Manter a Amazônia intacta é melhor para a economia, diz estudo

Preservar a floresta economiza US$ 8,2 bilhões por ano, mas o novo presidente brasileiro parece deslumbrado com os ganhos de curto prazo.

Por Kaleigh Rogers; Traduzido por Marina Schnoor
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Se você é um ambientalista, o valor da Floresta Amazônica – que equivale à metade das florestas tropicais restantes do mundo – é óbvio. Mas, para quem está mais interessado no valor financeiro do bioma, derrubar esse magnífico ecossistema para construir fazendas, minas e infraestrutura pode parecer um empreendimento mais lucrativo.

Só que essa teoria financeira capitaneada pelo presidente eleito do Brasil Jair Bolsonaro pode não fazer muito sentido: um novo estudo de economistas e engenheiros agrícolas publicado recentemente mostra que o benefício econômico da floresta conservada é de US$ 8,2 bilhões por ano. É um benefício econômico que supera de longe os ganhos de curto prazo do desmatamento.

“A floresta deveria ser salva quando medida num sentido puramente econômico”, diz o estudo, publicado pela revista científica Nature este mês.

Esses US$8,2 bilhões incluem benefícios das indústrias sustentáveis que atualmente funcionam na floresta, como o cultivo de castanhas e madeira de seringueira. E também leva em conta os benefícios econômicos da influência ambiental da Amazônia, como sequestrar dióxido de carbono e regular o clima local.

Derrubar a floresta reduziria as chuvas tão significativamente que geraria uma perda anual de US$ 422 milhões para a agricultura, derrotando o benefício de ter mais terra para plantar.

Esse número não vem de um cálculo qualquer num guardanapo. São resultados de um estudo econômico rigoroso em que os pesquisadores analisaram dezenas de fatores contribuintes, e contraditórios, para criar um mapa espacial dos valores econômicos por toda a Amazônia. Mesmo assim, os pesquisadores apontaram que esses números só capturam uma fração do “valor geral incomensurável da Floresta Amazônica”.

A descoberta veio numa boa hora porque o Brasil, lar de 60% da Amazônia. Bolsonaro, afinal, é a resposta brasileira ao presidente americano Donald Trump; ele é anti-globalista, nega as mudanças climáticas, sugeriu que vai tirar o Brasil do Acordo Climático de Paris e disse que vai começar a derrubar a Amazônia para explorar minas, criar fazendas e construir represas.

FONTE: https://www.vice.com/pt_br/article/bje7wd/manter-a-amazonia-intacta-e-melhor-para-a-economia-diz-estudo

Estudo mostra importância das florestas na formação de chuvas na Amazônia

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Gotas de água nas névoas matinais da floresta amazônica se condensam em torno de partículas de aerossol. Por sua vez, os aerossóis se condensam em torno de minúsculas partículas de sal que são emitidas por fungos e plantas durante a noite. Crédito de imagem: Fabrice Marr / Creative Commons.

Um estudo publicado na semana passada pela Nature Communications mostra que durante a estação chuvosa na bacia amazônica,  poros fúngicos emitidos pela biosfera da floresta contribuem com pelo menos 30% das partículas de sal de sódio [1]. Essa descoberta contraria as suposições correntes de que os aerossóis contendo sódio são originários a partir de fontes marinhas, e reforçam o papel das florestas na formação de nuvens e contribuição para os ciclos de sal e o ecossistema terrestre na bacia amazônica.

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Em sua página na rede social Facebook, um dos autores do artigo, o professor e pesquisador do Departamento de Física da Universidade de São Paulo, Paulo Artaxo, informa que os “esporos de fungos com sódio aumentam a capacidade de partículas atuarem como núcleos de Condensação de Nuvens, afetando fortemente o ciclo hidrológico sobre a Amazônia, pois o sódio é altamente solúvel“. Artaxo acrescenta ainda que o “modelamento deste efeito mostra que 69% da massa de sódio vem deste novo processo associado a esporos de fungos na Amazônia Floresta”, e “que floresta clima atuam em conjunto“.

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Fontes e processamento atmosférico de partículas de esporos de fungos na floresta amazônica. Partículas de esporos fúngicos contendo sódio e livres de sódio são emitidas da floresta amazônica. Esporos fúngicos contendo sódio exibem maior crescimento higroscópico em comparação com esporos fúngicos livres de sódio. Quando eles são expostos a condições de alta umidade, ou através do processamento de nuvens, as partículas de esporos fúngicos se rompem e liberam fragmentos de tamanho submicrômetro-a-micrômetro. Uma fração substancial dos fragmentos contém Na, Cl e K, e parece morfologicamente semelhante à partículas secas de sal marinho. Estes fragmentos higroscópicos de sal podem participar na formação de nuvens. Fonte: Nature Communications

Os resultados deste estudo deverão criar novos embaraços para o cenário de desmatamento descontrolado que está sendo desenhado pelo futuro governo federal a ser liderado por Jair Bolsonaro e seu ministro de relações exteriores que vê as mudanças climáticas como uma trama comunista, na medida em que as chuvas originadas na Amazônia são importantes não apenas para o Brasil mas todo o planeta.


[1] https://www.nature.com/articles/s41467-018-07066-4?fbclid=IwAR3oFl2PQKDFcwYMCMq9Cp3qg7D44UiBeQMz5dFKHlBH2SRDcsxBSL7tWz4