O “novo” Capitalismo de Davos é uma antítese ao pensamento social e econômico do governo Bolsonaro

2019 World Economic Forum (WEF) annual meeting in DavosPresente na edição de 2019 do Fórum Econômico de Davos, o presidente Jair Bolsonaro estará ausente na de 2020 e não poderá conhecer de perto o “novo” Capitalismo ambiental e socialmente responsável que será ali apresentado

O presidente Jair Bolsonaro decidiu não ir à edição de 2020 do Fórum Econômico Mundial que se realizará na cidade suíça de Davos.  A explicação oficial é de que ele resolveu não sair do Brasil em um momento de forte tensão internacional causada pelo assassinato do general iraniano Qaseim Suleimani.  No lugar dele deverá ir o seu ministro da Fazenda, o senhor Paulo Guedes.

Pois bem, a não ida de Jair Bolsonaro talvez evite a ele o dissabor de ter de tentar se posicionar em relação à posição oficial do evento acerca do que seria a postura necessária das corporações no interior da chamada “Quarta Revolução Industrial” que está consignada no chamado “Davos Manifest 2020” cuja tradução literal apresento abaixo em sua integralidade.

O grande problema para o governo do presidente Jair Bolsonaro e suas táticas que se assemelham aos primórdios do Capitalismo é que o “Manifesto de Davos 2020” apresenta uma agenda diametralmente oposta à que está sendo aplicada no Brasil neste momento.  Entre outras coisas, o manifesto fala em “pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético das informações privadas na era digital, vigilância dos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores, e remuneração responsável dos executivos“. 

Há obviamente a possibilidade nada desprezível de que o conteúdo desse manifesto não passe de um exercício de cinismo. Entretanto, mesmo levando isso em conta, o fato do Fórum Econômico de Davos e seus poderosos associados estarem apontando o caminho oposto ao vigente no Brasil não deixará de criar embaraços para os interesses econômicos nacionais, na medida em que corporações e governos nacionais passarão a inserir esses elementos em suas diversas formas de relacionamento com o nosso país.

Como aqui hoje estão sendo aplicadas as formas mais toscas de Capitalismo em nome sabe-se lá do quê, o fato do Brasil estar indo na direção oposta ao que está sendo sugerido em Davos ajuda a expor o anacronismo das ações governamentais que desprezam a sustentabilidade ambiental, os direitos humanos, bem como da necessidade de se trabalhar para reduzir as profundas desigualdades sociais e econômicas que estão sendo aprofundadas pelas políticas ultraneoliberais idealizadas e impostas pela dupla Bolsonaro e Guedes a um povo brasileiro cada vez mais empobrecido.

Finalmente, não deixa de ser irônico notar que as práticas do governo brasileiro estão bem mais à direita do que as formuladas pelo grande capital internacional que se coloca sob a sombrinha do Fórum Econômico de Davos. É grave a crise!

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Manifesto Davos 2020: O Propósito Universal de uma Empresa na Quarta Revolução Industrial

A. O objetivo de uma empresa é envolver todas as partes interessadas na criação de valor compartilhado e sustentado. Ao criar esse valor, uma empresa atende não apenas seus acionistas, mas todas as partes interessadas – funcionários, clientes, fornecedores, comunidades locais e sociedade em geral. A melhor maneira de entender e harmonizar os interesses divergentes de todas as partes interessadas é através de um compromisso compartilhado com políticas e decisões que fortaleçam a prosperidade a longo prazo de uma empresa.

i. Uma empresa atende a seus clientes fornecendo uma proposta de valor que melhor atenda às suas necessidades. Aceita e apoia uma concorrência leal e condições equitativas. Ele tem tolerância zero para corrupção. Mantém o ecossistema digital em que opera de maneira confiável e confiável. Ele conscientiza os clientes da funcionalidade de seus produtos e serviços, incluindo implicações adversas ou externalidades negativas.

ii. Uma empresa trata seus funcionários com dignidade e respeito. Honra a diversidade e busca melhorias contínuas nas condições de trabalho e no bem-estar dos funcionários. Em um mundo de rápidas mudanças, uma empresa promove a empregabilidade contínua por meio de aprimoramento e capacitação contínuos.

iii. Uma empresa considera seus fornecedores como verdadeiros parceiros na criação de valor. Oferece uma chance justa aos novos participantes no mercado. Integra o respeito pelos direitos humanos em toda a cadeia de suprimentos.

iv. Uma empresa atende a sociedade em geral por meio de suas atividades, apoia as comunidades em que trabalha e paga sua parcela justa de impostos. Garante o uso seguro, ético e eficiente dos dados. Ele atua como um administrador do universo ambiental e material para as gerações futuras. Protege conscientemente nossa biosfera e defende uma economia circular, compartilhada e regenerativa. Expande continuamente as fronteiras do conhecimento, inovação e tecnologia para melhorar o bem-estar das pessoas.

v. Uma empresa fornece a seus acionistas um retorno sobre o investimento que leva em consideração os riscos empresariais incorridos e a necessidade de inovação contínua e investimentos sustentados. Gerencia com responsabilidade a criação de valor a curto, médio e longo prazos, buscando retornos sustentáveis ​​para os acionistas que não sacrificam o futuro no presente.

B. Uma empresa é mais do que uma unidade econômica geradora de riqueza. Ele cumpre as aspirações humanas e sociais como parte de um sistema social mais amplo, e o desempenho deve ser medido não apenas no retorno aos acionistas, mas também na maneira como ele atinge seus objetivos ambientais, sociais e de boa governança. A remuneração dos executivos deve refletir a responsabilidade das partes interessadas.

C. Uma empresa que possui um escopo multinacional de atividades não serve apenas a todos os interessados ​​diretamente envolvidos, mas atua como uma das partes interessadas – juntamente com governos e sociedade civil – do nosso futuro global. A cidadania global corporativa exige que uma empresa aproveite suas principais competências, empreendedorismo, habilidades e recursos relevantes em esforços colaborativos com outras empresas e partes interessadas para melhorar o estado do mundo.

Jair Bolsonaro não deverá ter vida fácil em seu “baile de debutantes” em Davos

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Jair Bolsonaro e “equipe” no avião que os leva a Davos. A recepção pode não ser a que eles esperam.

A anunciada ida de Jair Bolsonaro à edição de 2019 do Fórum Econômico de Davos foi apresentada como uma espécie de “baile de debutantes” do novo presidente brasileiro às grandes corporações econômicas que controlam a economia mundial.

Entretanto, o problema é que todas as estripulias que marcaram as três semanas iniciais do governo Bolsonaro que resultam da aplicação desconjuntada da agenda ultraneoliberal idealizada pelo economista Paulo Guedes ampliaram ainda mais a rejeição que o novo presidente brasileiro possui no exterior por causa de suas posições de extrema-direita.

A imagem abaixo mostra uma espécie de “comite de boas vindas” que está aguardando Jair Bolsonaro e sua comitiva formada por figuras para lá de heterodoxas para oferecer as devidas saudações.

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Como se vê, a pequena e gelada Davos tem tudo para ser uma estréia quente de Jair Bolsonaro em suas viagens internacionais como presidente do Brasil. Resta esperar como ele se sairá na anunciada entrevista que deverá conceder enquanto estiver nos Alpes suiços.