Flores (agro) tóxicas: sem limite de agrotóxico, cultivo de flores põe em risco saúde de produtores e clientes

Produção de flores ornamentais não é monitorada quanto à aplicação correta de agrotóxicos e dispensa análise de resíduos químicos no produto final; falta de normas leva ao uso excessivo de pesticidas, segundo pesquisadores 

Mercado de flores ornamentais não passa por controle de resíduos de agrotóxicos no mercado, o que é visto como um risco à saúde (Ilustração: Rodrigo Bento/Repórter Brasil) young beautiful couple happy man and woman with bouquet of flowers smiling cheerfully embracing happy in love celebrating international women's day march 8 standing over orange background

Por Adriana Amâncio | Edição Diego Junqueira para “Repórter Brasil”

Quem visita uma unidade de produção de plantas ornamentais, como as usadas em festas de casamento, pode se deparar com impressões conflitantes. Por um lado, a inegável beleza das flores. Por outro, o forte cheiro dos agrotóxicos — responsáveis por náusea e dores de cabeça em quem lida diariamente com a atividade. 

Em 2024, o setor empregou 265 mil trabalhadores e movimentou mais de R$ 21 bilhões. Apesar da escala, o cultivo de plantas ornamentais não é monitorado em relação à aplicação correta de agrotóxicos e está sujeito a regras mais brandas que as exigidas nas lavouras de alimentos. 

Órgãos competentes, como Anvisa e Ministério da Agricultura, não estabelecem, por exemplo, limites de segurança de resíduos dessas substâncias para o cultivo desse tipo de planta. Estudos recentes, porém, têm mostrado que a falta de normas e de fiscalização coloca em risco não só a saúde dos trabalhadores, mas também a dos clientes. 

“Já tive dor de cabeça, enjoo, tontura. Mesmo com o EPI [equipamento de proteção individual], a gente sente”, conta um produtor de Nova Friburgo (RJ), um dos polos de produção no país, que prefere não se identificar. 

Aos 27 anos, o produtor mantém um hectare de flores como boca-de-leão, áster mariana e tango, comumente usadas em buquês, arranjos e decoração de eventos.

Com poucos agrotóxicos com aplicação indicada para esses tipos de flores, o agricultor recorre a produtos de outras culturas. É o caso do Verango, fabricado pela Bayer e recomendado para frutas, grãos e legumes.

O fungicida é um dos mais usados pelo produtor, cujo trabalho é em boa parte manual. “A aplicação é feita com um jato conectado a um motor, que suga a mistura de agrotóxico com água direto da bomba até a copa das flores”, descreve.

Ele aplica 1 litro por hectare. Essa é a dose máxima indicada na bula do Verango para a maioria das frutas, mas está acima do prescrito para culturas como algodão e soja. Como o produto não é indicado para flores, o floricultor de Nova Friburgo (RJ) não conta com nenhuma orientação precisa sobre a forma correta de uso do Verango.

“Eu aplico semanalmente, sempre às sextas, e realizo a colheita nas segundas. Tem produtor que pulveriza, já colhe e leva para o consumidor final”, conta. Em dias de pouca ventilação, as gotículas de agrotóxico não se disseminam bem e formam “uma névoa branca sobre as flores que demora a sair”, detalha o produtor. 

A bula do Verango recomenda para algumas frutas o intervalo de segurança de três dias entre a última aplicação e a colheita. No caso do tomate, o período de carência é de 30 dias. Como não há indicação para flores, o produto sequer foi testado para plantas ornamentais.

A falta de opções de agrotóxicos para esse tipo de atividade é explicada pelo fato de as flores integrarem a categoria de Cultura com Suporte Fitossanitário Insuficiente (CSFI), explica o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Robson Barizon. Trata-se de um grupo de cultivos para o qual há poucos agrotóxicos registrados pelas indústrias, por serem considerados de pequeno porte. 

