Caos nos EUA gera uma nova forma de viralatismo brasileiro

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As cenas caóticas que apareceram nas telas de TV vindas diretamente das portas do congresso dos EUA serviram para uma impressionante sessão de uma nova forma de viralatismo brasileiro. É que desde jornalistas surpresos até membros do Supremo Tribunal Federal, o que se viu foi uma ode em defesa da democracia estadunidense por parte de muitos daqueles que em 2016 demandavam (ou mesmo tramavam) o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Se todos os que se pronunciaram em favor da democracia dos EUA (noto aqui que ao contrário dos membros do STF, nenhum membro da Suprema Corte estadunidense veio a público se manifestar sobre a confusão armada pelos apoiadores do brevemente ex-presidente Donald Trump) tivessem feito o mesmo quando era a nossa que estava sob ataque, é bem provável que o Brasil já tivesse, entre outras coisas, vacinado boa parte de nossa população contra a COVID-19.

Então essas lágrimas por uma democracia cujas instituições são mais bem mais sólidas do que as nossas são as verdadeiras lágrimas de crocodilo. Além disso, até por conhecer um pouco os EUA por dentro, é que se houve qualquer tentativa de golpe de estado, essa não passou nem perto de ter qualquer chance de ter êxito. É que se fosse para valer, os militares dos EUA não teriam assistido a coisa às margens. Aliás, nem as tropas do FBI ou das tantas outras forças militares que existem por lá.

Há que já esteja lançando alertas contra uma postura semelhante dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro caso ele perca as eleições em 2022. Esse tipo de preocupação para mim não passa de distracionismo barato da realidade brasileira, onde mais do que evidente de que são os militares, e não as instituições de Estado, que dão o aval necessário para o presidente brasileiro se manter no poder, em que pesem o seu governo desastroso em todos os níveis que se analisa. Eu diria que se há uma preocupação para 2022 é que os comandantes militares decidam que não será precisa eleição para que Bolsonaro seja mantido na presidência.

Por último, um elemento a ser melhor analisado se refere às consequências que o pequeno show de força dos aliados de Donald Trump terá na capacidade de Joe Biden articular suas alianças multilaterais, especialmente aquelas direcionadas para conter a crescente hegemonia da China no mundo. Ainda que se saiba que a real diplomacia dos EUA se dá pela ponta dos sabres, a desmoralização que ocorreu ontem sobre a ainda principal potência econômica e militar do mundo não foi pequena.  Pior para Jair Bolsonaro e, por extensão para o Brasil, pois muito provavelmente haverá pouca tolerância para imitadores de Donald Trump nas ações multilaterais da nova administração dos EUA. 

Finalmente, prestemos muita atenção no que dirão os defensores da democracia “in America” quando a democracia ameaça for a nossa. 

A extradição de Julian Assange foi negada, por enquanto

Justiça inglesa profere um veredito surpreendente para o caso do fundador do Wikileaks

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Foto: dpa / Dominic Lipinski

Por Daniel Lücking para o Neues Deutschland

“Extradição negada”, tweetou o jornalista James Doleman da sala de imprensa do Woolwich Crown Court em Londres pouco antes do meio-dia. A extradição de Julian Assange para os EUA não ocorrerá por enquanto. A juíza Vanessa Baraitser levou em consideração a situação de saúde de Julian Assange no veredicto. O lado americano agora tem 15 dias para apelar da decisão. O advogado de Julian Assange anunciou que agora solicitará fiança.

A sua estrutura de personalidade autista, que intensifica sua depressão clínica, da qual Assange sofre após anos de isolamento na embaixada do Equador, e na prisão de segurança máxima em Belmarsh, torna provável que Assange possa cometer suicídio na prisão, explicou Baraitser .

O veredito é surpreendente, porque a juíza inicialmente estava claramente aberta ao lado americano. “Este tribunal confia que um tribunal dos EUA examinará adequadamente o direito do Sr. Assange à liberdade de expressão”. Segundo a juíza, Assange continuou a fazer mais do que apenas jornalismo.

