França 2016, a revolta escondida

Uma revolta que une trabalhadores e a juventude sacode diariamente a França há vários meses, e sem qualquer sinal de que vai acabar.  As marchas e enfrentamentos entre uma massa revoltada com a caçada aos seus direitos e a polícia vem causando comparações não com o Maio de 1968, mas com outra insurreição ainda mais sangrenta ocorrida em março de 1871, a da Comuna de Paris.

Se olharmos a maioria dos veículos da mídia corporativa (brasileira e mundial) o silêncio é quase completo. Até parece que as coisas mais importantes que estão ocorrendo na França são o Torneio de Roland Garros e a Copa de Seleções da Europa que deverá ser iniciada no dia 10 de junho.

Por que tanto silêncio em torno da revolta que varre a França? No caso do Brasil, é provável que seja a grande semelhança entre a reforma das leis trabalhistas francesas que o presidente socialista (socialista?) François Hollande impôs por decreto com aquilo que o presidente interino Michel Temer anuncia que vai fazer com a CLT, qual seja, desmontá-las para aumentar o lucro dos patrões.

Em outras palavras, o silêncio é por medo de que haja um efeito de contágio e que também aqui haja a mesma poderosa aliança entre a classe operária e a juventude. E com uma diferença bastante clara: enquanto François Hollande foi eleito, Michel Temer chegou ao poder interino por meio do que está sendo rotulado de “soft coup d´état” (golpe de Estado suave como chamou o Papa Francisco).

Quero ainda notar que a revolta em curso na França serve para enterrar certos modismos acadêmicos de “teóricos”, os ditos pós-modernos, que previam que a classe operária havia perdido sua centralidade na luta por justiça social. Ao se levantar contra a Lei Khomri, arrastando consigo a juventude e os camponeses, os trabalhadores franceses mostram de forma evidente que não há mudança que não passe pela classe operária organizada.

E uma última palavra para as burocracias sindicais que continuam freando a organização da classe trabalhadora no Brasil: se o que estamos vendo na França, e por contágio na Bélgica, chegar nos trópicos, não serão apenas os líderes políticos da burguesia que serão varridos do mapa. 

E abaixo dois vídeos que mostra apenas dois dos milhares de enfrentamentos que estão ocorrendo na França por causa da reforma trabalhista que cassa direitos em nome da empregabilidade. E por tudo o que essa revolta representa para os trabalhadores e a juventude do mundo, meus votos é que o resultado alcançado seja a derrota da Lei Khomri.

As elites brasileiras adoram a França. Deviam ver o que anda acontecendo por lá!

As elites brasileiras adoram gastar suas fortunas na França. Muitos vão para lá em seus jatinhos particulares, alugam limusines e saem pelo país gastando partes de suas fortunas. Aliás, isso também se estende a parlamentares como Eduardo Cunha e a governadores como Sérgio Cabral. Em suma, a França aguça o que há de “melhor” nas elites brasileiras.

Pois bem, com a iminente tomada do poder por Michel Temer, uma série de medidas estão sendo anunciadas para dilapidar direitos sociais e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Pois bem, o presidente francês François Hollande vive nesse momento uma profunda revolta social por ter proposta coisas muito semelhantes ao que Michel Temer vem anunciando que adotará.

Bom, como eles adoram tanto a França, as imagens abaixo deviam ver como os trabalhadores e a juventude estão respondendo à tentativa de precarização de seus direitos.  É que acontece na França, poderá bem acontecer por aqui. E Vive le France!

Assista transmissão ao vivo dos protestos sindicais sacodindo Paris neste sábado

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Os sindicatos e os estudantes realizam marcha em Paris neste sábado, 9 de abril , para protestar contra as reformas trabalhistas propostas pelo governo francês. Sindicatos, como a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e dos Trabalhadores Force (FO) têm chamado para a manifestação em conjunto com sindicatos estudantis.

Comumente referida como a “Lei El Khomri em referência à ministra do trabalho Myriam El Khomri, as reformas vão afetar quase todos os aspectos das leis trabalhistas da França, tais como horas máximas trabalho, férias e pausas, entre outras áreas serão abertos a negociação, enquanto o governo tenta liberalizar o mercado de trabalho da França.