“As indústrias priorizam produtos destinados a culturas maiores, com maior retorno financeiro”, afirma Barizon. Com isso, os agricultores acabam recorrendo a produtos registrados para outras lavouras, como a soja. A praga pode até ser a mesma que afeta as flores, explica o pesquisador, mas as diretrizes de segurança não foram testadas para a espécie.

O uso irregular de agrotóxicos revela também falhas na fiscalização pelo poder público, afirma Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e ex-gerente da área de toxicologia da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“Os agrotóxicos só podem ser vendidos com receitas agronômicas. Se o agrônomo sabe que o produtor está comprando um produto sem registro para usar em flores, ele precisa ser responsabilizado. Se o agricultor adquire um agrotóxico sem receita, a fiscalização precisa atentar para isso”, resume.

Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)
Cultivo de flores faz parte do grupo de culturas com poucos agrotóxicos disponíveis no mercado por desinteresse da indústria (Foto: Arquivo pessoal)

Setor não monitora limites de agrotóxicos no produto final

Apesar do número insuficiente de agrotóxicos, o cultivo de flores deveria ter regras mais claras para o uso dos químicos, de acordo com especialistas consultados pela Repórter Brasil. 

O setor deveria, por exemplo, passar por controle de resíduos de agrotóxicos no produto final. Mas como se trata de um item “não alimentar”, a legislação dispensa a definição do LMR (Limite Máximo de Resíduo).

Esse parâmetro define a quantidade máxima aceitável de resíduos que pode ser encontrada em determinado produto. O objetivo é evitar a aplicação em excesso dos agrotóxicos e reduzir o risco de contaminação. “Se o produto final é analisado e têm uma quantidade acima do permitido, pode indicar que o produtor aplicou mais vezes do que o indicado ou colheu antes do prazo”, explica Barizon. 

A falta de limites de segurança é considerada “alarmante” pela cientista ambiental Patrícia Pereira, do Instituto de Biofísica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Cria muitos pontos nebulosos”, avalia.

“O produtor rural em campo está mais exposto à contaminação dérmica, pela pele. E o consumidor final também pode ter contato com os agrotóxicos residuais nas flores. Mas ninguém sabe a quantidade”, alerta Patrícia.

A pesquisadora é uma das autoras de um estudo publicado em 2021 sobre os riscos de exposição humana e contaminação ambiental na floricultura. A pesquisa concluiu que a falta de limites de agrotóxicos para as flores de uso ornamental pode levar ao uso excessivo de químicos no plantio.

O estudo fez uma revisão bibliográfica de pesquisas realizadas em várias partes do mundo e identificou 201 químicos adotados na produção de flores. Quase metade deles (94) é proibida na Europa, região com regras rigorosas para uso de agrotóxicos. Na Bélgica, um dos maiores produtores globais, resíduos tóxicos foram encontrados em amostras de flores e nas luvas usadas pelos trabalhadores.

Sobre o impacto à saúde, as pesquisas analisadas indicavam alterações no desenvolvimento neurocomportamental, disfunções endócrinas, distúrbios reprodutivos e malformações congênitas em trabalhadores e moradores de áreas produtivas. “No entanto, há pouca informação sobre a exposição por via oral e inalatória”, diz o estudo. 

Para a pesquisadora, o Brasil deveria definir limites de agrotóxicos no cultivo de ornamentais. “O LMR vai obrigar o registro adequado dos produtos para este tipo de cultura, criar parâmetros para coibir o uso excessivo e estabelecer o intervalo de segurança, evitando que o produtor defina esse prazo por conta própria”, explica.

“É fundamental estabelecer LMR específicos para o setor ornamental e criar incentivos para o registro de pesticidas adequados”, concorda o engenheiro agrônomo Márcio Godoi, pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, ligado à Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo). “Essas medidas são essenciais para garantir maior segurança ao consumidor, proteger o meio ambiente e promover uma produção de flores e plantas ornamentais mais sustentável”, afirma.

Um representante dos produtores ouvido pela reportagem reconhece os riscos na cadeia produtiva. “Temos poucos produtores associados, mas eles estão cientes que o uso de agrotóxicos é prejudicial à saúde. Mas sem agrotóxicos eles não conseguem colher um produto de qualidade”, diz Amauri Verly, presidente da Associação de produtores da Vargem Alta (Afloralta), de Nova Friburgo.

Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)
Nova Friburgo registrou 15 intoxicações exógenas por agrotóxico agrícola desde 2021, segundo o painel VSPEA. Em Holambra foram 11 casos oficiais, mas especialista apontam subnotificação (Foto: Arquivo Pessoal)

Uso de agrotóxicos potencialmente cancerígenos

Um dos motivos de preocupação é o fato de o setor usar agrotóxicos ligados a graves problemas de saúde, como o mancozebe e a abamectina, conforme contaram à Repórter Brasil produtores de Nova Friburgo e Holambra (SP), maior produtora nacional.

O mancozebe, ingrediente usado em produtos como o Ridomil, está associado a casos de câncer de tireoide. E a abamectina é investigada pela relação com infertilidade e baixa qualidade do sêmen.

A abamectina já passou por duas reavaliações da Anvisa, nos anos de 2008 e  2018. Na primeira, a Fiocruz emitiu uma nota técnica considerando que o produto provoca “toxicidade para o sistema nervoso, endócrino, reprodução e desenvolvimento”. Já em 2018, também optou-se por mantê-lo no mercado “com adoção de medidas de mitigação de riscos à saúde e necessidade de alterações no registro, monografia e bulas.”

O pesquisador da Fiocruz Luiz Cláudio Meirelles considera “perigoso destinar agrotóxicos carcinogênicos e com alta toxicidade para o cultivo de flores”. A solução mais viável, diz ele, seria os órgãos de registro priorizarem produtos biológicos, com baixa toxicidade. “Mais do que registrar, [é preciso] garantir o acesso, pois muitos agricultores sequer sabem que esses produtos existem e podem ser usados”, afirma.

“O cenário estufa, que é um ambiente fechado, aumenta os riscos [de contaminação] e precisa ser considerado para determinar medidas adequadas”, continua Meireles. 

Outro aspecto que levanta preocupação é a dependência do trabalho manual para o cultivo. Por se tratar de um produto sensível, isso ocorre em todas as etapas de produção, desde a colheita, pós colheita, embalagem e até a organização de arranjos e buquês. “É onde o funcionário da indústria floral tem o maior contato com esses produtos”, afirma o engenheiro agrônomo Márcio Godói, pesquisador da Esalq/USP.

“Essa exposição prolongada pode provocar a contaminação pela pele, que tem potencial de 10% de levar o agrotóxico à corrente sanguínea”, explica Godoi. “E as mãos, assim como a inalação, têm 100% de potencial de levar o produto à corrente sanguínea”, continua.

Mas os mais expostos são os produtores de flores, “pela demanda por aplicações sequenciais na alta temporada de vendas”, finaliza.

O que dizem Ibraflor e Anvisa?

Procurado pela Repórter Brasil, o Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura) afirmou que já existem no mercado opções de produtos registrados para as plantas ornamentais. “Além disso, muitos produtores não usam mais defensivos agrícolas e preferem optar por controle biológico”, diz a nota enviada à reportagem.

A Anvisa afirmou que “as flores não são consideradas culturas de uso alimentar e, de acordo com a legislação vigente, não são exigidos estudos de resíduos para tais culturas (RDC 4/2012, Art. 7º, § 4º).”

Ainda segundo o órgão, “as flores se enquadram no tipo de cultivo de plantas ornamentais, para o qual foi estabelecido regramento específico”, por meio de uma instrução normativa de 2019, assinada conjuntamente por Anvisa, Mapa e Ibama. “Este ato estabelece diretrizes para o registro de agrotóxico e afins destinados ao uso agrícola em cultivos de plantas ornamentais, bem como para inclusão desses usos em produtos já registrados”, diz a nota.