Os observadores políticos não foram autorizados a assistir à decisão de Raraitser na segunda-feira. O parlamentar de esquerda Sevim Dagdelen tweetou que ela foi impedida de entrar no Reino Unido no último minuto por “razões frágeis”. Dagdelen foi registrado para participar e deveria ocupar um dos assentos que a família de Julian Assange não poderia usar. Não foi possível para todos os membros da família viajar da Austrália para ouvir pessoalmente o veredito.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Enquanto Bolsonaro e Pazuello brincam com a saúde dos brasileiros, governo Trump já assegurou controle de 1 bilhão de vacinas para os EUA

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A politização da validação e comprade vacinas contra a COVID-19 pelo governo Bolsonaro representa jogar uma “roleta russa” com a saúde de mais de 211 milhões de brasileiros. Seja pelas declarações negacionistas do presidente Jair Bolsonaro ou pela omissão concordante do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, o fato é que o Brasil, que possui um dos mais amplos sistemas de saúde do planeta, está neste momento completamente à deriva no tocante a ter um efetivo plano massivo de vacinação que garanta um recuo sustentado da pandemia no nosso país.

Enquanto isso, o governo Trump, que também possui uma clara responsabilidade por tornar os EUA no principal epicentro da pandemia da COVID-19 no mundo, já assegurou o controle sobre inacreditáveis 1,01 bilhão de vacinas (isso mesmo, eu disse 1 bilhão de vacinas!) que serão utilizadas em um país que possui uma população de 328 milhões de pessoas, o equivalente a 3 vacinas por habitante (ver figura abaixo).

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Como o Reino Unido se tornou o primeiro país ocidental a autorizar o uso da vacina BTN12b2, produzida pelas empresas Pfizer e Biontech, o que acontecerá a partir de agora é uma corrida pela compra desta vacina em todos os países centrais, gerando uma espécie de corrida pela vida.

Enquanto isso, o Brasil periga ficar prisioneiro dos caprichos do seu presidente e da inação do seu ministro da Saúde. Em tempo: já se sabe que corremos o risco de ficarmos de fora de esforços de vacinação em massa por um mísero detalhe: o Brasil passa por um forte escassez de seringas neste momento crucial da nossa história. Seria engraçado se não fosse tão trágico.

A eleição de Joe Biden e a catarse desesperada de Jair Bolsonaro

biden bolsonaroJoe Biden (à esquerda) e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Imagens de Tom Brenner / Getty; Andressa Anholete / Getty Images

A confirmação da eleição do democrata Joe Biden para presidir os EUA a partir do dia 20 de janeiro de 2021 parece ter gerado um efeito dominó dentro do governo Bolsonaro que promete emoções fortes para o sistema político brasileiro. Eu confesso que estou genuinamente surpreso com o grau de degradação em que o governo Bolsonaro afundou desde que Donald Trump foi fragorosamente derrotado, tanto no voto popular como no Colégio Eleitoral, mas é óbvio que um efeito ricochete está em desenvolvimento.

A grosso modo a eleição dos EUA não deveria produzir tanto efeito no Brasil, pois eles nem são mais nem nosso principal parceiro comercial, e a economia brasileira depende muito mais da demandas da economia chinesa do que de qualquer outra.

A explicação para o evidente desespero que tomou conta de Jair Bolsonaro parece ser outra. Os mais apressados podem pensar que se trata da aliança ideológica que Bolsonaro e alguns dos seus principais ministros pensavam ter com os EUA sob o comando de Donald Trump. Eu já penso que, em se tratando de Jair Bolsonaro, a única ideologia que realmente conta é a do dinheiro. E a eleição de Biden trará dificuldades para o tipo de “economia de fronteira” que Bolsonaro estabeleceu, com a ajuda célere de Ricardo Salles e Tereza Cristina, dentro da Amazônia Legal e do Pantanal. 

A eleição de Biden, por interesses puramente estratégicos dos EUA, deverá impor um freio no saque das reservas minerais e da biodiversidade amazônica, ainda que sob a desculpa de proteger o clima da Terra. Essa é certamente a questão que mais importa a Bolsonaro e os grupos que trabalharam para colocá-lo na chefia do executivo federal (incluindo, por exemplo, grileiros de terras e garimpeiros clandestinos), apesar das figuras totais dos montantes extraídos ilegalmente nesses 23 meses de governo serem ainda desconhecidas. Mas se pensarmos apenas na extração ilegal de ouro e madeira, o valor deverá alcançar cifras milionárias.

A incapacidade militar do Brasil, que a declaração estapafúrdia de Jair Bolsonaro sobre “sair a saliva e entrar a pólvora” apenas deixou mais explícita, associada ao aprofundamento da combinação entre a crise sanitária e a econômica, que não param de se agravar, deverá tensionar o sistema político brasileiro a níveis tão ou mais altos ao daqueles que antecederam o golpe parlamentar executado contra a presidente Dilma Rousseff.

