O ano de 2025 vai se aproximando do seu final e governo Lula decidiu autorizar a liberação de mais 51 agrotóxicos para uso e comercialização em território nacional. Isso se deu a partir da publicação do Ato nº 56, de 28 de novembro. de 2025.
Ainda com a memória da minha recente postagem sobre a mais nova tentativa de expansão da monocultura de árvores em território fluminense, resolvi verificar quantos dos 51 agrotóxicos estão destinados para os plantios monoculturais de eucalipto e sem surpresa cheguei ao número de 9 produtos. Isso mostra que há perfeita sintonia entre quem autoriza a presença legal de venenos agrícolas e os que querem se apropriar de cada vez mais áreas para a implantação de monoculturas de árvores em diferentes regiões brasileiras.
Dentre os agrotóxicos aprovados pelo Ato nº 56 para uso nas monoculturas de eucalipto está o glufosinato de amônio que foi banido na União Europeia em 2009 após estudos demonstrarem riscos à saúde humana e ambiental, como intoxicação aguda e crônica, problemas respiratórios e inibição da fotossíntese.
Outro agrotóxico aprovado pelo Ato nº 56 foi o Clomazona que apesar de não estar banida em toda a União Europeia, tem o seu uso estritamente regulamentado e a sua autorização está sob revisão contínua por causa da sua toxicidade para organismos aquáticos e o potencial de contaminação de águas subterrâneas.
Como se vê, o uso dessas substâncias é autorizado no Brasil, apesar do conhecimento científico e regulatório que se tem sobre seus efeitos nefastos sobre o ambiente e a saúde humana. E tudo isso para quê? Para transformar as terras brasileiras em verdadeiras banheiras químicas que envenenam e causam múltiplas enfermidades, muitas delas graves.
Monocultura de eucalipto em expansão na região de Morro do Coco, norte do município de Campos dos Goytacazes
Por Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)
A retomada do debate em torno da monocultura do eucalipto no estado do Rio de Janeiro, capitaneada por grupos empresariais, setores do governo Claudio Castro (PL) e representantes de órgãos federais, exige uma reflexão crítica sobre os rumos da política agrária fluminense e seus possíveis impactos socioambientais.
O Fórum Florestal Fluminense (FFF), criado em 2008, vem se consolidando como um espaço estratégico de articulação entre representantes do setor industrial, governo do estado, de associações de classe e de órgãos de pesquisa federais e estaduais. Sua atuação recente, entretanto, revela a retomada de antigos projetos de expansão da monocultura do eucalipto — propostas já questionadas e barradas no passado pela sociedade civil organizada, em defesa dos interesses ambientais e territoriais da população fluminense.
É importante destacar que o Fórum Florestal Fluminense, surgiu a partir de uma parceria entre a Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Rio de Janeiro (APEFERJ), o Instituto BioAtlântica (IBio), a então empresa Aracruz Celulose (atual Suzano) e federações empresariais como a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN). Dentre os objetivos principais do Fórum Florestal Fluminense, podemos citar: discutir normas de licenciamento ambiental, fomentar políticas de incentivo à silvicultura industrial e a ampliação da cadeia produtiva florestal no estado. Desde sua origem, o Fórum defende a criação de mecanismos que facilitem a entrada, no território fluminense, de grandes empresas do setor de papel e celulose — especialmente a Suzano, já consolidada nos estados vizinhos do Espírito Santo e de São Paulo.
Entre 2008 e 2016, o Fórum Florestal Fluminense promoveu diversos encontros em municípios como Campos dos Goytacazes, Nova Friburgo, Macaé e Rio Claro. Após um período de inatividade, o Fórum Florestal Fluminense retomou suas ações em outubro de 2021 e intensificou sua atuação em agosto de 2022, quando promoveu um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Na ocasião, apresentou propostas para o “desenvolvimento florestal” no estado do Rio de Janeiro a representantes políticos, incluindo candidatos de “esquerda”, que pleiteavam o governo estadual e o parlamento fluminense.
Cabe destacar que, dentre os atores que compõem o Fórum, a FIRJAN tem se destacado como principal porta voz da expansão da monocultura do eucalipto no estado. A entidade vem promovendo eventos de grande visibilidade, como o seminário “Economia Verde: Firjan, Governo e Especialistas Analisam o Potencial Econômico da Silvicultura no RJ”, realizado em maio de 2023, lotando o auditório da própria FIRJAN.
Nesse encontro, lideranças empresariais como Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira (então presidente da FIRJAN) e Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) defenderam a silvicultura industrial como solução para “gerar empregos”, “recuperar áreas degradadas” e reduzir a dependência da madeira importada no estado do Rio de Janeiro — o que, segundo eles, representaria modernização e sustentabilidade econômica para o espaço agrário fluminense. Estiveram presentes também no evento, Thiago Pampolha – então Secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS) e Vice-governador do Estado do Rio de Janeiro, Diogo Ladvocat – representante da Suzano, Joésio Perin – Vice-Presidente na STCP Engenharia, entre outros representantes de setores empresariais e da política fluminense.
Entretanto, esse discurso da chamada “economia verde”, propagado por representantes do setor industrial, precisa ser questionado. Apesar de se autoproclamarem como defensores do reflorestamento e da sustentabilidade, o modelo promovido por esses grupos, baseia-se em plantações homogêneas de eucalipto — uma monocultura voltada majoritariamente à produção de celulose para exportação. Na prática, trata-se de um modelo agroexportador, altamente dependente de grandes extensões de terra, que tende a acentuar conflitos fundiários, aumentar a concentração da terra, pressionar os recursos hídricos, impactar a biodiversidade regional e aumentar a insegurança alimentar. Esses problemas e muitos outros já foram amplamente documentados em estados onde existe a monocultura do eucalipto em larga escala e a atuação da Suzano, tais como o Espírito Santo e a Bahia.
Muito embora o Rio de Janeiro ainda não possua extensas áreas de eucalipto (pouco mais de 20 mil hectares), novos empreendimentos estão sendo planejados, especialmente no Norte Fluminense. Destaca-se a atuação recente da empresa Tree Agroflorestal S.A, que projeta o plantio de cerca de 30 mil hectares de eucalipto em Campos dos Goytacazes — município historicamente marcado pela concentração fundiária, pelos conflitos no campo, pelo desmatamento e pela monocultura.
Em recente publicação nas suas redes sociais, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho afirmou:
“O desenvolvimento da nossa cidade segue firme! Antes, terras sem uso e improdutivas agora estão sendo arrendadas para o plantio de eucalipto. Já temos uma empresa investindo R$ 80 milhões nesse projeto, gerando mais de 100 empregos! Essa conquista só foi possível graças à alteração na lei municipal, que agora permite o plantio de eucalipto em áreas específicas, garantindo um uso sustentável e estratégico dessas terras. Seguimos trabalhando para atrair mais investimentos e transformar o agronegócio em um dos grandes motores da nossa economia!”
Mas não parou por aí: ele afirmou que esse investimento só foi possível com a aprovação da Lei Municipal nº 9.333/2023 que revogou a Lei Municipal nº 7.282/2002, facilitando o cultivo de eucalipto no município. Com isso, o intuito é, a curto prazo, viabilizar o aumento do cultivo de eucalipto no município, para que a médio prazo, possa se instalar uma empresa de celulose em Campos. Ninguém tem dúvida, pelas tentativas anteriores e pelas articulações em curso, que essa empresa seria, preferencialmente, a SUZANO.
Buscando antecipar-se às críticas sociais e ambientais decorrentes das experiências negativas da monocultura do eucalipto em outros estados, o Fórum Florestal Fluminense, com apoio da FIRJAN e de setores do governo estadual, tem defendido a atualização dos dados sobre as terras disponíveis nos chamados Distritos Florestais (Decreto 45.597/2016), que somam um total de 600 mil hectares, sendo 324 mil hectares com “potencial” para a monocultura do eucalipto.
Figura 1: Áreas dos Distritos Florestais do Estado do Rio de Janeiro
¹ Atualmente, existem cinco Distritos Florestais no Rio de Janeiro, que abrangem municípios das regiões Norte1 (Campos dos Goytacazes, Cardoso Moreira, Italva, São Francisco do Itabapoana e Bom Jesus de Itabapoana), Norte 2 (Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu Santa Maria Madalena e Macaé), Noroeste (Itaperuna, Laje do Muriaé, Miracema, Santo Antônio do Pádua e São José de Ubá), Serrana (Carmo, São Sebastião do Alto e Cantagalo) e Médio Paraíba (Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Rio das Flores, Quatis, Valença e Vassouras).
A criação dos Distritos Florestais, alinhada com a mudança na legislação, através da aprovação da Lei Estadual nº 9.972/2023 (Política Estadual de Desenvolvimento Florestal), foi festejada por defensores da monocultura do eucalipto no evento da FIRJAN, pois as facilidades criadas pela nova legislação poderão garantir viabilidade para o projeto dos Distritos Florestais e da silvicultura industrial sair do papel.
Com a nova lei, o governo estadual fará o licenciamento prévio dos Distritos Florestais, assim cada empresa ou grande produtor que se instalar nessas regiões precisará só de uma licença autodeclaratória. Essa lei facilitadora para a introdução da monocultura do eucalipto em larga escala foi aprovada pelos deputados estaduais no apagar das luzes da legislatura anterior (2019 – 2022) e o govenador Claudio Castro, sancionou no início do seu segundo mandato (janeiro de 2023), “passando a boiada” do licenciamento ambiental e “escancarando” o território fluminense para a monocultura do eucalipto.
Essa estratégia em curso é vendida como uma forma de ordenamento produtivo de espaços ditos “abandonados” e, com isso, busca-se neutralizar críticas sobre os impactos fundiários, produtivos e ambientais da expansão da monocultura do eucalipto no RJ. Ao mesmo tempo em que afirmam existir terras suficientes para implantar projetos industriais, omitem os riscos de novas formas de territorialização do capital, que podem se dar por meio da subordinação de pequenos produtores à lógica empresarial do setor celulósico-papeleiro, marcado inclusive, pelo endividamento dos produtores que participaram da última tentativa frustrada de exportar essa atividade industrial para a região, empreendida pela então Aracruz Celulose\Fibria e pelo pai do atual prefeito de Campos e na época govenador do estado RJ, o senhor Anthony Garotinho. Projeto fracassado que teve continuidade nas gestões de Sérgio Cabral\Carlos Minc e do governador Pezão, deixando um passivo de dívidas, abandono e perda de terras por partes dos produtores no Norte e Noroeste Fluminense.
A atual ofensiva em defesa da monocultura do eucalipto no Rio de Janeiro, liderada por setores empresariais e legitimada pelo Fórum Florestal Fluminense, representa, portanto, um projeto de reconfiguração territorial que ameaça a diversidade ambiental e social no estado do RJ. Sob o rótulo da “sustentabilidade” e da “economia verde”, observa-se a tentativa de expansão de um modelo produtivo concentrador, com graves implicações socioambientais, que representará, novamente, sérios riscos, para termos a formação de um deserto verde no estado do Rio de Janeiro.
A Rede Alerta contra os Desertos Verdes (RADV) vem a público avisar a sociedade que a rearticulação de grupos ligados à implantação da monocultura do eucalipto em larga escala tem avançado, sobretudo na alteração de legislações, tanto no campo estadual quanto municipal, com claro intuito de facilitar a expansão da área plantada com eucalipto e a chegada de uma grande empresa de papel e celulose. Tudo isso, com apoio político e utilização de recursos públicos, inviabilizando a construção de um projeto de reforma agrária popular e agroecológico, afetando a segurança hídrica nas bacias hidrográficas do estado e a soberania territorial fluminense.
Por todas essas razões, conclamamos a sociedade civil, os movimentos sociais, pesquisadores, universidades e outros setores, a reafirmar a necessidade de um debate público amplo, com diferentes segmentos da sociedade, com a presença das populações do campo que poderão ser afetadas pela monocultura do eucalipto. É necessário reorganizar as forças progressistas no campo estadual, para que sejam capazes de denunciar os impactos dessa política e propor alternativas de uso do território que priorizem a vida, a diversidade e a justiça socioambiental.
Uma grande oportunidade está em curso, com o Projeto de Lei nº 5516/2025, de autoria da Deputada Estadual Marina do MST, que tem por finalidade alterar a Lei Estadual nº 9.972/2023 e a Lei Estadual nº 5.067/2007, tendo como objetivo, reforçar a proteção de solos, águas e biodiversidade na Política Estadual de Desenvolvimento Florestal, estabelecendo com nitidez a diferença entre floresta e monocultura
O documentário “ Desaparecido (Verschollen) – Negócios sujos com a proteção climática” (título original: “Verschollen – Schmutzige Geschäfte mit dem Klimaschutz”) revela uma operação internacional de greenwashing do suposto “aço verde”: no Brasil, plantações de eucalipto estão sendo “reflorestadas” para tornar a produção de aço neutra em carbono. Mas, para dar lugar às monoculturas, comunidades estão sendo expulsas e os direitos humanos violados.
O documentário mostra a realidade por trás da ficção e pode colocar em questão um programa de proteção climática que movimenta bilhões. A reportagem descreve as cadeias de abastecimento do aço verde, desde as plantações de eucalipto para a produção de carvão vegetal como fonte de energia barata, passando pela mineração de minério de ferro, fundição e produção de aço, até os consumidores finais na Europa, no setor de construção civil e engenharia.
O documentário descreve o contexto real do longa-metragem fictício “Verschollen” (Desaparecido), de Daniel Harrich, Alemanha, ARD, 2025. Assista ao documentário logo abaixo!
Um boom de plantação de eucalipto no Cerrado brasileiro está secando terras e nascentes de água, dificultando a agricultura de subsistência, disseram autoridades locais e agricultores à Mongabay.
Adilso Cruz, um fazendeiro de 46 anos do assentamento Alecrim, no Mato Grosso do Sul, relata que a escassez de água começou por volta de 2013, coincidindo com o crescimento das plantações de eucalipto na região, e piorou desde então.
“Os riachos que costumavam funcionar o ano todo começaram a fluir menos, secando e depois levando muito tempo para encher novamente”, diz Cruz. “A grama está sofrendo porque a água está desaparecendo da camada superficial do solo.”
“Eu tinha 70 cabeças de gado. Agora tenho 42, e vou precisar vender mais”, acrescenta. À medida que fazendeiros vendiam suas terras para plantações de eucalipto, também vendiam seus rebanhos, fazendo com que o preço do gado despencasse. “Eu estimo uma queda de cerca de 45% na renda”, relata Cruz.
Umestudoliderado por Valticinez Santiago, vice-secretário de Meio Ambiente de Selvíria, um município com alta produção de eucalipto, descobriu que as nascentes localizadas a 50 metros das plantações, o mínimo legal, secaram ou foram severamente degradadas. Santiago relatou à Mongabay que eles usaram imagens de satélite para mapear 400 nascentes cercadas por fazendas de eucalipto e agora recomendam expandir a zona de amortecimento para 500 metros, para proteger melhor as fontes de água.
A extensão das fazendas de eucalipto no Mato Grosso do Sul quadruplicou em 15 anos, passando de pouco mais de 375 mil hectares em 2010 para1,6 milhãode hectares em maio de 2025.
Mapa: Andrés Alegría/Mongabay.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silvaassinou uma leiem maio de 2024 que elimina a necessidade de licenças ambientais para o eucalipto. Na prática, relata Santiago à Mongabay, as autoridades não podem mais acessar terras privadas para avaliar os impactos ambientais sem um mandado, o que é difícil de obter sem evidências no local.
Cerca de 90% das fazendas são de propriedade de grandes bancos de investimento.