Fonte: Repórter Brasil

Escândalo na França: crianças doentes por exposição à agrotóxicos presentes em flores

A unidade de investigação da Rádio França e do Le Monde recolheu depoimentos dos pais de uma criança que morreu de leucemia, cuja mãe florista foi exposta a agrotóxicos durante a gravidez. Eles deploram a falta de regulamentação relativa à presença de pesticidas nas flores

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Por Radio France Internacional

Esta construção é um projeto que cinco de nós lançamos. Mas quando nos mudamos, restavam apenas quatro de nós .” Já faz quase um ano que Laure e François Marivain se mudaram para sua nova casa na região de Nantes, com seu filho de dezoito anos, Evan, e sua neta de nove, Perle. Uma nova história que se escreve com um vazio no meio, já que a irmã de Evan e Perle, Emmy, nunca poderá desfrutar do quarto cujo papel de parede floral escolheu. 

Emmy morreu em março de 2022, antes de comemorar seu décimo segundo aniversário. O fim de uma longa batalha contra a doença para ela, o início de outra para seus pais. Porque antes de morrer, Emmy fez a mãe prometer lutar para que “ todos saibam a verdade ”. Um momento “ atemporal ” para Laure. “ Ela me disse: ‘Mãe, você tem que lutar, porque não temos o direito de fazer isso com crianças. Não temos o direito de envenená-los . Então prometi a ele que faria tudo o que pudesse para provar a ligação entre a doença dele e meu trabalho como florista .”

Um vínculo que a jovem, há muito apaixonada pela profissão, levou anos para estabelecer. Quando engravidou de Emmy no final de 2009, Laure Marivain trabalhou como representante de flores para um atacadista , depois de vários anos em uma boutique, com uma florista artesã. Ela recebe os carrinhos de flores e folhagens, instalava as lixeiras nos armazéns, carregava todas as plantas em caminhões para entregá-las aos varejistas. Ela se considerava sortuda por trabalhar em contato com flores. Mas desde o início da gravidez, “ as coisas complicaram-se. Ganhei muito pouco peso e o meu bebê também ”. A jovem foi acompanhada de perto e rapidamente colocada em licença médica. O parto também foi difícil.

Placenta toda preta

Quando Emmy nasceu, ela não chorou. Ela estava toda roxa. O anestesista nos contou que tinha problema na placenta, que estava carbonizada, toda preta. E então seus resultados não foram bons. Uma parteira até me perguntou se eu havia tomado drogas durante a gravidez .” Mas Laure não usava drogas. Ela nunca fumou e não bebe álcool. Os únicos produtos tóxicos com os quais ela teve contato durante a gravidez estavam nas plantas que ela manuseava o dia todo, sem saber que poderiam representar risco à sua saúde e à do filho que carregava .

Na maternidade, Emmy acabou ganhando peso e foi deixada em casa. Ela cresceu, mas permaneceu em uma curva de crescimento baixa. “ Ela era uma menina dinâmica, sempre fazia o cata-vento ”, continua Laure. Mas aos três anos ela foi à escola pela primeira vez e começou a reclamar de dores, primeiro no cóccix, depois nos joelhos.”  A dor ósse a acordava à noite . A professora contou aos pais que Emmy estava adormecendo na aula e que estava sempre muito cansada. “ Nossa garotinha, que estava tão viva, estava morrendo .”

Em janeiro de 2015, Emmy foi examinada no pronto-socorro do Hospital Universitário de Nante : cintilografia óssea e radiografias. Naquela época, Laure já estava grávida de Perle. No final da tarde, ela estavadescansando em uma caixa quando o marido acompanhou Emmy para um exame final.   “Quando ele voltou, ele me disse: ‘É estranho, vi vários médicos chegando.’ E então começamos a pensar: uau, isso está ficando ruim”

flores agrotóxicos

Flores não tão inofensivas

Laure e François foram atendidos por um oncologista pediátrico. “Nem sabíamos o que significava oncologia. Mas nós entendemos isso muito rapidamente . Disseram-nos para esperar um câncer grave. Minha primeira reação foi perguntar aos médicos: como é possível ter câncer aos quatro anos? Acabaram de nos dizer: é assim, a culpa é do azar. Mas hoje sei que não tem nada a ver com azar”.

