Enquanto Brasil afronta, EUA vendem soja para a China

As últimas semanas têm sido caracterizadas por uma série de ataques de membros da família Bolsonaro contra a China, percebida como um dos componentes de uma pretensa ameaça comunista ao Brasil [1]. Isto em que pese a China ser atualmente o primeiro parceiro comercial do Brasil, sendo inclusive o principal mercado para a soja, principal commodity da agricultura brasileira.

Pois bem, eis que hoje (13/12), o jornal China Daily publicou uma matéria informando que a China irá realizar uma grande aquisição de soja, só que dos EUA [2].  Esta compra será segundo o China Daily, uma espécie de porta voz extra oficial do governo chinês, uma demonstração de boa vontade da China para com os EUA no processo de retomada de negociações para resolver as pendências comerciais existentes entre os dois países.

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Como se pode verificar de apenas esta única aquisição que beira o valor de US$ 180 milhões, o governo Trump pode até arreganhar os dentes para a China, mas não tem como desprezar o potencial de consumo do mercado chinês. E aí o que conta é a necessidade de vender produtos, e a ideologia que se dane.

A coisa é que a geopolítica da trocas capitalistas não tem mais (se algum dia já teve) espaço para amadores. E seria bom que o governo Bolsonaro entendesse isso logo na relação com a China. Do contrário, quem vai acabar sendo isolado do mercado chinês de soja será o Brasil. Aí eu gostaria de ver o que diriam os latifundiários que ajudaram a eleger Jair Bolsonaro.


[1] https://www.brasil247.com/pt/247/poder/376943/Chanceler-informal-Eduardo-Bolsonaro-amea%C3%A7a-rela%C3%A7%C3%A3o-Brasil-China.htm

[2] http://www.chinadaily.com.cn/a/201812/13/WS5c127dbaa310eff303290e56.html

Jair Bolsonaro presta continência a John Bolton. O que fará quando encontrar com o chefe dele na Casa Branca?

O jornal “Folha de São Paulo” publicou uma matéria hoje sobre a visita do assessor da Casa Branca, John Bolton, à residência do presidente eleito do Brasil, dando conta que antes da conversa começar, Jair Bolsonaro teria prestado continência à John Bolton [1].

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Como John Bolton é apenas um assessor, dentre muitos, de Donald Trump, eu fico imaginando qual reverência Bolsonaro irá prestar a Donald Trump numa eventual visita à Casa Branca.

Para o pessoal que dizia que a bandeira do Brasil nunca será vermelha, a informação dessa continência implica que sob o governo de Bolsonaro, poderemos ver a nossa bandeira voltar a ser parecida com a bandeira que vigiu entre 15 e 19 de Novembro de 1989 (ver abaixo), apenas se trocando o verde e amarelo pelo vermelho, azul e branco.

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E como conheço um pouco os estadunidenses, Bolton deve ter feito muitas piadas desse gesto ao narrar o encontro para seus superiores.  É que pode se dizer que se quiser dos republicanos, mas eles possuem senso de humor.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/11/bolsonaro-se-encontra-com-assessor-de-trump-no-rio.shtml

Brasil tem dois chanceleres, que somados não dão um

Mas que juntos causam estragos mesmo antes do governo Bolsonaro ter começado!

O giro do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) está servindo para que ele se posicione como um chanceler de fato (ainda que o nome indicado pelo pai para o posto seja o embaixador, cético quanto às mudanças climáticas, Ernesto Fraga).

Em seu giro por Washigton D.C., Eduardo Bolsonaro já confirmou a mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, alinhou o Brasil às políticas anti Irã, e ainda se prestou a ser uma espécie de menino propaganda da campanha de reeleição de Donald Trump em 2020 (ver imagem abaixo).

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Em minha experiência de vida no território estadunidense que incluiu contratos como consultor do Painel de Inspeção do Banco Mundial, eu aprendi algo sobre os estadunidenses que deveria ser simples. Os dirigentes daquele país não possuem muito respeito em quem não lhes mete muito medo.  Aliás, quanto mais subalternizado e deslumbrado for o visitante, menos respeito eles terão por ele. 

E o pior é que com essa tendência à tagarelice incontrolável, o deputado federal Eduardo Bolsonaro está prestando um grande desserviço aos interesses econômicos nacionais que têm nos países árabes um dos nossos principais mercados. E o pior é que em diversas commodities (como a soja e o milho), o Brasil e os EUA competem pelos mesmos mercados. Em outras palavras, toda essa submissão aos interesses dos EUA só trarão prejuízos econômicos e políticos ao Brasil.

