Governo Bolsonaro apoia assassinato de general iraniano e insere Brasil na explosiva situação do Oriente Médio

átrump araujoAo emitir nota de apoio ao governo Trump pela eliminação de general iraniano, o ministro Ernesto Araújo cometeu grave prejuízo contra os interesses brasileiros.

O governo Bolsonaro já flertou com o perigo ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.  Nesse caso prevaleceu prevaleceu o pragmatismo que levou em conta as fortes relações comerciais mantidas pelo Brasil com os países árabes, o que significou uma derrota para a ala olavista cuja grande expressão é o, digamos, excêntrico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Mas defrontado com as repercussões do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o ministro Ernesto Araújo resolveu deixar de lado o pragmatismo e fez o Itamaraty emitir uma nota de apoio ao governo dos EUA sob a escusa de apoiar o combate ao terrorismo (ver imagem abaixo).

nota itamaraty

Se ainda havia algum tipo de dúvida acerca do grau de irresponsabilidade reinante no governo Bolsonaro em relação não apenas aos interesses comerciais nacionais, mas à própria segurança interna, eu me permito dizer que essa nota totalmente fora de propósito acaba de confirmar o que já era visível. É que essa nota acaba de enterrar décadas de uma forma cuidadosamente elaborada de pragmatismo diplomático que manteve o Brasil como parceiro comercial de países virtualmente em guerra em diversas partes do planeta, mas também nos manteve fora da rota do terrorismo internacional.

Agora, ao endossar a ação bélica do governo Donald Trump pela simples razão de mostrar alinhamento ideológico,  Ernesto Araújo e seus chefes dentro do governo Bolsonaro não apenas colocaram em risco as exportações de commodities agrícolas para os países árabes (mesmo aqueles não alinhados politicamente ao Irã), mas também abriram a possibilidade de que brasileiros e suas representações políticas e comerciais se tornem alvos de ataques terroristas. 

Como o Irã e seus diversos “proxies” estão certamente neste momento acompanhando a reação dos governos de todas as partes do mundo para medir o grau de alinhamento com os EUA no assassinato de Qaseim Suleimani,  ao emitir essa nota, Ernesto Araújo colocou um alvo nas costas de todos os brasileiros.  É que como todo o mundo já sabe, a resposta iraniana ao assassinato de seu mais importante líder militar não virá sob a forma de confrontos diretos com as forças estadunidenses, mas com a escolha de alvos mais fáceis de serem atacados. Essa é a realidade que deveria ter sido considerada pelo governo Bolsonaro antes de emitir qualquer comunicado sobre a eliminação de Suleimani, mas não foi. 

Agora não adiantará nada qualquer desmentido de fachada sobre uma posição oficial do ministério das Relações Exteriores. A única saída seria demitir imediatamente Ernesto Araújo e todos os seus auxiliares diretos por não terem impedido a emissão dessa nota despropositada. Mas como dificilmente ocorrerá na velocidade que deveria, o melhor é nos prepararmos para o pior, seja na área comercial como na militar.

 

Bomba-relógio: EUA criam bolha de dívida corporativa mais assustadora da sua história

dolar

Cada vez mais analistas econômicos se lembram da crise financeira de 2008 e advertem que as bolhas podem voltar e arrebentar a qualquer momento. Analista econômico avalia o perigo atual.

Se há mais de 10 anos foi a bolha do mercado imobiliário, agora há outra bomba-relógio: a dívida corporativa,  opina o analista econômico Michael Snyder.

“Nós enfrentamos uma bomba de dívida corporativa que é muito, muito maior do que a que enfrentamos em 2008”, disse o autor no seu artigo para TheMostImportantNews.com.

Segundo o analista, as taxas de juros excessivamente baixas da última década permitiram às corporações estadunidenses acumular a maior dívida corporativa da história.

