Reportagem revela como produção de assentos de carros luxos vendidos nos EUA alimenta o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira

Reportagem do “The New York Times” revela como o couro bovino oriundo de fazendas desmatadas ilegalmente pode chegar facilmente ao mercado global. Nos Estados Unidos. Grande parte da demanda pelo couro brasileiro vem das montadorasde carros de luxo dos EUA

leath rondoniaUm matadouro em Porto Velho, no noroeste do Brasil, em julho

Este artigo foi produzido em parceria com a Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center.

Por Manuela Andreoni , Hiroko Tabuchi e 

BURITIS, Brasil – Certa manhã deste verão, Odilon Caetano Felipe, fazendeiro que cria gado em terras desmatadas ilegalmente na Amazônia, se reuniu com um comerciante e contratou mais de 72 animais engordados. Com aquele golpe de caneta, o Sr. Felipe deu ao seu gado uma ficha limpa: ao vendê-los, ele obscureceu seu papel na destruição da maior floresta tropical do mundo.

Durante o almoço, logo após a venda de 14 de julho, Felipe falou abertamente sobre o negócio que o enriqueceu. Ele reconheceu o corte da densa floresta amazônica e que não pagou pela terra. Ele também disse que estruturou suas vendas para esconder as verdadeiras origens de seu gado, vendendo para um intermediário, criando uma trilha de papel que mostrava falsamente que seus animais eram provenientes de uma fazenda legal. Outros fazendeiros da região fazem o mesmo, disse ele.

“Não faz diferença”, disse ele, se sua fazenda é legal ou não.

Uma investigação do New York Times sobre a rápida expansão da indústria de frigoríficos no Brasil – um negócio que vende não apenas carne para o mundo, mas toneladas de couro anualmente para grandes empresas nos Estados Unidos e em outros lugares – identificou lacunas em seus sistemas de monitoramento que permitem peles de gado mantido em terras desmatadas ilegalmente na Amazônia para fluir sem ser detectado pelos curtumes do Brasil e para compradores em todo o mundo.

A fazenda do Sr. Felipe é uma das mais de 600 que operam em uma área da Amazônia conhecida como Jaci-Paraná, uma reserva ambiental especialmente protegida onde o desmatamento é restrito. E transações como a dele são os pilares de um complexo comércio global que liga o desmatamento da Amazônia a um apetite crescente nos Estados Unidos por luxuosos bancos de couro em picapes, SUVs e outros veículos vendidos por algumas das maiores montadoras do mundo, entre elas a General Motors, Ford e Volkswagen.

Um veículo de luxo pode exigir uma dúzia ou mais de peles, e os fornecedores nos Estados Unidos compram cada vez mais seu couro do Brasil. Embora a região amazônica seja um dos maiores fornecedores mundiais de carne bovina, cada vez mais para as nações asiáticas, o apetite global por couro acessível também significa que as peles desses milhões de gado abastecem um lucrativo mercado internacional de couro avaliado em centenas de bilhões de dólares anualmente .

O fazendeiro Odilon Caetano Felipe reconheceu ter desmatado terras dentro da UC Jaci-Paraná.

O gado da fazenda do Sr. Felipe era recolhido para embarque em um matadouro.

O gado da fazenda do Sr. Felipe era recolhido para embarque em um matadouro.

Pastagens em chamas perto de Porto Velho, capital de Rond & ocirc; nia.

Este comércio de couro mostra como os hábitos de compra do mundo rico estão ligados à degradação ambiental nos países em desenvolvimento, neste caso ajudando a financiar a destruição da Amazônia apesar de sua valiosa biodiversidade e do consenso científico de que protegê-la ajudaria a desacelerar as mudanças climáticas.

Para rastrear o comércio global de couro de fazendas ilegais na floresta tropical brasileira aos assentos em veículos americanos, o The Times entrevistou fazendeiros, comerciantes, promotores e reguladores no Brasil, e visitou curtumes, fazendas e outras instalações. O Times falou aos participantes de todos os níveis do comércio ilícito na Reserva Extrativista Jaci-Paraná, uma área no Estado de Rondônia que recebeu proteções especiais por abrigar comunidades de pessoas que, por gerações, viveram da terra por extração de seringueiras.

Essas comunidades agora estão sendo expulsas por fazendeiros que querem terras para o gado. Na última década, os fazendeiros expandiram significativamente sua presença na reserva, e hoje cerca de 56% dela foram desmatados, de acordo com dados compilados pelo órgão ambiental estadual.

O relatório também se baseia na análise de dados corporativos e de comércio internacional em diversos países e em milhares de certificados de transporte de gado emitidos pelo governo brasileiro. Os certificados foram obtidos pela Agência de Investigação Ambiental, um grupo de defesa em Washington. O Times verificou independentemente os certificados e obteve milhares de certificados adicionais separadamente.

Isso possibilitou o rastreamento do couro de fazendas ilegais na Amazônia até os frigoríficos operados pelos três maiores frigoríficos do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, e depois para os curtumes que eles fornecem. A JBS se autodenomina a maior processadora de couro do mundo.

Segundo a Aidee Maria Moser, procuradora aposentada de Rondônia que passou quase duas décadas lutando contra a pecuária ilegal na reserva Jaci-Paraná, a prática de vender animais criados na reserva para intermediários comerciantes sugere a intenção de ocultar sua origem. “É uma forma de dar uma aparência de legalidade ao gado”, disse ela, “para que os frigoríficos neguem que haja algo ilegal”.

O problema não se limita a Rondônia. No mês passado, uma auditoria conduzida por procuradores do Estado vizinho do Pará, onde se encontra o segundo maior rebanho bovino da Amazônia, constatou que a JBS comprou 301 mil animais, o equivalente a 32% de suas compras no estado, entre janeiro de 2018 e Junho de 2019 de fazendas que violaram os compromissos de prevenir o desmatamento ilegal.

A JBS discordou dos critérios utilizados pelo Ministério Público e concordou em aprimorar seu sistema de monitoramento, bloquear fornecedores sinalizados pela pesquisa e doar US $ 900 mil ao estado em resposta à auditoria.

Para ter uma ideia da escala das fazendas que operam em áreas vulneráveis ​​na Amazônia brasileira, o The Times sobrepôs mapas do governo de terras protegidas da Amazônia, áreas desmatadas e limites de fazendas com as localizações das fazendas que a JBS listou publicamente como fornecedoras de seus matadouros em 2020. Um a análise mostrou que, entre os fornecedores da JBS, fazendas que cobrem cerca de 2.500 milhas quadradas se sobrepõem significativamente a terras indígenas, uma zona de conservação ou uma área que foi desmatada após 2008, quando as leis que regulamentam o desmatamento foram implementadas no Brasil.

A metodologia e os resultados foram examinados e verificados por uma equipe de pesquisadores e acadêmicos independentes que estudam o uso do solo na Amazônia brasileira.

Os dados do comércio internacional mostraram que as empresas proprietárias de curtumes abastecidos com as peles enviaram couro para fábricas no México administradas pela Lear, uma grande fabricante de assentos que abastece montadoras de automóveis nos Estados Unidos. Lear disse em 2018 que estava adquirindo cerca de 70% de suas peles in natura do Brasil. As peles brasileiras também vão para outros países, incluindo Itália, Vietnã e China, para uso nas indústrias automotiva, de moda e de móveis, mostraram os dados comerciais.

A JBS reconheceu que quase três quartos das fazendas identificadas na análise do The Times se sobrepõem a terras que o governo classifica como desmatadas ilegalmente, ou como terras indígenas ou uma zona de conservação. Mas informou que todas as fazendas cumpriam as regras para evitar o desmatamento quando a JBS comprou delas.

A JBS informou que, nos casos de sobreposição, as fazendas foram autorizadas a operar em áreas protegidas ou desmatadas, ou tiveram seus limites alterados, ou seguiram regras para corrigir suas violações ambientais. A pecuária é permitida em algumas áreas protegidas no Brasil, desde que siga práticas sustentáveis.

Em nota, a JBS informou que mantém há mais de uma década um sistema de monitoramento que verifica o cumprimento da política ambiental dos fornecedores. “Mais de 14.000 fornecedores foram bloqueados por não cumprimento desta política”, disse. No entanto, afirmou a empresa, “o grande desafio da JBS, e da cadeia produtiva da pecuária de corte em geral, é monitorar os fornecedores de seus fornecedores, uma vez que a empresa não tem informações sobre eles”.

Uma fazenda à beira de uma área queimada perto de Cacoal, em Rond & ocirc; nia.

Fazenda à beira de uma área queimada perto de Cacoal, em Rondônia.

O gado da fazenda do Sr. Felipe era conduzido em caminhões para transporte e abate.
O gado da fazenda do Sr. Felipe era conduzido em caminhões para transporte e abate.
Caminhões de gado chegaram a um frigorífico da Marfrig em Ji Paraná, município de Rondônia.
Caminhões de gado chegaram a um frigorífico da Marfrig em Ji Paraná, município de Rondônia.

O desmatamento na Amazônia aumentou nos últimos anos, à medida que os fazendeiros corriam para atender à crescente demanda por carne bovina, especialmente na China. Representantes da indústria do couro afirmam que, enquanto houver demanda por carne bovina, eles simplesmente usarão peles que, de outra forma, seriam enviadas para aterros sanitários.

Raoni Rajão, que estuda as cadeias produtivas da Amazônia na Universidade Federal de Minas Gerais, disse que, como a indústria do couro torna a pecuária mais lucrativa, ela compartilha a responsabilidade por qualquer desmatamento. “O couro pode ter alto valor agregado”, disse ele.

A perda de florestas está destruindo a capacidade da Amazônia de absorver dióxido de carbono, que as árvores retiram do ar. O dióxido de carbono da queima de combustíveis fósseis é o principal motor das mudanças climáticas. O Brasil foi uma das mais de 100 nações que se comprometeram a acabar com o desmatamento até 2030 na recente Cúpula do Clima das Nações Unidas em Glasgow.

Embora a maioria das fazendas na região amazônica não esteja ligada ao desmatamento ilegal, as descobertas mostram como o couro ilegal está entrando na cadeia de abastecimento global, contornando um sistema que os próprios frigoríficos e empresas de couro criaram nos últimos anos para tentar mostrar que seu gado vem apenas de fazendas legítimas.

Em resposta a perguntas detalhadas, JBS, Marfrig e Minerva disseram não saber que o gado da reserva Jaci-Paraná estava entrando em suas cadeias de abastecimento.

Os três disseram ter sistemas para monitorar fazendas que abastecem diretamente seus frigoríficos e que excluem fazendas que não cumprem as leis ambientais. Mas os três reconheceram que não podem rastrear fornecedores indiretos, como Felipe, que vende gado por meio de intermediários, mascarando suas origens.

Lear disse que usou “um processo de fornecimento robusto” que garantiu que funcionasse “com os fornecedores mais capazes e avançados que estão comprometidos com a compra de peles de gado criado em fazendas compatíveis”. A empresa disse que se os fornecedores violassem suas políticas, tomaria medidas que poderiam incluir o cancelamento de seus contratos “e / ou ação legal contra o fornecedor”.

A GM disse que espera que os fornecedores “cumpram as leis, regulamentos e ajam de maneira consistente com os princípios e valores” da montadora. A Ford disse que aspirava “fornecer apenas matérias-primas produzidas de maneira responsável”. A Volkswagen disse que seus fornecedores já aderiram a um alto nível de sustentabilidade.

