Quem são os alunos da UENF e como os cortes os projetos dextensão os afetam diretamente? Essa é a pergunta que não quer ser calada

Luciane Silva e estudantes do projeto de web rádio Maíra: depois da tesourada, haverá futuro?
Por Luciane Soares da Silva
Neste ano completo 14 anos de docência, pesquisa e extensão na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Realizei minha graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fui bolsista do CNPq desde os 18 anos de idade. A realização do doutorado no Rio de Janeiro, na Universidade Federal, só foi possível na mesma condição. Posso dizer que completei um trajeto longo de mobilidade social ascendente com o concurso público. Mas tenho absoluta clareza de que ser filha da classe trabalhadora urbana de Porto Alegre e pertencer a UFRGS possibilitou que eu fosse “elegível” para esta transição. E isto não é tão simples pois não estamos falando apenas de renda. Aprendi sobre capitais culturais absolutamente indisponíveis para aqueles que só puderam conhecer outro país através do pertencimento ao mundo acadêmico. Fui ao Congresso Anual da Sociede Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) realizado no Maranhão em 1994. Mas contei com a ajuda de amigos e do meu orientador. Este é um traço comum biografia de nossos alunos: o apoio emocional de colegas, as repúblicas e seus orientadores mais próximos. E em muitos casos, definidor do que chamamos de “êxito acadêmico”. Curiosamente ao final, desconhecemos o caminho.
Nesta semana assisti as sessões do XVI Congresso Fluminense de Iniciação Científica e Tecnológica. E observando a relação entre classe, região, família e desempenho, avaliei as fraturas que parte dos alunos trazem consigo ao ingressar na Universidade. Não estou observando uma variável isolada, mas experiências subjetivas e objetivas que produzem inseguranças, fobias e um desafio duplo. Além da formação curricular, a superação de um capital herdado em uma região desigual, as histórias familiares e seus traumas, as formas de preconceito. A transição que nossos alunos terão de fazer não é a mesmo que fiz. É bastante comum a emoção pública dos momentos de formatura nos quais nossos alunos são os primeiros de sua família a receber um título de graduado, mestre ou doutor. Esta variável, antes de ser observada com alegria deve nos servir como indicador para análise das formas que a desigualdade assume no norte noroeste fluminense.
A semana de iniciação, de pesquisa ou extensão, marca em detalhes este processo de mudança. Fazer uso da palavra em público, ser avaliado, reconhecido ou criticado. Estas operações antecipam a vida profissional mas também servem como demarcador de distinção. O nervosismo acima do comum explicita diferenças anteriores a entrada na Uenf. Que deverão ser convertidos em conhecimento ao longo de quatro anos.

Projeto de web rádio Maíra, um dos projetos de extensão ameaçados pela tesoura na Uenf
Nossos alunos precisam dos auxílios que recebem. Não para complementar renda, mas em alguns casos, porque eles são um ponto de apoio familiar. Não se trata de fazer um discurso populista. Defendo a excelência com os mesmos critérios de exigência aos quais fui submetida. E ao mesmo tempo, devemos discutir coletivamente formas de avaliação, leitura e formação. São questões distintas.
O corte que será feito nas bolsas de extensão, com a exigência (implícita) de que os alunos façam extensão sem bolsa, cria um curto circuito que queima pontes de construção fundamentadas na confiança nesta instituição. Não se pode deixar estudantes sem previsão , não podemos deixar projetos sem previsão e este não é um erro aceitável.
Faço extensão desde 2011. Já levamos cinema aos internos do hospital João Vianna e dali saíram premiações, monografias e dissertações. Já percorremos escolas de Campos mostrando aos alunos a importância das marchinhas de carnaval na década de 30. Já construímos tecnologias com fotografia, poesia, grafite e outros instrumentos junto a adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas. Já publicamos nossas experiências em revistas brasileiras, e, neste momento, estamos construindo oficinas de arte e memória na rede pública de Campos; além de montar uma rádio que toque música, faça divulgação científica e fale dos temas da cidade aos jovens. Por eles próprios. Assim como estes, tantos outros projetos incorporam temas fundamentais para construção de saberes críticos na região.
Eis que na semana em que deveríamos dar início a inscrição para os projetos de extensão, fomos surpreendidos com a seguinte mensagem; “divulgamos os resultados de análise dos projetos e programas de extensão submetidos ao edital PBEX-2024. A qualidade dos projetos apresentados foi excepcionalmente elevada […]No entanto, apesar da excelência dos projetos, enfrentamos uma limitação significativa em relação aos recursos financeiros disponíveis.”.
A divulgação com a nota de cada projeto estabeleceu aqueles que terão recursos imediatos e os demais, que deverão esperar o recurso ou a abertura de editais na Pró Reitoria de Assuntos Comunitários. A indignação da comunidade com a descontinuidade de projetos que prestam serviços inestimáveis a cidade é compreensível. As duas categorias criadas, na prática, já prejudicam extensionistas que precisam de acompanhamento e previsibilidade. Neste momento sem a possibilidade prevista de recurso, sabendo que as avaliações foram feitas por pares de áreas muito distintas, todo o processo de seleção e classificação torna-se obscuro. Sequer sabemos se devemos realizar a seleção de projetos mal avaliados a considerar que deverão esperar recursos. O que devemos fazer sem a mínima previsibilidade?
Ao final, pensar que não seremos capazes de prover condições dignas de trabalho em extensão para estes alunos em uma semana tão importante para ciência fluminense, diz muito sobre tudo que tem ocorrido na Uenf. Embora o lema seja “o futuro chegou”, para alunos da Uenf talvez ele tenha chegado com a cara do passado.
Em uma região na qual as heranças familiares seguem definindo o acesso ao poder, nada pode ser mais transformador do que a Universidade. Pública, de Excelência e socialmente referenciada
Finalizo indicando o livro de Paulo Freire, Extensão ou Comunicação. Freire escreve este livro no Chile, mirando o lugar do educador enquanto alguém capaz de educar e educar-se em processo de diálogo. O ano de 1968 marcou uma geração e devemos pensar se o que temos feito na UENF é extensão ou comunicação. Assumindo a postura de Freire, me desafio a pensar a Extensão como transformação social.
Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf.