Mito desfeito! Pesquisa indica que não há dose segura de agrotóxico

Trabalho do Instituto Butantã aponta riscos em dez dos principais pesticidas usados no País

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

RIO – Uma análise de dez agrotóxicos de largo uso no País revela que os pesticidas são extremamente tóxicos ao meio ambiente e à vida em qualquer concentração – mesmo quando utilizados em dosagens equivalentes a até um trigésimo do recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Encomendado pelo Ministério da Saúde e realizado pelo Instituto Butantã, o estudo comprova que não existe dose mínima totalmente não letal para os defensivos usados na agricultura brasileira.

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A metodologia é considerada de referência mundial; de acordo com Mônica, os produtos, ‘se não matam, causam anomalias’ Foto: JF DIORIO/ESTADÃO

“Não existem quantidades seguras”, diz a imunologista Mônica Lopes-Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, responsável pela pesquisa. “Se (os agrotóxicos) não matam, causam anomalias. Nenhum peixe testado se manteve saudável.” A pesquisa foi originalmente encomendada pelo Ministério da Saúde à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em gesto considerado corriqueiro entre institutos de pesquisa, a Fiocruz pediu ao Instituto Butantã que realizasse o estudo, uma vez que tinha mais expertise nesse tipo de trabalho.

No Butantã fica a Plataforma Zebrafish – que usa a metodologia considerada de referência mundial para testar toxinas presentes na água, com os peixes-zebra (Danio rerio). Eles são 70% similares geneticamente aos seres humanos, têm um ciclo de vida curto (fácil de acompanhar todos os estágios) e são transparentes (é possível ver o que acontece em todo o organismo do animal em tempo real). O laboratório pertence ao Centro de Toxinas, Resposta-Imune e Sinalização Celular (CeTICS), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

De acordo com o pedido do Ministério da Saúde, os cientistas testaram a toxicidade de dez pesticidas largamente utilizados no País. São eles: abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox, glifosato, malathion e piripoxifem. As substâncias são genéricas, usadas em diversas formulações comerciais.

Os pesquisadores testaram diferentes concentrações dos pesticidas, desde as doses mínimas indicadas até concentrações equivalentes a 1/30 dessas dosagens. As concentrações dos pesticidas foram diluídas na água de aquários contendo ovas fertilizadas de peixes-zebra. Em seguida, em intervalos de 24, 48, 72 e 96 horas, os embriões foram analisados no microscópio para avaliar se a exposição havia causado deformidades e também se tinha inviabilizado o desenvolvimento.

Testes

Cada substância, em cada uma das dosagens determinadas, foi testada em três aquários diferentes, cada um com 20 embriões – uma forma de triplicar resultados, garantindo acurácia. “Acompanhamos o desenvolvimento dos embriões, verificando se apresentavam alterações morfológicas, se estavam desenvolvendo a coluna vertebral, os olhos, a boca, se o coração continuava batendo”, explicou. “E, após o nascimento, também o nado dos peixinhos.”

Três dos dez pesticidas analisados (glifosato, melathion e piriproxifem) causaram a morte de todos os embriões de peixes em apenas 24 horas de exposição, independentemente da concentração do produto utilizada. Esse espectro foi da dosagem mínima indicada, 0,66mg/ml, até 0,022mg/ml, que teoricamente deveria ter se mostrado inofensiva.

O glifosato é, de longe, o defensivo mais usado na agricultura brasileira: representa um terço dos produtos utilizados.

Também é considerado muito perigoso. A substância é relacionada, em outros estudos, à mortandade de abelhas em todo o mundo. É apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como potencialmente cancerígena para mamíferos e seres humanos. O uso do glifosato é proibido na Áustria e será banido na França até 2022.

Os outros sete pesticidas analisados (abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox) causaram mortes de peixes em maior ou menor porcentagem, em todas as concentrações testadas. E mesmo entre os que sobreviveram “muitos apresentavam padrão de nado alterado que decorre da malformação das nadadeiras ou que podem sinalizar problemas neuromotores decorrentes da exposição ao veneno”.

Indícios

Os resultados obtidos nos peixes, segundo os cientistas, são um forte indício da toxicidade dos produtos ao meio ambiente. Eles também apontam que pode haver danos aos seres humanos. “Nunca poderemos dizer que será igual (ao que foi observado nos peixes)”, afirmou a pesquisadora. “Mas, como geneticamente somos 70% iguais a esses animais, é muito alta a probabilidade de que a exposição aos agrotóxicos nos cause problemas.”

De qualquer forma, sustenta a pesquisadora, o estudo é um importante alerta. “Essas substâncias podem causar sérios problemas aos trabalhadores que as manipulam e ao ecossistema como um todo”, disse. “Conforme o agrotóxico é borrifado nas verduras e nas frutas, ele cai no solo, na água, contamina todos os animais que estão ali e também o homem que se alimenta desses animais e desses vegetais. É uma cadeia.”

Responsável pelo Atlas Geografia dos Agrotóxicos no Brasil, Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), concorda com a colega. Para ela, os peixes funcionam como sentinelas, apontando um problema maior. “É o mesmo caso das abelhas, dos polinizadores”, afirmou. “Os sentinelas revelam que algo maior está acontecendo, algo que vai além daquela espécie.”

Pesquisador de Saúde Pública da Fiocruz, Luis Claudio Meirelles ocupou, por mais de uma década, a gerência geral de toxicologia da Anvisa. Segundo ele, a situação atual do País no que afirma respeito ao uso dos defensivos agrícolas é preocupante. “Somos campeões no uso de agrotóxicos no mundo e dispomos de uma estrutura de controle e vigilância muito aquém dos volumes utilizados e dos impactos provocados”, afirma.

“Além disso, os investimentos em pesquisa são muito baixos e, nos últimos tempos, tivemos uma liberação absurda de produtos, além de uma nova normatização para classificação e rotulagem de agrotóxicos. Socialmente, o País está perdendo. Estamos no caminho contrário do resto do mundo”, diz Meirelles.

3 perguntas para Leonardo Fernandes Fraceto, professor da Unesp de Sorocaba

1. O que aconteceria se o uso dessas dez substâncias testadas pelo Instituto Butantã fosse proibido? 

Não é possível banir esses dez produtos. A minha visão é que não há como produzir alimentos para suprir o que o mundo precisa sem usar moléculas e formas de controle de pragas. A questão é a toxicidade relacionada à concentração usada e o tempo de exposição.

2. A concentração e o tempo de exposição não são levados em conta?

Teoricamente, se as indicações de uso forem seguidas, não deveria haver problemas. Mas a questão é que está trazendo problemas. Temos resíduos, contaminação da água, uso maior do que o devido, enfim…

3. E qual seria a solução?

Acho que o grande erro da agricultura hoje é querer solução única, uma bala de prata. Não vejo como resolver esse problema com uma única solução. Tem de haver uma combinação de estratégias. Porque existem muitas estratégias: controle biológico de pragas, moléculas sintéticas, pesticidas de origem natural, óleos essenciais, formas de manejo de culturas, formas de monitoramento de plantações para checar os níveis de infestação. É preciso fazer associações, ter opções mais inteligentes do que pulverizar uma única substância em concentrações maiores que as recomendadas. Ou vamos continuar a ter problemas. 

Ministério e Anvisa afirmam não ter visto dados

O Ministério da Saúde confirmou que “encomendou a pesquisa à Fiocruz no fim de 2017”, mas destacou que não recebeu o estudo. “No que cabe ao tema dos agrotóxicos, o levantamento teve início em 2019 e, por isso, a pasta ainda não tem como compartilhar nem comentar os resultados.”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que também não recebeu a pesquisa e, por isso, não seria possível “avaliar suas conclusões ou o peso das evidências”.

A agência esclareceu, no entanto, que acompanha todos os dados novos sobre produtos agrotóxicos e as novas evidências científicas são avaliadas. “Os produtos agrotóxicos são submetidos a um processo de reavaliação que consiste na revisão dos parâmetros de segurança à luz de novos dados e conhecimentos”, informou.

O órgão federal lembrou que esse procedimento é necessário porque, diferentemente do que acontece com outros produtos, o registro dos defensivos agrícolas não tem tempo de validade. A Anvisa informou ainda que, dos dez produtos citados, o carbofurano foi reavaliado em 2017 e está proibido. Disse ainda que o glifosato está em processo de reavaliação.

Para lembrar

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou este ano 290 agrotóxicos. Pelo ritmo das liberações, a tendência é de que seja batido o recorde de 2018, quando o governo de Michel Temer autorizou a comercialização de 450 substâncias. A maioria não é propriamente de novos produtos, mas sim de novas formulações para substâncias anteriormente liberadas, diz a Anvisa.

Embora aprovadas pelas regras brasileiras e consideradas seguras quando manuseadas corretamente e nas doses indicadas, muitas são proibidas nos EUA e na Europa. Mês passado, a Anvisa também fez reclassificação e mudou a rotulagem. Segundo a agência, essa decisão visa a seguir um padrão internacional. Porém, como alertaram cientistas, a nova classificação reduz significativamente o número de defensivos categorizados como “extremamente tóxicos”.

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Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal “Estadão” [Aqui!].

“The Intercept Brasil” circula íntegra de relatório engavetado pelo governo Bolsonaro sobre uso de drogas no Brasil

Publicamos pela primeira vez o estudo sobre drogas que o governo escondeu

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Por Tatiana Dias e  Ines Garçoni para o “The Intercept Brasil”

HÁ DOIS MESES, o Intercept e a Casa da Democracia revelaram que o governo esconde desde 2017 o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, pesquisa nacional que investigou o consumo de substâncias lícitas e ilícitas por brasileiros. O estudo, feito pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, foi o maior já feito sobre o tema – foram ouvidas 16.273 pessoas em 351 cidades – e custou aos cofres públicos mais de R$ 7 milhões.

Mas a Secretaria Nacional de Política de Drogas, a Senad, órgão do Ministério da Justiça responsável por encomendar a pesquisa, decidiu engavetá-la. A alegação oficial é que ela tem problemas metodológicos. Mas, segundo especialistas, o embargo tem outra razão: o resultado contrariou o governo. Conforme o Intercept divulgou em abril, o levantamento mostrou, por exemplo, que só 0,9% da população usou crack alguma vez na vida – um número que está longe do que o governo alardeia como “epidemia”.

O atual ministro da Cidadania, Osmar Terra, foi um dos responsáveis por embargar o levantamento. Em entrevista nesta semana, ele disse que “não confia” no estudo e que a Fiocruz tem “viés de defender a liberação das drogas. As declarações do ministro fizeram com que o assunto chegasse até ao Jornal Nacional, que divulgou alguns dos resultados publicados há dois meses pelo Intercept (sem os créditos, mas essa é outra história).

Em abril, logo depois que publicamos os resultados da pesquisa, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, autorizou a divulgação do relatório – desde que ele não fosse associado à Senad, do Ministério da Justiça. O governo exige que a Fiocruz devolva os R$ 7 milhões da pesquisa, alegando que ela não cumpriu o edital. A Fiocruz diz que cumpriu e, neste momento, o caso está sendo avaliado pela Advocacia Geral da União.

Em abril, quando publicamos a história pela primeira vez, avaliamos que divulgar o documento na íntegra poderia colocar em risco os objetivos da pesquisa e contribuir para que o levantamento fosse definitivamente engavetado pelo governo. Por causa dos últimos acontecimentos, no entanto, decidimos que é interesse público divulgar, na íntegra, o que o estudo mostrou.

Leia o relatório completo:

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Esta matéria foi originalmente publicada pelo site “The Intercept Brasil” [Aqui!]

Convite: lançamento do documentário “RIO OU VALÃO” no Museu da Vida (FIOCRUZ)

Convite: lançamento do documentário “RIO OU VALÃO” no dia 3 de Outubro no Museu da Vida (FIOCRUZ) de 13 às 17h.

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Em que condições as populações servidas pelas sub-bacias da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e outras igualmente degradadas, encontram a água para uso? Degradação, iniquidades socioambientais, e o [urgente] acesso universal à água são alguns dos temas problematizados pelo documentário É Rio ou Valão?, produzido pela VídeoSaúde Distribuidora (ICICT/Fiocruz). O filme será lançado na próxima terça-feira (3/10), no auditório do Museu da Vida, no Campus Fiocruz Manguinhos, das 13h às 17h. O evento é aberto ao público.

O filme, que tem caráter educativo, foi financiado com recursos do edital Capes-ANA e produzido com jovens estudantes da rede pública estadual de ensino do Rio de Janeiro. Desenvolvido por iniciativa do Observatório da Sub Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, com apoio da Cooperação Social da Presidência da Fundação, o documentário aborda a questão dos usos e acessos aos recursos hídricos em territórios vulnerabilizados social e ambientalmente.

É Rio ou Valão? foi viabilizado por meio da parceria com a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz), Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), e a ONG Verdejar Socioambiental.

Como parte da programação de lançamento, será exibida a peça Vamos Verdejar do Ponto de Cultura Luiz Poeta Verdejar, além da exibição do documentário, debate com os produtores do filme, e sessão musical temática. As inscrições podem ser feitas no local.

Realização: Observatório da Sub-bacia Hidrográfica do Canal do Cunha

Rio de Janeiro também terá Marcha Pela Ciência

CIENCIA

“Seria muito importante que atividades similares, ligadas à Marcha pela Ciência, ocorressem por todo o País, nos diversos estados e nas instituições de pesquisa e ensino”, dizem organizadores da mobilização no RJ, que conta com o apoio da SBPC

Além de São Paulo e Natal, a cidade do Rio de Janeiro anunciou que também realizará a “Marcha pela Ciência”, evento internacional que acontece no dia 22 de abril em mais de 300 cidades pelo mundo. Em reunião organizada pela Associação dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ADUFRJ), com apoio da SBPC e da Fiocruz, foi definido que, além da Marcha no dia 22/4, serão realizadas atividades complementares durante a semana, de 23 a 28 de abril. “Seria muito importante que atividades similares, ligadas à Marcha pela Ciência, ocorressem por todo o País nos diversos estados e nas instituições de pesquisa e ensino”, dizem os organizadores da mobilização do Rio. “Convidamos todas as pessoas interessadas, bem como as entidades científicas, educacionais e demais setores da sociedade civil a se juntarem a este movimento”, acrescentam.

Além de destacar a integração desta ação com a Marcha pela Ciência internacional e seus propósitos, a atividade terá o mote “Conhecimento sem cortes”, com o objetivo de denunciar e criticar os enormes cortes que ocorreram nos recursos para C&T (no País e no Rio de Janeiro), e também em outras áreas como educação, meio ambiente, cultura etc. “Utilizaremos tesouras, pequenas e grandes (de papelão), para simbolizar os cortes (organizando um ‘tesouraço’) e, ao final da atividade, as tesouras serão descartadas em um grande recipiente”, contam.

No dia 22/04, sábado, será realizada uma atividade pública, às 10h, em frente do Museu Nacional (na Quinta da Boa Vista), um prédio simbólico da ciência no Brasil.

A intenção é que sejam realizadas, ainda, atividades ao longo da semana (de 23/4 a 27/4) em instituições de pesquisa, como a Fiocruz e as unidades do MCTI no Rio de Janeiro, e em universidades, como a UERJ, a UFF, a UFRJ e a Unirio. Elas serão organizadas por cada instituição, convergindo para uma participação integrada, no dia 28/4, nas atividades do movimento nacional contra os cortes e o desmonte das políticas sociais.

Os organizadores pretendem, em todas as atividades, utilizar o símbolo comum da Marcha pela Ciência no Brasil, assim como a palavra de ordem “Conhecimento sem cortes”. Um folder explicativo sobre a Marcha pela Ciência no Brasil e os impactos dos cortes do governo será distribuído nestas atividades. A ADUFRJ dará apoio logístico ao ato do dia 22, na produção de faixas, cartazes e material de divulgação, que poderão também ser usados nos outros atos, caso seja do interesse das instituições.

“Uma sugestão que pode ser facilmente replicada em outras cidades do País, gerando uma unidade que pode render boas imagens de divulgação, é escolher um prédio simbólico da ciência no Brasil (ou na região), como será feito no Rio de Janeiro, e realizar uma atividade que utilize as tesouras e a palavra de ordem comum ‘Conhecimento sem Cortes’”, sugerem os organizadores cariocas.

No Brasil, juntamente ao Rio de Janeiro, a marcha acontece no dia 22 de abril em São Paulo, partindo às 14h do Largo da Batata, e em Natal (RN), com concentração na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Todas as atividades da Marcha pela Ciência no Brasil, os contatos dos organizadores nas diversas instituições e cidades e outras informações estarão sendo noticiadas no grupo do Facebook Marcha pela Ciência no Brasil”. “É importante que todos o utilizem para divulgar as atividades em sua região”, solicita a comissão organizadora da manifestação.

SBPC convoca toda a comunidade científica

Na última quinta-feira (30/3), a SBPC divulgou uma carta de sua presidente, Helena Nader, convocando toda a comunidade científica a participar da Marcha. Na carta, Nader reitera que este é um evento mundial, que tem como objetivo chamar a atenção de estudantes, professores, cientistas e pesquisadores, governantes e tomadores de decisão, bom como toda a sociedade, sobre a necessidade de apoiar e preservar as instituições e a comunidade científica de todo o planeta.

“Esse apoio torna-se fundamental em um momento em que a atividade científica para o bem de todos sofre várias ameaças, como mudanças em políticas públicas, redução e desvio de verbas e financiamentos públicos, partidarização política da ciência e, o que mais assusta, a tomada de decisões políticas que não levam em consideração as evidências científicas”, destaca Nader, na carta.

“Esperamos, ainda, que as sociedades científicas também convidem seus associados e amigos a participar do evento, que deverá dar início a um grande movimento planetário pela ciência como um bem comum de toda a humanidade”, conclui.

Organizada por cientistas e entusiastas que reivindicam maior reconhecimento da sociedade e dos governantes, a mobilização teve início nos Estados Unidos e já ultrapassa a marca de 300 marchas satélites em diversos países, envolvendo instituições de ponta em ciência e educação.

Jornal da Ciência

FONTE: http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/1-rio-de-janeiro-tambem-tera-marcha-pela-ciencia-no-brasil/

Marketing acadêmico: edição da RADIS trata dos aspectos obscuros da realização dos megaeventos esportivos

 

cidade espetáculo

O outro lado da Cidade-Espetáculo: Na semana em que começam os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, a revista Radis Comunicação e Saúde, que é publicada pela Fiocruz, discute o que não se vê por trás dos projetos atrelados aos megaeventos e como isso afeta os direitos, a vida urbana e a saúde das pessoas.

Também nesta edição: a saúde dos atletas de alto rendimento; o mito do “rombo” da Previdência Social; os perigos do benzeno para a saúde e o meio ambiente e uma entrevista com Akira Homma, um dos maiores especialistas em imunização no país.

Acesse já a revista completa em http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/

Debates online do CEE da Fiocruz abordará os ciclos da esquerda e da direita na América Latina

debates online

A América Latina e seus caminhos, após o giro à esquerda empreendido no começo dos anos 2000, estará em foco no próximo debate online da série Futuros do Brasil, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz. Em torno do tema Futuros da América Latina: os ciclos da esquerda e da direita, estarão reunidos os professores Carlos Eduardo Martins, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Ifics/UFRJ) e José Maurício Domingues, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Iesp/Uerj), pesquisador associado do CEE-Fiocruz. O debate, realizado em parceria com o Centro de Relações Internacionais da Fiocruz (Cris/Fiocruz), será no dia 21/6/2016, das 14h às 16h. Para participar, basta conectar-se por computador, tablet ou celular, ao blog do CEE-Fiocruz (cee.fiocruz).  

Investimento em políticas sociais e busca de novas relações internacionais marcaram o cenário do continente a partir dos primeiros anos deste século. É possível, no entanto, que esse ciclo tenha se concluído, com a vitória de Mauricio Macri, na Argentina, o afastamento, mesmo não definitivo, de Dilma Rousseff, as dificuldades de Rafael Correa, no Equador, e a crise aguda do chavismo na Venezuela – ainda que o Movimiento al Socialismo (MAS) e seu líder, Evo Morales, na Bolívia, Michelle Bachelet e sua coalizão de centro-esquerda, no Chile, e Tabaré Vázquez e a Frente Ampla, no Uruguai, mantenham-se no poder.

Ao mesmo tempo, o fim negociado da longa guerrilha colombiana, com o acordo de paz entre o governo do país e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após mais de 50 anos de combates, desenha outras possibilidades. E, ainda, no México, segue o domínio da centro-direita, mas mantém-se forte a opção eleitoral de centro-esquerda.

Pode-se falar em um giro à direita ou trata-se de um momento de recuo temporário das esquerdas latino-americanas? Ou, ainda, de situação mais complexa, trazida pelo fortalecimento da democracia na região? Essas e outras questões orientarão o debate.

Qualquer pessoa pode participar, assistindo em tempo real e enviando perguntas aos palestrantes.

Conecte-se e participe!

Debates Online CEE-Fiocruz – Futuros do Brasil
América Latina: os ciclos à direita e à esquerda
Data: 21 de julho de 2016
Horário: 14h às 16h
Transmissão pelo blog do CEE-Fiocruz: cee.fiocruz.br
Informações
21 3882-9133
cee@fiocruz.br

FONTE: http://cee.fiocruz.br/?q=node/194

Seminário sobre o rompimento da barragem de Fundão acontece em Mariana (MG)

Foto de divulgação do evento

Fonte: CPqRR / Fiocruz MG

Nos dias 5 e 6 de maio, será realizado na cidade de Mariana (MG) o seminário O Desastre da Samarco: Balanço de Seis Meses de Impactos e Ações. O objetivo do evento é realizar um balanço dos primeiros seis meses dos impactos e das ações relativos ao desastre, envolvendo instituições de ensino e pesquisa; órgãos do governo; organizações da sociedade e movimentos sociais.

O rompimento da barragem de Fundão da empresa Samarco, localizado no município de Mariana (MG), resultou no maior desastre deste tipo e em danos humanos e ambientais inestimáveis, atingindo dezenas de municípios em dois estados (MG e ES) e milhões de pessoas, com efeitos que irão se prolongar ao longo do tempo.

A ficha de inscrição e a programação completa do seminário estão disponíveis no site da Fiocruz Minas.

Serviço

Seminário O Desastre da Samarco: Balanço de Seis Meses de Impactos e Ações
Local: Hotel Providência; Rua Dom Silvério, 233 – Centro – Mariana – MG
Data: 5 e 6 de maio de 2016

Organização: Fiocruz; Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNISDR); Rede de Pesquisadores em Redução do Risco de Desastres no Brasil (RP-RRD-BR); PoEMAS/UFJF; GEPSA/UFOP; GESTA/UFMG; UDESC

Mais informações: inscricao.desastre@cpqrr.fiocruz.br

FONTE: http://portal.fiocruz.br/pt-br/content/seminario-sobre-o-rompimento-da-barragem-de-fundao-acontece-em-mariana-mg

Crianças estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos no Brasil

Dados inéditos da USP indicam que entre 2007 e 2014 foram notificadas 2.150 intoxicações somente na faixa etária de 0 a 14 anos de idade; número pode ser 50 vezes maior

Por Cida de Oliveira

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Adoecimento: é comum a pulverização de veneno sem equipamento de proteção

São Paulo – Crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos. Um estudo do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que entre 2007 e 2014 foram notificadas em todo o país 2.150 intoxicações somente na faixa etária entre 0 e 14 anos de idade. O dado, alarmante, não reflete o real, que pode ser 50 vezes maior. Isso porque de cada 50 casos de intoxicação por esses venenos, apenas um é notificado no serviço de saúde.

Os dados, inéditos, foram apresentados pela professora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) durante o seminário Impacto dos Agrotóxicos na Vida e no Trabalho, realizado quarta-feira (2) na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

Promovido pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, entre outros parceiros que lutam pelo banimento agrotóxicos e das sementes transgênicas no Brasil, o evento integra a programação da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que está divulgando a atualização de seu Dossiê Impactos dos Agrotóxicos na Saúde.

Estudiosa do tema, a professora conta que só entre 1999 e 2009, o Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que foram registradas 62 mil intoxicações por agrotóxicos no país.

“São 5.600 intoxicações por ano, 15,5 por dia, uma a cada 90 minutos. Nesse período houve 25 mil tentativas de suicídio com uso de agrotóxico. O dado é alarmante, representando 2.300 casos por ano. São seis por dia”, afirma Larissa, reforçando para o fato que o dado pode ser 50 vezes maior.

Para o presidente do Consórcio de Segurança Alimentar do Sudoeste Paulista e dirigente da Federação da Agricultura Familiar de São Paulo, José Vicente Felizardo, as crianças sempre estiveram expostas a esses venenos no campo, principalmente na plantação de tomates, que predomina em sua região. Ele conta que até o ano 2000 a contaminação na faixa etária entre 5 e 14 anos ocorria durante o trabalho, quando essas crianças manuseavam agrotóxicos, “temperando a calda” – fazendo a diluição. “Eram comuns mortes de crianças”, conta.

Conforme ele, as denúncias não surtiam efeito. Até que em 2000 uma criança de 5 anos morreu depois de beber agrotóxico. “Ela estava na roça com a mãe. Bebeu agrotóxico. Conseguimos mobilizar a imprensa, mostrando as embalagens. Desde então, a coisa começou a caminhar.”

No entanto, pouca coisa mudou. Segundo Felizardo, crianças pequenas ainda são levadas às roças de tomate pelas mães. “Elas ficam dormindo na sombra enquanto a mãe trabalha. E na hora de pulverizar, a criança é pulverizada junto. Por isso, os números não surpreendem.”

Os venenos afetam também a saúde dos mais velhos. Conforme Felizardo, nos acampamentos de tomate é comum os trabalhadores, ainda adolescentes, desenvolverem depressão e alcoolismo. “Não são raras as tentativas de suicídio, todas sem registro. Na região de Jaú, se a gente ver as pessoas que estão fazendo tratamento de câncer, a maioria está exposta aos agrotóxicos”, conta Felizardo.

O dirigente chama ainda a atenção para o assédio, desleal, da indústria do veneno. Em sua região há poucos técnicos. “Se reunir todos os agrônomos do poder público, temos em torno de 40 técnicos para assistência técnica. Uma empresa na cidade vizinha tem, sozinha, 36 agrônomos, cada um com um carro, que sai a cada propriedade vendendo os agrotóxicos. E a cada 15 dias fazem palestra, faz churrasco e bebida e chama os agricultores para fazer propaganda. É muito diferente a atenção. É desleal.”

Desde 2009, o Brasil lidera o consumo mundial desses venenos, utilizando sobre suas lavouras um quinto de todo o agrotóxico produzido no mundo. Tamanho consumo está provocando uma verdadeira epidemia, silenciosa e violenta, colocando em risco a vida e saúde dos camponeses, trabalhadores rurais e seus familiares, em contato direto com o produto, e a população da cidade, que consume alimentos cada vez mais encharcados.

Debate na OAB/RJ: Palestrantes denunciam atentados e irregularidades na Baía de Guanabara

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Irregularidades das indústrias em torno da Baía de Guanabara, como o refino de petróleo que seria praticado pela Petrobrás, a ligação da Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e a demarcação, por parte das petrolíferas, de áreas de exclusão aos pescadores artesanais sem nenhum controle foram algumas das denúncias feitas nesta quinta-feira, 9, em evento na sede da Seccional, por parte da Comissão de Direitos Humanos (CDHAJ) da casa, da Associação Homens do Mar na Baía de Guanabara (Ahomar), do analista ambiental do Instituto Chico Mendes Breno Herrera e do pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Alexandre Pessoa.

