Sob o signo do “canhão frouxo”

Por IMMANUEL WALLERSTEIN

Wallerstein aponta: grande ameaça ao mundo, na virada do ano, são Estados Unidos — brutamontes militar sem rumo, errático e perigoso

Em 27 de novembro, o New York Times publicou em manchete o artigo “Políticas conflitantes na Síria e no Estado islâmico corroem a presença dos EUA no Oriente Médio”. Mas isso não é novidade. A presença dos EUA no Oriente Médio (e em outros lugares) vem se deteriorando há quase 50 anos. A realidade é muito mais ampla do que a disputa imediata entre as forças anti-Assad na Síria e os seus apoiadores em outros lugares, por um lado, e o regime Obama nos Estados Unidos, por outro.

O fato é que os Estados Unidos tornaram-se, na expressão derivada de uma antiga prática náutica, um “canhão frouxo”, isto é, um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para si e para os outros. O resultado é que o país não é confiável para quase ninguém, ainda que vários países e grupos políticos lhe peçam ajuda para coisas específicas, a curto prazo.

Como é que o antes inquestionável poder hegemônico do sistema-mundo, e ainda de longe o mais forte poder militar, acabou nesse estado deprimente? Ele é insultado, ou pelo menos severamente censurado não só pela esquerda, mas também pela direita mundial, e até mesmo pelas poucas forças de centro que ainda restam neste mundo crescentemente polarizado. O declínio dos Estados Unidos não é devido a seus equívocos políticos, mas estrutural – ou seja, não pode realmente ser revertido.

Talvez seja útil rastrear os sucessivos momentos dessa erosão de poderio efetivo. Os Estados Unidos encontravam-se no auge de seu poder entre 1945-1970, período em que apareciam no cenário mundial 95% do tempo, em 95% dos assuntos – o que é minha definição de verdadeira hegemonia. Essa posição hegemônica era sustentada por um arranjo com União Soviética, a qual mantinha com os Estados Unidos um acordo tácito de divisão de zonas de influência — que não deveria ser ameaçado por nenhum confronto entre os dois. Isso era denominado guerra fria, com ênfase na palavra “fria”, e, pela posse de armas nucleares, uma garantia de “destruição mútua assegurada”.

O objetivo da guerra fria não era subjugar o presumido inimigo ideológico, mas manter sob controle os próprios países satélites de cada um dos lados. Este arranjo confortável foi inicialmente ameaçado pela resistência de organizações do então chamado “Terceiro Mundo” a sofrer as consequências negativas dessa ordem. O Partido Comunista Chinês desafiou a imposição de Stalin para comprometer-se com o Kuomintang e, ao invés disso, marchou sobre Xangai e proclamou a República Popular. O Viet Minh (“Liga pela Independência do Vietnã”) desafiou os acordos de Genebra e insistiu em marchar sobre Saigon para unir o país sob sua direção. A Frente de Liberação Nacional da Argélia desafiou a determinação do Partido Comunista Francês para que desse prioridade à luta de classes na França e lançou a guerra pela independência. E as guerrilhas cubanas que depuseram a ditadura de Batista forçaram a União Soviética a ajudá-las a se defender da invasão dos EUA ao tomarem, do grupo que tinha feito conchavo com Batista, o rótulo de Partido Comunista.

A derrota dos Estados Unidos no Vietnã resultou tanto da enorme drenagem de recursos do Tesouro norte-americano pelo conflito como do crescimento da oposição interna à guerra, pelos jovens recrutas de classe média e suas famílias – o que legou uma restrição permanente às futuras ações militares dos EUA, na chamada síndrome do Vietnã.

A revolução mundial de 1968 foi não apenas contra a hegemonia dos EUA, mas também contra o conluio soviético com os Estados Unidos. Coincidiu também com rejeição dos velhos partidos de esquerda (Partidos Comunistas, Partidos Social-democráticos, Movimentos de Libertação Nacional), com base em que, a despeito de chegar ao poder, eles não mudaram o mundo como prometeram e tornaram-se parte do problema, não da solução.

