jair Bolsonaro em Davos de encabeçar uma cruzada contra a corrupção e o crime organizado.

Durante um breve discurso de seis minutos na cúpula anual, Bolsonaro disse esperar que o mundo veja seu “novo” Brasil mais limpo com novos olhos depois de um escândalo maciço de corrupção que devastou a elite política do país.

“Assumi o Brasil em meio a uma profunda crise ética, moral e econômica. Estamos comprometidos em mudar nossa história… Queremos governar pelo exemplo ”, declarou Bolsonaro.

O nacionalista de extrema-direita lançou-se como porta-bandeiras da nova vanguarda conservadora da América Latina. “Não queremos uma América bolivariana”, disse ele, em referência ao falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que esperava unir o continente com uma aliança de líderes progressistas.

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Um dos principais jornais do Brasil ligou Flávio Bolsonaro a membros de um grupo de extermínio do Rio de Janeiro chamado Escritório do Crime. Foto: Sergio Moraes / Reuters

Bolsonaro disse ainda que os líderes de direita, como o argentino Mauricio Macri e o chileno Sebastián Piñera, estavam determinados que “a esquerda não prevalecerá nesta região”.

O presidente brasileiro também se pintou como um estadista global em busca de “um mundo de paz, liberdade e democracia”. “Com o slogan: ‘Deus acima de tudo’, acredito que nossas relações [com o mundo] trarão progresso interminável para todos”, declarou Bolsonaro.

Observadores políticos e membros da audiência não se impressionaram com a aparição de Bolsonaro no cenário mundial.

“Ele me assusta … o Brasil é um país grande e merece alguém melhor”, disse o economista Robert Shiller, ganhador do Nobel, ao jornal Valor Econômico.

Outro membro da audiência supostamente reclamou: “[Um] desastre. Eu queria gostar dele, mas ele não disse nada. Por que ele veio?

Bolsonaro pressiona líder venezuelano com promessa de “restabelecer a democracia”

De Barros chamou o discurso curto de Bolsonaro de um “fiasco” genérico que provavelmente havia sido cortado por causa do escândalo que se desenrolava em casa.

Falando na véspera do discurso de Davos de Bolsonaro, José Roberto de Toledo, um jornalista político da revista Piauí, disse que sua popularidade interna permaneceu alta.

“A confiança do consumidor é a maior em anos… o dinheiro vem do exterior. O dólar caiu. O mercado de ações está quebrando recordes … Ninguém pode suportar mais cinco anos de crise. Todo mundo quer apertar o botão de reiniciar.

Mas ele especulou que Bolsonaro pagaria um preço político pelo crescente cheiro de corrupção em torno de seu filho. “Flávio colocou uma espada [de Dâmocles] sobre a cabeça de seu pai que será usada para chantageá-lo, no congresso, nos tribunais, nas redes sociais e na imprensa. Será um peso que ele sempre terá que carregar – e a probabilidade é que esse peso cresça com o tempo ”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!]

Quem está protegendo os assassinos de Marielle?

Por Gustavo Gollo

Os 5 meses de demora nas investigações do assassinato de Marielle atestam que seus ilustríssimos assassinos têm padrinhos poderosíssimos, capazes tanto de dificultar as investigações, quanto de espargir grossas cortinas de fumaça através dos meios de comunicação para acobertá-los. As digníssimas criaturas, os assassinos, têm sido poupadas dos mais mínimos incômodos, enquanto constrangimentos e suspeitas têm sido lançados sobre bois de piranha que obviamente nada têm com o caso.

Articulações recentes, no entanto, sugerem que o controle dos meios de comunicação – nas mãos de padrinhos dos digníssimos assassinos –, não esteja sendo suficiente para barrar as investigações da polícia civil do Rio, ocasionando profundo mal-estar entre os poderosos cúmplices do assassinato.

O nervosismo causado pelos resultados contundentes já obtidos pela silenciosa polícia do Rio gerou, na semana passada, tentativas de desarticular as investigações tirando-as das mãos dos atuais investigadores.

Decorridos 5 meses do crime, a atitude aparentemente desvairada de trocar os responsáveis pelas investigações pode ser compreendida tendo-se em mente tratar-se de tentativa de encobrimento, tanto dos assassinos, quanto da enorme rede de cúmplices – plantados em altas esferas governamentais estaduais, federais e nos meios de comunicação – que lhes tem proporcionado cobertura e conforto durante tão largo tempo.

O endosso do ministério público estadual a essa tentativa oficial de abafamento do caso, assim como as fortes suspeitas – ocultadas pelos meios de comunicação – de que a execução de Marielle Franco tenha sido cometida por policiais, expõem as intensas dificuldades pelas quais os investigadores têm passado e explica a longa demora para a conclusão do caso, enquanto o titular da promotoria que acompanha o caso foi promovido apesar da ausência de resultados após tão longo período,

A movimentação direcionada à interrupção das atuais investigações, agora em fase final, sugerem que a polícia esteja, de fato, averiguando o crime – constatação surpreendente com respeito a ocorrências de natureza similar no Rio de Janeiro.

Com os olhos do mundo mantidos em expectativa sobre os desdobramentos do assassinato, e sob inusitada pressão internacional gerada pelo gigantesco estardalhaço causado pela execução covarde – reiterada por comunicados da ONU, do Papa e de autoridades governamentais do mundo inteiro –, espera-se uma solução do caso, revelando os assassinos e toda a vasta rede de cúmplices que tem garantido o total apoio aos ilustríssimos assassinos.

A bomba gigantesca evidenciará uma longa sucessão de crimes análogos realizados pela vasta quadrilha protegida pela poderosíssima rede de padrinhos, além de inúmeras ramificações com o crime organizado. A pressão internacional proporcionará oportunidade única para que tão vasta e poderosa rede criminosa seja desbaratada.

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Eu havia escrito o texto acima na semana passada. O sábado, no entanto trouxe uma enorme surpresa, prestes a causar, aparentemente, um entrave ainda mais drástico que os anteriores, às investigações.

Ao contrário do que vinha fazendo há 5 meses, quando suas notícias tinham como propósito apenas lançar cortinas de fumaça sobre o caso, com o intuito de confundir o público e encobrir os assassinos, O Globo publicou, no sábado, uma notícia bomba revelando a existência de um grupo conhecido como “Escritório do crime”, formado por policiais e ex-policiais — entre eles um major da ativa e um ex-oficial do Bope — altamente especializados em execuções por encomenda, sem deixar pistas.

Segundo O Globo, a polícia teria tomado conhecimento dessas pistas ao interrogar um integrante do grupo, que chega a cobrar R$ 1 milhão por assassinato, fazendo parecer que o de Marielle tenha sido uma pechincha: R$ 200 mil, embora a quadrilha tivesse pedido mais dinheiro depois da repercussão do caso. O jornal não revela a quem o pedido foi encaminhado.

A revelação bombástica prometia desdobramentos estrondosos, com um alarde retumbante de todos os meios de comunicação do país e do mundo! O estrepitoso silêncio que acompanhou a enigmática expectativa deixou no ar um intenso tom de suspense. Restava esperar a noite de domingo com a cobertura do Fantástico, esmiuçando escabrosas filigranas do hediondo antro de assassinos conhecido como escritório do crime: nada.

Ontem, segunda-feira, no entanto, o G1 repetiu secamente a notícia que, a se crer nas pesquisas do Google, nenhum meio de comunicação do Rio de Janeiro ousou repetir, tendo sido ecoada apenas por publicações menores de paragens distantes, sugerindo que o conluio organizado para acobertar os assassinos engloba toda a grande imprensa nacional, não só a do Rio.

Assim mesmo, no entanto, o fato foi suficiente para, segundo manchete de O Dia, causar uma revoada no ministério público, com a saída de 3 promotores do caso, que se somam a um outro que havia sido promovido quando nas comemorações do quinto mês sem nenhum resultado nas investigações. Hoje cedo esse fato era anunciado como “revoada”;mais tarde passou a ser  uma troca.

Os desdobramentos mais graves, no entanto, parecem estar ocorrendo na esfera federal. A revelação indiscreta do ‘Escritório do crime’ parece ter mobilizado todo o departamento jurídico da ‘Empresa do crime’, enquanto o departamento de comunicação da fabulosa empresa permanece empenhado em instituir silêncio esmagador.

Tudo indica que as mobilizações tenham como propósito impedir que os investigadores desvendem não só o ‘Escritório’, mas toda a ‘Empresa do crime’, com seus monumentais departamentos de imprensa e jurídico.

FONTE: https://jornalggn.com.br/fora-pauta/quem-esta-protegendo-os-assassinos-de-marielle-por-gustavo-gollo#.W325PZWd6Kk.facebook