No RJ de 2026, uma combinação própria do colapso climático: afogados e sedentos

As notícias veiculadas pela mídia corporativa sobre o regime de chuvas neste início de 2026 revelam um quadro preocupante para o estado do Rio de Janeiro. O ano começou com volumes elevados de precipitação, provocando enchentes, inundações e deslizamentos de terra em diversas regiões. A Baixada Fluminense e o Noroeste do estado concentram alguns dos episódios mais graves, com impactos significativos sobre moradias, infraestrutura e mobilidade urbana.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam para um dado menos visível: parte expressiva dessas chuvas não tem ocorrido nas cabeceiras dos rios que abastecem os principais reservatórios do estado. Após um 2025 marcado por estiagem prolongada e níveis críticos de armazenamento, os reservatórios registraram alguma recuperação recente, mas ainda permanecem abaixo do ideal para garantir segurança hídrica plena.

A coexistência de chuvas intensas em áreas urbanas vulneráveis e a persistência de déficits hídricos em sistemas de abastecimento refletem um padrão cada vez mais associado às mudanças climáticas. Eventos extremos — tanto de excesso quanto de escassez — tendem a se tornar mais frequentes e intensos, conforme indicam estudos científicos consolidados nas últimas décadas.

O cenário expõe fragilidades históricas no planejamento urbano e na gestão de riscos. Muitas cidades fluminenses seguem pouco preparadas para absorver grandes volumes de água em curtos períodos, especialmente em áreas de ocupação precária. Ao mesmo tempo, políticas estruturantes de adaptação climática avançam de forma lenta, apesar dos alertas recorrentes da comunidade científica.

Diante desse contexto, especialistas defendem que a agenda pública incorpore de maneira prioritária medidas de adaptação climática, incluindo investimentos em drenagem urbana, proteção de encostas, recuperação de bacias hidrográficas e planejamento territorial. Sem uma mudança consistente de prioridades, a tendência é de agravamento dos impactos sociais, ambientais e econômicos provocados pela combinação de chuvas extremas e secas prolongadas.

A polêmica do PIX foi muito útil para esconder a crise climática que se abateu sobre o Brasil

Ruas da cidade de Florianópolis (SC) foram inundadas após chuvas intensas

Toda a polêmica desatada pela decisão do governo federal de apertar minimamente o monitoramento das transações via PIX foi muito útil em vários sentidos. Um deles que creio ser merecedora de atenção foi que todas as milhões de visualizações de vídeos contendo fake news sobre a portaria do PIX caíram com um lençol de silêncio sobre a manifestação da crise climática em diferentes partes do território brasileiro.

Enquanto o governo Lula se enrolava para explicar o que nem precisaria ser explicado, pelo menos 4 estados brasileiros sofreram com eventos meteorológicos extremos: Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses 4 estados o rastro de destruição causado por chuvas particularmente intensas deveria ter soado o alarme climático, mas até agora a repercussão tem sido inexplicavelmente abaixo daquilo que ocorreu em torno dos vídeos do PIX.

O fato é que está se tornando cada vez mais evidente que vivemos o princípio de um processo de intensificação de eventos meterológicos extremos, e que está pegando a maioria das cidades brasileiras totalmente despreparadas para fazer frente a essa situação extrema. De quebra, o fato de que inexiste qualquer esforço para reservar recursos orçamentários para dar conta de todos os problemas que estão se desenvolvendo torna a situação ainda mais complexa.

E o exemplo ruim vem de cima. Há que se lembrar que mesmo confrontado com evidências de que a crise climática está se agraando, o governo Lula decidiu reduzir em R$ 200 milhões o orçamento voltado para gerenciar e reduzir riscos de desastres ambientais. A verba reservada para o programa voltado a essas medidas prevê o repasse de R$ 1,7 bilhão em 2025, contra R$ 1,9 bilhão em 2024.  É o ajuste fiscal falando mais alto do que a necessidade de responder aos efeitos trazidos por grandes eventos meteorológicos.

Mas a realide nos estados e municípios não é nada diferente, o que causa um grau altíssimo de despreparo para fazer frente aos danos catastróficos trazidos pelos eventos extremos. Ao assistir cenas do que ocorreu nos últimos dias nas áreas mais atingidas, fica evidente o despreparo das estruturas governamentais para responder de forma eficiente ao avanço das águas. 

E quando a coisa se refere ao processo de adaptação climática, a coisa vai na mesma direção, pois o país do PIX continua ignorando a necessidade de que sejam tomadas decisões estruturais e estruturantes para responder ao agravamento dos problemas climáticos.  E com isso, a tendência de que passemos a ver cenários cada vez mais dramáticos.

Que ninguém se engane: a crise climática está aqui para ficar e vai se agravar.  Assim, urge dar a devida importância política às demandas por adaptação, especialmente para os segmentos mais pobres da população que são as vítimas preferenciais da inação governamental também na área climática.