Esperança

abrigo rs

Por Carlos Silveira, de Ijuí (RS)

Sempre nova. Sempre a mesma. Esperança. Bebendo-se sem ter sede. Agora vivendo há um mês num abrigo depois da crescente que destruiu sua casa. Vinda de uma ilha cercada de soja por todos os lados, sempre soube que um dia a natureza cobraria reintegração de posse. Testemunhou toda a destruição das matas ciliares, a derrubada pioneira e heroica das matas, o aterro das vertentes e banhados, a impermeabilização das rodovias e o assoreamento dos cursos d’água pela erosão, pelo esgoto sanitário não tratado, por todo tipo de detrito depositado nos leitos dos rios.

Viveu todo o ciclo do gaúcho a pé desde menina. Na pequena propriedade de sua infância e adolescência, nunca houve um cavalo. Apenas o cavalo da razão e da persistência, alimentado apenas pro gasto por uma religiãozinha tão somente legitimadora da vidinha cotidiana – solidamente medíocre e feita de inércia e esquecimento. Inviável. Assim como quase tudo em sua vida: a propriedade familiar, a permanência no interior do estado, a fuga para as grandes cidades, o tudo sempre igual de todos os dias na passagem das semanas, meses e anos. A mão invisível do destino guiou-a a esmo num interminável êxodo.

Do subúrbio superpovoado ao trabalho de diarista, sempre se soube inviável. Por isso, sempre repudiou a determinação de se casar e construir um biongo (pequena moradia) no bairro, com marido e filhos. Envelheceu resistindo. Incompreendida. Vista como alguém que muito escolhe até ser o escolhido. Até ser vencida pela velhice e pelo fim. Uma que outra hóstia de sol em namoros fortuitos. Pura ilusão repudiada pela certeza de amores impossíveis. Não era direito apenas repetir(se) no cortiço. Um cadáver a parir novos cadáveres. Daí seu não definitivo a João Romão. Ninguém pode servir a dois senhores.

Assim a vida foi envelhecendo e a confiança em si e num tempo mais justo foi mermando. O mesmo já não era sempre novo. Foi branquejando atrevido até ir diminuindo e, por fim, desaparecendo. Agora o sentimento já vê como impossível a realização do desejo. A expectativa, o aguardo, a confiança foram dando lugar à desconfiança e enfraquecendo o coração. O entardecer chegou cedo e o dia deu em chuvoso. O Senhor mandou chuva para regar a terra e o solo assim ficar mais rico e produzir muito. As águas foram colhendo as lavouras, os animais, as casas, até agora há desaparecidos e soterrados. E não choveu pão dos céus e o povo saiu – e ela também – sem colher sua porção para cada dia nem provar se andava ou não nas leis divinas. Ah, como às vezes Deus se esquece de como sofre a gente pobre!

Dona Esperança saiu com seu cão (que já descobriu estar abrigado com mais 12 mil bichos de estimação), a roupa do corpo e alguns documentos. É a terceira vez, a terceira lâmina, a terceira estocada no coração. Desta vez, talvez não sobre nem o alicerce. A arca veio lotada de cães, gatos e pássaros, mas a maioria foi esquecida. Na hora do salve-se quem puder, poucos lembraram que os bichos são sempre crianças. Um barco foi sua tábua de salvação. Para outros, botes, jet-skis e até helicópteros. As ações, desde os salvamentos às doações, foram, predominantemente, do povo em geral, do povo pelo povo, daqui e de tantas outras querências do país e do mundo, mais alguns administradores a posteriori, na tarefa de reconstrução propriamente dita.

As ações públicas, oficiais, salvo as atuações de algumas forças estaduais, foram bem precárias. Da Presidência da República ao Paço Municipal, passando pelo Governo Estadual, mostraram todos um certo descaso, ineficiência, negligência, salvo nas boas horas dos holofotes. Muita propaganda oficial, inclusive da justiça eleitoral, muito grito e pouca lã. O terreno não era favorável, o clima não era favorável, as aeronaves eram tantas e causavam confusão quase como se fossem inimigas. Fora isso, houve também muitos oportunistas atacando de papagaios de pirata. Gente fingida pra cachorro. É o que é e foi o que foi, salvo raras e honrosas exceções ou salvo melhor juízo.

A única coisa que devemos temer é o próprio medo, era um ditado que repetia. Agora só aguardava o sol e as águas baixarem. Engoliu muito choro e, também, viu a morte sem chorar. Já não sonha nem tem desespero ou esperança. Nem ama por não ser poeta. Nem almeja sucesso sem a superação de práticas carcomidas que seguem dissimulando a história. Por ora, não confia em nada e nem ninguém. Menos ainda em si. Não espera a hora, a onda salvadora, a ocasião. É inviável e não espera mais nada. O exército derrotado de uma mulher só. Mas sem viver o medo nem ao meio. Segue a dizer não. Em caixa e em voz altas. Cabeça, tronco e membros plenamente vazios. Inviável. Pensa sem palavras sobre si mesma. Inviável.

A grandeza e a pequenez humanas vêm de braços e abraços. Entre imaginações de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo, sobrevieram-lhe o espanto e o tremor, e todos os seus ossos estremeceram. Então um espírito passou por diante dela e fez-lhe arrepiar os cabelos da sua carne. Inviável. Vem Deus deslizando entre brumas de mil megatons. Esperança é a última que morre. Ou nunca morre. Quem observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens nunca ceifará. O obscuro do instante se eterniza. Não há rastreadores para os desvios de rotas nem de recursos ou doações. Inviável. Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim tu também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. O Senhor fez o mundo e tudo o que nele há nos céus e na terra, e derrama sobre nossas casas todos os seus mananciais. Esperança inviável. A luz dos olhos alegra o coração e a boa nova fortalece os ossos, mas o Senhor não habita em santuários feitos por mãos humanas.