Wladimir Garotinho e a miragem da “faculdade pública” na Baixada Campista

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Li com um misto de curiosidade e incredulidade uma notícia bem documentada do site “Campos 24 horas na qual o prefeito Wladimir Garotinho e o secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o ilustre desconhecido “Doutor” Serginho (PSL), na qual é anunciada a criação de uma tal “faculdade pública” (na verdade um “Centro de Inovação Tecnológica”),  nas dependências  de uma fábrica de macarrão, que foi construída pela empresa Duvenêto Indústria de Alimentos Ltda com  recursos do Fundo de Desenvolvimento de Campos (Fundecam), e que fechou as portas deixando uma dívida de R$ 95 milhões para os cofres públicos municipais (ver vídeo abaixo).

Ainda que as intenções propaladas pelo prefeito de Campos dos Goytacazes façam sentido, alguém precisa informar a ele duas coisas básicas. A primeira é que asfixiada pelo administração estadual da qual o Dr. Serginho faz parte, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) mal consegue pagar suas contas com as obrigações que já tem, o que só não é mais grave porque boa parte dos custos com energia, água e internet foram internalizadas pelos servidores que estão trabalhando em casa.  Essa crise financeira ficará explícita em breve, pois a reitoria da Uenf está impondo uma volta ao trabalho presencial sem a garantia do oferecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs) aos servidores e professores da instituição.

A segunda é que adiantar a participação da Uenf em uma empreitada obscura como a criação dessa “faculdade pública” sem consulta prévia é o caminho mais rápido para isso não dar em nada. É que a a reitoria da Uenf pode até aparecer em fotos promocionais com os tradicionais apertos de mão (o atual reitor, aliás, se mostrou um expert nesse tipo de ação promocional), mas vai ficar nisso mesmo, pois objetivamente quem decide se haverá participação são servidores que acumulam perdas salariais de quase 50% só nos últimos sete anos, e que estão para ter tolhidos uma série de direitos graças ao pacote de maldades enviado à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALerj) pelo governo acidental Cláudio Castro. Daí que trabalhar mais sob essas condições só na base do chicote. Como o governo Bolsonaro, do qual a família Garotinho é aliada, ainda não conseguiu abolir a Lei Áurea, eu diria que anunciar a participação da Uenf dá alguma legitimidade ao anúncio, mas não garantirá absolutamente nada.

Há que se dizer que a necessidade de se oferecer formação profissional para jovens campistas, especialmente os que vivem na Baixada Campista, é fundamental para melhorar a situação dos quase 190 mil campistas que vivem em condições de pobreza ou extrema pobreza, segundo dados do governo federal. Mas não será oferecendo miragens que isso será feito. E da forma que está posto, esse anúncio de uma “faculdade pública” não passa disso, uma miragem que a realidade irá rapidamente desmanchar.

Finalmente, uma dica positiva para o prefeito Wladimir Garotinho. A Uenf,  após razoável negociação na Alerj, assimilou em 2019 a Escola Técnica Estadual Agrícola Antônio Sarlo (ETEAAS), instituição de trajetória fundamental na cidade de Campos dos Goytacazes. Entretanto, a prometida parceria com a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes nunca saiu do papel, o que já era esperado já que o ex-prefeito Rafael Diniz não era muito amigo da educação pública.  A dica é a seguinte: que tal apoiar o projeto de recuperação da Antonio Sarlo? Seria bem menos miragem e mais realidade ancorada na história da educação campista.