Poucos dias depois, o diagnóstico foi confirmado. Emmy sofria de leucemia linfoblástica aguda B. Uma longa luta então começou. Emmy era hospitalizada regularmente. Quimioterapia, operações, transplantes. Emmy estava perdendo o seu cabelo. Durante sete anos, ela lutou contra a doença e contra a dor, que nunca a abandonou.

Os períodos de remissão eram de curta duração. Cada vez que ela interrompeu o tratamento, Emmy teve uma recaída. Em 2018. 2019 e  2021 . “ Na época da terceira recaída dela, comecei a perguntar, a cavar, porque senti que não era normal e descobri que meu trabalho poderia ter causado o câncer de Emmy” . Laure conduz sua própria investigação, para tentar entender. Ela descobriu que as rosas que semeou, os buquês de frésias nos quais adorava mergulhar o nariz, as flores exóticas que manuseou depois de comer seu pain au chocolat matinal, todas essas flores que ela tanto amava, talvez não fossem tão inofensivas. .

43 agrotóxicos diferentes

“Comecei a buscar informações sobre as flores, sobre sua origem, a forma como eram tratadas ”, conta a mãe de Emmy. E descobri uma situação desanimadora. Percebi que em um buquê pode haver 43 agrotóxicos diferentes. Entendi que as flores eram assassinas invisíveis”.

Para a jovem, foi um choque. “ Ninguém nunca me contou que as flores com as quais trabalhei foram tratadas com produtos tóxicos, principalmente com agrotóxicos proibidos que podiam fazer mal à saúde. Como eu poderia ter imaginado uma coisa dessas? Ninguém nunca me disse para lavar as mãos quando estava comendo, coçando o rosto ou assoando o nariz. Para mim, quando algo é perigoso, avisamos, informamos!”

Laure entrou então em contato com  a associação Phytovictimes , descoberta através de suas pesquisas na internet. Esta associação, que ajuda pessoas que sofrem de doenças ligadas aos agrotóxicos, aconselhou os pais de Emmy a contactar o Fundo de Indemnização às Vítimas de Agrotóxicos (FIVP), criado em 2020 pela lei de financiamento da segurança social, para que fosse reconhecida a ligação entre a doença de Emmy e a doença. sua exposição pré-natal a agrotóxicos. Em fevereiro de 2022, depois de reunir todos os documentos necessários, Laure apresentou o processo ao Fundo, enquanto o estado de saúde da menina piorou consideravelmente. Emmy está hospitalizada com problemas respiratórios. Ela morreu em 12 de março de 2022, aos onze anos.

Emmy est décédée à 11 ans des suites d’une exposition prénatale aux pesticides.
Emmy morreu aos 11 anos de exposição pré-natal a agrotóxicos.  © Rádio França – Marie Dupin

Em julho de 2023, um gestor do fundo telefonou para Laure para lhe dizer que a comissão responsável pela análise do processo de Emmy, composta por investigadores e médicos, tinha tomado a sua decisão. “Ele me disse que eles haviam reconhecido por unanimidade a ligação causal entre a morte de Emmy e meu trabalho como florista. Naquele dia a culpa foi enorme. Eu disse para mim mesmo: como pude ser tão ingênua! Fui eu quem envenenou a minha filha. Essa criança que eu tanto queria, eu causei a perda dela. Explodi de raiva. Falei para o médico: mas é envenenamento! Você percebe o que estamos deixando acontecer! E ele disse: ‘Não posso te dizer o contrário’.”

Mais riscos para os floristas do que para os agricultores

É esse descaso que os pais de Emmy querem denunciar hoje, através do seu depoimento. Porque o problema dos resíduos de pesticidas nas flores cortadas já está bem documentado. Um estudo científico belga conseguiu assim demonstrar o risco incorrido pelos floristas. Este estudo demonstra que os floristas estão expostos a níveis de pesticidas muito acima dos níveis considerados seguros para os trabalhadores. Para provar isso, cientistas belgas colheram um total de 42 amostras de urina de profissionais e formaram um grupo de controle.

