Revistas predatórias abrem as porteiras para artigos feitos por ChatGPT

Um artigo recém-publicado por Daniel Stockemer e Farah Fakri, da University of Ottawa, na revista científica PS: Political Science & Politics, publicada pela Cambridge University Press em nome da American Political Science Association, oferece evidências bastante incômodas sobre algo que há muito tempo se suspeita no mundo acadêmico: em muitas revistas predatórias, o que determina a publicação de um artigo parece ter muito menos relação com sua qualidade científica do que com a disposição do autor em participar do negócio editorial.

O mérito do trabalho de Stockemer e Fakri está justamente em ter colocado essa suspeita à prova. Os autores selecionaram 144 revistas identificadas como potencialmente predatórias a partir de mensagens de spam, da Lista de Beall e de uma base especializada. Em seguida, submeteram dois tipos de material que dificilmente deveriam atravessar uma avaliação científica minimamente rigorosa: trabalhos produzidos por estudantes de graduação e pequenos artigos de engenharia integralmente gerados pelo ChatGPT.

Os resultados são impressionantes. Entre as 76 revistas às quais foram enviados trabalhos de graduação, 51 chegaram a uma decisão editorial. Dessas, 39 aceitaram os manuscritos, uma chegou a publicá-lo imediatamente e apenas 11 os rejeitaram. Isso significa uma taxa de aceitação de 78,4% entre aquelas que efetivamente responderam. E não estamos falando de artigos científicos produzidos por jovens pesquisadores, mas de trabalhos acadêmicos escritos originalmente para disciplinas de graduação, principalmente dos primeiros anos, sem contribuição original para a literatura.

Com os textos produzidos por inteligência artificial, o resultado foi ainda mais revelador. Foram submetidos 10 pequenos estudos de caso de engenharia, totalmente gerados pelo ChatGPT, a 68 revistas. Quarenta e seis aceitaram os manuscritos, apenas quatro os rejeitaram e 18 simplesmente não responderam. Os textos tinham cerca de 800 palavras e continham problemas que uma revisão minimamente cuidadosa poderia identificar, incluindo inconsistências técnicas e referências bibliográficas inexistentes.

Há episódios quase caricatos. Um trabalho de graduação sobre a crise da dívida no Sul Global foi aceito e publicado por uma revista dedicada a imagens clínicas e médicas, apesar de o artigo tratar de economia política e não possuir qualquer relação com a área médica. Em outro caso, uma revista aceitou um artigo de engenharia totalmente produzido pelo ChatGPT depois de os autores declararem deliberadamente que não haviam utilizado inteligência artificial. A resposta editorial informou simplesmente que o trabalho havia passado pelo teste de plágio. As referências falsas produzidas pela própria IA aparentemente não despertaram qualquer preocupação.

Mas há aqui uma questão que considero particularmente importante. O artigo de Stockemer e Fakri não demonstra que a inteligência artificial seja incompatível com a produção científica. Demonstra algo diferente e talvez mais grave: a existência de um sistema editorial capaz de transformar textos sem qualquer pesquisa original — inclusive aqueles produzidos automaticamente e contendo informações falsas — em aparentes artigos científicos. A diferença é fundamental. Ferramentas de IA podem auxiliar pesquisadores na organização de informações, revisão de textos, programação, exploração preliminar de dados e inúmeras outras tarefas. Nada disso elimina a responsabilidade intelectual do pesquisador nem substitui método, dados, análise, verificabilidade ou revisão crítica. O problema começa quando um texto sintético passa a ocupar o lugar da pesquisa e encontra, do outro lado, uma revista cuja preocupação principal aparentemente não é verificar se existe ciência no manuscrito.

É aí que as revistas predatórias representam um problema que ultrapassa os autores que pagam para publicar nelas. Ao imitarem a aparência de periódicos científicos legítimos — com DOI, volume, número, conselho editorial e páginas cuidadosamente diagramadas — elas podem introduzir conteúdos sem validade científica no próprio ecossistema de circulação do conhecimento. Uma vez publicado, um artigo ruim pode ser encontrado por mecanismos de busca, incorporado a revisões bibliográficas e eventualmente citado por outros pesquisadores. Stockemer e Fakri alertam justamente para o risco de conteúdos fabricados ingressarem dessa maneira no registro científico e contaminarem trabalhos posteriores.

Por isso, talvez a conclusão mais importante desse experimento seja que o problema das revistas predatórias não está apenas na cobrança de taxas de publicação. Existem excelentes revistas de acesso aberto que cobram APCs e realizam revisão por pares rigorosa. A característica essencial da predação está na transformação da publicação científica em uma relação essencialmente comercial, na qual os mecanismos que deveriam separar conhecimento cientificamente defensável de simples aparência de ciência deixam de funcionar.

E a chegada da inteligência artificial generativa torna esse problema ainda mais perigoso. Se antes produzir dezenas ou centenas de artigos fraudulentos exigia algum esforço humano, hoje é tecnicamente possível produzir textos com aparência acadêmica em escala industrial. Se existirem revistas igualmente dispostas a publicá-los sem revisão efetiva, estarão dadas as condições para uma verdadeira linha de montagem de pseudociência.

O trabalho de Daniel Stockemer e Farah Fakri, portanto, deveria servir também de alerta para universidades e agências de fomento. Em um sistema acadêmico que continua premiando quantidade de publicações, número de artigos e determinados indicadores bibliométricos, combater revistas predatórias exige mais do que elaborar listas de periódicos suspeitos. Exige modificar os próprios incentivos que alimentam esse mercado e recolocar no centro da avaliação aquilo que deveria importar: a qualidade da pesquisa e a contribuição efetiva que ela oferece ao conhecimento científico.

A cadeia alimentar das revistas predatórias

Por Theo Ruprecht para “Revista Pesquisa Fapesp”

Na  hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema QUALIS). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta.

Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo estudo nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico Scientometrics — esse, claro, legítimo.

A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes.

Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”.

Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”.

Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico.

Cardápio de tramoias

Talvez você queira ser creditado como o criador de um “biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as paper mills) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do The Guardian publicada em agosto divulgou o trabalho do matemático Reese Richardson, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas.

Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude.

O caso, no entanto, indica como as paper mills adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmicaUma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do The Guardian sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as paper mills disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de paper mills nas últimas 24 horas”.

Um escândalo anacrônico
Quem viu a clássica série Plantão Médico (ER na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. Uma investigação da BBC mostrou que o NHS Blood and Transplant, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto.

Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O NHS Blood and Transplant, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série The Pitt prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico?


Fonte: Revista Pesquisa Fapesp

Pesquisa em larga escala revela que milhares de anúncios fraudulentos oferecem autorias de artigos científicos em troca de dinheiro

Os resultados são “apenas a ponta do iceberg” do obscuro mercado de fábricas de papel.

Ilustração conceitual de papéis jorrando de uma máquina de chicletes.

SARA GIRONI CARNEVALE

Por Jeffrey Brainard para a “Science” 

Pesquisadores inescrupulosos podem comprar a posição de primeiro autor em um manuscrito que não escreveram por valores que variam de US$ 57 a US$ 5.600. E, pelo menos desde 2021, anúncios online públicos oferecem milhares de oportunidades para isso. Esses são alguns dos resultados alarmantes de uma investigação de grande escala sobre um obscuro mercado online, no qual empresas chamadas de fábricas de artigos científicos vendem autoria de relatórios acadêmicos — muitas vezes de má qualidade, quando não totalmente fabricados — contribuindo para a enxurrada de conteúdo de baixa qualidade que polui a literatura científica.

Os anúncios, em sites e no aplicativo de mensagens e redes sociais Telegram, eram de sete empresas em diferentes países, identificadas pelos autores do estudo como prováveis ​​fábricas de artigos científicos (paper mills). Submetido esta semana ao servidor de pré-publicações arXiv, o estudo fornece “tantas evidências de como as fábricas de papel operam, algo que muitas pessoas não têm acesso ou conhecimento”, afirma Leslie McIntosh, vice-presidente de integridade e segurança da pesquisa na empresa de ferramentas de publicação Digital Science, que não participou do estudo. “Sabemos que existe um problema, agora vamos fazer algo a respeito.”

Utilizando análise automatizada de texto, os pesquisadores identificaram 18.710 anúncios de empresas que os autores rastrearam até a Rússia, Ucrânia, Uzbequistão, Índia e outros países. Além de oferecerem autoria em artigos acadêmicos, outros produtos à venda incluíam autoria de livros didáticos, registros de patentes e prêmios profissionais. (A pequena equipe limitou sua investigação principalmente a anúncios em inglês e não incluiu fábricas de papel em outros países, como a China, onde outras investigações indicaram que a prática proliferou .) Cerca de 85% dos anúncios informavam os preços da autoria, com a posição de primeiro autor custando em média US$ 1.030.

Muitos anúncios forneciam poucos detalhes, mas prometiam que o artigo seria publicado em um periódico de alto nível, de acordo com métricas baseadas em citações, e quase todos garantiam que o periódico estaria listado nos índices bibliográficos Web of Science ou Scopus — limiares de qualidade que podem ser valiosos para o avanço profissional, afirma a autora principal, Reese Richardson, pesquisadora de reprodutibilidade da Universidade Northwestern. Alguns anúncios mencionavam periódicos específicos de grandes editoras. Títulos da Elsevier e do IEEE, por exemplo, foram citados em 112 e 101 anúncios, respectivamente.

Em um comunicado, a Elsevier classificou o preprint como “valioso” porque “lança mais luz sobre as operações das fábricas de artigos”. A empresa acrescenta: “Nossa avaliação inicial sugere que a maioria dos manuscritos destacados no preprint não parece ter sido publicada pela Elsevier, embora uma investigação mais aprofundada esteja em andamento”, e observa que “já retirou diversos artigos devido a alterações suspeitas de autoria identificadas antes de ser alertada sobre as preocupações específicas levantadas, e outros estão sob análise”.

Em uma declaração separada, o IEEE afirmou: “Quando tomamos conhecimento de possíveis problemas com o conteúdo, dedicamos tempo para analisá-lo cuidadosamente e, quando justificado, retratamos as publicações não conformes.”

O estudo não investiga quais anúncios resultaram em artigos publicados, já que as fábricas de artigos frequentemente ocultam a origem de um artigo alterando seu título ou resumo antes de submetê-lo a um periódico, o que dificulta a conexão entre anúncios e artigos publicados. Mas uma investigação anterior, conduzida pela coautora do estudo, Anna Abalkina, cientista social da Universidade Livre de Berlim, rastreou aproximadamente 1.000 anúncios de autoria até mais de 400 artigos publicados . Destes, ela afirma que apenas 70 foram retratados.

As estimativas da prevalência de literatura científica proveniente de fábricas de papel variam. Um estudo publicado em janeiro no The BMJ , por exemplo, descobriu que quase 10% dos 2,6 milhões de artigos de pesquisa sobre câncer publicados entre 2019 e 2024 contêm semelhanças com artigos conhecidos provenientes de fábricas de papel . E as retratações de artigos científicos devido a indícios de origem em fábricas de papel aumentaram drasticamente nos últimos anos, de acordo com dados mantidos pela publicação sem fins lucrativos Retraction Watch. De quase zero em 2019, o número chegou a mais de 6.700 em 2023, ou 50% de todas as retratações naquele ano. O número de retratações relacionadas a fábricas de papel diminuiu desde então, mas ainda representa cerca de um quarto do total.

Richardson espera que outros pesquisadores usem o novo conjunto de dados para investigar mais a fundo as operações das fábricas de artigos— e que as editoras façam mais para fiscalizar os jornais que publicam. As descobertas do estudo são “apenas a ponta do iceberg”, diz ele. “Essas informações estavam disponíveis publicamente — alguns desses anúncios apareceram há anos — e essas revistas e editoras, em sua maioria, não tomaram nenhuma providência até que alguém as alertasse.  Se você quer ser visto como uma editora que não tolera isso, você não pode tolerar.” 

Jeffrey Brainard é repórter da revista Science em Washington, D.C., onde cobre temas como publicação científica, ciência aberta, revisão por pares, a ciência da ciência e outros assuntos. Você pode contatá-lo no Signal pelo endereço jbrainard.19 e no Bluesky pelo perfil @jeffreybrainard.bsky.social.


Fonte: Science

O Blog como ferramenta de defesa da integridade científica no Brasil

Da divulgação acadêmica à denúncia de fraudes, a trajetória do Blog do Pedlowski revela a ausência de mecanismos institucionais eficazes no combate à “fake science” nas universidades públicas brasileiras

Quando criei este blog em 2011, eu o fiz instigado por muitas questões que me pareciam não poder ser tratadas de forma ampla apenas por meio de publicações científicas. Uma das minhas intenções era muito modesta e se relacionava basicamente com a divulgação das pesquisas realizadas pelo meu grupo de pesquisa na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

Quinze anos depois da criação do Blog do Pedlowski, verifico agora que, curiosamente, este espaço se tornou uma espécie de referência para debates em torno da integridade científica no Brasil, já que tenho, modestamente, tentado monitorar e denunciar práticas que comprometem a qualidade e a ética na produção de conhecimento.

E o curioso é que o material publicado no blog, muitas vezes resultado de garimpos que faço na internet, está sendo usado até na apuração de denúncias sobre o cometimento de diferentes tipos de fraudes por reputados pesquisadores brasileiros. E aqui uma constatação triste: se o Blog do Pedlowski está tendo esse tipo de uso, o que podemos pensar sobre a inexistência de espaços institucionais de combate à fraude científica que grassa de forma galopante inclusive em nossas melhores universidades?

Penso que é urgente e necessária a instalação de comitês de integridade da pesquisa em todas as universidades públicas brasileiras. É que todo esse arcabouço de “fake science” que está sendo produzido para a obtenção de promoções, premiações e financiamentos representa um desserviço aos esforços legítimos que são realizados em prol do avanço da ciência brasileira. Evitar ou negar o debate sobre a proliferação de diferentes tipos de mecanismos de falsificação científica é, acima de tudo, um grande desserviço aos interesses estratégicos da ciência brasileira.

A máquina de fabricar ciência falsa

Quando publicar virou moeda, a fraude deixou de ser desvio — e passou a ser método

Embora eu venha discutindo esse tema há algum tempo neste espaço, fui particularmente provocado a retomar o assunto hoje após ler o texto do professor Carlos Eduardo Rezende, publicado aqui no blog sob o título A Fábrica de Artigos: produtividade, poder e crise na avaliação científica.  Em sua análise , o professor Carlos Rezende expõe com clareza desconfortável as engrenagens que sustentam o atual modelo de produção acadêmica — e reforça a necessidade de ir além da crítica pontual para compreender a lógica sistêmica que está em jogo.

Durante anos, fomos ensinados a pensar a fraude científica como um problema marginal: alguns poucos pesquisadores antiéticos, ocasionalmente expostos e punidos. O problema é que essa narrativa já não se sustenta mais. O que está em curso hoje não é um conjunto de exceções — é a consolidação de um sistema que, silenciosamente, aprendeu a produzir ciência falsa em escala industrial. E o motor dessa transformação é conhecido: o imperativo do publish or perish.

Tudo começa de forma aparentemente banal, quase aceitável. Surge a chamada Salame Science: um mesmo estudo é fatiado em múltiplos artigos, inflando artificialmente a produtividade de um pesquisador. Não há, nesse estágio, necessariamente fraude explícita — há algo mais sutil e talvez mais perigoso: a substituição do critério de relevância pelo de volume. A pergunta deixa de ser “isso contribui para o conhecimento?” e passa a ser “isso gera mais um artigo?”.

O passo seguinte abandona qualquer ambiguidade. Com a proliferação das revistas predatórias, a publicação científica torna-se, literalmente, uma transação comercial. Paga-se, publica-se. Simples assim. A revisão por pares — pedra angular da credibilidade científica — é reduzida a uma formalidade ou simplesmente ignorada. O resultado é uma avalanche de artigos que simulam legitimidade, mas carecem de rigor, originalidade e, em muitos casos, de sentido. Mas o sistema não parou aí. Ele evoluiu.

Entramos então na fase mais inquietante: a captura de revistas legítimas. Periódicos com reputação consolidada passam a ser adquiridos ou manipulados, convertendo-se em engrenagens de paper mills. Nessas estruturas, artigos são produzidos em série, como em uma linha de montagem. Pouco importa a qualidade dos dados — o que importa é o selo da revista. O prestígio institucional é sequestrado e reutilizado como fachada para legitimar conteúdo duvidoso. Nesse ponto, a fraude já não está na periferia do sistema. Ela habita o seu centro.

E então chegamos ao estágio atual, talvez o mais sofisticado — e o mais difícil de detectar: a manipulação de métricas. A autocitação deixa de ser vaidade acadêmica e se transforma em estratégia coordenada. Redes de pesquisadores passam a citar-se mutuamente, inflando indicadores de impacto e fabricando relevância. Em alguns casos, o problema atinge um nível ainda mais grave: editores interferem diretamente nos artigos, inserindo citações que nunca foram feitas pelos autores, redirecionando artificialmente a visibilidade científica. 

O que está sendo produzido aqui não é conhecimento. É performance.

O efeito cumulativo dessas práticas é devastador. A literatura científica torna-se inflada, ruidosa e, em muitos casos, enganosa. Métricas deixam de medir qualidade e passam a refletir habilidade de manipulação. Instituições tomam decisões — sobre financiamento, contratação, prestígio — com base em indicadores comprometidos. E, no meio desse processo, a ciência legítima é sufocada por uma massa crescente de pseudo-produção acadêmica. Talvez o aspecto mais perturbador não seja a existência dessas práticas, mas o fato de que elas são, em alguma medida, recompensadas. O sistema não apenas tolera — ele incentiva.

Isso nos obriga a encarar uma questão incômoda: até que ponto a chamada “fraude científica” ainda pode ser tratada como desvio individual, se as próprias regras do jogo favorecem quem joga sujo? Se nada mudar, a tendência é clara. Não estaremos apenas convivendo com episódios de má conduta. Estaremos operando, cada vez mais, dentro de uma economia da fraude — onde publicar vale mais do que descobrir, citar vale mais do que compreender e parecer científico importa mais do que ser científico. E quando a aparência substitui a substância, o que se perde não é apenas a integridade acadêmica. É a própria ideia de ciência.

Soluções para um problema sistêmico exigem transformações institucionais, não apenas indignação. A Ciência Aberta e a revisão por pares transparente combatem a fraude ao expor dados e processos ao escrutínio público, mas a mudança decisiva é cultural: substituir a obsessão métrica por avaliações qualitativas, como propõem a DORA e o Manifesto de Leiden. Somadas à formação ética e ao rigor nas retratações, essas medidas poderão resultar em um ecossistema capaz de resgatar a integridade científica, desde que os incentivos do sistema sejam radicalmente reformados para priorizar a descoberta sobre a performance.

Proliferação de artigos científicos falsos levam a credibilidade da ciência a um ponto de crise

Em 2023,  10 mil artigos falsos tiveram que ser retirados por revistas científicas, mas os especialistas acham que isso é apenas a ponta do iceberg

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Artigos científicos falsos podem comprometer o desenvolvimento de medicamentos, alertam os acadêmicos. Fotografia: Westend61/Getty Images

Por Robin McKie para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de artigos de investigação falsos estão sendo publicados em revistas científicas, em um escândalo internacional que se agrava todos os anos, alertaram os cientistas. A pesquisa médica está sendo comprometida, o desenvolvimento de medicamentos prejudicado e a investigação académica promissora está em perigo graças a uma onda global de ciência falsa que está varrendo laboratórios e universidades.

No ano passado, o número anual de artigos retratados por revistas científicas ultrapassou os 10.000 pela primeira vez. A maioria dos analistas acredita que o número é apenas a ponta do iceberg de fraude científica .

“A situação tornou-se terrível”, disse a professora Dorothy Bishop, da Universidade de Oxford. “O nível de publicação de artigos fraudulentos está criando sérios problemas para a ciência. Em muitos domínios, está se tornando difícil construir uma abordagem cumulativa de um assunto, porque nos falta uma base sólida de resultados confiáveis. E está ficando cada vez pior.”

O aumento surpreendente na publicação de artigos científicos falsos tem as suas raízes na China, onde os jovens médicos e cientistas em busca de promoção eram obrigados a publicar artigos científicos. Organizações paralelas – conhecidas como “fábricas de artigos” – começaram a fornecer trabalhos fabricados para publicação em periódicos locais.

Desde então, a prática espalhou-se pela Índia, Irã, Rússia, antigos estados da União Soviética e Europa Oriental, com fábricas de  artigos a fornecer estudos fabricados a cada vez mais revistas , à medida em que um número crescente de jovens cientistas tenta impulsionar as suas carreiras alegando falsos experimentos de pesquisas. Em alguns casos, os editores de revistas foram subornados para aceitar artigos, enquanto as fábricas de artigos fraudulentos conseguiram estabelecer os seus próprios agentes como editores convidados, que depois permitem a publicação de centenas de trabalhos falsificados. 


Dra. Dorothy Bishop sentada em um jardim

Dra Dorothy Bishop: ‘As pessoas estão construindo carreiras com base nesta onda de ciência fraudulenta.’ Fotografia: Alicia Canter/The Guardian

“Os editores não estão cumprindo suas funções adequadamente e os revisores não estão fazendo seu trabalho. E alguns estão recebendo grandes somas de dinheiro”, disse a professora Alison Avenell, da Universidade de Aberdeen. “É profundamente preocupante.”

Os produtos das fábricas de papel muitas vezes parecem artigos normais, mas são baseados em modelos nos quais nomes de genes ou doenças são inseridos aleatoriamente entre tabelas e figuras fictícias. É preocupante que estes artigos possam então ser incorporados em grandes bases de dados utilizadas por aqueles que trabalham na descoberta de medicamentos.

Outros são mais bizarros e incluem pesquisas não relacionadas à área do periódico, deixando claro que nenhuma revisão por pares ocorreu em relação a esse artigo. Um exemplo é um artigo sobre a ideologia marxista publicado na revista Computational and Mathematical Methods in Medicine . Outros são distintos por causa da linguagem estranha que usam, incluindo referências a “perigo no seio” em vez de câncer de mama e “doença de Parkinson” em vez de Mal de Parkinson.

Grupos de vigilância – como o Retraction Watch – acompanharam o problema e notaram retratações por parte de revistas que foram forçadas a agir em ocasiões em que foram descobertas invenções. Um estudo, da Nature , revelou que em 2013 ocorreram pouco mais de 1.000 retratações. Em 2022, o número ultrapassou 4.000 antes de saltar para mais de 10.000 no ano passado.

Deste último total, mais de 8.000 artigos retratados foram publicados em revistas da Hindawi, subsidiária da editora Wiley, números que obrigaram agora a empresa a agir. “Vamos encerrar a marca Hindawi e começar a integrar totalmente os mais de 200 periódicos Hindawi no portfólio da Wiley”, disse um porta-voz da Wiley ao Observer .

O porta-voz acrescentou que a Wiley já identificou centenas de fraudadores presentes em seu portfólio de periódicos, bem como aqueles que ocuparam cargos editoriais convidados. “Nós os removemos de nossos sistemas e continuaremos a adotar uma abordagem proativa… em nossos esforços para limpar o histórico acadêmico, fortalecer nossos processos de integridade e contribuir para soluções intersetoriais.”

Mas a Wiley insistiu que não conseguiria enfrentar a crise sozinha, uma mensagem partilhada por outras editoras, que afirmam estar sob o cerco das fábricas de papel. Os pesquisadores permanecem cautelosos, no entanto. O problema é que em muitos países os pesquisadores são pagos de acordo com o número de artigos que publicam.

“Se houver um número crescente de pesquisadores que estão sendo fortemente incentivados a publicar apenas por publicar, enquanto temos um número crescente de periódicos ganhando dinheiro com a publicação dos artigos resultantes, temos uma tempestade perfeita”, disse o professor Marcus Munafo, do Universidade de Bristol. “Isso é exatamente o que temos agora.”

O dano causado pela publicação de pesquisas pobres ou fabricadas é demonstrado pelo medicamento antiparasitário ivermectina. Os primeiros estudos laboratoriais indicaram que poderia ser usado para tratar a COVID-19 e foi aclamado como um medicamento milagroso. No entanto, mais tarde descobriu-se que estes estudos apresentavam evidências claras de fraude e as autoridades médicas recusaram-se a apoiá-los como tratamento para a COVID-19.

“O problema é que a ivermectina foi usada pelos antivaxxers para dizer: ‘Não precisamos de vacinação porque temos este medicamento maravilhoso’”, disse Jack Wilkinson, da Universidade de Manchester. “Mas muitos dos julgamentos que sustentaram essas alegações não eram autênticos.”

Wilkinson acrescentou que ele e seus colegas estavam tentando desenvolver protocolos que os pesquisadores pudessem aplicar para revelar a autenticidade dos estudos que pudessem incluir em seu próprio trabalho. “Alguma grande ciência surgiu durante a pandemia, mas também houve um oceano de pesquisas inúteis. Precisamos de formas de identificar dados deficientes desde o início.”

O perigo representado pela ascensão da fábrica de artigos e de trabalhos de investigação fraudulentos também foi sublinhado pelo professor Malcolm MacLeod, da Universidade de Edimburgo. “Se, como cientista, eu quiser verificar todos os artigos sobre um determinado medicamento que possa ter como alvo o câncer ou casos de AVC, será muito difícil para mim evitar aqueles que são fraudulentos. O conhecimento científico está sendo poluído por material inventado. Estamos enfrentando uma crise.”

Este ponto foi apoiado por Bishop: “As pessoas estão a construir carreiras com base nesta onda de ciência fraudulenta e podem acabar por gerir institutos científicos e eventualmente serem utilizadas por revistas convencionais como revisores e editores. A corrupção está se infiltrando no sistema.”


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Quando os cientistas recebem gato por lebre: o caso das revistas sequestradas

gato por lebre

Por Fita Gallent Torres e Ruben Comas Forgas  para o “The Conversation”

Periódicos predatórios são uma das práticas ilegais mais conhecidas no sistema de publicação científica, mas não são as únicas. Existe uma forma de fraude mais sofisticada e perigosa : jornais sequestrados .

Esses são sites fraudulentos que clonam periódicos legítimos fazendo-se passar por eles, tentando enganar pesquisadores desavisados, fazendo-os pensar que podem obter uma publicação rápida e fácil em um periódico respeitável em troca de dinheiro. Na realidade, eles estão postando seus trabalhos em um simples portal da web. Eles receberam um porco por uma cutucada.

Tudo começou em 2011, quando um cibercriminoso registrou um domínio expirado (sciencerecord.com) para hospedar sete periódicos fraudulentos e três periódicos sequestrados. Desde então, o aumento dessa prática não foi isento de preocupação. Esse registro foi seguido por muitos outros que, embora fossem casos isolados, logo abriram a caixa de Pandora.

Em 2014, foi publicada uma lista de 19 revistas sequestradas . Apenas um ano depois, esse número chegou a 90 .

Atualmente, graças ao trabalho de alguns pesquisadores que procuram lançar luz sobre esse fenômeno, o número de periódicos clonados identificados já ultrapassa 200. O número real é seguramente muito maior, mas a natureza dessas publicações – que são criadas e desaparecem em um questão de alguns meses – dificulta a identificação.

Como identificar uma revista sequestrada?

Periódicos predatórios violam os direitos intelectuais de periódicos legítimos e comprometem a transferência de conhecimento. Por isso, é importante conhecer os traços que os definem e as estratégias que utilizam para enganar os pesquisadores.

Aqui estão alguns deles:

  • Eles sequestram a identidade de periódicos legítimos copiando literalmente seus títulos e ISSNs e até mesmo registrando domínios expirados de periódicos respeitáveis.
  • Eles podem tirar proveito de revistas legítimas publicadas em formato impresso para oferecer a falsa versão digital delas.
  • Eles reciclam artigos idênticos para criar um arquivo fictício na revista sequestrada para atrair a atenção de autores em potencial.
  • Eles não fazem revisão por pares.
  • Eles usam como álibi os perfis de editores e pesquisadores famosos na área de especialização da revista e os incluem em seus conselhos editoriais sem seu conhecimento ou consentimento.
  • Eles fornecem fatores de impacto falsos.
  • Eles conseguem indexar conteúdo adulterado em bancos de dados internacionais como Scopus e Web of Science.

Recomendações para evitar ser enganado

Identificar uma revista sequestrada pode ser uma tarefa árdua. Por isso é importante atender às recomendações dos especialistas antes de enviar um manuscrito. Alguns deles estão listados abaixo:

  1. Verifique se o endereço da revista na web corresponde ao revisado em bases de dados confiáveis, índices bibliográficos ou diretórios reconhecidos. Da mesma forma, e em paralelo, consulte a página WHOIS , através da qual se verifica o registo e a disponibilidade de um domínio.
  2. Baixe e avalie outros artigos publicados na revista. O pesquisador apreciará sua baixa qualidade, pois não foram submetidos a uma revisão por pares.
  3. Conheça as políticas das revistas quanto aos processos de avaliação e edição, taxas de publicação, custódia de arquivos e direitos autorais.

Por fim, cabe destacar que a publicação nesses periódicos ilegais, cujas páginas na internet desaparecem de um dia para o outro, traz consequências desagradáveis ​​para o pesquisador (descrédito de sua imagem, perda de sua produção científica, prejuízos aos editais de promoção profissional e acadêmica, fraude monetária).

É também uma queixa das revistas legítimas, que as publicações que as suplantam desacreditam, colocando em risco a confiança dos leitores sobre o que consomem.

É importante, pois, que as universidades, os centros de investigação e a comunidade acadêmica tomem as medidas necessárias para evitar essas estafas, den a conhecer esses negócios fraudulentos e acionar os protocolos de atuação pertinentes para proteger e garantir o conhecimento científico e o trabalho de os pesquisadores.

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Este artigo é parte do Projeto de Inovação Pedagógica, nº. referência PID222452, financiado pelo IRIE da Universitat de les Illes Balears, e o projeto “Congressos, revistas e editoras predatórias: desenho de um programa de formação para estudantes de pós-graduação”, financiado pela Universidade Internacional de Valência (VIU). Também faz parte das ações da Rede Ibero-Americana de Pesquisa em Integridade Acadêmica (Red-IA).


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Este artigo escrito originalmente em espanhol foi publicado pelo “The Conversation” [Aqui!  ].

Serviço da Universidade de Liège ajuda pesquisadores a determinar o grau de autenticidade de periódicos de acesso aberto

predatory journals

Por Lorena Caliman

A Universidade de Liège (Universidade de Liège) disponibilizou, no final de novembro de 2020, a versão Beta do “Compass to Publish “, um serviço que, através de vários critérios, quantifica o grau de autenticidade das revistas científicas acessíveis que requerem ou ocultam taxas de processamento de artigos (APC).

A ferramenta de avaliação online apresenta uma escala de 7 cores de resultados, que categorizam a natureza falsa ou enganosa dos periódicos analisados. As bordas mostram vermelho escuro -indicando que a revista é provavelmente predatória, e que é melhor evitá-la- e verde escuro -indicando que as respostas mostram uma alta probabilidade de não ser uma publicação predatória-. A ideia por trás da escala de sete cores é permitir uma visão mais sutil em comparação com a lógica binária de listagens confiáveis ​​e bancos de dados de periódicos predatórios.

O serviço utiliza um método de avaliação baseado em 26 critérios na forma de perguntas para o candidato. Os critérios e questões são resultado do trabalho crítico e analítico da equipe por trás da ferramenta , que examinou as práticas de um número significativo de periódicos e editores predatórios. A equipe também realizou uma pesquisa qualitativa e uma seleção de critérios de listas e diretórios confiáveis, selecionando aqueles que eram realmente incriminadores e fáceis de verificar, relevantes e claros o suficiente e fáceis de usar.

Os 26 critérios são divididos em 7 seções principais: listas confiáveis ​​(plataformas de indexação), listas de periódicos e editores supostamente predatórios (conhecidos como “listas negras”), periódicos sequestrados, indexação e métricas, conselho editorial e revisão por pares, conteúdo e apresentação e estratégias de comunicação. Consulte a lista completa de questões do exame.

Sobre revistas e editoras predatórias

A importância desse tipo de ferramenta é destacada, levando-se em conta estimativas de que somente em 2014, entre 255.000 e 420.000 artigos foram publicados em periódicos predatórios. Uma investigação internacional sobre a Fake Science, liderada por dezenas de meios de comunicação, incluindo Le Monde, Süddeutsche Zeitung da Alemanha e a revista The New Yorker, informou em 2018 que pode haver mais de 10.000 revistas predatórias em operação.

Periódicos predatórios se apresentam como periódicos de acesso aberto e cobram da APC pelos serviços que afirmam fornecer. No entanto, muitas vezes eles não fornecem esses serviços, ou apenas superficialmente. Embora afirmem fornecer serviços que incluem políticas de arquivamento e indexação, revisão editorial, edição, formatação e processo de revisão por pares, muitas vezes não o fazem e, em alguns casos, nem mesmo publicam o material submetido para o qual solicitaram permissão. pagamento.

O modelo “autor paga”, sequestrado por periódicos predatórios, é comum na publicação acadêmica. Ele permite que os leitores tenham acesso gratuito ao conteúdo da pesquisa mediante o pagamento de taxas, seja pelos autores, suas instituições ou financiadores. O modelo de pagamento do autor, no entanto, não é o mais comum na publicação em Acesso Aberto: mais de 70% dos periódicos incluídos no DOAJ (Directory of Open Access Journals) não exigem o pagamento de APCs.

Editores e revistas predatórios usam um modelo de negócios baseado em publicação quantitativa, pela simples razão de que quanto mais publicam, mais dinheiro recebem. Para maximizar seus lucros, os editores predatórios costumam ter um catálogo muito grande de periódicos, e os periódicos predatórios geralmente adotam uma estratégia de publicação de alta frequência, publicando um grande número de edições.

Os pesquisadores que desejam se manter competitivos por meio da publicação rápida podem se tornar vítimas fáceis desse tipo de publicação predatória. É comum que as partes interessadas na comunicação científica continuem a usar métodos principalmente quantitativos para avaliar a pesquisa, o que pode influenciar os pesquisadores a publicar em canais predatórios, deliberadamente ou não.

