Amazônia: desmatamento cresce no primeiro mês de 2019

Boletim do Imazon mostra aumento de 54% do desmatamento da Amazônia Legal, com destaque para a destruição no Pará e Mato Grosso

Timber from a PMFS in Brazil
Madeira de PMFS

Toras de madeira provenientes de plano de manejo florestal no pátio de uma unidade de conservação, em 2017, no Pará.

Por Greenpeace Brasil

O Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) acaba de divulgar os primeiros dados de 2019 de seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) e o boletim aponta que o desmatamento na Amazônia Legal aumentou 54% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

O aumento impressionante confirma as piores projeções feitas por ambientalistas, pesquisadores e cientistas políticos sobre os efeitos imediatos das políticas propostas pelo novo governo no campo. Não por coincidência, os Municípios da Amazônia que elegeram Bolsonaro no 1º turno foram os que mais desmataram nos últimos 17 anos.

No total, foram detectados 108 km² de desmatamento na Amazônia Legal. O estado do Pará foi o que mais desmatou, com 37% do total, seguido de Mato Grosso (32%), Roraima (16%), Rondônia (8%), Amazonas (6%) e Acre (1%).

A maior parte deste desmatamento (67%) ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, mas há um dado preocupante, boa parcela desta destruição ocorreu em Unidades de Conservação (5%) e Terras Indígenas (7%), o que pode indicar que a sinalização de que o governo irá afrouxar a fiscalização e paralisar demarcações já promove uma corrida pelo desmatamento.

Flertando com a volta violenta do desmatamento

O crescimento do desmatamento em 2019, apesar de chocante, já era esperado. Desde a campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro já dava sinais claros de que promoveria retrocessos na agenda socioambiental caso fosse eleito. No primeiro dia de mandato, o novo governo transferiu, através da MP 870, a responsabilidade pela identificação, a delimitação, reconhecimento e demarcação de Terras Indígenas (TIs) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), comandado pela ministra Tereza Cristina, líder da bancada ruralista. Já a Funai saiu do Ministério da Justiça e está agora subordinada ao novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

A demarcação de TIs nas mãos do MAPA representa um claro conflito de interesses, já que historicamente o Ministério defende e é largamente influenciado pelos interesses da bancada ruralista, que vem liderando um verdadeiro ataque às áreas protegidas no País.

“Combater o desmatamento é uma responsabilidade do Brasil e deveria ser tratada pelo governo como uma prioridade, já que esta é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa do país”, afirma Carolina Marçal, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Ao protagonizar a imposição de uma agenda que viola os direitos dos povos indígenas e populações tradicionais, o novo governo nos conduz a um cenário ainda mais desolador de avanço da violência no campo e destruição ambiental, confirmados pelos primeiros dados do SAD”.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!]

Onyx Lorenzoni e a Noruega: quem ensina o quê para quem?

norway

Irritado sobre uma pergunta trivial sobre quem comandaria o Ministério do Meio Ambiente a partir de janeiro de 2019, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM/RS) resolveu sair pela tangente e questionou a posição da Noruega de suspender o aporte de recursos no chamado “Fundo Amazônia” porque o Brasil não está cumprindo a meta de conter o desmatamento na Amazônia [1].

Do alto de sua ignorância, Lorenzoni afirmou que  “O que nós fizemos não vale nada, o que vale é a Noruega. E a floresta norueguesa, quanto eles preservaram? Só uma coisa importante que tem que se em que ser lembrada: o Brasil preservou a Europa inteira territorialmente, toda a União Europeia, com as nossas matas, mais cinco Noruegas. Os noruegueses têm que aprender com os brasileiros, e não a gente aprender com eles.”

Afora notar que a Noruega entregou bilhões de reais para que o Brasil cuidasse das florestas amazônicas, o que efetivamente não foi feito, Lorenzoni deveria ser informado que o país escandinavo foi o primeiro a banir qualquer produto que contribua para o desmatamento  em maio de 2016. Essa determinação acabará tendo impactos diretos sobre o comércio com países onde o desmatamento esteja alimentando a cadeia produtiva, como é obviamente o caso do Brasil.

Se fizesse a lição de casa de forma mínima que fosse, Lorenzoni saberia que a Noruega já fez a sua, e após instalar a partir de 1991 uma série de programas de recuperação de sua cobertura florestal, os noruegueses triplicaram a quantidade de florestas em relação a 100 anos atrás [2]. Em outras palavras, a Noruega tem sim algo a ensinar para o país que detém parte considerável da biodiversidade mundial, mas que a está jogando fora para plantar commodities agrícolas de forma insustentável.

Assim, em vez de ser ingrato e bravateiro, o que Lorenzoni deveria fazer, e possivelmente não fará, seria garantir que o próximo ministro do meio ambiente não seja uma mera peça decorativa ou, pior ainda, um instrumento de legitimação da destruição dos ecossistemas amazônicos em nome de um punhado de reais.


[1] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2018/11/12/onyx-se-irrita-e-diz-para-noruega-aprender-com-brasil-sobre-desmatamento.htm

[2] http://www.bbc.com/earth/story/20151104-discover-how-norway-saved-its-vanishing-forests