A dívida corporativa total dos Estados Unidos alcançou quase US$ 10 trilhões (R$ 41 trilhão), um recorde de 47% da economia em geral, observa o autor.

No entanto, a dívida total das empresas é na realidade muito maior, se se tiver em conta a dívida das pequenas e médias empresas, as empresas familiares e outras que não estão cotadas na bolsa. Segundo Snyder, há que adicionar outros US$ 5,5 trilhões (R$ 229 trilhões).

“Todo o mundo pode ver que se aproxima um grande desastre da dívida corporativa, mas ninguém parece saber como o deter”, afirmou.

Nas últimas semanas, a Reserva Federal, o Fundo Monetário Internacional e os principais investidores institucionais, como BlackRock e American Funds, deram a voz de alarme sobre as crescentes obrigações das empresas.

“Nunca assistimos a uma crise da dívida corporativa desta magnitude”, comentou o analista.

A dívida das empresas “aumentou uns enormes 52% desde 2008, e esta bolha cresce continuamente”.

“Estamos sentados sobre uma bomba sem explodir, e realmente não sabemos o que é que a fará explodir”, cita o autor Emre Tiftik, especialista em dívida do Instituto de Finanças Internacionais.

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Este artigo foi originalmente publicado pela agência Sputnik [Aqui!].

A queda de John Bolton deve ampliar isolamento internacional do Brasil

bolton bolsoO presidente Jair Bolsonaro e  John Bolton em novembro de 2018, durante a visita do então assessor de Segurança Nacional de Trump ao Brasil. REPRODUÇÃO/JAIR BOLSONARO

Vista de longe a queda de John Bolton, assessor de segurança nacional do presidente Donald Trump, poderia ser considerada como algo que não afeta o já precário balanço diplomático em que o Brasil se encontra neste momento.  Mas não ver a direta relação entre a remoção de Bolton e a ampliação do isolamento em que o Brasil foi posto pelas posições extremadas do presidente Jair Bolsonaro e a maioria dos seus ministros seria um erro primário.

O fato é que sendo um extremista em posições ideológicas pró-EUA, John Bolton oferecia ao governo Bolsonaro uma espécie de chancela a todo tipo de postura que afastasse a diplomacia brasileira de seu histórica postura pragmática de não interferência em assuntos alheios.  Um exemplo disso foi a quase intervenção militar na Venezuela onde o ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo,  se colocou de forma entusiástica a favor de uma invasão do país vizinho em um clara coordenação com o que pregava o agora demitido assessor de segurança nacional de Trump.

Ao perder a ligação direta com os círculos mais duros do núcleo decisório de poder dentro dos EUA, o mais provável é que o Brasil, por causa das posturas do presidente Bolsonaro e sua entourage, passa cada vez mais a um isolamento também em relação ao governo Trump.  A razão para isto é simples: Donald Trump está envolvido em uma batalha de vida ou morte por sua sobrevivência política em face da posição cada vez mais delicada da economia estadunidense, e não terá muito tempo para se distrair com presidentes com posturas extremadas, pois o que lhe dará frutos dentro de casa será justamente demonstrações de que pode os EUA podem exercer eficientemente sua influência política, econômica e militar sobre o resto do mundo.

Mas o fato objetivo é que sem John Bolton, o governo Bolsonaro tenha maiores dificuldades para exercer a influência brasileira até na América do Sul. Se à queda de Bolton se somar uma eventual, e cada vez mais provável, derrota eleitoral de Maurício Macri nas eleições presidenciais argentinas, aí a coisa tenderá a desandar de vez.

A agricultura dos EUA é 48 vezes mais tóxica do que há 25 anos. A culpa é dos neonicotinóides

Um novo estudo mostra que a classe de inseticidas chamada neonicotinóides representa uma ameaça significativa aos insetos, ao solo e à água.

4869“Os neonicotinóides não são apenas consideravelmente mais tóxicos para insetos do que outros inseticidas, são muito mais persistentes no meio ambiente”. Fotografia: Alamy Foto 

*Por Kendra Klein e Anna Lappé para o “The Guardian”

Há mais de 50 anos, Rachel Carson alertou para uma “primavera silenciosa”, as canções de robins e tordos de madeira silenciados por agrotóxicos altamente tóxicos como o DDT. Hoje, há um novo espectro de agrotóxicos: uma classe de inseticidas chamados neonicotinóides. Durante anos, os cientistas têm alertado sobre esses matadores de insetos, mas um novo estudo revela um quadro mais completo da ameaça que representam para a vida dos insetos.

Comercializados pela primeira vez na década de 1990, os neonicotinóides, ou neonics, são os inseticidas mais utilizados no mundo. Eles são usados ​​em mais de 140 colheitas, de maçãs e amêndoas a espinafre e arroz. Quimicamente semelhantes à nicotina, eles matam insetos atacando suas células nervosas.

O Neonics foi lançado como uma resposta à crescente resistência das pragas aos inseticidas reinantes. Mas, em um esforço para matar as pragas de forma mais eficaz, criamos uma explosão na toxicidade da agricultura não apenas para insetos indesejados, mas também para as abelhas, joaninhas, besouros e a vasta abundância de outros insetos que sustentam a vida na Terra.

O que sabemos agora é que os neonics não são apenas consideravelmente mais tóxicos aos insetos do que outros inseticidas, são muito mais persistentes no meio ambiente. Enquanto outros quebram dentro de horas ou dias, neonics pode permanecer em solos, plantas e cursos d’água por meses ou anos, matando insetos por muito tempo depois que eles são aplicados e criando uma carga tóxica composta.

Um novo estudo, publicado na revista científica PLOS One, projetou uma maneira de quantificar essa persistência e combiná-la com dados sobre a toxicidade e os quilos totais usados de neonics e outros inseticidas. Pela primeira vez, temos um lapso de tempo de impacto: podemos comparar as mudanças ano a ano na toxicidade da agricultura dos EUA para insetos. Os resultados? Desde que o neonics foram introduzidos pela primeira vez há 25 anos, a agricultura dos EUA tornou-se 48 vezes mais tóxica para a vida dos insetos, estes agrotóxicos são responsáveis por 92% desse aumento na toxicidade

Olhando para esse lapso de tempo tóxico, outro detalhe interessante emerge: há um aumento dramático na carga tóxica da agricultura dos EUA para insetos a partir de meados dos anos 2000. Foi quando os apicultores começaram a relatar perdas significativas de suas colmeias. Foi também quando as empresas de pesticidas que fabricam os agrotóxicos neonics , a Bayer e a Syngenta, encontraram um novo uso lucrativo para essas substâncias químicas: o revestimento de sementes de culturas como milho e soja, cultivadas em milhões de hectares em todo o país. Atualmente, esses revestimentos de sementes respondem pela grande maioria do uso de neonics nos EUA.

Os neonics são “sistêmicos”, o que significa que são solúveis em água e, portanto, absorvidos pela própria planta, tornando seu néctar, pólen e frutas – tudo isso – tóxico. Apenas cerca de 5% do revestimento de sementes é absorvido pela planta, o restante fica no solo e pode acabar em rios, lagos e água potável com o escoamento causando danos à vida selvagem e, como mostram evidências emergentes, para as pessoas.

Este estudo vem na esteira da primeira análise das populações globais de insetos, que encontraram 40% das espécies em extinção, com perda quase total de insetos até o final do século, impulsionada em parte por agrotóxicos neonics , uma preocupação particular.

Por todo esse dano, os agricultores recebem poucos benefícios, se é que existem, dos revestimentos de sementes baseados em neonics . De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, eles fornecem “pouco ou nenhum benefício geral à produção de soja”, embora quase metade das sementes de soja nos EUA sejam tratadas com este tipo de agrotóxico. Análises semelhantes encontraram o mesmo para o milho, mas até 100% das sementes de milho dos EUA são tratadas com neonics .