Empresas como Apple, Meta e Microsoft investiram milhões em eucalipto para compensar suas emissões de carbono. No entanto, críticos dizem que o eucalipto não é eficaz no sequestro de carbono, pois as árvores são colhidas a cada seis anos e transformadas em celulose para papelão e papel higiênico, o que significa que qualquer carbono armazenado é facilmente liberado na atmosfera.
Cruz conta que cerca de metade das famílias já deixou seu assentamento. Os que restam estão lutando para sobreviver e muitas vezes precisam de trabalho extra com as empresas de eucalipto.
“Muitas pessoas aqui acabam fornecendo mão de obra para as mesmas pessoas que estão tirando sua capacidade de produzir alimentos e ter liberdade financeira”, diz Cruz. “Esta terra era algo pelo qual lutamos. Foi um sonho. Mas muitos estão vendo esse sonho desmoronar e se sentem forçados a se resignar”.
Imagem do banner: Vista aérea de toras de eucalipto. Foto: Tamás Bodolay/Repórter Brasil
Pessoas desabrigadas pelas enchentes de 2024. O drama está se repetindo em 2025
O termo refugiado climático se refere a pessoas que, por causa das mudanças climáticas têm de deixar o território em que vivem. Pois bem, as notícias que chegam do estado do Rio Grande do Sul dão conta que, pouco mais de um ano após a ocorrência das mega enchentes que assolaram a parte central do estado e que tiveram impactos profundos sobre a cidade de Porto Alegre, há uma nova enchente gigantesca em curso.
Segundo informações do site Metsul, o nível do Rio Jacuí, que desemboca no Guaíba, atingiu nesta sexta-feira (20/6) 26,30 metros em Cachoeira do Sul, valor que fica abaixo somente das enchentes de 1941 e 2024. Como o Jacuí termina no Guaíba, as próximas horas poderão ser dramáticas para os segmentos da população que foram duramente afetados em 2024. Penso ser importante lembrar que em maio de 2024, o estado do Rio Grande do Sul foi assolado por inundações históricas, afetando mais de 300 mil pessoas e 446 municípios.
Ponte do Fandango foi interditada nesta sexta-feira (20/6) com o terceiro maior nivel do Rio Jacuí já observado na história de Cachoeira do Sul | Cristiano Pontes Dias
Nos próximos dias e semanas, o Blog do Pedlowski deverá publicar textos de testemunhas privilegiadas da hecatombe climática que se abate mais uma vez sobre o Rio Grande do Sul em um esforço de oferecer informações que estão sendo negadas pela mídia corporativa.
É importante lembrar que a situação do Rio Grande do Sul é causada por uma combinação de elementos complexos que combinam mudanças no uso da terra dentro e fora dos limites estaduais com fatores climáticos que operam em diferentes escalas espaciais. A hegemonia das monoculturas da soja e de árvores na região central do Rio Grande do Sul somada ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado representa um gatilho poderoso na detonação de uma grave crise climática que ameaça se repetir anualmente.
Enquanto isso as elites gaúchas dentro e fora do aparelho de estado continuam se comportando no melhor estilo dos ricos que estavam dentro do navio Titanic. Em outras palavras, continuam aferradas ao mesmo estilo de produção e consumo que está na gênese da crise climática que abala o Rio Grande do Sul. Afinal de contas, elas não precisam se preocupar quando as águas sobem.
Como me chegaram notícias de que sequer as comportas que protegem (ou deveriam proteger) foram consertadas, o produto final disso será a criação de uma massa de refugiados climáticos que terão de procurar outras partes do Brasil para se instalar.
Monocultura de eucalipto reduz biodiversidade em até 30% em nascentes
Prática comum no território brasileiro, a substituição de vegetação nativa por monoculturas como o eucalipto provoca mudanças na estrutura do solo, que podem afetar o ambiente e a fauna de nascentes de rios próximas. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostra que plantações de eucalipto reduziram em quase 30% o número de espécies de organismos aquáticos, entre eles insetos, encontrados em nascentes da Mata Atlântica.Os resultados da análise, publicados na sexta (2) na revista “Acta Limnologica Brasiliensia”, reforçam a qualidade ambiental de nascentes em áreas de mata preservada.
Os pesquisadores analisaram dez nascentes da bacia do rio Paraíba do Sul, em Minas Gerais, durante a estação seca de 2017 — metade em áreas com plantações de eucaliptos e a outra, com vegetação nativa. Eles coletaram amostras da água e sedimento em pontos diferentes das nascentes e analisaram a presença de macroinvertebrados aquáticos, incluindo insetos e vermes.
A pesquisa encontrou 8.474 macroinvertebrados aquáticos em áreas de florestas nativas e 5.261 em áreas de plantações de eucalipto, de 58 grupos. Embora a abundância total de macroinvertebrados não tenha diferido significativamente entre os dois tipos de vegetação, a riqueza de espécies foi significativamente menor nas áreas com plantações de eucalipto. Organismos aquáticos de seis grupos, como os trichoptera (friganídeos), psychodidae (família das moscas-de-banheiro) e tipulidae (pernilongos-gigantes), foram encontrados exclusivamente em nascentes de florestas nativas.
A presença desses grupos, especialmente sensíveis a alterações ambientais, indica que as nascentes com vegetação nativa possuem condições ecológicas mais favoráveis. Além dos macroinvertebrados, outros indicadores como cobertura vegetal, presença de matéria orgânica, pH, oxigênio dissolvido e condutividade elétrica foram analisados para avaliar a qualidade da água.
As florestas plantadas ocupam 9,5 milhões de hectares do país, sendo que 77,3% dessa área é de eucalipto, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Brasil é o principal exportador de celulose, e Minas Gerais se destaca como o estado com maior área de plantação de eucalipto, de 29%. Em 2022, a produção florestal foi responsável por 1,3% do PIB do país, segundo o Ministério de Agricultura e Pecuária. Embora reconheça a importância do setor, a pesquisadora Sheila Peixoto, da UFJF, autora do estudo, aponta que os impactos negativos do eucalipto são bem conhecidos pela ciência. “Além dos impactos terrestres, com esse trabalho, percebemos que esse tipo de plantação afeta também as nascentes”, analisa.
Para Peixoto, a pesquisa pode incentivar as tomadas de decisão sobre a autorização, regulamentação e licenciamento de plantações de eucalipto, principalmente em áreas com nascentes. Além disso, os dados podem ser usados em futuros estudos sobre bioindicadores ambientais, que medem a qualidade da água desses ambientes.
Agora, os cientistas da UFJF pretendem focar em grupos biológicos mais sensíveis aos impactos ambientais, por meio de uma abordagem voltada para o biomonitoramento da qualidade das águas. “Vamos aumentar a coleta de dados para conseguirmos comparar a biodiversidade em nascentes com diferentes condições ecológicas”, antecipa a pesquisadora.
Plantação de árvores na perspectiva de uma formiga. Foto: Imagens/imagem Pond5
Por Norbert Suchanek para o JungeWelt
Todas as manhãs, um ônibus após o outro transporta milhares de trabalhadores da comunidade de Ribas do Rio Pardo até aquele que é hoje o maior canteiro de obras do Brasil. Uma planície de areia vermelha bem definida e nivelada, com vários campos de futebol em tamanho, nos quais dezenas de enormes guindastes de construção, alcançando o céu azul, estão erguendo monstruosos andaimes de aço e salas de produção, e ao mesmo tempo, máquinas de construção de estradas estão asfaltando tudo o que podem : Trata-se do projeto de celulose “Cerrado”, que custa cerca de quatro bilhões de euros da Suzano, já a maior produtora brasileira de celulose. A expectativa é que a nova fábrica entregue anualmente 2,55 milhões de toneladas de matéria-prima de papel proveniente de eucaliptos geneticamente modificados, aumentando a produção total da Suzano para 13,5 milhões de toneladas por ano.
O projeto, apoiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e pelo governo do estado de Mato Grosso do Sul, trouxe mais de dez mil trabalhadores da construção civil do Sul e Nordeste do Brasil, de São Paulo e de países como Colômbia, Venezuela, Cuba, Argentina e Haiti à comunidade, que originalmente tinha cerca de 20 mil habitantes, que não estava preparada para esta “explosão demográfica”. Os preços dos terrenos e os aluguéis de apartamentos dispararam. O assentamento operário com 1.280 leitos, construído por uma empresa terceirizada na periferia da cidade, é apenas uma gota no oceano.
Os dias de empregos no mega canteiro de obras estão contados há muito tempo. A fábrica, que fica a apenas dez quilômetros de Ribas do Rio Pardo, tem conclusão prevista para junho do próximo ano. De acordo com um comunicado da empresa, a operação das instalações e as plantações de madeira empregarão cerca de 3.000 pessoas de forma permanente, muito poucas das quais virão da indústria da construção, atualmente em expansão.
A parte mais importante do projeto Cerrado é a matéria-prima: o eucalipto. As plantações uniformes de árvores já estão se espalhando pela região como um mar. Outrora conhecida como “Terra do Gado”, Ribas do Rio Pardo e comunidades vizinhas como Três Lagoas, Santa Rita do Pardo, Água Clara e Brasilândia são dominadas pelo eucalipto há vários anos. O boom das plantações de árvores começou na região no início dos anos 2000 e se acelerou com a conclusão das três primeiras fábricas de celulose em 2009, 2012 e 2017 em Três Lagoas, duas das quais pertencem à empresa Suzano e uma à empresa Eldorado Brasil.
Onde há poucos anos onças e pumas vagavam pela floresta intacta do Cerrado caçando tamanduás, veados, antas e outros animais selvagens, ou gado pastando para o consumo de carne do Brasil, hoje os paus de eucalipto estão enfileirados. De acordo com a Associação dos Produtores e Consumidores de Plantações Madeireiras (Reflore-MS), um total de 1,4 milhão de hectares em Mato Grosso do Sul já foram plantados com clones da espécie arbórea australiana de rápido crescimento. Este ano serão acrescentados mais 300 mil hectares de plantações de eucalipto: 822 hectares por dia.
De acordo com o atual plano de manejo florestal, a própria Suzano possui 169,3 mil hectares de floresta protegida de Cerrado e 458,4 mil hectares de áreas de eucalipto na região, que planeja expandir para 600 mil hectares até meados de 2024 para operar a nova fábrica. Para alegria da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) de Mato Grosso do Sul, Ribas do Rio Pardo se tornará a “capital mundial do eucalipto”.
A matéria-prima do papel mato-grossense já é vendida para 36 países da Ásia, América do Norte, América Central, América do Sul, Europa, Oriente Médio e África, sendo a China, de longe, o maior comprador. No ano passado o país importou 2,384 milhões de toneladas.
O que o governo do estado e a indústria de celulose comemoram é, para a rede contra os desertos verdes (Rede Alerta contra os Desertos Verdes), uma catástrofe ecológica e social. A Suzano é responsável pelo desmatamento do Cerrado, pela poluição e pela escassez de água, bem como pela destruição de solos férteis, segundo a rede, que descreve as monoculturas madeireiras como “desertos verdes”. “A expansão das monoculturas e das suas cadeias logísticas e industriais está causando a perda da biodiversidade e de qualidade de vida tanto no campo como na cidade”, queixa-se a rede.
Os ambientalistas denunciam especialmente o plantio pela Suzano de duas espécies de eucalipto geneticamente manipuladas – aprovadas pelo governo brasileiro: a variedade H421, aprovada em 2015 e que visa fornecer mais polpa por hectare, e a variedade 751K032, permitida desde 2021 e que, assim como a soja geneticamente manipulada conhecida da empresa genética Monsanto, é resistente ao herbicida total glifosato.
“Mato Grosso do Sul é o estado com maior produção de eucalipto, principalmente pelos incentivos fiscais às empresas de celulose e pela disponibilidade de terras antes utilizadas para a pecuária”, explicou o advogado trabalhista Leomar Daroncho em simpósio de cientistas, ativistas e atingidos pela monoculturas de árvores e plantações transgênicas de eucalipto, que ocorreu em junho na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). “Em grandes áreas, a vegetação nativa, o Cerrado, foi retirada para o plantio de eucalipto transgênico”.
As pequenas famílias de agricultores e as explorações pecuárias que anteriormente não venderam as suas terras às empresas de celulose estão agora presas às monoculturas e queixam-se de que os riachos e poços estão a secar e os operadores das plantações pulverizam regularmente pesticidas. A situação é particularmente dramática para os sobreviventes do povo Ofayé no município vizinho de Brasilândia. Sua reserva indígena restante, de 484 hectares, está cercada por dezenas de milhares de hectares de monocultura de eucalipto. Uma ilha de Cerrado no mar de plantações madeireiras que foi demarcada como território indígena na década de 1990, mas ainda não foi “homologada”, ou seja, reconhecida, pelo governo brasileiro.
Colheita de madeira em escala industrial. Joa Souza/imago
“Em pouco tempo vimos a expansão do Geneucalyptus no limite da reserva. Vimos como inúmeras árvores nativas, com cem ou duzentos anos, foram derrubadas mecanicamente em poucos minutos e substituídas por eucaliptos”, reclamou o cacique Ofayé, Marcelo da Silva Lins, durante o simpósio. O estado está agora a tornar-se cada vez mais seco e o clima local está a tornar-se cada vez mais quente.
De acordo com um relatório publicado em dezembro de 2022 pela Environmental Paper Network (EPN), uma rede global de mais de 150 grupos ambientalistas e organizações não governamentais, sabe-se que os clones de eucalipto de rápido crescimento drenam a água do solo. “A enorme expansão destas plantações, em conjunto com as alterações climáticas, está lentamente a transformar o reservatório de água continental da região numa área de seca. O restante vegetação natural será danificado, enquanto a agricultura tradicional e a agricultura de subsistência se tornarão impossíveis.”
O risco de grandes incêndios florestais também aumenta. Durante os períodos de seca, as plantações de madeira poderiam facilmente pegar fogo. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal via satélite, o número de incêndios na região do eucalipto multiplicou-se a partir de 2018, passando de cerca de 1.000 a 3.000 incêndios florestais por ano para mais de 10.000 incêndios em 2020. Um total de 20 mil hectares de floresta de eucalipto foram queimados naquela época no Mato Grosso do Sul. E, finalmente, o uso crescente de herbicidas como o glifosato ou insec=ticidas dirigidos contra formigas cortadeiras está envenenando os cursos de água e a ameaçar a vida selvagem e os meios de subsistência da restante população local que ainda não foi deslocada.
No Brasil, as empresas de celulose costumam afirmar que suas plantações de eucalipto não substituem áreas florestais naturais, mas sim substituem fazendas agrícolas ou degradadas anteriormente utilizadas. Um estudo publicado em 2013 pela Universidade Federal de Goiás mostra que, entre 2002 e 2010, mais de 61% das novas florestas de eucalipto foram criadas em áreas intactas de Cerrado. Apenas 26 por cento das plantações de madeira substituíram pastagens para gado e cerca de 13 por cento substituíram áreas anteriormente utilizadas para outros fins. Em comparação com os anos de 2005 e 2011, a área de eucalipto mais que quadruplicou em detrimento do Cerrado, especialmente no Mato Grosso do Sul, afirma o estudo.