O presidente François Hollande tem declarado que está é uma tentativa de reduzir a taxa de desemprego do país abaixo de 10 %. Os  sindicatos obviamente não compram esse discurso, e estão hoje nas ruas de Paris.

Abaixo transmissão ao vivo das manifestações ocorrendo em Paris neste momento.

Na França, população mobiliza ocupações, protestos e greve geral

 

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Foto: Christophe Ena/AP Photo

Contra a nova lei de trabalho, os franceses decretaram Greve Geral no dia 31 de março, e continuam se mobilizando até hoje. Ocupações ocorrem em diversas cidades, seguindo o exemplo dos ‘Indignados’ da Espanha, além de manifestações reunindo milhares de pessoas.

Poucas pessoas esperavam, mas parece que a França é o país/palco da vez em 2016 para grandes manifestações e mobilizações populares.

Diversas centrais sindicais — como a CGT, Força Operária e Solidários) — decretaram greve geral no dia 31 de março, continuando uma mobilização que teve início semanas atrás, alcançando seu ápice nos dias de hoje. Só no dia 31, mais de 250 cidades contaram com manifestações de rua contra a nova lei trabalhista proposta pela ministra do Trabalho, El Khomri.

Essa lei incluía medidas como o recurso facilitado ao trabalho a tempo parcial, o aumento do número de semanas consecutivas nas quais os trabalhadores podem trabalhar por 44 ou 46 horas, o aumento da duração máxima do trabalho noturno, a duração da licença por falecimento de um parente próximo deixar de estar garantida por lei, entre outros aspectos polêmicos. Porém, por conta da mobilização ocorrida anteriormente, todas as características da lei citada acima foram retiradas.

Mas isso não significa que o governo francês recuou. A nova lei trabalhista ainda conta com polêmicas como: deixar de haver um valor mínimo de indenização em caso de demissão sem justa causa; por acordo, os trabalhadores poderem passar a trabalhar o máximo de 44 a 46 horas por semana e de 10 a 12 horas por dia; os acordos coletivos de trabalho com negociação anual passam a ser negociados a cada três anos, a duração máxima de acordos coletivos será de 5 anos, sem garantia de retenção dos direitos adquiridos, entre outros.

Além dos movimentos sindicais, a lei trabalhista do governo francês tem mobilizado um novo protagonismo: as feministas. A militante Caroline De Haas lançou uma petição que em poucos dias reuniu centenas de milhares de assinaturas. Ela faz parte de uma organização encabeçada por mulheres trabalhadoras na França.

 
Foto: VICE

Além da greve geral e da mobilização online, manifestações ocorreram no dia 31 e continuam a ganhar força.

Inspirados pelo movimento dos ‘Indignados’ na Espanha, onde centenas de milhares de pessoas ocuparam a Plaza Del Sol em 2011, os franceses organizam uma ocupação permanente na Praça da República, em Paris, desde o dia 31 do mês passado. Com a hashtag #NuitDebout (nome dado ao movimento), franceses tem ocupado não apenas Paris como também outras cidades contra a nova lei trabalhista.

 
Foto: Reprodução/Twitter

A pressão contra o governo do social-democrata moderado François Hollande não é um assunto novo.

O chefe de governo francês tem aplicado de forma moderada políticas de austeridade contra a população de seu país desde que assumiu seu mandato. Parte do fortalecimento da extrema-direita nas urnas teve como culpa a política econômica do “socialista” Hollande, que tem seguido o programa da União Européia e do FMI com corte de gastos, colocando em risco benefícios sociais e os direitos trabalhistas, que são um verdadeiro “tesouro” da democracia francesa.

Mas o que podemos esperar da primavera francesa?

O favoritismo da Frente Nacional, da ultra-direitista Le Pen, é um reflexo da política de austeridade e seus efeitos na classe trabalhadora. Seu discurso nacionalista e protecionista tem como objetivo garantir muitos direitos trabalhistas que estão em risco na França.

Porém, seu favoritismo na classe média se deve ao fato de suas políticas em relação aos imigrantes no país. Considerada uma “cartada do medo”, a Frente Nacional defende que a França feche sua fronteira para a entrada de imigrantes ilegais, que geralmente saem de países como Síria e Iraque. Os ataques terroristas no país ocorridos no ano passado fortaleceram seu posicionamento. Outro fator que relaciona os imigrantes com o país é o desemprego. A classe média francesa, em partes, coloca a culpa do desemprego no colo dos imigrantes, que viriam ao país “roubar trabalho” dos franceses medianos, por salários muito mais baixos.

A mobilização nesta primavera francesa deve servir para a esquerda se posicionar de forma agressiva diante do cenário político do país. Marcar território e resgatar o protagonismo dos indignados com a política de austeridade e o desamparo social.

Assim como ocorre hoje na Espanha, se a mobilização vencer a nova lei trabalhista de Hollande, a esquerda tem em suas mãos a possibilidade de se institucionalizar politicamente, com uma plataforma anti-austeridade e de esquerda nas próximas eleições.

FONTE: https://medium.com/democratize-m%C3%ADdia/na-fran%C3%A7a-popula%C3%A7%C3%A3o-mobiliza-ocupa%C3%A7%C3%B5es-protestos-e-greve-geral-dc50a2b077d5#.9amtz4184

Dieudonné: “Não há liberdade na França”

Conheça as charges do editor do Charlie Hebdo em português

 

Divulgação

Além de ser conhecido mundialmente por suas sátiras de cunho étnico e religioso, Charb também usava seu talento para questionar a sociedade e o capitalismo

Da Redação

O ataque ao jornal Charlie Hebbo, ontem (7), em Paris (França), deixou 12 mortos , entre eles, o editor da publicação Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb. Além de ser conhecido mundialmente por suas sátiras de cunho étnico e religioso, Charb também usava seu talento para questionar a sociedade e o capitalismo.

Em 2013, a Boitempo Editorial lançou no Brasil o livro “Marx, Manual de Instruções”. A publicação mescla textos divertidos e leves do Filósofo francês Daniel Bensaïd (1946-2010) com ilustrações de Charb para explicar o pensamento de Karl Marx.

Abaixo, as ilustrações do livro, aparentemente as únicas em português do chargista. 

 

 

 FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/30938

 

Atentado contra a extrema-esquerda na França

JE SUIS CHARLIE
Por João Alexandre Peschanski.

Charlie Hebdo, cuja redação foi alvo de um atentado terrorista em 7 de janeiro de 2015, é um veículo de comunicação de extrema-esquerda. A origem política e artística dos principais nomes do veículo remonta aos anos 1960 na França. É a essa geração original que pertenciam Cabu e Wolinski, que estão entre as doze vítimas confirmadas até o momento em que escrevo este texto, com vários feridos ainda em estado grave. A marca inicial soixante-huitarde – dos participantes dos protestos de 1968 – está impregnada em toda a trajetória do semanário satírico.

O diretor de redação do Charlie Hebdo, Charb, também assassinado no ataque, era parte de uma nova geração de artistas e jornalistas, diretamente herdeira do grupo original. Três décadas mais jovem que Cabu e Wolinski, era ele quem orientava a linha política e editorial do semanário desde 2009. Segundo o jornal francês Libération, foi ele o principal alvo dos terroristas.

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Charb é especialmente conhecido por seu engajamento com bandeiras progressistas na França. Atuou diretamente em campanhas do Partido Comunista Francês e da Frente de Esquerda. Preparou o material de divulgação de mobilizações contra o racismo e a guerra. Uma de suas tiras mais conhecidas,Maurice et Patapon, reúne um cão (Maurice) anarquista, bissexual, pacifista e extrovertido, e um gato (Patapon) fascista, assexuado, violento e perverso. Essa obra, de traços simples, se preocupa principalmente em revelar as tensões muitas vezes escatológicas entre as personagens – o cão como aquilo que sonhamos ser e o gato como nos pressionam a ser, diz Charb em entrevista. O nome da tira remete a um dos símbolos do colaboracionismo francês com o nazismo, Maurice Papon, responsável direto pela morte de milhares de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. No trabalho de Charb, o alvo era muitas vezes a extrema-direita crescente na Europa, especialmente o Front National (Frente Nacional), da família Le Pen. O ex-presidente Nicolas Sarkozy foi também objeto frequente dos desenhos de Charb, a quem dedicou vários livros de ilustrações.