Todo esse risco sem recompensa levou alguns reguladores a agir. A União Européia votou pela proibição dos piores neonics em 2018. Mas o governo dos EUA até agora não conseguiu agir. O lobby das empresas químicas pode explicar grande parte dessa inação. A Bayer, fabricante do neonic mais utilizado, gastou cerca de US $ 4,3 milhões fazendo lobby nos EUA em nome de sua divisão agrícola em 2017.

Não apenas a EPA paralisou a revisão científica dos neonics , no ano passado, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem reverteu uma proibição da era Obama ao uso desses perigosos inseticidas em refúgios de vida silvestre. O Congresso poderia mudar isso. O ato democrático do deputado Earl Blumenauer, de Saving America’s Pollinators, proibiria os neonics e outros inseticidas sistêmicos, tóxicos para polinizadores. O projeto tem 56 co-patrocinadores, mas enfrenta um grande obstáculo no comitê agrícola da Câmara, já que o representante do presidente, Collin Peterson, democrata de Minnesota, conta com a Bayer e a associação de comércio da indústria de pesticidas, Croplife America, entre seus principais contribuintes financeiros.

Além de uma proibição, precisamos de um esforço concertado para fazer a transição da agricultura dos EUA para longe da dependência de agrotóxicos e para métodos ecológicos de controle de pragas. Nós já sabemos como fazer isso. Pesquisas mostram que fazendas orgânicas suportam até 50% mais espécies polinizadoras e ajudam outros insetos benéficos a florescer. E ao eliminar os neonics e cerca de 900 outros ingredientes ativos de agrotóxicos, eles também protegem a saúde humana.

Mais de cinco décadas atrás, Rachel Carson advertiu que a guerra que estamos travando contra a natureza com agrotóxicos é inevitavelmente uma guerra contra nós mesmos. Isso é tão verdadeiro hoje como era então. Para o bem dos pássaros e das abelhas – e de todos nós – essa guerra deve terminar.

*Kendra Klein, PhD, é cientista sênior da equipe Friends of the Earth US, e Anna Lappé é a co-fundadora de duas organizações nacionais de alimentos e sustentabilidade e está trabalhando em um livro sobre agrotóxicos e nossos alimentos

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Embaixada do Brasil nos EUA em tempos de “remedial English”

bolsonaro filho

Em 1991 estava atuando na Divisão de Ciências Ambientais do Oak National Laboratory em um projeto de pesquisa relacionado aos efeitos das mudanças do uso da terra na cobertura vegetal na Amazônia. Graças a essa posição, tive a oportunidade de conhecer um renomado cientista estadunidense que tive a oportunidade de conversar sobre a experiência dele com o Brasil.  Ele muito cordial me disse que era particularmente fã dos serviços do serviço diplomático brasileiro por causa da extrema competência de seus servidores.

Eis que 28 anos depois assisto ao desprezo completo da excelência do corpo diplomático brasileiro com a possibilidade de que o posto de embaixador brasileiro nos EUA seja ocupado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro do PSL de São Paulo.

Graças à possibilidade de que um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, sem qualquer experiência diplomática, venha a ocupar uma das embaixadas mais importantes do Brasil estão surgindo diversos vídeos mostrando a quase completa ineptitude de Eduardo Bolsonaro no trato da língua inglesa (ver vídeo para exemplo disso). 

Para mim que já passei mais de 7 anos na condição de imigrante temporário (e privilegiado) nos EUA, não posso deixar de ficar preocupado com os centenas de milhares de brasileiros que lá residem em um tempo de perseguições comandadas pelo governo de Donald Trump.  Imaginem que o plano de expulsar milhões de imigrantes, incluindo aí milhares de brasileiros, ocorrer de fato e na guarda de um político que já demonstrou apoio a essa medida absurda ao dizer que sentia vergonha dos compatriotas que estivessem vivendo sem os documentos próprios fora do Brasil.