“Este não é um risco potencial. Este é um risco comprovado”, explica o professor Bruno Schiffers, professor honorário da Universidade de Liège, que liderou este estudo. “ Conseguimos comprovar que os agrotóxicos ultrapassaram a barreira da pele e entraram no corpo. O risco para os floristas é ainda maior do que o incorrido pelos agricultores, porque estão expostos a um cocktail de numerosos agrotóxicos, com um número muito elevado de substâncias em cada ramo, incluindo substâncias proibidas na Europa. Porém, eles não são informados. Eles não usam equipamentos de proteção. Bebem e comem enquanto trabalham, sem saber que manipulam produtos tóxicos em grande quantidade e em alta concentração. E ao contrário dos agricultores, eles ficam expostos seis dias por semana, o dia todo, o ano todo!”, finaliza o cientista.

Falta de regulamentação na Europa

Ao contrário das frutas e legumes, não existem regulamentos europeus para flores que permitam a fixação de limites máximos de resíduos. Além disso, também não existe qualquer controle destes resíduos, especialmente nas flores importadas, que podem, no entanto, conter agrotóxicos cuja utilização é proibida na Europa e em grandes quantidades. 85% das flores vendidas na França são produzidas no estrangeiro, especialmente na África Oriental e na Colômbia. “Essas flores são potencialmente assassinas e ninguém avisa nem os consumidores nem os floristas, que são os primeiros a serem expostos ”, lamenta Laure.

O problema é, no entanto, perfeitamente conhecido das autoridades francesas, como demonstra uma resposta escrita de novembro de 2022, do Ministério da Agricultura francês , à pergunta de um senador sobre a “ toxicidade das rosas vendidas em França” . O Ministério da Agricultura admite assim que “há vários anos que estudos demonstram a presença regular, em plantas ornamentais, de resíduos de substâncias, algumas das quais não aprovadas na UE, em níveis por vezes elevados”. Uma situação que “ resulta em riscos para a segurança dos profissionais que manuseiam as plantas”.

Um risco comprovado para os trabalhadores, mas sem regulamentos para protegê-los. Tal como nos foi confirmado pela Pan-Europe, rede de ONG europeias que promove a adopção de soluções alternativas à utilização de pesticidas, e que contactou a Comissão Europeia sobre este assunto. “Na sua carta de resposta, datada de abril de 2022, a Comissão explicou que lançou um estudo para fazer o balanço da situação na Europa”, explica a rede de ONGs. Confirmou-nos que não existem atualmente disposições em matéria de rotulagem, nem quaisquer medidas específicas de mitigação de riscos nos Estados-Membros em relação a resíduos de agrotóxicos em flores, e especificou que nenhum Estado solicitou o desenvolvimento de legislação sobre este assunto”.

Desafiar os líderes políticos

Um tabu que deve acabar para Laure Marivain: “ É simples. Todo mundo sabe, mas ninguém faz nada. E durante esse período, há famílias que estão cumprindo penas de prisão perpétua. Porque ninguém nunca nos devolverá a nossa filha. Não trabalho mais em contato com flores, mas continuo em contato com os artesãos. Acima de tudo, não quero apontar-lhes o dedo, mas, pelo contrário, protegê-los.”

Com o marido, Laure apelou ao Tribunal de Recurso de Rennes para contestar a proposta de compensação do FIVP. Porque, segundo o advogado da família, Maître François Lafforgue, “ o Fundo manteve a ligação entre a morte de Emmy e a sua mãe, mas a sua oferta de indenização limita-se aos pais. Essa criança sofreu muito, mas há uma negação do dano dela, porque ela morreu”. A associação Phytovictimes apela às pessoas para que se manifestem em frente ao tribunal nesta quarta-feira, 9 de outubro de 2024 , “ para apoiar a família na sua luta”, e para “apelar aos líderes políticos e ao público em geral sobre esta questão amplamente ignorada”.

Procurados, o Ministério da Agricultura e a Federação dos Floristas não quiseram responder às nossas questões.


Fonte: Radio France Internacional