Por fim, há que se lembrar que a posição pragmática do Brasil nas relações internacionais tem nos poupado, por exemplo, de sofrermos ataques terroristas como os que ocorrerão na França, na Inglaterra, e nos próprios EUA.  Mas agora, com esses dois chanceleres que somados não dão um,  podemos estar entrando numa nova era, só que de ataques terroristas protagonizados por militantes islâmicos que verão na transferência de nossa embaixada para Jerusalém um motivo justo para que o Brasil se torne um alvo de suas ações.

 

O relatório climático dos EUA sinaliza tempos difíceis para o chanceler que nega as mudanças climáticas

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A mídia internacional está dando amplo espaço ao relatório liberado na última 6a. feira pela comunidade científica estadunidense [1] dando conta das consequências drásticas que as mudanças climáticas terão sobre os EUA [2,3,4 e 5].

Essa repercussão é esperada, pois o chamado “National Climate Assessment” traz previsões gravíssimas para o funcionamento da economia e para os habitantes dos EUA, ainda principal motor da economia mundial.  Além disso, como o grupo de cientistas envolvidos na produção do relatório reúne alguns dos principais experts mundiais em cada uma das áreas analisadas como sendo impactadas pelas mudanças climáticas, o peso do que está sendo previsto ganha quase o selo de uma chancela oficial da comunidade científica mundial ao que está lá posto.

Como o presidente Donald Trump irá responder ao relatório não chega a ser importante, pois ele certamente continuará com sua postura negacionista em relação às mudanças climáticas. Importante será a resposta de governos estaduais e municipais por todos os EUA que deverão aumentar as pressões pela adoção de formas de funcionamento da economia que reduzam as emissões dos gases poluentes e consumam menos água, um bem comum que estará gravemente ameaçado pelas mudanças climáticas que se confirmam a cada furacão que passa pelo território estadunidense.

 No caso do Brasil, onde o presidente eleito nomeou um ministro das relações exteriores que afirma que as mudanças climáticas são uma trama de comunistas, a reação da mídia corporativa foi a mais fria possível, e o relatório acabou sendo apresentado em matérias secundárias. Isto, contudo, não impedirá que as políticas de liberação do desmatamento e do uso intensivo de agrotóxicos (que entre outras coisas aumentará a contaminação das águas) sejam analisadas com lupa pelo resto do mundo. É que se os estadunidenses estão prevendo consequências drásticas decorrentes das mudanças climáticas, não será um chanceler negacionista que irá representar os interesses nacionais numa comunidade internacional cada vez mais pressionada pelas evidências científicas de que o clima da Terra está sendo modificado pelo funcionamento da economia.

Com isso, as políticas do “libera geral” do futuro governo federal estão em xeque mesmo antes de serem oficialmente iniciadas.  E, pior, com um chanceler que parece disposto a remar contra a maré das evidências cientificas. Isto, meus caros, não tem como dar certo.


[1] https://blogdopedlowski.com/2018/11/24/por-que-um-grave-aviso-climatico-foi-enterrado-numa-black-friday/

[2] https://www.nytimes.com/2018/11/23/climate/us-climate-report.html?action=click&module=Top%20Stories&pgtype=Homepage

[3] https://www.theguardian.com/environment/2018/nov/23/climate-change-america-us-government-report

[4] https://www.lemonde.fr/planete/article/2017/08/28/le-rechauffement-climatique-rend-l-est-des-etats-unis-extremement-vulnerable_5177466_3244.html

[5] https://www.tagesspiegel.de/politik/bericht-des-national-climate-assessment-us-behoerden-warnen-vor-schweren-schaeden-durch-klimawandel/23676748.html

Por que um grave aviso climático foi enterrado em uma Black Friday?

Em um novo relatório massivo, cientistas federais contradizem o presidente Trump e afirmam que a mudança climática é um perigo crescente para os Estados Unidos. Pena que saiu em um feriado.

Firefighters battling the King Fire watch as a backfire burns along Highway 50 in Fresh Pond

Bombeiros lutam contra o King Fire perto de Fresh Pond, Califórnia, em setembro de 2014. NOAH BERGER / REUTERS

Por Robinson Meyer para o “The Atlantic” [1]

Na Black Friday, o dia de compras mais movimentado do ano, o governo federal dos EUA publicou um enorme e terrível relatório sobre as mudanças climáticas. O relatório alerta, repetida e diretamente, que a mudança climática poderá em breve colocar em perigo o modo de vida americano, transformando todas as regiões do país, impondo custos frustrantes à economia e prejudicando a saúde de praticamente todos os cidadãos.