Nos governos dos presidentes Richard Nixon a Bill Clinton (inclusive Ronald Reagan), os Estados Unidos procuraram desacelerar seu declínio por meio de uma política tríplice. Convidaram os aliados mais próximos a mudar seu status de satélite para parceiro — com a condição de não se afastarem muito das políticas norte-americanas. Mudaram o foco na economia mundial — do desenvolvimentismo para uma demanda a que o Sul Global produzisse para exportar, sob as injunções neoliberais do Consenso de Washington. E procuraram frear a criação de novas potências nucleares para além dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, impondo a todos os outros países o fim de seus projetos de armamentos nucleares – um tratado não assinado e ignorado por Israel, Índia, Paquistão e África do Sul.

Os esforços norte-americanos foram parcialmente bem sucedidos. Eles tornaram mais lento, mas não reverteram o declínio dos EUA. Quando, no final dos anos 1980, teve início o colapso da União Soviética, os Estados Unidos ficaram na verdade decepcionados. A guerra fria não era para ser vencida, mas para manter-se indefinidamente. A consequência mais imediata do colapso da União Soviética foi a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein. A União Soviética não estava mais lá para conter o Iraque, no interesse dos arranjos entre as duas potências.

E embora os Estados Unidos tenham vencido a Guerra do Golfo, mostraram logo sua fraqueza pelo fato de não poderem financiar seu próprio papel, dependendo, para cobrir 90% de seus custos bélicos, de quatro outros países – Kuwait, Arábia Saudita, Alemanha e Japão. A decisão do presidente George H.W. Bush de não marchar sobre Bagdá, mas contentar-se com a restauração da soberania do Kuwait, foi sem dúvida um julgamento sábio, mas muitos, nos Estados Unidos, consideraram-no como uma humilhação, pois mantinha Saddam Hussein no poder.

O próximo ponto de virada foi a ascensão ao poder do presidente George W. Bush e do círculo de intervencionistas neoconservadores de que se cercou. Esse grupo usou o ataque de 11 de Setembro pela al-Qaeda como pretexto para justificar a invasão do Iraque em 2003 e derrubar Saddam Hussein. Isso foi visto pelos intervencionistas como maneira de restaurar uma pálida hegemonia dos EUA no sistema-mundo. Muito ao contrário, foi um tiro no pé. De duas manerias: pela primeira vez os Estados Unidos perderam um voto no Conselho de Segurança da ONU; e a resistência iraquiana à presença dos EUA foi maior e mais persistente do que se imaginava. Em síntese, a invasão precipitou o declínio, o que nos traz aos esforços do governo Obama para lidar com isso.

A razão pela qual nem o presidente Obama, nem qualquer futuro presidente dos EUA será capaz de reverter esse processo é porque os Estados Unidos não querem aceitar essa nova realidade e ajustar-se a ela. O país ainda está tentando restaurar seu papel hegemônico. Perseguir essa tarefa impossível leva-o a desencadear as chamadas “políticas conflitivas” no Oriente Médio e em outros lugares. Como um canhão frouxo, Washington muda constantemente de posição, procurando estabilizar o navio geopolítico mundial. A opinião pública dos EUA está dividia entre as glórias de ser “líder” e os custos de tentar ser líder. A opinião pública ziguizagueia constantemente.

Ao observarem este espetáculo, os países e movimentos deixam de depositar confiança nas políticas norte-americanas. Cada qual persegue suas próprias prioridades. O problema é que canhões frouxos resultam em destruição, tanto para os que disparam como para o resto do mundo. E isso intensifica o papel que o medo desempenha nas ações de todos os outros, aumentando os perigos para a sobrevivência global.

FONTE: http://outraspalavras.net/destaques/sob-o-signo-do-canhao-frouxo/

Liberdade de expressão só é boa em Cuba?

Depois do reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, há uma onda de artigos e outros tipos de materiais avaliando o efeito que esta medida trará na liberdade de expressão na ilha governada por um partido dito comunista. Como sou de uma linha ideológica que teve militantes mortos ou aprisionados pelo governo liderado por Fidel Castro, não compartilho da ilusão de que lá se vive uma democracia proletária. Aliás, desde que Fidel decidiu abraçar o modelo inventado por Josef Stálin não haveria porque esperar que a ação do Partido Comunista Cubano se assemelhasse aos primeiros anos de governo revolucionário do Partido Bolchevique na Rússia revolucionária.