Mas a questão dos imigrantes brasileiros é apenas um exemplo do que poderia advir da presença de alguém que, objetivamente, não está preparado para defender os melhores interesses do Brasil em um cargo chave.  Entre os muitos desafios que estarão postos está a defesa dos interesses econômicos do Brasil em uma arena global altamente polarizada, e que tem os EUA sob completa pressão de outras potências econômicas e militares. Isto sem falar em alinhar de vez o Brasil com os planos militares do governo Trump para invadir a Venezuela, visto que Eduardo Bolsonaro já demonstrou ser um entusiasta dessa proposição absurda.

Por isso é que ter um embaixador cujo inglês é “remedial” é apenas a ponta de um grave problema que é a indicação de um personagem completamente despreparado para o cargo que deverá ocupar. Não entender isso certamente trará graves prejuízos ao Brasil, e certamente aos brasileiros que decidiram tentar uma sorte melhor nos EUA.

Cereais matinais nos EUA têm níveis de agrotóxico 5 vezes acima do limite considerado seguro, diz entidade

cereal

Um dos herbicidas mais utilizados no mundo, principalmente em plantações de soja, foi encontrado nos cereais que as pessoas consomem no café da manhã.

Uma recente pesquisa feita nos EUA pela entidade Environmental Work Group analisou diferentes marcas de cereais matinais para identificar a presença de agrotóxicos.

A constatação foi de que em algumas os níveis do herbicida glifosato estavam acima do que é considerado seguro para o consumo de crianças.

A fabricante de parte dos produtos analisados, General Mills, afirmou que seus produtos são seguros e não há risco de saúde no consumo.

Neste ano, um júri de San Francisco, nos Estados Unidos, decidiu que o herbicida Roundup, à base de glifosato, foi um “fator importante” no desenvolvimento do câncer de um homem.

O grupo alemão Bayer, que comprou a Monsanto, fabricante do produto, rejeitou fortemente as acusações de que a substância seja cancerígena. A empresa argumenta que décadas de estudos e avaliações regulatórias mostraram que o agrotóxico é seguro para uso humano.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) propôs manter liberada a venda de glifosato no país, já que não haveria evidências científicas de que a substância cause câncer, mutações ou má formação em fetos.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela rede BBC [Aqui!]

‘Eu lavo toda a minha comida como um louco’: cientistas expressam preocupação com as nanopartículas

Os alimentos dos EUA estão cada vez mais cheios de aditivos em escala nano, mesmo quando os pesquisadores soam o alarme sobre sua segurança

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O dióxido de titânio, amplamente utilizado para dar aos alimentos um brilho branco, é um dos muitos novos aditivos alimentares que podem causar problemas de saúde. Foto: Ruth Black / Alamy

Por Mićo Tatalović para o “The Guardian”

A França está reprimindo um aditivo alimentar comum que se mostrou carcinogênico em estudos com animais. A proibição do dióxido de titânio, anunciada pelo governo francês no mês passado, segue uma revisão que não descartou os riscos de câncer humano.

A proibição é apenas o mais recente capítulo de um longo debate sobre a segurança de aditivos alimentares generalizados conhecidos como nanopartículas, que são amplamente não regulamentadas nos EUA. Esse conjunto de ingredientes, projetado em escala quase atômica, pode ter efeitos indesejados nas células e órgãos, particularmente no trato digestivo. Há também indicações de que as nanopartículas podem entrar na corrente sanguínea e se acumular em outras partes do corpo. Eles têm sido associados a inflamação, danos no fígado e nos rins e até danos cardíacos e cerebrais.