Em Jaci-Paraná, a demanda global por couro está ajudando a sustentar um rebanho crescente de 120.000 bovinos onde a floresta existia. “Se todo o gado fosse vendido”, disse a Sra. Moser, a ex-promotora, o governo teria dinheiro suficiente “para reflorestar toda a reserva”.

Louren & ccedil; o Dur & atilde; es em sua casa nas margens do Jaci-Paran & aacute;  Rio em julho.

Lourenço Durães em sua casa às margens do rio Jaci-Paraná no mês de julho.

Chovia torrencialmente em dezembro passado quando dois homens atracaram na casa de Lourenço Durães às margens do rio Jaci-Paraná. O Sr. Durães, seringueiro de 71 anos, convidou os homens a entrar e ofereceu-lhes café. Então, após discutir o tempo por alguns minutos, um dos visitantes foi direto ao ponto.

“Não vou enganar vocês”, disse ele, segundo o Sr. Durães e um de seus amigos, que juntos descreveram o encontro recentemente. “Eu vim aqui para te matar.”

Queriam se livrar do Sr. Durães porque a terra dele vale para os fazendeiros.

Jaci-Paraná foi criada em 1996 para conceder a uma comunidade de seringueiros o direito de buscar seu sustento. O Sr. Durães está entre os últimos seringueiros. A comunidade está sendo empurrada para fora pelo desmatamento.

“Estamos com medo, mas espero justiça”, disse Durães, acrescentando que acreditava ter sido poupado naquele dia por ser um homem idoso.

Segundo o Sr. Durães e um Boletim de Ocorrência do amigo, o aspirante a pistoleiro identificou a pessoa que o enviou, mas apenas pelo apelido. A polícia não investigou, de acordo com o boletim de ocorrência, porque o Sr. Durães e seu amigo não puderam fornecer o nome completo de uma pessoa para apresentar queixa.

Em entrevista, Lucilene Pedrosa, que dirige a divisão regional da polícia, disse que sua equipe esperava que os homens dessem mais informações para que pudessem investigar.

Dados do governo analisados ​​pelo The Times mostram o apetite por terras na área. De acordo com os números, entre janeiro de 2018 e junho de 2021 fazendas operando em Jaci-Paraná em terras desmatadas ilegalmente venderam pelo menos 17,7 mil cabeças de gado para fazendas intermediárias. Os compradores eram fornecedores dos três grandes frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, segundo dados governamentais e corporativos.

A área florestal onde o Sr. Dur & atilde; es vive e extrai seringueiras.

Um caminhão madeireiro no Jaci-Paran & aacute;  reserva.

O Sr. Durães chegou em sua casa às margens do rio Jaci-Paraná.

Quase metade desse gado 17.700 foi comprado por Armando Castanheira Filho, um comerciante local que tem sido um dos maiores compradores em Jaci-Paraná e fornecedor direto para os três grandes frigoríficos. As vendas para ele criaram uma trilha de papel que ocultava que o gado era originário de fazendas ilegais.

Um repórter do Times testemunhou tal transação quando Felipe, o fazendeiro que reconheceu envolvimento no desmatamento, vendeu seus 72 bovinos este ano. O comprador naquele dia foi o Sr. Castanheira.

O Times então rastreou os animais. Onze horas depois, eles foram parar em um matadouro da Marfrig.

A Marfrig mantém um site que lista a procedência de seu gado, em um esforço para mostrar que adquire gado de forma responsável. Para a remessa de 14 de julho rastreada pelo The Times, a fazenda de Felipe não está listada no site. Mas a lista das fazendas que forneceram gado para o abate do dia seguinte inclui a fazenda do Sr. Castanheira, que fica fora da reserva.

No final daquele dia, no matadouro da Marfrig, um caminhão com o nome de um curtume, Bluamerica, saiu do matadouro carregando peles. Bluamerica é um curtume que abastece a Lear, fabricante de assentos de automóveis.

O Sr. Castanheira confirmou que parte do gado que compra da reserva vai directamente para o abate, não passando tempo na sua estância, embora a papelada indique que passaram primeiro pela sua própria quinta. Ele negou ter feito isso para esconder a origem do gado.“Não faço isso para ‘lavar’ nada”, escreveu ele em uma mensagem de texto. Ele disse que sua intenção era simplesmente lucrar com a diferença entre o que ele paga por cada animal e o que pode receber no matadouro.

Marfrig, Minerva e JBS afirmam não despachar caminhões para coleta de gado na reserva Jaci-Paraná, ou em qualquer local que não seja de seus fornecedores diretos. Os advogados da Marfrig também entraram com um relatório na polícia que relaciona os fatos descritos pelo The Times, chamando-os de “possíveis crimes de natureza criminal”.

O Sr. Castanheira agora sustenta que o repórter do Times testemunhou o único caso deste tipo de transação feita por ele. Todos os três frigoríficos disseram que agora excluíram o Sr. Castanheira de seu pool de fornecedores.

Uma estátua à beira da estrada para Ariquemes, município de Rondônia.

Odilon Caetano Felipe, à esquerda, pesou seus animais para Armando Castanheira Filho, o intermediário de gado.

A fazenda de Armando Castanheira Filho, Santo Angelo, está fora da reserva protegida. 

Dois dos proprietários do Bluamerica, empresas chamadas Viposa e Vancouros, disseram que seus fornecedores estão sujeitos a auditorias regulares e reconheceram os desafios de rastrear fornecedores indiretos. Ambas as empresas disseram estar trabalhando com o World Wide Fund for Nature, um grupo ambientalista com sede na Suíça, para melhorar seus sistemas.

No geral, uma análise dos dados do governo sobre a movimentação de gado em Jaci-Paraná e áreas próximas entre 2018 e 2021 identificou 124 transações que mostram sinais de lavagem de gado, dizem os especialistas. As transações mostram que pelo menos 5.600 cabeças de gado foram transferidas das fazendas da reserva para intermediários que, no mesmo dia, venderam gado para os três grandes frigoríficos.

Holly Gibbs, geógrafa da Universidade de Wisconsin-Madison que pesquisa o agronegócio na Amazônia há uma década, disse que, embora os intermediários legítimos muitas vezes comprem e vendam gado no mesmo dia, o fato de as transações não serem monitoradas de perto “é um enorme lacuna. ”

“Eles estão trazendo animais que foram criados em uma área protegida para as cadeias de abastecimento nacionais e internacionais”, disse ela.

A cadeia de suprimentos, da fazenda ao showroom de automóveis, é complexa. As peles dos frigoríficos Minerva e JBS vão para curtumes próprios da JBS, enquanto as peles da Marfrig são processadas principalmente pela Vancouros e Viposa, segundo dados corporativos e entrevistas. Dados comerciais compilados pela Panjiva, unidade de pesquisa de cadeia de suprimentos da S&P Global Market Intelligence, mostram que o fabricante de assentos Lear, com sede em Southfield, Michigan, é o maior comprador americano de peles da JBS, Vancouros e Viposa.

Em maio passado, fazendeiros ilegais em Jaci-Paraná conquistaram uma importante vitória. O governador de Rondônia sancionou uma medida que reduziu o tamanho da reserva em 90%.

A lei, que os promotores estão lutando na Justiça, abre caminho para que fazendeiros em terras desmatadas ilegalmente legalizem seus negócios. Os críticos da lei disseram que ela poderia abrir um precedente para mais desmatamento em outras reservas protegidas.

Independentemente do resultado dessa disputa judicial, Durães, o seringueiro, disse que não pretendia deixar seu pedaço de floresta. O pasto está agora a menos de um quilômetro de sua casa de madeira com dois cômodos.

Viver entre as poderosas árvores é a única existência que ele conhece. E ficar, disse ele, é “a única maneira de manter a floresta de pé”.
Pilhas de peles parcialmente processadas no curtume Vancouros em Londrina, Brasil.

A cada poucos segundos, no curtume Vancouros, no sul do Brasil, o som de peles de couro caindo em dezenas de tambores de madeira de 3 metros é interrompido pelos cliques de um marcador pneumático à medida que cada pele individual é perfurada com um código de sete dígitos que rastreia sua origem .

Clébio Marques, diretor comercial do curtume, arrancou um couro úmido de cor azul de uma pilha, pegou o telefone e digitou o código em um site que sua empresa criou para clientes como o Lear. Apareceram os detalhes do fornecedor daquela pele específica.

“Todo o nosso couro é rastreável”, disse ele. “Isso não é obrigatório, ninguém pediu, mas sentimos que o mercado precisava de mais transparência.”

Mas então o Sr. Marques foi apresentado com a descoberta de que um de seus fornecedores mais importantes, a Marfrig, estava comprando gado de fornecedores cujas transações apresentavam sinais de lavagem de gado. “Estou surpreso”, disse ele. “Esperamos que o produto principal seja legal.”

Ele ressaltou, porém, que o monitoramento de sua própria empresa não era o culpado. “Temos que confiar nos documentos que nos são fornecidos, porque nossa auditoria é baseada no sistema deles”, disse o Sr. Marques.

Todos os três grandes frigoríficos têm sistemas projetados para rastrear a última fazenda de onde veio o gado que abateram. No entanto, todos os três têm a mesma falha: eles não levam em consideração o fato de que o gado normalmente não passa a vida inteira em uma única fazenda. Portanto, eles não consideram que um fornecedor direto possa estar vendendo gado que na verdade foi criado por outra pessoa, em terras desmatadas ilegalmente.

Os sistemas de rastreamento foram criados após um relatório do Greenpeace de 2009 que relacionou os fornecedores brasileiros de carne e couro ao desmatamento ilegal. Hoje, as três principais empresas afirmam que têm políticas de desmatamento de tolerância zero para todos os fornecedores diretos.

Couros, destinados a curtume, em abatedouro em Porto Velho no mês de julho.
O curtume Vancouros é um dos fornecedores da Lear, mostram os dados do trade. 
Um matadouro em Porto Velho.  A China é um grande comprador da carne bovina produzida no Brasil.

Todos os três principais matadouros publicam publicamente seus dados de rastreamento online. O da JBS é o mais detalhado; as outras empresas omitem a localização precisa das fazendas. Foi a análise do Times desses dados do JBS para 2020, o ano mais recente disponível, que indicou que os fornecedores da empresa incluíam fazendas que podem ter violado regras governamentais destinadas a evitar o desmatamento e deslocamento de indígenas.

A JBS disse que todos os seus fornecedores estavam em conformidade no momento da compra. Marfrig e Minerva disseram que compartilharam tantas informações sobre seus fornecedores diretos quanto permitido pela lei de privacidade de dados do Brasil.

Como parte desse processo, os curtumes contam com uma organização financiada pelo setor, o Leather Working Group, para certificar sua conformidade. O grupo atribuiu sua classificação máxima, “ouro”, a todos os curtumes amazônicos que fornecem couro à Lear, o que significa que eles aderem a práticas ambientalmente sustentáveis.

Em nota, o grupo afirmou que está trabalhando para melhorar seus protocolos de rastreabilidade, mas que “devido à complexidade dos sistemas agrícolas no Brasil e à falta de bancos de dados disponíveis ao público, ainda não há, infelizmente, uma solução fácil para esta situação”.

JBS, Marfrig e Minerva se comprometeram publicamente a melhorar o rastreamento das fazendas que vendem gado a seus fornecedores diretos. A JBS disse que rastreará uma camada de fornecedores indiretos até 2025. A Marfrig prometeu rastrear todos os seus fornecedores indiretos na Amazônia até 2025 e a Minerva disse que teria cadeias de suprimentos totalmente rastreáveis ​​na América do Sul até 2030.

