Greenpeace condena “sinal verde” por mais uma década de destruição da floresta

Após três anos sem planos para reduzir efetivamente o desmatamento, o governo promete cortar 15% do desmatamento no ano em que termina o mandato

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Vista aérea de um desmatamento na Amazônia para expansão pecuária, em Lábrea, Amazonas / © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas

Glasgow, 2 de novembro de 2021 – A COP 26 trouxe uma enxurrada de anúncios sobre a “proteção” das florestas. Entre eles está um novo acordo entre governos, incluindo o Brasil, para conter o desmatamento até 2030. Mas o acordo na prática substitui a Declaração de Nova York sobre Florestas de 2014, que estabeleceu a meta para o ano de 2020 (embora o Brasil não o tenha assinado.

Respondendo de Glasgow ao anúncio, a diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali, afirma que “Há um bom motivo pelo qual Bolsonaro se sentiu confortável em assinar este novo acordo. Ele estende o prazo para acabar com a destruição da floresta em dez anos, não é obrigatório e, quando se trata de limpar as cadeias de abastecimento, parece ter como alvo apenas o desmatamento ilegal. Mas a Amazônia já está à beira do colapso e não pode sobreviver a mais uma década de destruição, legal ou não. Os povos indígenas estão clamando pela proteção de 80% da Amazônia até 2025, e eles têm razão; é o que é preciso. O clima e o mundo natural não têm condições de pagar por esse acordo.”

Após três anos sem planos para reduzir efetivamente o desmatamento, o governo promete agora cortar 15% do desmatamento em 2022, ano que termina o mandato. Se tivermos em 2021 taxas iguais de desmatamento dos últimos dois anos, esse número estaria por volta de 9.000 Km2, um aumento de 22% em relação ao ano de 2018, véspera do início do atual mandato. O governo antecipou também a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2028, mas a conta não fecha, até lá o governo estaria admitindo quase 42.200 km2 de desmatamento ilegal, uma área maior que a Holanda ou Suíça, por exemplo.

Enquanto o governo brasileiro se aproveita da visibilidade da COP 26 para lançar diversos programas, anunciar novas metas de redução do desmatamento ilegal, cortes de emissões e um plano para acelerar a economia verde, por trás das cenas – como mostrou a reportagem de investigação jornalística do Unearth -, a intenção é outra. O Brasil, ao lado de outros países, tentou interferir nas recomendações do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para excluir as menções à agropecuária como vilão do clima e a importância da adoção de uma dieta baseada em vegetais. É importante lembrar que o desmatamento e a agropecuária representam 72% do total das emissões dos gases do efeito estufa do Brasil. As emissões no país aumentaram 9,5% em 2020, impulsionadas pela destruição da Amazônia — resultado de escolhas políticas deliberadas do governo Bolsonaro.

A falta de ação para reduzir a demanda por carnes e laticínios industriais — uma indústria que está causando a destruição do ecossistema por meio da produção de gado e do uso de soja para ração animal -, nos mostra que há poucas chances do governo cumprir esse acordo e instigar políticas que colocariam o Brasil de volta ao caminho certo para diminuir o desmatamento. Enquanto não adotamos dietas baseadas em vegetais e reduzimos a quantidade de carne industrial e laticínios que consumimos, os direitos dos povos indígenas continuarão a ser ameaçados e a natureza continuará a ser destruída, em vez de ter a oportunidade de se restaurar e se recuperar.

Imagens de satélite comprovam que terras indígenas são as áreas mais preservadas do Brasil nas últimas décadas

Levantamento do MapBiomas mostra também que entre 1985 e 2020 a área de agropecuária cresceu em 5 dos 6 biomas brasileiros. No caso da soja, o total ocupado equivale ao estado do Maranhão
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Maloca de indígenas em isolamento voluntário na Terra Indígena Kampa e Isolados do Rio Envira. — Foto: Gleilson Miranda/Funai

Apenas 1,6% da perda de Florestas e Vegetação Nativa no Brasil entre 1985 e 2020 ocorreu em terras indígenas. O dado provém da análise de imagens de satélite desse período desenvolvida pela equipe de pesquisadores do MapBiomas utilizando recursos de inteligência artificial. Nesses 36 anos, os territórios indígenas já demarcados ou aguardando demarcação foram os que mais preservaram suas características originais, comprovando o valioso serviço que essas comunidades prestam ao Brasil.