Os desenvolvimentos tecnológicos das últimas duas décadas fizeram com que pudéssemos agora projetar partículas minúsculas muito mais facilmente – e suas propriedades incomuns as tornam úteis na indústria alimentícia. Eles são usados ​​atualmente para mudar a textura, aparência e sabor de vários alimentos. Por exemplo, o dióxido de silício é adicionado aos sais, especiarias e açúcar de confeiteiro para melhorar seu fluxo. Sal e chá verde são moídos em partículas de tamanho nanométrico para aumentar seu sabor ou melhorar suas propriedades antioxidantes.

O dióxido de titânio, ou TiO2, aparece em doces, assados ​​e leite em pó, geralmente como agente clareador. Mas o pequeno aditivo de metal também se acumulou nos tecidos do fígado, baço, rim e pulmão em ratos quando ingerido e danificou o fígado e o músculo cardíaco.

Devido a preocupações de segurança, alguns cientistas que estudaram nanopartículas dizem que teriam reservas sobre a ingestão de alimentos que contenham a tecnologia. “Como consumidor, lavo todos os meus alimentos como loucos”, diz Christine Ogilvie Hendren, diretora executiva do Centro de Implicações Ambientais da Nanotecnologia da Duke University, quando questionada se os consumidores podem lavar algumas das nanopartículas que são cada vez mais encontradas alimentos e embalagens.

Efeitos sobre a saúde do dióxido de titânio observados no laboratório foram particularmente agudos em animais jovens, o que é uma preocupação, uma vez que as crianças são especialmente expostas a ele através de doces, goma de mascar e sobremesas.

“Pode haver preocupações para crianças pequenas quando você tem uma massa corpórea pequena que está ingerindo muitos desses produtos de doces”, diz Christine K Payne, professora associada de engenharia mecânica e ciência de materiais da Duke University.

Os cientistas tendem a concordar que o argumento para a proibição de tais partículas, cujo único benefício é cosmético, é mais forte do que para partículas que melhoram o prazo de validade. Na ausência de uma proibição, alguns exortariam os consumidores a optarem por sair quando possível.

“Eu definitivamente gostaria de usá-los com cautela. Se você puder evitá-lo, evite-o ”, diz Sowmya Purushothaman, pesquisador em biotecnologia da Universidade da Califórnia, Merced. “Não há razão para usar goma de mascar contendo TiO2, dado que muitas crianças são as que as usam. Você não precisa deixar mais brilhante para atrair as crianças. ”

Hendren concorda, dizendo que ela não vai comprar doces para seus próprios filhos contendo o aditivo.

Um estudo de 2013 realizado por Cho Wan-Seob, da Universidade Dong-A, na Coréia do Sul, e seus colegas, não encontraram acúmulo significativo em ratos quando ingeridos, e sugeriram que a maior parte foi eliminada pelas fezes.

Os efeitos das nanopartículas dependem de uma ampla gama de fatores, incluindo seu tamanho, estrutura, revestimento, dose e também com o que são consumidos. Provar impactos na saúde humana é difícil, e o próprio termo “nanopartícula” dificulta a abordagem da segurança. “Trata-se de entender como todo o conjunto de elementos que compõem o universo se comporta em uma determinada escala”, diz Hendren. Ela diz que perguntar se as nanopartículas são prejudiciais é como perguntar: “Todas as coisas da tabela periódica são reduzidas a certo tamanho, seguro ou perigoso?”.

Payne, que estuda a inalação de nanomateriais, diz que quando ela testa concentrações de algumas nanopartículas em níveis 10 a 100 vezes menores do que aquelas consideradas “seguras” por testes toxicológicos tradicionais, elas ainda encontram muitos efeitos moleculares e genéticos inesperados.

“O que todos os laboratórios [fazendo essa pesquisa] estão vendo agora é que existem efeitos além da toxicidade, então você pode trabalhar com concentrações não tóxicas, mas ainda ver, por exemplo, uma resposta ao estresse oxidativo que pode levar à inflamação”, diz Payne. “Esses efeitos mais sutis são importantes, especialmente em relação à exposição em longo prazo?” Ninguém sabe.