“Apenas a rastreabilidade do nascimento ao abate para animais individuais será suficiente para garantir que não haja desmatamento nessas cadeias de suprimento de alto risco na Amazônia”, disse Rick Jacobsen, da Agência de Investigação Ambiental, o grupo sem fins lucrativos.

Pilhas de couro em operação da Vancouros em Londrina.

Os assentos de couro do SUV Escalade da Cadillac, descrito por um revendedor no estado de Washington como “um hotel de luxo sobre rodas”, pode elevar o preço do modelo top de linha da General Motors para mais de US $ 100.000.

O Escalade é um dos muitos veículos vendidos nos Estados Unidos que usa bancos de couro e outros enfeites da Lear, empresa que comanda cerca de um quinto do mercado mundial de bancos automotivos.

Nem a Lear, nem a GM, de onde vem o couro para os assentos do carro. As importações de couro brasileiro pela Lear aumentaram na última década, impulsionadas por um salto no couro proveniente da JBS, de acordo com dados da Panjiva, empresa de dados de cadeia de suprimentos. No ano passado, a Lear foi a maior importadora americana de couros e peles do Brasil, importando cerca de 6 mil toneladas, a maior parte da JBS, segundo dados da Panjiva.

Caminhões de grande porte e utilitários esportivos grandes são uma força crescente por trás da demanda por adereços de couro na indústria automobilística. Para muitos compradores, o couro “é sinônimo de luxo e geralmente agrega valor de revenda significativo”, disse Drew Winter, analista sênior da Wards Intelligence, uma empresa de pesquisa automotiva.

Raymond E. Scott, presidente-executivo da Lear, expôs a importância dos veículos de luxo em uma apresentação para investidores em junho. A empresa detém 45 por cento do mercado de luxo, disse ele. E o que estava impulsionando o crescimento no negócio de assentos de Lear era “realmente a força dos caminhões grandes e SUVs da GM”, uma linha que também inclui o Yukon, Chevrolet Tahoe e Suburban.

No Brasil, “100 por cento de nossos fornecedores usam geo-esgrima” (uma tecnologia que usa GPS para estabelecer uma cerca virtual) “para garantir que eles não comprem animais de fazendas envolvidas com o desmatamento”, disse Lear em um comunicado de 2018 .

No entanto, as conclusões do The Times no Brasil indicam que os fornecedores da Lear não tinham a capacidade de rastrear todo o gado dessa forma.

Lear disse que exige que todos os fornecedores cumpram uma política de não desmatamento, que proíbe o uso de qualquer material proveniente de áreas desmatadas ilegalmente ou de terras indígenas ou outras terras protegidas. De acordo com registros corporativos, os outros maiores clientes de Lear são Ford, Daimler, Volkswagen e Stellantis, formadas a partir da fusão da Fiat Chrysler com a fabricante francesa de carros Peugeot e Citroën.

Pastagens próximas a Buritis, no estado de Rond & ocirc; nia.

Curtume Vancouros em Londrina.

Um Cadillac Escalade na estreia de um filme no ano passado em Los Angeles.

Crédito…David Mcnew / EPA, via Shutterstock

A General Motors disse que sua cadeia de suprimentos foi “construída sobre relacionamentos fortes, transparentes e confiáveis”. A Ford disse que manteve a si mesma e a seus fornecedores padrões ambiciosos e “se saiu bem em muitas áreas e pode melhorar em outras”. A Volkswagen disse que está trabalhando para rastrear melhor a cadeia de suprimentos até a fazenda.

Daimler disse que uma pequena porcentagem de seu couro veio do Brasil. Stellantis disse que compartilha preocupações sobre rastreabilidade e está trabalhando ativamente para confirmar a localização de curtumes e fazendas em sua cadeia de abastecimento.

No ano passado, cerca de um terço das 15 mil toneladas de couro importadas para os Estados Unidos vieram do Brasil, que recentemente ultrapassou a Itália para se tornar o maior exportador de couro e peles para a América. Muito desse aumento pode ser atribuído à indústria automobilística.

A maior parte dos embarques de couro da JBS para a Lear nos Estados Unidos viaja de São Paulo para Houston, segundo dados comerciais da Panjiva. De lá, grande parte é transportada de caminhão pela fronteira mexicana para uma das duas dúzias de fábricas de assentos de automóveis operadas pela Lear no México, onde os trabalhadores cortam as peles e as costuram nas capas dos assentos.

O couro é então transportado de volta pela fronteira. De janeiro de 2019 a junho de 2021, as fábricas da Lear no México enviaram pelo menos 1.800 toneladas de couro para os Estados Unidos, de acordo com dados de transporte registrados pela Pesquisa de Materiais.

Seu destino final: instalações da Lear em todo o país. Eles tendem a estar localizados mais próximos das montadoras finais de automóveis, tornando mais fácil para a empresa combinar as cores e outras variações dos modelos que chegam nas linhas de montagem dos veículos.

Um desses destinos é a fábrica da General Motors em Arlington, Texas, um campus extenso em 250 acres onde a montadora produz alguns dos maiores e mais luxuosos caminhões da empresa, incluindo o Escalade. Os trabalhadores automotivos montam cerca de 1.300 SUVs por dia para venda nos Estados Unidos e também para exportação.

A 10 minutos de carro, Lear possui uma fábrica de assentos de couro.

Reportagem de Manuela Andreoni da reserva Jaci-Paraná no Brasil. Hiroko Tabuchi e Albert Sun relataram de Nova York.

Hiroko Tabuchi é uma repórter investigativa da mesa do clima. Ela fazia parte da equipe do Times que recebeu o Pulitzer de 2013 para reportagem explicativa.@HirokoTabuchiFacebook

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Este artigo foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The New York Times” [Aqui!].

Extremistas de direita formam uma rede influente nos EUA, revela livro de autora alemã

Annika Brockschmidt analisa detalhadamente os evangélicos nos EUA e seu papel político em seu livro “America’s Warrior of God”

capitol invasiomUm homem declama passagens da Bíblia durante a tempestade no Capitólio, na capital dos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021. Foto: imago images / Joel Marklund

Por Isabella A. Caldart para o Neues Deutschland

Quando um conglomerado de extremistas de direita, fãs de Donald Trump, cristãos de direita e crentes na conspiração (a maioria deles estavam todos juntos) invadiu o Capitólio em Washington, DC em 6 de janeiro de 2021, políticos e jornalistas de todo o mundo expressaram sua grande surpresa para a multidão furiosa. Os especialistas, no entanto, não ficaram muito surpresos; eles há muito alertavam sobre um evento como esse, pelo menos desde a vitória de Joe Biden nas eleições em novembro de 2020 ou o fracasso em reconhecer a vitória de muitos republicanos.

 também não se surpreendeu. Até agora, Brockschmidt é conhecida principalmente no Twitter; Quase 50.000 pessoas a seguem sob o apelido de @ardenthistorian, que apreciam seus tópicos detalhados com análises políticas, especialmente na Alemanha e nos EUA. Agora, a jornalista freelance, que recentemente foi eleita na lista “Top 30 under 30” da “Medium Magazine”, publicou um livro complexo chamado “America’s Warrior of God” sobre “Como os direitos religiosos ameaçam a democracia”, disse Subtitle. Nele, Brockschmidt disseca o nacionalismo cristão e seu casamento com o Partido Republicano.

Conhecimento básico necessário

Antes de mais nada, é preciso dizer: este livro não é para leitores que têm pouca ideia sobre os Estados Unidos. Se nomes como Steve Bannon, Nancy Pelosi, Sarah Palin ou Mitch McConnell não significam nada, se você não tem uma ideia aproximada de como a Suprema Corte funciona, o que a estação de televisão Fox News representa ou qual a abreviatura GOP significa que você rapidamente se perderá aqui. “America’s Warrior of God” não é uma literatura introdutória à política e à sociedade americanas, mas um livro que vai em profundidade, como de outra forma só as obras em inglês o fazem.

Reconhecidamente, é fácil perder de vista os muitos nomes de pessoas e redes, os muitos fatos. É como um milagre que Brockschmidt não o faça (há uma lista de 60 páginas de fontes e referências no apêndice). Mas no final, não importa se você não se lembra de todos os detalhes, porque a declaração abrangente do livro é importante: Evangélicos brancos e organizações religiosas e políticas de direita estão incrivelmente bem conectados – e sua influência vai muito mais longe do que mais suspeito.

Derrotas como parte do plano

Em »America’s Divine Warriors«, Annika Brockschmidt esclarece muitos mitos e surpreenderá alguns leitores no processo. Você sabia que não foi até a década de 1970 que os republicanos se transformaram nos militantes antiaborto que conhecemos hoje? Porque estava claro para o partido que não iria mobilizar as grandes massas com sua questão real, a luta contra a segregação, ele buscava outra. “Não foi a liberalização do aborto, mas a abolição da segregação que foi o principal motor da reforma da direita religiosa”, diz o autor. E esse driver puxa: »Uma coisa não mudou desde os anos de fundação da nova direita religiosa na década de 1970:

Este grupo radical atingiu o auge naturalmente com a eleição de Trump como presidente. Pode ser surpreendente que ele tenha recebido tanto apoio dos evangélicos, de todas as pessoas, embora ele não seja uma pessoa particularmente religiosa e presumivelmente nunca tenha lido a Bíblia pela qual os evangélicos brancos juram isso. Mas se você der uma olhada mais de perto, reconhece os paralelos na visão de mundo dos cristãos radicais e capitalistas, como explica Brockschmidt: »[Em] grandes partes do evangelismo conservador, desvantagens estruturais baseadas na origem, cor da pele ou origem social são negadas porque sua existência vai contra os pressupostos básicos de fé. Mais uma vez, a combinação de capitalismo, economia de mercado livre, individualismo e privilégio branco desempenha um papel central. «As estruturas patriarcais também são de grande importância: Na família nuclear heterossexual, o homem é o cabeça, na fé cristã Deus – alguns constroem por motivos religiosos, o ideal papai-mãe-filho, outros sabem que a divisão exata do trabalho é boa para a estabilidade econômica.

Preparação para as eleições intermediárias

Mas é claro que o “Guerreiro de Deus da América” ​​não é apenas sobre Trump, afinal, toda a história dos Estados Unidos é racista e religiosa. Brockschmidt rola a história especialmente a partir do século 20, explica muitas origens, várias atitudes cristãs radicais e o significado dos filmes radicais cristãos e “televangelistas” como os pregadores da televisão, também explica a influência da mídia correspondente e o perigo do sistema de ensino doméstico Teorias da conspiração até a pandemia de corona – e, finalmente, a tempestade no CapitólioE nos lembra: Mesmo que talvez tenha havido um revés temporário com a eleição de Joe Biden, muitos dos evangélicos pensam em décadas, até mesmo em séculos. “As derrotas fazem parte do plano, são vistas como passos necessários no caminho para a meta.” Uma meta que diz para abolir a separação entre Igreja e Estado e a liberdade religiosa pouco a pouco.

O livro de Annika Brockschmidt não é otimista. Ela não pinta o diabo na parede, mas explica sobriamente quais são os efeitos das redes da direita religiosa e, acima de tudo, os últimos anos Trump e a recusa de muitos republicanos em reconhecer sua derrota eleitoral para as eleições de meio de mandato em novembro de 2022 e para as presidenciais eleições em 2024 para as quais a população dos EUA já está se preparando lentamente. É precisamente por isso que é tão importante ler “Guerreiros de Deus da América”. Não podemos dizer que não fomos avisados.