Mas  por que tantos, inclusive alguns militantes supostamente de esquerda, se preocupam tanto com a liberdade de expressão em Cuba, se está mais do que demonstrado que esse fetiche da democracia burguesa tampouco existe nos chamados países do capitalismo central? Além disso, depois das revelações de Edward Snowden, e da ação do governo britânico contra o jornal The Guardian que as publicou, ficou mais do que claro o tamanho da liberdade que se tem para expressar desacordo contra os governos centrais dentro de seus próprios limites territoriais.

E no Brasil, esse fetiche só serve mesmo para alimentar as paranoias esquisitas das viúvas da ditadura militar de 1964 que creem fielmente que hoje vivemos uma ditadura bolivariana e demandam a volta dos militares ao poder. De resto, liberdade de expressão não é algo tangível ou sequer alcançável num país onde persistem diferenças abissais entre ricos e pobres até que se resolva esse fosso.

Enquanto essa situação perdurar liberdade de expressão continuará sendo algo que a mídia corporativa alardeia toda vez que quer constranger algum governante para depois exigir gordas verbas publicitárias em troca de um tratamento mais ameno. Basta ver o que vem acontecendo com os diferentes governos comandados pelo dupla PT-PMDB para ver como a mídia corporativa usa e abusa de sua liberdade de se expressar, sem que se preocupe em, por exemplo, pagar os tributos devidos ao fisco nacional.

Assim, quem quiser realmente se preocupar com a liberdade de expressão que gaste suas energias no Brasil, e deixemos os cubanos cuidarem da deles.

Yoani Sánchez, a primeira a fazer a choradeira contra o reatamento CubaxEUA

Blogueira cubana Yoani Sánchez lamenta “vitória do castrismo”

Em Havana

Mario Guzmán/EFE

A ativista cubana Yoani Sánchez lamentou nesta quarta-feira (17) a reaproximação entre os governos do seu país e dos Estados Unidos, que culminou com a libertação do norte-americano Alan Gross, e a qualificou como uma vitória do regime da ilha.

“O castrismo venceu, ainda que Alan Gross tenha saído vivo de uma prisão que poderia se tornar o seu túmulo. No jogo da política, os totalitarismos sempre conseguem se impor sobre as democracias”, escreveu a blogueira dissidente no site “14 y medio”.

Yoani se pronunciou antes mesmo dos esperados discursos dos presidentes Raúl Castro e Barack Obama. A libertação de Gross deve ser compensada pela soltura de três dos cinco cubanos que haviam sido presos nos Estados Unidos sob a acusação de espionagem.

Os beneficiados pela medida são Gerardo Hernandez, Ramón Labaniño e Antonio Guerrero. Os outros dois, Fernando e René González, já estão livres.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/12/17/yoani-sanchez-lamenta-vitoria-do-castrismo.htm

EUA retomam relações diplomáticas com Cuba. E agora o que dirão os golpistas brasileiros, que Barack Obama virou bolivariano?

Hoje é um daqueles dias que a gente vive para ver acontecer. É que eu tinha parcos três meses de idade quando o governo dos Estados Unidos da América romperam relações diplomáticas com Cuba em uma de suas medidas para tentar sufocar a revolução liderada por Fidel e Raúl Castro contra o ditador pró-estadunidense Fulgêncio Batista. Ao longo de mais de 5 décadas, os EUA impuseram um injusto e desumano bloqueio econômico contra Cuba, sem que tenham conseguido nem desapear os irmãos Castro do poder ou, tampouco, recolocar seus títeres no poder em Havana.

O mais nojento de tudo é que em tempos recentes, a direita brasileira liderada por figuras abjetas como Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e o ex-roqueiro Lobão vinham usando a proximidade econômico do governo brasileiro com Cuba como uma ferramenta de geração de preconceitos e chauvinismo contra a valorosa ilha caribenha que ostenta níveis de educação, saúde pública e longevidade que deveriam deixar o Brasil rubro de vergonha.

Neste momento, confrontado com várias facetas negativas da geopolítica mundial, inclusive a ascensão dos chamados BRICS, o governo estadunidense liderado pelo presidente Barack Obama decide reatar as relações diplomáticas, o que pode ser um primeiro passo para a suspensão do embargo econômico.