Também é importante mencionar que as fazendas tradicionais de gado no Cerrado são significativamente menos prejudiciais do que as plantações madeireiras industriais. Por um lado, as áreas de pastagem fornecem mais habitat para a flora e a fauna naturais do que as monoculturas madeireiras australianas. Por outro lado, embora os pecuaristas desmatem ou queimem a floresta, deixam em pé algumas árvores de sombra e, sobretudo, as raízes das árvores e arbustos permanecem no solo, o que é uma diferença fundamental. O ecossistema do Cerrado está adaptado aos incêndios florestais há milhares de anos. Cerca de 70% da sua biomassa encontra-se no subsolo, protegida do fogo. Suas plantas têm raízes profundas e poderosas que armazenam grandes quantidades de água para sobreviver a incêndios florestais e longos períodos de seca. Portanto, após a limpeza, elas podem brotar novamente e o ecossistema pode se recuperar. Algumas pastagens da região do Cerrado que são consideradas degradadas pelos agricultores estão, na verdade, regenerando o Cerrado.
Em última análise, os grandes criadores de gado não fecham as portas apenas porque venderam as suas terras à indústria da pasta de papel. Com o lucro que obtêm, costumam adquirir terras mais baratas em outras áreas que ainda não foram desmatadas para criar novas pastagens.
A Suzano, porém, se vê como a salvadora do clima que protege o Cerrado. Nenhuma árvore foi derrubada na região para suas plantações madeireiras. »Na Suzano seguimos uma política de produção responsável e, por isso, introduzimos uma política de desmatamento zero. “Todas as nossas florestas de eucalipto estão localizadas em áreas que já eram cobertas por outras culturas”, afirma a empresa. O cultivo do eucalipto tem impactado positivamente a atmosfera devido à conversão de terras antes utilizadas para agricultura, disse o diretor da Suzano, Aires Galhardo, em entrevista ao portal Celulose .
É por isso que a empresa – tal como outras empresas de plantações de madeira – quer ser recompensada com dinheiro do comércio internacional de carbono. “O eucalipto cresce rapidamente e ajuda a absorver o dióxido de carbono da atmosfera e, assim, devolver oxigênio puro à natureza”, escreve Suzano sobre seu projeto de proteção climática “Carbono Cerrado”, de Ribas do Rio Pardo. “O papel das florestas de eucalipto é fundamental para os esforços da humanidade na neutralização dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.” Toda a produção de celulose é baseada em plantações renováveis de eucalipto para abastecer a nova fábrica em Ribas do Rio Pardo. »As mudas utilizadas são criadas com tecnologia de clonagem e possuem uma das bases genéticas mais avançadas para a formação de florestas para produção de celulose.«
Embora as obras da maior fábrica de celulose de eucalipto do mundo, no Rio Pardo, ainda estejam a todo vapor, seus dias recordes já parecem estar contados. A empresa chilena de madeira e celulose Arauco aparentemente está planejando uma instalação ainda maior no bairro às margens do rio Sucuriú. Será o maior projeto de celulose do mundo, superando a Suzano, o que criará enormes oportunidades de emprego e crescimento, disse o então governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja, quando o projeto foi anunciado no ano passado. A construção da nova fábrica de celulose próxima ao município de Inocência, no Rio Sucuriú, que tem cerca de 8.400 habitantes, está prevista para começar em janeiro de 2025 e empregará no máximo 12 mil trabalhadores da construção civil nesta fase. Quando entrar em operação, em 2028, a empresa precisará de cerca de 380 mil hectares de plantações de madeira na região, dos quais Arauco afirma já ter adquirido 60 mil hectares.
Ainda falta as licenças ambientais para o projeto Sucuriú, mas isso parece ser apenas uma formalidade. O governador do Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), e seu secretário estadual do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, também o acolhem de forma exagerada. Por isso viajaram para a sede da Arauco no Chile em junho passado junto com seu antecessor e colega de partido, Reinaldo Azambuja, para – segundo anúncio do governo – conhecer com seus próprios olhos a tecnologia “avançada” da empresa chilena.
Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].
O que você precisa saber sobre a empresa Suzano Papel e Celulose
A Suzano é uma multinacional brasileira que planta eucalipto para produzir celulose. Ela é uma das principais empresas do setor no mundo.
A Suzano se tornou a maior empresa de plantações de eucalipto no Brasil ao comprar, em 2018, a Fibria, seu principal concorrente. A Fibria, por sua vez, resultou da fusão, em 2009, entre duas outras empresas: a Votorantim Celulose e Papel e a Aracruz Celulose. Desde o ano 2018, 50% da empresa Veracel Celulose também pertence a Suzano.
Como resultado, as plantações de eucalipto da Suzano ocupam hoje uma área imensa, inclusive diversos territórios que pertencem a povos e comunidades indígenas, quilombolas e camponesas, que foram invadidos por essas empresas.
A Suzano é responsável por graves danos sociais, ambientais e climáticos, incluindo desmatamento, poluição e escassez da água, e destruição de terras férteis que deveriam produzir alimentos, dentre outros.
Leia esta cartilha e conheça alguns fatos importantes sobre a Suzano, fatos muitas vezes invisíveis por trás da máquina de propaganda dessa megaempresa.
A Suzano, maior exportadora mundial de celulose de eucalipto, vem se distanciando energicamente nos últimos meses do presidente Jair Bolsonaro, notório por sua resistência ao combate ao desmatamento na Amazônia, que aumentou 22% no ano passado.
Membro destacado da Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura, a Suzano participou da cúpula do clima COP26 de novembro em Glasgow, na Escócia. Seu presidente-executivo, Walter Schalka, disse : “Nosso objetivo mais importante é trabalhar para ter metas ambientais mais ambiciosas no curto prazo e encontrar financiamento para esse [esforço].”
A Suzano – que fornece produtos de madeira para celulose para o mundo – afirma enfaticamente que, longe de agravar a crise climática, suas plantações de eucalipto estão ajudando no combate. Schalka disse ao Financial Times que “a floresta plantada vai ser parte da solução de longo prazo para as metas que temos no Acordo [Clima] de Paris ”.
Cristiano Oliveira, gerente executivo de sustentabilidade da empresa, detalhou essa afirmação. Suzano, disse ele, depende de uma vasta base florestal de cerca de 2,3 milhões de hectares (4,9 milhões de acres) – com suas plantações de eucalipto abrangendo uma das “maiores áreas de conservação de propriedade privada no Brasil”, cobrindo cerca de 960.000 hectares (2,4 milhões de acres) .
Essas monoculturas de árvores contribuem para “a preservação das espécies locais, a regulação dos ciclos hidrológicos e a remoção e armazenamento de dióxido de carbono”, disse Oliveira. As novas plantações da empresa, acrescentou, entrelaçam corredores ecológicos, vinculando-os a reservas florestais nativas, para apoiar a biodiversidade, atendendo aos requisitos de proteção do Código Florestal Brasileiro .
A Suzanoafirmaque só planta eucalipto “em áreas antropizadas e degradadas, então não é verdade que nosso negócio destrói matas nativas”. Também rastreia a origem de seus produtos florestais para garantir que não venham de áreas desmatadas após 1994, conforme exigido pela legislação ambiental brasileira. “Cada pedaço de madeira que cruza nossos portões em nossas fábricas têm um controle sobre ele. Sabemos de onde vem e quem está por trás ”, diz Suzano .
Eucaliptos empilhados, prontos para transporte e beneficiamento. Uma plantação de eucalipto pode ser vista à direita. Imagem de Steve Strauss / Oregon State University viaFlickr ( CC BY-SA 2.0 ).
Ambientalistas brasileiros em conflito
Alguns ambientalistas argumentam veementemente contra a visão de mundo otimista da Suzano, dizendo que as plantações da empresa – compostas apenas por árvores de eucalipto não nativas do Brasil – não deveriam ser consideradas como restauração florestal legítima , que deixam de sequestrar carbono a longo prazo e que eucaliptos as monoculturas são, em sua maioria, biologicamente estéreis; enquanto comunidades tradicionais vizinhas reclamam das desigualdades sociais e da grilagem de terras pela empresa.
Mas o novo foco da Suzano em sustentabilidade ambiental e responsabilidade social persuadiu algumas organizações ambientais. Mauricio Voivodic, diretor executivo doWWF Brasil, que está trabalhando com a Suzano,declarou recentemente : “A Suzano é uma boa referência para outras empresas”.
