O Brasil foi transformado em um campo de testes para as vacinas contra a COVID-19

Devido à grande circulação do vírus no país, quatro vacinas candidatas estão sendo testadas em 22 mil voluntários, incluindo a da britânica AstraZeneca, relançada no sábado, 12 de setembro.

VACINA 1Na Universidade de São Paulo, 24 de junho. Os ensaios estão sendo conduzidos lá para as vacinas da Universidade de Oxford e AstraZeneca. AMANDA PEROBELLI / REUTERS

Por  Anne Vigna para o Le Monde

Uma ala do Centro Nacional de Vacinação, no imenso campus da Fundação Oswaldo-Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, foi liberada para instalar uma nova linha de produção, ainda rodeada de celofane. “É aqui que serão fabricadas as futuras vacinas contra a COVID-19”, garante a assessoria de imprensa da Fiocruz, maior centro público de pesquisas médicas do Brasil. Em seus laboratórios farmacêuticos, Bio-Manguinhos e Far-Manguinhos, já são produzidas muitas vacinas administradas no Brasil.

Como parte da parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica britânica AstraZeneca, a Fiocruz espera um dia produzi-los contra a Covid-19, enquanto os ingleses anunciam a retomada do julgamento no sábado, 12 de setembro, suspenso por uma semana após a reação negativa do paciente.

“Nossa parceria não se limita a testar a vacina”, explica Mauricio Zuma, diretor do laboratório médico de Bio-Manguinhos. É claro que estamos felizes em ajudar nessa luta global. Mas o que nos motiva acima de tudo é ter obtido uma transferência de tecnologia com os ingleses. Caso contrário, o Ministério da Saúde poderia simplesmente ter feito uma negociação comercial e comprado as futuras vacinas. “

Foi em junho que a Fiocruz se tornou parceira local das duas entidades britânicas para organizar os ensaios clínicos fase III de sua vacina. Esses exames não acontecem nesses prédios, mas na rede hospitalar dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A tarefa não é tão simples: trata-se de encontrar 5.000 profissionais de saúde, todos voluntários, que tenham contato frequente com o SARS-CoV-2. “Não adianta testar a vacina em uma pessoa que ficará em confinamento em casa, ela só ficará exposta muito pouco ao vírus. Por outro lado, um médico, uma enfermeira, um fisioterapeuta estão todos em contato com o vírus ”, acrescenta o diretor de Bio-Manguinhos .

“Faça algo concreto”

No Brasil, a equipe é bastante voluntária, como Denise Abranches, cirurgiã-dentista do Hospital Universitário de São Paulo, que foi a primeira a testar a vacina em junho. “Assim que soube desse recrutamento, me apresentei. Sou responsável pela higiene bucal dos pacientes intubados há sete meses na unidade de terapia intensiva. Estou na linha de frente e sou o primeiro interessado em uma vacina. “

O ginecologista Alberto Freitas, do Rio de Janeiro, teve a mesma reação. “Recebi as informações através dos grupos de WhatsApp que existem entre médicos. Junto com meus colegas de consultório, vemos muitos pacientes com COVID-19 e decidimos participar para fazer algo concreto no combate a essa epidemia ”, afirma. Alberto participou do ensaio clínico da Universidade de Oxford, mas não teria problemas para testar outro. Atualmente, quatro empresas farmacêuticas do país realizam ensaios clínicos em 22.000 voluntários.

Além da vacina da Oxford e da AstraZeneca, a farmacêutica chinesa Sinovac fechou outra parceria em junho com o instituto científico público Butantan, para a fase III da vacina CoronaVac, que será testada em 9 mil voluntários. .

Mais recentemente, outras duas empresas americanas conseguiram o direito de fazer testes no Brasil: a Pfizer vai organizar um dos quase mil voluntários da Bahia, enquanto a Janssen, laboratório da gigante Johnson & Johnson, atualmente está recrutando 7.000 em vários estados do país.

VACINA 2Vacina Sinovac no hospital São Sans Lucas em Porto Alegre, Brasil, 8 de agosto. DIEGO VARA / REUTERS

O Brasil está interessado em projetos globais de vacinas por vários motivos. Em primeiro lugar, pela circulação ativa do vírus com mais de 4,1 milhões de casos confirmados no país, número ainda considerado desvalorizado pelo grupo de pesquisadores brasileiros da COVID-19. Segundo dados recentes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da OMS, o continente americano concentra o maior número de profissionais de saúde infectados com o vírus no mundo, com 570 mil casos confirmados e 2.500 mortes desde março. A maior parte desse contingente encontra-se no Brasil, com 270.000 casos de profissionais, antes dos Estados Unidos (140.000 casos) e do México (cerca de 100.000 casos).

Por outro lado, a grande diversidade genética da população brasileira – com a presença de genes europeus, africanos e asiáticos – permite uma ampla representatividade do planeta. Por fim, o Brasil conta com instituições científicas renomadas e um grande número de facilidades para considerar ensaios clínicos em larga escala e, eventualmente, produzir as vacinas. Junto com a Argentina e o México, o Brasil é um dos poucos países do continente com essas capacidades.

Também em São Paulo, o Instituto Butantan reformou parte de seus prédios para poder fabricar as futuras vacinas. Esse centro de pesquisas, que agora depende do Estado de São Paulo, também assinou um acordo de transferência de tecnologia com a farmacêutica chinesa Sinovac. “Procuramos parceiros em todo o mundo, inclusive na China, e a Sinovac procurava um parceiro específico na região”, diz Ricardo Palacios, diretor de pesquisas médicas do Instituto Butantan.

Estoque de hidroxicloroquina

Fiocruz e Butantan fazem parte da mesma rede de produtores de vacinas para países em desenvolvimento (DCVMN, por sua sigla em inglês). “Os países do Sul estão um pouco deixados de lado. Mas, graças às transferências de tecnologia, conseguimos avançar com a mesma velocidade e qualidade de pesquisa das empresas privadas dos países ricos ”, explica o Sr. Palacios.

O outro problema que o Brasil terá de superar diante dessa pandemia é o “ceticismo corona” de seu presidente. Em 31 de agosto, Jair Bolsonaro afirmou que “ninguém pode forçar ninguém a tomar a vacina”. A declaração do presidente foi amplamente criticada tanto pelo diretor da OMS quanto por cientistas brasileiros. A intervenção do senhor Bolsonaro está em total desacordo com a lei que ele mesmo assinou em 6 de fevereiro e que especifica precisamente que, “em situação de pandemia, o governo poderá fazer a vacinação obrigatória”.

Mas, para si mesmo, o presidente brasileiro não vê utilidade de uma vacina quando, segundo ele, há uma cura muito eficaz a partir da hidroxicloroquina. Jair Bolsonaro continua a promovê-la ativamente em todas as oportunidades. Talvez porque, após uma produção massiva decidida pelo executivo, o Brasil tenha hoje dezoito anos de estoque desse medicamento eficaz contra a malária.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Relatório da Fiocruz considera prematuro retorno às atividades escolares

sala de aula

A Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz divulga, nesta segunda-feira (20/7), nova versão do documento sobre o retorno das atividades escolares durante a pandemia de Covid-19. O texto apresenta um panorama epidemiológico, com fontes de diferentes instituições, para uma melhor compreensão sobre a pandemia no Brasil e considera prematura a reabertura das escolas no município do Rio de Janeiro. “Diante da possibilidade de possível recrudescimento de casos e óbitos no município, ainda parece prematura a abertura das escolas no atual momento da pandemia pelo SARS-CoV2. É necessário que especialistas, epidemiologistas, infectologistas, pneumologistas, pediatras e outros acompanhem e monitorem todo o processo pandêmico. Principalmente para avaliar o impacto no número de casos e mortes com a reabertura dos outros processos produtivos na cidade do Rio de Janeiro.”, dizem os autores.

Ainda de acordo com o relatório, o município do Rio de Janeiro precisa garantir que as escolas públicas e privadas apresentem seus planos específicos para abertura e a construção de diretrizes e protocolos rígidos para monitoramento e controle de casos, atenção redobrada para os alunos especiais e política de abordagem psicossocial e saúde mental.

covid rjCasos da COVID-19 confirmados no município do Rio de Janeiro por data de notificação, total do dia e média móvel de 7 dias (Fonte Painel Rio COVID-19; acesso em 19 de julho de 2020).

O relatório aponta os seguintes critérios para o retorno das atividades escolares:

1. A transmissão da doença deve estar controlada. O município deve ter disponibilidade de pelo menos 30% de leitos disponíveis. Diminuição constante do número de hospitalizações e internações em UTI de casos confirmados e prováveis pelo menos nas últimas duas semanas. Diminuição do número de mortes entre casos confirmados e prováveis pelo menos nas últimas três semanas. O sistema de saúde deve estar pronto para detectar, testar, isolar e tratar pacientes e rastrear contatos.

2. Medidas preventivas devem ser adotadas nas escolas – apresentar um plano detalhado de medidas sanitárias, higienização e garantia de distanciamento entre as pessoas, de 2 metros, no ambiente escolar e salas de aula. Adotar medidas individuais com uso de máscaras para todos os alunos, trabalhadores e profissionais da educação, não sendo indicado para crianças abaixo de 2 anos e observando o aprendizado para o uso nas crianças entre 2 e 10 anos.

3. Controle dos transportes públicos e escolares para garantir o distanciamento social.

4. Controle do risco de importação de doença, vinda de outros lugares.

5. Comunidades escolares devem ser capacitadas, engajadas e empoderadas para se adaptar às novas regras. Os pais, sempre que possível, através de suas organizações, trabalhadores da educação e professores devem estar participando no planejamento do retorno.

6. Atenção para estudantes especiais.

7. Atenção para o bem-estar psicológico e socioemocional para toda a comunidade. Ao reabrir as escolas, os professores precisam lidar com os riscos à saúde e com o aumento da carga de trabalho para ensinar de maneiras novas e desafiadoras. As autoridades precisam garantir que os professores e toda a equipe recebam apoio psicossocial contínuo para alcançar seu bem-estar socioemocional. Isso será especialmente crítico para os professores encarregados de fornecer o mesmo apoio aos alunos e famílias.

8. Inclusão de professores e suas organizações representativas nas discussões sobre o retorno à escola. As organizações devem estar envolvidas para identificar os principais objetivos da educação, reorganizar os currículos e alinhar a avaliação com base no calendário escolar revisado. Devem ainda ser consultados sobre questões relacionadas à reorganização da sala de aula.

9. Trabalhadores da educação e Professores acima de 60 anos ou com comorbidades devem permanecer no isolamento social.

10. Garantir melhores condições de trabalho para toda a comunidade escolar. O retorno às atividades escolares pode revelar lacunas nos recursos humanos e criar horários e rotinas de trabalho difíceis. Os professores e suas organizações representativas devem ser incluídos no diálogo sobre o desenvolvimento de estratégias de recrutamento rápido, respeitando as qualificações profissionais mínimas e protegendo os direitos e as condições de trabalho dos professores.

11. Ampliar e manter recursos financeiros. Para garantir a continuidade da aprendizagem, as autoridades educacionais precisarão investir em professores e trabalhadores de apoio à educação, não apenas para manter os salários, mas também para fornecer capacitação essencial e apoio psicossocial. É importante que os governos resistam a práticas que possam prejudicar a atividade didática e a qualidade da educação, como aumentar as horas de ensino ou recrutar professores não capacitados.

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Este texto foi publicado inicialmente no site da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fiocruz [Aqui!].

 

Sociedade Brasileira de Infectologia repudia falta de transparência nos dados sobre a COVID-19

enterroAté a manhã deste domingo (07/06) o Brasil contabiliza 676.494 infectados e 36.044 mortos pela COVID-19

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) se somou à onda de indignação causada pela decisão do Ministério da Saúde em relação à divulgação dos dados confirmados de infecção e de óbitos por COVID-19 no Brasil, e lançou uma nota pública de repúdio no dia de ontem (ver abaixo).

 

nota de repudio amb

Segundo a SBI,  a nova forma de divulgação dos dados da COVID-19,  “somente com informações epidemiológicas confiáveis será possível a avaliação das medidas atuais e o planejamento de ações para combater a propagação do novo coronavírus, que vem causando danos avassaladores no mundo e especialmente no Brasil.

A nota de repúdio da SBI vai ao encontro das declarações da presidente Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima que afirmou que ” a divulgação de dados do coronavírus é tão vital quanto uma vacina”.

Resta saber agora o que fará o Ministério da Saúde, mas uma coisa é certa: o estrago na reputação do Brasil já foi feito, e não é pequeno. Afinal, que tipo de governo tenta esconder dados que são estratégicos no controle de uma pandemia letal? Provavelmente um que está destinado a ser alijado das principais decisões que venham a ser tomadas no mundo nos próximos anos.

Mistura de agrotóxicos na água continua sem controle, Fiocruz propõe regras mais rígidas

Brasil deveria seguir o padrão europeu para controle de agrotóxicos na água, sugere Fiocruz sobre novas regras do Ministério da Saúde. Fundação propõe número maior de substâncias a serem monitoradas, mais rigidez nos volumes permitidos e um sistema de alerta para a população

torneira

Por Ana Aranha – Repórter Brasil/Agência Pública

Nem todo mundo sabe, mesmo porque esses dados são pouco divulgados, mas a água que sai da nossa torneira pode carregar diversos agrotóxicos. Eles são carregados pelas chuvas e pelos rios para as redes de abastecimento das grandes cidades. São crescentes os estudos sobre os impactos para a saúde humana, já que os agrotóxicos não são barrados pelos filtros caseiros e são poucos os tratamentos disponíveis para as empresas de abastecimento de água.

O que se pode fazer é controlar quais e em qual quantidade vamos bebê-los. As regras para isso estão atualmente abertas para serem discutidas dentro de consulta pública feita pelo Ministério da Saúde que vai até o dia 4 de junho. A proposta em debate, porém, ignora um dos mais novos fenômenos que afeta a nossa água: a mistura de diferentes agrotóxicos. 

“O risco no caso das misturas são as interações entre os componentes delas”, afirma Fábio Kummrow, professor de toxicologia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Pode ocorrer efeito aditivo, quando se somam os efeitos de substâncias com o mesmo mecanismo de ação. Ou o sinérgico, quando o efeito final é maior que o esperado da soma – isso pode acontecer entre substâncias com ação diferente”. 

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água (Foto: Mrjn Photography/Unsplash)

Entre os agrotóxicos encontrados na água do Brasil, há aqueles classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e outros apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, como puberdade precoce e problemas reprodutivos.

Além de não fixar um parâmetro de controle para a mistura, a revisão das regras também deixou passar a chance de incluir no monitoramento dois dos agrotóxicos mais utilizados no Brasil: o paraquate e o imidacloprido. Devido à sua alta toxicidade e risco à saúde humana, o paraquate está com data marcada para ser proibido, em setembro deste ano. Já o imidacloprido, um dos inseticidas suspeitos pelas mortes das abelhas, foi o agrotóxico mais encontrado nos alimentos testados pela Anvisa entre 2017 e 2018. 

Para evitar que substâncias assim cheguem também à nossa água, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou hoje documento recomendando mudanças para tornar esse controle mais rígido. “Consideramos a proposta do Ministério da Saúde um avanço em comparação à anterior, mas ela pode ser aprimorada”, afirma a pesquisadora em saúde pública Aline Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho sobre agrotóxicos na Fiocruz.

“Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma Ana Cristina, que monitora os dados de vigilância da água na Fiocruz

As novas regras do Ministério da Saúde aumentam de 27 para 37 o número de substâncias a serem testadas. As concessionárias são obrigadas por lei a testar a água para checar a presença desses agrotóxicos a cada semestre. Embora o número tenha aumentado, a Fiocruz recomenda a inclusão de mais 35 substâncias, entre elas o paraquate e imidacloprido, que hoje não são testados na água. A fundação recomenda também uma redução geral nos valores máximos permitidos para o volume de cada agrotóxico na água. Além da criação de um mecanismo para controlar a mistura de diferentes substâncias.

As recomendações têm a União Europeia como referência. Partindo do princípio de que a água não deveria ter agrotóxicos, o bloco tem os parâmetros mais rígidos do mundo. Além de baixos limites individuais para o volume de cada ingrediente na água (máximo de 0,1 micrograma por litro), há também um limite máximo para a soma de diferentes substâncias (0,5 microgramas por litro). 

Aqui, como em muitos outros países, toleramos quantidades maiores. O mais criticado deles é o glifosato, com valor máximo permitido de 500 microgramas por litro – volume mil vezes mais permissivo do que o europeu pode beber. Isso acontece porque, enquanto a Europa passou a régua mais rígida possível, com um valor igualmente baixo para todas as substâncias, os nossos parâmetros são calculados individualmente para cada agrotóxico. Esse cálculo é feito a partir de testes em animais de laboratório que muitas vezes são realizados pelas empresas produtoras de agrotóxicos. O Brasil nunca teve tem um limite para a soma de diferentes agrotóxicos na água. 

“O ideal seria adotar o princípio da precaução, como a União Europeia, com o máximo de 0,5 microgramas por litro para a soma de todas as substâncias”, afirma Gurgel, vice coordenadora do grupo de trabalho dos agrotóxicos da Fiocruz. “Mas sabemos que esse não é o parâmetro usado pelo Brasil. Por isso sugerimos que se fixe um limite para a presença de diferentes substâncias na água, estabelecendo tanto uma concentração máxima, que é a soma dos níveis de todas as substâncias detectadas, quanto um limite no número de substâncias presentes em uma única amostra””.

“A União Europeia é o único exemplo de um valor único para a soma”, argumenta o engenheiro Rafael Bastos, especialista na área e coordenador do grupo de trabalho que reuniu dezenas de especialistas e representantes de diferentes setores para revisar a portaria do Ministério da Saúde. “Na Europa, o parâmetro para a água foi um instrumento de controle para o uso de agrotóxicos. Mas a luta para diminuir o uso de agrotóxicos na sociedade se dá em outro fóruns e não no seio de uma norma de potabilidade da água”.

Lentidão no controle, rapidez na liberação

O tema da mistura de substâncias na água chegou a ser debatido pelo grupo de especialistas que revisou as regras. Mas, segundo Bastos, não houve consenso sobre qual seria o melhor método para se fixar um parâmetro de controle. “Definir isso, neste momento, seria uma discussão açodada. Terminamos o processo abrindo esse tema como ordem do dia para a próxima revisão”.

Em tese, a cada cinco anos o grupo de especialistas atualiza as regras brasileiras sobre controle dos agrotóxicos na água. A ideia é que essas regras sejam revisadas à luz das novidades científicas e mudanças de mercado, como quais substâncias passaram a ser mais utilizadas. Na prática, porém, cada revisão tem levado cerca de dez anos para ser concluída. 

O ritmo lento é ainda mais preocupante agora que o governo de Jair Bolsonaro tem mostrado celeridade recorde na liberação de novos produtos. “A gente faz todo um processo para avançar de 27 para 37 agrotóxicos sendo testados na água, mas o Estado autoriza centenas de substâncias, não temos condições de acompanhar essa velocidade”, afirma Bastos. Apenas nessa semana foram 22 novos produtos liberados pela Anvisa, somando 625 aprovados sob Bolsonaro.

O necessário avanço sobre o controle das misturas de agrotóxicos na água, porém, também sofre devido à ainda incipiente produção científica no Brasil. “Antes de ter uma legislação, precisamos de mais estudos avaliando o efeito dessas misturas”, afirma Kummrow, da Unifesp. Ele defende que essas pesquisas sejam feitas no Brasil, com foco na interação entre as substâncias mais presentes na nossa água, conforme recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

No documento que fixa as diretrizes internacionais para esse controle, a OMS recomenda a pesquisa específica sobre interação entre agrotóxicos encontrados na água de cada país. É o que já começou a fazer a agência de proteção ambiental americana com estudos para investigar a mistura da atrazina e da simazina. 

A Fiocruz cobra que uma nova regulação estabeleça ações obrigatórias para empresas de abastecimento de água e secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura (Foto: Jed Owen/Unsplash)

Outra dificuldade são os gastos envolvidos em tirar do papel uma lei mais restritiva. “Ao adotar um padrão rígido, como o Europeu, isso vai exigir maior tecnologia para o tratamento, o que vai encarecer a água”, afirma Kummrow. “Isso pode levar a população a buscar outras alternativas, como poços, e acabar usando fontes ainda menos confiáveis”. 