Ah, sim, se os candidatos explicitamente apoiados por Jair Bolsonaro forem derrotados nas urna neste domingo, é provável que a agudização da crise se aprofunde, pois ficará ainda mais claro que a onda bolsonarista de 2018 já seguiu seu curso e quebrou na praia, deixando a fraqueza da posição do presidente da república ainda mais evidente.

Então, meus caros, a ordem é se segurar, pois a catarse bolsonarista deverá testar os nervos nacionais até o limite do rompimento. A ver!

O neoliberalismo tosco de Bolsonaro e Guedes força Brasil a importar soja e milho dos EUA

milho-e-sojaApós permitir venda da safra brasileira a preços baixos, o governo Bolsonaro foi obrigado a zerar as tarifas de importação de soja e milho para abastecer o mercado interno

Há algo de muito peculiar no processo de produção, exportação e importação de grãos pelo Brasil neste momento em que estamos afundados em uma grave crise econômico que foi aprofundada pela pandemia da COVID-19. É que após o governo Bolsonaro acabar com as travas mínimas que protegiam precariamente o mercado interno, o Brasil está sendo forçado a importar soja e milho dos EUA, após ter batidos novos recordes de exportação para a China.

Essa situação é particularmente peculiar, porque o Brasil em 2019 foi o maior exportador mundial desses dois grãos, fato que deverá se repetir em 2020. Entretanto, ao não impor nenhuma medida para reservar os estoques necessários para o consumo interno, o governo Bolsonaro gerou a necessidade de que o Brasil passe a importar a produção dos EUA desses dois grãos, já que por causa do conflito com a China, sobram soja e milho nos EUA, enquanto faltam por aqui.

Essa situação insólita em que o Brasil é o maior produtor mundial de soja e milho, mas tem que importar para suprir as necessidades do seu mercado interno, é um problema grave porque tende a aumentar os custos da cesta básica, principalmente dos brasileiros mais pobres.  O fato é que, em que pese a diminuição das tarifas de importação, a soja vinda dos EUA é mais cara e tenderá a apagar, inclusive, parte dos ganhos obtido com a exportação de soja mais barata, principalmente para a China e a União Europeia.

Se acrescermos  ao encarecimento da cesta básica dos brasileiros aos dados negativos da economia as perdas e conflitos socioambientais que ocorrem na esteira da ampliação da área de plantada de soja e milho, veremoa que toda cantilena de que o latifúndio agro-exportador mata fome do mundo não passa de conversa para boi pastar em áreas ilegalmente desmatadas na Amazônia brasileira.

Eleição empurra a divisão dos EUA além do ponto de inflexão: editorial do Global Times

Across The U.S. Voters Flock To The Polls On Election Day

Os eleitores se alinham do lado de fora dos recintos eleitorais em Oakmont na Pensilvânia na terça-feira, quando a votação do dia da eleição começou na manhã de terça-feira em muitas partes dos EUA.  (Jeff Swensen/Getty Images)

A sociedade dos EUA está esperando ansiosamente pelos resultados da votação nos últimos estados-chave. Na sexta-feira à noite, a afluência ficou mais clara. Mas as métricas que decidiram o resultado das eleições anteriores podem não funcionar neste momento. Ambas as campanhas descreveram esta eleição como um duelo entre dois valores e caminhos diferentes. E as pessoas compram. Enquanto as eleições estão prestes a terminar, parece que nada poderia ter uma voz decisiva e alterar fundamentalmente os problemas dos EUA.

Se olharmos para os sentimentos intensos na grande mídia dos EUA e na internet, eles não parecem estar discutindo quem será o próximo presidente. Embora relatar esses sentimentos seja um show político, que geralmente acontecia nos Estados Unidos no passado, sua repetição faz as pessoas se preocuparem se a sociedade poderia voltar ao normal após o show. 

Desta vez, ninguém acreditaria que a divisão nesta eleição é apenas um show. A divisão é tão real e profunda que a única coisa incerta desta vez é quão profundamente afetará os EUA.

Cada sociedade tem divergências e contradições internas. O design do sistema dos EUA favorece e até encoraja a fermentação de contradições. Mecanismos ajudam a manter o equilíbrio entre interesses e poder. Por muito tempo, isso teve um desempenho relativamente bom, mas novos desafios estão mudando as condições dos mecanismos dos EUA e mudando as relações entre a eficácia dos mecanismos dos EUA e as dificuldades que a sociedade norte-americana enfrenta.