A SOS Mata Atlântica ,ONG dedicada à proteção dos remanescentes da Mata Atlântica – o bioma mais ameaçado do Brasil – também colabora com a Suzano. Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da ONG, disse que essa decisão foi difícil, porque a escolha seria polêmica para outros ambientalistas. Mas, acrescentou, referindo-se ao governo Bolsonaro: “O Brasil vive um dos piores momentos anti-ambientais da história do nosso país” e, “se a expansão das plantações de eucalipto ocorrer sem medidas de proteção às matas nativas, nós o faremos enfrentam uma perda irreversível de biodiversidade. ”
Ribeiro acredita que trabalhar com a maior fabricante de celulose e papel da América Latina oferece novas oportunidades de conservação e é um exemplo de cooperação bem-sucedida entre a ONG, prefeituras e a Suzano que obedece às leis ambientais brasileiras. “Sem a pressão internacional do mercado, a Suzano não mudaria seu comportamento”, disse ela. “Estamos aproveitando o momento para criar ‘um bom agronegócio’. que se distancia da própria elite rural reacionária aliada de Bolsonaro. ”
Ribeiro reconhece, no entanto, que as plantações de eucalipto têm desvantagens ambientais, incluindo a redução do nível do lençol freático (potencialmente impactando florestas nativas e fazendas próximas) e despejando grandes quantidades de substâncias tóxicas nos rios. Mas ela acredita que a cooperação da ONG com a Suzano levará a tempo a acordos que eliminem as piores práticas.
A subsidiária da Suzano, FuturaGene, divulgou um pôster expressando suas opiniões e listando as vantagens do eucalipto GM sobre o eucalipto convencional. Embora a Suzano ainda não esteja cultivando o eucalipto GM em escala comercial, espera-se que o faça em breve. Imagem cortesia da FuturaGene.
Uma solução climática para celulose?
Não surpreendentemente, a Suzano usa suas parcerias com organizações ambientais para promover e aprimorar suas credenciais verdes, e provavelmente espera que suas plantações sejam aceitas pela comunidade internacional como parte da chamada amplamente apoiada por reflorestamento em escala mundial para combater as mudanças climáticas. De acordo com asregrasatuais da ONU , “tanto uma plantação industrial de monocultura de árvores de eucalipto quanto uma floresta tropical com suas centenas de espécies de árvores diferentes são classificadas como floresta”.
No entanto, os críticos dessa política da ONU dizem que não há comparação entre a imensa capacidade de armazenamento de carbono e a extensa biodiversidade de uma floresta nativa brasileira e de uma plantação de árvores. Ativistas e alguns pesquisadores apelidaram as monoculturas de eucalipto de “desertos biológicos ”, embora outros pesquisadores digam que isso exagera.
A estreita associação da empresa com o reflorestamento global não é boa apenas para a imagem da Suzano junto aos consumidores ecologicamente corretos, como os da União Européia. Também poderia ajudar a empresa a obter financiamento do governo no curto prazo, possivelmente arrecadando alguns dos US $ 19,2 bilhões prometidos pela Declaração Florestal de Glasgow, anunciada na COP26 em novembro, “para deter e reverter a perda florestal e degradação da terra” até 2030.
No longo prazo, a Suzano espera ter suas plantações reconhecidas pelas autoridades governamentais como contribuintes das Contribuições Determinadas Internacionalmente(NDCs) do Brasil – as promessas de redução de emissão de carbono do país feitas como parte do Acordo de Paris de 2015. Essa designação pode abrir novas possibilidades de financiamento no futuro, possivelmente na forma de apoio financeiro internacional, subsídios e incentivos fiscais.
Mongabay perguntou à Suzano se suas novas plantações seriam incluídas nos NDCs do Brasil e a empresa respondeu: “O Brasil anunciou ajustes em seus NDCs muito recentemente durante a COP26, mas toda a gama de ações relacionadas a ele ainda não foi totalmente divulgada.”
Com base no ano de referência de 2005, o compromisso do Brasil de 2020 da NDC aprovado na COP26 compromete a nação a reduzir as emissões líquidas totais de gases de efeito estufa em 37% em 2025, em 43% em 2030, e alcançar a neutralidade climática (emissões líquidas zero) em 2060. O WWF foi altamente crítico em relação ao compromisso do Brasil de 2020 com o NDC, observando em parte que, “A omissão de medidas para reduzir o desmatamento, as emissões de combustíveis fósseis e subsídios, e para encorajar ações de restauração florestal e a adoção de sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta, entre outros áreas (que foram incluídas no [Brasil original de 2015] NDC) tornam o novo [2021] NDC uma proposta vaga e desfocada em comparação com a anterior. ”
As plantações de eucaliptos têm sido descritas como “desertos verdes”, preservando pouca biodiversidade nativa. E embora as Nações Unidas considerem as fazendas de árvores como sumidouros de carbono, pesquisadores e ativistas dizem que a vegetação nativa fornece melhor sequestro do que o eucalipto. Imagem de Cássio Abreu via Flickr.Uma paisagem quase estéril após a colheita do eucalipto. Imagem de Ignacio Amigo para Mongabay
Controvérsia em andamento sobre as plantações de eucalipto
Alguns ambientalistas acreditam que é um erro cooperar com a Suzano na promoção de sua imagem de aliada da conservação da floresta porque, dizem, a designação verde obscurece os impactos danosos das plantações de eucalipto.
Não há dúvida de que o eucalipto ( Eucalyptus spp.), Nativo do oeste da Austrália, é uma espécie de árvore útil. Altamente tolerante a solo infértil, sua polpa é transformada em papel higiênico, lenços de papel e outros produtos de papel; enquanto a árvore é utilizada globalmente para projetos de reflorestamento em grande escala. Em 2015, as plantações de eucalipto do mundo cobriram 20 milhões de hectares (49,4 milhões de acres), com o Brasil detendo a maior parcela de 4,12 milhões de hectares (10,4 milhões de acres).
A expansão das plantações de eucalipto está aumentando atualmente tanto na China quanto no Brasil. De acordo com o Instituto de Geografia e Estatística do governo brasileiro (IBGE), a área cobertano Brasil por essas plantações em 2019 aumentou para 7,6 milhões de hectares (18,8 milhões de acres).
O eucalipto cresce rapidamente, por isso é elogiado por sua capacidade de captura de carbono. Um estudo de 2018 descobriu que “O dióxido de carbono removido por [todas] as plantações florestais brasileiras ao longo dos 26 anos [1990-2016] representam quase a totalidade das emissões de [carbono] do país na agricultura, silvicultura e outros setores de uso da terra em 2016. ” Os pesquisadores concluíram que “as plantações florestais desempenham um papel importante na mitigação das emissões de GEE (gases de efeito estufa) no Brasil”. Em 2016, aponta o estudo, as plantações de eucalipto, que então se expandiam rapidamente, representavam 71% de todas as plantações no país. A pesquisa também sugeriu que as plantações poderiam desempenhar um papel na realização dos PADs do Brasil.
Outros pesquisadores argumentam que não é suficiente contar apenas a quantidade de carbono que o eucalipto captura à medida que cresce. Markus Kröger, professor associado de desenvolvimento global na Universidade de Helsinque, apontou os resultados de umestudo de 2004 que mostra que as mudanças no uso da terra associadas à produção de eucalipto, incluindo “acidificação do solo e diminuição do carbono orgânico do solo”, levaram a um declínio acentuado no carbono armazenado , cancelando cerca de 80% do carbono capturado pelo eucalipto.
Colheita em andamento em uma plantação de eucalipto no Brasil. Imagem de Steve Strauss / Oregon State University via Flickr ( CC BY-SA 2.0 ).
Além disso, como o eucalipto cresce muito rapidamente e é derrubado em rápida rotação, o carbono que ele captura não é armazenado por um longo prazo como na floresta nativa, mas logo é liberado de volta à atmosfera. Um relatórioda Environmental Paper Network (EPN), um coletivo global de pesquisadores de clima e proteção florestal, concluiu: “Dentro de dois a três anos após a colheita [do eucalipto], quase todo o CO 2 ‘armazenado’ é liberado novamente na atmosfera. ”
Existem outras preocupações importantes. “As fábricas de celulose poluem fortemente, com a produção de um milhão de toneladas de celulose levando a pelo menos dois milhões de toneladas de emissões de carbono”, disse Kröger. “Essas informações são ocultadas pelas empresas de celulose e não são consideradas nos cálculos.”
Geraldo Wilson Fernandes, professor de ecologia na Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, concorda: “Precisamos considerar a pegada que essas plantações têm em geral. Existem problemas decorrentes da queima de resíduos, do beneficiamento da madeira, do plantio de árvores onde elas não ocorrem naturalmente ”.
Fernandes destaca outra diferença fundamental entre fazendas de árvores e floresta natural: “Essas plantações homogêneas, ou monoculturas, têm uma diversidade de espécies muito menor quando comparada ao ambiente que foi destruído para abrir caminho para elas. Eles têm menos pássaros, menos mamíferos, menos insetos e menos polinizadores … Junto com isso, as empresas sempre usam agrotóxicos [químicos tóxicos] que tornam a situação muito mais grave. A floresta parece um deserto em comparação com o ecossistema nativo. ”
Kröger conclui: “As plantações de eucalipto não são sustentáveis para o Brasil ou qualquer outro país. A expansão das monoculturas de árvores é característica do fenômeno mais amplo da grilagem de terras, que é impulsionado pela lógica financeira dominante do capitalismo atual ”. Os críticos argumentam que a regra do Acordo de Paris que iguala as plantações de árvores às florestas nativas não é totalmente baseada na ciência, mas foi alavancada pela indústria florestal e por nações com grandes áreas florestais como os EUA, Rússia e Brasil.
Um toco toco em uma floresta brasileira. Os especialistas destacam o fato de que as plantações homogêneas, ou monoculturas, têm uma diversidade de espécies muito menor quando comparada ao ambiente que foi destruído para dar lugar a elas. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.
Suzano: uma empresa com uma história variada
Em 1920, Leon Feffer chegou ao Brasil vindo da Ucrânia, fugindo de pogroms contra os judeus. Então, em 1939, ele comprou duas fábricas de papel que usavam celulose de fibra longa importada; uma dessas fábricas ficava na cidade de Suzano, no interior de São Paulo, que Feffer adotou como nome da empresa.
Após a segunda Guerra Mundial, a demanda por papel disparou, e o filho de Leon desenvolveu um novo processo de fabricação, usando celulose de fibra curta de árvores de eucalipto cultivadas no Brasil. Desde então, a Suzano tem se expandido fortemente, aumentando tanto as plantações de eucalipto quanto a capacidade de fabricação de celulose.
Antes de se tornar uma das gigantes mundiais da celulose, a Suzano atuou em outros setores, inclusive na petroquímica. E, como muitas grandes empresas brasileiras, seu crescimento foi marcado por denúncias de corrupção. Investigadores federais durante o escândalo Lava Jatodescobriram que em 2007 a Petrobras, a estatal brasileira de petróleo, pagou três vezes o preço de mercado pela compra da petroquímica Suzano, Suzano Petroquímica, enquanto também assumia as dívidas da empresa. A Petrobras pagou R $ 4,1 bilhões (US $ 2,1 bilhões) por uma empresa avaliada em apenas R $ 1,4 bilhão (US $ 706 milhões).
Mais recentemente, a Suzano consolidou sua posição de liderança no mercado de celulose. Em 2018, comprou a Fibria, que até então era a maior produtora de celulose do país. Facilitando esse negócio estava o BNDESPar, o braço acionário do gigante estatal Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o acionista majoritário de ambas as empresas de celulose. A imprensa brasileira criticou severamente a aquisição porque o BNDES usou dinheiro público para facilitar a criação de um enorme monopólio privado. “Existem cerca de US $ 2,5-US $ 3 bilhões de sinergias nesta transação”, disse o CEO da Suzano Schalka, que defendeu o negócio , explicando que as duas empresas combinadas aumentaram a competitividade futura.
Hoje a Suzano é uma empresa gigantesca. As plantações de propriedade da empresa cobrem 2,3 milhões de hectares (4,9 milhões de acres). A empresa é, de longe, a maior produtora de celulose do Brasil e, atualmente, suas 10 fábricas têm capacidade para produzir 10,9 milhões de toneladas de celulose por ano. Em 2017, o Brasil produziu 10,2 milhões de toneladas de celulose, muito menos do que a produção da China (99,3 milhões de toneladas) e dos Estados Unidos (75,1 milhões de toneladas). Mas seu consumo interno muito menor significava que o Brasil era o maior exportador global de celulose, com 17% do mercado mundial.
A produção de celulose da Suzano deve aumentar rapidamente. A empresa afirma estar plantando mais de 500 milhões de mudas de eucalipto por dia, o que em breve adicionará nove milhões de hectares (22 milhões de acres) às suas plantações de eucalipto. A empresa também está construindo uma nova fábrica de celulose de eucalipto em Minas Gerais. Oliveira, da Suzano, disse à Mongabay que será a planta mais eficiente da empresa, com capacidade de produção de celulose de 2,55 milhões de toneladas anuais.
A Suzano continua adotando novas tecnologias. O eucalipto geneticamente modificado (GM) desenvolvido pela FuturaGene, subsidiária da Suzano, produz 20% a mais de madeira e foi aprovado para uso comercial pelo governo em 2015, mas ainda não foi implantado comercialmente. Em novembro de 2021, Brasil aprovou outra eucalipto GM, este modificado para ser resistente ao controverso ligada ao câncer de herbicida glifosato, mais conhecido como Roundup.
Terra desmatada para dar lugar a plantação de eucalipto. Imagem cortesia de Flávia Bernardes, FASEUm fazendeiro mantém abóboras cultivadas perto de uma plantação de eucalipto no Brasil. Os ativistas contra as plantações de eucalipto dizem que as árvores de crescimento rápido absorvem água e nutrientes, arruinando as terras agrícolas ao redor – sem falar no problema com os pesticidas que às vezes acabam no abastecimento de água. Imagem de Hanna Nikkanen via Flickr ( CC BY-NC-SA 2.0 ).
Conflitos sociais contínuos
A expansão agressiva da Suzano gerou conflitos com as comunidades tradicionais do Brasil, algumas das quais perderam suas terras. Isso deixou um legado de má vontade e ressentimento em algumas localidades próximas às plantações e fábricas de celulose.
“Por incorporar várias outras empresas, a Suzano acumulou imensos passivos socioambientais, além de uma longa trajetória de violações e ilegalidades, por ter promovido um nefasto modelo de monoculturas de eucalipto em escala industrial ao longo de várias décadas , ”Disse Winnie Overbeek, coordenador internacional do Movimento Mundial pela Floresta Tropical .
Alguns conflitos ainda estão ocorrendo. Flávia dos Santos, líder do Território Tradicional Quilombola do Sapê do Norte, entre São Mateus e Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo, foi contundente em sua denúncia do impacto das plantações de Suzano: “Vivemos de vinhas, peixes, … e a mandioca … a gente depende da terra, do rio e da floresta para sobreviver ”, mas, disse ela, a Suzano planta eucalipto nas cabeceiras desses cursos d’água. “Os rios secam ou as nascentes ficam poluídas. Acabamos sem as condições mínimas de sobrevivência. ”
“Temos uma luta diária com a Suzano”, acrescentou. “A monocultura do eucalipto chegou atropelando tudo e, com o racismo, tomou nossas terras. Terra que pertenceu aos nossos ancestrais. Terra que era nosso meio de sobrevivência. Os quilombolas [comunidades habitadas por descendentes de escravos fugitivos] aqui tinham de tudo em abundância – peixes, campos, matas. Mas hoje estamos construindo nossas casas umas em cima das outras porque não temos espaço ”.