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O ex-presidente Nicolas Sarkozy, em charges do livro Marx, manual de instruções

No Brasil, o trabalho de Charb ficou especialmente conhecido pelas ilustrações que acompanham o livro Marx, manual de instruções, de Daniel Bensaïd, lançado em 2013. Aí, apresenta caricaturas sobre o mundo do trabalho, a vida de Marx, os dilemas da esquerda. Há uma charge especialmente marcante, um “aviso” intitulado “Nem todos os barbudos são Marx”, onde retrata o encontro de Marx com um islâmico radical. A mensagem que fica é: não basta a esquerda revolucionária e os extremistas religiosos terem inimigos em comum para estarem na mesma luta. Aliás, Charb não poupava sátiras a todas as religiões.

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A partir de 2006, quando Charlie Hebdo ficou mundialmente conhecido por republicar charges cômicas retratando Maomé e ser alvo de críticas e ataques de grupos islâmicos fundamentalistas, Charb adotou como tema central de seu trabalho o Islã. Anticlerical, dizia: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado quanto o catolicismo” – e a guerra e o capitalismo, poderia sem dúvida ter acrescentado. Quando Charb assumiu a direção do semanário, a satirização do Islã tornou-se tão importante na linha editorial quanto a ridicularização do fascismo e das perversões do capitalismo, rendendo várias primeiras-páginas doCharlie Hebdo e ataques contra a redação, incluindo um atentado contra sua sede em 2011.

Charb, na frente do Charlie Hebdo após o atentado que explodiu a sede do semanário na manhã 2 de novembro de 2011. Em suas mãos, a edição programada para o dia de 3 de novembro que motivou o ataque.

A linha sistemática de sátira do Islã fez com que Charlie Hebdo fosse alvo de críticas por parte da esquerda francesa. Por um lado, as críticas eram justas, pois na tentativa de satirizar o Islã pela esquerda muitas charges acabaram deslizando para abjeto racismo e islamofobia, servindo principalmente de material aos grupos próximos à família Le Pen e sua campanha xenófoba na França. Vale dizer que o mau gosto e os excessos também eram e são cometidos no semanário contra judeus, católicos etc. Por outro lado, havia e há ainda certa perplexidade na esquerda francesa sobre sua posição política em torno do crescente movimento islâmico, o uso do véu em escolas e por militantes, o árabe como idioma nacional. Parte da esquerda combativa francesa via-se diante do problema de não saber “o que fazer” com o Alcorão. Nesse contexto, o semanário satírico dirigido por Charb marcava uma posição firme, a mesma que tradicionalmente adotara contra instituições conservadoras: a chacota inveterada, atravessando muitas vezes o limite do bom gosto. “Não tenho a impressão de assassinar alguém com nossas caricaturas”, salientava Charb em entrevista.

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Charges do livro Marx, manual de instruções, de Daniel Bensaïd e Charb. Clique na imagem para ampliar.

A sátira ao Islã nas páginas do Charlie Hebdo dava-se a partir de uma leitura progressista, de rejeição ao conservadorismo clerical, diretamente alinhada a posições tradicionais do semanal contra o sionismo, o fascismo, o imperialismo e o capitalismo. Entender o atentado de 7 de janeiro, um dos mais graves já ocorridos na França, apenas como um ataque à liberdade de expressão é uma meia verdade e envolve um grande risco político de interpretação. A liberdade de expressão de Charb, Cabu, Wolinski e a equipe do Charlie Hebdo era um meio para um posicionamento político radicalmente democrático e profundamente progressista, na tradição da extrema-esquerda francesa. O risco de interpretar o atentado como meia verdade é alimentar ainda mais um dos principais oponentes do semanal satírico, o fascismo europeu, e fomentar a polarização entre os extremistas de direita e do Islã. Não indicar os assassinatos de Paris como um atentado à extrema-esquerda – e simplesmente contra a sociedade ocidental e a liberdade de expressão no abstrato – abre espaço para fortalecer aquilo que os jornalistas do Charlie Hebdo mais repudiavam: a extrema-direita. E, como dizia Charb, “a Frente Nacional e o fascismo islâmico são da mesma seara e contra eles não economizamos nossa arte”.