Mais significativamente, a Avaliação Nacional do Clima – que é endossada pela NASA, NOAA, pelo Departamento de Defesa e por outras 10 agências científicas federais – contradiz quase todas as posições tomadas sobre o assunto pelo presidente Donald Trump. Enquanto o presidente insiste que o combate ao aquecimento global prejudicará a economia, o relatório responde: As mudanças climáticas, se não forem controladas, podem custar à economia centenas de bilhões de dólares por ano e matar milhares de americanos. Onde o presidente disse que o clima “provavelmente” “mudará de volta”, o relatório responde: muitas conseqüências da mudança climática durarão milênios, e algumas (como a extinção de espécies vegetais e animais) serão permanentes. 

O relatório é uma grande conquista para a ciência americana. Representa décadas cumulativas de trabalho de mais de 300 autores. Desde 2015, cientistas de todo o governo, universidades estaduais e empresas dos Estados Unidos leram milhares de estudos, resumindo e agrupando-os neste documento. Por lei, uma Avaliação Nacional do Clima como essa deve ser publicada a cada quatro anos.

Pode parecer engraçado despejar um relatório sobre o público na Black Friday, quando a maioria dos americanos se preocupa mais com a recuperação do jantar de Ação de Graças do que com a adaptação às graves conclusões da ciência do clima.

De fato, quem mandou o relatório ser liberado hoje? É uma boa pergunta sem resposta óbvia.

O relatório é contundente: a mudança climática está acontecendo agora, e os seres humanos estão causando isso. “O clima da Terra está mudando mais rápido do que em qualquer outro momento da história da civilização moderna, principalmente como resultado das atividades humanas”, declara sua primeira sentença. “A suposição de que as condições climáticas atuais e futuras se assemelham ao passado recente não é mais válida”.

Nesse ponto, tal ideia pode ser uma sabedoria comum – mas isso não torna menos chocante ou menos correto. Durante séculos, os seres humanos viveram perto do oceano, assumindo que o mar muitas vezes não se moverá de sua localização fixa. Eles plantaram trigo na época e milho na época, supondo que a colheita não fracasse com frequência. Eles se deliciaram com a neve de dezembro e aguardavam ansiosamente as flores da primavera, supondo que as estações não mudariam de curso.

Agora, o mar está subindo acima de sua costa, a colheita está fracassando, e as estações chegam e partem em desordem.

O relato conta essa história, colocando um fato simples em fatos simples para construir um terrível edifício. Desde 1901, os Estados Unidos aqueceram 1oC . As ondas de calor agora chegam ao início do ano e diminuem mais tarde do que na década de 1960. A neve nas montanhas da costa Oeste encolheu dramaticamente no último meio século. Dezesseis dos 17 anos mais quentes registrados ocorreram desde 2000.

Essa tendência “só pode ser explicada pelos efeitos que as atividades humanas, especialmente as emissões de gases de efeito estufa, tiveram sobre o clima”, diz o relatório. Ele adverte que, se os humanos quiserem evitar 2oC de aquecimento, eles devem reduzir drasticamente esse tipo de poluição até 2040. Por outro lado, se as emissões de gases de efeito estufa continuarem aumentando, a Terra poderia aquecer até 5oC até 2100

“Isso nos mostra que a mudança climática não é uma questão distante. Não é sobre plantas, animais ou uma geração futura. É sobre nós, vivendo agora”, diz Katharine Hayhoe, autora do relatório e cientista da Universidade de Tecnologia do Texas.

O relatório visita cada região dos EUA, descrevendo as turbulências locais provocadas por uma transformação global. Do outro lado do sudeste, incêndios florestais maciços – como os vistos agora na Califórnia – podem em breve se tornar uma ocorrência comum, sufocando Atlanta e outras cidades em poluição tóxica, adverte. Na Nova Inglaterra e no meio do Atlântico, as ilhas-barreira à beira-mar podem sofrer erosão e estreitamento. E no Centro-Oeste, prevê a queda dos rendimentos de milho, soja, trigo e arroz.

As projeções sobre o aumento do nível do mar são igualmente sinistras. Se a poluição por carbono continuar a aumentar, uma enorme faixa da costa do Atlântico – da Carolina do Norte até o Maine – terá uma elevação de 1,5 metro no nível do mar até 2100. Nova Orleans, Houston e a Costa do Golfo também podem enfrentar um aumento de um metro. Até Los Angeles e San Francisco puderam ver o Oceano Pacífico subir por um metro. Mesmo que a humanidade reduzisse a queima de combustíveis fósseis, o relatório prevê que Nova Orleans ainda pode ver um aumento de um metro e meio no nível do mar até 2100.

Andrew Light, outro autor do relatório e membro sênior do World Resources Institute, disse que, embora o relatório não possa fazer recomendações de políticas, pode ser lido como um endosso do Acordo de Paris sobre mudança climática.

“Se os Estados Unidos tentassem atingir as metas do Acordo de Paris, então as coisas seriam ruins, mas podemos administrar”, disse ele. “Mas se não os encontrarmos, estamos falando de centenas de milhares de vidas todos os anos que correm risco por causa da mudança climática. E centenas de bilhões de dólares.

Se você acha que a sexta-feira após o Dia de Ação de Graças parece um dia estranho para publicar um relatório tão importante, você está certo. A avaliação foi originalmente programada para ser divulgada em dezembro em uma grande conferência científica em Washington, DC. Mas no início desta semana, as autoridades anunciaram que o relatório sairia duas semanas antes, na tarde da Black Friday. Quando notícias politicamente inconvenientes são publicadas nas últimas horas de uma semana de trabalho, os políticos chamam isso de “despejo de notícias de sexta-feira”. Publicar um terrível relatório climático nas últimas horas da Black Friday pode ser o maior despejo de notícias de uma sexta-feira na história . 

Então, quem mandou que se se fizesse o despejo? Durante uma conferência de imprensa na sexta-feira, os responsáveis pelo relatório dentro do governo repetidamente se recusaram a dizer. “É mais cedo do que o esperado”, disse Monica Allen, porta-voz da NOAA. “Este relatório não foi alterado ou revisado de forma alguma para refletir considerações políticas.”

No entanto, a mudança no agendamento surpreendeu os autores do relatório. John Bruno, autor do relatório e biólogo de corais da Universidade da Carolina do Norte, disse-me que só soube na última sexta-feira que o relatório seria divulgado hoje. “Não houve explicação ou justificativa”, disse ele. “A liderança [da avaliação] implicou que o momento estava sendo ditado por outra entidade, mas não disse quem era”.

Hayhoe me disse que só soube na terça-feira que o relatório seria divulgado na sexta-feira. Na época, ela estava preparando três tortas para uma família no Dia de Ação de Graças. Ela colocou as tortas de lado e pegou seu laptop para enviar as revisões finais do documento.

A Casa Branca não respondeu diretamente quando perguntou quem tinha ordenado tal mudança. Ele também não respondeu diretamente quando perguntado se o relatório levaria o presidente Trump a reconsiderar suas crenças.

Mas uma porta-voz da Casa Branca enviou-me uma longa declaração dizendo que “os Estados Unidos lideram o mundo fornecendo energia acessível, abundante e segura para nossos cidadãos, enquanto também lidera o mundo na redução das emissões de dióxido de carbono”. É verdade se você começar a contar em 2005, quando as emissões dos EUA atingirem o pico.) A porta-voz disse que a nova avaliação foi baseada no “cenário mais extremo” e prometeu que qualquer relatório futuro teria um “processo mais transparente e orientado por dados”.

Não que Hayhoe tivesse grandes expectativas sobre a reação do presidente Trump ao relatório. “Não era a esperança que o governo federal olharia para isso e diria: ‘Oh meu Deus! Eu vejo a luz”, ela me disse.

Em vez disso, ela disse que esperava que o relatório informasse ao público: “Esta informação não é apenas para o governo federal. Essa é uma informação que toda cidade precisa, cada estado precisa, cada vez mais, todas as necessidades de negócios e cada proprietário precisa. Esta é uma informação que todo ser humano precisa. “Não é que nos importamos com um aumento de 1 grau na temperatura global no abstrato”, disse ela. “Nós nos preocupamos com a água, nos preocupamos com a comida, nos preocupamos com a economia – e cada uma dessas coisas está sendo afetada pela mudança climática hoje.”


Artigo publicado originalmente em inglês [1]

Troubles in paradise: EUA vivem epidemia de ataques em locais de trabalho

Para quem acha que a forma de organizar a vida dos trabalhadores e seus salários vigente nos EUA é o modelo a ser adotado no Brasil deveria ficar atento ao fato que apenas nesta última semana ocorreram, pelo menos, cinco incidentes envolvendo assassinatos e ferimentos graves realizados por pessoas nos seus locais de trabalho ou em estabelecimentos públicos.

O último incidente ocorreu em uma creche na cidade de Nova York onde dois pais e três bebês foram esfaqueados por uma funcionária do estabelecimento [1].  Mas ainda ontem (20/09), uma empregada da rede de farmácias Rite Aid matou três colegas de trabalho usando uma pistola Glock 9mm, antes de tirar a própria vida num centro de distribuição localizado na cidade de Aberdeen, condado de Hartford no estado de Maryland [2].

O ataque em Aberdeen, a pouco menos de 50 km a nordeste de Baltimore, seguiu dois tiroteios no local de trabalho que ocorreram na quarta-feira (19/09). Um homem abriu fogo contra a empresa de software onde trabalhava em Middleton, Wisconsin, ferindo várias pessoas antes de ser morto pela polícia [3]. Mais tarde naquele mesmo dia, outro homem entrou em um prédio municipal ao sul de Pittsburgh e atirou em quatro pessoas antes de se matar [4].

O fato é que a ampla desregulamentação dos direitos dos trabalhadores e a imposição de fortes cargas de trabalho com baixa remuneração estão gerando uma epidemia deste tipo de incidente em todo os estados que compõe os EUA .  Um dos elementos que certamente agravam isso é o fácil acesso a todo tipo de armamento de forma legal, inclusive rifles de assalto.

Imaginemos o que pode acontecer no Brasil se o próximo presidente da república for um defensor das medidas ultraneoliberais e do fácil acesso à armas como ocorre nos EUA.  Com toda certeza, deveremos assistir a muitos casos semelhantes aos que hoje ocorrerem na Meca do capitalismo desregulado.

 


[1] https://www.news.com.au/world/north-america/babies-stabbed-by-crazed-knife-attacker-in-new-york-city/news-story/7465693482e41e34b3e03ebf8eb14a2e

[2] https://www.nytimes.com/2018/09/20/us/maryland-shooting-aberdeen.html

[3] https://apnews.com/fa51a13022b348e680c89e0a0b0b7ed3

[4] https://www.nytimes.com/2018/09/19/us/masontown-shooting-judges-office.html

Estudantes cronicamente endividados e instituições de ensino lavando as mãos. Essa é a realidade dos EUA

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De tempos em tempos ouvimos no Brasil a proposição de que não devemos seguir exemplos como o da Alemanha onde o acesso às universidades públicas é totalmente gratuito até para estrangeiros. Segundo os defensores das políticas ultraneoliberais emanadas do Consenso de Washington, o exemplo a ser seguido é o das universidades dos EUA, onde para se estudar há que se ter dinheiro para pagar ou, ainda, disposição de tomar empréstimos do crédito educativo.

Pois bem, quem anda se encantando do discurso pró-modelo estadunidense de financiamento das universidades deveria ler o artigo abaixo escrito por Ben Miller, diretor sênior para educação pós-secundária do Center for American Progress, onde apresenta a grave situação criada pela incapacidade dos estudantes estadunidenses de pagar as dívidas do crédito educativo. De quebra, ele mostra como as instituições que se beneficiaram de verbas federais para induzirem seus estudantes a se endividar têm feito quase nada para impedir para que isso aconteça.

O resultado disso é que apenas entre os estudantes que começaram a pagar os seus créditos educativos a partir de 2012, as dívidas somavam US$ 23 bilhões e a inadimplência em torno de US$ 9 bilhões.

Será que é este modelo que queremos mesmo para o Brasil? Afinal de contas, ultraneoliberalismo que se preza tem que ser para todos, e não apenas para os pobres e remediados que teimam em negar seu destino de classe e lutar para acessar o ensino superior.

O problema da dívida estudantil é pior do que imaginávamos

Por Ben Miller para o “The New York Times” [1]

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Milhões de estudantes estadunidenses chegarão aos campi universitários em breve, e eles compartilharão um fardo semelhante: a dívida causada pelas taxas escolares. O típico estudante tomador de empréstimos vai tirar US $ 6.600,00 em um único ano, com uma média de US$ 22.000,00 em dívidas no ano de graduação, de acordo com o Centro Nacional de Estatísticas da Educação.

Há duas maneiras de avaliar se os tomadores podem pagar esses empréstimos: o que o governo federal considera e, depois, a história real mostra. Este última está vindo à luz e não é bonita.