A mudança fundamental é que os Estados Unidos vêm consumindo suas vantagens acumuladas no contexto da globalização. Seu padrão de interesses foi fixado e a competitividade geral do país está caindo. O bem-estar que proporcionou às pessoas não pode corresponder às demandas e expectativas das pessoas. O mecanismo que distribui interesses solidifica e corrói ainda mais a capacidade social de promover a unidade.

Na era da internet, a política de identidade está crescendo. As pessoas podem facilmente sentir que seus direitos estão privados por serem de uma determinada classe social. Manter a unidade social tornou-se uma tarefa cada vez mais árdua e sensível. Obviamente, os EUA precisam de reformas políticas mais do que muitos outros países para aumentar sua capacidade de promover a unidade.

Mas nos últimos quatro anos, o governo Trump, incitado pelo sistema eleitoral dos EUA, empurrou o país para um caminho arriscado, onde aumenta a divisão para impulsionar o padrão existente de interesses políticos. Existem tantos problemas sociais na sociedade americana, seja entre diferentes raças e classes, entre novos e antigos imigrantes, e entre diferentes regiões, muito menos partidária. Mas agora o objetivo da sociedade foi lançado na reeleição de Trump. Em grande medida, esse objetivo espremeu o espaço da sociedade norte-americana para buscar o máximo dos interesses comuns.

Desde a eclosão da epidemia de COVID-19 nos Estados Unidos, o governo Trump tem lidado com isso de olho nas eleições, enquanto a vida e a segurança das pessoas foram deixadas de lado. Se os EUA não tivessem cometido o erro de lançar todos os olhos sobre a eleição, o país, que ocupa o primeiro lugar em recursos de saúde pública, não teria permitido que a epidemia se alastrasse a tal ponto que mais de 200.000 pessoas morreram por causa disso.

Embora seja óbvio que os EUA trilharam muitos caminhos errados, o equilíbrio de poder na eleição mostra que a séria divisão social prejudicou o julgamento dos americanos. Os humanos são insignificantes e escolher um acampamento é a escolha mais fácil para eles manterem seus próprios interesses. Quanto mais profunda a divisão social, mais as pessoas julgam a partir de sua própria posição. O fato de as pessoas distinguirem entre amigos e inimigos não com base no certo ou errado se tornará uma prática política comum.

O sistema norte-americano tem história e cultura próprias, mas precisa se modificar de acordo com os tempos. É hora de as elites americanas dizerem adeus à arrogância política e se engajar na reflexão coletiva. Eles deveriam ter uma visão correta dos problemas sistemáticos na política dos EUA e chegar ao consenso de que os EUA precisam continuar reformando como outros países. Somente nesta base os EUA podem realmente ser determinados e motivados a mudar a si mesmos.

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Este texto foi originalmente escrito e publicado pelo jornal chinês Global Times [Aqui!].

Nem Trump, nem Biden

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Venho acompanhando as apurações das eleições estadunidenses com alguma atenção, pois sei de importância estratégica que a sucessão presidencial dos EUA poderá ter para as relações internacionais nos próximos anos. Apesar de não ser adepto do “quanto pior, melhor”, não vejo qualquer diferença substancial entre Donald Trump e Joe Biden no que se refere aos interesses de países da periferia capitalista, incluindo o Brasil. 

É que se formos ver o comportamento dos últimos presidentes eleitos pelo partido Democrata o que vamos encontrar são pequenas concessões para a classe trabalhadora dos EUA, principalmente às custas da piora das condições de vida dos trabalhadores de outros países. Além disso, a tendência à enviar tropas para garantir interesses geopolíticos dos EUA é igual ou maior quando os Democratas estão no poder, sempre sob a justificativa das “ações humanitárias” que de humanitárias não têm nada.

Mesmo que a vitória de Donald Trump assegure uma certa tranquilidade para o governo do Brasil, que não teria de rever imediatamente suas políticas ambientais e de relações exteriores, os custos políticas de alguma atenção de Joe Biden, por exemplo, para a proteção ambiental na Amazônia não viria sem demandas de compensações em outras áreas. Há inclusive o risco de que sob Biden, o Brasil enfrente ainda maiores restrições nas relações comerciais com os EUA, muito em parte por causa da abertura colaboração com o governo Trump. Isto sem falar em uma pressão ainda maior no que se refere às relações comerciais com a China, principal parceiro e destino prioritário de commodities em que os EUA concorrem com o Brasil como fornecedor, a começar pela soja.

