Fiocruz lança sistema de monitoramento e previsão para o coronavírus

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A Fiocruz está lançando um sistema de monitoramento e previsão da pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) no Brasil.  O sistema foi desenvolvido pelo Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (LIS/ICICT/Fiocruz) em cooperação com o IBGE. Esta ferramenta permite monitorar a pandemia e sua tendência por UF e município. O sistema mostra as tendências e permite comparar com países que estão em graus mais avançados da epidemia.

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Por meio deste sistema (MonitoraCovid),  os pesquisadores da Fiocruz já puderam verificar que:

  • A curva de aceleração de casos do Brasil, por enquanto, está seguindo os padrões da Itália e outros países no início das suas epidemias, o que é preocupante. Nas próximas semanas, o Brasil pode mudar de tendência devido a medidas específicas que estão sendo tomadas nos estado e municípios.
  • O sistema permite acompanhar estas tendências em cada UF e município e a sua comparação com países que estão em graus mais avançados da epidemia. A avaliação do impacto de medidas de restrição de mobilidade vai ser de extrema importância nas próximas semanas.
  • Neste momento da pandemia, a difusão está ocorrendo entre grandes cidades e dentro delas. Nos próximos dias, deve alcançar cidades de menor porte, o que levanta a questão da organização do sistema de saúde e o fluxo de pacientes e insumos para suprir as necessidades destas cidades que, em geral, possuem capacidades limitadas dos serviços de saúde.
  • Há um espalhamento de casos em direção ao sul, principalmente no litoral e pode se interiorizar nas próximas semanas. A aproximação do inverno traz preocupações principalmente na região sul. O clima frio e seco pode favorecer a transmissão do vírus.

Quem desejar a “MONITORA COVID”,  basta clicar [Aqui!].

Entidades lançam carta pró declaração de emergência por causa do derramamento de óleo no litoral nordestino

oleo 1Nas praias, o recolhimento do óleo é feito por voluntários, funcionários de órgãos ambientais estaduais, municipais e federal, além dos militares. Leo Malafaia / AFP

Diante da inépcia e inércia demonstrada pelo governo Bolsonaro em relação ao gravíssimo incidente ambiental causado pelo derramamento de óleo cru no litoral nordestino, em uma carta assinada conjuntamente pela Fundação Fiocruz (Fiocruz), pelo Instituto Ageu Magalhães (IAM) e pelo Laboratório Saúde, Ambiente e Trabalho (Lasat) é apresentada a demanda a de que seja decretada situação de emergência em saúde pública em todos os estados e municípios atingidos , com base na portaria no 2.952 de 14/12/2011 do Ministério da Saúde (ver imagens abaixo).

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A carta alerta ainda que “o desastre tem afetado a todos de forma muita negativa em diferentes dimensões e níveis“. Dentre os impactos econômicos, a carta destaca que “a população de baixa renda que depende dos negócios no litoral,  tem atuado de forma voluntária, apesar da falta de material e preparo, na retirada do óleo com o intuito de não prejudicar na sua renda familiar de subsistência, no período do ano mais produtivo“.

Os signatários da carta apontam ainda que a cadeia produtiva pesqueira artesanal também vem sendo prejudicada, e que a liberação do seguro defeso só atende a “30% dos pescadores e pescadoras, deixando os demais em estado de ainda maior vulnerabilidade social.”  Mas também é frisado o impacto que também está ocorrendo na atividade hoteleira e de bares e restaurantes, com fortes repercussões na economia local.

Do ponto de vista dos graves impactos sobre a saúde pública, a carta lembra que seria “importante a compreensão da gravidade da situação e a implementação de medidas precaucionárias aos danos futuros na saúde“, pois seria “preciso ter a garantia da
qualidade das águas do mar, dos mananciais e da saúde pública“.

Queimadas de campos de cana: a persistência de um método arcaico que adoece sem pedir licença

Ontem concedi uma brevíssima entrevista à TV Record sobre os aspectos perniciosos da manutenção da prática arcaica de queimar áreas de monocultura de cana de açúcar no município de Campos dos Goytacazes.  Nessa entrevista apontei, inclusive, para uma postagem divulgando os resultados de uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre os impactos negativos das queimadas em curso na Amazônia sobre a saúde humana.

Pois bem, naquela entrevista mencionei o fenômeno da formação de pironuvens ( (i.e., nuvens que se formam na pluma de fumaça sobre fogo ativo).  Eis que hoje, menos de 24 horas da referida entrevista, pude ver o início da formação de uma pironuvem ao chegar ao campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (ver imagens abaixo).

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A questão óbvia que se coloca é a externalização de custos de produção ao conjunto da sociedade na forma de poluição. Esse custo causa, como mostrado na supracitada pesquisa da Fiocruz, custos econômicos aos atingidos e uma sobrecarga no sistema público de saúde. 

Há que se lembrar que a Lei 5.990/2011 coloca limites temporais para o desaparecimento dessa prática arcaica; sendo que as áreas passíveis de mecanização devem cessar as queimadas em 2020 e as não mecanizáveis deverão interromper esta prática em 2024.  

Entretanto, me parece quase certo que sem a devida pressão social, a Lei 5.990/2011 continuará não saindo do papel. Simples assim!

 

Queimadas na Amazônia causam forte impacto no SUS

queimadasCrianças são as principais vítimas da fumaça liberada pelas queimadas na Amazônia brasileira que grande aumento nas doenças respiratórias

A Fiocruz, em estudo coordenado pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), mapeou o impacto das queimadas para a saúde infantil na região amazônica. A pesquisa concluiu que, nas áreas mais afetadas pelo fogo, o número de crianças internadas com problemas respiratórios dobrou. Foram cerca de 2,5 mil internações a mais, por mês, em maio e junho de 2019, em aproximadamente 100 municípios da Amazônia Legal, em especial nos estados do Pará, Rondônia, Maranhão e Mato Grosso – o que acarretou custo excedente de R$ 1,5 milhão ao Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com pesquisas, viver em uma cidade próxima aos focos de incêndio aumenta em 36% o risco de se internar por problemas respiratórios. 

O levantamento aponta ainda que em cinco dos nove estados da região houve aumento na morte de crianças hospitalizadas por problemas respiratórios. É o caso de Rondônia. Entre janeiro e julho de 2018, foram cerca de 287 mortes a cada 100 mil crianças com menos de 10 anos. No mesmo período, em 2019, esse número subiu para 393. Em Roraima, 1.427 crianças a cada 100 mil morreram internadas por problemas respiratórios, no primeiro semestre de 2018. No mesmo período de 2019, foram 2.398.

As informações integram um informe técnico do Observatório de Clima e Saúde, projeto coordenado pelo Icict/Fiocruz. Esse estudo contou também com cientistas da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). O objetivo do trabalho é alertar gestores e profissionais do SUS, de modo a se programarem para o atendimento à saúde das populações mais vulneráveis. Além disso, o levantamento apontou para a importância de reforçar a atenção básica e a busca ativa de casos em locais de maior concentração de queimadas e maiores níveis de poluição atmosférica, já que alguns grupos populacionais podem não ter acesso a hospitais.

Internações quintuplicaram em algumas cidades

Os dados chamam atenção para as cidades de Santo Antônio do Tauá, Ourilândia do Norte e Bannach, no Pará; Santa Luzia d’Oeste, em Rondônia; e Comodoro, no Mato Grosso, onde o número de internações foi mais de cinco vezes maior do que o esperado. Mas o chamado “material particulado” – resíduo tóxico gerado por queima – pode também alcançar grandes cidades situadas a centenas de quilômetros dos focos de queimadas, devido ao transporte de poluentes pelos ventos. 

Desde sua fundação, em 2010, o Observatório de Clima e Saúde vem acompanhando a evolução das queimadas e seus efeitos sobre a saúde das populações na Amazônia e no Cerrado. É a primeira vez que um estudo reúne, quase que em tempo real, informações tão abrangentes sobre a correlação entre as queimadas e seus efeitos para a saúde na região da Amazônia Legal. 

Os pesquisadores reuniram dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH), do DataSUS, entre os meses de maio e junho – último período disponível -, e aplicaram sobre eles uma técnica de “varredura espacial” chamada Satscan, de modo a detectar conjuntos de municípios que possuem taxas de internação por doenças respiratórias acima do valor esperado. Foram usados também dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e dos sistemas BDQueimadas e Prodes Desmatamento, ambos produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dados obtidos, porém, são preliminares, uma vez que nem todas as internações do período estudado já estão cadastradas no sistema. Por isso, é possível que os índices sejam ainda mais graves.

As imagens obtidas por satélite e usadas no estudo mostram ainda como focos de fogo se encontram nas bordas de terras indígenas, que ainda parecem desempenhar um papel de proteção contra as queimadas e o desmatamento. Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que as populações indígenas também devem estar sendo afetadas pela poluição do ar – no entanto, ainda não é possível avaliar a incidência de doenças nessas áreas.

Crianças mais suscetíveis

O Observatório levou em consideração que as queimadas acontecem no que é chamado de Arco do Desmatamento, que compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, parte do Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Tocantins, em geral de maio a outubro. Durante o período de seca na região – que coincide com a diminuição das chuvas regionais, a queda dos índices de umidade e o período de queimadas – já é registrado, normalmente, um aumento no número de casos de afecções respiratórias, por conta do aumento da emissão de poluentes e a concentração de gases tóxicos na atmosfera, comprometendo a saúde da população. A situação, porém, se agravou muito com as queimadas recentes.

Nas cidades analisadas houve um total de 5.091 internações por mês, quando o valor esperado seria de 2.589. Estes resultados sugerem um excesso de 2,5 mil internações de crianças nos municípios mais impactados pelas queimadas. 

Considerando o perfil médio das internações de crianças por problemas respiratórios no SUS, estas internações teriam gerado um custo excedente de R$ 1,5 milhão e 9.750 leitos-dia de ocupação nos hospitais públicos e conveniados com o SUS. 

A queima de madeira pode gerar uma grande diversidade de gases e aerossóis, vários destes prejudiciais à saúde, principalmente pelo seu pequeno diâmetro e capacidade de penetrar no aparelho respiratório inferior. “Crianças são mais sensíveis a fatores externos, como a poluição”, explica o pesquisador Christovam Barcellos, do Icict/Fiocruz. “Seu sistema imunológico ainda está em desenvolvimento e o aparelho respiratório, em formação. São mais suscetíveis a alergias”. Além disso, crianças passam mais tempo ao ar livre do que os adultos e, assim, inalam mais poluentes. Durante exercício físico, a deposição de partículas no pulmão aumenta cinco vezes, afirma Sandra Hacon, pesquisadora da Ensp/Fiocruz.

Apenas uma parte do problema

Barcellos alerta que o estudo usou as internações em crianças como indicadores de risco. Porém, adultos – e principalmente aqueles com doenças crônicas e idosos – podem ser afetados pela poluição das queimadas. “Por usarmos somente as internações pagas pelo SUS, isto é, sem considerar os dados do sistema privado de saúde, avaliamos apenas uma parte do problema. Além disso, muitas crianças podem não ter conseguido chegar aos hospitais. Na região amazônica as distâncias são enormes. Muitas pessoas podem ter tido episódios de bronquite e asma, entre outros, sem atenção médica”, completa o pesquisador.

“As queimadas na Amazônia representam um grande risco à saúde da população”, assegura o texto do informe técnico. “Os poluentes emitidos por estas queimadas podem ser transportados a grande distância, alcançando cidades distantes dos focos de queimadas. Dentre os poluentes, encontram-se o material particulado fino (PM2.5), CO (monóxido de carbono), NO2 (dióxido de nitrogênio) e compostos orgânicos voláteis (VOCs) que podem causar o agravamento de quadros de cardiopatia, inflamação das vias aéreas, inflamação sistêmica e neuroinflamação, disfunção endotelial, coagulação, aterosclerose, alteração do sistema nervoso autônomo, e danos ao DNA, com potencial carcinogênico”.

As mortes e internações hospitalares são os aspectos mais graves e evidentes dos problemas de saúde causados pelas queimadas, mas não os únicos: “Outros eventos adversos de saúde, como atendimentos de emergência e limitações funcionais do sistema respiratório são fenômenos mais frequentes, mas de difícil detecção pelos sistemas de informação de saúde”, alerta o estudo.  

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fiocruz de Notícias [Aqui!].

Mito desfeito! Pesquisa indica que não há dose segura de agrotóxico

Trabalho do Instituto Butantã aponta riscos em dez dos principais pesticidas usados no País

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

RIO – Uma análise de dez agrotóxicos de largo uso no País revela que os pesticidas são extremamente tóxicos ao meio ambiente e à vida em qualquer concentração – mesmo quando utilizados em dosagens equivalentes a até um trigésimo do recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Encomendado pelo Ministério da Saúde e realizado pelo Instituto Butantã, o estudo comprova que não existe dose mínima totalmente não letal para os defensivos usados na agricultura brasileira.

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A metodologia é considerada de referência mundial; de acordo com Mônica, os produtos, ‘se não matam, causam anomalias’ Foto: JF DIORIO/ESTADÃO

“Não existem quantidades seguras”, diz a imunologista Mônica Lopes-Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, responsável pela pesquisa. “Se (os agrotóxicos) não matam, causam anomalias. Nenhum peixe testado se manteve saudável.” A pesquisa foi originalmente encomendada pelo Ministério da Saúde à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em gesto considerado corriqueiro entre institutos de pesquisa, a Fiocruz pediu ao Instituto Butantã que realizasse o estudo, uma vez que tinha mais expertise nesse tipo de trabalho.

No Butantã fica a Plataforma Zebrafish – que usa a metodologia considerada de referência mundial para testar toxinas presentes na água, com os peixes-zebra (Danio rerio). Eles são 70% similares geneticamente aos seres humanos, têm um ciclo de vida curto (fácil de acompanhar todos os estágios) e são transparentes (é possível ver o que acontece em todo o organismo do animal em tempo real). O laboratório pertence ao Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

De acordo com o pedido do Ministério da Saúde, os cientistas testaram a toxicidade de dez pesticidas largamente utilizados no País. São eles: abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox, glifosato, malathion e piripoxifem. As substâncias são genéricas, usadas em diversas formulações comerciais.

Os pesquisadores testaram diferentes concentrações dos pesticidas, desde as doses mínimas indicadas até concentrações equivalentes a 1/30 dessas dosagens. As concentrações dos pesticidas foram diluídas na água de aquários contendo ovas fertilizadas de peixes-zebra. Em seguida, em intervalos de 24, 48, 72 e 96 horas, os embriões foram analisados no microscópio para avaliar se a exposição havia causado deformidades e também se tinha inviabilizado o desenvolvimento.

Testes

Cada substância, em cada uma das dosagens determinadas, foi testada em três aquários diferentes, cada um com 20 embriões – uma forma de triplicar resultados, garantindo acurácia. “Acompanhamos o desenvolvimento dos embriões, verificando se apresentavam alterações morfológicas, se estavam desenvolvendo a coluna vertebral, os olhos, a boca, se o coração continuava batendo”, explicou. “E, após o nascimento, também o nado dos peixinhos.”

Três dos dez pesticidas analisados (glifosato, melathion e piriproxifem) causaram a morte de todos os embriões de peixes em apenas 24 horas de exposição, independentemente da concentração do produto utilizada. Esse espectro foi da dosagem mínima indicada, 0,66mg/ml, até 0,022mg/ml, que teoricamente deveria ter se mostrado inofensiva.

O glifosato é, de longe, o defensivo mais usado na agricultura brasileira: representa um terço dos produtos utilizados.

Também é considerado muito perigoso. A substância é relacionada, em outros estudos, à mortandade de abelhas em todo o mundo. É apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como potencialmente cancerígena para mamíferos e seres humanos. O uso do glifosato é proibido na Áustria e será banido na França até 2022.

Os outros sete pesticidas analisados (abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox) causaram mortes de peixes em maior ou menor porcentagem, em todas as concentrações testadas. E mesmo entre os que sobreviveram “muitos apresentavam padrão de nado alterado que decorre da malformação das nadadeiras ou que podem sinalizar problemas neuromotores decorrentes da exposição ao veneno”.

Indícios

Os resultados obtidos nos peixes, segundo os cientistas, são um forte indício da toxicidade dos produtos ao meio ambiente. Eles também apontam que pode haver danos aos seres humanos. “Nunca poderemos dizer que será igual (ao que foi observado nos peixes)”, afirmou a pesquisadora. “Mas, como geneticamente somos 70% iguais a esses animais, é muito alta a probabilidade de que a exposição aos agrotóxicos nos cause problemas.”

De qualquer forma, sustenta a pesquisadora, o estudo é um importante alerta. “Essas substâncias podem causar sérios problemas aos trabalhadores que as manipulam e ao ecossistema como um todo”, disse. “Conforme o agrotóxico é borrifado nas verduras e nas frutas, ele cai no solo, na água, contamina todos os animais que estão ali e também o homem que se alimenta desses animais e desses vegetais. É uma cadeia.”

Responsável pelo Atlas Geografia dos Agrotóxicos no Brasil, Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), concorda com a colega. Para ela, os peixes funcionam como sentinelas, apontando um problema maior. “É o mesmo caso das abelhas, dos polinizadores”, afirmou. “Os sentinelas revelam que algo maior está acontecendo, algo que vai além daquela espécie.”

Pesquisador de Saúde Pública da Fiocruz, Luis Claudio Meirelles ocupou, por mais de uma década, a gerência geral de toxicologia da Anvisa. Segundo ele, a situação atual do País no que afirma respeito ao uso dos defensivos agrícolas é preocupante. “Somos campeões no uso de agrotóxicos no mundo e dispomos de uma estrutura de controle e vigilância muito aquém dos volumes utilizados e dos impactos provocados”, afirma.

“Além disso, os investimentos em pesquisa são muito baixos e, nos últimos tempos, tivemos uma liberação absurda de produtos, além de uma nova normatização para classificação e rotulagem de agrotóxicos. Socialmente, o País está perdendo. Estamos no caminho contrário do resto do mundo”, diz Meirelles.

3 perguntas para Leonardo Fernandes Fraceto, professor da Unesp de Sorocaba

1. O que aconteceria se o uso dessas dez substâncias testadas pelo Instituto Butantã fosse proibido? 

Não é possível banir esses dez produtos. A minha visão é que não há como produzir alimentos para suprir o que o mundo precisa sem usar moléculas e formas de controle de pragas. A questão é a toxicidade relacionada à concentração usada e o tempo de exposição.

2. A concentração e o tempo de exposição não são levados em conta?

Teoricamente, se as indicações de uso forem seguidas, não deveria haver problemas. Mas a questão é que está trazendo problemas. Temos resíduos, contaminação da água, uso maior do que o devido, enfim…

3. E qual seria a solução?

Acho que o grande erro da agricultura hoje é querer solução única, uma bala de prata. Não vejo como resolver esse problema com uma única solução. Tem de haver uma combinação de estratégias. Porque existem muitas estratégias: controle biológico de pragas, moléculas sintéticas, pesticidas de origem natural, óleos essenciais, formas de manejo de culturas, formas de monitoramento de plantações para checar os níveis de infestação. É preciso fazer associações, ter opções mais inteligentes do que pulverizar uma única substância em concentrações maiores que as recomendadas. Ou vamos continuar a ter problemas. 

Ministério e Anvisa afirmam não ter visto dados

O Ministério da Saúde confirmou que “encomendou a pesquisa à Fiocruz no fim de 2017”, mas destacou que não recebeu o estudo. “No que cabe ao tema dos agrotóxicos, o levantamento teve início em 2019 e, por isso, a pasta ainda não tem como compartilhar nem comentar os resultados.”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que também não recebeu a pesquisa e, por isso, não seria possível “avaliar suas conclusões ou o peso das evidências”.

A agência esclareceu, no entanto, que acompanha todos os dados novos sobre produtos agrotóxicos e as novas evidências científicas são avaliadas. “Os produtos agrotóxicos são submetidos a um processo de reavaliação que consiste na revisão dos parâmetros de segurança à luz de novos dados e conhecimentos”, informou.

O órgão federal lembrou que esse procedimento é necessário porque, diferentemente do que acontece com outros produtos, o registro dos defensivos agrícolas não tem tempo de validade. A Anvisa informou ainda que, dos dez produtos citados, o carbofurano foi reavaliado em 2017 e está proibido. Disse ainda que o glifosato está em processo de reavaliação.

Para lembrar

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou este ano 290 agrotóxicos. Pelo ritmo das liberações, a tendência é de que seja batido o recorde de 2018, quando o governo de Michel Temer autorizou a comercialização de 450 substâncias. A maioria não é propriamente de novos produtos, mas sim de novas formulações para substâncias anteriormente liberadas, diz a Anvisa.

Embora aprovadas pelas regras brasileiras e consideradas seguras quando manuseadas corretamente e nas doses indicadas, muitas são proibidas nos EUA e na Europa. Mês passado, a Anvisa também fez reclassificação e mudou a rotulagem. Segundo a agência, essa decisão visa a seguir um padrão internacional. Porém, como alertaram cientistas, a nova classificação reduz significativamente o número de defensivos categorizados como “extremamente tóxicos”.

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal “Estadão” [Aqui!].

“The Intercept Brasil” circula íntegra de relatório engavetado pelo governo Bolsonaro sobre uso de drogas no Brasil

Publicamos pela primeira vez o estudo sobre drogas que o governo escondeu

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Por Tatiana Dias e  Ines Garçoni para o “The Intercept Brasil”

HÁ DOIS MESES, o Intercept e a Casa da Democracia revelaram que o governo esconde desde 2017 o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, pesquisa nacional que investigou o consumo de substâncias lícitas e ilícitas por brasileiros. O estudo, feito pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, foi o maior já feito sobre o tema – foram ouvidas 16.273 pessoas em 351 cidades – e custou aos cofres públicos mais de R$ 7 milhões.

Mas a Secretaria Nacional de Política de Drogas, a Senad, órgão do Ministério da Justiça responsável por encomendar a pesquisa, decidiu engavetá-la. A alegação oficial é que ela tem problemas metodológicos. Mas, segundo especialistas, o embargo tem outra razão: o resultado contrariou o governo. Conforme o Intercept divulgou em abril, o levantamento mostrou, por exemplo, que só 0,9% da população usou crack alguma vez na vida – um número que está longe do que o governo alardeia como “epidemia”.

O atual ministro da Cidadania, Osmar Terra, foi um dos responsáveis por embargar o levantamento. Em entrevista nesta semana, ele disse que “não confia” no estudo e que a Fiocruz tem “viés de defender a liberação das drogas. As declarações do ministro fizeram com que o assunto chegasse até ao Jornal Nacional, que divulgou alguns dos resultados publicados há dois meses pelo Intercept (sem os créditos, mas essa é outra história).

Em abril, logo depois que publicamos os resultados da pesquisa, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, autorizou a divulgação do relatório – desde que ele não fosse associado à Senad, do Ministério da Justiça. O governo exige que a Fiocruz devolva os R$ 7 milhões da pesquisa, alegando que ela não cumpriu o edital. A Fiocruz diz que cumpriu e, neste momento, o caso está sendo avaliado pela Advocacia Geral da União.

Em abril, quando publicamos a história pela primeira vez, avaliamos que divulgar o documento na íntegra poderia colocar em risco os objetivos da pesquisa e contribuir para que o levantamento fosse definitivamente engavetado pelo governo. Por causa dos últimos acontecimentos, no entanto, decidimos que é interesse público divulgar, na íntegra, o que o estudo mostrou.

Leia o relatório completo:

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Esta matéria foi originalmente publicada pelo site “The Intercept Brasil” [Aqui!]

Convite: lançamento do documentário “RIO OU VALÃO” no Museu da Vida (FIOCRUZ)

Convite: lançamento do documentário “RIO OU VALÃO” no dia 3 de Outubro no Museu da Vida (FIOCRUZ) de 13 às 17h.

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Em que condições as populações servidas pelas sub-bacias da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e outras igualmente degradadas, encontram a água para uso? Degradação, iniquidades socioambientais, e o [urgente] acesso universal à água são alguns dos temas problematizados pelo documentário É Rio ou Valão?, produzido pela VídeoSaúde Distribuidora (ICICT/Fiocruz). O filme será lançado na próxima terça-feira (3/10), no auditório do Museu da Vida, no Campus Fiocruz Manguinhos, das 13h às 17h. O evento é aberto ao público.

O filme, que tem caráter educativo, foi financiado com recursos do edital Capes-ANA e produzido com jovens estudantes da rede pública estadual de ensino do Rio de Janeiro. Desenvolvido por iniciativa do Observatório da Sub Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, com apoio da Cooperação Social da Presidência da Fundação, o documentário aborda a questão dos usos e acessos aos recursos hídricos em territórios vulnerabilizados social e ambientalmente.

É Rio ou Valão? foi viabilizado por meio da parceria com a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), e a ONG Verdejar Socioambiental.

Como parte da programação de lançamento, será exibida a peça Vamos Verdejar do Ponto de Cultura Luiz Poeta Verdejar, além da exibição do documentário, debate com os produtores do filme, e sessão musical temática. As inscrições podem ser feitas no local.

Realização: Observatório da Sub-bacia Hidrográfica do Canal do Cunha