Annika Brockschmidt – America’s Divine Warriors, Rowohlt Polaris, 416 páginas, brochura, 16 euros.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

O US$ 2,6 trilhões gastos pelos EUA na guerra do Afeganistão e a hipocrisia do “Day After”

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De volta ao poder, os Talibãs venceram uma guerra que custou US$ 2,6 trilhões aos EUA

Muitos analistas internacionais, incluindo aqueles operando em veículos da mídia corporativa brasileira, passaram os últimos dias soltando lágrimas de jacaré pelas mulheres e meninas afegãs que agora passarão a conviver com uma versão especialmente dura da lei islâmica, a sharia.  Essa postura é acima de tudo muito hipócrita, pois nada se fala das violências cometidas contra essas mesmas mulheres e crianças pelos soldados das forças de ocupação lideradas pelos EUA. É como se os últimos 20 anos no Afeganistão tenham sido um mar de rosas que agora é interrompido pela volta relâmpago dos talibãs, o qual foi permitido em grande parte pela retirada das forças estadunidenses.

crinaças e mulheres afegãs

Mulheres e meninas afegãs deverão sofrer grande repressão sob a versão da sharia adotada pelos Talibãs

Um detalhe que passa batido por muitos analistas é a disparidade dos recursos gastos pelos EUA na sua máquina de guerra com a economia do Afeganistão. Segundo valores estimados, a guerra no Afeganistão teria custado incríveis US$ 2,6 trilhões aos cofres estadunidenses. Para quem não se deu ao trabalho dever o PIB do Afeganistão em 2020, eu informo que o valor foi de US$ 19,94 bilhões. Ou seja, o Afeganistão levaria cerca de 131 anos para gerar o mesmo valor com a riqueza gerada em sua economia para chegar ao valor gasto em 20 anos pelos EUA na sua malograda guerra contra o Talibãs. Ainda dentro desse raciocíonio, o valor gasto pelos EUA anualmente, que foi de US$ 130 bilhões, foi o equivalente a 6,5 o PIB  anual do Afeganistão.

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Guerrilheiro talibã em sala de ginástica abandonada pelas tropas dos EUA

Imaginemos agora que todo o dinheiro gasto em matar e destruir a infraestrutura do Afeganistão tivesse sido investido em efetivamente reconstruir a infraestrutura que já havia sido duramente atacada na guerra contra as tropas sovietáticas que, como as forças internacionais, tinham invadido um pequeno país montanhoso e que era e continua sendo habitado por uma população de camponeses e pastores.  É muito provável que isso tivesse fortalecido as noções de vida moderna que os talibãs são tidos como a antítese. 

A verdade crua e nua é que os EUA apoiaram os Talibãs (para não dizer que criaram) e armaram o grupo na guerra contra a extinta URSS. Agora, após gastar  2,6 trilhões de dólares em uma guerra inútil, se retiram de forma desastrada e entregam o poder praticamente sem luta para os mesmos Talibãs.  Assim, não venham me dizer que o maior problema do povo afegão são os Talibãs, pois me parece evidente que eles são apenas a expressão de uma opção das forças dominantes da economia global pela produção de riqueza via gastos gigantescos na manutenção de sua indústria de guerra.  E no meio disso que se explodam as mulheres e crianças do Afeganistão, como já se explodiram as mulheres e crianças do Vietnã.

Talibãs voltam ao poder no Afeganistão, em uma derrota histórica dos EUA

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Líderes do Talibã ocupam Palácio Presidencial em Cabul neste domingo (15 de agosto de 2021)

O grupo Talibã precisou de meros 20 dias para desconstruir o que os EUA e seus aliados militares levaram 20 anos tentando impor no Afeganistão. Como assisti pela TV a fuga improvisada das tropas americanas de Saigon (hoje Ho Chi Min City), não tenho como deixar de enxergar paralelos quando vejo cenas semelhantes ocorrendo em Cabul.

As perspectivas para o povo afegão são da volta imediata de um governo que adota os preceitos mais radicais do Islamismo, impondo retrocessos profundos nos direitos das mulheres afegãs que novamente deverão proibidas de se escolarizarem, apenas para começo de conversa.

A questão aqui não é tanto pela rápida vitória militar dos Talibãs. Me parece mais importante questionar como os EUA e seus aliados passaram duas décadas impondo uma guerra continua a todo o povo afegão à guisa de impedir novos episódios de terrorismo em suas próprias fronteiras, enquanto foram incapazes não apenas de selarem a destruição da resistência, mas principalmente de deixarem qualquer melhoria objetiva na vida da maioria da população.

Como os Talibãs não chegaram à vitória apenas por suas próprias forças, apesar de todo o apoio popular que possuem, o fundamental é ver como os financiadores da empreitada que terminou hoje com a entrada da sua liderança política no palácio de governo em Cabul vão se comportar. É que se ficarem apenas na imposição da mesma lógica aplicada pelos EUA,  há uma grande possibilidade de que o Afeganistão ficará envolto em uma inevitável guerra civil.

Se o quadro da guerra civil se confirmar, o que teremos naquela parte da Ásia será um clima de instabilidade que poderá gerar graves consequências para todos os países envolvidos.  E basta ver o mapa do Afeganistão para notar que entre os seus vizinhos já existe pólvora suficiente para começar várias guerras localizadas.

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Como geógrafo não posso deixar de notar que a saída dos EUA do Vietnã acabou gerando não apenas a reunificação do sul com o norte, mas também um processo de estabilização de toda a região que também tinha sido duramente atingida pela guerra. No caso do Afeganistão, o que poderá ocorrer é justamente o contrário, dependendo do que fizerem os apoiadores dos Talibãs.  Há quem diga que este seja a jogada estratégica feita pelos comandantes militares estadunidenses no Pentágono.

Ah sim, que ninguém se surpreenda se Sylvester Stallone reaparecer rapidamente nas telas de TV (via algum inédito da Netflix) na pele de John Rambo para salvar a honra militar dos EUA. É que essa é uma das receitas mais manjadas para livrar a cara em derrotas militares infringidas por soldados pés descalço contra a maior máquina de guerra que a civilização humana já produziu.

COVID-19 nos EUA: hospitais lotam novamente em estados com baixos níveis de vacinação

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Por Katharina Buchholz para o Statista
 Hospitais em alguns estados dos EUA com baixas taxas de vacinação, por exemplo Louisiana, estão se enchendo mais uma vez de pacientes com coronavírus infectados com a variante Delta.

Uma comparação de dados de hospitalização dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e números de vacinação coletados por Our World in Data mostra que as hospitalizações tendem a ser significativamente maiores nos estados dos EUA, onde um grande número de pessoas não vacinadas permanece.

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Dos cinco estados menos vacinados de acordo com o Our World in Data e os números de 2020 do US Census Bureau, quatro experimentaram níveis elevados de hospitalizações. Louisiana, onde mais de 60% permanecem não vacinados, teve o segundo maior nível de hospitalizações COVID-19 no país em 520 para cada milhão de habitantes. Alabama e Mississippi, onde cerca de dois terços ainda não estão totalmente vacinados, ficaram logo atrás, com 446 e 473 pacientes com coronavírus no hospital por um milhão de pessoas. Apesar das baixas taxas de vacinação, a situação era menos tensa no pouco povoado Wyoming.

A Flórida, onde apenas cerca de metade da população não está totalmente vacinada, apresenta atualmente o maior número de pacientes hospitalizados com COVID-19, com 648 por milhão de pessoas. Os melhores estados vacinados, localizados na Costa Leste, não experimentaram tais surtos perigosos de infecções por coronavírus. Apesar de também ter entre 34 e 40 por cento de residentes não vacinados, as internações hospitalares permaneceram na casa dos dois dígitos.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela Statista [Aqui! ].

Desigualdade privada: como uma indústria poderosa (a dos fundos de private equity) conquistou o sistema tributário dos EUA

O IRS quase nunca audita fundos de private equity, mesmo quando delatores entram com ações alegando evasão fiscal ilegal.

private 1Chip Somodevilla / Getty Images

Jesse Drucker e 

Faltavam duas semanas para o governo Trump quando o Departamento do Tesouro aprovou um conjunto de regras que regem um canto obscuro do código tributário.

Supervisionado por um alto funcionário do Tesouro cujo trabalho anterior envolvia ajudar os ricos a evitar impostos, os novos regulamentos representaram uma grande vitória para as firmas de private equity. Eles garantiram que os executivos do setor de US $ 4,5 trilhões, cujos líderes costumam medir seu salário anual em oito ou nove dígitos, pudessem evitar o pagamento de centenas de milhões em impostos.

As regras foram aprovadas em 5 de janeiro , um dia antes do tumulto no Capitólio dos Estados Unidos. Quase ninguém percebeu.

O presente de despedida do governo Trump à indústria de aquisições foi parte de um padrão que abrangeu as presidências e congressos republicanos e democratas: o private equity conquistou o sistema tributário americano.

A indústria aperfeiçoou estratégias de evasão fiscal tão agressivas que pelo menos três funcionários de private equity alertaram a Receita Federal sobre táticas potencialmente ilegais, de acordo com pessoas com conhecimento direto das reivindicações e documentos analisados ​​pelo The New York Times . As denúncias de delator, anteriormente não relatadas, envolviam sonegação de impostos em dezenas de firmas de private equity.

Mas o IRS, sua equipe esvaziada depois de anos de cortes no orçamento, levantou as mãos quando se trata de policiar a indústria politicamente poderosa.

Embora exames intensivos de grandes empresas multinacionais sejam comuns, o IRS raramente realiza auditorias detalhadas de empresas de private equity, de acordo com funcionários atuais e antigos da agência.

Essas auditorias são “quase inexistentes”, disse Michael Desmond, que deixou o cargo este ano como conselheiro-chefe do IRS. A agência “simplesmente não tem os recursos e experiência”.

Um motivo pelo qual raramente enfrentam auditorias é que as empresas de private equity implantaram uma vasta rede de parcerias para coletar seus lucros. As parcerias não devem imposto de renda. Em vez disso, eles passam essas obrigações para seus sócios, que podem chegar aos milhares em uma grande firma de private equity. Isso torna as estruturas notoriamente complicadas para os auditores desemaranharem.

Cada vez mais, a agência não se incomoda. Pessoas que ganham menos de US $ 25.000 têm pelo menos três vezes mais probabilidade de serem auditadas do que sociedades, cuja renda flui predominantemente para o 1% mais rico dos americanos.

As consequências desse desequilíbrio são enormes.

Segundo uma estimativa recente , os Estados Unidos perdem US $ 75 bilhões por ano com investidores em parcerias que não relatam sua receita com precisão – pelo menos parte da qual provavelmente seria recuperada se o IRS conduzisse mais auditorias. Isso é o suficiente para quase dobrar os gastos federais anuais com educação.

É também uma subavaliação dramática do verdadeiro custo. Não inclui o conjunto de manobras em constante mudança – muitas vezes ultrapassando os limites da lei – que as empresas de private equity desenvolveram para ajudar seus gerentes a evitar o imposto de renda sobre os cerca de US $ 120 bilhões que a indústria paga a seus executivos a cada ano.

A capacidade de private equity de derrotar o IRS, o Tesouro e o Congresso explica em muito as profundas desigualdades no sistema tributário dos Estados Unidos. Quando se trata de financiar o governo federal, os mais ricos dos Estados Unidos – muitos deles vindos do setor de private equity – jogam com um conjunto de regras totalmente diferente do que todos os outros.

O resultado é que homens como o presidente-executivo do Blackstone Group, Stephen A. Schwarzman, que ganhou mais de US$ 610 milhões no ano passado, podem pagar impostos federais a taxas semelhantes às do americano médio.

Os legisladores têm tentado periodicamente forçar o private equity a pagar mais, e o governo Biden propôs uma série de reformas, incluindo a ampliação do orçamento de fiscalização do IRS e o fechamento de brechas. O impulso para a reforma ganhou novo ímpeto após a recente revelação da ProPublica de que alguns dos homens mais ricos da América pagavam pouco ou nenhum imposto federal.

A indústria de private equity, que tem uma frota de quase 200 lobistas e distribuiu quase US $ 600 milhões em contribuições de campanha na última década, atrapalhou repetidamente os esforços anteriores para aumentar sua carga tributária.

private 2Foto da piscina por Toni L. Sandys

O comissário do IRS, Charles Rettig, que foi nomeado pelo presidente Donald J. Trump, se recusou a ser entrevistado para este artigo. Mas em depoimento perante o Comitê de Finanças do Senado na terça-feira, ele reconheceu que a agência não estava fazendo o suficiente para examinar as parcerias.

“Se você é um trapaceiro rico em uma sociedade, suas chances de ser auditado são ligeiramente maiores do que as chances de ser atingido por um meteorito”, disse o senador Ron Wyden, presidente do comitê, a Rettig na audiência. “Por uma questão de justiça e de orçamento, faz muito mais sentido ir atrás de trapacear pelos grandes caras do que focar nos trabalhadores”.

No entanto, não foi isso que o IRS fez.

As empresas de private equity normalmente tomam dinheiro emprestado para comprar empresas que consideram maduras para uma recuperação. Em seguida, cortam custos e revendem o que sobra, geralmente carregados de dívidas. O setor possui empresas de nome comercial em quase todos os setores. Hoje, seus principais ativos incluem Staples, Petco, WebMD e o catálogo de back music da Taylor Swift .

A indústria ganha dinheiro de duas maneiras principais. As empresas normalmente cobram de seus investidores uma taxa de administração de 2% de seus ativos. E ficam com 20% dos lucros futuros gerados por seus investimentos.

Essa fatia dos lucros futuros é conhecida como “juros transportados”. O termo data pelo menos da Renascença. Os capitães de navios italianos eram compensados ​​em parte com juros sobre quaisquer lucros realizados na carga que transportavam .

O IRS há muito permite que a indústria trate o dinheiro que ganha com os juros contabilizados como ganhos de capital, em vez de receita ordinária.

Para os fundos de private equity, é uma distinção lucrativa. A taxa de imposto federal sobre ganhos de capital de longo prazo é atualmente de 20%. A principal alíquota de imposto de renda federal é de 37%.

private 3Ariana Drehsler para The New York Times

A brecha é cara. Victor Fleischer, professor de direito da Universidade da Califórnia em Irvine, estima que isso custará ao governo federal US $ 130 bilhões na próxima década.

Em 2006, o Sr. Fleischer publicou um artigo influente destacando a desigualdade do tratamento tributário. Isso fez com que legisladores de ambas as partes tentassem fechar a chamada brecha do juro realizado. A campanha intermitente continua desde então.

Sempre que a legislação ganha ímpeto, o setor de private equity – junto com o imobiliário, o capital de risco e outros setores que dependem de parcerias – aumenta as contribuições de campanha e despacha executivos de alto escalão para o Capitólio. Um projeto após o outro morreu, geralmente sem votação.

Um dia, em 2011, Gregg Polsky, então professor de direito tributário na Universidade da Carolina do Norte, recebeu um e-mail inesperado. Era de um advogado de um ex-executivo de private equity. O executivo entrou com uma ação de denúncia junto ao IRS, alegando que sua antiga empresa estava usando táticas ilegais para evitar impostos.

O delator queria o conselho do Sr. Polsky.

O Sr. Polsky havia servido anteriormente como “professor residente” do IRS e, nessa função, desenvolveu uma especialização em como os enormes lucros das firmas de private equity eram tributados. De volta à academia, ele publicou um artigo científico detalhando uma técnica de sonegação de impostos do setor pouco conhecida, mas difundida.

As firmas de private equity já desfrutavam de taxas de imposto de base de negociação sobre seus juros transportados. Agora, escreveu Polsky, eles criaram uma maneira de aplicar a mesma taxa baixa a suas taxas de administração de 2%.

A manobra havia sido esboçada alguns anos antes pelo escritório de advocacia do Vale do Silício Wilson Sonsini Goodrich & Rosati, em uma apresentação de 48 páginas repleta de diagramas esquemáticos e linguagem que apenas um executivo de finanças poderia amar. “Objetivo”, dizia um slide. “Mude a economia da Taxa de Gestão para obter o tratamento tributário de Juros Transportados, sem reduzir o fluxo de caixa do GP ou adicionar riscos inaceitáveis.”

Em suma, as empresas de private equity e outras parcerias poderiam renunciar a uma parte de suas taxas de administração de 2% e, em vez disso, receber uma parcela maior dos lucros de investimentos futuros. Foi um pouco de embaralhamento de papel que reduziu radicalmente suas contas de impostos sem reduzir sua renda.

A técnica tinha um nome: “isenção de taxas”.

Logo, as maiores firmas de capital privado, incluindo Kohlberg Kravis Roberts, Apollo Global Management e TPG Capital, estavam incorporando acordos de isenção de taxas em seus acordos de parceria. Alguns pararam de usar a isenção de taxas quando se tornaram empresas de capital aberto, mas o dispositivo para evitar impostos continua sendo amplamente utilizado no setor.

“É como transformar suas taxas em ganhos de capital”, disse Polsky, cujo jornal argumentou que o IRS poderia usar provisões antigas do código tributário para reprimir as isenções de taxas. “Eles colocam palavras mágicas em um documento para transformar a renda ordinária em ganhos de capital. Eles têm zero substância econômica e escapam impunes. ”

Por isso o denunciante estava entrando em contato.

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Crédito…Eamon Queeney para The New York Times

Polsky começou a conversar com o ex-executivo de private

Em pouco tempo, Polsky ouviu de um segundo denunciante. E então um terceiro.

Os denunciantes – cujas reivindicações não divulgadas anteriormente não são públicas, mas foram revisadas pelo The Times – obtiveram de forma independente dezenas de acordos de parceria com empresas de capital de risco e private equity de ex-colegas do setor, expondo as isenções de taxas em detalhes.

equity, cuja alegação do IRS acusa três empresas de usar ilegalmente isenções de taxas. (Os denunciantes recebem uma parte de tudo o que o IRS recupera como resultado de suas reivindicações.).

Todos os arranjos tinham a mesma estrutura básica. Digamos que um gerente de private equity recebesse uma taxa de administração de US $ 1 milhão, que seria tributada como renda normal, agora a uma taxa de 37%. De acordo com a isenção de taxas, o gerente concordaria em coletar $ 1 milhão como parte dos lucros futuros, que ele alegaria ser um ganho de capital sujeito ao imposto de 20%. Ele ainda receberia a mesma quantia de dinheiro, mas economizaria $ 170.000 em impostos.

Os delatores, dois dos quais contrataram Polsky para aconselhá-los, argumentaram que se tratava de uma flagrante evasão fiscal. Toda a ideia por trás da remuneração dos gerentes sendo tributada à taxa de ganhos de capital era que eles envolviam um risco significativo; estes envolviam quase nenhum.

Muitos dos acordos até permitiam que os parceiros recebessem as taxas dispensadas se seu fundo de private equity perdesse dinheiro.

Foi o que aconteceu na Bain Capital, cujas táticas um delator chamou a atenção do IRS em 2012. Naquele ano, o ex-chefe da Bain, Mitt Romney, foi o candidato republicano à presidência.

A reclamação de outro denunciante descreveu as isenções de taxas usadas na Apollo – uma das maiores firmas de aquisições do mundo, com US$ 89 bilhões em ativos de private equity – como sendo “abusivas” e uma “forma mal disfarçada de pagar à administradora seu salário trimestral”

A Apollo disse em um comunicado que a empresa parou de usar isenções de taxas em 2012 e “não está ciente de quaisquer consultas do IRS envolvendo o uso de isenções de taxas pela empresa”.

Impelido pelo menos em parte pelas alegações de delatores, o IRS começou a examinar as isenções de taxas em várias firmas de private equity, de acordo com documentos da agência e advogados que representavam as firmas.

Esta seria a última vez que o IRS examinaria seriamente o patrimônio privado, e não seria muito.

private 5Doug Mills / The New York Times

No início de seu primeiro mandato, o presidente Barack Obama lançou a ideia de reprimir os juros transportados.

Empresas de private equity se mobilizaram. Os gastos com lobby de Blackstone aumentaram quase um terço naquele ano, para US $ 8,5 milhões . (Matt Anderson, um porta-voz da Blackstone, disse que os executivos seniores da empresa “estão entre os maiores contribuintes individuais do país”. Ele não divulgou a taxa de imposto de Schwarzman, mas disse que a empresa nunca usou isenções de taxas.)

Os legisladores ficaram com medo. A iniciativa fracassou.

Em 2015, o governo Obama adotou uma abordagem mais modesta. O Departamento do Tesouro emitiu regulamentos que proibiam certos tipos de isenções de taxas especialmente agressivas.

Mas ao explicitar isso, as novas regras codificaram a legitimidade das isenções de taxas em geral, que até aquele ponto muitos especialistas consideravam abusivas.

Para a frustração de alguns funcionários do IRS, as firmas de private equity agora tinham um roteiro para construir os acordos sem entrar em conflito com o governo. (A agência continuou a revisar as isenções de taxas em algumas empresas onde denunciantes levantaram questões).

O secretário do Tesouro na época, Jacob Lew, ingressou em uma empresa de private equity após deixar o cargo. O mesmo fez seu antecessor no governo Obama, Timothy F. Geithner.

Dentro do IRS – que perdeu cerca de um terço de seus agentes e diretores de 2008 a 2018 – muitos viam as redes de parcerias interligadas de private equity concebidas para confundir auditores e evitar impostos.

Um agente do IRS reclamou que “a receita é empurrada para baixo em muitos níveis, você nunca é capaz de descobrir onde existem os problemas reais ou a duplicação das deduções”, de acordo com uma investigação de parcerias do US Government Accountability Office em 2014. Outro agente disse o propósito de grandes parcerias parecia estar dificultando a identificação de fontes de renda e incentivos fiscais.

O Times analisou 10 anos de relatórios anuais apresentados pelas cinco maiores empresas de capital privado de capital aberto. Eles não continham nenhum vestígio de que as empresas tivessem de pagar um dinheiro extra ao IRS e se referiam apenas a pequenas auditorias que, segundo eles, dificilmente afetariam suas finanças.

Funcionários do IRS atuais e antigos disseram em entrevistas que tais auditorias geralmente envolviam questões como a contabilidade das empresas para os custos de viagem, ao invés de cálculos importantes sobre seus lucros tributáveis. As autoridades disseram não ter conhecimento de nenhuma auditoria significativa recente de empresas de private equity.

Por um tempo, parecia que haveria uma exceção a essa regra geral: as análises do IRS sobre as isenções de taxas estimuladas pelas alegações de delatores. Mas logo ficou claro que faltava força ao esforço.

A agência não auditou a maioria das 32 firmas de private equity que foram objeto das denúncias de um delator, de acordo com um documento do IRS revisado pelo The Times. Até agora, a agência parece ter recuperado apenas pequenas quantias em impostos atrasados, incluindo um total de menos de US $ 1 milhão de duas empresas, de acordo com duas pessoas familiarizadas com as auditorias. (Algumas auditorias estão em andamento.)

Em 2014, o IRS começou a auditar as isenções de taxas usadas pela Thoma Bravo, uma grande empresa de capital privado de São Francisco que possui empresas como McAfee e JD Power, de acordo com registros analisados ​​pelo The Times. Um dos delatores afirmou que os administradores da Thoma Bravo estavam evitando impostos, alegando que sua renúncia de receita era um ganho de capital, embora representasse um risco insignificante.

Os agentes tentaram impor impostos e multas atrasados ​​à Thoma Bravo, mostram os registros. A empresa recorreu. Um painel de revisão interno do IRS ficou do lado da Thoma Bravo. O desafio acabou. “Não estamos propondo nenhum ajuste” nas declarações de impostos da empresa, informou um funcionário do IRS no escritório da agência em Chicago a Thoma Bravo em uma carta de julho de 2018, revisada pelo The Times.

Um porta-voz da Thoma Bravo não quis comentar.

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David Degner para The New York Times

Kat Gregor , advogada tributária do escritório de advocacia Ropes & Gray, disse que o IRS contestou a isenção de taxas usada por quatro de seus clientes, que ela não quis identificar. Os auditores lhe pareceram destreinados no emaranhado de leis tributárias que regem as sociedades.

“É o equivalente a escolher alguém que estava acostumado a conduzir uma entrevista em inglês e dizer a ele para fazer isso em espanhol”, disse Gregor.

As auditorias de seus clientes foram concluídas no final de 2019. Nenhum devia dinheiro.

Como candidato presidencial, Trump prometeu “eliminar a dedução de juros transportados, dedução bem conhecida e outras lacunas de interesse especial que têm sido tão boas para os investidores de Wall Street e para pessoas como eu, mas injustas para os trabalhadores americanos ”

Mas sua administração, repleta de veteranos dos mundos de private equity e hedge funds, recuou da questão.

Em 2017, enquanto os republicanos se apressavam em um amplo pacote de cortes de impostos, os democratas tentavam inserir uma linguagem que recuperaria parte da receita, arrecadando mais do capital privado. Eles falharam.

“O patrimônio privado pesa de forma tão consistente e agressiva e está sempre dizendo que a civilização ocidental vai acabar se eles tiverem que pagar impostos anualmente a taxas de renda normais”, disse Wyden, um democrata do Oregon.

Enquanto os funcionários da Casa Branca alegavam que queriam fechar a brecha , os republicanos do Congresso resistiram. Em vez disso, eles adotaram uma medida muito mais branda: exigir que os funcionários de private equity mantenham seus investimentos por pelo menos três anos antes de obter um tratamento fiscal preferencial sobre seus juros transportados. Steven Mnuchin, o secretário do Tesouro, que anteriormente dirigia uma parceria de investimentos, assinou o contrato.

private 7Crédito…Tom Brenner / The New York Times

“Estávamos tentando encontrar um equilíbrio entre proteger a base tributária e garantir que não penalizássemos inadvertidamente negócios legítimos e atividades de investimento”, disse George Callas, que era consultor tributário sênior de Paul Ryan, o presidente da Câmara.

Foi um gesto simbólico para uma indústria que, de acordo com a McKinsey , normalmente mantém investimentos por mais de cinco anos. A medida, parte de um pacote de cortes de impostos de US $ 1,5 trilhão, foi projetada para gerar US $ 1 bilhão em receitas ao longo de uma década.

O patrimônio privado aplaudiu. Um dos principais lobistas da indústria deu crédito a Mnuchin, saudando-o como “um astro”.

Fleischer, que uma década antes havia alertado sobre o interesse realizado, disse que a medida “foi estruturada pela indústria para parecer fazer algo enquanto afeta o mínimo possível”.

Meses depois, o Sr. Callas ingressou na firma de advocacia e lobby Steptoe & Johnson. O gigante de private equity Carlyle é um de seus maiores clientes.

O Departamento do Tesouro levou mais de dois anos para propor regras que definissem as letras miúdas da lei de 2017. A linguagem sugerida pelo Tesouro foi rígida. Uma proposta teria dado poderes aos auditores do IRS para examinar mais de perto as transações internas que as empresas de private equity poderiam usar para contornar o período de três anos da lei.

O setor, tão feliz com a morna lei de 2017, estava em pé de guerra com as regras rígidas que a equipe do Tesouro estava propondo agora. Em uma carta em outubro de 2020, o American Investment Council, liderado por Drew Maloney, um ex-assessor de Mnuchin, observou como private equity investiu em centenas de empresas durante a pandemia do coronavírus e disse que a abordagem excessivamente zelosa do Tesouro prejudicaria a indústria.

As regras eram de responsabilidade do alto funcionário tributário do Tesouro, David Kautter. Anteriormente, ele foi diretor tributário nacional da EY, ex-Ernst & Young, quando a empresa estava comercializando paraísos fiscais ilegais, o que levou a uma investigação criminal federal e a um acordo de US $ 123 milhões . (O Sr. Kautter negou estar envolvido na venda dos abrigos, mas expressou pesar por não falar sobre eles.)

Sob sua supervisão no Tesouro, as regras em desenvolvimento começaram a ficar mais suaves, inclusive no que se refere ao período de manutenção de três anos.

Em dezembro, um punhado de funcionários do Tesouro trabalhando nas regulamentações disseram a Kautter que as regras não estavam prontas. Kautter rejeitou seus colegas e pressionou para concluí-los antes que Trump e Mnuchin deixassem o cargo, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o processo.

Em 5 de janeiro, o Departamento do Tesouro divulgou a versão final dos regulamentos. Algumas das provisões mais difíceis haviam desaparecido. Entre eles estava aquele que teria permitido ao IRS examinar as transações entre diferentes entidades controladas pela mesma empresa. O resultado foi que se tornou muito mais fácil manobrar em torno do período de espera de três anos.

“O governo cedeu”, disse Monte Jackel, um ex-advogado do IRS que trabalhou na versão original dos regulamentos propostos.

Mnuchin, de volta ao setor privado, está começando um fundo de investimento que poderia se beneficiar das regras mais fracas de seu departamento.

Mesmo durante a pandemia, a marcha encantada do capital privado continuou.

As cinco maiores empresas de capital aberto relataram lucro líquido de US $ 8,6 bilhões no ano passado. Eles pagaram a seus executivos US $ 8,3 bilhões. Além dos US $ 610 milhões de Schwarzman, os co-fundadores da KKR ganharam cerca de US $ 90 milhões cada um, e Leon Black , da Apollo, recebeu US $ 211 milhões, de acordo com a Equilar, uma firma de consultoria de remuneração de executivos.

private 8Crédito…Demetrius Freeman / Bloomberg

Os advogados do setor decodificaram amplamente a lei de 2017 e descobriram novas maneiras de seus clientes evitarem impostos.

O escritório de advocacia Kirkland & Ellis, que representou a Thoma Bravo em sua luta bem-sucedida contra o IRS, agora está aconselhando clientes sobre técnicas para contornar o período de espera de três anos.

O mais popular é conhecido como “carry waiver”. Ele permite que os gestores de private equity mantenham seus juros contabilizados por menos de três anos sem pagar taxas de impostos mais altas. A técnica é complicada, mas envolve transferir dinheiro temporariamente para outros veículos de investimento. Isso dá ao setor maior flexibilidade para comprar e vender produtos quando quiser, sem acionar uma alíquota de imposto mais alta.

Firmas de private equity não divulgam isso. Mas existem pistas. Em uma recente apresentação da Hellman & Friedman a um sistema de aposentadoria da Pensilvânia, o gigante de private equity da Califórnia incluiu uma série de avisos de isenção de responsabilidade em letras pequenas. O último sinalizou o uso de isenções de transporte pela empresa.

O governo Biden está negociando sua agenda de reforma tributária com os republicanos, que veicularam anúncios atacando a proposta de aumento do orçamento do IRS. A Casa Branca já está recuando de algumas de suas propostas mais ambiciosas.

Mesmo se o orçamento da agência fosse significativamente expandido, os veteranos do IRS duvidam que isso faria muita diferença quando se trata de examinar parcerias complexas.

“Se o IRS começasse a aumentar agora, levaria pelo menos uma década para recuperar o atraso”, disse Jackel. “Eles não têm agentes de IRS suficientes com conhecimento suficiente para saber o que estão olhando. Eles são tão superados que não tem graça. ”

Correção :

Uma versão anterior deste artigo identificou erroneamente a pessoa que disse: “Se você é um trapaceiro rico em uma sociedade, suas chances de ser auditado são ligeiramente maiores do que as chances de ser atingido por um meteorito”. Era o senador Ron Wyden, não o comissário do IRS, Charles Rettig.

Jesse Drucker é um repórter investigativo do departamento de negócios. Anteriormente, ele trabalhou para o The Wall Street Journal e a Bloomberg News, onde ganhou dois prêmios em 2011 por reportagens investigativas e explicativas da Sociedade de Editores e Escritores de Negócios Americanos por uma série sobre como as multinacionais americanas transferem lucros para paraísos fiscais. @JesseDrucker

Danny Hakim é um repórter investigativo da seção de negócios. Ele foi correspondente de economia europeu e chefe de sucursal em Albany e Detroit. Ele também foi um repórter principal da equipe que recebeu o Prêmio Pulitzer de Notícias de Última Hora em 2009.@dannyhakimFacebook

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The New York Yimes” [Aqui! ].

Jornal suíço pergunta: o ministro mais importante de Jair Bolsonaro cobrava subornos da máfia da madeira tropical?

O judiciário brasileiro está investigando se o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ajudou contrabandistas de madeira. Mas Bolsonaro segura o ministro porque precisa dele: Salles é a figura-chave da atrasada política ambiental do Brasil.

madeira ilegalA maior parte da madeira tropical do Brasil é derrubada ilegalmente e depois exportada com documentos falsos. Sob o presidente Bolsonaro, os regulamentos para licenças de exportação foram amplamente revogados. Ueslei Marcelino/Reuters

Por Alexander Busch, Salvador, para o Neue Zürcher Zeitung

Três contêineres do Brasil com folheado de madeira deixaram as autoridades alfandegárias do porto de Savannah, no estado norte-americano da Geórgia, suspeitas em janeiro do ano passado. Porque a madeira veio de árvores tropicais protegidas, como Ipê e Jatobá, que só podem ser exportadas com certificado. No entanto, não houve evidência de que a madeira veio de áreas cultivadas de floresta tropical. Sem problemas: O chefe do órgão ambiental do Pará do Amazonas entregou pessoalmente a aprovação da exportação.

Duas semanas depois – em meados do carnaval brasileiro de 2020 – seu chefe, o presidente do órgão ambiental Ibama, garantiu que tais indagações não se repetissem no futuro: A pedido da indústria madeireira do estado, ele dispensou o indústria de quase todas as obrigações de licenciamento para exportações. Essa regra estava em vigor há oito anos e tornava difícil para os contrabandistas de madeira fazer negócios. Em um anúncio em jornais, a associação da indústria agradeceu publicamente ao chefe da autoridade pela cortesia.

Esse episódio do ano passado já era conhecido há muito tempo. Em particular, a agência de notícias Intercept no Brasil, fundada por Glenn Greenwald, publicou inúmeros documentos sobre o assunto. Mas a operação noite e névoa não teve consequências legais para nenhum dos envolvidos. Mas agora isso mudou

Movimentos suspeitos por conta do ministro

Na semana passada, com a aprovação de um juiz do Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal investigou as contas, escritórios e residências do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nove funcionários do órgão ambiental do Ibama que ele indicou, incluindo o presidente, estão suspensos do cargo por 90 dias. Há suspeita de auxílio e cumplicidade no contrabando de madeira, lavagem de dinheiro e corrupção. A Inspecção Financeira detectou movimentos suspeitos nas contas do Gabinete do Ministro. O texto de 62 páginas do juiz do tribunal federal baseia-se principalmente em informações das autoridades alfandegárias americanas. A mídia suspeita que a cooperação entre as autoridades americanas e o judiciário brasileiro em questões ambientais ganhou novo fôlego desde a mudança do presidente nos EUA

sallesO ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é o homem mais bem-sucedido de Bolsonaro no gabinete: apesar de todas as críticas no Brasil e no exterior, ele dá continuidade à reestruturação da política ambiental brasileira. Adriano Machado / Reuters

Para o ministro do Meio Ambiente, 45 anos, Ricardo Salles, ameaçar com o aproveitamento do escritório corporativo não é novidade. Ele parecia predestinado ao cargo de ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro porque em sua carreira já havia defendido empresas contra as regulamentações ambientais ou prestado assessoria administrativa como secretário estadual do meio ambiente em São Paulo e como advogado. Ele concorreu a quatro partidos – mas nunca foi eleito. Sua carreira política ameaçou terminar cedo quando ele foi condenado a uma multa pesada em dezembro de 2018 e seus direitos políticos foram privados de seus direitos políticos por três anos. Ele mudou os planos de uso público no interesse das empresas.

Mas duas semanas depois, Bolsonaro o nomeou ministro do Meio Ambiente – embora Salles declarasse francamente que nunca tinha estado na Amazônia e que também não conhecia o lendário protetor da floresta tropical Chico Mendes. Isso foi bastante benéfico para seu novo cargo no governo de Bolsonaro. “Quando vi a veemência com que os ambientalistas criticam a sua nomeação, soube que tinha escolhido a certa”, explicou Bolsonaro.

De fato, nos dois anos e meio de mandato, Salles reduziu ou fechou sistematicamente todas as instituições de controle e monitoramento da floresta por meio de cortes de orçamento e pessoal. Demitiu chefes de quase todos os departamentos e os substituiu por militares e policiais paulistas, que não faziam ideia da Amazônia. Sob Salles, as ações contra os madeireiros foram interrompidas e quase nenhuma penalidade foi imposta

O ministro se solidariza com a máfia da madeira

Só recentemente ele garantiu pessoalmente que a enorme quantidade de 200.000 metros cúbicos de madeira tropical fosse liberada para exportação. Esse montante – cerca de um quinto das exportações de 2020 de madeira tropical processada do Brasil – foi apreendido pela Polícia Federal. As árvores foram suspeitas de terem sido derrubadas ilegalmente. Mas o chefe da Polícia Federal na Amazônia foi transferido à força. Salles se reuniu com os comerciantes de madeira e mostrou solidariedade.

Em uma reunião de gabinete há um ano, Salles disse que, enquanto a mídia estiver distraída, a pandemia deve ser usada para fazer com que as leis ambientais sejam criticadas pela oposição no Congresso de uma só vez. O clamor público foi grande.

Mas isso não impede Salles de fazer exatamente isso agora: o governo quer legalizar a posse ilegal na Amazônia retrospectivamente. Os parlamentares acabam de aprovar um projeto de lei sem uma audiência pública, segundo o qual as empresas poderão, no futuro, emitir licenças ambientais elas mesmas e os municípios e estados membros poderão promulgar leis diferentes.

Bolsonaro precisa de Salles para a degradação da proteção ambiental

É bem possível que Salles sobreviva politicamente às atuais investigações do judiciário. O promotor-chefe nomeado por Bolsonaro até agora admitiu todos os processos de corrupção contra a família presidencial e seus confidentes. Imediatamente após a ação judicial contra Salles, Bolsonaro deixou claro que continuaria a apoiá-lo. Ele é um “ministro excepcional”.

E isso é absolutamente verdade. Em contraste com muitos dos ministros conservadores de direita no gabinete de Bolsonaro, que se desqualificaram por incompetência e fracassaram, Salles está continuando de forma eloquente e eficiente sua reestruturação ideologicamente motivada da política ambiental do Brasil. Ele é, portanto, insubstituível para Bolsonaro. Salles não faz apenas a política para garimpeiros e lenhadores, mas também a política ambiental que a maioria dos agricultores, mas também muitos empresários, querem de Jair Bolsonaro.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Neue Zürcher Zeitung” [Aqui!].

Palestinos convocam greve geral

No Oriente Médio, os ataques de Israel e do Hamas continuam. Os palestinos estão expandindo o conflito. Os EUA continuam a rejeitar um papel ativo de mediador.

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As crianças estão sendo levadas para um local seguro na Cidade de Gaza. © Anas Baba / AFP / Getty Images

No conflito entre Israel e o radical islâmico Hamas, os palestinos convocaram uma greve geral nacional na terça-feira. A mídia local informou que a intenção era protestar contra os ataques israelenses a Gaza, o deslocamento forçado de palestinos de Jerusalém e a violência dos colonos israelenses. Marchas de protesto são esperadas em todas as grandes cidades e nos postos de controle entre Israel e a Cisjordânia.

Enquanto isso, militantes israelenses e palestinos continuam seus ataques com severidade inalterada. Os caças israelenses voltaram a atacar alvos na Faixa de Gaza. Segundo os militares, as casas de nove comandantes de alto escalão da militante organização palestina Hamas e túneis de extremistas com extensão total de 15 quilômetros foram destruídos. Hasam Abu Harbid, líder do grupo militante Jihad Islâmica, também foi morto nos ataques.

Mais feridos em Ashdod – situação precária na Faixa de Gaza

Testemunhas falaram sobre os piores ataques desde o início da guerra, há uma semana. O prefeito de Gaza, Jahja Sarradsch, disse à estação de televisão Al-Jazeera que os ataques aéreos haviam causado estragos em estradas e outras infraestruturas. Combustível e peças sobressalentes se tornariam escassos na Faixa de Gaza. Um porta-voz da empresa local disse que o combustível para a usina que alimenta Gaza duraria dois ou três dias. As linhas destruídas não podem ser reparadas no momento por causa dos ataques israelenses.

Por outro lado, os ataques com foguetes de Gaza também continuaram. As milícias da Jihad Islâmica também relataram que novamente dispararam foguetes na direção de Tel Aviv. Em Israel, o alarme disparou, principalmente perto da Faixa de Gaza. Dez feridos tiveram que receber atendimento médico em Ashdod. Três deles ficaram feridos por vidros quebrados, disse o serviço de ambulância Magen David Adom.

De acordo com o exército israelense, um total de cerca de 3.200 foguetes foram disparados da Faixa de Gaza em direção a Israel desde a última segunda-feira, mais de um terço dos quais foram interceptados pelo sistema de defesa Iron Dome. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou em um discurso na televisão que a “campanha contra organizações terroristas” continuaria com força total.

EUA ainda apenas em um papel passivo

Os apelos internacionais para o fim da violência desapareceram até agora. Acima de tudo, o Egito está tentando intermediar um cessar-fogo. Um diplomata no Cairo disse que há duas questões principais: encerrar os ataques de ambos os lados e interromper as operações israelenses em Jerusalém, que contribuíram para o conflito. O governo dos Estados Unidos deve pressionar Israel para encerrar sua ofensiva.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, deixou claro que os EUA não se juntariam a essas iniciativas. Os EUA lutaram por si próprios no quadro da “diplomacia intensiva”. No entanto, “em última análise, cabe às próprias partes deixar claro que estão lutando por um cessar-fogo”, disse Blinken. Pela terceira vez, o governo dos Estados Unidos está bloqueando uma declaração conjunta do Conselho de Segurança da ONU sobre a escalada da violência.

O líder do Hamas, Ismail Haniya, que vive no exterior, disse ao jornal libanês Al-Akhbar que sua organização foi contatada pelas Nações Unidas, Rússia, Egito e Qatar como parte dos esforços para garantir um cessar-fogo. Mas nenhuma “solução será aceita que não corresponda às vítimas do povo palestino”.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela revista Zeit [Aqui!].

A proposta climática do Brasil a Joe Biden: pague-nos para não destruirmos a Amazônia por completo

A proposta do presidente Bolsonaro vem no momento em que o Brasil busca apoio dos EUA para conter o desmatamento na maior floresta tropical do mundo

wsj1Os incêndios florestais em toda a floresta tropical do Brasil são quase todos provocados pelo homem e provocados por grileiros. FOTO: CARL DE SOUZA / AGENCE FRANCE-PRESSE / GETTY IMAGES

Por  Paulo Trevisani  e  Timothy Puko para o “The Wall Street Journal”

O governo brasileiro, amplamente criticado por grupos ambientalistas como um administrador negligente da floresta amazônica, fez uma oferta audaciosa ao governo Biden: forneça US $ 1 bilhão e o governo do presidente Jair Bolsonaro reduzirá o desmatamento em 40%.

A proposta foi feita enquanto o presidente brasileiro se preparava para uma cúpula ambiental virtual com cerca de 40 chefes de estado, patrocinada quinta e sexta-feira pelo presidente Biden, que fez do combate às mudanças climáticas uma peça central de seu governo. Governos e ativistas europeus expressaram publicamente desconfiança com as propostas de Bolsonaro sobre o meio ambiente porque ele cortou fundos para agências de proteção ambiental em meio a um aumento no desmatamento.

Mas apoiado por alguns estudiosos influentes e moradores da Amazônia, Bolsonaro argumenta que a única maneira de salvar a selva é por meio de créditos de carbono e financiando atividades econômicas sustentáveis ​​para que as pessoas possam viver da piscicultura, produção de cacau e outras atividades que não o fazem. exigem a destruição de árvores. O tema tem sido central nas conversas que o ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, disse que teve nas últimas semanas com autoridades do clima do governo Biden.

O pedido é provavelmente apenas um dos primeiros de muitos semelhantes a seguir quando os países em desenvolvimento começam a negociar com os países industrializados sobre quem paga por programas caros para lidar com a mudança climática. Neste outono, as nações do mundo devem definir metas novas e mais ambiciosas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e os países em desenvolvimento querem que seus pares mais ricos cumpram as promessas das negociações climáticas originais de Paris de mobilizar US $ 100 bilhões por ano em público e financiamento privado para eles. 

As principais autoridades indianas fizeram isso entre os principais pedidos a John Kerry, o enviado especial do governo Biden para as mudanças climáticas, quando ele a visitou no início deste mês, de acordo com o Ministério das Finanças indiano no Twitter. Autoridades desses países, incluindo o Brasil, dizem que os países industrializados devem prestar contas de suas contribuições históricas para a mudança climática e a necessidade de os cidadãos dos países mais pobres saírem da pobreza.

wsj2Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente do Brasil, calculou que tem direito a até US $ 294 bilhões para reduzir o desmatamento. FOTO: ERALDO PERES / ASSOCIATED PRESS

“Precisamos nos concentrar nas pessoas, os 23 ou 25 milhões de pessoas que vivem na Amazônia”, disse Salles ao The Wall Street Journal em uma entrevista. “É uma área onde se tem o pior índice de desenvolvimento humano de todo o país. É por isso que as atividades ilegais têm sido tão atraentes. ”

Salles disse que o Brasil levou a sério os comentários de Biden, feitos em um debate presidencial em setembro passado, para reunir US $ 20 bilhões de todo o mundo para ajudar o governo brasileiro a reduzir a destruição das florestas. O ministro calculou que o Brasil tem direito a até US $ 294 bilhões pelas grandes reduções que o país fez para conter o desmatamento, embora tenham ocorrido muito antes de Bolsonaro assumir o cargo em 2019.

“Achamos que US $ 1 bilhão, que é apenas 5% dos US $ 20 bilhões que foram mencionados durante a campanha … é uma quantia muito razoável que pode ser mobilizada antecipadamente”, disse Salles.

Ele disse que um terço desse US $ 1 bilhão seria usado para enviar batalhões especializados para fazer cumprir as leis ambientais, enquanto os dois terços restantes ajudariam a financiar bioindústrias nascentes que forneceriam alternativas aos agricultores pobres que cortam e queimam para criar plantações e gado. O Brasil diz que com ajuda externa acabaria com o desmatamento até 2030.

“Se não dermos a essas pessoas esse apoio econômico”, disse Salles, “elas continuarão a ser cooptadas ou incentivadas por atividades ilegais”.

WSJ3O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ao centro, argumenta que a única maneira de salvar a selva é por meio de créditos de carbono e financiando atividades econômicas sustentáveis. FOTO: UESLEI MARCELINO / REUTERS

Funcionários do governo Biden não responderam a perguntas específicas sobre o pedido de US $ 1 bilhão do governo Bolsonaro. Mas uma equipe de clima liderada por Kerry no Departamento de Estado vê o Brasil como um parceiro importante na redução das emissões globais de gases de efeito estufa.

“Temos muito trabalho a fazer” antes de haver um acordo, disse Kerry aos repórteres no domingo, enquanto explicava as discussões diretas sobre o financiamento da proteção florestal que estão ocorrendo com o Brasil. “Mas achamos que realmente vale a pena trabalhar porque a floresta tropical é muito crítica, como sumidouro de carbono, como consumidora de carbono, e está em risco”.

O Sr. Kerry e outros funcionários do Departamento de Estado também enfatizaram a necessidade do governo Bolsonaro demonstrar seu compromisso com o meio ambiente, reduzindo substancialmente o desmatamento. O desmatamento caiu em geral desde agosto, mostram dados oficiais do governo, mas aumentou desde março.

“Queremos ver passos muito claros e tangíveis para aumentar a fiscalização efetiva e um sinal político de que o desmatamento ilegal e a usurpação não serão tolerados”, disse um porta-voz do Departamento de Estado.

O governo Biden propôs US $ 2,5 bilhões em gastos totais em programas internacionais para conter as mudanças climáticas, quadruplicando o orçamento atual. Isso inclui US $ 1,2 bilhão para o Fundo Verde para o Clima internacional, um programa vinculado ao acordo de Paris e que ajudaria países em desenvolvimento como o Brasil a enfrentar as mudanças climáticas e reduzir as emissões. Kerry, em uma recente viagem à Índia, disse que o dinheiro seria apenas uma entrada inicial e que os países industrializados ainda estão trabalhando para cumprir sua promessa de US $ 100 bilhões.

WSJ 4O presidente Biden fez do combate às mudanças climáticas uma peça central de seu governo. FOTO: KEVIN LAMARQUE / REUTERS

Em seguida, Biden “fará seu próprio pagamento, o pagamento do governo Biden, que colocará em dinheiro adicional para esses próximos anos, e acho que isso é necessário para cumprir suas obrigações”, disse Kerry, de acordo com uma transcrição do Departamento de Estado.

Ativistas ambientais temem que, ao envolver Bolsonaro, Biden esteja viabilizando a política pró-desenvolvimento do líder brasileiro e alimentando ainda mais a destruição da maior floresta tropical do mundo, um bioma essencial para um clima global estável. Sob a supervisão de Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia saltou 9,5% no ano que terminou em 31 de julho de 2020, uma alta em 12 anos.

“A credibilidade do governo para coletar fundos de outros governos está totalmente prejudicada”, disse Carlos Rittl, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade da Alemanha. “Este é um discurso de chantagem. O governo deveria realmente fazer algo ”antes de pedir ajuda externa, disse Rittl, que argumenta que o Brasil tem recursos para reduzir drasticamente o desmatamento.

Em contraste, Dan Nepstad, presidente do Earth Innovation Institute, um grupo ambiental com sede em Berkeley, Califórnia, que trabalha com fazendeiros brasileiros e funcionários do governo para apoiar atividades sustentáveis, disse que a estratégia da equipe de Biden de “engajar e construir esse diálogo tem sido uma jogada muito sábia. ”

Ele explicou que no Brasil há uma preocupação crescente por parte do poderoso setor agrícola e de funcionários do governo de que o desmatamento possa prejudicar financeiramente o país. Isso criou mais possibilidades para governos estrangeiros e grupos ambientais envolverem agricultores e autoridades brasileiras para encontrar uma solução.

WSJ 5Uma fotografia aérea de agosto de 2020 mostra a fumaça saindo de incêndios no município de Novo Progresso, no Estado do Pará. FOTO: CARL DE SOUZA / AGENCE FRANCE-PRESSE / GETTY IMAGES

Nepstad disse que a comunidade internacional precisa fazer mais para considerar maneiras de compensar os agricultores no Brasil que estão mantendo a cobertura de árvores na expectativa de que algum tipo de mecanismo seja criado para tornar a floresta mais valiosa financeiramente do que os campos sem árvores.

“Já se falaram anos e anos sobre a importância da floresta sustentável”, disse Nepstad, “e ainda em 2021 não temos um mecanismo robusto para compensar as pessoas que mantêm a floresta em pé”.

Ele acrescentou que “os preços da terra ainda são mais altos sem floresta do que com floresta, e esse é o indicador mais claro de que temos um longo caminho a percorrer”.
 

Escreva para Paulo Trevisani em paulo.trevisani@wsj.com e Timothy Puko emtim.puko@wsj.com

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo “The Wall Street Journal” [Aqui!].

EUA pressionam o Brasil a apresentar medidas concretas para reduzir desmatamento da Amazônia

Especialistas divergem: o Brasil conseguirá apresentar um cronograma de redução do desmatamento?

Área desmatada na Amazônia.

Os Estados Unidos estão pressionando o Brasil a apresentar medidas concretas na redução do desmatamento da Amazônia na Cúpula dos Líderes sobre o Clima, que será iniciada nesta quinta-feira (22) e reunirá 40 chefes de Estado.

O presidente Jair Bolsonaro, que estará no evento, enviou uma carta a Joe Biden onde promete zerar o desmatamento ilegal no Brasil até o ano de 2030. A Casa Branca espera que o Brasil apresente um cronograma de redução gradual da derrubada das florestas e uma meta mais ambiciosa do que a atual para redução de emissões de carbono.

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil têm opiniões diferentes sobre a capacidade do Brasil em atingir a meta anunciada de zerar o desmatamento nos próximos nove anos e de apresentar o cronograma solicitado pelos Estados Unidos.

‘Não dá para acreditar que o Brasil vai fazer qualquer ato diferente’

Para o geógrafo e ambientalista Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da ONG SOS Mata Atlântica, o compromisso do Brasil em zerar o desmatamento ilegal até o ano de 2030 “não passa de uma mentira deslavada”.

“Não dá para acreditar que o Brasil vai fazer qualquer ato diferente. […] O Brasil deveria dizer que o país já faz isso, tem uma matriz energética limpa, nós podemos fazer muito mais porque já tivemos um controle sobre a Amazônia, as metas do Brasil podem ser muito maiores, e com isso nós teríamos mais apoio, mas o que a gente vê é o contrário”, afirmou à Sputnik Brasil.

De acordo com um levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgado nesta segunda-feira (19), o desmatamento na floresta amazônica atingiu em março o pior índice para o mês nos últimos dez anos.

Segundo Mantovani, os dados apresentados pelo Imazon fazem com que o Brasil tenha muita dificuldade em apresentar um cronograma como o que é exigido pelos EUA.

“O que o Brasil apresentou agora como meta foi abaixo daquilo que ele já tinha se comprometido em Paris e apresentado na última conferência em Madri. O Brasil deu um vexame. Claro que, com isso, não vai ter cronograma que vai resistir”, declarou.

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​O vice-presidente Hamilton Mourão, que também é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, negou os dados de desmatamento apresentados pelo Imazon e defendeu a transparência e confiabilidade nas estatísticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e disse que “há ONGs que utilizam dados sem a devida fundamentação para divulgar informações sobre a Amazônia”.

Mario Mantovani criticou a gestão de Mourão no conselho e que entende que o Brasil chega enfraquecido na Cúpula dos Líderes sobre o Clima.

“Nem o general Mourão conseguiu reduzir [o desmatamento]. A Polícia Federal fez uma denúncia muito grave de que o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] está liberando os madeireiros que fizeram os desmatamentos. Nós temos sinais trocados dentro do governo, e isso mostra um desarranjo, um jeito ruim de fazer gestão do desmatamento na Amazônia. O Brasil vai para essa conferência muito mais enfraquecido”, completou.

‘Brasil possui capacidade de fazer cronograma exigido pelos EUA’

O economista e advogado, Alessandro Azzoni, especialista em Direito Ambiental, disse que a carta enviada por Bolsonaro a Joe Biden é um ponto positivo e mostra uma motivação do presidente brasileiro em mudar o cenário do desmatamento no país.

“Eu acredito que exista a capacidade de se fazer um cronograma. A operação comandada pelo vice-presidente Mourão conseguiu fazer um mapeamento dos garimpos ilegais, e dos maiores municípios e estados que sofrem com o desmatamento. Esse diagnóstico existe, e a meta pode ser colocada sim”, afirmou à Sputnik Brasil.

No entanto, segundo Azzoni, o cronograma precisa ser anunciado de maneira oficial e assinado pelo governo brasileiro.

“Penso que isso deve ser retificado de uma forma mais formal. Eu acredito que o governo brasileiro tenha um cronograma para reduzir isso, basta intensificar as ações da Polícia Federal junto com exército combatendo essa rede criminosa que invade as áreas desmatando”, comentou.

sput madeira

​Na semana passada, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, disse que a Cúpula de Líderes sobre o Clima é a última chance de o Brasil mostrar que se preocupa com o desmatamento na Amazônia.

Chapman ainda afirmou que há uma percepção que o desmatamento ilegal na Amazônia cresceu e que não é decorrente de “um problema de comunicação”, como justificam integrantes do governo federal brasileiro.

Para Alessandro Azzoni, o Brasil teria a capacidade, inclusive, de zerar o desmatamento ilegal antes de 2030, mas é preciso que o país contrate mais servidores nos órgãos de fiscalização ambiental.

“Acredito que possa ser factível acabar com o desmatamento ilegal. Acho que nem para 2030, dá para acabar até antes, nós estamos em 2021. […] O que falta é realmente aumentar o número de servidores de fiscalização”, declarou.

Azzoni defende ainda que, mais do que reduzir o desmatamento, o Brasil deveria apresentar também uma política de reflorestamento das áreas desmatadas.

“Nós vemos muitas áreas que foram desmatadas desde governos passados até hoje e muito poucas são reflorestadas. Ter ações mais efetivas no reflorestamento também seria muito interessante. Eu acredito que isso daria uma resposta muito maior ao nível nacional e internacional do que simplesmente só combater o desmatamento”, completou.

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Este texto foi originalmente publicado pela Sputnik Brasil [Aqui!].