Além disso, não podemos esquecer que outros países da América Latina, a começar pela Venezuela, talvez tenham mais a perder com uma eventual presidência de Biden do que já experimentou nos últimos quatro anos sob Donald Trump.

Em outras palavras, mesmo que Donald Trump possa ser apontado como um personagem que possui forte desprezo pela soberania alheia e um ser humano com defeitos mais do que óbvios, não há como dizer que Biden faria melhor no esforço para manter a hegemonia geopolítica estadunidense caso se fosse eleito. 

A verdade é que como já disse há muitos anos para uma jovem militante democrata, o partido que já teve presidentes como John Kennedy e Barack Obama pode até ser melhor para dentro, mas possui um recorde horrível para fora, incluindo o apoio ao golpe militar de 1964 no Brasil e tantas outras atuações, incluindo a manutenção e aprofundamento da Guerra do Vietnã.

Desta forma, ainda que entenda a torcida pela derrota de Donald Trump, me parece equivocado achar que a vida será melhor ou mais fácil com uma eventual vitória de Joe Biden.  É que os EUA, enfrentando um forte declínio econômico, é como aquele escorpião que pica o sapo que o transporta em uma lagoa determinando um final fatal também para si mesmo, mas que o faz simplesmente por não ter como negar sua própria natureza.

Famintos “in the USA”: pobreza e fome na maior potência capitalista

A pandemia da COVID-19 mergulhou milhões de estadunidenses na pobreza

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Por De Moritz Wichmann para o Neues Deutschland

A Igreja Batista do Calvário em East Orange está muito ocupada. Já às 9h, a fila de carros em frente à igreja do condado de Essex tem várias centenas de metros. Dois quarteirões em frente ao prédio, carros com telas de LED e cilindros de borracha laranja estão sendo canalizados para o estacionamento da igreja. O que atrai as pessoas aqui não é a perspectiva de conforto ou paz de espírito. É sobre comida. “Vêm aqui pessoas que nunca precisaram de ajuda”, diz Joseph DiVincenzo enquanto acena um carro após o outro para o estacionamento.

DiVicenzo é o chefe administrativo do condado de Essex e ele próprio já sofreu uma infecção por coronavírus. Com quatro dezenas de funcionários na administração distrital, ele gerencia os necessitados em um sofisticado sistema de distribuição de cestas básicas. Os aspirantes têm que esperar em seus carros na faixa certa, no estacionamento da igreja sobem em duas filas, placas anunciam duas instruções simples: “Abra o porta-malas, deixe a janela aberta”. Os funcionários do distrito com máscaras coloridas carregam uma das caixas de papelão de 16 quilos com mantimentos para o porta-malas e fecham novamente, o carro continua e sai do estacionamento do outro lado. A distribuição já dura 25 semanas e não há previsão de término por enquanto. “Continuaremos enquanto houver necessidade”, diz DiVincenzo,

Cada uma das caixas de alimentos contém 40 refeições, 1000 caixas serão entregues naquele dia, depois de uma hora e meia todas elas se foram. Isso é pago com fundos da ajuda de emergência do coronavírus decidida pelo Congresso dos EUA em março, a Lei Cares. Mas essa fonte de dinheiro está secando lentamente. Por meses, os republicanos no Senado dos EUA têm bloqueado a adoção de mais ajuda na crise causada pelo coronavírus e só querem fornecer uma ajuda mínima.

Washington está muito longe da Igreja Batista do Calvário, trata-se de problemas concretos. A distribuição de mantimentos em sistemas de drive-thru – algumas pessoas também vêm a pé – atende a todos os requisitos de distanciamento social.  Um fato importante: nenhuma pergunta é feita. Aceitar ajuda de outras pessoas, inclusive do Estado, é vergonhoso para muitos, especialmente nos EUA.