Agora, vamos ver como ficam as viúvas da ditadura militar que até poucos dias destilavam seu ódio contra Cuba e se miravam nos EUA como uma espécie de paraíso a ser imitado. É que daqui a pouco não vai tardar se ver Barack Obama chegando em Havana para apertar as mãos de Raúl Castro. Nesse dia eu realmente quero ver como ficarão as faces dos reacionários chauvinistas que nos envergonham com seu preconceito contra Cuba. Melhor ainda se Obama chegar em Cuba por navio e aportar no Porto de Mariel!

Abaixo algumas das reportagens circulando na imprensa internacional sobre o reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e EUA!

cuba elpais

Cuba BBC Cuba CNN Cuba NYT Cuba Guardian cuba wp

População protesta contra mortes de negros pela polícia…. nos EUA!

Enquanto as viúvas da ditadura militar ficam ameaçando ir embora para Miami, ocorre nos EUA um forte movimento de repulsa a diversos casos de assassinatos de homens negros nas mãos de policiais. A repulsa é maior porque a justiça norte-americana vem repetidamente isentando os policiais envolvidos nas mortes de passarem por processos judicais, em que pesem as evidências de violência excessiva contra os mortos que, em comum, eram homens negros e pobres.

A dimensão e a duração desses protestos ainda está sendo avaliadas, mas o certo é que ontem de noite (04/12), Nova York foi tomada por uma gigantesca manifestação que paralisou as principais pontes que ligam a cidade ao continente, numa manifestação que juntou pessoas de origens étnicas distintas e que protestavam contra a persistência de casos de mortes de negros. O principal lema dessas manifestações tem sido “Black lives matter!”, o que significa dizer “Vidas de negros importam”.

Vivendo num país como o Brasil onde a polícia mata muito mais negros pobres do que nos EUA, eu fico imaginando quando é sairemos da posição de autorização tácita que as classes médias brancas dão para o extermínio de jovens negros e pobres nas grandes cidades brasileiras para algo parecido com o que está em ebulição na terra da Disnelândia para onde tantas dessas famílias abastadas gostam de levar seus filhos. Mas confesso que não espero nenhuma mudança significativa durante a minha própria vida. Acho que dadas as estruturas econômicas e sociais que persistem no Brasil, a maioria negra da nossa população continuará sendo tratada e contida por meio da violência e do extermínio.

Por outro lado, há que se notar que as tais ações afirmativas implantadas nos EUA serviram quando muito para criar uma pequena classe média negra, enquanto a maioria dos negros continua vivendo na pobreza extrema e submetida ao extermínio nas mãos do Estado.  Aliás, números recentes mostram que a disparidade de renda entre brancos e negros nos EUA é hoje maior do que aquela que existia na África do Sul durante o regime racista do Apartheid. Em suma, políticas afirmativas, das quais as cotas raciais são o carro chefe, não deram certo no país que as criou. Vão dar certo no Brasil? Dificilmente!

Incidência de autismo pode estar relacionada ao uso de agrotóxicos

Novo estudo liga ocorrência de autismo a pesticidas agrícolas

  (Foto: wikimedia commons)

(FOTO: WIKIMEDIA COMMONS)

Um estudo publicado essa semana pela Universidade da Califórnia mostra uma nova e preocupante relação entre poluentes ambientais e a incidência de autismo. De acordo com os pesquisadores, mulheres grávidas que vivam a até cerca de 1,5 quilômetros de fazendas ou plantações que usam pesticidas têm 60% mais chances de ter filhos autistas. O risco pode dobrar se a mulher for exposta aos poluentes no último trimestre da gravidez.

A ciência já investiga há algum tempo a relação entre substâncias tóxicas como mercúrio, diesel, pesticidas e outros subprodutos de produções industriais em massa e a alteração do desenvolvimento cerebral de fetos que sejam contaminados. Mas esse estudo é um dos que aponta mais claramente essa relação. “Pesticidas são a substância tóxica que parecem ter a maior associação com autismo”, afirmou ao site The Verge o especialista em autismo Dan Rossignol.

Nos EUA, 1 a cada 68 crianças tem algum tipo de autismo. Esse número chega a triplicar se as mães são expostas a contaminação por pesticidas durante a gravidez. De acordo com especialistas, o estudo é um pontapé inicial para que os estudos relacionando autismo e poluição ambiental sejam aprofundados. Richard Frye, pesquisador sobre autismo da Universidade de Arkansas, diz que é importantes que mulheres que planejem ter filhos ou que estejam grávidas evitem contato com pesticidas agrícolas.