Além dos modelos de publicação de acesso aberto, o fenômeno da “fake science” também está associado a falsas conferências e as editoras de livros do tipo “vanity press” (editoras onde os autores pagam para publicar seus livros) oferecendo a publicação de trabalhos de estudantes e pesquisadores usando um modelo de impressão sob demanda sem prestação de serviços sérios, como redação, revisão por pares, edição, formatação, etc.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Universidade de Coimbra [Aqui!].

Detector de artigos produzidos em série é posto à prova para tentar erradicar falsa ciência

O hub de integridade online conterá ferramentas para ajudar os editores a combater pesquisas falsas e manipulação de imagens

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As ferramentas on-line ajudarão os editores a detectar artigos de pesquisa falsos. Crédito: Getty

Por Holly Else para a Nature

Os editores estão testando protótipos de sistemas automáticos para sinalizar manuscritos enviados com as marcas das fábricas de papel – empresas que produzem artigos de pesquisa falsos.

As ferramentas, que eventualmente farão parte de um hub de integridade online , são o resultado de uma colaboração de um ano entre 24 editores e provedores de análises acadêmicas. Juntas, as empresas estão tentando acabar com o crescente flagelo de artigos científicos fabricados.

As submissões das fábricas de papel para periódicos aumentaram enormemente nos últimos anos, diz Jana Christopher, analista de integridade de imagem da FEBS Press em Heidelberg, Alemanha. “Se não fizermos nada sobre isso, a literatura simplesmente se tornará realmente não confiável”, diz ela. “Isso é algo que não podemos pagar.”

Lutando contra a falsa ciência

Nos últimos anos, as revistas retiraram centenas de artigos por temores de que o trabalho contivesse dados e imagens fabricados . Como resultado, os editores têm tentado reforçar suas defesas para impedir que tais artigos passem por seus sistemas de submissão. Várias empresas privadas surgiram oferecendo software que pode identificar imagens potencialmente manipuladas ou sinalizar características que sugerem atividade na fábrica de papel .

Desde 2020, a Associação Internacional de Editores Científicos, Técnicos e Médicos (STM) – uma associação comercial global com sede em Haia, Holanda – trabalha com editoras para desenvolver padrões compartilhados para software que podem detectar possíveis problemas com imagens durante Reveja. Anunciou em dezembro de 2021 que estava desenvolvendo o STM Integrity Hub, que fornecerá ferramentas que permitirão aos editores de qualquer editor verificar os artigos enviados quanto a questões de integridade de pesquisa.

As empresas envolvidas na iniciativa incluem BMJ, Elsevier, Frontiers, IOP Publishing, JAMA Network, Sage Publishing, Taylor & Francis, Wiley e Springer Nature ( a equipe de notícias da Nature é independente de sua editora). Um pequeno grupo agora está testando protótipos para duas das três ferramentas propostas. A STM recusou-se a nomear os editores envolvidos nos testes e diz que é muito cedo para ter dados significativos sobre a eficácia das ferramentas.

‘Ponta do iceberg’

A Nature avalia que Elsevier, Taylor & Francis e Frontiers estão entre as que estão testando os protótipos.

Sabina Alam, diretora de ética e integridade editorial da Taylor & Francis, diz que as suspeitas sobre fábricas de papel representam cerca de metade de todos os casos éticos com os quais a editora está lidando. “O problema é significativo não apenas pelo volume, mas também porque existem diferentes tipos de fábricas de papel, e todas elas são altamente adaptáveis. Portanto, investigar os problemas em um cenário de areias movediças apresenta muitos desafios”, diz ela.

“Suspeito que o que identificamos até agora é apenas a ponta do iceberg”, diz David Knutson, porta-voz da editora de acesso aberto PLOS em San Francisco, Califórnia. “Um único caso de fábrica de artigos científicos pode afetar dezenas, centenas ou até milhares de outros artigos em várias editoras.”

A primeira ferramenta do hub de integridade funciona digitalizando papéis em busca de mais de 70 sinais que podem indicar que o manuscrito foi gerado por uma fábrica de papel. Os envolvidos permanecem de boca fechada sobre quais são esses sinais, para não alertar os fraudadores. Mas trabalhos públicos anteriores sugeriram sinais de alerta, como títulos e layouts de artigos estereotipados, gráficos de barras com perfis idênticos que afirmam representar dados de diferentes experimentos, endereços de e-mail de autores de aparência suspeita ou frases estranhas que podem indicar o uso de tradução automática.  

Envios duplicados

A segunda ferramenta foi projetada para alertar os editores quando alguém submeteu um artigo a vários periódicos ao mesmo tempo. As fábricas de artigos usam essa tática para tentar fazer com que os manuscritos sejam aceitos mais rapidamente (é considerado inapropriado enviar um manuscrito completo para vários periódicos ao mesmo tempo).

Christopher diz que descobrir esses envios duplicados será um “passo realmente grande e importante” no combate às fábricas de papel. Anteriormente, os periódicos não tinham como saber se um artigo que eles poderiam estar considerando para publicação também estava sendo revisado em outro lugar.

O compartilhamento seguro de dados entre editores é legalmente problemático, devido ao processamento de dados e às leis anticoncorrência. Os manuscritos que os pesquisadores enviam aos periódicos são confidenciais e não podem ser compartilhados facilmente entre periódicos e editores. Mas o hub está implementando uma série de medidas técnicas para que apenas fragmentos mínimos de informações sejam coletados dos editores. “O hub funciona de forma que as informações possam ser correlacionadas e comparadas entre si”, diz Hylke Koers, que dirige a STM Solutions — uma subsidiária da STM que está desenvolvendo o hub. As informações também serão criptografadas para segurança.

Essa colaboração entre editores é crucial, diz Elena Vicario, chefe de integridade de pesquisa da editora de acesso aberto Frontiers em Lausanne, na Suíça. “Se não trabalharmos juntos, o problema só pode ser transferido de um periódico ou de uma editora para outra”, diz ela.

O elemento técnico final do hub será uma análise do software disponível que pode detectar imagens manipuladas em manuscritos.

Assistência para editores

Joris van Rossum, diretor de integridade de pesquisa da STM, diz que a organização espera ter versões da detecção da fábrica de papel e alertas de envio duplicado disponíveis para uso mais amplo no início do próximo ano.

Os aplicativos apoiarão, em vez de substituir, editores e revisores, diz Nicola Nugent, gerente editorial de qualidade e ética da Royal Society of Chemistry em Londres, que esteve envolvida no desenvolvimento do hub. Os alertas ainda precisarão ser acionados pelas pessoas, mas algum grau de automação é importante, porque “os editores geralmente trabalham em escala significativa, avaliando grandes volumes de envios”, diz ela.

Além das ferramentas on-line, a STM está trabalhando com o Committee on Publication Ethics, um órgão consultivo com sede em Eastleigh, Reino Unido, para fornecer aos editores orientação e políticas sobre como lidar com questões de integridade. Está produzindo uma série de workshops para que os editores compartilhem informações e aprendam uns com os outros.

Até agora, o hub foi financiado por um investimento inicial não divulgado da STM. No próximo ano, a empresa buscará financiamento voluntário de membros do hub e buscará como tornar o projeto financeiramente sustentável. “Ainda é muito cedo para especular, mas esperamos recuperar pelo menos parte dos custos operacionais com uma taxa para integrar o hub aos sistemas editoriais das editoras”, diz van Rossum.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-04245-8


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

O Fim do Twitter

A revolução a partir das bases continua, mas não estou mais no Twitter

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Por Leonid Schneider para o “Forbetterscience”

Muitos de vocês notaram que minha conta no Twitter com 13.400 seguidores foi suspensa. Provavelmente permanentemente, mas não voltarei ao Twitter de qualquer maneira. Eu tentei, não deu certo e na verdade não estou descontente com isso.

A razão pela qual fui suspenso foi uma campanha contínua de nazistas franceses e outros fetichistas da cloroquina jorrando anti-semitismo, xenofobia, misoginia e ameaças de violência letal. Eles continuaram me denunciando por ridicularizar os crimes que eles e seus próprios ídolos cometem várias vezes ao dia no Twitter e na vida real, sem quaisquer sanções das autoridades francesas. Fui banido porque eles me relataram como uma Célula Terrorista de Um Judeu Neonazi.

O Twitter (como o Facebook, que parei de usar ativamente há muito tempo) é uma empresa global que só responde a seus investidores e clientes empresariais bilionários. Ele policia sua gama de produtos (ou seja, a comunidade humana do Twitter) pelo algoritmo com base em quantos relatórios recebe sobre produtos estragados. Isentos são, é claro, celebridades fascistas e charlatães, você deve se lembrar que as contas de Donald Trump e Steve Bannon só foram suspensas quando essas pessoas perigosas perderam completamente seu poder político e, portanto, seu apelo comercial. Ou você realmente acha que o Twitter teria suspendido a conta de Trump se sua tempestade fascista no Capitólio tivesse sucesso e os EUA se tornassem uma ditadura fascista?

Por causa dos ataques coordenados por nazistas franceses que questionaram o fato de eu ser um judeu rebelde, fui sancionado pelo Twitter várias vezes antes de minha conta ser permanentemente suspensa. Qual foi a última gota? Eu satirizei os ataques cruéis a cientistas que discutem a teoria de vazamento de laboratório da pandemia COVID-19. Cientistas que apenas apontam a falta de todas as evidências de origem zoonótica ou “arenque vermelho congelado”. Cientistas que meramente fazem referência à literatura revisada por pares sobre pesquisa de coronavírus de ganho de função em Wuhan e em outros lugares, documentos oficiais ou o desaparecimento bizarro deles, registros de vazamentos anteriores e violações de segurança, mentiras constantes do Partido Comunista Chinês e os relatos da mídia citando as mesmas pessoas que agora tentam agressivamente silenciar todos que sequer mencionam o vazamento de laboratório.

O Twitter era um vício doentio para mim de qualquer maneira, eu perdia muito tempo com isso, tempo que eu poderia ter usado de forma mais produtiva. A única coisa que sinto falta em estar no Twitter são as informações úteis que tenho descoberto ocasionalmente e os meios de comunicação com meus leitores. Isso não precisa acabar. Você pode compartilhar essas informações comigo, basta entrar em contato comigo por e-mail, através do meu telefone (WhatsApp e Signal), mensagem direta do Facebook ou LinkedIn, ou através do formulário de contato do meu site:

O Leonid Schneider restante no Twitter é falso (é você, Ajan? Ou você, Fred Frontiers?), E em breve poderá haver mais desses, agora que o verdadeiro foi banido. Curiosamente, uma vez relatei aquela falsa conta por se passar por mim usando minha foto e meus desenhos. O Twitter me fez enviar uma digitalização de minha identidade pessoal para provar que sou Leonid Schneider. Depois disso, o Twitter me informou que não havia nada de errado com aquela conta de falsificador tweetando conspirações COVID-19. Então agora eu realmente me tornei o falso Leonid Schneider, e esta é a mídia social para você. Agora estou ansioso para ser processado por contas falsas com minha identidade roubada.

Como você sabe, fui processado várias vezes, inclusive por causa de tweets. Então, novamente, talvez não seja uma perda tão grande estar fora do Twitter. Os processos judiciais são caros, se você pode me apoiar , você pode fazê-lo consultando o final da versão em inglês deste texto.

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no blog “Forbetterscience” [Aqui!].