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Hyacinth passou a pé.  A professora na verdade já  aposentada. No entanto, como sua pensão era insuficiente, ela trabalhou como professora assistente até recentemente. No entanto, ela não tinha permissão para dar ensino à distância como assistente na pandemia do coronavírus, e assim ela perdeu o emprego. Agora ela está recebendo um pouco de assistência social e alguns benefícios de desemprego. Mas isso também é “pouco”, diz a mulher negra e, além disso, não tenho certeza de mais nada afirma ela. Porque em poucas semanas seu direito ao seguro-desemprego expirará. Em muitos estados dos EUA, esse suporte está disponível apenas por 26 semanas. A Lei Cares permitiu que os estados estendessem isso por 13 semanas. O que acontece depois disso? “Eu realmente não sei”, ela diz enquanto espera por uma carona com seu pacote de mantimentos. Hyacinth não está sozinha. Mais de 350.000 desempregados pelo coronavírus nos EUA já haviam esgotado sua extensão de 13 semanas em meados de outubro. O programa expira no final de dezembro, e então 13 milhões de desempregados pelo coronavírus poderiam ficar completamente sem benefícios de desemprego de seus estados ou do governo federal se o período de benefício não for estendido ou uma nova ajuda for decidida no Congresso dos EUA.

Ninguém está atualmente imune à pobreza. “Cada um de nós pode estar nesta situação”, diz DiVincenzo. Seu condado é “muito diverso”, inclui a urbana e bastante negra e pobre Newark e East Orange com as pobres casas de madeira em fileiras estreitas, das quais a pintura está descascando, até subúrbios ricos, mais habitados por americanos brancos, com casas que parecem mansões e calçadas imponentes. “Tanto os pobres quanto os mais ricos são afetados pela crise”, diz ele. Na verdade, alguns dos carros parados em frente à igreja não parecem ruins. De acordo com dados da pesquisa sobre a crise da coroa nos EUA, no entanto – ao contrário da crise financeira em 2008 – desta vez são menos trabalhadores brancos e mais latinos, negros e mulheres que estão perdendo seus empregos.

“As pessoas da área que trabalham no varejo são particularmente afetadas; muitas pequenas empresas precisam fechar”, diz Cinda Williams, colega de DiVincenzo, enquanto encaminha os carros para o ponto de coleta. Normalmente, ela aconselha as pessoas que procuram trabalho no distrito. Agora ela está ajudando com a distribuição da caixa.

Mesmo antes da crise do coronavírus havia muitas dificuldades sociais nos EUA. 34 milhões de pessoas viviam abaixo da linha da pobreza. Nos últimos meses, de acordo com cálculos de pesquisadores da Universidade de Columbia, mais oito milhões de pessoas foram adicionadas – a maior parte desde que os benefícios federais para a crise extra corona expiraram no final de julho.

fome 1»Tanto os pobres como os mais ricos são afetados pela crise. Qualquer um de nós pode estar nesta situação. ”Joseph DiVicenzo, CEO do condado de Essex. Foto: Moritz Wichmann

Você não precisa apenas de mantimentos. Falta até dinheiro para os funerais de parentes falecidos, disse Williams. E com a aproximação do inverno, desligar a eletricidade e o aquecimento por conta de contas não pagas e a aquisição de agasalhos se tornará um problema. Além disso, “as pessoas precisam decidir se pagam o aluguel ou gastam dinheiro com comida”, diz ela. Quem deixa de pagar o aluguel rapidamente acaba na rua – ou na vizinha Isaiah House, um abrigo para moradores de rua com uma pensão alimentícia. “Quando o subsídio de desemprego extra de $ 600 deixou de existir no final de julho, de repente, significativamente mais pessoas relataram que não podiam mais pagar o aluguel”, disse a funcionária Julia Hismeh. 

Sem esperança em Biden

A Isaiah House oferece lousa há 25 anos. Na crise da coroa, entretanto, a necessidade é duas vezes maior. “Nos primeiros dois meses da pandemia, às vezes tínhamos 600 pessoas esperando por comida e filas ao redor do quarteirão”, disse o chefe do Tafel, Latoya Anderson.

Assim como na Igreja Batista do Calvário, nenhuma outra pergunta é feita aos necessitados. Anderson não quer assustá-los com exigências como as prescritas por outras instituições. Para muitas pessoas marginalizadas, esses são difíceis de cumprir, por exemplo, mostrando um número de segurança social ou uma certidão de nascimento. O que Anderson distribui deve “ser apenas uma ajuda adicional, as pessoas também têm direito a vale-refeição”, ela enfatiza com referência ao programa estadual correspondente.

Além de mesas de alimentação e equipamentos sociais como a Casa Isaiah, também surgiram grupos por todo o país que oferecem ajuda mútua. Tanto cidadãos que são ativos em grupos do Facebook quanto ativistas de esquerda como Jeff estão envolvidos nisso. Ele é membro do grupo Democratic Socialists of America no norte de Nova Jersey. Com outros voluntários, os ativistas do DSA ofereceram ajuda alimentar em um bairro de Newark com grande número de desabrigados antes da pandemia. No início da pandemia, isso foi descontinuado para proteção contra a infecção, agora os necessitados são abastecidos pelo parto, cerca de 200 vezes até agora.

Jeff não tem esperanças para as eleições presidenciais no início de novembro. “As dificuldades do país não vão mudar só porque em breve teremos outro presidente”, disse ele, referindo-se a uma possível vitória eleitoral de Joe Biden, do Partido Democrata. Com o aumento do número de infecções por corona, em breve estaremos de volta ao ponto em que estávamos em abril, com novas restrições ou mesmo um novo bloqueio. Mas desta vez estamos mais bem preparados, podemos distribuir mais entregas e arrecadar mais dinheiro. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

COVID-19: “As novas roupas da globalização”

covid 19 globalizationReuters, AFP/Getty Images, The Associated Press

Alguns são peremptórios: a COVID-19 teria matado a globalização, dizem eles. Outros vão mais longe: a COVID-19 seria a globalização. Finalmente, a COVID-19 seria a personificação final de uma globalização moribunda. Sem globalização do comércio, não haveria pandemia, disseram – sem saber que a peste bubônica, fronteira desconsiderando, milhões de mortos de europeus na XIV ª  século como influenza chamado de “gripe espanhola” no rescaldo da Primeira Guerra Mundial ,  era galopante nos Estados Unidos e em toda a Europa.

Na verdade, o anúncio da morte da globalização parece prematuro. Mas a COVID-19 provavelmente está acelerando sua evolução. A pandemia marcaria o fim de um ciclo que começou no início dos anos 1980, em meio a um renascimento do pensamento econômico liberal.

No hemisfério Norte, esses quarenta anos de liberalização comercial ficaram com má reputação. Ela é responsabilizada pelo rebaixamento das classes médias e pela desindustrialização, ainda que a destruição de empregos seja resultado tanto da automação quanto da competição dos trabalhadores do Norte com os do hemisfério Sul. Mas no Sul, precisamente, a globalização não conta a mesma história. Para centenas de milhões de homens e mulheres, marca a saída da extrema pobreza e, muitas vezes, o acesso à classe média. É a epopeia do surgimento industrial do Sul, essa poderosa dinâmica que transformou nosso mundo.

O que a COVID-19 revelou, nos Estados Unidos, na Europa e em outros lugares, é a dependência em que as realocações no Sul, e em particular na China, nos colocaram em áreas-chave como a saúde. É também o absurdo de certas cadeias de valor – processos de fabricação divididos em vários países – que parecem ter sido pensadas por uma agência de viagens sobrecarregada com uma única lógica: deslocar a fabricação o mais longe possível do local de consumo.

Três “áreas privilegiadas de influência”

Um movimento reverso está em curso: a reconquista da soberania econômica em alguns setores, mesmo que isso signifique assumir os custos adicionais. Este desenvolvimento não acabará com a globalização. Intimamente ligada à tecnologia, a internacionalização do comércio continuará. Mas talvez seja mais regional do que global. Podemos falar de uma globalização da proximidade? Há dez anos, Jean-Louis Guigou, presidente do Instituto de Prospectiva Econômica do Mundo Mediterrâneo (Ipemed), fala sobre três “áreas privilegiadas de influência” chamadas a formar as grandes áreas de integração econômica de amanhã: o Bloco americano; os asiáticos; finalmente, um eixo Europa-África.

As duas primeiras áreas, observa Guigou, economista e ex-alto funcionário do governo francês, estão equipadas com os instrumentos para tal evolução: think tanks econômicos comuns; bancos regionais ad hoc; organizações políticas multilaterais (seja a Organização dos Estados Americanos ou a Associação das Nações do Sudeste Asiático).

A guerra tarifária que Donald Trump declarou contra a China é um fracasso. Não produziu qualquer realocação para os Estados Unidos de empresas americanas estabelecidas na China. Não fez nada para melhorar a situação dos trabalhadores americanos. Por outro lado, a renegociação de Trump do mercado comum norte-americano (anteriormente Alena, agora USMCA) entre o Canadá, o México e os Estados Unidos é um bom exemplo dos desenvolvimentos em curso na globalização.

Ele protege esta zona: as mercadorias circulam lá livres de direitos assim que são amplamente fabricadas neste espaço. Protege os trabalhadores: no automóvel, um mexicano não pode ganhar menos de 70% do que ganharia em Detroit. A integração comercial envolve a harmonização gradual de padrões – salariais, ambientais e outros.

Jean-Louis Guigou olha seus mapas geográficos: “O Norte da África deveria ser o México da União Europeia. “ O desenvolvimento de amanhã não é a troca de ontem (matéria-prima para bens de alto valor agregado), mas a coprodução. O Mediterrâneo, afirmou, “não é um obstáculo, mas um elo de ligação entre a Europa e todo o continente africano” . À “falta de visão, antecipação, paixão” que caracterizaria o Velho Continente, Guigou opõe-se à ambição de uma “Vertical África-Mediterrâneo-Europa”.

No entanto, este eixo não possui nenhum dos instrumentos – locais de encontro institucional ou banca de investimento – nem mesmo um centro de estudos económicos África-Europa, o que facilitaria o desenvolvimento para a integração regional. A globalização local é o negócio das próximas gerações.

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Este texto foi originalmente escrito em francês e publicado pelo Le Monde [Aqui!].

EUA tentam subornar outros países para entrar no movimento anti-China: editorial do China Daily

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Em um movimento um tanto bizarro, uma vez que as travessuras de Washington geralmente não são tão abertamente expostas, o governo americano parece ter recorrido a pagar para que outros países se juntem à sua campanha de pressão contra a empresa de telecomunicações chinesa Huawei, e mais amplamente a China.

Na terça-feira, Washington se ofereceu para financiar a compra por empresas de telecomunicações brasileiras de equipamentos produzidos por empresas não chinesas, com funcionários da US International Development Finance Corporation, do US Export-Import Bank e do National Security Council dizendo a repórteres que havia financiamento disponível para cumprir este objetivo.

O fato de a suposta delegação comercial dos Estados Unidos em visita ao Brasil ser chefiada pelo conselheiro de Segurança Nacional Robert O ‘Brien, e não pelo representante comercial dos Estados Unidos, Robert Lighthizer, é o bastante para denunciar o caráter da visita. Embora este último tenha deixado bem claro, dizendo que há um elemento China “em tudo o que todos nós fazemos”, e Washington estava “preocupado” com os investimentos chineses no país e queria contrabalançar a influência da China excluindo a Huawei e investindo no Brasil indústrias de aço, etanol e açúcar.

Embora o Brasil pareça disposto a confiar sua autonomia comercial, senão sua segurança nacional, aos Estados Unidos – para atingir as necessidades políticas do próprio presidente Jair Bolsonaro e não nação – os Estados Unidos têm um orçamento limitado para atrair outros países para o seu lado, e outros possíveis beneficiários da generosidade de Washington saberão agora que podem negociar com firmeza por sua cumplicidade.

Funcionários do Exim Bank disseram que a instituição tem 20%  de sua carteira de US $ 135 bilhões disponíveis para negócios comerciais com empresas que desejam fazer parceria com os EUA como parte de seu chamado Programa sobre a China e Exportações Transformacionais, lançado em julho de 2020.

O programa, que o presidente do Exim Bank Kimberly A. Reed chamou de “uma das iniciativas mais significativas na história de 86 anos do Exim Bank”, nada mais é do que uma folha de figueira para autorizar o governo Trump a usar fundos governamentais para atrair outros países a aderir EUA na tentativa de “neutralizar” a competição das empresas chinesas.

A política de dinheiro por conivência é mais um sinal da perda de confiança dos EUA em suas habilidades de liderança e na competitividade de suas empresas.

Em uma amarga ironia, enquanto Washington está subornando tão generosamente outros países para embarcarem em sua onda anti-China, os governos locais nos EUA estão clamando por financiamento do governo federal para pagar pela atualização da infraestrutura muito necessária, especialmente novas redes de telecomunicações.

Como o maior parceiro comercial de bens com mais de 120 países, o comércio exterior da China foi de US $ 4,74 trilhões no ano passado, entre os quais quase metade foi de importações de produtos agrícolas, matérias-primas e energia, que são as principais exportações dos países de origem.

Os países tentados a seguir o exemplo do Brasil devem ter em mente que os EUA podem não ter dinheiro ou mercado para substituir a China.

Embora eles possam ser tentados pelas notas verdes oferecidas, eles devem pesar os ganhos e perdas de aceitar tais contratos deixe-me-pagar-a-conta, pois eles virão com restrições.

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Este editorial foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo China Daily [Aqui!].