“Se queremos ter chuva para abastecer os reservatórios que provêm energia e água potável para consumidores, indústria e o agronegócio, precisamos preservar a floresta amazônica. E as imagens de satélite não deixam dúvidas: quem melhor faz isso são os indígenas”, explica Tasso Azevedo, Coordenador do MapBiomas.

Se os territórios indígenas permaneceram quase intactos nas últimas décadas, o mesmo não se pode dizer do resto do Brasil. O crescimento da área ocupada por atividades agropecuárias entre 1985 e 2020 foi de 44,6%. Juntas, agricultura e pecuária ganharam 81,2 milhões de hectares no período. Essas atividades cresceram em cinco dos seis biomas brasileiros, com exceção da Mata Atlântica.

Nesses 36 anos, a área de plantio de soja e cana alcançou a mesma extensão de toda a formação campestre do Brasil. A soja já equivale a um Maranhão e a cana ocupa o dobro da área urbanizada do país. O padrão de expansão da agropecuária nesse período é o avanço das pastagens sobre áreas de vegetação nativa enquanto a agricultura se expande principalmente sobre áreas de pastagem. Com isso a área total de pastagem parou de crescer em meados dos anos 2000 e começou a encolher registrando uma retração de 4% de 2005 a 2020, depois de crescer 45% entre 1985 e 2005.

Atualmente, as pastagens representam o principal uso da terra no Brasil, ocupando um quinto do território nacional. Elas serão tema de análise mais aprofundada do MapBiomas, em estudo sobre a qualidade das pastagens a ser lançado ainda este ano.

Dos 27 estados da federação, 24 perderam vegetação nativa. Os campeões são Rondônia (-28%), Mato Grosso (-24%) e Maranhão (-16%). Apenas dois estados conseguiram manter as áreas de vegetação nativa – ambos na região Sudeste, principalmente na Mata Atlântica: Rio de Janeiro e Espírito Santo. No caso do Rio de Janeiro, houve inclusive um leve crescimento (de 34% em 1985 para 35% em 2020).

A principal cobertura vegetal nativa no Brasil é a floresta, que cobre 59,7% do território nacional. Mas esse percentual está majoritariamente concentrado na região amazônica. Ou seja, excluindo-se a Amazônia, o retrato do Brasil é bem diferente. No Pampa, 42,7% do território é ocupado pela agropecuária. Na Mata Atlântica, a área de agropecuária é ainda maior, ocupando dois terços (64,3%) do bioma. Cerrado (44,2%) e Caatinga (35,2%) têm a terceira e quarta maior ocupação por atividades agropecuárias.

Uma análise mais detalhada da cobertura e uso de terra no Brasil mostra que os 66,3% de vegetação nativa que as imagens de satélite mostram não correspondem necessariamente a áreas preservadas. “Uma parte significativa passou por processo de degradação ou está em regeneração depois de ter sido desmatada, por isso aprofundar o entendimento destes processos de degradação é um dos focos atuais do MapBiomas”, afirma Tasso Azevedo. “Com a plataforma de monitoramento das cicatrizes de fogo, descobrimos que 57 milhões de hectares, ou 11% da floresta existente no Brasil em 2020, pegaram fogo pelo menos uma vez nos últimos 36 anos”, detalha Ane Alencar, coordenadora do mapeamento do Cerrado e do mapeamento do fogo.

Em outra frente de trabalho, os pesquisadores mapearam as áreas de regeneração no Brasil. “A área de vegetação secundária no Brasil superou 45 milhões de hectares em 2020, o que representa 8% de vegetação nativa no Brasil”, explica Marcos Rosa, Coordenador Técnico do MapBiomas. “Essa vegetação secundária também precisa ser protegida e monitorada, especialmente aquela nas faixas de proteção dos corpos d’água e nascentes, ampliando a captura do carbono, aumentando a quantidade e qualidade das águas e a recuperação dos mananciais”.

O percentual de área natural identificado pelo MapBiomas engloba também vegetação secundária, ou seja, que já foi destruída e se recuperou, capturando carbono da atmosfera. “Quando a vegetação secundária é suprimida, e isso acontece com frequência, não só liberamos mais carbono para a atmosfera como interrompemos o processo de captura”, informa Marcos Rosa, Coordenador Técnico do MapBIomas. “Ou seja, para favorecer o cumprimento de nossas metas climáticas, o Brasil precisa parar de desmatar florestas primárias e também as secundárias”.

A Coleção 6 dos Mapas Anuais de Cobertura e Uso da Terra no Brasil foi atualizada e ampliada contando com 25 classes mapeadas (eram 21 da última edição) e está disponível gratuitamente para todos os públicos a partir de hoje.

Sobre MapBiomas

Iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org

Não podemos mais tratar plantações de árvores com se fossem florestas

O botânico Francis Hallé denuncia operações de plantios florestais com fins puramente lucrativos, que contribuem para o desmatamento e para as mudanças climáticas.

monoculturasVista aérea da plantação de pinheiros comumente conhecida como “floresta Landes de Gascogne”, perto de Cestas (Gironde), em maio de 2019. MEHDI FEDOUACH / AFP

Por Francis Hallé para o Le Monde

Tribuna. Bastaria um solo coberto de árvores para se falar em floresta? Acho que não, e o público muitas vezes toma as plantações de árvores por florestas de verdade: na França, por exemplo, falamos da “floresta Landes de Gascogne”, quando é uma plantação de pinheiros. Em ambos os casos, são árvores lado a lado, mas isso não justifica confundi-los. É hora de acabar com essa confusão entre dois conjuntos de árvores que tudo separa e que se opõem, porque, na realidade, os campos das árvores são o oposto das florestas, como veremos. Vejo. Depois de comparar “florestas” e “plantações”, veremos também quem se beneficia com a confusão que hoje deve ser denunciada.

Mas, a partir de agora, gostaria de lembrar que a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) das Nações Unidas é a responsável por essa confusão. Para esta autoridade suprema em florestas em nível global, “o termo ‘floresta’ inclui florestas naturais e florestas plantadas” , o que permite afirmar que o desmatamento global é coisa do passado, e que o planeta sustentou 400 milhões de hectares a mais de floresta em 2000 do que em 1995.

A floresta é um ecossistema natural cujo estabelecimento não custou nada à sociedade. É constituído por árvores autóctones de várias idades que se instalaram espontaneamente e pela fauna a elas associada. Qualquer que seja a latitude, é o lar de uma maior diversidade de plantas e animais do que outra vegetação na região em consideração, a alta diversidade animal estando ligada à diversidade de plantas e, especialmente, à abundância de árvores velhas e madeira. morto. Muitas vezes grande, sua superfície pode ser contada em centenas, até milhares de hectares, o que permite que grande fauna encontre seu lugar.

Na floresta, o homem tem apenas um papel secundário: não é o autor, mas se contenta em explorá-lo – para obter madeira, caça, plantas medicinais e outros recursos. As florestas tropicais abrigam grupos étnicos florestais que são seus melhores guardiães e a quem fornecem tudo de que precisam para viver nelas por um longo prazo. As florestas de latitudes temperadas – na Europa, por exemplo – são mantidas por ofícios especializados: silvicultores, madeireiros e guardas florestais, cujas atividades estão tão distantes da agricultura que ninguém pensa em irrigar ou em usar insumos de química sintética na floresta: isso seria inútil, pois a floresta enriquece espontaneamente os solos que a sustentam.

Sistema artificial

Economicamente, principalmente para produção e comercialização de madeira , as florestas estão longe de ser as ótimas, pois a diversidade biológica é antagônica à lucratividade econômica. Em contrapartida, esta diversidade permite à floresta resistir a ataques de parasitas, violentas tempestades e até incêndios, como vários autores têm mostrado, mais recentemente Joëlle Zask ( Quando a floresta queima. Pensando no novo desastre ecológico, Premier Parallèle , 2019). O tempo de vida de uma floresta natural não deve nada aos humanos; é indefinido e geralmente é contado em milênios, sendo o fator limitante a mudança climática.

O plantio de árvores é um sistema artificial cuja implantação exige pesados ​​investimentos; em princípio, compreende apenas uma espécie, aquela que foi plantada. Na França, costuma ser uma conífera exótica; por causa do plantio, todas as árvores têm a mesma idade. A origem, a área e o tempo de vida da plantação são determinados pelos atores econômicos de acordo com as necessidades do mercado, sem referência à biologia: o plantio de árvores não é, portanto, um ecossistema. A diversidade vegetal é baixa por definição, a diversidade animal é baixa devido à falta de recursos alimentares para a vida selvagem. Quanto ao ser humano, ele não vive permanentemente em um “campo de árvores” , e acontece que lhe é negado o direito de entrar nele.

Economicamente, o plantio de árvores é muito superior à floresta e cresce especialmente em países financeiramente poderosos. Essas plantações recebem muitos insumos – fertilizantes, fungicidas e agrotóxicos -, que alteram o solo, antes de serem exploradas na fase de árvores adultas por titânicas, colhedoras e picadoras que em poucos segundos as derrubam, Eles os ramificam e cortam antes de serem derrapados por pesos enormes e pesados ​​que esmagam as estradas. Um curto período de rotação permite, após o corte raso, o replantio da mesma espécie no mesmo local, o que tem o efeito de esgotar os solos, exceto para o uso de novos fertilizantes. Não sou contra o plantio de árvores: continuamos precisando de madeira,

Trópicos tristes

O fato de as plantações serem quase sempre monoespecíficas as torna vulneráveis ​​a patógenos e pragas. Em caso de tempestades violentas, são mais frágeis do que as florestas, o que é facilmente compreendido no caso das coníferas, devido à sua folhagem ser apanhada pelo vento: durante a tempestade de 1999, a região da França onde as árvores sopradas pelo vento foram as mais numerosas foi a das plantações de pinheiros das Landes de Gascogne. “Nada é mais arriscado do que uma cultura monoespecífica”, observa o paisagista Gilles Clément.

“Campos de árvores” também são mais vulneráveis ​​a incêndios do que florestas, como várias pesquisas têm mostrado, incluindo a de Joëlle Zask: os incêndios estão ligados às plantações, seja na Suécia com coníferas. ou Chile com eucalipto. A indústria florestal e os grandes incêndios, diz o autor, são “um casal inseparável” . Com o tempo, as plantações podem ser enriquecidas com algumas espécies de árvores que germinam e crescem naturalmente, refletindo uma tendência de retorno à floresta. Na Suécia, a indústria madeireira está progredindo às custas das florestas naturais, e “a Suécia nunca teve tantas árvores e tão poucas florestas”, observa Maciej Zaremba em seu artigo “Massacre da Serra Elétrica na Suécia” ( Livros, n ° 99, julho-agosto de 2019). Particularmente edificante é o caso da Malásia, onde a floresta é destruída para plantar palmeiras a perder de vista.

As regiões tropicais, onde 300 milhões de pessoas vivem nas imediações das florestas, são particularmente afetadas pelos aspectos negativos das plantações de árvores – eucaliptos, pinheiros, dendezeiros, acácias, seringueiras, chá, gmelina, etc. . – impostas por poderosas empresas internacionais, muitas vezes empresas de petróleo que atuam no setor florestal (madeira, celulose, óleo de palma). Essas empresas afirmam, apoiadas em propagandas massivas, que suas monoculturas de árvores constituem um verdadeiro projeto de desenvolvimento, geram empregos, aumentam a renda dos trabalhadores locais e estimulam a economia nacional, possibilitam o combate ao aquecimento global por meio de funcionam como sumidouros de carbono e reduzem o desmatamento. Finalmente,

Confusão intolerável

O World Rainforest Movement (WRM) publicou no Reino Unido, em 2003, Plantações NÃO são florestas (World Rainforest Movement), mostrando que essas afirmações são falsas: na realidade, as plantações de árvores são estabelecidas em detrimento das florestas naturais e são uma das principais causas do desmatamento; não retardam o aquecimento global, uma vez que o carbono das florestas destruídas retorna à atmosfera, enquanto as plantações, operadas em rápida rotação, tornam-se fontes de CO 2e não mais poços; não criam empregos sustentáveis, privam as populações locais de vários recursos florestais e, muitas vezes, as despejam em desafio aos direitos humanos, muitas vezes pela violência. No final, diz o WRM, baseando-se no exemplo de muitos países tropicais, as árvores desapareceram e os habitantes não têm mais empregos. Movimentos de protesto estão se formando, como a Rede Latino-Americana contra Monoculturas de Árvores, na América tropical. Quanto à certificação FSC, ela tem o valor do próprio FSC, que notoriamente entrou em colapso.

 

Essa confusão entre florestas e plantações de árvores favorece os industriais da madeira ou da celulose, que se apropriam de terras de graça, instalam ali seus aparelhos caros mas muito lucrativos, depois tentam nos fazer acreditar que nada mudou e que as florestas ainda estão lá. Sua publicidade não cessou: um consórcio da indústria madeireira publicou um Manifesto em favor das plantações florestais na França (Alliance Forests Bois, 2012).

Mas a defesa da biodiversidade tornou-se uma meta tão importante no nível global que não podemos mais tolerar a confusão que hoje denuncio, tão perigosa para a diversidade animal e vegetal. Um desejo, enfim: que as florestas deixem de depender da FAO, porque se misturam mal com a agricultura. O que precisamos é que uma estrutura sob a égide das Nações Unidas seja exclusivamente responsável pelas florestas do planeta.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Criticada por Bolsonaro, Alemanha divulga vídeo em resposta

Após presidente dizer que chanceler deveria ‘reflorestar’ o país, embaixada no Brasil diz que Alemanha ‘é um dos países mais florestados da Europa’

Por André Borges

A Embaixada da Alemanha publicou um vídeo nesta quinta-feira, 15, para divulgar seus principais parques florestais no País e convidar as pessoas a conhecerem a natureza preservada pelo país europeu. O vídeo, com mensagens em português, foi divulgado na conta do Facebook da embaixada.

A divulgação ocorre um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro dizer que a chanceler alemã, Angela Merkel, deve “pegar a grana” bloqueada para preservação ambiental no Brasil e reflorestar a Alemanha. “Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel, que suspendeu US$ 80 milhões para a Amazônia. Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, disse Bolsonaro.

“Você sabia que a Alemanha é um dos países mais florestados da Europa? As florestas alemãs são destinos turísticos imperdíveis”, afirma a embaixada no vídeo, que contém imagens de diversas florestas protegidas do país. As mensagens afirmam que a área das florestas alemãs cresceu em mais de 1 milhão de hectares nas últimas cinco décadas e que cobrem um terço do território nacional.

“Hoje a Alemanha é um dos países mais densamente florestados Europa. Partiu visitar a natureza alemã?”, convida a embaixada.

Em 3 de julho, reportagem do Estado revelou que a Alemanha havia decidido reter uma nova doação de 35 milhões de euros, o equivalente a mais de R$ 155 milhões, para o Fundo Amazônia. O bloqueio foi confirmado pelo governo alemão no último sábado, 10. O país já repassou R$ 193 milhões para o programa.

Nesta quinta-feira, 15, foi a vez de a Noruega anunciar a suspensão de um repasse de R$ 133 milhões ao fundo. Juntos, os dois países já doaram R$ 3,4 bilhões para o programa.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Terra [Aqui!].

 

Amazônia: desmatamento cresce no primeiro mês de 2019

Boletim do Imazon mostra aumento de 54% do desmatamento da Amazônia Legal, com destaque para a destruição no Pará e Mato Grosso

Timber from a PMFS in Brazil
Madeira de PMFS

Toras de madeira provenientes de plano de manejo florestal no pátio de uma unidade de conservação, em 2017, no Pará.

Por Greenpeace Brasil

O Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) acaba de divulgar os primeiros dados de 2019 de seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) e o boletim aponta que o desmatamento na Amazônia Legal aumentou 54% em janeiro, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

O aumento impressionante confirma as piores projeções feitas por ambientalistas, pesquisadores e cientistas políticos sobre os efeitos imediatos das políticas propostas pelo novo governo no campo. Não por coincidência, os Municípios da Amazônia que elegeram Bolsonaro no 1º turno foram os que mais desmataram nos últimos 17 anos.