FONTE:

Imagens de crianças imigrantes mexicanas presas em “gaiolas” nos EUA geram revolta

Senadores pediram ao presidente mexicano que exija de Barack Obama a garantia dos direitos dos jovens; fotos foram divulgadas por senador democrata

Somente no ano passado mais de 24 mil crianças mexicanas foram detidas ao cruzar a fronteira rumo aos Estados Unidos. Em 2014, o número pode ser superior a 60 mil, segundo estimativa do Departamento de Segurança Nacional. A situação dos jovens que são detidos nos EUA e dos que são deportados ao México é classificada por autoridades do país como “preocupante”. Eles alertam que, se não houver uma política incisiva por parte do governo, a situação poderá se tornar uma “crise humanitária”.

Agência Efe

A foto foi tirada por Henry Cuellar através de seu telefone celular

Os jovens que tentam cruzar a fronteira em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos sofrem diversos tipos de violência: física, psicológica e sexual. Os maus tratos sofridos por crianças detidas nos EUA ganharam especial atenção dos senadores do país. Jornais mexicanos reportaram neste domingo (22/06) que a Comissão de Direitos Humanos do Senado pediu que o presidente Peña Nieto exija do governo norte-americano o “respeito irrestrito à integridade e garantias fundamentais das crianças imigrantes que se encontram nos centros de detenção dos Estados Unidos”.

No começo do mês, o congressista democrata, Henry Cuellar, divulgou imagens de crianças mexicanas e centro-americanas presas em “gaiolas”, chamadas de refúgios temporários pelas autoridades norte-americanas, em um centro de detenção no Texas.

[Jovens detidos em situação precária na fronteira dos EUA com o México]

Após as denúncias, os senadores pediram ao presidente Peña Nieto que a embaixada em Washington realize as visitas necessárias aos centros de detenção para verificar o estado das crianças que chegaram sozinhas ao país.

A presidente da comissão, Angélica de la Peña, afirmou que os jovens deportados são alvo fáceis de organizações criminosas e redes de tráfico de pessoas que atuam na região de fronteira.

Angélica ressaltou que, se o governo mexicano não atuar com “decisão” e não adotar “estratégias articuladas” diante do possível aumento da chegada de crianças imigrantes na fronteira, o país viverá uma “crise humanitária”.

Agência Efe

Mulheres e crianças no centro de detenção; Texas pediu US$ 30 mi ao Departamento de Estado para conter crise na fronteira

Entre as violências sofridas pelos jovens estão as agressões físicas e sexuais. De acordo com a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), instituição da OEA (Organização dos Estados Americanos), foram registrados pelo menos 100 casos de abusos sexuais e físicos por agentes da fronteira contra menores.

Cemitério clandestino

Muitos dos mexicanos que tentam cruzar a fronteira são mortos antes de chegar nos Estados Unidos. A quantidade de pessoas que morrem nesta situação, no entanto, é imprecisa, visto que muitos são enterrados em valas clandestinas.

Ontem, antropólogas independentes anunciaram a descoberta dos restos mortais de pelo menos 52 pessoas em fossas comuns no cemitério Sacred Heart (Sagrado Coração), no sul do Texas. Devido ao fato de que algumas ossadas foram armazenadas juntas, as investigadoras não têm o número preciso de quantas pessoas podem ter sido enterradas no local no último ano.

 A descoberta foi feita nas últimas semanas pelas antropólogas Lori Baker, da Universidade Baylor, e Krista Latham, da Universidade de Indianápolis, e pelos estudantes de ambas como forma do esforço plurianual para identificar imigrantes que perderam a vida na região fronteiriça entre México e Estados Unidos.

Os restos foram encontrados dentro de sacos de lixo, como informou o jornal Corpus Christi Caller Times. Em 2013, foram encontrados 110 ossadas no local. Latham classificou a descoberta como “abominável”.

Mais de 300 pessoas morreram ao cruzar o condado Brooks de 2011 a 2013, o que corresponde a mais de 50% das mortes registradas no período ao longo do Rio Grande no Texas.