“É uma nova tecnologia; nós ainda só sabemos 10% sobre isso ”, diz Sonia Trigueros, membro da Universidade de Oxford, Reino Unido, e ex-co-diretora do Programa Martin Martin de Nanotecnologia.

Seu uso na indústria de alimentos está crescendo, mesmo quando a pesquisa em saúde humana é limitada. “Nano na comida é um campo muito grande agora. Ela vai de pesticidas, patógenos, processamento de alimentos a novos sabores ou para reduzir a quantidade de açúcar que você precisa adicionar ”, diz Trigueros. Nos próximos anos, os consumidores serão apresentados a uma nova geração de nanopartículas ativas, projetadas para tornar as embalagens biodegradáveis, melhorar a vida útil e ajudar a evitar o desperdício de alimentos.

Uma das revisões mais recentes e abrangentes sobre a segurança de nanopartículas em alimentos, liderada por David Julian McClements, da Universidade de Massachusetts, concluiu que “há evidências de que algumas delas podem ter efeito prejudicial”. Uma falta geral de pesquisa significa que a avaliação de potenciais efeitos prejudiciais é difícil, disse, e mais estudos são “urgentemente necessários”.

McClements apontou que as nanopartículas de prata, amplamente usadas em embalagens como antimicrobianos para manter os alimentos frescos, podem lixiviar os alimentos e potencialmente matar boas bactérias em seu intestino. Os cientistas dizem que o uso dessa tecnologia no empacotamento de alimentos explodiu nos últimos 15 anos, mas ninguém acompanha todos os seus usos ou sabe qual seria a exata exposição combinada para o consumidor médio.

“Você pode ir ao Wal-Mart e comprar pequenas sacolas de plástico Ziplock que têm nanopartículas no plástico porque você obtém maior prazo de validade por causa do crescimento bacteriano reduzido, pois os íons das nanopartículas são liberados lentamente”, diz Jason White, químico estadual e vice-presidente. diretor e químico analítico chefe na Estação Experimental Agrícola de Connecticut. “Esses materiais estão por aí e estamos sendo expostos a eles.”

As regulamentações, segundo os cientistas, estão atrasadas em relação ao lançamento dessa tecnologia, especialmente nos EUA.

“Nos EUA, não há requisitos regulatórios em escala nano específicos”, diz White, apontando que você pode até comprar nanofertilizantes e nanoagrotóxicos online, e que ninguém sabe realmente qual, se algum, efeito que pode ter sobre seus vegetais e sua saúde.

Desde 2011, a União Européia exige que todos os nanomateriais artificiais sejam claramente indicados na lista de ingredientes, e que quaisquer novos nanomateriais precisem passar pela segurança exigida pelo Regulamento de Novos Alimentos da UE de 2015.

A Food and Drug Administration (FDA) disse que “não há provisões específicas na Lei Federal de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos que tratam de nanomateriais em alimentos”. As nanopartículas projetadas nos EUA são reguladas exatamente como outros aditivos alimentares, com base nas diretrizes de 1958 e 1997, mesmo que a maior parte do desenvolvimento científico e da pesquisa sobre os impactos na saúde tenha ocorrido desde então.

“Talvez, de certa forma, as pessoas confiem nesses órgãos reguladores um pouco mais do que deveriam”, diz Payne.

Ao falar com o Guardian, vários pesquisadores expressaram preocupação de que, daqui a 20 a 30 anos, perceberemos que algumas nanopartículas realmente têm efeitos na saúde em longo prazo.

“Não sabíamos há décadas que o amianto era perigoso”, diz Michelle Lynch, química e diretora da Enabled Future Limited, uma consultoria com sede em Londres sobre produtos químicos e materiais avançados. “Não foi possível provar que fumar foi perigoso por décadas. E o mesmo [poderia] ser verdade para a nanotecnologia ”.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].