No total, foram detectados 108 km² de desmatamento na Amazônia Legal. O estado do Pará foi o que mais desmatou, com 37% do total, seguido de Mato Grosso (32%), Roraima (16%), Rondônia (8%), Amazonas (6%) e Acre (1%).

A maior parte deste desmatamento (67%) ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, mas há um dado preocupante, boa parcela desta destruição ocorreu em Unidades de Conservação (5%) e Terras Indígenas (7%), o que pode indicar que a sinalização de que o governo irá afrouxar a fiscalização e paralisar demarcações já promove uma corrida pelo desmatamento.

Flertando com a volta violenta do desmatamento

O crescimento do desmatamento em 2019, apesar de chocante, já era esperado. Desde a campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro já dava sinais claros de que promoveria retrocessos na agenda socioambiental caso fosse eleito. No primeiro dia de mandato, o novo governo transferiu, através da MP 870, a responsabilidade pela identificação, a delimitação, reconhecimento e demarcação de Terras Indígenas (TIs) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), comandado pela ministra Tereza Cristina, líder da bancada ruralista. Já a Funai saiu do Ministério da Justiça e está agora subordinada ao novo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

A demarcação de TIs nas mãos do MAPA representa um claro conflito de interesses, já que historicamente o Ministério defende e é largamente influenciado pelos interesses da bancada ruralista, que vem liderando um verdadeiro ataque às áreas protegidas no País.

“Combater o desmatamento é uma responsabilidade do Brasil e deveria ser tratada pelo governo como uma prioridade, já que esta é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa do país”, afirma Carolina Marçal, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Ao protagonizar a imposição de uma agenda que viola os direitos dos povos indígenas e populações tradicionais, o novo governo nos conduz a um cenário ainda mais desolador de avanço da violência no campo e destruição ambiental, confirmados pelos primeiros dados do SAD”.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Greenpeace Brasil [Aqui!]

Onyx Lorenzoni e a Noruega: quem ensina o quê para quem?

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Irritado sobre uma pergunta trivial sobre quem comandaria o Ministério do Meio Ambiente a partir de janeiro de 2019, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM/RS) resolveu sair pela tangente e questionou a posição da Noruega de suspender o aporte de recursos no chamado “Fundo Amazônia” porque o Brasil não está cumprindo a meta de conter o desmatamento na Amazônia [1].

Do alto de sua ignorância, Lorenzoni afirmou que  “O que nós fizemos não vale nada, o que vale é a Noruega. E a floresta norueguesa, quanto eles preservaram? Só uma coisa importante que tem que se em que ser lembrada: o Brasil preservou a Europa inteira territorialmente, toda a União Europeia, com as nossas matas, mais cinco Noruegas. Os noruegueses têm que aprender com os brasileiros, e não a gente aprender com eles.”

Afora notar que a Noruega entregou bilhões de reais para que o Brasil cuidasse das florestas amazônicas, o que efetivamente não foi feito, Lorenzoni deveria ser informado que o país escandinavo foi o primeiro a banir qualquer produto que contribua para o desmatamento  em maio de 2016. Essa determinação acabará tendo impactos diretos sobre o comércio com países onde o desmatamento esteja alimentando a cadeia produtiva, como é obviamente o caso do Brasil.

Se fizesse a lição de casa de forma mínima que fosse, Lorenzoni saberia que a Noruega já fez a sua, e após instalar a partir de 1991 uma série de programas de recuperação de sua cobertura florestal, os noruegueses triplicaram a quantidade de florestas em relação a 100 anos atrás [2]. Em outras palavras, a Noruega tem sim algo a ensinar para o país que detém parte considerável da biodiversidade mundial, mas que a está jogando fora para plantar commodities agrícolas de forma insustentável.

Assim, em vez de ser ingrato e bravateiro, o que Lorenzoni deveria fazer, e possivelmente não fará, seria garantir que o próximo ministro do meio ambiente não seja uma mera peça decorativa ou, pior ainda, um instrumento de legitimação da destruição dos ecossistemas amazônicos em nome de um punhado de reais.


[1] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2018/11/12/onyx-se-irrita-e-diz-para-noruega-aprender-com-brasil-sobre-desmatamento.htm

[2] http://www.bbc.com/earth/story/20151104-discover-how-norway-saved-its-vanishing-forests