 Segundo os relatos, a segurança privada contratada por empresas próximas à Baía age de forma abusiva no controle dessas áreas de exclusão, que seriam impostas arbitrariamente. “Eles atiram em quem inadvertidamente entra em área de exclusão, quando poderia ser usado outro tipo de advertência. As empresas de segurança têm que cumprir seu papel legal. Não podem agir como polícia ou pior, como capangas, como capitães do mato. Isso é inadmissível”, frisou o presidente da CDHAJ Marcelo Chalréo.

Ele ainda frisou que as áreas são demarcadas na maioria das vezes de forma clandestina: “As áreas de exclusão são colocadas além do que é determinado pela Marinha, que são a 100 metros do local de funcionamento da indústria. E eles colocam em muitos casos de 200 a 300 metros, além de determinarem áreas aleatoriamente, em posições não oficiais”.

De acordo com o presidente da Ahomar, Alexandre Anderson, que representou os pescadores, não há como os trabalhadores saberem os locais permitidos para a pesca. “Se não houver uma intervenção de lideranças, pesquisando previamente com a Marinha esses locais de proibição, os pescadores ficam sem saber aonde podem entrar. O que acontece é que, ou são presos ilegalmente por essas firmas de segurança privada ou levam tiros dos mesmos”.

Na ocasião, foi projetado um vídeo, realizado pela antropóloga e mídia ativista Raffaella Moreira em parceria com a comissão, que contém registros dos atentados e depoimentos dos pescadores e dos especialistas presentes na palestra. “Esse vídeo será encaminhado às entidades competentes com pedidos de providência em relação a essas denúncias”, afirmou Chalréo.

Além da perda de espaço no trabalho dos pescadores, o evento tratou também do progressivo aumento da degradação ambiental na região: “Isso se dá pela poluição industrial e orgânica, simultâneas ao estabelecimento de grandes indústrias no entorno da Baía”, explicou o analista ambiental Breno Herrera, citando a ampliação do Complexo Petroquímico de Duque de Caxias, o assentamento de dutos para transporte de gás natural e a construção do Comperj.

Porém, o pesquisador Alexandre Pessoa ressaltou a amplitude da discussão: “Não se trata de um assunto puramente ambiental, porque não estamos falando da extinção de uma determinada espécie de peixe, mas da vulnerabilidade de todo o território e dos impactos à saúde ambiental de todo esse território”.

 Segundo Chalréo, a Ordem trabalhará no apoio a iniciativas para que se diminua os riscos. “A grande indústria está se estabelecendo em áreas com populações tradicionais e esse estabelecimento é muito agressivo. O que buscamos é que as empresas permitam pelo menos uma possibilidade mínima de convivência com os pescadores artesanais, a comunidade que vive no entorno da Baía”.

FONTE: http://www.oabrj.org.br/noticia/90575-palestrantes-denunciam-atentados-e-irregularidades-na-baia-de-guanabara

Relatório da Fiocruz reafirma correlação entre material expelido pela TKCSA e impactos na saúde

*Por: Marina Lemle

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Três anos depois do primeiro relatório da Fiocruz sobre os impactos socioambientais e de saúde decorrentes da instalação e operação da empresa ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, a Fundação elaborou um novo relatório,, com uma análise atualizada dos problemas. Produzido por um Grupo de Trabalho da Fiocruz instituído em 2011 e formado por especialistas de diferentes áreas e unidades, o documento complementa o anterior, feito por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) e da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), ambas da Fiocruz.

O relatório reafirma existir correlação entre a exposição ao material particulado expelido pela siderúrgica e impactos agudos na saúde dos moradores, em especial com problemas respiratórios, dermatológicos e oftalmológicos observados pouco tempo após o contato com a fuligem. Registros de queixas de moradores em diferentes momentos, achados clínicos e estudos realizados pelo grupo de trabalho da Secretaria de Estado do Ambiente (GT SEA/RJ) indicam tanto o surgimento de novos casos de doenças como o agravamento de quadros clínicos preexistentes. No conjunto de informações disponíveis, há coerência entre várias evidências e estudos.

O problema pode ser considerado de especial relevância devido ao elevado potencial poluidor de uma usina siderúrgica para a produção de aço bruto para exportação industrial. A fábrica está localizada no bairro de Santa Cruz, Rio de Janeiro, junto à Bacia Hidrográfica da Baía de Sepetiba. Essa bacia hidrográfica apresenta um histórico de vulnerabilidade socioambiental pela falta de políticas públicas e pela implantação de empreendimentos altamente poluidores e de graves impactos socioambientais.

Desde a fase de licenciamento da TKCSA, passando pelo início da operação, em junho de 2010, até hoje, o empreendimento vem sendo alvo de denúncias e controvérsias. Durante a construção, houve grandes impactos no entorno. Alterações nos ecossistemas marinhos degradam as condições de trabalho e vida dos pescadores artesanais da região, vulnerabilizando-os. E, finalmente, os diversos episódios agudos de poluição atmosférica afetaram os moradores da região, que apresentaram diversos sintomas. Desde o início deste processo, movimentos comunitários e sociais locais, nacionais e internacionais vêm demandando aos pesquisadores da Fiocruz diagnósticos e propostas para lidar com o problema.

Território de alta vulnerabilidade

Um estudo epidemiológico evolutivo das condições de saúde realizado a partir de dados secundários de sistemas de informação em saúde de 2000 a 2011 na área de influência da TKCSA (bairros Paciência, Santa Cruz e Sepetiba, no Rio de Janeiro, e o município de Itaguaí) mostra a evolução de eventos ligados às doenças do apare­lho circulatório, do aparelho respiratório, causas externas e mortalidade infantil que podem ter relação com a chegada e entrada em operação da siderúrgica. No relatório, a Fiocruz se contrapõe à posição defendida e veiculada pela TKCSA de que o material particulado seja grafite e possa ser considerado um componente atóxico.

”A posição dos pesquisadores da Fiocruz, em consonância com a literatura científica internacional, é a de que a exposição a qualquer tipo de material particulado é potencialmente geradora de problemas de saúde. Temos a convicção de que os empreendimentos siderúrgicos têm forte relação com problemas ambientais e de saúde historicamente definidos, e que não há nenhuma evidência de melhor condição no caso em tela, ao contrário. Trata-se de um território de alta vulnerabilidade e, do ponto de vista da saúde ambiental e dos trabalhadores, medidas de proteção, de mitigação e controle devem ser explicitadas em seu real dimensionamento”, diz o texto.

De acordo com o documento, a poluição atmosférica gerada pela TKCSA não se restringiu aos eventos críticos que foram objetos de multas pelo órgão ambiental estadual (Inea), considerados acidentes ambientais ampliados. As não conformidades registradas no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) indicaram a necessidade de um melhor monitoramento das emissões gasosas, além do material particulado, e revelaram que a poluição não se limitou ao ar, sendo identificada também na água e no solo.

O relatório ainda chama atenção para a ocorrência de doenças endêmicas na região (dengue, tuberculose e hanseníase), o que revela condições de vida precárias, agravadas com a chegada de uma empresa poluidora. Dentro desta adversidade, identifica-se a dificuldade de acesso ou insuficiência das ações e serviços de saúde para controlar essas doenças.

Dificuldades para o acesso a informações

Segundo o GT Fiocruz, o caso da TKCSA pode ser considerado emblemático e complexo por diversas razões. Desde o início envolve políticas e ações dos níveis federal, estadual e municipal, além de diversos setores de governo, como o meio ambiente, saúde, infraestrutura urbana e desenvolvimento econômico, com desafios e conflitos relacionados à interação e responsabilidades das várias instâncias e instituições, em especial no tocante à proteção do meio ambiente e da saúde da população em geral e dos trabalhadores.

“Existem, desde a fase de licenciamento, dificuldades para a produção, disponibilização e acesso de informações sobre o empreendimento e seus impactos socioambientais e à saúde, bem como uma sistemática ausência de informações e fragilidade das ações do SUS. Tal situação é evidenciada pela necessidade de uma auditoria da saúde sobre o empreendimento, que até o presente momento não foi realizada”, registra o texto.

Outra dimensão do caso é o elevado nível de conflitos, evidenciado pelas diversas ações do Ministério Público e da Defensoria Pública, que culminaram em ações civis públicas por crime ambiental contra a empresa, e que contou com o depoimento de pesquisadores da Fiocruz durante o processo judicial; pela criação e atuação de uma Comissão Especial da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), que publicou em diário oficial o relatório sobre as possíveis irregularidades e imprevidências do Governo do Estado do RJ e do Instituto Estadual do Ambiente – INEA, no processo de concessão de licenciamento ambiental da TKCSA, que aponta para diversas irregularidades e recomenda a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso; pelo fato de dois trabalhadores da Fiocruz terem sido processados judicialmente pela empresa após terem se pronunciado publicamente acerca dos possíveis danos à saúde e ao ambiente provocados pelo empreendimento, fato posteriormente suspenso após intensa mobilização social e institucional.

A Fiocruz afirma, no documento, ter convicção de que a colaboração mútua e o fortalecimento das relações interinstitucionais com órgãos de saúde e ambientais levarão a ações e resultados que possibilitem a redução das vulnerabilidades socioambientais, a implementação de vigilância e atenção integral à saúde de populações expostas em situações complexas de risco e a adequação de empreendimentos de alto impacto ambiental e sanitário, como no caso das plantas siderúrgicas integradas.

* Agência Fiocruz de Notícias

FONTE: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/36917