 

João Alexandre Peschanski é sociólogo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas

FONTE: http://blogdaboitempo.com.br/2015/01/07/atentado-contra-a-extrema-esquerda-na-franca/

Nigéria: como Ocidente alimenta os terroristas

petróleo

Dois fatores favorecem grupo que sequestrou duzentas meninas: pilhagem do país por transnacionais petroleiras e assassinatos praticados pelos EUA, por meio de drones

É quase inacreditável que mais de duzentas garotas possam ter sido ser sequestradas de uma escola no norte da Nigéria — em ação  realizada pelo grupo terrorista Boko Haram — e ameaçadas em um vídeo, exibido no mundo inteiro, sendo vendidas como escravas por seus capturadores. A descrença é ampliada pelas notícias de hoje de que, ao longo da noite, mais oito meninas foram sequestradas por homens armados, supostamente do Boko Haram, no nordeste da Nigéria. A tragédia toca o coração de todos, evocando um sentimento de asco não só pelo perigo e a perda da própria liberdade, mas pelo pressuposto de que para jovens garotas, seu destino deve ser o casamento forçado e a servidão, não a educação.

Existe uma revolta justa, pelo fato de que tão pouco tenha sido feita pelo governo nigeriano para encontrar as meninas, e por terem sido acusados de causar tumulto, ou mesmo presos temporariamente, muitos dos que se manifestaram contra o presidente Goodluck Jonathan.

Mas devemos ser cautelosos com a narrativa que está emergindo. Ela segue um padrão familiar desgastado, que já vimos no sul da Ásia e do Oriente Médio, mas que está sendo crescentemente aplicado também na África.

É o refrão de que algo deve ser feito; e que “nós” — o ocidente iluminado — deveríamos nos encarregar de fazê-lo. A fala da senadora norte-americana Amy Klobuchar é exemplar a esse respeito: “Este é um daqueles momentos em que nossa ação ou inação será sentida não apenas por aquelas garotas da escola que estão sequestradas e por suas famílias que esperam em agonia, mas pelas vítimas e criminosos de tráfico de mulheres ao redor do mundo. Agora é o momento de agir.”. Começa a surgir um chamado por intervenção ocidental para ajudar a encontrar as garotas, e a “estabilizar” a Nigéria no rescaldo de seu sequestro. O governo britânico já ofereceu “ajuda prática”.

As intervenções do ocidente têm falhado, uma após a outra, ao lidar com problemas particulares. Pior: levam a mais mortes, deslocamentos e atrocidades do que já eram enfrentados originalmente. Tudo isso tem sido justificado, frequentemente, com referências ao direito das mulheres. É como se as forças militares pudessem criar uma atmosfera em que terminam a violência e o abuso. As evidências apontam para o contrário.

O direito das mulheres foi um grande pretexto para a guerra do Afeganistão, iniciada em 2001, quando Laura Bush e Charlie Blair — as esposas dos chefes de governo dos EUA e Grã-Bretanha — apoiaram os planos bélicos de seus maridos, apresentando-os como suposto meio de libertar as mulheres afegãs. Hoje, após milhões serem desalojados e dezenas de milhares mortes, o Afeganistão continua sendo um dos piores países do mundo para mulheres viverem, com casamento forçado, casamento infantil, estupro e outras atrocidades ainda amplamente presentes.