O argumento é contestado por Gurgel, da Fiocruz, para quem as medidas necessárias para melhorar a qualidade da água devem ser vistas como um investimento fundamental na saúde. “São investimentos para a redução de doenças e agravos relacionados à exposição aos agrotóxicos. Esse investimento terá reflexos para agravos crônicos, que necessitam de tratamento de longo prazo e representam custos elevados para o sistema de saúde, que incluem a aquisição de medicamentos, ocupação de leitos, consultas com especialistas. Não há custo maior que a perda da saúde ou da vida”, conclui.

Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil as empresas que produzem agrotóxicos não se envolvem com o monitoramento da água. O sistema é custeado apenas cofres públicos e pelas empresas de abastecimento.

Alertas para a população e responsáveis

No Brasil não funciona, hoje, um procedimento de alerta para a detecção de agrotóxicos na água. “As concessionárias não divulgam essas informações de forma clara para a população, nem mesmo quando são encontradas quantidades acima do valor máximo permitido”, alerta a química Ana Cristina Simões Rosa, da Fiocruz. 

O problema de informação é tão grave que, entre 2014 e 2017, mais da metade dos municípios sequer enviou os resultados dos testes realizados na água para o Sisagua, o sistema nacional que integra informações locais e é gerido pelo Ministério da Saúde. Outros lançaram as informações de modo errado, desrespeitando as orientações do ministério, que segue método padronizado, o mesmo usado por governos e universidades em todo o mundo. 

Detecções acima do valor máximo permitido entre 2014 e 2017

Fonte: Controle do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (SISAGUA) / Ministério da Saúde (2014-2017)

Este problema foi revelado pela publicação do mapa dos agrotóxicos na água, uma parceria da ONG Suíça Public Eye com a Repórter Brasil e a Agência Pública. O mapa divulgou, de forma inédita, os dados de detecção em todo o Brasil de acordo com as informações disponíveis no Sisagua. Em decorrência da publicação, foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas de abastecimento que o Ministério da Saúde teve de convocar uma reunião para esclarecer a metodologia que deveria ser aplicada por todos. O encontro teve a presença de representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da Anvisa. A Fiocruz recomenda que, na revisão da portaria da água, o Ministério da Saúde reforce os esclarecimentos que foram pauta da reunião.

A fundação também argumenta que os dados não podem ficar restritos ao debate entre técnicos. E sugere a criação de níveis de alertas simples e claros para comunicar os casos de detecção à população, assim como para acionar os órgãos responsáveis em tomar ações. 

O nível 1 e 2 seriam para quando se detecta a presença de agrotóxico na água, mesmo que abaixo do valor máximo permitido. Para a Fiocruz, esses casos não devem ser menosprezados, pois também são situações de “não conformidade”, já que “a concentração esperada para qualquer agrotóxico em água é zero”.

Já quando os níveis individuais ou da mistura estiverem acima do permitido, deveria soar o alerta máximo de emergência. 

Em todos esses cenários, além de divulgar a informação de modo claro, a fundação cobra que a nova regulação estabeleça ações obrigatórias a serem tomadas pelas empresas de abastecimento de água, assim como secretarias municipais e estaduais de saúde e de agricultura, coisa que não acontece hoje, conforme revelou matéria da Repórter Brasil e Agência Pública. A recomendação é que o sistema mobilize os órgãos responsáveis em lidar com o problema na ponta (com o tratamento da água e diminuição do abastecimento) e na sua origem (a fiscalização na aplicação de agrotóxicos nas plantações).

Ana Cristina Simões Rosa, que monitora os dados de vigilância da água em metade dos estados brasileiros pela Fiocruz, defende a importância de uma atuação responsável das pastas ligadas à saúde e agricultura nesse processo. “Não pode deixar que o problema fique evidente só na ponta, que é o tratamento final da água, tem que atuar na fonte da contaminação”, afirma. “Uma vez que a contaminação esteja ocorrendo, é necessário monitorar o máximo possível dos agrotóxicos utilizados no país, na água que todos nós consumimos”.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil” [Aqui!].

Fiocruz divulga nota em defesa da ciência e de seus pesquisadores

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O Conselho Deliberativo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) vem a público manifestar seu apoio aos pesquisadores responsáveis pelo estudo CloroCovid-19, que vem sendo realizado por mais de 70 pesquisadores, estudantes de pós-graduação e colaboradores de instituições com tradição em pesquisa, como Fiocruz, Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Universidade do Estado do Amazonas e Universidade de São Paulo.

A instituição considera inaceitáveis os ataques que alguns de seus pesquisadores vem sofrendo nas redes sociais, após a divulgação de resultados preliminares com o uso da cloroquina em pacientes graves com a Covid-19. Estudos como esse são parte do esforço da ciência na busca por medicamentos e terapêuticas que possam contribuir para superar as incertezas da pandemia de Covid-19. A pesquisa CloroCovid-19 permanece em andamento e foi aprovada pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

A Fiocruz tem trabalhado incansavelmente em diversas frentes de atuação e vem a público clamar pela tranquilidade e segurança de seus pesquisadores, requisitos essenciais para o desenvolvimento de seus estudos. É fundamental alertar que a busca por soluções não pode prescindir do rigor científico e do tempo exigido para obtenção de resultados seguros e que as pesquisas devem se manter, portanto, fora do campo narrativo que constrói esperanças em cima de respostas rápidas e ainda inconclusivas.

A Fundação apoia incondicionalmente seu corpo de pesquisadores, que estão absolutamente comprometidos com a ciência e com a busca de soluções para o enfrentamento dessa pandemia, e reafirma seu compromisso com a missão de produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população brasileira.

ONU e Fiocruz endossam medidas emergenciais de especialistas em saneamento para conter COVID-19

Documento elenca ações que devem ser executadas pelas prestadoras de serviços públicos de saneamento básico

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Diante da pandemia da Covid-19, é indispensável reconhecer que a disponibilidade de água potável pode ser uma barreira para a contenção da doença no país, uma vez que parte significativa da população brasileira não dispõe desse acesso de forma contínua e segura.

Nesse contexto, o ONDAS – Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento – divulgou documento (carta sociedade brasileira) que demanda do poder público, incluindo reguladores e prestadores de serviços públicos de saneamento básico, a implementação de 10 medidas emergenciais e estratégicas para minimizar impactos da “crise do novo coronavírus” à população mais vulnerável.

A Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, por meio do Grupo de Trabalho Água, Saneamento e Saúde da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção de Saúde, subscreva1medidaemergenciais e ressalta que elas “devem ser norteadoras de Planos de Contingência e Emergência, a serem executados pelas prestadoras de serviços públicos de saneamento básico, sob determinação e apoio das instâncias municipais, estaduais e federal do poder público”.

Também o Relator Especial dos Direitos Humanos à Água e ao Esgotamento Sanitário da ONU, Leo Heller, destaca a importância das medidas e faz um alerta: “A Carta Aberta do ONDAS traz uma oportuna e fundamental advertência: a pandemia do Covid-19 impõe novas responsabilidades para os prestadores de serviços de saneamento. Caso esses prestadores, sejam estaduais, municipais ou privados, continuem a agir como em tempos normais, deixarão de proteger a vida das pessoas em maior vulnerabilidade. É momento de o Brasil se aproximar dos direitos humanos à água e ao saneamento.”

 As 10 medidas emergenciais

As medidas abrangem aspectos de saúde pública e econômicos, que vão desde a suspensão no corte de fornecimento de água por inadimplência ao cancelamento das manobras de redução da pressão de redes de água que abastecem comunidades, favelas e periferias, passando por políticas públicas para assegurar o abastecimento de água, esgotamento sanitário e disponibilidade de equipamentos para higiene pessoal em asilos, residências comunitárias, presídios e população em situação de rua.

Os especialistas do ONDAS enfatizam que, em termos de saúde pública, não existe uma linha que separe os setores mais vulneráveis dos demais, ou seja, o impacto diferenciado da crise em grupos mais vulneráveis afeta indistintamente toda a sociedade, sendo a prevenção de interesse geral.

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Fiocruz lança sistema de monitoramento e previsão para o coronavírus

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A Fiocruz está lançando um sistema de monitoramento e previsão da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) no Brasil.  O sistema foi desenvolvido pelo Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (LIS/ICICT/Fiocruz) em cooperação com o IBGE. Esta ferramenta permite monitorar a pandemia e sua tendência por UF e município. O sistema mostra as tendências e permite comparar com países que estão em graus mais avançados da epidemia.

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Por meio deste sistema (MonitoraCovid),  os pesquisadores da Fiocruz já puderam verificar que:

  • A curva de aceleração de casos do Brasil, por enquanto, está seguindo os padrões da Itália e outros países no início das suas epidemias, o que é preocupante. Nas próximas semanas, o Brasil pode mudar de tendência devido a medidas específicas que estão sendo tomadas nos estado e municípios.
  • O sistema permite acompanhar estas tendências em cada UF e município e a sua comparação com países que estão em graus mais avançados da epidemia. A avaliação do impacto de medidas de restrição de mobilidade vai ser de extrema importância nas próximas semanas.
  • Neste momento da pandemia, a difusão está ocorrendo entre grandes cidades e dentro delas. Nos próximos dias, deve alcançar cidades de menor porte, o que levanta a questão da organização do sistema de saúde e o fluxo de pacientes e insumos para suprir as necessidades destas cidades que, em geral, possuem capacidades limitadas dos serviços de saúde.
  • Há um espalhamento de casos em direção ao sul, principalmente no litoral e pode se interiorizar nas próximas semanas. A aproximação do inverno traz preocupações principalmente na região sul. O clima frio e seco pode favorecer a transmissão do vírus.

Quem desejar a “MONITORA COVID”,  basta clicar [Aqui!].

Entidades lançam carta pró declaração de emergência por causa do derramamento de óleo no litoral nordestino

oleo 1Nas praias, o recolhimento do óleo é feito por voluntários, funcionários de órgãos ambientais estaduais, municipais e federal, além dos militares. Leo Malafaia / AFP

Diante da inépcia e inércia demonstrada pelo governo Bolsonaro em relação ao gravíssimo incidente ambiental causado pelo derramamento de óleo cru no litoral nordestino, em uma carta assinada conjuntamente pela Fundação Fiocruz (Fiocruz), pelo Instituto Ageu Magalhães (IAM) e pelo Laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat) é apresentada a demanda a de que seja decretada situação de emergência em saúde pública em todos os estados e municípios atingidos , com base na portaria no 2.952 de 14/12/2011 do Ministério da Saúde (ver imagens abaixo).

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A carta alerta ainda que “o desastre tem afetado a todos de forma muita negativa em diferentes dimensões e níveis“. Dentre os impactos econômicos, a carta destaca que “a população de baixa renda que depende dos negócios no litoral,  tem atuado de forma voluntária, apesar da falta de material e preparo, na retirada do óleo com o intuito de não prejudicar na sua renda familiar de subsistência, no período do ano mais produtivo“.

Os signatários da carta apontam ainda que a cadeia produtiva pesqueira artesanal também vem sendo prejudicada, e que a liberação do seguro defeso só atende a “30% dos pescadores e pescadoras, deixando os demais em estado de ainda maior vulnerabilidade social.”  Mas também é frisado o impacto que também está ocorrendo na atividade hoteleira e de bares e restaurantes, com fortes repercussões na economia local.

Do ponto de vista dos graves impactos sobre a saúde pública, a carta lembra que seria “importante a compreensão da gravidade da situação e a implementação de medidas precaucionárias aos danos futuros na saúde“, pois seria “preciso ter a garantia da
qualidade das águas do mar, dos mananciais e da saúde pública“.

Queimadas de campos de cana: a persistência de um método arcaico que adoece sem pedir licença

Ontem concedi uma brevíssima entrevista à TV Record sobre os aspectos perniciosos da manutenção da prática arcaica de queimar áreas de monocultura de cana de açúcar no município de Campos dos Goytacazes.  Nessa entrevista apontei, inclusive, para uma postagem divulgando os resultados de uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre os impactos negativos das queimadas em curso na Amazônia sobre a saúde humana.

Pois bem, naquela entrevista mencionei o fenômeno da formação de pironuvens ( (i.e., nuvens que se formam na pluma de fumaça sobre fogo ativo).  Eis que hoje, menos de 24 horas da referida entrevista, pude ver o início da formação de uma pironuvem ao chegar ao campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (ver imagens abaixo).

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A questão óbvia que se coloca é a externalização de custos de produção ao conjunto da sociedade na forma de poluição. Esse custo causa, como mostrado na supracitada pesquisa da Fiocruz, custos econômicos aos atingidos e uma sobrecarga no sistema público de saúde. 

Há que se lembrar que a Lei 5.990/2011 coloca limites temporais para o desaparecimento dessa prática arcaica; sendo que as áreas passíveis de mecanização devem cessar as queimadas em 2020 e as não mecanizáveis deverão interromper esta prática em 2024.  

Entretanto, me parece quase certo que sem a devida pressão social, a Lei 5.990/2011 continuará não saindo do papel. Simples assim!

 

Queimadas na Amazônia causam forte impacto no SUS

queimadasCrianças são as principais vítimas da fumaça liberada pelas queimadas na Amazônia brasileira que grande aumento nas doenças respiratórias

A Fiocruz, em estudo coordenado pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), mapeou o impacto das queimadas para a saúde infantil na região amazônica. A pesquisa concluiu que, nas áreas mais afetadas pelo fogo, o número de crianças internadas com problemas respiratórios dobrou. Foram cerca de 2,5 mil internações a mais, por mês, em maio e junho de 2019, em aproximadamente 100 municípios da Amazônia Legal, em especial nos estados do Pará, Rondônia, Maranhão e Mato Grosso – o que acarretou custo excedente de R$ 1,5 milhão ao Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com pesquisas, viver em uma cidade próxima aos focos de incêndio aumenta em 36% o risco de se internar por problemas respiratórios. 

O levantamento aponta ainda que em cinco dos nove estados da região houve aumento na morte de crianças hospitalizadas por problemas respiratórios. É o caso de Rondônia. Entre janeiro e julho de 2018, foram cerca de 287 mortes a cada 100 mil crianças com menos de 10 anos. No mesmo período, em 2019, esse número subiu para 393. Em Roraima, 1.427 crianças a cada 100 mil morreram internadas por problemas respiratórios, no primeiro semestre de 2018. No mesmo período de 2019, foram 2.398.

As informações integram um informe técnico do Observatório de Clima e Saúde, projeto coordenado pelo Icict/Fiocruz. Esse estudo contou também com cientistas da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). O objetivo do trabalho é alertar gestores e profissionais do SUS, de modo a se programarem para o atendimento à saúde das populações mais vulneráveis. Além disso, o levantamento apontou para a importância de reforçar a atenção básica e a busca ativa de casos em locais de maior concentração de queimadas e maiores níveis de poluição atmosférica, já que alguns grupos populacionais podem não ter acesso a hospitais.

Internações quintuplicaram em algumas cidades

Os dados chamam atenção para as cidades de Santo Antônio do Tauá, Ourilândia do Norte e Bannach, no Pará; Santa Luzia d’Oeste, em Rondônia; e Comodoro, no Mato Grosso, onde o número de internações foi mais de cinco vezes maior do que o esperado. Mas o chamado “material particulado” – resíduo tóxico gerado por queima – pode também alcançar grandes cidades situadas a centenas de quilômetros dos focos de queimadas, devido ao transporte de poluentes pelos ventos. 

Desde sua fundação, em 2010, o Observatório de Clima e Saúde vem acompanhando a evolução das queimadas e seus efeitos sobre a saúde das populações na Amazônia e no Cerrado. É a primeira vez que um estudo reúne, quase que em tempo real, informações tão abrangentes sobre a correlação entre as queimadas e seus efeitos para a saúde na região da Amazônia Legal. 

Os pesquisadores reuniram dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH), do DataSUS, entre os meses de maio e junho – último período disponível -, e aplicaram sobre eles uma técnica de “varredura espacial” chamada Satscan, de modo a detectar conjuntos de municípios que possuem taxas de internação por doenças respiratórias acima do valor esperado. Foram usados também dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e dos sistemas BDQueimadas e Prodes Desmatamento, ambos produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dados obtidos, porém, são preliminares, uma vez que nem todas as internações do período estudado já estão cadastradas no sistema. Por isso, é possível que os índices sejam ainda mais graves.

As imagens obtidas por satélite e usadas no estudo mostram ainda como focos de fogo se encontram nas bordas de terras indígenas, que ainda parecem desempenhar um papel de proteção contra as queimadas e o desmatamento. Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que as populações indígenas também devem estar sendo afetadas pela poluição do ar – no entanto, ainda não é possível avaliar a incidência de doenças nessas áreas.

Crianças mais suscetíveis

O Observatório levou em consideração que as queimadas acontecem no que é chamado de Arco do Desmatamento, que compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, parte do Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins, em geral de maio a outubro. Durante o período de seca na região – que coincide com a diminuição das chuvas regionais, a queda dos índices de umidade e o período de queimadas – já é registrado, normalmente, um aumento no número de casos de afecções respiratórias, por conta do aumento da emissão de poluentes e a concentração de gases tóxicos na atmosfera, comprometendo a saúde da população. A situação, porém, se agravou muito com as queimadas recentes.

Nas cidades analisadas houve um total de 5.091 internações por mês, quando o valor esperado seria de 2.589. Estes resultados sugerem um excesso de 2,5 mil internações de crianças nos municípios mais impactados pelas queimadas. 

Considerando o perfil médio das internações de crianças por problemas respiratórios no SUS, estas internações teriam gerado um custo excedente de R$ 1,5 milhão e 9.750 leitos-dia de ocupação nos hospitais públicos e conveniados com o SUS. 

A queima de madeira pode gerar uma grande diversidade de gases e aerossóis, vários destes prejudiciais à saúde, principalmente pelo seu pequeno diâmetro e capacidade de penetrar no aparelho respiratório inferior. “Crianças são mais sensíveis a fatores externos, como a poluição”, explica o pesquisador Christovam Barcellos, do Icict/Fiocruz. “Seu sistema imunológico ainda está em desenvolvimento e o aparelho respiratório, em formação. São mais suscetíveis a alergias”. Além disso, crianças passam mais tempo ao ar livre do que os adultos e, assim, inalam mais poluentes. Durante exercício físico, a deposição de partículas no pulmão aumenta cinco vezes, afirma Sandra Hacon, pesquisadora da Ensp/Fiocruz.

Apenas uma parte do problema

Barcellos alerta que o estudo usou as internações em crianças como indicadores de risco. Porém, adultos – e principalmente aqueles com doenças crônicas e idosos – podem ser afetados pela poluição das queimadas. “Por usarmos somente as internações pagas pelo SUS, isto é, sem considerar os dados do sistema privado de saúde, avaliamos apenas uma parte do problema. Além disso, muitas crianças podem não ter conseguido chegar aos hospitais. Na região amazônica as distâncias são enormes. Muitas pessoas podem ter tido episódios de bronquite e asma, entre outros, sem atenção médica”, completa o pesquisador.

“As queimadas na Amazônia representam um grande risco à saúde da população”, assegura o texto do informe técnico. “Os poluentes emitidos por estas queimadas podem ser transportados a grande distância, alcançando cidades distantes dos focos de queimadas. Dentre os poluentes, encontram-se o material particulado fino (PM2.5), CO (monóxido de carbono), NO2 (dióxido de nitrogênio) e compostos orgânicos voláteis (VOCs) que podem causar o agravamento de quadros de cardiopatia, inflamação das vias aéreas, inflamação sistêmica e neuroinflamação, disfunção endotelial, coagulação, aterosclerose, alteração do sistema nervoso autônomo, e danos ao DNA, com potencial carcinogênico”.

As mortes e internações hospitalares são os aspectos mais graves e evidentes dos problemas de saúde causados pelas queimadas, mas não os únicos: “Outros eventos adversos de saúde, como atendimentos de emergência e limitações funcionais do sistema respiratório são fenômenos mais frequentes, mas de difícil detecção pelos sistemas de informação de saúde”, alerta o estudo.  

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fiocruz de Notícias [Aqui!].