FONTE: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/35761/imagens+de+criancas+imigrantes+mexicanas+presas+em+gaiolas+nos+eua+gera+revolta.shtml

Estudos nos EUA detectam presença de glifosato em leite materno

Testes realizados em mães estadunidenses mostraram a presença do herbicida glifosato, comercializado pela Monsanto sob a marca Roundup, no leite materno.

Os testes foram encomendados pelas ONGs Moms Across America Sustainable Pulse e mostraram altos níveis do veneno em 3 das 10 amostras coletadas (76 ug/l, 99 ug/l and 166 ug/l): de 760 a 1.600 vezes maiores que o limite máximo permitido para a água potável na Europa.

Foram também analisadas amostras de urina e de água potável nos EUA para detecção de glifosato. Os níveis do herbicida encontrados nas amostras de urina foram mais de 10 vezes maiores que aqueles encontrados em testes similares realizados na Europa em 2013 pela ONG Friends of the Earth. A presença do glifosato também foi detectada em 13 das 21 amostras de água potável, algumas em níveis superiores ao limite permitido na Europa.

Os testes foram realizados pelo laboratório Microbe Inotec, em St. Louis, Missouri (EUA), sem, inicialmente, a pretensão de constituir um estudo científico completo. O objetivo da iniciativa, ao contrário, foi o de inspirar e estimular a realização de estudos científicos aprofundados por agências reguladoras e cientistas independentes em todo o mundo.

Zen Honeycutt, fundadora e diretora da ONG Moms Across America, informou que “as mães que doaram amostras de leite para análise eram informadas a respeito do glifosato e dos alimentos transgênicos, e a maioria delas vinha buscando evitar o consumo de transgênicos e de glifosato durante vários meses. Isso sugere que os níveis de glifosato no leite de outras mães que não estão atentas a essa questão deve ser ainda muito maior”.

Por outro lado, segundo informou Honeycutt, os resultados também mostraram que as mulheres que vinham consumindo estritamente alimentos orgânicos e não transgênicos no período de vários meses até dois anos não continham glifosato no leite materno em níveis detectáveis.

As lavouras transgênicas tolerantes à aplicação de glifosato são largamente cultivadas nos EUA – e também no Brasil – e são responsáveis por um correspondente extensivo uso do herbicida. Não existe em nenhum país um limite estabelecido para a presença de glifosato no leite materno, uma vez que, conforme defendido pela Monsanto (primeira fabricante do veneno), os órgãos reguladores em todo o mundo elaboraram as normas baseados na suposição de que o glifosato não é bioacumulativo – o que, segundo apontam os testes recentes, parece não ser verdadeiro.

No Brasil, uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Mato Grosso já havia encontrado resíduos de seis tipos de agrotóxicos em amostras de leite materno de 62 mães do município de Lucas do Rio Verde (MT), um dos cinco maiores produtores de grãos do estado. Em todas as amostras foi encontrado ao menos um tipo de agrotóxico (em todas as mães foram encontrados resíduos de DDE, um metabólico do DDT, agrotóxico proibido no Brasil há mais de dez anos).

Com informações de:

– World’s number 1 herbicide discovered in US mothers’ breast milk – Sustainable Pulse, 06/04/2014

– Glyphosate Testing Full Report: Findings in American Mothers’ Breast Milk, Urine and Water – Moms Across America, 07/04/2014

– Glyphosate Detected in Breast Milk of American Mothers – Third World Network, 15/04/2014

FONTE: http://aspta.org.br/campanha/673-2/

Nigéria: como Ocidente alimenta os terroristas

petróleo

Dois fatores favorecem grupo que sequestrou duzentas meninas: pilhagem do país por transnacionais petroleiras e assassinatos praticados pelos EUA, por meio de drones

É quase inacreditável que mais de duzentas garotas possam ter sido ser sequestradas de uma escola no norte da Nigéria — em ação  realizada pelo grupo terrorista Boko Haram — e ameaçadas em um vídeo, exibido no mundo inteiro, sendo vendidas como escravas por seus capturadores. A descrença é ampliada pelas notícias de hoje de que, ao longo da noite, mais oito meninas foram sequestradas por homens armados, supostamente do Boko Haram, no nordeste da Nigéria. A tragédia toca o coração de todos, evocando um sentimento de asco não só pelo perigo e a perda da própria liberdade, mas pelo pressuposto de que para jovens garotas, seu destino deve ser o casamento forçado e a servidão, não a educação.

Existe uma revolta justa, pelo fato de que tão pouco tenha sido feita pelo governo nigeriano para encontrar as meninas, e por terem sido acusados de causar tumulto, ou mesmo presos temporariamente, muitos dos que se manifestaram contra o presidente Goodluck Jonathan.

Mas devemos ser cautelosos com a narrativa que está emergindo. Ela segue um padrão familiar desgastado, que já vimos no sul da Ásia e do Oriente Médio, mas que está sendo crescentemente aplicado também na África.

É o refrão de que algo deve ser feito; e que “nós” — o ocidente iluminado — deveríamos nos encarregar de fazê-lo. A fala da senadora norte-americana Amy Klobuchar é exemplar a esse respeito: “Este é um daqueles momentos em que nossa ação ou inação será sentida não apenas por aquelas garotas da escola que estão sequestradas e por suas famílias que esperam em agonia, mas pelas vítimas e criminosos de tráfico de mulheres ao redor do mundo. Agora é o momento de agir.”. Começa a surgir um chamado por intervenção ocidental para ajudar a encontrar as garotas, e a “estabilizar” a Nigéria no rescaldo de seu sequestro. O governo britânico já ofereceu “ajuda prática”.

As intervenções do ocidente têm falhado, uma após a outra, ao lidar com problemas particulares. Pior: levam a mais mortes, deslocamentos e atrocidades do que já eram enfrentados originalmente. Tudo isso tem sido justificado, frequentemente, com referências ao direito das mulheres. É como se as forças militares pudessem criar uma atmosfera em que terminam a violência e o abuso. As evidências apontam para o contrário.

O direito das mulheres foi um grande pretexto para a guerra do Afeganistão, iniciada em 2001, quando Laura Bush e Charlie Blair — as esposas dos chefes de governo dos EUA e Grã-Bretanha — apoiaram os planos bélicos de seus maridos, apresentando-os como suposto meio de libertar as mulheres afegãs. Hoje, após milhões serem desalojados e dezenas de milhares mortes, o Afeganistão continua sendo um dos piores países do mundo para mulheres viverem, com casamento forçado, casamento infantil, estupro e outras atrocidades ainda amplamente presentes.

E já há intervenção ocidental na África. Ela não tem o mesmo perfil do Afeganistão ou Iraque, porque as guerras passadas dificultaram as tentativas de agir diretamente por meio de tropas. Mas Barack Obama tem forças militares mobilizadas na África Ocidental através de sua base de drones Predator, no Níger, que faz fronteira com a Nigéria. Esta também é vizinha do Mali (cena de intervenções recentes da França e da Inglaterra) e da Líbia, alvo de uma guerra ocidental de bombardeios desastrosa em 2011, que deixou o país em estado de guerra civil e colapso.

Os drones norte-americanos também operam no Djibuti, Etiópia e logo além lado do Mar Vermelho, no Iêmem. O Ocidente envolveu-se em guerras por procuração recentes, na Somália. Se o terror islâmico tornou-se ameaça em cada vez mais pontos da África, os países ocidentais desempenharam um grande papel em sua criação.

Mas há outra guerra acontecendo na África: a econômica. Um continente tão rico em recursos naturais vê muitos de seus cidadãos viverem em condições indignas. Na Nigéria do presidente Jonathan, o crescimento econômico não foi direcionado aos pobres. A saúde e a educação estão fora do alcance de muitos.

A corrupção espalha-se. Exércitos e armas são mobilizados para proteger os ricos e as empresas estrangeiras, como a Shell — que quer acesso aos recursos do país, especialmente o petróleo. Corrupção e desigualdade estão associadas  ao papel do Ocidente. Fazem parte de um sistema que está preparado para começar uma guerra por recursos como  petróleo e gás, mas não entrará em guerra contra a pobreza, ou para garantir educação para todos.

É neste cenário que está inserido o terrível sofrimento das meninas sequestradas na Nigéria. E não vai melhorar com mais armas ocidentais e exércitos — na terra ou no ar.

FONTE: http://outraspalavras.net/destaques/nigeria-como-ocidente-alimenta-os-terroristas/