Sapezeiro, um residente do Sapê do Norte Quilombola, estado do Espírito Santo, Brasil. O solo foi degradado por décadas de uso de pesticidas, mas os residentes usam métodos agrícolas tradicionais para restaurá-lo a algo semelhante à sua vitalidade anterior. Imagem cortesia de Flávia Bernardes, FASE.
De acordo com a legislação brasileira, esse quilombola deveria estar seguro em sua proteção à terra. Isso porque a Fundação Cultural Palmares, instituição pública de defesa da cultura afro-brasileira, há uma década certificou a validade da afirmação de quilombola da comunidade e agora aguarda o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para demarcar seu território. Apesar disso, o processo de titulação de terras para suas 32 comunidades não foi concluído pelo governo, e muitos temem que os residentes tradicionais sejam forçados a deixar suas terras com a expansão das plantações de eucalipto.
Cristiano Oliveira, empresa de celulose, admite o conflito: “A Suzano tem trabalhado para recuperar, por via judicial, algumas áreas de sua propriedade no norte do Espírito Santo que estavam ocupadas ilegalmente. Ressaltamos, entretanto, que desde o início da pandemia não foram realizadas ações de retomada da posse para as áreas alegadamente ocupadas por comunidades quilombolas, que permanecem no local. ”
A Suzano afirma que, desde que respeitados os seus direitos de propriedade, faz questão de colaborar: “Reconhecemos a importância das comunidades locais, por isso a Suzano se relaciona com todas as comunidades da região. Temos várias linhas de investimento social que beneficiam diretamente algumas organizações sociais no norte do Espírito Santo, incluindo mais de 20 associações quilombolas ”.
Mãe e filhos plantam mudas no reflorestamento do Quilombola Sapê do Norte. Imagem cortesia de Século Diário
O caminho a seguir
As opiniões divergem sobre se a recente dedicação da Suzano ao ambientalismo significa que pode ser encontrada uma maneira de tornar suas plantações de eucalipto sustentáveis e socialmente e conservadoras.
“O aumento das plantações de eucalipto está causando graves impactos negativos na biodiversidade e está causando mais pobreza, injustiça social e danos ao planeta”, diz Fernandes, mas continua confiante de que soluções podem ser encontradas. “Empresas como a Suzano têm funcionários muito capacitados e bem treinados. Eles poderiam facilmente aplicar a ciência para tornar seus negócios verdadeiramente sustentáveis. Não estou falando de sustentabilidade econômica, mas de sustentabilidade ambiental, ecológica e social permanente. ”
Kröger tem menos certeza. “Acho que o atual modelo de plantação de eucalipto está tão arraigado no modelo básico de negócios da Suzano, que quer até ser pioneira na expansão de eucalipto GM resistente ao glifosato, que [a sustentabilidade ambiental] não é possível. Empresas como a Suzano precisam ser tratadas mais como empresas de combustíveis fósseis, como resquícios de um modelo de negócio obsoleto, do qual é preciso desinvestir rapidamente. As empresas devem transformar radicalmente seus modelos de negócios e práticas florestais, se quiserem se tornar parte da solução. ”
Kröger diz que os verdadeiros aliados dos ambientalistas na luta para conter as mudanças climáticas não são grandes corporações. “Comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e outras comunidades rurais podem dar uma grande contribuição [ao meio ambiente], ao substituir o eucalipto e outras monoculturas e áreas de pastagem por sistemas agroflorestais, que forneceriam alimentos além de trazer solo, clima, hidrológicos e socioambientais -benefícios econômicos.”
Imagem do banner: Uma plantação de eucalipto no Brasil. Imagem de Victor Camilo via Flickr ( CC BY-ND 2.0 ).
Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela MongaBay News [Aqui!]
Em meio ao pior momento da pandemia do Coronavírus no Brasil, a bancada ruralista vê oportunidade de aprovar o PL 6299/02. Conhecido como PL do Veneno, sua proposta é flexibilizar o processo de aprovação de novos agrotóxicos, mudar critérios de avaliação, banir o termo “agrotóxico” e encontrar brechas para liberar produtos que a atual legislação proíbe.
Proposto pela frente parlamentar formada por empresários do agronegócio, o PL impacta diretamente a vida da população, mas foi construído de forma unilateral, sem qualquer diálogo com a sociedade. Os principais argumentos em favor do PL já foram rebatidos por uma série de especialistas. A Anvisa, a Comissão de Direitos Humanos, a Abrasco, a Fiocruze uma série de entidades já se posicionaram contra a aprovação do projeto.
O que o PL 6299/02 tem a ver com a moda?
O Brasil é o maior mercado de agrotóxicos do planeta e o algodão é a quarta cultura que mais consome agrotóxicos, sendo responsável por aproximadamente 10% do volume total de pesticidas utilizado no país. Entre os agrotóxicos mais utilizados está o glifosato, que pode causar diversos efeitos na saúde, como aborto espontâneo e câncer.
O Brasil é também um grande exportador de celulose solúvel, matéria-prima para a produção de viscose. As culturas de eucalipto e algodão utilizam de 7 a 10 tipos dos agrotóxicos mais vendidos no Brasil, respectivamente. Entre os mais utilizados está o acefato, na 4º posição, com alto potencial carcinogênico e o Imidacloprido, na 7ª posição, considerado um dos mais fatais para abelhas, polinizadoras importantes, o que gera preocupação tanto do ponto de vista econômico, quanto socioambiental.
Mas o uso de agrotóxicos não impacta apenas as comunidades próximas. A exposição cumulativa aos agrotóxicos deve ser considerada visto que alguns compostos amplamente utilizados podem permanecer presentes em organismos, água e solo por muitos anos.
Alerta para a moda! O que acontecerá se o PL for aprovado
Desinforma o consumidor: ao retirar as sinalizações de perigo das embalagens, alterando o nome dos produtos para “defensivos agrícolas” ou “produtos fitossanitários” no lugar de “agrotóxicos”, o PL demonstra uma tentativa de apresentar os agrotóxicos como produtos benéficos, e não tóxicos.
Riscos reais à saúde de trabalhadoras e trabalhadores: em 2018, um estudo feito com mulheres expostas ao glifosato em Uruçuí, no sul do Piauí, região de cultivo de soja, milho e algodão, estimou que uma em cada quatro grávidas da cidade sofreu aborto espontâneo e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado. Ameaça a exportação do algodão brasileiro:a Europa e Estados Unidos caminham em um movimento de redução de agrotóxicos, sendo que produtos proibidos lá são os mais vendidos por aqui. Em curto prazo, a mudança deve afetar o próprio negócio de exportação das commodities brasileiras, como enfatizou a pesquisadora da Universidade de São Paulo – USP, Larissa Bombardi, durante o Ciclo de Debates Sobre Agrotóxicos, da Assembléia Legislativa de São Paulo, ocorrido no dia 05/05/2021, a aprovação do PL 6299/02 como estratégia de negócio é um “tiro no pé”.
Apoiados em fontes e dados irrefutáveis, nos posicionamos contra o PL 6299/02 e em favor de uma Moda Sem Veneno. Somos designers, empresárias, professoras, cientistas, estilistas, criadoras, comunicadoras, ativistas, militantes, jornalistas, consumidoras, costureiras, pesquisadoras, etc. Somos pessoas a favor da ciência e da tecnologia como ferramentas de promoção da vida.
As petições demonstram a preocupação da sociedade e são utilizadas para pressionar congressistas a votarem contra a aprovação do PL. O grupo organizador irá entregar as assinaturas formalmente à Frente Parlamentar Ambientalista. Assine e compartilhe este abaixo-assinado e junte-se à luta de diversas organizações e indivíduos contra a aprovação do PL do Veneno.
Referências e mais informações sobre o PL 6299/02, acesse: