Democratas definem projeto para zerar emissões dos EUA até 2050

Pesquisas de opinião sinalizam amplo apoio popular a políticas ambientais ambiciosas

Power Sector Transformation

O Partido Democrata dos EUA divulgou hoje (30/06) um plano de como o Congresso poderia colocar o país no caminho das emissões líquidas zero até 2050 . O relatório do Comitê Seleto da Câmara para a Crise Climática recomenda um conjunto de políticas climáticas ambiciosas. Ao mesmo tempo, uma nova pesquisa de opinião mostra que os americanos apoiam a busca por uma economia 100% limpa até 2050 e acreditam que isso terá impacto positivo no emprego e no crescimento econômico.

climate report

O Plano de Ação para Crise Climática, como foi batizado, inclui recomendações de políticas como:

  • Promulgação de um padrão de energia limpa para atingir emissões líquidas zero no setor de eletricidade até 2040;
  • Alcançar 100% de vendas de carros com emissões zero até 2035 e caminhões pesados ​​até 2040;
  • Tornar todas as novas construções residenciais e comerciais livres de emissões até 2030;
  • Precificar o carbono;
  • Investir em agricultura inteligente em termos climáticos, em pesquisas para remoção de carbono e em inovação para armazenamento de energia;
  • Colocar a justiça ambiental no centro da política federal de clima e meio ambiente.

Uma modelagem feita pela Energy Innovation conclui que a implementação dessas recomendações reduziria as emissões líquidas de gases de efeito estufa dos EUA em pelo menos 39% abaixo dos níveis de 2010 em 2030 e 88% abaixo dos níveis de 2010 em 2050 – incluindo a retirada de carbono para atingir zero emissões líquidas até 2050.

Se 2005 for usado como ano base (como está na Intended Nationally Determined Contributions — INDC — dos EUA), a Energy Innovation indica que essas políticas reduziriam as emissões líquidas nos EUA em 40% abaixo dos níveis de 2005 até 2030 e 86% abaixo dos níveis de 2005 até 2050. É importante observar que esta agenda legislativa não representa reduções adicionais de emissões que poderiam ser alcançadas com a ação presidencial executiva em um próximo governo ou ação subnacional dos EUA, que dá sinais de rápido crescimento

Apoio popular

Pesquisas de opinião divulgadas em 26 de junho mostram que, de maneira geral, os eleitores americanos apoiam a construção de um futuro de energia limpa. A pesquisa do Climate Nexus, do Programa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas de Yale e do Centro de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade George Mason mostra que:

  • 71% dos americanos apoiam alcançar uma economia 100% limpa até 2050;
  • Os eleitores acreditam que essa transição terá um impacto positivo no emprego e no crescimento econômico;
  • Aproximadamente dois terços dos eleitores apoiam a proteção das comunidades de cor dos impactos climáticos (67%), um imposto sobre o carbono (65%) e exigem que os serviços públicos gerem 100% de eletricidade a partir de fontes limpas até 2040 (65%);
  • Quase três quartos (73%) apoiam padrões mais elevados de eficiência de combustível para carros e caminhões;
  • Eleitores apoiam o financiamento de energia limpa sobre combustíveis fósseis em respostas a estímulos pandêmicos;
  • Candidatos democratas têm vantagem nas disputas do Congresso e da Presidência em novembro.

O Dr. Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas de Yale, destaca que:

“Os americanos preferem que o financiamento de estímulo vá para a indústria de energia renovável, em vez da indústria de combustíveis fósseis. No geral, os eleitores apoiam o uso da recuperação para combater as mudanças climáticas e construir um futuro de energia limpa”.

O Dr. Edward Maibach, diretor do Centro de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade George Mason, ressalta que:

“O público está ansioso para ver seus representantes eleitos agirem contra as mudanças climáticas. Políticas específicas e agressivas para reduzir a poluição e proteger contra impactos climáticos têm amplo apoio”.

Apesar dos esforços de Trump para interromper a ação climática e “trazer de volta o carvão”, a preocupação pública com as mudanças climáticas e o setor de energia limpa continuam crescendo. Em 2019, respondendo à crescente preocupação do público com as mudanças climáticas , a Câmara dos Deputados criou um comitê para entregar recomendações ambiciosas de políticas climáticas ao Congresso. Líderes de cidades, estados, negócios e tecnologia fizeram progressos significativos nos últimos quatro anos para implementar políticas climáticas em menor escala e viabilizar uma economia de energia limpa.

Em 2019, o consumo de energia dos EUA a partir de fontes renováveis ​​ultrapassou o consumo de carvão pela primeira vez em 130 anos. Nos últimos cinco anos, o emprego no setor de energia limpa cresceu 70% mais rápido que a economia em geral. E as energias eólica e solar são agora tão acessíveis que os EUA podem escalar até 90% da geração de eletricidade renovável até 2035 sem nenhum custo adicional.

Informações adicionais sobre a pesquisa

72% dos eleitores dizem que é importante que o Congresso lide com as mudanças climáticas, incluindo 44% que acreditam que é muito importante que o Congresso faça isso. 71% dos eleitores apoiam a legislação para alcançar uma economia 100% limpa, eliminando as emissões de combustíveis fósseis dos setores de transporte, eletricidade, edifícios, indústria e agricultura nos Estados Unidos até 2050. Os eleitores acreditam essa transição terá um impacto positivo (58%) e não negativo (26%) no emprego e no crescimento econômico.

Existe amplo apoio para uma variedade de investimentos em transporte limpo, incluindo veículos elétricos e expansão do acesso ao transporte. Quase três quartos (73%) apoiam a definição de padrões mais fortes de eficiência de combustível para carros, caminhões e SUVs, quase o mesmo percentual de quem apoia o investimento federal para expandir o transporte público (72%) e substituir os ônibus movidos a gás e diesel por ônibus elétricos (69%). Ao americanos apoiam o investimento federal para construir infraestrutura de cobrança de veículos elétricos (65%) e investir na fabricação de veículos elétricas e de peças (62%).

Os eleitores também são fortemente a favor do investimento público para modernizar a rede elétrica e incentivar a eficiência energética do consumidor. Mais de três quartos apoiam o financiamento federal para atualizar a rede elétrica e expandir a produção de energia renovável (78%), ajudar os governos estaduais e locais a melhorar a eficiência energética de edifícios novos e existentes (78%) e instalar painéis solares para reduzir contas de luz em comunidades de baixa renda (77%). Há também um forte apoio a créditos tributários e outros incentivos para os indivíduos melhorarem a eficiência energética de suas casas (84%); para que proprietários e empresas comprem aparelhos que não usam combustíveis fósseis (74%); e para as empresas produzam sistemas de armazenamento de baterias para energia renovável (73%).

Quase três quartos (73%) apoiam o aumento do financiamento federal para proteger comunidades vulneráveis ​​de baixa renda e comunidades de cor contra perigos ambientais imediatos e condições climáticas extremas. E cerca de dois terços (66%) apoiam a criação de um Banco Nacional do Clima para financiar projetos do setor público e privado para reduzir a poluição de carbono e preparar as comunidades para resistir aos efeitos das mudanças climáticas.

Alguns meses antes das eleições gerais de novembro, os candidatos democratas têm vantagem nas disputas do Congresso e da Presidência. Quase metade (48%) dos eleitores dizem que se a eleição para o Congresso em seu distrito fosse realizada hoje, eles votariam no partido Democrata, enquanto 42% votariam no Republicano e 11% votariam em nenhum candidato ou em outro candidato. E quando perguntados como votariam se a eleição para presidente fosse realizada hoje, Joe Biden (48%) desfruta de uma vantagem de sete pontos sobre Donald Trump (41%).

OUTRAS INFORMAÇÕES

O press release oficial sobre o plano pode ser encontrado aqui .

O relatório completo da pesquisa está aqui .

A estranha fuga de Abraham Weintraub para a Terra do Uncle Sam

weintraub eua

Abraham Weintraub vai para os EUA e deixa para trás um rastro de questões estranhas para serem respondidas pelo governo Bolsonaro

Quando se pensa que as estranhezas que marcam o governo Bolsonaro já chegaram a um limite, a realidade vem mostrar que o buraco sempre pode ser mais fundo. O fato da vez é a escapada protagonizada pelo ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, que rumou para os EUA na velocidade daqueles que estão indo levar os filhos na Dysnelândia.  No caso de Weintraub, até agora não ficaram claras as circunstâncias pelas quais eles conseguiu entregar nos EUA, onde a entrada de brasileiros comuns está proibida pelo governo Trump.

A coisa é tão rocambolesca que o próprio Weintraub teve que confirmar via a rede social Twitter, já na gloriosa Miami, que tinha conseguido se escafeder do Brasil (ver imagem abaixo).

weintraub 1

Outra esquisitice dessa escapada é que a publicação da exoneração de Weintraub só se deu via uma edição extraordinária do Diário Oficial da União que foi publicada neste sábado, quando supostamente Abraham Weintraub já se encontrava em território estadunidense (ver imagem abaixo).

weitraub 2

Essa sincronia entre chegada nos EUA e demissão do cargo de ministro da Educação tem levado a muitos analistas a concluir que Weintraub entrou pelos portões da imigração em Miami de posse de um passaporte diplomático que foi tornado inválido por sua exoneração quando ele ainda estava no ar.

Mas, convenhamos, toda essa velocidade em sair do Brasil não é explicada apenas pelo que já se sabe de todas as pataquadas em que Abraham Weintraub esteve publicamente envolvido enquanto esteve ministro da Educação.  A verdade é que a ruindade da gestão no Ministério da Educação pode ser até um crime contra o futuro do Brasil, mas isto não está necessariamente tipificado no Código Penal. Sair assim no Brasil, meio que levando apenas as roupas do corpo, é sinal de que algo mais grave ainda está por vir a público, restando agora saber do que é.

Como vivi quase 7 anos nos EUA e tive dezenas de encontros com agentes da imigração, tenho quase certeza que Abraham Weintraub não entrou lá sem a devida proteção do governo Bolsonaro, a começar pela posse de algum documento oficial explicando o porquê do ex-ministro estar chegando lá neste momento, e quanto tempo a estadia deverá durar. Além disso, como ninguém chega nos EUA sem ter que explicar para onde está se dirigindo, há a grande possibilidade de que Weintraub não saiu do Brasil sem eira nem beira. Me ocorre ainda a lembrança de que dada a atual restrição para a entrada de brasileiros nos EUA, Weintraub não teria entrado sem algum tipo de visto daqueles que se concede apenas para “pessoas especiais”, o que implica em algum tipo de colaboração da embaixada estadunidense em Brasília.

Todas essas questões tornam a fuga de Weintraub ainda mais estranha e cercada de mistérios. Agora nos resta esperar o que será revelado nos próximos dias. Entretanto, apoiada ou não, essa fuga adiciona pitadas graves de crise a um governo que já está com uma cota bastante alta de imbróglios para resolver.

Enquanto isso Weintraub poderá, digamos, curtir a vida na terra do Tio Sam, como se não houvesse amanhã, que, aliás, talvez seja uma boa escolha para ele.

 

 

Observatório dos Agrotóxicos: a pandemia dos agrotóxicos avança com mais 27 liberações, totalizando 212 em 2020

pandemia pesticidesEm meio à pandemia da COVID-19, governo Bolsonaro continua avançando a boiada na liberação de agrotóxicos, incluindo produtos banidos na União Europeia e nos EUA

Em uma nova demonstração de que naquilo que se faz eficiente o governo Bolsonaro não para, o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União da última 4a. feira (16/06) o Ato No. 36 de 05 de junho que libera mais 27 agrotóxicos para comercialização no mercado brasileiro.  Com essa nova rodada de aprovações, o total de agrotóxicos liberados em 2020 já alcança 212, o que implica em um total de 715 ao longo dos 18 meses que já dura o mandato do presidente Jair Bolsonaro, o que se configura em um recorde histórico de liberação de venenos agrícolas liberados no Brasil.

Ao examinar a lista de aprovados foi possível detectar mais uma vez a aprovação de cerca de 30% de produtos contendo princípios ativos proibidos na União Europeia, e a continuidade de uma prática peculiar que é produzir formulações que contém de conterem produtos proibidos e aprovados pela EU (ver gráfico abaixo).

ato 36 status euStatus dos agrotóxicos liberados pelo Ato 36 na União Europeia

Outro aspecto que se mostra persistente nessa nova rodada de aprovações é o fato de que a China continua sendo o país que mais vende os produtos técnicos (em outras palavras, a matéria prima de onde são geradas as formulações vendidas no mercado brasileiro) (ver gráfico abaixo).

ato 36 paises

País de origem do fabricante primário dos 27 agrotóxicos liberados pelo Ato 36

Este padrão a crescente dupla dependência da agricultura de exportação brasileira em relação à China, na medida em que os chineses compram a maior parte da soja produzida no Brasil, enquanto são os principais fornecedores de agrotóxicos que terminam abastecendo principalmente essa cultura. Tal dependência tende a se agravar, na medida em que crescem as possibilidades de boicote às commodities agrícolas brasileiras em outras partes do mundo, justamente por causa do uso excessivo de agrotóxicos considerados como altamente perigosos e que, por isso, já foram banidos por alguns dos principais parceiros comerciais do Brasil, a começar pela União Europeia.

Em relação aos produtos aprovados, os mesmos consistem do que pode se chamar de um “museu de velhas novidades”, na medida em que a maioria deles já estão sendo vendidos no Brasil. Entretanto, vale ressaltar a aprovação de outra formulação do herbicida Dicamba que teve sua venda proibida recentemente proibida nos EUA por ter tido seus impactos tóxicos subestimados durante o seu processo de liberação.

A verdade é que o argumento de que a verdadeira pandemia de novos agrotóxicos no mercado brasileiro, que já é o maior do mundo, serviria para trazer ao Brasil produtos mais modernos e menos tóxicos não se confirma na prática, visto que a maioria dos produtos liberados já estão no mercado. Resta saber agora se o argumento do barateamento dos novos/velhos produtos sobreviverá na prática. Aliás, há que se frisar que chega a ser inacreditável que produtos proibidos  na União Europeia estejam sendo colocados na Categoria 5  (Inprovável de causar dano agudo) para toxicidade humana no Brasil.

Quem desejar acessar a planilha específica do Ato 36, basta clicar [Aqui!]. Já para acessar a base completa de 2020, basta clicar [Aqui!]

FDA revoga autorização de uso emergencial para cloroquina e hidroxicloroquina para tratamento da COVID-19 nos EUA

Hydroxychloroquine Sulfate Medication IllustrationFDA revogou a autorização para o uso emergencial da cloroquina e da hidroxicloroquina para tratamento da COVID-19. John Phillips / Getty Images

Hoje (15/06), a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA revogou a autorização de uso de emergência (EUA) que permitiram que o fosfato de cloroquina e sulfato de hidroxicloroquina doados ao Estoque Nacional Estratégico fossem usados ​​para tratar certos pacientes hospitalizados com COVID-19 quando um ensaio clínico não estava disponível ou a participação em um ensaio clínico não era viável. A agência determinou que os critérios legais para a emissão de um EUA não são mais atendidos. Com base em sua análise contínua dos EUA e de dados científicos emergentes, o FDA determinou que é improvável que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam eficazes no tratamento do COVID-19 para os usos autorizados nos EUA. Além disso, à luz de eventos adversos cardíacos graves e contínuos e de outros efeitos colaterais sérios, os benefícios conhecidos e potenciais de cloroquina e hidroxicloroquina não superam mais os riscos conhecidos e potenciais para o uso autorizado. Este é o padrão estatutário para emissão de um EUA. A Autoridade Biomédica de Pesquisa e Desenvolvimento Avançado (BARDA) do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA solicitou originalmente os EUA cobrindo cloroquina e hidroxicloroquina, e a FDA concedeu os EUA em 28 de março de 2020 com base na ciência e nos dados disponíveis na época. Hoje, em consulta com o FDA, a BARDA enviou uma carta ao FDA solicitando a revogação dos EUA com base em dados e ciência atualizados.

“Em toda a emergência de saúde pública, deixamos claro que nossas ações serão guiadas pela ciência e que nossas decisões podem evoluir à medida que aprendemos mais sobre o vírus SARS-CoV-2, analisamos os dados mais recentes e consideramos o equilíbrio de riscos versus benefícios dos tratamentos para o COVID-19 ”, disse o vice-comissário de assuntos médicos e científicos da FDA, Anand Shah, MD “ A FDA sempre sustenta sua tomada de decisões com as evidências mais confiáveis, de alta qualidade e atualizadas disponíveis. Continuaremos a examinar todas as autorizações de uso emergencial que o FDA emitiu e faremos alterações, conforme apropriado, com base em evidências emergentes. ”

A FDA tem a responsabilidade de revisar regularmente a adequação de um EUA e, como tal, a agência analisará as informações emergentes associadas aos usos de emergência dos produtos autorizados. Resultados recentes de um grande ensaio clínico randomizado em pacientes hospitalizados, uma população semelhante à população para a qual a cloroquina e a hidroxicloroquina foram autorizadas para uso emergencial, demonstraram que a hidroxicloroquina não mostrou benefício na mortalidade ou na recuperação acelerada. Este resultado foi consistente com outros novos dados, incluindo dados que mostram que é improvável que os esquemas de dosagem sugeridos para cloroquina e hidroxicloroquina matem ou inibam o vírus que causa COVID-19. A totalidade das evidências científicas atualmente disponíveis indica falta de benefício.

“Embora estudos clínicos adicionais continuem a avaliar o benefício potencial desses medicamentos no tratamento ou prevenção do COVID-19, determinamos que a autorização de uso emergencial não era mais apropriada. Essa ação foi tomada após uma avaliação rigorosa dos cientistas em nosso Centro de Avaliação e Pesquisa de Medicamentos ”, disse Patrizia Cavazzoni, MD, diretora interina do Centro de Avaliação de Medicamentos da FDA. “Continuamos comprometidos em usar todas as ferramentas à nossa disposição em colaboração com inovadores e pesquisadores para fornecer aos pacientes doentes o acesso oportuno às novas terapias apropriadas. Nossas decisões sempre serão baseadas em uma avaliação objetiva e rigorosa dos dados científicos. Isso nunca mudará. ”

A cloroquina e a hidroxicloroquina são aprovadas pela FDA para tratar ou prevenir a malária. A hidroxicloroquina também é aprovada para tratar condições auto-imunes, como lúpus eritematoso discóide crônico, lúpus eritematoso sistêmico em adultos e artrite reumatóide. Ambas as drogas são prescritas há anos para ajudar pacientes com essas doenças debilitantes, ou mesmo mortais, e a FDA determinou que essas drogas são seguras e eficazes quando usadas para essas doenças, de acordo com a rotulagem aprovada pela FDA. É importante notar que os produtos aprovados pela FDA podem ser prescritos pelos médicos para uso fora dos rótulos se eles determinarem que é apropriado para o tratamento de seus pacientes, inclusive durante o COVID.

A FDA, uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, protege a saúde pública, garantindo a segurança, a eficácia e a segurança de medicamentos para uso humano e veterinário, vacinas e outros produtos biológicos para uso humano e dispositivos médicos. A agência também é responsável pela segurança do suprimento de alimentos, cosméticos, suplementos alimentares, produtos que emitem radiação eletrônica e pela regulamentação dos produtos de tabaco de nossa nação.

__________________

Esta nota foi escrita originalmente em inglês e publicado no sítio oficial da Food and Drug Administration [Aqui!].

Por causa de Bolsonaro, comitê liderado pelos democratas no congresso dos EUA se opõe a qualquer acordo comercial com o Brasil

congresso euaO presidente do Comitê de Formas e Meios da Câmara de Deputados, Richard Neal, discute seu pedido ao comissário do IRS Charles Rettig para obter cópias das declarações fiscais do presidente Donald Trump, enquanto fala com repórteres no Capitólio dos EUA em Washington, EUA, em 4 de abril de 2019. REUTERS / Yuri Gripas

WASHINGTON (Reuters) – O Comitê de Caminhos e Meios da Câmara dos EUA disse nesta quarta-feira que se opõe ao plano do governo Trump de expandir os laços econômicos com o Brasil, dado seu histórico de direitos humanos e meio ambiente sob o presidente Jair Bolsonaro.

O presidente do comitê, Richard Neal, e seus colegas democratas no painel disseram ao representante de comércio dos EUA, Robert Lighthizer, em uma carta que o governo de Bolsonaro havia demonstrado “um completo desrespeito aos direitos humanos básicos”.

“Nós nos opomos fortemente a perseguir qualquer tipo de acordo comercial com o governo Bolsonaro no Brasil. O aprimoramento da relação econômica EUA-Brasil neste momento minaria os esforços dos defensores dos direitos humanos, trabalhistas e ambientais brasileiros para promover o estado de direito e proteger e preservar comunidades marginalizadas ”, escreveram eles.

Autoridades comerciais americanas e brasileiras concordaram no mês passado em acelerar as negociações com o objetivo de concluir um acordo sobre regras comerciais e transparência este ano, incluindo facilitação do comércio e “boas práticas regulatórias”.

Mas os democratas no comitê disseram que o governo de Bolsonaro não pode estar realisticamente preparado para assumir novos padrões de direitos dos trabalhadores e proteções ambientais estabelecidos no acordo comercial EUA-México-Canadá, dado seu próprio histórico ruim sobre direitos humanos e outras questões importantes.

O representante Kevin Brady, o republicano no comitê, disse a repórteres que desconhecia a carta.

Em vez de buscar um acordo comercial com o Brasil, os legisladores democratas disseram que Lighthizer deveria intensificar a aplicação das leis americanas e levantar preocupações sobre as práticas comerciais desleais do Brasil com o governo brasileiro.

O presidente dos EUA, Donald Trump, desenvolveu um relacionamento próximo com Bolsonaro, um ex-capitão do exército de direita. A Casa Branca disse na semana passada que os Estados Unidos forneceram ao Brasil 2 milhões de doses de hidroxicloroquina para uso contra o coronavírus, apesar das advertências médicas sobre os riscos associados ao medicamento antimalária.

Reportagem de Andrea Shalal e David Lawder; Edição por Richard Chang e Tom Brown

______________________

Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

A esquizofrenia do governo Bolsonaro frente à China terá efeitos desastrosos para o Brasil

china brasilBrasil e China têm fortes interesses comerciais, mas apesar disso o governo Bolsonaro segue hostilizando nosso principal parceiro comercial.

Como já narrei aqui mesmo, visitei a República Popular da China em duas ocasiões, ambas para participar de eventos científicos. Como não fiquei trancado no hotel e circulei nas cidades que visitei (Yantai e Shenzen), sempre alerto as pessoas que me ouvem falar dessas visitas para que evitem cair nos estereótipos fáceis sobre a China, e principalmente, sobre os chineses. O fato é que voltei de ambas as visitas com diferentes impressões sobre o funcionamento de uma sociedade que a maioria dos brasileiros sequer imagina como se dá, apesar dos fortes laços comerciais que existem entre os dois países e da proximidade objetiva que isso acarreta, apesar da enorme distância geográfica existente.

Em Yantai, prinvíncia de Shandong, no aeroporto e no centro da cidade.

Um fato que a imensa maioria dos brasileiros desconhece é que a China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, especialmente na área do chamado “agronegócio”, onde exportamos parcelas significativas das nossas commodities agrícolas e importamos insumos chineses que mantém a agricultura de exportação brasileira em padrões competitivos de produção.  Além disso, as empresas chinesas já estão presentes em setores estratégicos da economia brasileira, a começar pela exploração de petróleo na camada pré-Sal.

Outro detalhe é que boa parte da balança comercial depende hoje da assimilação das commodities agrícolas brasileiras pelo mercado chinês, já que vivemos um claro processo de desindustrialização, o que diminuiu fortemente o peso da exportação de produtos industrializados. Isso acaba formando uma espécie de círculo perfeito, onde os chineses cumprem o papel de importar comida e vender, por exemplo, agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Por isso é que considero esquizofrênico os ataques desferidos por membros do governo Bolsonaro ao sistema político chinês e, agora, sobre a forma de condução da pandemia da COVID-19. É que os governantes chineses, apesar de serem conhecidos por terem um comportamento altamente pragmático, também não são de levar desaforo para casa, já que não são de emitir desaforos de forma irresponsável.  E como esses ataques têm partido de membros do alto escalão do governo do Brasil, a começar pelo chanceler olavista, o Sr. Ernesto Araújo,

ji trump

Ao assumir a retórica de Donald Trump para hostilizar a China pela pandemia da COVID-19, o governo Bolsonaro arrisca as relações econômicas e políticas com o principal parceiro comercial do Brasil

A verdade é que hostilizar o governo da China, apenas para servir os interesses do governo dos EUA, se apresenta quase como um verdadeiro suicídio político e econômico para um país cuja economia se tornou umbilicalmente ligada ao mercado chinês., especialmente agora que está completamente fragilizada pela pandemia da COVID-19.  Não se trata aqui de desconhecer eventuais problemas ocorrendo na China e fechar os olhos a tudo em nome das relações comerciais. Entretanto, atacar para atender os interesses estratégicos de um concorrente importante na mesma faixa de produtos da qual o Brasil depende não faz o menor sentido.

O pior é que o nível das hostilidades agora poderá fortemente aumentado, se for confirmado que na reunião ministerial que desatou o pedido de demissão do ex-ministro Sérgio Moro, o próprio presidente Jair Bolsonaro desferiu palavras “pouco elogiosas” ao governo da China. É que uma coisa é ser ofendido por um subalterno, outra coisa é ser ofendido pelo chefe desse subalterno.  É provavelmente por causa da noção dos danos que isto irá causar que o governo Bolsonaro está tentando impedir que o inteiro conteúdo da gravação daquela reunião venha ao conhecimento público.  A questão é que a estas alturas do campeonato, os chineses já saibam tudo o que foi dito, e já estejam preparando contramedidas proporcionais às ofensas gratuitas que lhes foram desferidas pelo presidente Bolsonaro.

Definitivamente o presidente Bolsonaro e seu governo estão trabalhando para confirmar a força de previsão da Lei de Murphy que estipula que “nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).” A ver!

EUA: maior potência econômica e militar da história desmorona frente ao coronavírus

CORONACOVID-19: Os EUA concentram o maior número de contaminados, de mortos e de pacientes em condições críticas

Até por força do fato de morar no Brasil, tenho abordado de forma repetida os efeitos e características da difusão da pandemia da COVID-19 em nosso país, que nesta segunda-feira (27/04) já contabiliza 4.286 óbitos. Entretanto, por mais catastróficas que as tendências no Brasil sejam em relação aos resultados da pandemia, nada do que nos acontecer vai ofuscar o desmoronamento do sistema de saúde dos EUA, que lideram em três quesitos importantes da crise sanitária deflagrada pelo desprezo ao poder letal do novo coronavírus.

É que os EUA são o país com o maior número de pessoas infectadas (32,7% do total global), no número de mortos (26,7% do total) e no número de casos graves (26,3%). Apenas por comparação, a Espanha que é a segunda colocada no número de casos de pessoas infectadas detém 7% do total global,  11% dos mortos, e 13% dos casos graves. 

mass gravesFossas coletivas estão sendo usadas para enterrar os mortos pela COVID-19 na Ilha de Hart em Nova York

A pergunta que se coloca para muitas pessoas é de como a principal potência econômica e militar da história da Terra conseguiu se tornar o centro desta pandemia, mesmo tendo alguns meses para se preparar a sua chegada em seu próprio território.

Uma primeira e óbvia questão é que nos EUA não há um sistema gratuito de saúde, e o acesso ao sistema privado de saúde se dá pela via dos planos de saúde.  Além disso, segundo dados de 2018, um total de 27.9% de estadunidenses abaixo de 64 anos não possuíam qualquer cobertura para obter atendimento de saúde (ver o gráfico abaixo).

sem seguro

E obviamente os não-possuidores de seguro de saúde estão localizados em grupos economicamente fragilizados e que operam em áreas profissionais em que predominam salários que mal lhes garante o ato de comer todos os dias. Estão aí inclusos negros e latinos, mas também um número significativo de trabalhadores brancos que, aliás, são a maioria dos que não possuem seguro de saúde  (ver figura abaixo).

sem seguro 1

Há ainda que se lembrar que a desigualdade de renda nos EUA é uma das maiores dentre os chamados países industrializados, e vem crescendo aceleradamente desde o final da União Soviética.  O resultado disso é que os membros do 1% mais afluentes da sociedade estadunidense possuem acesso a todo tipo de luxo, enquanto uma porcentagem crescente está sendo empobrecida de forma galopante, com um número cada vez maior de pessoas sem trabalho e morando nas ruas das principais cidades dos EUA.

donald trumpO presidente Donald Trump foi um negacionista de primeira hora do impacto do coronavírus nos EUA, e agora paga o preço  da sua postura anti-científica

Para completar a equação, não há como deixar de fora a situação política, onde a atuação do presidente Donald Trump foi decisiva para uma piora nas condições de financiamento da pesquisa científica, com seguidos cortes de investimento e a ostracização de cientistas que passaram a ser vistos como inimigos das ideias por detrás do “Make America Great Again“.  Para piorar, Trump se apresentou até recentemente com um negacionista da pandemia, e só parece ter acordado para o problema quando ficou evidente que sofreria danos eleitorais se nada fosse feito para conter o número de mortos pela infecção. A partir daí, o que tem sido visto é um percurso errante de Trump, que culminou na sugestão de que as pessoas ingerissem dióxido de cloro (usado em alvejantes) para eliminar o coronavírus.

Como ocorre no Brasil em relação aos “bolsonaristas”, os seguidores de Donald Trump tem sido mobilizados para tentar romper as políticas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos para diminuir a velocidade de difusão do coronavírus. A diferença é que, ao menos por enquanto, nos EUA, a maioria da população vem ignorando as carreatas e manifestações dos seguidores de Trump. Entretanto, isto não tem impedido que governadores mais alinhados ao presidente Donald Trump sinalizem uma abertura precoce do comércio, mesmo em estados em que a difusão do coronavírus ainda está em fase de aceleração, como é o caso da Geórgia.

us pandemiaSeguidores de Donald Trump se mobilizam para acabar com as políticas de isolamento social em diferentes partes dos EUA

Ainda que seja difícil realizar um prognóstico definitivo de como os EUA estarão após o fim da pandemia, já é possível dizer que sairão com a imagem de maior nação do mundo e terra das oportunidades desmoronar de forma inapelável. É que certamente outros países mostrarão que com sistemas públicos de saúde e com políticas de apoio aos trabalhadores desempregados são as principais formas de enfrentamento desta e das outras pandemias que virão.

Finalmente, o economista Nouriel Roubini previu no início de março que a pandemia da COVID-19 levaria a um derrota eleitoral de Donald Trump e a uma recessão de dimensões globais que, em última instância, obrigaria um abandono das políticas neoliberais. A entrevista, quando dada, soou exagerada, mas nesta etapa da pandemia, Roubini parece ter acertado mais uma vez.

Estados Unidos: capitalismo, mais mortal que o coronavírus

coronavirus eua

Por Mike Pappas and Tre kwon para o RP Dimanche

Milhares morrendo todos os dias e corpos empilhados em valas comuns. Essas são as imagens surreais que chegaram até nós desde o primeiro poder imperialista, o epicentro da pandemia atual. Uma situação que não é de modo algum inevitável e que foi amplamente orquestrada por décadas de políticas neoliberais, como demonstrado por Mike Pappas e Tre Kwon, editorialistas do jornal marxista Left Voice .

PR Dimanche: Quais foram as respostas de Trump e do governo federal à crise da saúde? Você pode nos contar mais sobre as leis de emergência que estão sendo aprovadas? E o Partido Democrata?

Tre Kwon: Primeiro, o governo Trump demorou demais para responder à crise. Apesar dos avisos do resto do mundo, Trump não fez nada para conter a propagação inicial do vírus. Ele então alegou que o vírus era uma “farsa” dos democratas e que não era pior que uma gripe, antes de finalmente admitir que o vírus estava se espalhando nos Estados Unidos, minimizando sua gravidade. Hoje, ele finalmente reconhece a magnitude do potencial número de vítimas humanas da epidemia enquanto nos preparamos para cruzar a marca de 20.000 no país. Sua posição inicial participou ativamente da disseminação do vírus, embora não esteja claro quantas pessoas o pegaram e o espalharam por sua culpa. As medidas de contenção tomadas hoje em muitos estados podem ser necessárias, mas também têm uma dimensão política ao criar um impedimento à ação coletiva e ao atomizar a classe trabalhadora. Além disso, em muitos países essas políticas fortalecem o aparato repressivo dos estados, o que obviamente é motivo de grande preocupação.

Economicamente, a Casa Branca e o Congresso concordaram com um resgate de US $ 2 trilhões. Desse montante, mais de meio trilhão de dólares serão destinados às grandes empresas – com US $ 60 bilhões apenas para as companhias aéreas. Em comparação, apenas US $ 125 bilhões são gastos em saúde. Você também deve saber que quase dez milhões de trabalhadores estão desempregados desde a explosão da crise, sabendo que esses números incluem apenas aqueles que solicitaram benefícios de desemprego – e, portanto, não incluem , os milhões de trabalhadores sem documentos que provavelmente perderam o emprego, mas não são elegíveis para o desemprego. Esta é a maior onda de demissões desde a Grande Depressão. A título de comparação, os Estados Unidos viram 12 milhões de empregos perdidos entre 1930 e 1932 … o que é hoje, em apenas duas semanas!

Nessa situação, todo cidadão americano deve receber um cheque de US $ 1.200 – mas em lugares como Nova York, geralmente é menor que o preço do aluguel. Sem congelar o aluguel, esse dinheiro é apenas um subsídio para os proprietários. Também não sabemos quando esse dinheiro realmente chegará. Esse pequeno subsídio é negado aos milhões de trabalhadores sem documentos nos Estados Unidos – trabalhadores que pagam impostos, mas não recebem apoio. Pelo contrário, a agência de deportação ICE continua prendendo os chamados residentes “ilegais” em meio a uma pandemia e, diferentemente dos hospitais, eles recebem equipamentos de proteção suficientes do governo.

O governo federal absolutamente não conseguiu se preparar para uma pandemia como essa. Trump está tentando culpar os estados. Seu genro, Jared Kushner, por exemplo, referiu-se ao estoque federal de respiradores e outros equipamentos que faltava muito quando ele dizia “nosso estoque”. Trump invocou a Lei de Produção de Defesa de 1950, que permitiria ao governo direcionar a indústria para a produção de suprimentos essenciais. Mas nada está acontecendo ainda. A General Motors, por exemplo, pediu US $ 1 bilhão para fabricar respiradores. Estamos nos aproximando do pico da epidemia, mas até agora a General Motors ainda não produziu um único respirador.

O Partido Democrata, liderado pela senadora e ex-candidata presidencial Elizabeth Warren, acrescentou alguns pontos ao resgate para combater as piores formas de corrupção que o mesmo incluía. Agora, as companhias aéreas não devem usar o dinheiro do resgate para recomprar ações, e as empresas de Trump não devem receber os fundos. No entanto, eles aceitaram amplamente a ideia de um resgate corporativo de trilhões de dólares e não ofereceram alternativa. Isso explica em grande parte o aumento do índice de aprovação de Trump nos últimos tempos – já que não há outras propostas em discussão. Desta forma, ele se apresenta como estando à esquerda dos democratas. Ele diz que, graças a ele, todos receberão US $ 1.200, enquanto a líder democrata Nancy Pelosi exige “controle de recursos”.

PR Dimanche: Os Estados Unidos são uma das principais potências capitalistas e, no entanto, seu sistema de saúde não está de acordo com o desafio. O que está faltando?

Mike Pappas: Existem tantos problemas que seria difícil mencionar todos eles: primeiro, como Tre disse, os Estados Unidos ficaram muito para trás na campanha de busca. A OMS validou um protocolo de teste, que muitos países começaram a aplicar, mas os Estados Unidos preferiram desenvolver o seu próprio, presumivelmente para uma empresa americana vencer o concurso. Essa política não apenas atrasou o estabelecimento de uma campanha massiva de triagem, mas também o CDC (órgão federal para a proteção da saúde pública, nota do editor) testes distribuídos, que foram encontrados com defeito. Quando pude fazer testes em larga escala, já era tarde demais para impedir a propagação do vírus entre a população.

Deve-se notar que uma das principais vantagens dos testes é que ele permite colocar em quarentena os casos detectados no Covid-19 e as pessoas com quem eles tiveram contato, como vimos na China. ou na Coréia do Sul. Mas para fazer isso, você precisa de um sistema de saúde pública forte, capaz de lidar com o acompanhamento de um grande número de casos. Os Estados Unidos não possuem esse sistema. Em vez disso, temos um sistema de saúde dominado por empresas privadas ou organizações sem fins lucrativos, mas que, no entanto, funcionam como empresas com fins lucrativos. Como resultado, acabamos com um sistema completamente desarticulado, incapaz de acompanhar a progressão de uma epidemia.

Este já era o caso antes da crise nos Estados Unidos; e agora teremos que lidar com o pico da epidemia em cidades como Nova York nas próximas semanas ou meses. O sistema de saúde americano já está completamente sobrecarregado pela pandemia. Enfermeiras de Nova York, por exemplo, já estavam ameaçando greve no ano passado para denunciar a falta de pessoal. Não importa como eles reclamaram, a gerência do hospital se recusou a tomar qualquer ação. Tudo o que importa para eles são custos mais baixos para aumentar os lucros, não importa o quê. Imagino as condições de trabalho atuais agora que a pandemia chegou.

PR Dimanche: Quais são os elos entre a disseminação do COVID-19, a economia capitalista e as políticas de saúde nos Estados Unidos?

Mike Pappas: Esta crise é um exemplo flagrante de como as políticas de mercado que os capitalistas continuamente retratam como benéficas para todos são de fato extremamente prejudiciais. Já em 2016, o governo Obama sinalizou a probabilidade potencial de uma epidemia global em um relatório que aprendeu lições da luta contra o vírus Ebola. Novamente em 2019, uma simulação do Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo Trump, chamada Crimson Contagion, imaginou a possibilidade de uma pandemia global. Agora, se morássemos em um país com um sistema de saúde pública em funcionamento que trabalhasse para preparar e prevenir doenças, seria de esperar, com base nesses dados, que os hospitais tivessem se preparado para tais cenários. Em vez disso, os sistemas hospitalares optaram por suprimentos “just in time” porque a compra antecipada de suprimentos era um investimento não lucrativo.

A lógica do mercado também afeta o financiamento de empresas públicas. Numa sociedade em que o mercado está indubitavelmente reinando, a ideia de que deve haver menos interferência do governo se traduz em uma redução nos orçamentos das empresas públicas. Por exemplo, como o The Intercept informa, o governo Trump não apenas desligou a unidade global de segurança sanitária do Conselho de Segurança Nacional, mas também cortou fundos para organizações como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que se concentram especificamente na prevenção global de doenças. Em vez de financiar a pesquisa e o desenvolvimento público, essa lógica levou à assinatura de um grande número de contratos de pesquisa com empresas privadas que preferem investir dinheiro no desenvolvimento do próximo medicamento de sucesso, em vez de colocar tratamentos para proteger massivamente a população. Também são essas opções que pagamos hoje.

Mas também devemos considerar o gerenciamento da equipe do hospital. Há algum tempo, a gerência tenta reduzir o máximo possível, pois isso é visto como uma despesa adicional que ameaça os resultados. Infelizmente, esse downsizing é responsável por uma dificuldade muito maior quando se trata de responder a uma pandemia. Agora estamos vendo os diretores do hospital lutando para encontrar funcionários ou fazer com que os funcionários existentes trabalhem até que eles próprios desenvolvam os sintomas, contribuindo para a disseminação do vírus.

Mas se o governo não preparou o sistema de saúde pelas razões mencionadas acima, também tornou a população mais vulnerável. A destruição completa de um sistema de seguridade social é essencial para o funcionamento do sistema capitalista. É vantajoso para os capitalistas reduzir benefícios de desemprego, licença médica paga, etc. porque coloca a classe trabalhadora em uma posição mais profunda de precariedade e vulnerabilidade, além de economizar dinheiro. Quanto mais vulneráveis ​​as populações, mais fácil é explorá-las no local de trabalho, pois elas estão desesperadas para manter seus empregos. Nos Estados Unidos, os trabalhadores devem continuar trabalhando mesmo quando estão doentes.

Finalmente, eu diria que o capitalismo tornou a população mais vulnerável ao vírus e, ao mesmo tempo, tornou as instituições incapazes de responder a ele. O coronavírus é, no entanto, apenas um aviso do que acontecerá se não nos mobilizarmos contra esse sistema. O número de mortes e sofrimentos que se espera do coronavírus não é nada comparado ao que resultará da próxima crise climática. À medida que os capitalistas continuam destruindo o meio ambiente – 100 empresas são responsáveis ​​por 70% das emissões de gases de efeito estufa – veremos o surgimento de novas doenças, mas também o aumento dos conflitos globais, fomes e mortes.

Atualmente, à medida que a crise ocorre em todo o mundo, o governo Trump está trabalhando para reduzir os padrões da Agência de Proteção Ambiental (EPA), para que as empresas possam poluir ainda mais o ar. água todos nós precisamos para sobreviver. Conforme relatado pelo The Intercept, 2,2 milhões de pessoas poderiam morrer nos Estados Unidos se o coronavírus não fosse controlado. O aumento da poluição do ar aumentará o risco de complicações do coronavírus. Não é por acaso que os residentes do Bronx, historicamente afetados por políticas estruturalmente racistas, incluindo poluição ambiental desproporcional, têm duas vezes mais chances de morrer do coronavírus. Os estudos iniciais agora não mostram nenhuma surpresa que pessoas racializadas, em particular as negras, contraiam e morram de coronavírus a uma taxa desproporcionalmente mais alta do que o resto da população. É por isso que é crucial responder à crise com métodos que se opõem diretamente ao sistema econômico capitalista responsável por essa situação.

PR Dimanche: Exatamente, que medidas sociais e econômicas devem ser tomadas nos Estados Unidos para interromper o COVID-19?

Tre Kwon:País após país foi demonstrado que a estratégia mais eficaz para controlar a pandemia é a triagem em massa e o rastreamento de contatos recentes de pessoas infectadas. Essas medidas se mostraram eficazes em países como a Coréia do Sul, por exemplo. Combinadas com o isolamento de doentes e quarentena de casos suspeitos, essas medidas ajudaram a conter todo o país. Nos casos em que o vírus já está circulando na população, como nos Estados Unidos, são necessárias medidas de contenção, mas elas também devem ser combinadas com testes maciços e isolamento dos aglomerados. No entanto, um país como os Estados Unidos que cortou drasticamente o orçamento do sistema de saúde pública ao longo dos anos não pode arcar com as medidas necessárias de triagem e isolamento. Por outro lado, medidas gerais de contenção sem testes são convenientes para o governo, pois não há necessidade de pressionar o setor privado a produzir testes em massa.

Mike Pappas: Diante das dificuldades que enfrentamos, devemos ir contra as regras do capitalismo. Está começando a acontecer em diferentes níveis, agora que os governos capitalistas de todo o mundo percebem que as indústrias não podem e não participarão adequadamente dessa crise. Governos de todo o mundo, como Espanha e Irlanda, estão nacionalizando hospitais para ajudar a combater a crise. Nos Estados Unidos, após muita relutância, Trump usou a Lei de Produção da Defesa Nacional para coagir a General Motors aumentar a produção de equipamentos médicos vitais, como respiradores. Sem essas medidas, os capitalistas mostraram repetidamente sua determinação de permanecer ociosos, esperando uma oportunidade de maximizar seus lucros, enquanto as pessoas morrem.

Mais concretamente, a voz de esquerda [grupo norte-americano vinculado à Revolução Atual Comunista-Revolucionária Permanente Permanente, ndlt] defende um programa de emergência de 10 pontos, descrevendo as medidas imediatas que acreditamos que devem ser tomadas para lidar com a pandemia. Acreditamos que a população deve se mobilizar e exigir medidas como assistência médica gratuita ou o estabelecimento de licença médica de emergência para todos.Também precisamos nacionalizar imediatamente as indústrias em todos os setores quem pode ajudar com a crise e colocá-los sob o controle direto e democrático dos trabalhadores para garantir que sua produção seja usada para administrar a crise. Da mesma forma, são os pacientes e profissionais de saúde que devem controlar o sistema de saúde e como ele funciona, não os CEOs ricos e os acionistas do Conselho de Administração.

PR Dimanche: Como profissionais de saúde em Nova York, quais são suas condições de trabalho no hospital?

Mike Pappas: As condições de trabalho variam de um estabelecimento para outro. Em alguns centros, os funcionários estão equipados com uma máscara N95, que é solicitada a sua utilização por 1 a 2 semanas até ficarem ”  sujos, úmidos ou danificados  “. Em outros, ele recebe equipamentos de proteção individual que ele guarda por um dia inteiro. Qualquer que seja o estabelecimento, a falta de equipamentos de proteção é flagrante. Também há escassez de outros suprimentos, como respiradores, bolsas de infusão, seringas, etc. A falta de respiradores em uma situação em que os pacientes precisam deles para sobreviver significa um aumento inevitável das mortes.

Os profissionais de saúde trabalham longas horas e são constantemente expostos. As unidades de saúde não testam regularmente a equipe quanto ao coronavírus, mesmo sabendo que existem muitos portadores assintomáticos. Embora nunca o admita, isso se deve em parte ao medo da gerência de que muitos funcionários sejam testados positivamente e se retirem da força de trabalho já severamente restrita.

No entanto, os trabalhadores de Nova York retaliam. Enfermeiros, médicos e outros trabalhadores da linha de frente estão planejando ações nos hospitais da cidade para falar sobre a situação atual. Os enfermeiros do Hospital Jacobi, no Bronx, Nova York, organizaram recentemente uma ação para chamar a atenção para as más condições de trabalho. O “Grupo de Trabalho dos Trabalhadores da Linha de Frente Contra o COVID-19”, no qual estou envolvido, organizou recentemente uma ação no Hospital Mount Sinai para chamar a atenção para a falta de equipamentos de proteção individual, os maus protocolos de controle e isolamento de infecções e acordos inadequados de licença médica. Pedimos tolerância zero para retaliação contra funcionários que falaram ou que expressaram raiva.

PR Dimanche: Você pode nos contar mais sobre o movimento de greve descontrolada e a persistência da luta de classes na crise?

Tre Kwon: Você já deve saber que o número de greves nos Estados Unidos aumentou nos últimos dois anos. No ano passado, milhares de enfermeiros dos hospitais de Nova York lutaram por um aumento na equipe. Nossa greve foi sabotada no último minuto pela liderança burocrática de nosso sindicato. Mas agora vemos quão importantes eram nossas demandas para exigir mais funcionários.

Os Estados Unidos, onde pouquíssimos trabalhadores são sindicalizados, particularmente no setor privado, viram uma pequena explosão de ações dos trabalhadores contra a crise. Trabalhadores em vários armazéns da Amazônia em todo o país estão exigindo proteção contra pandemia – durante uma ação em Staten Island, em Nova York, um dos organizadores foi demitido pela empresa. O proprietário da Amazon, Jeff Bezos, ganhou US $ 6 bilhões adicionais desde o início da crise.

Houve ações semelhantes em todo o país, como 1.000 trabalhadores em uma fábrica de frigoríficos do Colorado deixando o local de trabalho ou trabalhadores de saneamento em Pittsburg exigindo melhores proteções. Os trabalhadores da indústria automobilística fecharam as três maiores montadoras com ataques violentos – depois que os líderes sindicais se recusaram a fechar as fábricas. Talvez a ação mais progressista que vimos até agora seja a dos trabalhadores da General Electric em Lynn, Massachusetts, que exigiram que a empresa começasse a fabricar respiradores em vez de fechar fábricas e deixar os trabalhadores desempregados.

PR Dimanche: Que política a esquerda do Partido Democrata está liderando? Os ativistas que se mobilizaram em torno da campanha Sanders, principalmente através da DSA, desempenham um papel nesses novos processos de luta de classes? Quais são as possibilidades para os revolucionários nesta nova situação?

Tre Kwon: Na quarta  feira, Bernie Sanders suspendeu sua campanha pelas primárias do Partido Democrata . Por um ano, a maioria dominante da corrente da DSA, perto da revista Jacobin , garante que Sanders possa ganhar a indicação. Apenas seis semanas atrás, eles proclamaram que os democratas eram “o partido de Bernie agora”. Mas o establishment do partido conseguiu se afirmar e se reagrupar em torno de Joe Biden.

Sanders e outros “socialistas” do Partido Democrata agora farão campanha por Biden – um político que há muito trabalha com segregacionistas, defende empresas de cartão de crédito e aprisiona pessoas racializadas. É por isso que a campanha Sanders não tem nenhum papel na luta contra o coronavírus. A demanda central de Sanders por seguro de saúde para todos é progressiva – mesmo que seja insuficiente e seria necessário mobilizar todos os recursos disponíveis contra a pandemia. Todo o Partido Democrata, incluindo Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez, votou no resgate de US $ 2 trilhões para empresas propostas por Trump.

Isso abre um cenário interessante para os revolucionários. A ascensão do “socialismo milenar” nos Estados Unidos levou a um crescimento explosivo dos socialistas democratas da América [membros do movimento DS]. Toda essa energia foi canalizada para a campanha Sanders. Houve até várias organizações que se consideravam socialistas revolucionárias que seguiram essa onda e se dissolveram nessa corrente reformista. Agora, dezenas de milhares de pessoas que fazem campanha por Sanders há meses estão procurando alternativas. Alguns deles podem estar desmoralizados, mas, diante da próxima crise do capitalismo, muitos outros se radicalizarão. Hoje, o nosso objetivo é construir uma esquerda socialista revolucionária neste país que saiba tirar proveito de toda a energia dessas lutas dos novos trabalhadores e que saiba vinculá-las à perspectiva de uma revolução socialista internacional.

Créditos da foto: Craig Stephens
Artigo publicado originalmente na Ideas de Izquierda
Tradução de Notti Ness e Ines Rossi

_________________________________

Este artigo foi originalmente publicado pela Revolution Permanent Dimanche [Aqui!].

A COVID-19 em tempos da pirataria estatal: roubo, desvio e apreensão de equipamentos médicos

equipamentoCaixas de máscaras protetoras são descarregadas de um avião da Air China com suprimentos médicos doados pelo governo chinês, em Atenas, Grécia, em 21 de março de 2020. REUTERS / Alkis Konstantinidis REUTERS – ALKIS KONSTANTINIDIS

A resposta tardia de muitos governos (incluindo países poderosos como EUA e França, mas incluindo também o Brasil) à pandemia causada pela COVID-19 está resultando em uma retomada de práticas selvagens de pirataria estatal que remontam ao Século XVII. Há uma crescente evidência que, sob a liderança dos EUA, diversos países estão empregando táticas agressivas, via leis do capitalismo selvagem ou pelo simples uso de regras alfandegárias) para desviar todo tipo de material médico que seria usado para combater os aspectos mais drásticos da pandemia da COVID-19.

mascaras guardian
As autoridades de Berlim dizem que 200.000 máscaras  foram desviadas para os EUA, pois estavam sendo transferidas entre aviões na Tailândia. Fotografia: David Becker / ZUMA Wire / REX / Shutterstock

O primeiro a gritar foi  o presidente da região sul da França, Renaud Muselier, que denunciou que máscaras adquiridas e pagas pela França  foram compradas “no asfalto”   do aeroporto por agentes dos EUA, que teriam pago mais do que 3 vezes mais do que os franceses já haviam pago para ficar com o material.

No dia de hoje, o mesmo relato foi oferecido pelo secretário da Casa Civil do estado da Bahia, Bruno Dauster, que informou que uma carga de 600 respiradores que foi comprada na China foi inicialmente retida no Aeroporto Internacional de Miami para depois ter a entrega a um consórcio de estados nordestinos simplesmente cancelada.  A desconfiança é que, mais uma vez, o governo Trump agiu para ficar com uma carga que já sido paga pelos brasileiros.

Em um artigo assinado por Alan Mcleod para o site “MPN News” aparece a informação que outros países também tomaram decisões altamente questionáveis acerca da apreensão de materiais médicos, citando a ação de autoridades tchecas que apreenderam suprimentos médicos chineses que estavam sendo enviados para Itália, enquanto a aeronave que levava o carregamento realizava o processo de reabastecimento de combustível. Entretanto, MCleod sinaliza claramente que esse processo de “pirataria estatal de equipamentos médicos” está sendo liberado globalmente pelo governo Trump.

Um exemplo mais subliminar foi o “pedido” do presidente Donald Trump para que a gigante 3M acelecerasse a fabricação de máscaras hospitalares para atender apenas os EUA, sacrificando o envio de máscaras e respiradores mecânicos  para o Canadá e para a América Latina, segundo informou a empresa em comunicado oficial.

Interessante notar o papel nefasto das empresas chinesas nessa situação. É que as práticas de revender o que já havia sido pago por outros compradores sinaliza a adesão à uma lógica da superexploração e do incentivo à concorrência desleal entre clientes. E isso tudo no meio de uma pandemia gravíssima e de alcance ainda incalculáveis.  

Apesar de ter ido na China e visto como funciona o que os chineses denominam desocialismo com características chinesas“, não me considero capaz de realizar uma crítica mais profunda sobre o que de fato existe por lá (i.e., socialismo a la chinesa ou capitalismo de estado puro e simples). Mas uma coisa me parece certa: no presente momento, muitas empresas chinesas estão colocando a maximização do lucro acima dos contratos já firmados.   Isto, no mínimo, não me parece uma forma muita solidária de ajudar o mundo a debelar uma pandemia.

Já no tocante aos EUA e outros governos que estão colocando em prática de pirataria estatal, não posso dizer que estou surpreso. É que em momento de “farinha pouca”, os que podem mais tendem a querer “o pirão” todo para eles.

Negacionismo científico de Donald Trump colocou os EUA no centro da pandemia da COVID-19

Donald Trump,Jair Bolsonaro,TrumpDonald Trump e Jair Bolsonaro: dois negacionistas do conhecimento científico que agora precisam que os cientistas gerem respostas rápidas e eficazes para uma pandemia que eles ignoraram propositalmente.

O presidente Donald Trump, como seu congênere brasileiro Jair Bolsonaro, é um negacionista da importância do conhecimento científico. Como Bolsonaro, Trump negou os imensos riscos que estavam sendo criados sobre o povo dos Estados Unidos da América (EUA) pela rápida e letal expansão do COVID-19 em diferentes partes do planeta (ver vídeo abaixo).

Agora, os EUA estão no olho do furacão e já possuem mais cidadãos contaminados do que a China. A rede hospitalar estadunidense, majoritariamente controlada por grandes corporações, já chegou rapidamente à beira do colapso e, como em outros países, é provável que também os serviços funerários cheguem ao limite de sua capacidade em um momento muito distante.

Como já previsto pelo economista israelense Nouriel Roubini, o mesmo que previu o crash das bolsas em 2008,  já disse que Trump deverá perder as próximas eleições presidenciais por sua insistência por negar as evidências robustas que estavam sendo apresentadas pela comunidade científica acerca dos perigos postos pelo COVID-19.

Mas pior do que perder uma eleição, é provável que Donald Trump passe aos livros de história como aquele governante que permitiu que a maior potência econômica e militar do mundo sofra uma hecatombe sanitária por sua arrogância em relação ao conhecimento científico.

Entretanto, as semelhanças entre os presidentes do Brasil e o dos EUA nos ensinam importantes lições sobre a necessidade de se valorizar o conhecimento científico como a base de superação dos grandes desafios que estão postos neste momento, a começar pela pandemia do coronavírus.

Finalmente, lembro que morei nos EUA por mais de 7 anos, contando desde a minha chegada no Oak Ridge National Laboratory onde participei de uma equipe incrível por 1 ano e meio, o meu doutoramento na Virginia Tech onde fiquei quase 5 anos, e finalmente o meu pós-doutorado na Fairfield University onde atuei como bolsista da Comissão Fulbright por 11 meses. Em todo esse tempo, acumulei amizades que perduram até hoje, e hoje me preocupo com o destino de todas as amigas e amigos que como nós estão expostos aos riscos do COVID-19.