Considere as estatísticas oficiais: dos ex-estudantes que começaram a pagar suas dívidas em 2012, pouco mais de 10% haviam entrado em default três anos depois. Isso não é tão ruim – mas não é toda a história. Os dados federais nunca divulgados anteriormente mostram que a taxa de inadimplência continuou subindo para 16% nos próximos dois anos, depois que o rastreamento oficial terminou, significando que mais de 841.000 antigos estudantes estavam inadimplentes com o crédito educativo. Quase todos estavam gravemente inadimplentes ou não estavam pagando seus empréstimos (e por outras razões voltando para a escola ou para o serviço militar). A proporção de estudantes que enfrentam sérias dificuldades para pagar suas dívidas aumentou para 30%  no total.

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Coletivamente, esses ex-estudantes que começaram a pagar suas dívidas em 2012 (e tomadores de empréstimos do crédito educativo) deviam mais de US$ 23 bilhões, incluindo mais de US$ 9 bilhões em inadimplência.

Nacionalmente, esses são resultados de nível de crise, e eles revelam quantas faculdades estão se beneficiando de bilhões em ajuda financeira do governo federal, enquanto os seus estudantes ficam com dívidas que não podem pagar. O Departamento de Educação forneceu recentemente novos dados sobre mais de 5.000 escolas em todo o país, em resposta ao meu pedido de Lei de Liberdade de Informação.

Os novos dados deixam claro que o governo federal ignora os primeiros sinais de alerta, concentrando-se apenas nas taxas de inadimplência nos primeiros três anos de pagamento. Esse é o período de tempo que o Congresso exige que o Departamento de Educação use para calcular taxas de inadimplência.

Naquele período, cerca de um quarto do cohort – ou cerca de 1,3 milhão de ex-estudantes- não estavam em default, mas estavam severamente inadimplentes ou não pagavam seus empréstimos. Dois anos depois, muitos desses mutuários ainda não estavam pagando ou haviam entrado em default.  O fato é que quase 280.000 tomadores de empréstimos entraram em default entre os anos três e cinco.

As leis federais que tentam manter as escolas responsáveis pelo uso que fazem das verbas federais, ​​não estão fazendo o suficiente para impedir os problemas causados pelos empréstimos. A lei exige que todas as faculdades participem do programa de empréstimos estudantis e ajam para que sua parcela de tomadores de empréstimo  fiquem abaixo de 30% por três anos consecutivos ou 40% em um único ano. Podemos considerar que qualquer valor acima de 30% seja uma taxa de inadimplência “alta”. E essa é uma barra baixa.

Entre o grupo que começou a pagar em 2012, apenas 93 das faculdades tinham altas taxas de inadimplência após três anos e 15 estavam em risco imediato de perder o acesso à ajuda. Dois anos depois, depois que o Departamento de Educação parou de rastrear os resultados, 636 escolas tiveram altos índices de inadimplência.

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Instituições com fins lucrativos têm resultados particularmente terríveis. Cinco anos após iniciar o pagamento das suas dívidas, 44% dos tomadores de empréstimo dessas escolas enfrentaram algum tipo de problema, incluindo 25% que não pagaram. A maioria dos estudantes que falharam no pagamento entre três e cinco anos participaram da faculdade com fins lucrativos.

O segredo para evitar assumir a suas responsabilidades? As faculdades estão pressionando agressivamente os tomadores de empréstimos a usarem opções de pagamento conhecidas como adiamento ou tolerância, que permitem aos tomadores de empréstimo interromper seus pagamentos sem entrar em delinqüência ou inadimplentes. Quase 20% dos tomadores de empréstimos em escolas que apresentavam altas taxas de inadimplência no quinto ano, mas não no terceiro ano, utilizavam uma dessas opções de suspensão de pagamento.

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O governo federal não pode continuar ignorando este problema, enquanto quase um terço dos tomadores de empréstimo estudantil luta contra as suas dívidas. Felizmente, os esforços para reescrever as leis federais de ensino superior apresentaram uma oportunidade para abordar essas deficiências. Isso deve incluir a perda da ajuda federal se os mutuários não estiverem pagando seus empréstimos – mesmo que eles não estejam inadimplentes. O desempenho do empréstimo também deve ser rastreado por pelo menos cinco anos, em vez de três.

* Ben Miller é o  é o diretor sênior para educação pós-secundária do Center for American Progress. 


[1] Este artigo foi originalmente publicado em inglês [Aqui!]