E já há intervenção ocidental na África. Ela não tem o mesmo perfil do Afeganistão ou Iraque, porque as guerras passadas dificultaram as tentativas de agir diretamente por meio de tropas. Mas Barack Obama tem forças militares mobilizadas na África Ocidental através de sua base de drones Predator, no Níger, que faz fronteira com a Nigéria. Esta também é vizinha do Mali (cena de intervenções recentes da França e da Inglaterra) e da Líbia, alvo de uma guerra ocidental de bombardeios desastrosa em 2011, que deixou o país em estado de guerra civil e colapso.

Os drones norte-americanos também operam no Djibuti, Etiópia e logo além lado do Mar Vermelho, no Iêmem. O Ocidente envolveu-se em guerras por procuração recentes, na Somália. Se o terror islâmico tornou-se ameaça em cada vez mais pontos da África, os países ocidentais desempenharam um grande papel em sua criação.

Mas há outra guerra acontecendo na África: a econômica. Um continente tão rico em recursos naturais vê muitos de seus cidadãos viverem em condições indignas. Na Nigéria do presidente Jonathan, o crescimento econômico não foi direcionado aos pobres. A saúde e a educação estão fora do alcance de muitos.

A corrupção espalha-se. Exércitos e armas são mobilizados para proteger os ricos e as empresas estrangeiras, como a Shell — que quer acesso aos recursos do país, especialmente o petróleo. Corrupção e desigualdade estão associadas  ao papel do Ocidente. Fazem parte de um sistema que está preparado para começar uma guerra por recursos como  petróleo e gás, mas não entrará em guerra contra a pobreza, ou para garantir educação para todos.

É neste cenário que está inserido o terrível sofrimento das meninas sequestradas na Nigéria. E não vai melhorar com mais armas ocidentais e exércitos — na terra ou no ar.

FONTE: http://outraspalavras.net/destaques/nigeria-como-ocidente-alimenta-os-terroristas/

Reuters: Polícia francesa desmonta suposta rede clandestina de carne de cavalo

Cortes de carne de cavalo dispostas em um açougue especializado, em Rosny-sous-Bois, nos arredores de Paris

MARSELHA, 16 Dez (Reuters) – A polícia da França prendeu 21 pessoas nesta segunda-feira em uma operação contra a venda ilegal de carne de cavalo no sul do país, sob a suspeita de que cavalos utilizados para o desenvolvimento de remédios tenham sido vendidos de forma fraudulenta para alimentação, disseram autoridades.

Um porta-voz da companhia farmacêutica Sanofi disse usar cavalos para incubar antibióticos na fabricação de soros destinados a várias finalidades, desde raiva a mordidas de cobra, e que os animais estavam saudáveis mas não estavam certificados como próprios para consumo humano.

Alain Bernal, porta-voz da divisão de vacinas da Sanofi, disse que a empresa coopera com as investigações, mas ainda não sabia há quanto tempo a fraude estava em andamento.

“Isso pode envolver centenas de cavalos caso ocorra há muitos anos. Nos últimos três anos, dispensamos cerca de 200 cavalos”, disse ele à Reuters.

Estações de rádio disseram que os cavalos eram vendidos a comerciantes suspeitos de falsificar documentos veterinários para que os animais pudessem servir como alimento. Entre os detidos estão produtores de carne, comerciantes e veterinários.

Um comunicado de forças do governo disse que 100 policiais, junto com inspetores da brigada veterinária nacional, realizaram incursões em 11 distritos.

O ministro de Defesa do Consumidor, Benoit Hamon, disse que a operação surgiu a partir de um aumento no monitoramento do setor depois que uma empresa francesa de processamento de carne esteve envolvida este ano num escândalo sobre refeições congeladas com carne de cavalo vendidas como carne bovina.

O escândalo, iniciado em janeiro quando o DNA de cavalo foi encontrado em hambúrgueres congelados vendidos em supermercados irlandeses e britânicos, envolveu comerciantes e abatedouros da Romênia à Holanda.

A carne de cavalo tem perdido espaço no paladar dos consumidores franceses, embora ainda possa ser encontrada em açougues especializados.

(Reportagem de Jean-Francois Rosnoblet)

FONTE: http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE9BF03I20131216